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terça-feira, 2 de abril de 2019

Truculência e arrogância na liquidação da Petrobras em prol dos interesses internacionais e dos bancos, por André Motta Araújo



Das 20 maiores empresas de petróleo do mundo, 13 são estatais e estão crescendo. nenhuma está vendendo ativos. Nenhuma está em planos de privatização



Das 20 maiores empresas de petróleo do mundo, 13 são estatais e estão crescendo. nenhuma está vendendo ativos. Nenhuma está em planos de privatização.
A PEMEX, mais antiga que a Petrobras, está em fase de duplicação de tamanho, segundo anuncia o Presidente do México, Lopez Obrador, na Conferência dos Bancos do México em Acapulco, em 18 de março passado.

A única estatal de petróleo em liquidação por venda continuada de ativos e desintegração de suas operações é a PETROBRAS. O presidente da PETROBRAS indicado pelo atual governo não tem feito outra coisa na empresa que não seja a venda de ativos, é seu único tema. Ou vende pedaços da empresa ou fecha operações. Anuncia o fechamento da filial em São Paulo, onde a PETROBRAS tem 4 refinarias e grande base de distribuição, a maior empresa do Pais não terá escritório na maior cidade do Pais, o que mostra o nível de insanidade dessa gestão.
Também anuncia o fechamento dos escritórios de Nova York e de outros fora do Brasil, numa trajetória de franca liquidação da empresa, em contramão de países tanto emergentes como desenvolvidos, onde as grandes petroleiras do Estado são consideradas empresas estratégicas, parte do projeto nacional, mesmo em países ricos, como Noruega (STATOIL) como Itália (ENI) .

O VALOR DO MERCADO BRASILEIRO DE COMBUSTÍVEIS

A Petrobras foi criada em 1953 por razões estratégicas e implantou uma enorme base de refinarias (11 e mais duas em construção), uma rede nacional e internacional de oleodutos e gasodutos, três bacias de exploração que geram uma produção de 2,5 milhões de barris dia,uma frota que chegou a ter mais de 100 navios, subsidiarias no exterior, algumas grandes, como era a da Argentina, já vendida, 3ª rede de postos naquele País.
Mas o maior ativo da PETROBRAS é imaterial, é mercado brasileiro de combustíveis, o 3º maior do mundo, onde a PETROBRAS tem o controle de 81%, o valor financeiro desse mercado, que não está no balanço, pode ser avaliado em 120 bilhões de dólares, seria o valor da marca + fundo de comercio + da presença da  marca PETROBRAS no mercado.

A LIQUIDAÇÃO DA PETROBRAS

Para liquidar a PETROBRAS por via de privatização não haveria aprovação do Congresso.  A liquidação da PETROBRAS é o mega sonho dos neoliberais brasileiros desde Eugênio Gudin. A partir da gestão Pedro Parente eles traçaram um projeto de ” PRIVATIZAÇÃO BRANCA”, não vender a empresa como estrutura societária porque tendo sido a empresa criada por lei só poderia ser privatizada por outra lei, de impossível aprovação no Congresso, então a formula seria a de vende-la em pedaços, por esquartejamento de seus ativos físicos, para o que o atual Presidente conseguiu uma aberração legal em qualquer País organizado, PODE VENDER SEM AUTORIZAÇÃO DO ACIONISTA MAJORITÁRIO dizendo que isso é comum em empresas privadas.

É um sofisma. Em empresas privadas, se existir um acionista controlador este nomeia a maioria do Conselho e em qualquer S/A não se vendem ativos acima de um certo valor sem aprovação do Conselho. Na PETROBRAS também há um Conselho de Administração que deveria ser indicado pela União, maior acionista com 64% dos votos mas é o próprio presidente da PETROBRAS quem indicou os conselheiros, então o Conselho aprova o que ele quiser.

Situação semelhante não existe em Pais algum, com empresa estatal sendo manobrada por seu presidente que quer liquida-la.

