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quinta-feira, 19 de março de 2026

Pepe Escobar sobre um império em decadência que tenta se salvar pela guerra, o caos e o mosaico da necropolítica

 

Esta é uma guerra de desgaste estruturada. E o roteiro foi escrito em Teerã.

O mosaico da morte por mil cortes, por Pepe Escobar

É a estratégia de longo prazo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma morte por mil cortes, projetada para exaurir o Império do Caos.




por Pepe Escobar

do Strategic Culture e Jornal GGN:

A Defesa Mosaica Descentralizada do Irã – a denominação oficial – está sendo constantemente ajustada: essa é a estratégia de longo prazo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma morte por mil cortes, projetada para exaurir o Império do Caos.

Vamos navegar pelos canais interligados que permeiam o pântano inconstitucional, invencível e estrategicamente catastrófico construído pelo Império do Caos.

A resiliência multifacetada e a estratégia de longo prazo do Irã; a tentação daquele culto da morte horripilante no Oriente Médio de recorrer ao nuclear; o iminente e inexorável inferno dos interceptores; o ímpeto implacável da China de abandonar a velha ordem (acumulando ouro, despejando dólares); o progresso dos BRICS na criação de um sistema financeiro paralelo; o colapso dos vassalos americanos em diversas latitudes: tudo isso está acelerando uma reinicialização radical do sistema.

E então, surge Vladimir Putin, de forma casual, quase como um pensamento tardio, anunciando que talvez não haja gás russo para ser vendido à UE, afinal:

“Talvez fizesse mais sentido para nós pararmos de fornecer gás para a UE e migrarmos para esses novos mercados, estabelecendo-nos lá (…) Novamente, quero enfatizar: não há nenhuma motivação política aqui. Mas se eles vão fechar o mercado para nós em um ou dois meses de qualquer maneira, talvez seja melhor sair agora e focar em países que sejam parceiros confiáveis. Dito isso, esta não é uma decisão. Estou apenas refletindo em voz alta. Vou pedir ao governo que analise isso juntamente com nossas empresas.”

O patético Chanceler Bratwurst pediu permissão ao neo-Calígula para a Alemanha comprar petróleo russo. Ele conseguiu. Mas pode ser que não haja nada para comprar. Esta é uma guerra energética, e a UE, mais uma vez, não se qualifica nem mesmo como um mendigo sem-teto. Nada de gás do Catar, nada de petróleo e gás russo. Agora volte para a sua Guerra Eterna obcecada pela OTAN.

O bombardeio do oleoduto do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) que transporta petróleo.

Imediatamente após o ataque que decapitou o Líder Supremo Aiatolá Kahamenei no último sábado, o Irã adotou um sistema de comando e controle descentralizado, com células e um plano de sucessão em quatro níveis, lançando rajadas implacáveis ​​de mísseis mais antigos e lentos, além de drones descartáveis, para consumir baterias de mísseis Patriot e sistemas THAAD em escala industrial. Com essa manobra, o Irã mudou as regras do jogo já no primeiro dia da guerra.

Qualquer pessoa com um QI acima da temperatura ambiente sabe que usar 3 mísseis Patriot – com um custo combinado de US$ 9,6 milhões – para se defender de um único míssil balístico sacrificial iraniano é completamente insustentável.

Não é de admirar, portanto, que bastaram apenas 4 dias da guerra do sindicato Epstein contra o Irã para que o sistema financeiro global enlouquecesse completamente. US$ 3,2 trilhões evaporaram em questão de 4 dias – e a contagem continua.

O Estreito de Ormuz está praticamente fechado, exceto para navios russos e chineses. Pelo menos 20% da demanda global de petróleo está paralisada. Toda a produção de GNL do Catar está paralisada, sem previsão de retomada. O segundo maior campo de petróleo do Iraque foi desativado.

E ainda assim, o volátil neo-Calígula vocifera que sua guerra, que deveria durar apenas um fim de semana, pode se arrastar por cinco semanas, e outros palhaços do Pentágono industrial-militar estão falando em prolongá-la até setembro.

