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quinta-feira, 25 de maio de 2023

Xadrez do arcabouço e o nó da tática defensiva de Lula, por Luís Nassif

 

Tem-se uma correlação de forças desfavorável. Que estratégia adotará? Nunca a habilidade política de Lula será colocada tanto à prova.



Peça 1 – o cenário político 


O primeiro passo do estrategista é analisar o cenário político. 

Vulnerabilidades

  1. Congresso, dominado pelo Centrão e direita.
  2. Mercado, com ampla influência na mídia.
  3. Forças Armadas, ocasionalmente legalistas, mas nem tanto.

Trunfo


Popularidade –> Bem estar –> Economia 

Ou seja, a única arma para enfrentar essa soma de vulnerabilidades é reforçar a popularidade.  Só que ela depende do bem estar geral – consumidores e empresas – que depende da melhora da economia. E tem-se um tempo político pela frente que, se não for bem administrado, tornará a crise política irreversível.

Economia


Por sua vez, a economia depende do entrelaçamento de uma série de fatores: investimentos público, privado e externo, fortalecimento do mercado de consumo etc.

O fator juros


Em todos esses elementos, entra o fator Selic-taxa de juros.

Vamos remontar o quadro acima com os fatores diretamente afetados pela Selic.

Por exemplo, o Estado disponibiliza investimentos para o setor privado, como uma obra de engenharia. Só que a empresa precisará de capital de giro para construir a obra e, depois, receber o pagamento. E a taxa de juros é essencial para viabilizar o investimento. 

No caso do investimento privado, a taxa de juros inviabiliza a tomada de dinheiro e o mercado de consumo. No caso do investimento externo, influencia diretamente a relação dívida/PIB.

Ou seja, sem a redução da Selic, não se tem recuperação da economia, não aumenta o bem estar do país e não permite a Lula fortalecer a popularidade para enfrentar as vulnerabilidades e as próximas eleições.

Peça 2 – a estratégia Haddad


A estratégia montada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, consiste nos seguintes pontos.

  1. Não mexer com nenhum dos dogmas do mercado, a começar pela independência absoluta do Banco Central.
  2. Dentro das regras do mercado, apresentar uma alternativa à Lei do Teto, o arcabouço fiscal.
  3. Com base no arcabouço, tirar o último álibi do Banco Central para não reduzir a taxa Selic.
  4. Sem esse álibi, aumentariam as pressões do setor privado e político sobre o BC, forçando-o a reduzir a Selic.
  5. Reduzindo a Selic, a economia começaria a respirar, permitindo a Lula recuperar popularidade e incrementar as políticas de inclusão.

Para aprovar o arcabouço, no entanto, teve que se sujeitar a uma série de restrições: limites rígidos de despesas, pouco espaço para o investimento e, ainda, compromisso de equilíbrio fiscal a partir do próximo ano e de superávit a partir de 2025. O arcabouço conseguiu até o feito de incluir o Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação), que havia ficado de fora da Lei do Teto.

Para conseguir aumentar os gastos, o governo terá que aumentar as receitas. Mesmo assim, há um limite de crescimento de 2,5% nos gastos.

Se o governo errar na projeção, a diferença será paga em 2025. Ou seja, se a Fazenda não conseguir cumprir suas metas de equilíbrio fiscal, a diferença será cortada dos gastos no ano seguinte.

Pelo modelo proposto, as metas serão alcançadas pelo aumento das receitas – decorrente do corte de subsídios injustificados e restrições à engenharia fiscal de grandes empresas.

Ao apostar todas as fichas no arcabouço, em um primeiro momento a Fazenda amplia ainda mais as restrições à recuperação da economia, esperando recuperar no segundo momento.

É uma aposta temerária. Em preto, as restrições sob controle do BC; em vermelho, as restrições impostas pelo arcabouço fiscal.

Para essa estratégia dar certo, terá que ocorrer, simultaneamente, uma redução da Selic e um aumento da receita. Se ambos os desafios falharem, se terá o comprometimento total das peças necessárias para um processo de recuperação da economia: os investimentos e gastos públicos.

Peça 3 – os 2 reis do tabuleiro


Para sua estratégia ser bem sucedida, Haddad terá que contar com a boa vontade de dois personagens absolutamente não confiáveis:

  1. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, para reduzir a Selic.
  2. O presidente da Câmara Arthur Lira, para endossar a retirada de privilégios fiscais.

