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segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Pela primeira vez, os EUA são adicionados à lista anual de democracias ‘retrógradas’, como o Brasil de Bolsonaro

 

Turquia, Nicarágua, Sérvia, Polônia e Brasil foram avaliados como tendo os declínios democráticos mais significativos na última década.

Reprodução PR

Jornal GGN Os Estados Unidos foram adicionados a uma lista anual de democracias ‘retrógradas’ pela primeira vez. A ONG Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral apontou para uma ‘deterioração visível’ nos EUA, que começou em 2019.

A instituição, com sede em Estocolmo, fez sua avaliação anual usando 50 anos de indicadores democráticos. São classificados cerca de 160 países em três categorias: democracias, incluindo democracias ‘retrógradas’; Governos ‘híbridos’; e regimes autoritários.

O relatório apontou que, globalmente, mais de uma em cada quatro pessoas vive em uma democracia ‘retrógrada’, enquanto dois terços do mundo vivem em uma democracia ‘retrógrada’, em regimes ‘híbridos’ ou autoritários.

‘Este ano, codificamos os Estados Unidos como retrocesso pela primeira vez, mas nossos dados sugerem que o episódio do retrocesso começou pelo menos em 2019’, aponta o relatório, intitulado: Estado Global da Democracia 2021.

O relatório também diz que uma virada histórica aconteceu em 2020-21, quando o ex-presidente Donald Trump questionou a legitimidade dos resultados das eleições de 2020 nos Estados Unidos. Tal ação de Trump culminou com seus partidários invadindo a sede da legislatura dos EUA em 6 de janeiro.

Outro ponto do relatório é citar a crescente polarização dos Estados Unidos, bem como as leis eleitorais estaduais que afetam desproporcionalmente as minorias de forma negativa.

Para o secretário-geral da ONG, Kevin Casas-Zamora, a deterioração da democracia nos Estados Unidos é uma das mais preocupantes no relatório de 2021.

Ele alertou para o efeito indireto, quando a contestação violenta nos EUA, sem qualquer evidência de fraude, foi replicada de diferentes maneiras em lugares diversos, como Mianmar, Peru e Israel.

De acordo com o relatório, o número de democracias retrógradas no mundo dobrou na última década.

Além de “democracias estabelecidas” como os Estados Unidos, a lista inclui os estados membros da União Europeia, Hungria, Polônia e Eslovênia.

Dois países que estavam na lista no ano passado – Ucrânia e Macedônia do Norte – foram removidos este ano depois que sua situação melhorou.

Enquanto isso, Turquia, Nicarágua, Sérvia, Polônia e Brasil foram avaliados como tendo os declínios democráticos mais significativos na última década.

O relatório diz que em 2020 havia 98 democracias no mundo, 20 governos “híbridos”, incluindo Rússia, Marrocos e Turquia, e 47 regimes autoritários, que incluem China, Arábia Saudita, Etiópia e Irã.

A tendência de erosão democrática “tornou-se mais aguda e preocupante” desde o início da pandemia COVID-19, acrescentou o relatório.

“Alguns países, especialmente Hungria, Índia, Filipinas e os EUA, impuseram medidas que equivalem a violações democráticas – isto é, medidas desproporcionais, ilegais, indefinidas ou não relacionadas à natureza da emergência”, disse o documento.

Com informações da Al Jazeera e agências.

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terça-feira, 16 de novembro de 2021

The Intercept: Jovem Pan virou um puxadinho dos bolsonaristas demitidos por fake news da CNN. Artigo de João Filho

 

Emissora contratou Alexandre Garcia, Caio Coppolla e Leando Narloch para o time de comentaristas, que tem também Ricardo Salles, o destruidor da Amazônia. É a TV oficial do bolsonarismo.

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Caio Coppolla, comentarista político demitido da CNN, comemora a volta à Jovem Pan, de Tutinha.

 

Foto: Reprodução/Instagram

EM PLENO SEGUNDO TURNO das eleições de 2014 entre Dilma e Aécio, dois barões da grande imprensa se juntaram a milhares de manifestantes pró-Aécio no Largo da Batata, em São Paulo, em uma manifestação organizada pelo PSDB. Fernão Lara Mesquita, herdeiro do Estadão, foi fotografado segurando uma placa com a seguinte inscrição: “Foda-se a Venezuela!”. Tutinha, atual presidente da Jovem Pan, foi quem registrou a foto e compartilhou orgulhosamente em suas redes sociais. O xingamento não foi feito a Maduro ou a Chávez, mas à Venezuela e ao povo venezuelano.

O ataque gratuito ao país vizinho foi revelador do que viria a seguir. Dilma foi reeleita, Aécio contestou o resultado e colocou em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas sem apresentar nem ao menos um indício de fraude. Até hoje Bolsonaro mente ao afirmar que aquela eleição foi fraudada. Ali plantava-se uma sementinha do neofacismo bolsonarista que floresceria nos anos seguintes com contribuições significativas do Estadão e da Jovem Pan.

Se tivermos que eleger a emissora que mais divulga e apoia as ideias do neofascismo bolsonarista, a escolha não será muito difícil. A Jovem Pan é hoje a casa oficial do bolsonarismo. Coincidentemente ou não, o grupo cresceu e aumentou sua audiência substancialmente após a chegada de Bolsonaro no poder. Neste ano, lançou seu canal de notícias na TV fechada e, em poucos dias, já está batendo a audiência de concorrentes como Globo News, CNN e Record News. Agora a extrema direita brasileira conta com um canal de TV para espalhar suas mentiras e sua ideologia reacionária.

Na semana passada, a Jovem Pan anunciou a contratação de um craque bolsonarista dentro do jornalismo: o senhor Alexandre Garcia, o parajornalista de extrema direita que colaborou para o regime militar e que perdeu recentemente o emprego na CNN por mentir demais. Por mais de uma vez Garcia passou pelo constrangimento de ser corrigido por colegas de trabalho. Na ânsia por defender seu presidente, Garcia já até leu um tweet falso ao vivo na emissora.

Mas as mentiras em série contadas pelo jornalista durante a pandemia não foram um empecilho para sua contratação, muito pelo contrário. Pelo histórico da Jovem Pan, isso foi justamente o motivo para contratá-lo. Reparem no orgulho com que o dono da empresa anunciou a chegada do comentarista que ficou marcado no jornalismo por contar mentiras em série nos últimos anos.

A contratação de Garcia faz todo sentido já que a Jovem Pan tem se destacado como um dos principais canais de difusão de fake news sobre a pandemia e de exaltação do governo Bolsonaro. O grupo passou a pandemia inteira dando voz a médicos negacionistas, colocando dúvidas sobre a eficácia das vacinas e defendendo o presidente genocida das críticas. Garcia vem para coroar o parajornalismo do grupo.