Ao apontar os interesses dos EUA em todo o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) como alvos legítimos – e não apenas bases militares – o Irã acionou uma bomba-relógio. Trata-se de um ataque direto ao petrodólar (para o deleite silencioso de Pequim). Teerã certamente previu que a reação em cadeia seria instantânea – chegando ao pânico como prelúdio de uma nova Grande Depressão generalizada.

Sem petróleo, e sem uma defesa significativa do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) contra os mísseis/drones do Irã, não haverá mais torrentes de dinheiro falso de Wall Street. Afinal, a bolha da inteligência artificial está sendo financiada por “investimentos” do CCG. O novo bombardeio do Pipeineistan não é do tipo Nord Stream: é o bombardeio do gasoduto financiado pelo CCG e financiado por petrodólares.

Tudo isso está acontecendo em tempo recorde, à medida que o mosaico descentralizado do Irã é aprimorado. Por exemplo, uma série de mísseis antinavio letais – que ainda não foram usados ​​– está sendo coordenada pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), pela Marinha, pelo Exército e pelas Forças Aeroespaciais. O mesmo se aplica aos drones.

Mesmo que os ataques com mísseis balísticos não estejam acompanhando o ritmo frenético inicial, eles são mais do que suficientes para continuar bombardeando de forma constante as bases militares americanas (cujas defesas aéreas já estão amplamente debilitadas); mergulhar o culto da morte no Oriente Médio e nos países do Conselho de Cooperação do Golfo em um inferno econômico total; e aterrorizar cada recanto dos “mercados globais”.

E apesar de toda a fanfarronice em Washington por parte do secretário de Estado para as Guerras Eternas, um sujeito ardiloso e caricato, dezenas de fortalezas militares subterrâneas iranianas, carregadas com dezenas de milhares de mísseis e equipamentos, permanecem invisíveis – e intocáveis.

Falindo o modelo de negócios do Império do Caos 

Esta é uma guerra desesperada para salvar o petrodólar. Uma potência energética como o Irã negociar fora da moeda do petrodólar é o cúmulo da incompetência, especialmente porque o processo está atrelado à iniciativa dos BRICS de estabelecer sistemas de pagamento independentes.

A imensa fragilidade estrutural do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – os vizinhos do Irã – os torna uma presa ideal. Afinal, todo o seu modelo de negócios é baseado no petrodólar em troca de uma “proteção” mafiosa dos EUA, que desapareceu como fumaça nos primeiros quatro dias da guerra.

Prepare-se para ver a Máquina de Guerra Assimétrica do Irã levando o modelo de negócios do Império do Caos à falência em tempo real.

A prova definitiva é a implosão do sonho ostentoso de Dubai – muito mais do que a devastação imposta aos interesses da 5ª Frota dos EUA no Bahrein e até mesmo um míssil balístico destruindo o radar de varredura eletrônica AN/FPS-132 de US$ 1,1 bilhão na Base Aérea de Al Udeid, no Catar.

Uma ruptura coordenada e em curso no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), já inevitável, significará eventualmente o fim da reciclagem do petrodólar, abrindo caminho para o petroyuan ou para o comércio de energia em uma cesta de moedas dos BRICS.

“Xeque-mate” vem do persa “Shah Mat”, que significa “o rei está indefeso”. Bem, o imperador neocalígula pode não saber que está nu, porque é incapaz de jogar xadrez. Mas está apavorado o suficiente para começar a procurar desesperadamente uma saída.

Corredor aéreo Astrakhan-Teerã

Agora, vamos ao papel da Rússia. O foco deve ser no corredor aéreo Astrakhan-Teerã, repleto de voos secretos de carga. O aeródromo militar de Chkalovsk, perto de Astrakhan, é o principal centro logístico do corredor: cargas como o Il-76MD, o An-124 e o Tu-0204-300C são transportadas de um lado para o outro cobertas com um material especial que reduz a visibilidade do radar e as esconde dos sistemas de rastreamento civis.