No primeiro movimento, ambos foram mais que parceiros, foram os verdadeiros autores do arcabouço. Não houve, da parte do governo, nenhuma disputa política em torno do arcabouço e nem da reforma administrativa. 

Não se trata de nenhuma crítica a Haddad, mas de um dado da realidade: Arthur Lira é senhor da situação, assim como Campos Neto. Mas fica a dúvida: Haddad se adapta à estratégia de não enfrentamento de Lula; ou, de fato, passou a endossar todos os princípios de política econômica do mercado?

A esperança de Haddad é que, entregue o que Campos Neto pediu, haja uma pressão de seus aliados pela redução da Selic.

Aí, é importante analisar o entorno de Campos Neto e Lira.

Roberto Campos Neto


Há duas explicações para sua insistência em uma Selic desproporcionalmente elevada. 

A primeira, o álibi da ignorância, o sujeito que segue o manual sem a menor noção sobre o objeto afetado. Seu único universo de análise é o mercado, não a economia real.

O segundo, a ideologia. A economia saiu de um período de ultraliberalismo, de grandes negócios com empresas públicas, de esvaziamento de políticas públicas, que vai do interinato de Temer ao período Bolsonaro-Paulo Guedes. Campos Neto é um soldado de Guedes. Manter a Selic em 13,75%, ou derrubá-la lentamente, significará o fracasso de qualquer política alternativa, por mais tímida que seja, e a volta do padrão Paulo Guedes. Ou seja, a Selic hoje é uma garantia da volta do ultraliberalismo em 2026.

A esperança seria um aumento expressivo da pressão dos setores produtivos. Há um tsunami a caminho, uma quebradeira generalizada, sem despertar a menor sensibilidade da mídia. Na reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, o alerta de Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) sobre o vendaval que vem pela frente passou quase em branco. E a indústria está órfã de lideranças fortes.

Qual a probabilidade de que Campos Neto, por livre vontade, proceda a uma redução significativa da Selic? Digamos que seja de 40%.

Arthur Lira

Lira é negócio. Aprovou o arcabouço fiscal porque interessava diretamente seus patrocinadores. E não tem o menor interesse de aprovar retirada de subsídios aos grandes grupos econômicos.

Agora, há duas possibilidades pela frente: ou a Fazenda consegue reduzir benefícios fiscais de grandes grupos, ou terá que ampliar a privatização para fazer caixa. Ora, benefícios fiscais tem grandes interessados pela frente. Queda de gastos sociais, também. Qual a probabilidade de Lira apoiar as medidas de restrição dos subsídios? Digamos, de 30%, com otimismo.

Juntando as duas probabilidades, se terá uma probabilidade total de 12% de implementação das duas medidas centrais para a estratégia Haddad ser bem sucedida.

Peça 4 – a estratégia da não confrontação


Até agora, o que se percebe é a incapacidade do governo de enfrentar qualquer frente de pressão.

CongressoA mudança no projeto de reforma administrativa mostra o amplo controle conservador sobre a Câmara. A bancada ruralista conseguiu esvaziar o Ministério do Meio Ambiente e o dos Povos Indígenas, abrindo a porteira para a demarcação de terras indígenas. Por mais que o governo queira comemorar, a aprovação do arcabouço foi vitória de Arthur Lira.
MercadoHaddad encampou completamente o discurso de mercado e de restrições fiscais. Dificilmente abrirá fogo contra Campos Neto, o que atrasará substancialmente a redução de juros.
Forças ArmadasLula entregou o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) a um militar, colocou sob suas asas a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) e manteve sem nenhuma forma de controle civil a inteligência militar. Os militares continuam com os mesmos espaços conquistados nos últimos anos.

A crise econômica


Confira-se a pesquisa Focus, que levanta as expectativas do mercado. É o melhor termômetro das intenções do Banco Central, devido à interação permanente entre Campos Neto e o mercado.

Na última pesquisa, a previsão é 2023 fechando com Selic a 12,5%; 2024 com Selic a 10%; e 2025 com Selic a 9%.

Já em relação ao PIB, a Focus prevê 1,20% em 2023, 1,30% em 2024 e 1,70% em 2025. As expectativas em relação a 2024 e 2025 são mero chutômetro.