Outra celebridade bolsonarista que irá abrilhantar a programação do novo canal da Jovem Pan é Caio Coppolla, outro comentarista dedicado a defender Jair Bolsonaro. O jovem é cria da base. Foi na JP que ele despontou distorcendo fatos, surrando a verdade e puxando o saco do bolsonarismo. Saiu de lá e foi ser comentarista na CNN Brasil, onde teve de ser corrigido ao vivo pela emissora.

Depois de espalhar a tese negacionista que defendia o fim do isolamento social durante a pandemia, Coppolla foi interrompido pela âncora do programa para ser corrigido ao vivo. Ela finalizou a leitura de um comunicado escrito pela direção da emissora com esse comentário: “Quem diz isso não sou eu, é a Organização Mundial da Saúde”. Agora Coppola está de volta para seu aconchego. A emissora lhe ofereceu um espaço no horário nobre da programação. O Grupo Jovem Pan, aliás, tem se especializado em recrutar comentaristas que foram demitidos da CNN por fake news ou por comentários intolerantes. Leandro Narloch, por exemplo, foi imediatamente contratado pela Jovem Pan após ser demitido da CNN por um comentário homofóbico.

O alinhamento ao bolsonarismo é tão descarado que a Jovem Pan tem o hábito de contratar comentaristas que já trabalharam para Bolsonaro ou para políticos bolsonaristas. André Marinho, filho do tucano Paulo Marinho, se destacou trabalhando na coordenação da campanha de Bolsonaro em 2018. André Marinho era tão influente no núcleo duro bolsonarista que chegou a atuar como tradutor na primeira conversa telefônica entre Bolsonaro e Trump após as eleições. Esse currículo em prol do bolsonarismo fez a Jovem Pan contratar o jovem que, à época, era presidente no Rio de Janeiro do Lide Futuro, grupo comandado pela família do governador João Doria, conhecido por receber contribuições de empresários para promover encontros com políticos.

Tempos depois, os Marinho romperam com Bolsonaro, mas não foi por discordância ideológica ou por causa dos arroubos autoritários do presidente. Foi pela demissão de Gustavo Bebianno do cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. O ex-ministro, hoje falecido, era amigo próximo dos Marinho e esteve ao lado deles na coordenação da campanha de Bolsonaro.

André Marinho passou então a ser uma voz anti-Bolsonaro dentro da Jovem Pan. Ele cumpria o papel de debater com comentaristas bolsonaristas da emissora – a grande maioria – para dar aquele verniz de pluralidade. A emissora conta com poucos comentaristas não bolsonaristas para aquecer o debate, gerar polêmicas, ser saco de pancadas e, consequentemente, aumentar a audiência. Essa estratégia fica clara quando vemos os destaques dado às tretas em seu canal do YouTube.

A parceria da Jovem Pan com Marinho foi encerrada depois que Jair Bolsonaro resolveu dar uma entrevista para a emissora amiga. Marinho fez uma pergunta que enfureceu o presidente, que abandonou o programa no meio. Marinho passou a ser atacado ferozmente pelos comentaristas bolsonaristas da emissora. O clima ficou ruim, e Marinho acabou pedindo demissão.

Outro integrante do bolsonarismo agraciado com um emprego na JP é o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o homem que ficou mundialmente conhecido por ajudar a destruir a Amazônia e que é alvo de investigações por corrupção. Ele é o novo comentarista da TV Jovem Pan, onde continuará tendo liberdade para defender as causas da extrema direita. Salles também tem o costume de espalhar fake news, o que o credencia ainda mais para trabalhar na emissora.

Outra jovem celebridade reacionária que saiu das fileiras bolsonaristas direto para os holofotes na TV é Zoe Martinez. Ela é uma jovem cubana naturalizada brasileira, anticomunista ferrenha e defensora ainda mais ferrenha de Jair Bolsonaro. Não sei o que levou Zoe para a Jovem Pan, mas suspeito que o fato dela ter sido empregada no gabinete de Bia Kicis e depois no de Joice Hasselmann deve ter contribuído para a sua contratação. Zoe saiu de Cuba aos 12 anos, ganhou asilo no Brasil durante o governo Lula, virou leitora de Olavo de Carvalho e passou a lutar pelo impeachment de Dilma. A jovem tem protagonizado uma série de bate-bocas na emissora ao defender Bolsonaro, o que ajuda a alavancar a audiência.

Zoe se apresenta como uma ferrenha opositora da ditadura cubana e defensora da democracia. Mas essa defesa da democracia cabe apenas para Cuba. No Brasil, apoia todos os arroubos autoritários do presidente que passou boa parte do mandato encostando a faca no pescoço da democracia. Quando Bolsonaro ameaçou a democracia na manifestação do dia 7 de setembro, Zoe defendeu seu discurso autoritário no embate com o STF: “Estão chamando o Bolsonaro de antidemocrático, mas ele é obrigado a fazer alguma coisa. Se o Alexandre de Moraes não tem limites, o Bolsonaro tem que pôr um limite nele”. Essas são as credenciais democráticas de Zoe.

Ela também jura que não é bolsonarista e que só o defende porque ele é um – pasmem! – defensor da liberdade: “Não sou bolsonarista, eu sou a favor da liberdade, mas quem defende a liberdade é o Bolsonaro.” A jovem completa o bingo da paranoia reacionária ao classificar ONU e OMS de comunistas e dizer que “a ditadura chinesa é a culpada por esse vírus (coronavírus) do partido comunista chinês”.

A jovem mantém boas relações com a família Bolsonaro. Em 2017, época em que estava alinhado ao MBL, Zoe apareceu em vídeo abraçada com Eduardo Bolsonaro – a quem chama carinhosamente de “Edu”. Recentemente, defendeu Bolsonaro em sua campanha antivacina. Em uma de suas lives, o presidente reproduziu uma notícia de um site conhecido por espalhar mentiras. Afirmou sem pestanejar que as vacinas contra covid poderiam causar AIDS. E o que fez a defensora da liberdade? Correu para passar o paninho para a mentira do seu presidente.