A carga chega ao aeroporto de Mehrabad, em Teerã (não é de admirar que tenha sido bombardeado por Israel), e aos terminais Pyam e Shahid Behesthi, em Isfahan. A logística multimodal também é utilizada, já que parte da carga é entregue pelo Mar Cáspio.

Tudo é coordenado pela 988ª Brigada de Logística Militar de Astrakhan. A carga inclui componentes para sistemas de defesa aérea; módulos de orientação por radar; sistemas hidráulicos para lançadores de mísseis; módulos de radar de detecção de longo alcance.

Além disso, sob um protocolo secreto, a Rússia está fornecendo ao Irã tecnologia de ponta em guerra eletrônica, incluindo uma versão de exportação do Krasukha-4IR, capaz de interferir nos sistemas de radar de drones americanos.

A isso se soma o fato de que o Irã em breve implantará baterias completas do sistema S-400, o que lhe permitirá controlar até 70% do espaço aéreo iraniano.

Como a tensão econômico-política se tornará insuportável

E agora, quanto ao papel da Turquia.

Há apenas dois meses, o MIT – o serviço de inteligência turco – alertou diretamente a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) de que combatentes curdos estavam tentando cruzar do Iraque para o Irã. Pense nisso: um membro pleno da OTAN repassando informações operacionais urgentes para a IRGC justamente quando o grupo Epstein se preparava para a guerra.

Há pelo menos 15 milhões de curdos vivendo dentro do Irã. A última coisa que Ancara deseja é um maior poder para os curdos no país. Apesar de toda a cautela insaciável do Sultão Erdogan, ele sabe que não pode antagonizar Teerã frontalmente. Ele precisa equilibrar uma miríade de interesses que misturam a OTAN; o corredor energético com a Rússia – mas também o corredor energético para o Ocidente através do gasoduto BTC; e o papel de âncora ocidental no Corredor Médio para a China.

Por isso, o suposto míssil balístico iraniano, supostamente apontado para a Turquia e disparado pela OTAN, não foi considerado um grande problema: os ministros das Relações Exteriores, Fidan (Turquia) e Aragchi (Irã), discutiram o assunto com naturalidade. Há uma névoa de guerra impenetrável em torno disso: o míssil pode ter sido enviado para paralisar o terminal petrolífero do BTC e os drones subsequentes lançados contra a Geórgia visavam atingir o ponto mais vulnerável do BTC.

Nada disso está confirmado – e será impossível confirmar. Isso poderia muito bem ter sido uma operação de falsa bandeira – embora Teerã possa estar bastante interessada em cortar 30% do fornecimento de petróleo de Israel.

O oleoduto BTC continuará em jogo, atravessando a Geórgia e transportando petróleo bruto do Azerbaijão através do Cáucaso até a costa mediterrânea da Turquia. Bombardear o BTC estaria em consonância com a estratégia iraniana de cortar todos os corredores energéticos que alimentam o grupo Epstein e seus aliados no Golfo Pérsico, no Cáucaso e em todo o Mediterrâneo.

Ao longo da Rota da Seda, outras ações lógicas do Irã seriam atacar o oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita (que contorna o Estreito de Ormuz); as plataformas de carregamento offshore do Iraque em águas territoriais iranianas, que movimentam 3,5 milhões de barris por dia; e o centro de processamento de Abqaiq, que processa a maior parte do petróleo bruto saudita antes de chegar aos terminais de exportação.

Se o Irã, sob extrema pressão, for forçado a atingir todos os objetivos acima, não existe nenhuma reserva estratégica de petróleo no planeta capaz de suprir essa demanda.

Nessa interconexão infernal de corredores energéticos, rotas marítimas, cadeias de suprimentos globais, segurança marítima e com o preço do petróleo fora de controle, só os palhaços do Pentágono poderiam querer prolongar a guerra até setembro. Ásia, Europa e todos os importadores de energia no tabuleiro de xadrez exercerão pressão máxima por qualquer medida de desescalada.