É evidente que, com a projeção de Selic e de PIB, a dívida líquida do setor público só poderia subir. E a Focus trabalha com estimativas de 60,80% do PIB em 2023, 64,45% e 2024 e 67% em 2025.

Se o mercado estiver  certo, a economia afunda.

Peça 5 – a contagem regressiva

É evidente que o governo está fragilizado e batendo cabeça. Não colou a tentativa de apresentar como vitória a aprovação do arcabouço fiscal.

Mas é evidente, também, que nenhum governo vai para o matadouro sem reagir. Em algum momento será necessário uma freada de arrumação com Lula interrompendo sua ofensiva internacional, voltando-se para o dia a dia político e articulando as armas de que dispõem a Presidência.

Há um conjunto de instrumentos para enfrentar a crise, e que passam ao largo do arcabouço fiscal, como o poder de fogo dos bancos públicos, os projetos da Petrobras, os estímulos fiscais a novos investimentos.

A questão é o tempo político e a disposição política de Lula de sair da cartilha liberal – algo que só ocorreu nos dois primeiros governos devido à crise mundial de 2008.

Na sua volta ao poder, em 1950, Getúlio Vargas não demonstrava mais o tirocínio político e a energia do período anterior. Conspiravam contra o novo quadro político, diferente do seu período de liderança, a própria idade e o clima anticorrupção pesado, que precede os grandes golpes.

As constantes viagens internacionais de Lula são relevantes para a recolocação do país na geopolítica internacional e para a atração futura de investimentos. Mas a grande batalha é aqui e agora. E tem-se uma correlação de forças fortemente desfavorável.

Que estratégia adotará? Nunca a habilidade política de Lula será colocada tanto à prova. Mesmo sabendo-se que no fim do túnel tem um bolsonarismo aguardando a presa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Offshores e os crimes de Paulo Guedes e Roberto Campos, por Paulo Kliass

 

As extensas listas dão a volta pelos continentes e apresentam nomes de atuais e antigos Chefes de Estados, ministros e ex ministros, milionários, empresários e demais personalidades do globalizado mundo das finanças e do poder.

Os crimes de Guedes e Campos

por Paulo Kliass (publicado no Jornal GGN)

As revelações trazidas a público recentemente pelo movimento “Pandora Papers” são prá lá de muito graves. Trata-se de um vazamento articulado de informações confidenciais que foram enviadas ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), tendo por fonte as bases de dados de contas bancárias e depósitos financeiros de natureza similar mantidas junto aos chamados paraísos fiscais. As extensas listas dão a volta pelos continentes e apresentam nomes de atuais e antigos Chefes de Estados, ministros e ex ministros, milionários, empresários e demais personalidades do globalizado mundo das finanças e do poder.

A participação tupiniquim nesse universo faz companhia a figuras como o Presidente do Azerbaijão e o Rei da Jordânia. Além disso, há suspeitas e denúncias envolvendo o Presidente Putin da Rússia, o presidente do Quênia e o ex primeiro ministro britânico Tony Blair. A lista de empresas brasileiras é extensa, com destaque para o grupo Prevent Senior, envolvido até o pescoço nos escândalos recentes da covid em revelações obtidas na CPI do Senado Federal.

Ao longo dos últimos anos foram divulgados vários dossiês desse tipo, contendo informações consideradas secretas nesse espaço sensível que tangencia a política, os negócios e os crimes. Em 2013 foi revelado o “Offshore Leaks”, em 2016 veio à tona o “Panama Papers” e em 2017 foi a vez do “Paradise Papers”. As razões para que esse tipo de aplicação financeira suspeita ainda seja realizada pode variar de caso para caso, de país para país, mas o fato inegável é que ninguém procura esse tipo de conta se não tiver nada a esconder ou nenhum imposto a sonegar. Os atrativos ficam por conta dos benefícios oferecidos pelos chamados “paraísos fiscais”, que se propõem a assegurar o sigilo das informações e a conceder a isenção tão desejada de tributos nas operações que oferecem à seleta clientela.

Listas e mais listas: escândalos em sequência.

Até algumas décadas atrás, esse tipo de serviço era oferecido, em especial, pelas instituições bancárias e financeiras baseadas na Suíça. Muito antes da digitalização atingir também o universo das finanças internacionais, a alternativa de deixar os recursos a salvo em contas mantidas por bancos suíços era considerada bastante segura. A legislação daquele país estabelecia o total segredo das informações como um princípio organizador do sistema. A transparência passava longe de tais operações e apenas ocasionalmente alguma ou outra denúncia era objeto de vazamento.