A Jovem Pan é tão bolsonarista que parece uma TV estatal aparelhada pelo Planalto. O grupo retransmite em seu canal no YouTube as lives semanais do presidente sem esboçar o menor constrangimento. A aderência é descarada. Nas próximas eleições, o grupo de Tutinha tem tudo para dividir com o WhatsApp a distribuição das mamadeiras de pirocas fabricadas no Gabinete do Ódio. A Jovem Pan semeou o extremismo de direita durante muitos anos, alimentou uma audiência reacionária e agora colhe os frutos com a chegada do bolsonarismo ao poder.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Extrema-direita: religião fundamentalista, militarismo, autoritarismo e neoliberalismo

 

"Na ausência momentânea de Trump, Bolsonaro é um dos candidatos à liderança da extrema-direita global conforme ficou claro na visita de uma liderança neonazista alemã ao presidente brasileiro nesta semana", escreve o professor Robson Sávio

Apoiadores fazem gesto em direção a Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada

Apoiadores fazem gesto em direção a Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada (Foto: Reprodução)

Por Robson Sávio,  Doutor em Ciências Sociais e pós-doutor em Direitos Humanos

A extrema-direita global desfruta de símbolos do cristianismo para formar uma "milícia religiosa", a reeditar a guerra do bem contra o mal. 

O bem seria tudo aquilo associado ao pensamento conservador (religião, família tradicional, propriedade privada, meritocracia, precedência do individual sobre o público). O mal, por sua vez, está associado à modernidade, ciência, feminismo, esquerdismo, luta de classe,  estado social, etc...).

Montada, como numa CRUZADA RELIGIOSA, em tradições da "família/moral conservadora", a extrema-direita une líderes como Bolsonaro; extremistas norte-americanos, incluindo grupos supremacistas (e lideranças religiosas evangélicas e católicas, até mesmo junto ao episcopado); Viktor Orban (Hungria); Vladimir Putin (que se aliou à Igreja Católica Ortodoxa Russa); Le Pen (França); extremistas da Espanha, Inglaterra e até neonazistas alemães. 

No Brasil, além de lideranças evangélicas neopentecostais (principalmente das grandes igrejas midiáticas - muitas delas verdadeiras empresas religiosas), a extrema-direita goza de prestígio junto a  membros do clero e do  episcopado católicos, vários padres midiáticos, instituições religiosas (algumas midiáticas), youtubers famosos e uma bancada de ultraconservadores no Parlamento (de câmaras de vereadores ao Congresso Nacional.

Essa aliança une o conservadorismo RELIGIOSO, o poder político ancorado no MILITARISMO (no caso esse governo militarizado -- que se vangloria na defesa de moralismos à la Olavo de Carvalho) e  no poder econômico alicerçado no ULTRALIBERALISMO, essa nova versão do neoliberalismo (à la Paulo Guedes e figuras esdrúxulas, do tipo o Véio das megalojas de produtos variados, Wizzard e outros negociantes que, segundo dizem, para alcançarem o sucesso INDIVIDUAL E PRIVADO vendem até a mãe).

Portanto, a base social que agrega essa massa difusa precisa de um discurso MORALISTA, CRISTÃO,  CONSERVADOR para manter mobilizada uma legião religiosa que tem em líderes carismáticos radicais, como Bolsonaro, Putin e outros, e para defender radicalmente uma visão salvacionista e redentora do mundo. Uma recristianização global, que é  a base da Teologia do Domínio presente nos discursos desses grupos religiosos (a crença segundo o qual a religião deve dominar o poder político, a cultura, a educação, as artes,  os comportamentos...).

A RELIGIÃO é o principal elemento de constituição dessa base social da extrema-direita global. Mas, são o MILITARISMO e o ULTRALIBERISMO que caracterizam o domínio do poder estatal (da extrema-direita) em níveis nacionais, com intentos globais. Não por coincidência, governos teocráticos, militares e ultraliberais são formas distintas de autoritarismos.

Por isso, na ausência momentânea de Trump, Bolsonaro é um dos candidatos à liderança da extrema-direita global conforme ficou claro na visita de uma liderança neonazista alemã ao presidente brasileiro nesta semana.

Uma observação final: o Papa Francisco é a principal liderança global no enfrentamento à extrema-direita. Por isso, é tão perseguido, inclusive dentro da Igreja Católica.  Estima-se,  por exemplo, que dos 240 bispos norte-americanos, somente uns 40 apoiam explicitamente Francisco. Não ouso afirmar sobre a situação no Brasil. Mas, certamente o apoio do episcopado brasileiro ao papa Francisco é bem maior e mais explícito. Vide manifestações da CNBB nos últimos tempos.

domingo, 24 de janeiro de 2021

The Intercept: O jogo político do impeachment pode estar finalmente virando contra Bolsonaro. Artigo de João Filho

 

Nunca faltaram motivos jurídicos para justificar um impeachment contra Jair Bolsonaro. O que faltavam eram condições políticas, que finalmente podem estar aparecendo.

The Intercept Brasil:

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Foto: Andressa Anholete/Getty Images




AS CONDIÇÕES POLÍTICAS para o impeachment pareciam inexistentes há um mês, mas o jogo pode estar virando. De lá pra cá muita coisa aconteceu. Passou a ficar mais claro que o descaso do governo com a pandemia não é resultado de incompetência, mas um projeto baseado em negacionismo científico. As panelas voltaram a bater e até ex-bolsonaristas passaram a defender o impeachment. A popularidade do presidente despencou de 36% para 27%. Além disso, Donald Trump, a grande referência moral e política do bolsonarismo, saiu da presidência dos EUA pela porta dos fundos, o que representou um baque imenso para as narrativas bolsonaristas. As condições jurídicas para o impeachment sempre existiram — Bolsonaro tem pelo menos uma dúzia de crimes de responsabilidade indiscutíveis nas costas. Faltavam as políticas, que agora começam a tomar corpo.

Dez dias antes das pessoas começarem a morrer asfixiadas por falta de oxigênio em Manaus, o governo federal foi informado que o sistema de saúde entraria em colapso. E nada fez. Essa tragédia programada trouxe de volta os panelaços e aumentou o clima favorável ao impeachment. Mesmo assim, precisamos ser realistas: o impedimento do facínora que nos governa ainda está distante e com grandes chances de ser enterrado pela eleição de Arthur Lira, o candidato bolsonarista à presidência da Câmara que, até agora, parece ser o favorito. Há muito trabalho pela frente, mas hoje é possível enxergar alguma fagulha de luz no fim do túnel.