A estratégia assimétrica do Irã, no entanto, permanece inabalável: expandir a guerra horizontalmente e prolongar o cronograma ao máximo para tornar a tensão econômico-política insuportável.

Tradução: isto não é uma manobra relâmpago para mudança de regime orquestrada por um bando de psicopatas. Trata-se de uma Guerra de Atrito Estruturada. E o roteiro foi escrito em Teerã.

Pepe Escobar – Analista geopolítico independente, escritor e jornalista.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Vídeo: O estrago que a Lava Jato fez no Comperj e outras obras no Brasil e América Latina



Com uma investigação que não se preocupou em preservar as grandes empreiteiras do País, a Lava Jato é, ao mesmo tempo, uma "benção e uma maldição" para o Brasil, diz o vídeo do Vox


Jornal GGN – O vídeo acima foi lançado pelo site de notícias estrangeiro Vox em 2018, mas continua atual. Mostra o impacto da Lava Jato na economia brasileira, ao desmantelar a construção civil e o setor de petróleo, eliminando milhares de empregos e paralisando obras que seriam um diferencial para o desenvolvimento do país.
O caso emblemático é o do Comperj, o maior completo petroquímico do Brasil, no Rio de Janeiro, cujas obras foram suspensas em 2015, na esteira do escândalo feito pela Lava Jato.
A cidade de Itaboraí chegou a receber 40 mil pessoas nos últimos anos interessadas em colher os frutos dos postos de trabalho que seriam gerados graças ao empreendimento. Mas tudo se perdeu quando a Petrobras, dona da Comperj, caiu na operação então conduzida por Sergio Moro.
Hoje, a obra foi retomada graças a uma parceria com chineses, mas com muito menos vagas de emprego do que antes.
O vídeo é claro: o problema da Lava Jato é que o caso Comperj não é um “incidente isolado”, mas algo que se repete em outras grandes obras no Brasil e América Latina.
Com uma investigação que não se preocupou em preservar as grandes empreiteiras do País, a Lava Jato é, ao mesmo tempo, uma “benção e uma maldição” para o Brasil, diz o vídeo do Vox.
Uma benção pelo mérito de ter revelado o esquema de corrupção nas entranhas da Petrobras, que serviu para encher o bolso de ex-executivos da empreiteira com contas no exterior, favorecer grandes empresas e financiar campanhas eleitorais. Mas de outro lado, a Lava Jato corroeu a democracia brasileira, pois demonstrou, ao longo dos anos, o viés político que derrubou uma presidenta, prendeu outro e elegeu um terceiro, de extrema-direita, de seu agrado.

O GGN prepara uma série de vídeos explicando a interferência dos EUA na Lava Jato. Quer apoiar esse projeto? Saiba como emwww.catarse.me/LavaJatoLadoB

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Petróleo, guerra e corrupção seletiva: para entender Curitiba, por José Luís Fiori e William Nozaki



O "mercado mundial” do petróleo nunca teve nada a ver com o que os economistas ortodoxos e liberais chamam de “livre concorrência”, e sempre foi um “campo de guerra” entre grandes corporações  e grandes potências.

Petróleo, guerra e corrupção: para entender Curitiba.                                   