Em abril de 1980, por exemplo, em plena ditadura militar no Brasil, um periódico da imprensa alternativa trouxe a público uma revelação escandalosa. O jornal “Hora do Povo” divulgou uma lista com políticos e empresários que seriam detentores de contas bancárias na Suíça. Ali estavam nomes como Presidente General Geisel e seu antecessor General Medici, além de ministros e ex ministros como Delfim Neto, Mário Andreazza, Roberto Campos, Golbery do Couto e Silva, Mário Henrique Simonsen, Shigeaki Ueki, e Jarbas Passarinho, entre outros. Apesar da baixa credibilidade das fontes utilizadas para a matéria, a divulgação atingiu o núcleo duro do regime. Tendo em vista a situação política que o país vivia naquele momento, a resposta do regime foi a apreensão da edição do jornal e o enquadramento do mesmo e de seus responsáveis na Lei de Segurança Nacional. Nenhuma denúncia foi investigada à época.

Apesar das enormes pressões internacionais e mesmo locais para que a legislação suíça fosse alterada, o processo de mudança foi bastante lento e apenas a partir do início de 2017 o segredo bancário foi oficialmente eliminado naquele país. Afinal, era de conhecimento geral que as regras do anonimato atendiam especialmente aos interesses do tráfico de drogas, do tráfico de armas, do contrabando em geral e de outras atividades ilícitas realizadas no plano internacional. Com a perda do sigilo no país dos cantões, ganharam mais espaço no submundo das ilegalidades aquelas operações conhecidas como “offshore” nos paraísos fiscais, onde o segredo continuaria – ao menos, em tese – a ser garantido aos depositantes.

Mais do que apenas a atratividade oferecida aos recursos de origem criminosa ou irregular, os paraísos fiscais converteram-se cada vez mais em alternativas para operações do coração do financismo internacional. O processo complexo e dinâmico de globalização e digitalização dos recursos financeiros em sua busca incansável por maiores taxas de rentabilidade supera os limites dos sistemas de investimento e as próprias fronteiras nacionais. Na verdade, o que se tem verificado ao longo dos últimos anos é um processo cuja marca principal é a tentativa de “normalização” de tais mecanismos de investimento fortemente carregado de viés especulativo.

Offshores: tentativa de normalização das operações suspeitas.

A ausência de regulamentação internacional para esses movimentos de capital faz com que os derivativos, as aplicações em fundos sem nenhum lastro na economia real e outras modalidades gestadas pela criatividade intensa do processo de financeirização descontrolada fiquem livres, leves e soltos para existir, se valorizar e migrar no éter do financismo globalizado. Como não existe um poder público supranacional com competência delegada para regular esses movimentos, a única alternativa que resta até o presente momento é esperar por uma nova crise para trazer um pouco esses atores ao mundo real. Porém, o que se percebe pelas experiências anteriores é que os Estados se mexem tão somente para evitar grandes prejuízos aos poderosos e promovem uma socialização dos prejuízos com imposição de perdas sobre a massa da população. Tudo isso em razão de uma passividade absoluta que o descontrole causa ao sistema.

Por aqui, a revelação de que o Superministro da Economia e o todopoderoso Presidente do Banco Central detêm recursos milionários em contas nesses paraísos fiscais não parece interessar muito aos grandes meios de comunicação. Uma das razões pode ser a divulgação anterior de que alguns destes grupos de comunicação estejam também envolvidos em operações semelhantes, como divulgado em listas de anos passados. Além disso, talvez eles não estejam lá muito interessados no desgaste e eventual substituição de figuras que garantem de forma rígida a austeridade e defendem com fidelidade canina os interesses do financismo no comando da economia brasileira. O fato é que o pouco destaque oferecido ao escândalo e a tentativa de passar panos quentes nas ilegalidades denunciadas é mais do que evidente.