A NARRATIVA DA PETROBRAS QUEBRADA

A partir da Lava Jato a Petrobras sofreu dois ataques contra sua existência:
1.Autoridades brasileiras levaram a PETROBRAS ao Departamento de Justiça dos EUA para lá ser tosquiada, processada e pagar multas.  Não foram procuradores americanos que escolheram a PETROBRAS como alvo, foram brasileiros com passaporte brasileiro que viajaram a Washington para oferecer a Petrobras para que a empresa fosse lá processada e pagasse indenizações, algo absurdamente fora de logica jurídica internacional, nenhuma outra estatal de petróleo do mundo nem a de Angola e nem a do Iraque passou por tal vexame PORQUE ESTATAL TEM IMUNIDADE PROCESSUAL no Departamento de Justiça dos EUA  segundo a maioria dos Acordos de Cooperação Judiciaria entre países e os EUA, incluindo o do Brasil,  de 2001, MAS a invocação do “interesse nacional” e consequente “waiver” (imunidade processual) depende do Governo que é atingido por uma investigação, a manifestação tem que vir da AUTORIDADE CENTRAL nomeada no Acordo, no caso do Brasil é o Ministro da Justiça (na época Jose Eduardo Cardoso) que nunca invocou essa cláusula de proteção da PETROBRAS, deixada em Washington vestida e arrumada para ser processada com apoio do próprio Pais controlador da empresa, que além de humilhada e extorquida ainda teve que aceitar inspetores americanos DENTRO DA PETROBRAS por dez anos e para alegria dos advogados americanos que a “defenderam” em Washington ainda pagou 300 bilhões de dólares de honorários.
2.A NARRATIVA DA PETROBRAS QUEBRADA cujo primeiro chefe de cerimonias foi Pedro Parente,  narrativa divulgada dia e noite pelo Sistema Globo (especialmente Miriam Leitão), uma absoluta “fake news” como aqui  já demonstramos em artigos específicos. No auge do chamado “Petrolão”,com a Petrobras malhada pela rede lavajatista na mídia de forma continua, entre 2014 e 2017 a PETROBRAS lançou cinco emissões de bônus no mercado internacional (Nova York e Londres), sendo uma dessas emissões com prazo inusual de 100 anos, com OVERSUBSCRIPTION de três a cinco vezes,isso é, havia demanda de  investidores para comprar de 3 a 5 vezes mais bônus do que os oferecidos. ISSO É PROVA DE ROBUSTEZ FINANCEIRA, A PETROBRAS JAMAIS ESTEVE QUEBRADA e sua geração de caixa sempre permitiu pagar folgadamente suas obrigações sem precisar vender ativos, TODA GRANDE EMPRESA DE PETRÓLEO tem enorme dividas que são NORMAIS na atividade, que exige muito investimento a longo prazo, não é sinal de anormalidade empresa de petróleo ser alavancada, é parte do negócio.

A narrativa da PETROBRAS QUEBRADA foi e é a justificativa para venda de ativos SEM AUTORIZAÇÃO, SEM LICITAÇÃO, a direção da empresa vende como quiser, pelo preço que quiser, a quem quiser, é uma aberração societária, legal, econômica e politica. No Governo Federal não se pode comprar um sabonete sem licitação, como é possível vender uma refinaria sem licitação? A bem da verdade essa dispensa de licitação para a Petrobras foi do governo FHC.
Como é possível tal processo estar ocorrendo sem reação alguma do Tribunal de Contas da União, do “establishment militar”, do Congresso?
A PETROBRAS está sendo liquidada a luz do dia, com o absoluto silêncio da mídia, a única grande petroleira estatal do mundo a ser desmanchada sem uma razão econômica, a luta contra a PETROBRAS é exclusivamente produto de uma alucinação ideológica que começou no Governo Fernando Henrique que listou a empresa na Bolsa de Nova York, UNICA estatal de petróleo do mundo a cometer essa insanidade porque isso colocou a PETROBRAS vulnerável à jurisdição americana, alem disso FHC colocou na presidência da PETROBRAS dois banqueiros que não entendiam nada de petróleo (Henri Reichstul e Francisco Gros), um ramo em que universalmente os CEOs são profissionais de longa experiencia no setor, a logica de FHC já era a privatização, é impressionante como a PETROBRAS  tem inimigos, TODOS BRASILEIROS.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O caos político brasileiro visto por um líder sueco. Por Claudia Wallin