 por José Luís Fiori[1] e William Nozaki[2], no GGN

Os norte-americanos costumam festejar as duas grandes gerações que marcaram sua história de forma definitiva: a geração dos seus founding fathers, responsável pela criação do seu sistema político, na segunda metade do século XVIII; e a geração dos seus robber barons, responsável pela criação do seu capitalismo monopolista, na segunda metade do século XIX. Dentro da geração dos “barões ladrões”, destaca-se a figura maior de John D. Rockefeller, que ficou associada de forma definitiva ao petróleo e à criação da Standard Oil Company, a primeira das “Sete Irmãs” que controlaram o mercado mundial do petróleo até o final da II Guerra Mundial, e ainda ocupam lugar de destaque entre as 15 maiores empresas capitalistas do mundo.
A Standard Oil foi criada logo depois da Guerra Civil, em 1870, mas no final do século XIX, a empresa de Rockefeller era a maior petroleira dos EUA, e a maior fornecedora do querosene que iluminava as grandes cidades de todo o mundo. Segundo seus biógrafos, Rockefeller era um homem piedoso e costumava viajar acompanhado por dois pastores que lhe davam assistência religiosa,[3] mas ao mesmo tempo dirigia sua empresa com métodos impiedosos, na busca desenfreada da ganância capitalista, chegando até a destruição de seus concorrentes sempre que se fizesse necessário. Por isso talvez, seu irmão, William Rockefeller, costumasse se referir à concorrência no mercado do petróleo como um exercício de “guerra e paz”.[4] Na medida em que avançou a centralização do capital, e o petróleo se transformou na commodity mais importante e estratégica do mundo, o comportamento de John Rockefeller virou uma espécie de “paradigma ético” da indústria mundial do petróleo.
No início do século XX, a indústria do petróleo se associou à indústria da guerra e se transformou na “energia” que passou a mover navios, tanques e aviões das Forças Armadas das Grandes Potências, sobretudo na Segunda Guerra Mundial, e em todos os conflitos militares que se seguiram até o século XXI. O petróleo teve papel decisivo na Guerra do Pacífico, desencadeada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941, e foi o motivo central do ataque alemão à União Soviética, em 1941, que se propunha chegar ao Azerbaijão, conquistando o petróleo do Cáucaso e do Mar Cáspio. Depois disso, o petróleo foi decisivo para o Golpe de Estado no Irã, em 1953, patrocinado pelos EUA e pela Inglaterra, e também para a Crise do Canal de Suez em 1956. E voltou a ter papel central na Guerra do Yom Kippur, em 1973, na Guerra Irã-Iraque da década de 80, na Guerra do Golfo, em 1991, na Guerra do Iraque, em 2003, na Guerra da Líbia, em 2011, e na Guerra da Síria que se prolonga até hoje.
Em 1945, logo depois do fim da guerra, os EUA firmaram sua principal aliança estratégica em todo o mundo, e até hoje, com a Arábia Saudita, que naquele momento detinha a maior reserva de petróleo do mundo. Em 1979, depois da Revolução Islâmica do Irã, o presidente Jimmy Carter estabeleceu a sua famosa doutrina estratégica de que tudo o que envolvesse o controle do petróleo do Golfo Pérsico (e do mundo, se poderia agregar) passaria a ser considerado como uma questão de segurança nacional dos EUA. Uma doutrina estabelecida com a plena consciência de que o petróleo também é uma questão de segurança estratégica para todas as demais potências do mundo que disputam as mesmas reservas mundiais que têm dois terços concentrados no território de apenas 15 países, dos quais em 13 as reservas são controladas por seus próprios Estados-nacionais e suas empresas petroleiras estatais.
Essa consciência coletiva de que o petróleo é um recurso indispensável à segurança estratégica dos países acabou consolidando uma parceira indissolúvel entre seus Estados-nacionais e suas empresas petroleiras, na luta pela expansão e monopolização dos recursos e dos mercados petroleiros. Isto também no caso das grandes corporações privadas norte-americanas que operam em conjunto com o governo dos EUA, suas Forças Armadas e suas Agências de Informação. É esta estreita aliança, e a visão do petróleo como uma “commmodity geopolítica”, que explicam a utilização de todo e qualquer meio que seja necessário para assegurar o controle dos novos recursos e mercados que apareçam, mesmo que seja necessário mudar regimes e governos, ou corromper governantes, políticos e executivos, ou mesmo juízes, procuradores, religiosos e quem quer que seja necessário para a realização de seus objetivos estratégicos.