A tragédia humanitária pela qual passa o país foi meticulosamente construída pelo bolsonarismo. Em março, quando a gravidade da pandemia já era ponto pacífico entre os principais presidentes do mundo, Bolsonaro afirmou que essa “gripezinha” não chegaria a matar 800 pessoas. De lá para cá o que se viu foi um show de horror negacionista. Enquanto o presidente fazia aparições midiáticas aglomerando sem máscara, as milícias digitais bolsonaristas lideravam uma campanha nas redes para desacreditar a ciência. Depois, quando Doria anunciou a compra da Coronavac, Bolsonaro disse que não compraria dele a “vacina chinesa” e passou a contestar sua eficácia. As milícias digitais atuaram novamente para descredibilizar a Coronavac. Depois de desprezá-la e boicotá-la de todas as maneiras, o governo iniciou uma guerra pela vacina quando percebeu o ganho político do governador paulista. Houve até ameaças de confisco da vacina. Aliás, essa é outra tragédia instalada pelo bolsonarismo: a transformação de Doria em herói apenas por ter cumprido a sua obrigação.

A falta de insumos para produção da vacina, que atrasou o início da imunização do país, é resultado direto do isolamento internacional imposto pelas alucinações ideológicas da extrema direita. O problema do Itamaraty não é de incompetência, pelo contrário. Transformar o Brasil em pária internacional é um projeto que está sendo muito bem sucedido. “Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”, profetizou há 3 meses o chanceler Ernesto Araújo ao falar sobre os novos rumos da política externa bolsonarista. O ministro estava desde março do ano passado sem manter nenhuma conversa com a China, nossa principal parceira comercial, que é também a principal fornecedora dos insumos para as vacinas. O motivo é formidável: o Itamaraty comprou a briguinha de Twitter que Eduardo Bolsonaro arranjou com o embaixador chinês, que também foi iniciada graças aos delírios xenofóbicos difundidos por Olavo de Carvalho. Agora o governo tenta retomar o diálogo com a China para resolver o problema que criou de maneira gratuita.

A farsa da hidroxocloroquina e da ivermectina é um capítulo à parte desse necroprojeto. O presidente virou garoto-propaganda de uma medicação que foi descartada pela sua ineficácia no mundo inteiro, inclusive por Trump. Essa mentira virou uma política oficial do Ministério da Saúde, que chegou a recomendar o uso do medicamento para conter a tragédia em Manaus. Um aplicativo chamado TrateCov foi criado pelo governo para “auxiliar os profissionais de saúde” e sugerir “opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada” e “prescrição de medicamentos”. O ministério da Saúde anunciou a criação do aplicativo com toda pompa, afirmando que ele oferece o diagnóstico obedecendo a “rigorosos critérios clínicos“. Tudo mentira. O aplicativo foi programado para receitar cloroquina até para recém-nascidos sem sintomas de covid.

As mentiras vão se sobrepondo, junto com os cadáveres da pandemia, sem causar o menor constrangimento entre os governistas.
Desmontada a farsa, o que fez o governo? Contou novas mentiras. Com uma cara de pau própria dos psicopatas, Pazuello afirmou que o ministério jamais indicou esses medicamentos e que o aplicativo era apenas um “projeto piloto” que foi invadido e colocado no ar por hackers. Um outro dado da realidade surgiu para atestar a ineficiência: 90% das grandes cidades que usaram o “kit covid” do governo tiveram taxa de mortalidade mais alta que a média dos seus estados. Mesmo sendo espancado pela realidade dos fatos, o governo não abandonou a sua narrativa de morte. As mentiras vão se sobrepondo, junto com os cadáveres da pandemia, sem causar o menor constrangimento entre os governistas — um traço característico dos grandes genocidas da história.

O Brasil vive sob um governo criminoso que durante a pandemia fez do atentado à saúde pública uma estratégia permanente. Isso já tinha ficado claro quando Bolsonaro foi trocando ministros da Saúde que insistiam em se fiar na ciência até encontrar um militar negacionista. Repito: empurrar seu povo para a morte é uma estratégia governista. Uma estratégia elaborada com os requintes de crueldade próprios de uma extrema-direita que tem Pinochet e Ustra como referências morais.

Assim que a palavra “impeachment” passou a rondar pela primeira vez com força no noticiário, o governo ressuscitou as ameaças golpistas. A PGR, que parece atuar quase que exclusivamente em defesa de Bolsonaro e sua família, emitiu nota afirmando que o estado de calamidade pública causada pela pandemia é “a antessala do estado de defesa”. Isso significa estado de exceção. Com ele, o Estado ficaria autorizado a impor medidas que violam os direitos do cidadão, como restrição de reuniões e a quebra de sigilo telefônico. Um dia antes dessa ameaça via PGR, Bolsonaro voltou a dizer que são as Forças Armadas que decidem se o povo vive em democracia ou ditadura. O clamor pelo impeachment fez a sanha golpista voltar com força. O Ministro da Justiça, por exemplo, começou a intimidar os críticos do governo. Ele requisitou um inquérito policial contra um advogado que responsabilizou Bolsonaro pelo alto número de mortes durante a pandemia.

Ultrapassamos a marca de 200 mil mortos por covid. Isso significa que aproximadamente um de cada mil brasileiros morreram em virtude do que Bolsonaro chama de “gripezinha”. Só o impeachment pode interromper esse projeto de destruição da democracia e da saúde pública. O impeachment virou uma questão de vida ou morte. A matemática da pandemia no Brasil agora é essa: quanto mais tempo demorar para sacarmos o presidente do poder, mais pessoas irão morrer.

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João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Rodrigo Constantino foi demitido pelos veículos de imprensa que normalizaram suas barbaridades. Artigo de João Filho no The Intercept Brasil

 

O fanatismo moral do economista já desfilou n’O Globo, no Valor, na Época, na Veja, em ZH, na Rádio Guaíba e na IstoÉ. Agora só a Gazeta do Povo o mantém

Do The Intercept Brasil:

Constantino-PC

Ilustração: The Intercept Brasil



Artigo de João Filho

O PAÍS SE CHOCOU com as imagens das agressões verbais que Mariana Ferrer sofreu do advogado de André Aranha, o acusado por estupro que foi absolvido em primeira instância. Mas houve quem tenha se chocado menos e preferido questionar as atitudes da vítima. Enquanto o advogado, o promotor e o juiz do caso eram esculachados pela opinião pública, o economista Rodrigo Constantino apareceu para dar sequência às humilhações sofridas por Mariana.

Constantino afirmou que castigaria sua filha caso ela fosse estuprada estando bêbada. Disse ainda que não denunciaria o estuprador. No afã de defender os famigerados valores da família tradicional brasileira, o economista passaria um pano para o estuprador da sua própria filha.