Na verdade, pouco importa se Paulo Guedes e Roberto Campos Neto apontaram a existência das contas no exterior em suas declarações anuais à Receita Federal. A questão que se coloca é de um evidente e profundo conflito de interesses nos casos sob análise. Afinal, ambos são membros natos do Conselho Monetário Nacional (CMN), colegiado que define as regras e os detalhes operacionais de todas essas modalidades de aplicações financeiras. Além disso, a dupla é responsável direta pela definição de elementos essenciais da política econômica do País, inclusive no que se refere à política cambial. O caminho adotado por eles foi o mesmo de dezenas de outros brasileiros, que optaram por enviar seus recursos ao exterior em contas de offshores e chegam a serem devedores de quase R$ 17 bilhões em impostos aos cofres públicos. Tudo dentro da lei?

Pela demissão imediata de Guedes & Campos.

Por outro lado, o governo Bolsonaro encaminhou recentemente ao legislativo projetos de alteração na legislação tributária. Ao longo da tramitação, Guedes convenceu o relator da matéria a retirar a incidência de Imposto de Renda sobre os valores mantidos nas “offshores”. Trata-se da mais evidente e descarada manifestação daquilo que se conhece no popular como “legislar em causa própria”. Com o detalhe de que estava ali se utilizando de seu poder de convencimento na condição de comandante da área econômica do governo na interlocução com os parlamentares.

Existe um conjunto de regras consolidadas no documento chamado “Código de Conduta da Alta Administração Federal”, aprovado em 2000 e que deveria servir como guia orientador para o comportamento dos ocupantes de cargos no alto escalão governo. São dispositivos que também deveriam nortear as decisões da Comissão de Ética Pública (CEP) nesse quesito. O disposto no § 1º do inc. II do art. 5º é inequívoco:

(…) “§ 1º – É vedado o investimento em bens cujo valor ou cotação possa ser afetado por decisão ou política governamental a respeito da qual a autoridade pública tenha informações privilegiadas, em razão do cargo ou função, inclusive investimentos de renda variável ou em commodities, contratos futuros e moedas para fim especulativo, excetuadas aplicações em modalidades de investimento que a CEP venha a especificar.” (…)

Ora, sob tais condições, fica evidente os benefícios diretos e indiretos que foram direcionados para os recursos que ambos detinham e ainda detêm em contas nos paraísos fiscais. Em qualquer país minimamente preocupado com a definição dos limites entre os interesses públicos e privados essa questão já teria sido solucionada no momento da divulgação do escândalo. Não há solução possível que não envolva a demissão imediata de ambos de seus cargos no governo.

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Roberto Campos Neto, Paulo Guedes e o fundamentalismo supersticioso no Banco Central que criou o monstro da dívida pública, por Luis Nassif



Repito: não há a menor possibilidade da economia sair da recessão, com pessoas do nível de Campos Neto e Paulo Guedes à frente.

Do Jornal GGN:



A entrevista do presidente do Banco Central Roberto Campos Neto aos repórteres Alex Ribeiro, Sérgio Lamucci e Cristiano Romero, é a comprovação final do travamento que a cegueira ideológica impôs ao debate econômico.
Roberto Campos, avô, era um liberal empedernido, mas, enquanto Ministro, se movia com sentido prático na solução de problemas. Sabia chutar a gol.
Em economia, o multiplicador fiscal mede os impactos da alteração dos gastos governamentais sobre a renda nacional. Ou seja, para cada 1 real de aumento nos gastos, de quanto será o aumento na renda, devido aos efeitos sobre o consumo.
Trata-se de um indicador relevante para balizar políticas econômicas.
Vamos ver como Roberto Campos, o Neto, trata o tema.