Von Sydow: impeachment parece "uma luta política dos partidos de direita para afastar a presidente"
Von Sydow: impeachment parece “uma luta política dos partidos de direita para afastar a presidente”
“O conflito político no Brasil é extremamente alarmante. Por outro lado, ele representa uma oportunidade ideal para convocar os partidos políticos e a sociedade a realizar uma ampla e positiva agenda de reformas no país”, avalia o social-democrata Björn von Sydow, ex-presidente do Parlamento sueco e atual vice-presidente da Comissão de Constituição parlamentar da Suécia.
O momento exige um pacto suprapartidário a fim de alcançar um consenso de união nacional, ele sugere, nos moldes do acordo costurado durante a crise econômica dos anos 90 na Suécia.
“Porque a situação é de tal maneira caótica, que os partidos políticos brasileiros devem perceber que nenhum deles é forte o suficiente para encerrar a crise sem o apoio de todos os demais. E nenhum dos atores políticos tem o poder de controlar sozinho os efeitos que poderão ser deflagrados por este tamanho caos político.”
“E é o momento para mobilizar também diferentes setores da sociedade civil em torno de um plano de reformas constitucionais, econômicas e políticas, incluindo a reforma dos partidos políticos”, diz o deputado, que já ocupou ainda o cargo de ministro de Defesa da Suécia.
Von Sydow esteve no olho do furacão da crise brasileira, à frente de uma delegação parlamentar da Comissão de Constituição sueca que visitou Brasília no momento em que o PMDB desembarcava do governo.
Sua avaliação é de que o atual processo de impeachment em curso contra a presidente Dilma Roussef é um conflito essencialmente político, que exige portanto soluções políticas:
“Um impeachment significa depor uma presidente eleita democraticamente. E o que aconteceria depois? Quem assumiria a presidência, quando vários dos próprios atores políticos envolvidos no processo de impeachment são investigados por corrupção? A situação pode sair ainda mais fora de controle”, observa o deputado sueco, para quem o ex-presidente Lula poderia desempenhar um papel agregador para a unificação do país, “como fez Nelson Mandela na África do Sul”.
Björn von Sidow também espeta indiretamente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha:
“Não se pode sentar naquela cadeira e liderar a instituição, ignorando as acusações feitas dias após dia, mês após mês”.
A seguir, a íntegra da entrevista concedida no espartano gabinete de 24 metros quadrados do deputado no Parlamento sueco, onde sua única regalia é um aparelho de TV dos anos 80.
Quais são suas impressões sobre sua visita ao Brasil, em meio a uma das mais graves crises políticas já enfrentadas no país?
BJÖRN VON SIDOW: O conflito político no Brasil é extremamente alarmante. Por outro lado, ele representa uma oportunidade ideal para convocar os partidos políticos e a sociedade a realizar uma ampla e positiva agenda de reformas no país. Porque a situação é de tal maneira caótica, que os partidos políticos devem perceber que nenhum deles é forte o suficiente para encerrar a crise sem o apoio dos demais. É necessário um amplo pacto político para alcançar um consenso de união nacional. E é o momento para mobilizar também diferentes setores da sociedade civil em torno de um plano de reformas constitucionais, econômicas e políticas, incluindo a reforma dos partidos políticos. Além, é claro, de tratar do problema da corrupção, que parece ser um problema cultural no Brasil.
Mas é preciso também notar os aspectos extremamente positivos do Brasil. Notei, por exemplo, que o país tem uma extraordinária liberdade de expressão. O Brasil não é a China. O Brasil não é a Rússia. Também notei que os protestos e manifestações ocorrem sem episódios de violência, o que é um sinal bastante positivo. Outro aspecto positivo é que o Exército descarta intervir na política, conforme nos foi inclusive dito durante nossa visita a uma base militar em Manaus. A polícia federal e os promotores também têm independência para investigar. Portanto, o Brasil já fez avanços importantes no caminho para realizar as reformas de que necessita.
Como alcançar um consenso político para uma ampla agenda de reformas, diante de um sistema partidário fragmentado e altamente polarizado?
BJÖRN VON SIDOW: A Suécia atravessou uma situação semelhante de ruptura, de certa forma, durante a crise econômica dos anos 90. Naquela época, o país enfrentava uma combinação de inflação crescente, altas taxas de juros e baixa produtividade. Percebeu-se então que era imperativo reformar elementos importantes não apenas da política econômica, mas da própria política e do sistema democrático.
O governo criou então uma comissão especial para estabelecer os princípios de uma reforma abrangente, a chamada Comissão Lindbeck [presidida por Assar Lindbeck, professor emérito de economia da Universidade de Estocolmo]. Esta comissão reuniu um painel de especialistas da área acadêmica, incluindo economistas e cientistas políticos, que definiram uma agenda de 113 reformas a serem implementadas. E a agenda foi cumprida. É interessante notar que a Suécia também tinha um governo de minoria naquela época. E como se sabe, governos minoritários necessitam negociar todo o tempo.