É essa lógica doentia que faz a cabeça dos ultraconservadores. Esse fanatismo moral é uma característica central do conteúdo produzido por Constantino. Não é à toa que ele se tornou num dos maiores puxa-sacos de Bolsonaro e hoje atua como cão de guarda do bolsonarismo nos locais onde trabalha. Da direita à esquerda, todos o condenaram a fala de Constantino, menos, é claro, a militância bolsonarista, que apareceu em peso para defendê-lo em nome de uma falsa liberdade de expressão, como se a relativização de um crime hediondo fosse uma questão de opinião. Teve até deputado bolsonarista que saiu em defesa dos absurdos do economista.

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Depois da forte reação pública à sua fala ostensivamente misógina na Jovem Pan, Constantino iniciou uma live em seu canal não para se retratar, mas para reforçar o ódio contra mulheres que não se comportam de acordo com seus deploráveis valores morais. Afirmou também que sua fala foi propositalmente descontextualizada — o que é mentira — e usada pela esquerda para persegui-lo.  “Eu não vou só falar de economia. Não vou ser um laranjinha, covardão do [partido] Novo que acende vela pra tucano e pra esquerda. Essa é a guerra. A guerra é cultural. Os socialistas estão vencendo pelo ambientalismo, pelo feminismo”, falou indignado, compartilhando a conspiração globalista difundida no Brasil por Olavo de Carvalho — do qual já foi um admirador antes de brigarem.

Muito antes de aderir ao bolsonarismo, Constantino já era uma figurinha carimbada no debate público. É um produto do antipetismo alucinado forjado durante anos por importantes veículos da  grande imprensa, que sempre lhe ofereceram importantes tribunas. Foi nesses espaços que pôde destilar seu machismo e angariar leitores. A declaração feita na Jovem Pan não é isolada, mas está plenamente contextualizada dentro da sua carreira de articulista. Só na Gazeta do Povo, onde permanece empregado até hoje, revelou sua obsessão por atacar mulheres feministas, sempre com títulos de baixíssimo nível:

“Aprendam, feministas: esse mundo é dos homens – e sempre será”

“A prova definitiva de que o feminismo é uma máquina de destruição de cérebros”

“Feminismo: de refúgio das barangas recalcadas para máquina de destruição de beleza”

“O feminismo é a porta de entrada para o socialismo”

“Juíza indicada por Trump cala feministas”

“O instinto feminista é atirar primeiro e perguntar depois”

“O socialismo venceu por meio do feminismo”

Além da Gazeta do Povo e da Jovem Pan, o fanatismo moral de Rodrigo Constantino já desfilou no O Globo, no Valor Econômico, na Época, na Veja, em Zero Hora, na Rádio Guaíba e na IstoÉ. Todos esses veículos  deram espaço para que esse tipo de conteúdo fosse produzido por ele.

A revolta com a declaração na Jovem Pan não ficou restrita às redes de esquerda, como insinuou Constantino, mas furou a bolha e revoltou boa parte da audiência dos veículos que o empregam. Isso fez com que a Jovem Pan, a Record, a Zero Hora, a Rádio Guaíba, o jornal Correio do Povo e a Editora Record encerrassem os vínculos profissionais com o economista. As redes bolsonaristas, claro, saíram em sua defesa, alegando cerceamento da liberdade de expressão. Constantino não foi demitido por causa de uma opinião, como manchetou a revista IstoÉ, mas porque relativizou um crime de estupro e transformou a vítima em co-autora. Registre-se que todas essas empresas compactuaram com o proselitismo reacionário do economista nos últimos anos.

Depois de demitir Constantino, em 2015, a Veja apagou todos os textos dele do site.

Antes de virar esse pária na grande mídia, Constantino era tratado por ela como uma nova estrela do colunismo brasileiro. A Veja publicou um texto promovendo um dos seus livros chamando-o de “trovão da razão”: “O economista Rodrigo Constantino, colunista da Veja.com, diz coisas tão espetacularmente corretas que nem precisava gritar.”

Depois de demiti-lo, em 2015, a revista apagou todos seus textos do site. Constantino alegou que “a Veja sucumbiu ao PT”. Quando foi demitido do jornal O Globo, onde teve um palanque por seis anos — e escrevia colunas do mesmo baixo nível contra mulheres feministas —, também culpou a esquerda: “A turma de Chico Buarque conseguiu mais uma vitória”.

A revista Época publicou uma matéria de 2012 chamando-o de “novo trombone da direita”. Ali foi  incensado como um “intelectual provocador”, que ajudou a “roubar da esquerda a supremacia no terreno da polêmica nos dez anos do PT”. O baixo nível que o “intelectual” adota usualmente em seus textos sempre foi útil para achincalhar as esquerdas. Nenhum desses veículos pode se dizer surpreso.

Constantino aproveitou a onda de demissões para se apresentar quase que como um mártir da liberdade de expressão. O auto-intitulado “liberal sem medo da polêmica” ficou indignado com a reação do mercado, que o descartou depois que pressão da opinião pública o transformou em produto sem valor. Foi a lógica capitalista que move as empresas de jornalismo e seus anunciantes que o cuspiram fora. Constantino joga a culpa na esquerda por cacoete.

Apesar de tantas demissões, Constantino continua fazendo parte do elenco da Gazeta do Povo, o principal jornal do Paraná, que se tornou uma das casas da extrema direita bolsonarista. Ligada a Opus Dei, a publicação não se curvou à pressão dos seus próprios funcionários e manteve o colunista que acredita que estuprador de mulheres alcoolizadas não precisa ser denunciado. 

Constantino não surgiu do nada. Não emergiu do submundo reacionário das redes sociais. Antes de começar a aparecer na mídia, trabalhou por mais de dez anos no mercado financeiro. Só virou essa figura conhecida no debate político após ter sido um dos membros-fundadores do Instituto Millenium, um poderoso think tank neoliberal que reúne intelectuais e jornalistas importantes de grandes empresas. O instituto já teve grandes parceiros e mantenedores, como a Editora Abril, o Estadão, o Grupo RBS, e instituições financeiras como o Bank of America.

Foi a partir da participação na fundação do Millenium que as portas da mídia mainstream começaram a se abrir para o economista. Constantino é um dos membros-fundadores do grupo, que tem na sua linha de frente figurões como Paulo Guedes, Ali Kamel, Alexandre Schwartsman, Gustavo Franco, entre outros nomes poderosos do jornalismo e do debate público. O economista sempre foi um homem com ideias reacionárias, mas é um legítimo produto dos liberais e da grande imprensa. Ele chegou pela porta da frente.

Agora, perdeu palanques importantes, mas continua sendo um nome forte nas redes sociais. A exposição em importantes empresas de jornalismo durante anos contribuiu para normalizar as barbaridades do economista. Se agora lhe falta prestígio, não faltarão consumidores para a sua barbárie. O bolsonarismo, que ele ajudou a alimentar usando os palcos fornecidos pela imprensa, está aí para abrigá-lo.