Relembremos apenas alguns casos mais recentes e divulgados pela imprensa internacional, de compra de favores e de promoção de mudança de governos, ou mesmo de guerras civis, motivadas por questões petroleiras, ou financiadas diretamente pelas grandes corporações do petróleo.
  1. Nos anos 1990, a Mobil e outras petroleiras americanas teriam pago um suborno de US$ 80 milhões para a conta bancária suíça do presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbaev, numa operação casada com a Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA;[5]
  2. Entre 2000 e 2002, a Chevron teria pago sobretaxas para corromper o Programa Petróleo por Comida, da ONU, na época em que Condoleezza Rice era conselheira daquela empresa;[6]
  3. Em 2003, a Exxon teria pago US$ 500 milhões ao presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguem Mbasogo, depositados numa conta bancária privada e pessoal nos Estados Unidos;[7]
  4. Ainda em 2003, a petroleira norueguesa Statoil teria pago US$ 2,9 milhões para garantir contratos no Irã;[8]
  5. Entre 2004 e 2006, Gazprom, a maior empresa de gás natural da Rússia, teria pago suborno em conexão com a construção do gasoduto Yamal, que liga a Sibéria à Alemanha;[9]
  6. Em 2005, um inquérito independente liderado por Paul Volcker denunciou um sistema regular de propinas, sobretaxas e pagamentos a indivíduos com acesso ao petróleo iraniano, dentro do Programa Petróleo por Comida, incluindo a petroleira francesa Total, que foi acusada de suborno, cumplicidade e tráfico de influência no período 1996-2003, apesar de ter sido depois inocentada por um tribunal criminal de Paris, tão francês quanto a própria empresa;[10]
  7. Em 2006, a empresa francesa Total teria comprado o apoio de políticos e empresários italianos para garantir concessões a preço abaixo do mercado, num golpe avaliado em 15 milhões de euros;[11]
  8. Em 2009, a Exxon teria vencido uma concorrência na Nigéria com uma proposta muito inferior a dos seus concorrentes, mediante suborno das autoridades locais;[12]
  9. Em 2011, a Exxon teria se enredado na corrupção do setor petroleiro da Libéria para a compra de um bloco petrolífero envolvendo outras empresas, incluindo a de Visconde Astor, sogro do ex-primeiro ministro da Inglaterra, David Cameron;[13]
  10. Também em 2011 a Shell e a ENI teriam pago mais de US$ 1 bilhão como suborno a executivos nigerianos do petróleo;[14]
  11. Nesse mesmo ano, 2011, a Statoil foi denunciada por ter feito pagamento sistemático de propinas para consultores da Líbia e de Angola, no valor de US$ 100 milhões, pagos desde o ano de 2000;
  12. Em 2017, na própria Arábia Saudita, uma longa investigação de corrupção no mundo do petróleo prendeu dezenas de príncipes e empresários proeminentes;[15]
  13. Mais recentemente, em 2019, na Guiana, segue avançando uma investigação sobre o uso de suborno de autoridades governamentais, pela ExxonMobil e a Tullow Oil, para obter o direito de exploração da mais nova região petrolífera de águas profundas do mundo;[16]
  14. Voltando um pouco atrás, ainda em 1994, a Halliburton teria pago um suborno de U$ 182 milhões a governantes da Nigéria, para participar do Projeto de Gás Natural Liquefeito de Bonny Island.[17]
  15. E já se pode acrescentar nesta lista a importante confissão do Sr. Pedro Barusco, que foi gerente de Serviços da Petrobras, entre 1995 e 2010, e que participou das negociações com a empresa Halliburton para a entrega das plataformas P43 e P48.[18] Segundo o engenheiro, executivos da petrolífera brasileira já vinham recebendo propinas, pelo menos desde 1997, as mesmas que depois foram pagas por empresas brasileiras – como Odebrecht, OAS, entre outras – que substituíram empresas estrangeiras como fornecedoras da Petrobras.[19]