Também é preciso haver disposição dos partidos de oposição para buscar tal consenso para a governabilidade, como ocorre na realidade sueca.
BJÖRN VON SIDOW: Alcançar um consenso nunca é uma tarefa fácil. Mas os atores políticos brasileiros precisam compreender o que está em jogo no Brasil. O país tem forças verdadeiramente democráticas e respeitáveis, mas o que está em jogo é uma crise política que mergulha o país indefinidamente na ingovernabilidade.
O maior problema, a meu ver, é que os partidos políticos brasileiros são demasiadamente superficiais. Há troca-troca de legendas, há partidos demais, há legendas sem representação, há partidos e políticos sem qualquer ideologia. Uma democracia necessita de um sistema partidário baseado em princípios ideológicos, formado por políticos com interesse genuíno em ideologias políticas. É preciso, assim, criar um novo e verdadeiro sistema político-partidário no Brasil, que facilitaria, dessa forma, a busca de um consenso duradouro e vital para governar o país.
Qual seria a fórmula ideal para um pacto de união nacional?
BJÖRN VON SIDOW: Em minha opinião, há dois amplos processos a serem cumpridos: o primeiro deles é um amplo programa de reformas, a partir de uma agenda de mudanças definida por uma comissão de especialistas. Penso que a presidente Dilma Roussef deveria convidar para a mesa de debates não apenas os diferentes partidos políticos, mas também setores da sociedade civil, ONGs e especialistas como cientistas políticos, sociólogos e também antropólogos.
O segundo passo seria um processo fundamental de valorização da ética, com a criação de um novo compasso ético para mudar os valores culturais e reduzir a corrupção no país, através de campanhas de educação e reeducação moral. Além de uma reforma política real, já que a corrupção germina no atual sistema político.
Como o senhor vê uma eventual participação do ex-presidente Lula no governo?
BJÖRN VON SIDOW: Não quero tecer julgamentos sobre as divergências em torno da indicação do ex-presidente Lula para o governo. Mas penso que, especialmente antes de ser convidado para integrar o ministério, o ex-presidente teria o potencial de atuar como um agente agregador a fim de unificar e pacificar o país. Assim como fez Nelson Mandela, ao unificar a África do Sul. Espero que, se Lula conseguir ultrapassar o caos atual, ele possa atuar nesse sentido, junto aos demais líderes políticos e também junto aos setores menos favorecidos da população, em nome dos quais ele foi eleito por duas vezes. O momento exige um debate sobre valores, tanto por parte da esquerda como da direita. E exige união entre os pólos divergentes.
"Lula teria o potencial de atuar como um agregador nacional"
“Lula teria o potencial de atuar como um agregador nacional”
Como o senhor vê o o atual processo de impeachment em curso?
BJÖRN VON SIDOW: Não posso evidentemente emitir um julgamento embasado sobre essa questão. Mas me parece que o processo de impeachment em curso é um processo mais político do que jurídico. Há um conflito entre duas legalidades: de um lado, a presidente, eleita com uma plataforma de viés mais esquerdista, e de outro as duas casas do Legislativo, mais alinhadas politicamente à direita. E há fortes divergências sobre a legalidade constitucional dos argumentos para promover um impeachment. Parece tratar-se portanto de um conflito essencialmente político, de uma luta política dos partidos de direita para afastar a presidente.
A batalha ideológica é parte fundamental da atual crise. Por isto, é preciso buscar soluções políticas, através de um amplo consenso em torno de um pacto nacional. O que seria provavelmente mais fácil, na atual situação, do que tentar buscar soluções jurídicas. Um impeachment significa depor uma presidente eleita democraticamente. E o que aconteceria depois? Quem assumiria a presidência, quando vários dos próprios atores políticos envolvidos no processo de impeachment são investigados por corrupção? A situação pode sair ainda mais fora de controle.
Qual foi a reação da delegação sueca no Brasil ao saber que o presidente do Congresso, Eduardo Cunha, se mantém no cargo e conduz o processo de impeachment da presidente Dilma, apesar de ser réu na Operação Lava Jato?
BJÖRN VON SIDOW: Isso é muito estranho para nós, é claro, mas cabe aos brasileiros julgar seus próprios políticos. O importante é observar que isto é sinal de que o problema do Brasil é basicamente estrutural. A origem do problema está no próprio sistema político atual do país. Conversei com deputados e senadores brasileiros, que me disseram que pelo menos cem parlamentares são profundamente corruptos. Cabe às cortes julgar, mas é preciso lançar um olhar mais profundo sobre a questão da necessidade de reformar o sistema político.
Sobre alguém como Cunha presidir o impeachment: "Isso é muito estranho para nós"
Sobre alguém como Cunha presidir o impeachment: “Isso é muito estranho para nós”