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João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Anatomia da ultradireita (extrema direita), versão Steve Bannon

 

Embora ligada a bilionários do petróleo e das finanças, ela percebeu que é popular quando ataca os símbolos de uma modernidade decadente: o sistema político, a Razão, o Direito, a Mídia

Por Esteban Magnani

Em Nueva Sociedade

Tradução de Simone Paz, em Outras Palavras

A extrema-direita global foi ignorada, desprezada e, finalmente, temida. É preciso compreender como funciona, o que pensa e por quê faz tanto sucesso capitalizando o descontentamento que um neoliberalismo predador deixou como legado. Ou será que é parte do mesmo projeto?

A missão de entender a nova extrema-direita não é fácil, pois além de certo eixo comum, que une racismo, anti-semitismo, antifeminismo ou o uso de delirantes teorias da conspiração e de big data e inteligência artificial, a direita adapta-se com facilidade aos medos e frustrações particulares dos abandonados de cada país. O ingrediente-surpresa dessa extrema-direita é o uso eficiente de tecnologias para detectar medos, frustrações, traços de personalidade ou desejos, com dados obtidos de diferentes formas. Com esse insumo, infinitamente mais rico que aquele fornecido pela amostragem estatística, é possível detectar os que podem ser persuadidos com maior facilidade, e afetar seu comportamento para favorecer determinadas ações. A capacidade de manipular populações por meio da nova usina de dados, algoritmos e inteligência artificial, fez sua brutal estreia pública graças ao escândalo da Cambridge Analytica, mas sua diversidade se manifesta nas fendas que proliferam nas sociedades ocidentais.

No entanto, seria um erro acreditar que tudo se explica por meio do Facebook, Twitter ou WhatsApp. Cada vez mais analistas entendem a necessidade da escuta, de ir um pouco além da indignação, de entender o que está acontecendo no mundo. O que pensa a extrema-direita?

O fio

“Vivemos num neofeudalismo. Isto não é capitalismo”. A quem pertence a frase? A círculos intelectuais anarquistas, socialistas do século XXI, a alguma divisão perdida do comunismo revolucionário? Não: pertence a ninguém menos do que Steve Bannon, que foi o líder da campanha eleitoral de Donald Trump, em 2016. Bannon, preso há algumas semanas por ter ficado, ilegalmente, com um milhão de dólares, procedente da campanha de de Trump para construir o muro entre o México e os EUA, é uma figura bastante peculiar. Diretor do site de notícias de extrema-direita, Breitbart News (famoso pelo uso de fake news e por seus brutais ataques àqueles que obstruem o caminho de seus protegidos), foi demitido da Casa Branca em agosto de 2017 por suas posições extremas, principalmente, por aquelas que envolvem sua oposição à globalização. Desde então, vem se dedicando a assessorar boa parte dos setores mais radicalizados e racistas da Europa e América Latina. Nesta figura particular, que veste duas camisas sobrepostas, são catalisadas as ideias de uma direita que perdeu a vergonha de dizer o que pensa e que tem grande capacidade tecnológica para cultivar o discurso do ódio no fértil adubo neoliberal.

Bannon é o rosto aparente de um dos grandes investidores da direita radical, o obscuro Robert Mercer, um informático que se tornou milionário graças ao High Frequency Trading — um sistema precursor de inteligência artificial, que compra e vende ações na bolsa, milhares de vezes por segundo, ganhando centavos em cada uma dessas transações. Esse bilionário é um grande doador de ONGs de direita, e um dos investidores da Cambridge Analytica, na qual colocou Bannon como vice-presidente.

Esta empresa, extinta após o escândalo das eleições presidenciais nos EUA, era uma filial norte-americana da SCL, companhia inglesa especializada em operações psicológicas. Mercer é bastante reservado, não dá entrevistas nem palestras, mas, como explica a jornalista britânica Carol Cadwalladar no documentário Fake America Great Again, ao seguirmos as pegadas do seu dinheiro, compreendemos o que ele pensa. Bannon é quem dá as caras pelas ideias que Mercer financia.

É por isso que vale a pena parar e prestar atenção na trajetória do homem que esteve por trás das campanhas — de sucesso, em geral — não só de Trump, como também do Brexit no Reino Unido, de Jair Bolsonaro no Brasil, de Viktor Orbán na Hungria, de Matteo Salvini na Itália, do partido Vox na Espanha, e de Marine Le Pen na França (que logo em seguida, se recusou a trabalhar com ele), entre outros. Durante esses anos, fundou O Movimento, uma organização com o intuito de ajudar os partidos nacionalistas europeus em suas campanhas políticas. Além disso, como pode ser visto no documentário Privacidade Hackeada (de Karim Amer e Jehane Noujaim, 2019), colaborou com a campanha de Mauricio Macri na Argentina, e trabalhou para Guo Wengui, um exilado chinês bilionário que se opõe ao regime de seu país.

Bannon é um ex: ex-militar, ex-corretor da bolsa (onde ganhou vários milhões de dólares), ex-produtor de cinema e ex-alcoólatra. Numa longa entrevista que deu para o documentário America’s Great Divide (Michael Kirk, 2020), conta que sempre se interessou por política, mas a gota d’água se deu no resgate financeiro, o bailout que o presidente Barack Obama brindou ao sistema financeiro norte-americano logo após a crise de 2008. “Ninguém foi responsabilizado pela crise financeira”, diz ele, indignado. Nenhum dos que se beneficiaram dessa crise brutal acabou na prisão ou renunciou ao bônus milionário de fim de ano. “Colocamos o fardo do resgate na classe trabalhadora e na classe média. É por isso que ninguém tem nada. Os millennials de hoje nada mais são do que os servos russos do século XIX. (…) Eles nunca vão ter nada. (…) Não se trata de democratas ou republicanos, é a forma como o sistema funciona. É sobre como o sistema se une para se proteger e seguir em frente.

Não é preciso ser de direita para se indignar junto com ele. É verdade que Obama abriu uma enorme expectativa de mudança no que diz respeito aos governos Clinton e Bush — ambos alinhados, apesar de suas diferenças partidárias, com o poder de Wall Street. Ao aceitar o resgate, ele não quis nem ousou aproveitar a oportunidade para limitar a voracidade do poder financeiro. Com seu aval, morreu a esperança de mudar um sistema financeiro que produz desigualdade, empregos inúteis, endividamento e frustração na classe trabalhadora daquele país.