  16. Paremos por aqui, pois tais casos parecem intermináveis; basta dizer que um estudo do cientista político da Universidade da Califórnia, Paasha Mahdavi, constatou que dos 141 processos movidos entre 1977 e 2013 pela Security and Exchange Commission (SEC) e pelo Departamento de Justiça norte-americano (DoJ), 41 – praticamente um terço – foram ações anticorrupção relacionadas ao setor de óleo e gás.
    Mas ainda assim, não há dúvidas de que o caso recente mais emblemático de como opera este “mercado mundial” de petróleo, é o caso da Guerra do Iraque de 2003, concebida pelo vice-presidente Dick Cheney, e que foi travada em nome do combate às armas de destruição em massa. Ainda que tenha servido de fato como uma forma de mudar o governo e o regime político do Iraque, o objetivo final era mesmo impor a supremacia das empresas americanas na exploração do petróleo iraquiano, incluindo o escandaloso caso do favorecimento da empresa norte-americana Halliburton, que havia sido presidida pelo próprio vice-presidente dos EUA Dick Cheney, entre 1995 e 2000.
    Todas estas histórias nos permitem extrair pelo menos três conclusões que podem nos ajudar a entender os acontecimentos recentes aqui no Brasil:
    1. O “mercado mundial” do petróleo nunca teve nada a ver com o que os economistas ortodoxos e liberais chamam de “livre concorrência”, e sempre foi um “campo de guerra” entre grandes corporações  e grandes potências;”
    2. Dentro deste “campo de guerra”, aquilo que os pastores, os juristas e o “homem comum” chamam de “corrupção” – goste-se ou não – foi sempre uma prática regular da competição entre as grandes petroleiras, na sua disputa por novos recursos e novos mercados;
    3. Por fim, há fortes evidencias de que estas mesmas corporações que subornam e “corrompem” costumam utilizar a surpreendente acusação de ”corrupção” contra seus concorrentes e contra todo e qualquer tipo de concorrentes ou adversário que se interponha no seu caminho.
    4. Agora bem, se esta foi sempre a “ética do petróleo”, não causa surpresa a confissão do Sr Pedro Barusco, de que as grandes petroleiras e fornecedoras da Petrobras tenham pago propinas aos dirigentes da empresa, pelo menos desde 1997, durante o governo do Sr. Fernando H. Cardoso, e provavelmente desde muito antes. Por outro lado, conhecendo as regras deste jogo extremamente violento, seria possível que tenham sido estas mesma petroleiras americanas que tenham repassado a informação do seu “suborno”, para o Departamento de Justiça americano,  no momento em que foram prejudicadas pela política do governo Lula de proteção dos fornecedores nacionais da Petrobras, e muito mais ainda, depois do anuncio da descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, em 2006. E por último, faz sentido pensar que o próprio governo americano tenha repassado estas informações para os seus subordinados brasileiros:  escritórios de advocacia, juízes, procuradores, jornalistas, militares, e todos que participaram da “conspiração de Curitiba”. De qualquer forma, devido a performance presidencial desta figura patética que foi parida pela conspiração, o mais provável é que sejam os próprios norte-americanos que venham a revelar, em breve, os detalhes desta história, como já passou com o documentário,  “A Privacidade Hakeada”.

    5. 28 de agosto de 2019
  17. [1] Professor titular do Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ); pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).
    [2] Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).
    [3] Yergin, D. O petróleo. Uma história mundial de conquista, poder e dinheiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010, p. 53.
    [4] Idem, p. 37-54.
  18. [18] Barusco, P., “Comecei a receber propina em 1997, 1998. Foi uma inciativa minha, pessoal. De forma mais ampla, com outras pessoas da Petrobras, a partir de 2003, 2004”. In: “Barusco diz que começou a receber propina em 1997”, EBC, Agência Brasil, 10/03/2015.
    [19] Fiori, J. L.; Nozaki, W. “Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável”. Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/artigo/2019/07/1011357-conspiracao-e-corrupcao–uma-hipotese-muito-provavel.html