O senhor presidiu o Parlamento sueco entre 2002 e 2006. Caso tivesse sido acusado de alguma prática corrupta, quanto tempo poderia ter permanecido no cargo?
BJÖRN VON SIDOW: O presidente do Parlamento sueco é eleito por um período de quatro anos, e não pode ser deposto através da votação de um impeachment. Mas diante de qualquer suspeita de crime ou falta de decoro, as exigências morais e as críticas dirigidas contra o presidente, incluindo por parte de seu próprio partido, seriam de tal dimensão que ele se sentiria obrigado a renunciar ao cargo de imediato.
Mesmo antes da comprovação de eventuais denúncias contra ele?
BJÖRN VON SIDOW: Sim. Porque seria impossível para um político presidir o Parlamento sem ter plena autoridade moral para tal. Não se pode sentar naquela cadeira e liderar a instituição, ignorando as acusações feitas dias após dia, mês após mês.
Mais da metade dos integrantes da comissão especial do impeachment na Câmara é acusada de corrupção. Como vê este fato?
BJÖRN VON SIDOW: É uma situação extremamente negativa, e indica que o Brasil ainda não é uma democracia plenamente consolidada em relação ao seu sistema político. O país tem excelentes alicerces democráticos, mas ainda tem alguns maus alicerces. Um deles é exatamente o fato de que a Constituição tem pouca legitimidade no país, uma vez que ela é violada por políticos acusados de corrupção.
Na Operação Lava Jato, o juiz Sergio Moro foi aplaudido por parte da população mas também criticado por integrantes da Suprema Corte por divulgar grampos de conversações telefônicas entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Gravar e divulgar conversas envolvendo lideranças políticas seria permitido na Suécia, que é famosa por sua ampla lei de transparência?
BJÖRN VON SIDOW: Em primeiro lugar, a interceptação telefônica de qualquer autoridade ou qualquer cidadão suspeito de crime na Suécia deve ser previamente autorizada por uma banca formada três juízes de primeira instância. A sessão secreta para aprovar a solicitação de grampeamento feita por um promotor também conta com a presença de um ombudsman público, que atua em sigilo para proteger os interesses da pessoa a quem se pretende grampear. A decisão é dos juízes. Mas se o ombudsman entender que não há fundamento suficiente nas alegações do promotor para solicitar o grampo, ele pode levar o caso para as instâncias superiores, até a Suprema Corte.
Quando aprovado o grampeamento, é permitido divulgar publicamente os áudios das gravações?
BJÖRN VON SIDOW: Os princípios que garantem a transparência são extremamente fortes na Suécia. Mas de novo, a decisão de divulgar as gravações precisa ser autorizada por uma bancada integrada por três juízes, em um processo que é acompanhado por um ombudsman público. Cabe à corte julgar o equilíbrio entre a procedência de divulgar conversas grampeadas, e a proteção à integridade pessoal do indivíduo grampeado. Esta regra vale tanto para as autoridades públicas, como para qualquer cidadão que tenha suas conversas interceptadas por decisão judicial.
A discussão sobre a politização do Judiciário tem sido um tema frequente na crise atual. Qual é a sua visão?
BJÖRN VON SIDOW: O perigo da partidarização do judiciário é que os juízes passam a ser vistos como entes semipolíticos. E a sociedade passa a perder a confiança nas cortes de justiça, o que é extremamente prejudical para a democracia. Juízes devem se ater à proteção do Estado de direito e dos direitos humanos.
Seu partido passou oito anos na oposição antes de voltar ao poder, em 2014. Qual é o papel da oposição em uma democracia?
BJÖRN VON SIDOW: Em primeiro lugar, o papel da oposição é manter a conscientização da população sobre o que os representantes do poder público estão fazendo em seu nome, e formular políticas alternativas. Em segundo lugar, e eu diria que de forma ainda mais importante, a oposição política de um país precisa ser responsável. Em outras palavras, a oposição deve fazer oposição, deve criticar o governo, mas também deve negociar com o governo e participar ativamente da adoção de políticas necessárias ao bem-estar da sociedade, colocando os interesses do país acima de seus interesses partidários.
Qual será o desfecho da crise política no Brasil, em sua opinião?
BJÖRN VON SIDOW: Espero que possa ser alcançado um amplo pacto nacional. Porque no momento atual, ninguém tem o poder de controlar a situação-limite que se impôs no país. E nenhum dos atores da crise tem o poder de controlar sozinho os efeitos que poderão ser deflagrados por este tamanho caos político. Caso não haja consenso político, provavelmente haverá novas eleições. Mas as pesquisas de opinião não parecem indicar um quadro significativamente diferente do atual.
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Claudia Wallin
Sobre o Autor
A jornalista brasileira Claudia Wallin, radicada em Estocolmo, é autora do livro Um país sem excelências e mordomias.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Gregório Duviver: "Dúvidas de um ignorante" ante a sabedoria dos "colunistas da direita"