Para Bannon, naquele panorama era necessário um populismo nacionalista liderado por alguém disposto a chutar o tabuleiro, um vingador que chamasse as coisas pelo nome. Um homem como Trump. Sem esse contexto, não é possível entender o sucesso das brutais campanhas de desinformação que foram semeadas intencionalmente, mas que se enraizaram e floresceram graças a uma população enraivecida, que viu o poder financeiro, os democratas e republicanos, o politicamente correto, o feminismo e os movimentos pelos direitos das minorias como uma combinação que os empobrece e humilha. Porque além de terem que se endividar para sobreviver, são acusados ​​de serem machistas, xenófobos, racistas e poluidores, o que os despe de qualquer resquício de dignidade — principalmente, no caso dos homens (as mulheres também votam na direita, embora Trump exagere nos percentuais). Seu mundo treme e não podem se refugiar nem mesmo na segurança de uma identidade, agora abalada pelas ideais progressistas.

Para Bannon, o caminho para o populismo nacionalista deveria começar no controle do Partido Republicano dos EUA por meio de ferozes ataques nas redes (“cancel culture“, ou cultura do cancelamento, é o nome dado a essa campanha nos Estados Unidos) a qualquer senador que iniciasse um diálogo com os democratas. Os rebeldes foram dinamitados pelas redes com munição fornecida pelo Breitbart e outros meios, até serem rechaçados. Assim, pode-se ler comentários que dizem que “só um traidor negocia com um nazista, um comunista, um defensor de Wall Street, um africano, um ditador” e tudo o mais que poderia ser dito sobre Obama na mídia de direita. O resultado foi a paralisia do governo democrata, que sangrou para conseguir uma reforma moderada no sistema de saúde.

E assim surgiu Trump. O plano de Bannon concentrava-se principalmente em duas questões: primeiro, construir um muro como símbolo da luta contra a imigração ilegal, usada pelas empresas para diminuir ainda mais a renda já “neofeudal” dos trabalhadores. Em segundo lugar, e com o mesmo objetivo, enfrentar a China, que tira o trabalho da classe trabalhadora. Nesse sentido, Bannon disse em entrevista a Benjamin Teitelbaum: “O que temos agora é um sistema em que escravos chineses fazem produtos para os desempregados no Ocidente.”

Olhando rapidamente, não parece um plano excessivamente elaborado para governar o país mais poderoso do mundo. Mas… será que realmente existe algum plano magistral para a direita global?

Levá-lo a sério

No início deste ano, foi lançado o livro War for Eternity, do etno-músico Benjamin Teitelbaum, que estuda há anos alguns obscuros pensadores de direita (antes desse livro, ele escreveu Lions of the North, sobre o nacionalismo na Escandinávia). Ouvindo Bannon em suas entrevistas, Teitelbaum chegou numa hipótese: ele, assim como outros pensadores de direita, é um tradicionalista.

O tradicionalismo é uma corrente filosófica do começo do século XX, que possui fortes vínculos com o fascismo, e que estabelece que a história é cíclica, com quatro períodos que se repetem. Cada um desses períodos está vinculado a uma classe detentora do poder: filósofos, guerreiros, mercadores e escravos (sempre homens, é claro). A fase final, a dos escravos, marca a decomposição do sistema até o início de um novo ciclo. Essa corrente filosófica também levanta a necessidade de hierarquias na sociedade e a validade de todas as religiões para organizá-las sob uma doutrina superior. É uma corrente anti-iluminista que afirma que as verdades são alternativas: dependem de cosmologias culturais, uma ligação direta com os “fatos alternativos” — muito em voga durante a campanha de Trump — que constituem o eixo do que se chamou de pós-verdade. Embora Teitelbaum reconheça a heterogeneidade dessa corrente, há uma tendência a considerar a superioridade da raça ariana, cujas raízes estão na Índia. Todo o conjunto é temperado com uma boa dose de esoterismo em oposição ao materialismo encarnado pelo consumismo, mas também pelo comunismo.

Bannon conhece o tradicionalismo, mas se auto define de uma forma mais humilde: “Sou apenas um cara de merda, que observa enquanto avança.” Porém, ao longo das conversas, fica claro que ele conhece essa corrente filosófica, embora faça suas próprias interpretações e prefira não se aprofundar nas partes mais esotéricas. Bannon não é o único poderoso com essa visão anti-materialista e anti-iluminista que ganhou relevância nos últimos anos. Entre eles também está Alexandr Dugin, um filósofo russo com vários livros escritos, e que costuma aconselhar Vladimir Putin (às vezes diretamente, às vezes nas sombras). O outro personagem que também encontra Teitelbaum é uma referência conhecida na política brasileira atual: Olavo de Carvalho. Este conselheiro de Bolsonaro usou seu canal no YouTube para apoiá-lo em sua carreira política e, especialmente, para protestar contra a ideologia de gênero e o comunismo. No entanto, assim que seu protegido chegou à presidência, ele se recusou a ingressar em seu gabinete e se limitou a recomendar pessoas de confiança para posições-chave.

Apesar das afinidades que encontra, Teitelbaum reconhece que, para além das críticas ao sistema e de uma certa cosmologia, o fio ideológico que une esses personagens é tênue. Todos os três concordam com a necessidade de promover nacionalismos locais para produzir uma desintegração dos países e reverter a globalização materialista e esclarecida que destrói os valores espirituais tradicionais. Mas, rapidamente, surgem as diferenças: Carvalho, que praticou o sufismo na juventude, se define como um homem único, “um filósofo, mas não um discípulo”, e discute fortemente com outro tradicionalista como Dugin sobre qual país representa melhor o próximo estágio: o do reino dos filósofos por vir (Rússia ou Estados Unidos). A sensação é de que a falta de um referencial teórico coerente reduz as coincidências a pouca coisa — e, pior, permite diferentes interpretações da atualidade. Seria a China materialista? Ou ainda, como diz Carvalho, representam os Estados Unidos uma visão materialista do mundo, ou isso é feito apenas por membros de sua elite exploradora? Seria a classe trabalhadora daquele país, simples e conservadora, o sujeito histórico emancipatório que buscam?

Um denominador comum entre esses ideólogos de direita é a necessidade de destruir o Estado como o conhecemos: sua burocracia, sua corrupção, sua simbiose com os poderes constituídos, mas também seus sistemas de saúde, educacionais e científicos, agências ambientais, e o aparato diplomático. “A destruição faz parte do ciclo”, Bannon disse a Teitelbaum em uma entrevista. Na prática, além de um punhado de ideias básicas comuns, as direitas adaptaram-se às conjunturas particulares para preencher a lacuna de legitimidade deixada pelo rastro do neoliberalismo e por uma esquerda tradicional incapaz de modificar as estruturas de poder e que se dedicou a trabalhar na agenda dos direitos humanos ou do ambientalismo. Como se sabe, a política odeia o vácuo e a direita foi quem melhor soube preenchê-lo.