 "Não entendo nada sobre porcaria nenhuma. Sou um jovem cronista ignorante (não tão jovem para ser tão ignorante), e isso não é novidade para ninguém. O único ponto em que concordo com os colunistas de direita é quando afirmam que sou um idiota. O que continuo sem entender é por que perdem tanto tempo afirmando uma obviedade. Não saio por aí gritando que a Terra é redonda ou que vamos todos morrer (...). Não sei nada sobre porcaria nenhuma. Mas parafraseando Guimarães Rosa: desconfio de muita coisa. Desconfio, inclusive, de Lula, assim como desconfio de qualquer juiz que tenha uma relação tão promíscua com a imprensa, assim como desconfio da polícia e de quem tira selfiecom ela, assim como desconfio do "Jornal Nacional" e, na mesma medida, de quem aplaude o "Jornal Nacional" –sim, o mesmo jornal que elegeu o Collor e hoje brada contra a corrupção.".

Dúvidas de um ignorante


Gregório Duvivier

Não entendo nada sobre porcaria nenhuma. Sou um jovem cronista ignorante (não tão jovem para ser tão ignorante), e isso não é novidade para ninguém. O único ponto em que concordo com os colunistas de direita é quando afirmam que sou um idiota. O que continuo sem entender é por que perdem tanto tempo afirmando uma obviedade. Não saio por aí gritando que a Terra é redonda ou que vamos todos morrer. Ok, eu gritei essas coisas no Carnaval, mas estava sob efeito de psicotrópicos.

Minha sorte é que escrevo crônica. Não preciso fingir que sei alguma coisa. Muito pelo contrário: preciso de um exercício diário de ignorância para nunca deixar de ser leigo. Afinal, o mundo está o tempo todo tentando te empurrar certezas goela abaixo.

Não pensem que é fácil não saber nada sobre coisa nenhuma quando o mundo sabe tudo sobre todas as coisas. Basta um atentado atribuído ao Estado Islâmico para descobrir que todos ao seu redor são peritos no Alcorão. Basta um processo de impeachment para descobrir que todos os seus conhecidos são juristas renomados.

Cuidado: a doença do especialismo é altamente transmissível. Passe um tempo curto nas redes sociais e, quando você menos espera, tcharã, você se tornou um especialista. Em poucos minutos, você já está apontando culpados e proferindo sentenças.

Não tenho acesso às contas de Lula nem às minúcias da Lava Jato. Isso só quem parece ter é o Moro e os jornalistas do seu círculo íntimo. Não faço a menor ideia se Lula cometeu algum desvio, mas tampouco Moro ou os jornalistas parecem fazer ideia: as acusações parecem manchetes da "Tititi" –ou, pior, de "O Globo". "Assistente de estagiário de advogado teria suposto que Dona Marisa comprou um pedalinho." O mesmo não se pode dizer sobre Cunha, Calheiros e tantos corruptos comprovados que não estão passando pelo mesmo constrangimento.

Não sei nada sobre porcaria nenhuma. Mas parafraseando Guimarães Rosa: desconfio de muita coisa. Desconfio, inclusive, de Lula, assim como desconfio de qualquer juiz que tenha uma relação tão promíscua com a imprensa, assim como desconfio da polícia e de quem tira selfiecom ela, assim como desconfio do "Jornal Nacional" e, na mesma medida, de quem aplaude o "Jornal Nacional" –sim, o mesmo jornal que elegeu o Collor e hoje brada contra a corrupção.

É preciso saber um pouco menos ou saber que se sabe muito pouco. Desconfio que o que mais faz falta nesse Brasil tão cheio de certezas é um punhado de dúvidas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Ex-governador de São Paulo e Professor de Direito do Mackenzie, Cláudio Lembo se levanta contra o Golpe Cunha-Temer-PSDB


LEMBO, DO MACKENZIE, SE LEVANTA CONTRA O GOLPE

:
"Os golpes militares da época da Guerra Fria estão sendo substituídos pelo impeachment. A função do Congresso é fiscalizar os governos, e não derrubá-los. Isso é o mesmo que bater às portas dos quartéis", dispara o advogado Cláudio Lembo, professor da USP e do Mackenzie; filiado ao PSD, o estudioso, que já integrou o DEM, afirma que a sua antiga legenda e o PSDB querem "derrubar o governo a qualquer custo", por não se conformarem com o resultado das urnas em 2014; "A elite branca está furiosa. Não entendeu que o Brasil mudou, por isso está perdida", acrescenta

  247 - Advogado e professor de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e do Mackenzie, o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo disparou contra pedidos de impeachment para tirar a presidente Dilma Rousseff do poder.

   "Os golpes militares da época da Guerra Fria estão sendo substituídos pelo impeachment. A função do Congresso é fiscalizar os governos, e não derrubá-los. Isso é o mesmo que bater às portas dos quartéis", diz ele, segundo o colunista da Folha Bernardo Mello Franco.

  Lembo, de77 anos, cita o jurista Pontes de Miranda, para afirmar que a derrubada de um presidente "só se permite, nas democracias, em caso de extrema necessidade".


  "Não se deve buscar interromper o mandato eletivo. Isso é um desrespeito à população, seja quem for o eleito. O impeachment é um instrumento violento, que causa instabilidade à economia e ao país", acrescenta.

   Filiado ao PSD, o professor, que integrou os quadros do DEM até 2011, afirma que a sua antiga legenda e o PSDB querem "derrubar o governo a qualquer custo", por não se conformarem com o resultado das urnas em 2014.

    "A oposição não aceitou o resultado da eleição e quer derrubar o governo a qualquer custo. Só sabem falar em impeachment. Estão perdidos, em estado de neurose coletiva", diz. "A elite branca está furiosa. Não entendeu que o Brasil mudou, por isso está perdida".






Lembo também criticou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que já defendeu a renúncia de Dilma. "Um ex-presidente não devia falar isso. Eu também acho que ele poderia ter renunciado quando comprou a reeleição", dispara.