A eclosão da tecnopolítica

O contexto favorece a formação de uma tempestade perfeita no Ocidente. Uma tempestade que parece ser a de líderes fortes e carismáticos que, como diria Max Weber, são capazes de mudar a inércia de um sistema em que os tomadores de decisão querem apenas manter o status quo. O que os humilhados querem é vingança contra aquele establishment (ou o que eles consideram como tal). Nesse contexto, em que não há mapas cognitivos que nos permitam entender o que está acontecendo, as leituras de conspiração simples e nítidas que confirmam quem são os bandidos funcionam como um salva-vidas emocional. As redes sociais, totalmente desprovidas de “responsabilidade editorial”, são o espaço ideal para que posições extremas surjam, sejam testadas, se desenvolvam e floresçam sem bases argumentativas.

Em sua entrevista, Bannon explica como se deu a consolidação da indústria de fake news que ele dirigia: “Foi a seção de comentários que começou a construir parte do poder do Breitbart; além de sermos mais inteligentes (…) tínhamos uma otimização incrível para aparecermos nas buscas. Foi a união de tecnologia e conteúdo. Em particular, eu tinha uma equipe inteira dedicada à análise dos algoritmos do Facebook. Sem o Facebook, a Breitbart nunca teria chegado ao tamanho que chegou. As redes sociais e toda uma bateria de novas tecnologias baseadas em dados e inteligência artificial permitem o uso da comunicação como um laboratório sem os limites do politicamente correto: os humilhados pediam sangue, e eles iriam obtê-lo. No laboratório digital, é possível analisar em tempo real quais mensagens geram maiores paixões e despertam mais respostas (engajamento) para usá-las como munição infinita em qualquer ocasião.

Os Trump e os Bolsonaro são os candidatos ideais para uma campanha baseada na destruição dos seus opositores, sem necessidade de apelar para a verdade. Como se se tratasse de um judô discursivo, a força do oponente é usada para irritá-lo mais ainda, e fazê-lo reagir. Um exemplo paradigmático dessa desvantagem estratégica é o que aconteceu com o “Ele não” no Brasil, quando milhares de mulheres saíram às ruas para rejeitar a candidatura presidencial de um misógino explícito. O resultado dessa marcha massiva foi uma reação ainda mais poderosa das redes, que atacaram as mulheres com maior visibilidade na manifestação, como Daniela Mercury e Anitta. O mesmo aconteceu com aqueles que mexeram com Trump no seu caminho para a Casa Branca: não apenas a “crooked [desonesta] Hillary”, mas também vários senadores republicanos. As respostas indignadas, provenientes de setores vistos como aliados do sistema empobrecedor, serviram para confirmar a confiança no líder que os insultava na cara.

Embora as linhas gerais do descontentamento social sejam perceptíveis por qualquer analista político, ao olhar para as pessoas de perto surgem nuances particulares que exigem uma comunicação segmentada, como a realizada pela Cambridge Analytica ou pelos muitos trollcenters ao redor do mundo, que estimulam os setores mais radicais a irem para as ruas como nunca antes. É isso que as redes sociais permitem: colocar as notícias em jogo, sejam verdadeiras ou falsas, e identificar aquelas que se instalam na sociedade para utilizá-las como enquadramento de futuras notícias — e, assim, alimentar essa visão de mundo. Como colocado por Teitelbaum: ‘O tipo de ativismo apoiado pela Cambridge Analytica foi uma forma inovadora e poderosa de algo que a extrema direita chama de metapolítica. A estratégia envolve fazer campanha não por meio da política, mas por meio da cultura, das artes, do entretenimento, dos intelectuais, da religião e da educação. É nesses lugares que os nossos valores são formados, não numa cabine de votação.”

Os militantes terão de se inserir em todos os espaços, principalmente naqueles apolíticos, e começar a baixar sua mensagem aos poucos, buscando criar um novo senso comum, não com idosos entediados falando devagar, mas de forma atraente, sedutora e com ferramentas que permitam medir a circulação de mensagens em tempo real, como fazem os influencers e os youtubers de direita. Como disse o falecido Andrew Breitbart, criador do site que Bannon dirigiu: “A política está à jusante da cultura”.

Esta luta cultural está se transformando em algo brutal, com campos opostos que percebem a realidade desde lugares diferentes e sem pontos de contato. O grande sucesso da nova direita nos Estados Unidos consiste em construir um único inimigo que condensa o capital financeiro, que é globalizador, exportador de mão de obra, voltado para os direitos humanos e dos homossexuais, feminista, ambientalista, etc. A prova de que são iguais, como diz Bannon, é que “o presidente mais progressista da história dos Estados Unidos, o presidente Obama, salvou os ricos”. Essa desconfiança de todos é o que permite que Trump aponte para os jornalistas e diga-lhes na cara “você é a fake news” sem um mínimo de pudor.

Na mesma lama

Em cada país, a direita soube se adaptar aos contextos. No Brasil, por exemplo, parte do sucesso de governos extremistas como o de Bolsonaro pode ser entendido pelas limitações do Partido dos Trabalhadores (PT) em produzir mudanças estruturais, mas também pelo constante ataque da mídia estabelecida quando o PT realmente tentou produzi-los. Boa parte da sociedade, fervilhando no ódio destilado pela mídia tradicional, estava preparada para absorver as mais delirantes fake news ou teorias da conspiração que pudessem ser inventadas e testadas pela direita através do Facebook, Twitter ou, como aconteceu no Brasil, WhatsApp. Contexto, dinheiro e tecnologia permitiram o desenvolvimento desse potencial para que Bolsonaro vencesse nas urnas.

Essas linhas permitem traçar algumas respostas sobre o avanço da direita global, mas ainda há muito a ser respondido. A rejeição de grandes setores do establishment será suficiente para não considerar esses novos populismos de direita apenas uma nova “virada” neoliberal? Estes governos, cuja estratégia consiste em manter as bases de apoio irritadas e em neutralizar seus adversários, serão sustentáveis? Qual o lugar da realidade material para minar seus discursos anti-científicos e anti-iluministas, como exposto pela pandemia? Até agora, a receita foi duplicar a energia de cada ataque, mas… será que existe um limite? Será que vão sobreviver ao nível de putrefação social que eles mesmos potencializaram? E, principalmente: o que virá depois de seus fracassos (cada vez mais evidentes) em satisfazer as expectativas das bases eleitorais?

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