A fábula do avião

Eu sempre uso o exemplo do avião. Imagine que uma turbina é o mundo privado e a outra é o mundo público. Eu vou desligar a turbina do mundo público, mas, com credibilidade, vou ligar a turbina privada e vai ter uma transferência de energia de uma para a outra, ou de potência, e o avião vai continuar na mesma velocidade. A transferência de uma para a outra se dá na confiança, na credibilidade. A gente olha os índices de confiança, que até caíram recentemente, mas eles estavam relativamente altos. Isso dava a certeza de que, bom, o público vai desligar, mas com o novo governo, com credibilidade, com uma agenda positiva, essa energia, essa potência, vai se transferir. Isso não ocorreu na forma esperada.
Mas o sonho esbarra na vil realidade. E o pobre Roberto Campos Neto bate a cara na montanha:
E há um tema que a gente tinha olhado no passado e acho que cresceu em importância. É difícil de quantificar, e a gente está olhando muito aqui.
Valor: Qual?
Campos: É a complementaridade entre o setor público e o setor privado. A gente está tentando fazer um trabalho para quantificar isso. Quando você conversa com os diversos setores, entende que muitos setores ao longo desses últimos anos passaram a fazer negócios com o governo de um modo ou de outro. A complementaridade entre o público e o privado subiu muito.
Ele está, obviamente, se referindo ao multiplicador fiscal. E comprovando que deve ser maior que um, a julgar por suas observações. Mas, ao perguntar, os repórteres usaram a palavra maldita: fiscal. E Campos Neto corre para explicar que o gato que eles estão vendo, tem rabo de gato, pelo de gato, mia, mas não é gato.
Campos: Eu não chamaria de multiplicador [fiscal], eu diria a dependência do mundo privado no mundo público maior do que a gente imaginava. Eu não gostaria de falar de multiplicar fiscal porque fiscal tem outras implicações. Mas eu diria que essa complementaridade, olhando hoje, é bastante alta.
E qual o tamanho dessa dependência, que na ciência econômica é chamada de multiplicador fiscal?
É, a gente está tentando quantificar e ver mais ou menos qual é o impacto. O diretor Carlos [Viana, de Política Econômica] está trabalhando nisso, mas o importante para a gente é mostrar que há esse efeito e que esse efeito se mostra mais importante do que a gente achava no passado (…) Se tem alguma indústria, alguma área produtiva, que estava fazendo negócios ou com Estados ou com municípios, também teve um impacto é muito grande. Teve essa trombada fiscal, essa parada no motor público muito rápido, acho que isso também explica parte…
Alvíssaras! Finalmente a autocrítica de um homem público racional, que se baseia em dados da realidade para admitir a importância de uma política fiscal pró-ativa?
Mas não pode mexer no fiscal. Então se mexe nos juros, não? Também não.
Eu vou chegar nos juros, mas o papel dos juros hoje – na verdade, não é dos juros, é da credibilidade. O que a gente precisa ter é credibilidade. Saindo um pouco do tema do crescimento, indo para o tema do papel do BC, o principal papel do BC é ter credibilidade, manter os preços constantes, manter a inflação sob controle, com credibilidade, e ancorar a inflação num período mais longo.
Se baixar a taxa Selic, mesmo com as expectativas de inflação absolutamente sob controle, vai que as expectativas mudem. Então se mantém as taxas de juros, se mantém a política fiscal, se mantém a economia em recessão e o desemprego em níveis recordes. Porque, assim, haverá a retomada da confiança do empresariado e a segunda turbina do avião começará a funcionar, mas cavando buraco na terra, porque até lá o avião terá caído por insuficiência de combustível.
No céu ou no inferno, Roberto Campos, o Avô, deu uma cambalhota.
Repito: não há a menor possibilidade da economia sair da recessão, com pessoas do nível de Campos Neto e Paulo Guedes à frente.

O Guedes dos bancos vai implodir o fundamentalismo de Bolsonaro, por Luis Nassif


Aliás, o pecado fatal de Bolsonaro não é acreditar no terraplanismo, mas em Paulo Guedes.

Por Luis Nassif


Trata-se do mais expressivo depoimento de autoridade econômica de que tenho notícia, uma transparência ingenuamente exemplar, comprovando que a prioridade de Paulo Guedes jamais foi a de tirar o país da recessão, mas valer-se da destruição criadora da economia para impor suas preferências ideológicas..
Os desdobramento da recessão estão aí, aos olhos de todos: índices explosivos de desemprego e desalento, crescimento não apenas da economia informal mas do poder econômico das organizações criminosas, ampliação do ódio, exacerbação da intolerância, e todos os sintomas das doenças graves que germinam em economias sem perspectiva. No plano político, queda acentuada de popularidade do governo, crise fiscal, desmantelamento da educação, saúde, meio ambiente.
Mas o que diz o ilustre neto do ilustre Campos
1. O avião tem duas turbinas, uma do setor público, outra do setor privado. Queremos parar a turbina do setor público para o setor privado ocupar o espaço.
2. Aí descobrimos que a recessão é decorrente da paralisação da turbina do setor público.
3. Mas, em vez de reativar os gastos públicos, vamos manter o aperto, manter as taxas reais de juros elevadas porque a maneira do setor privado ocupar o espaço público é ter segurança no desemprenho futuro da inflação. Se houver confiança, automaticamente o capital privado ocupará o espaço do setor público.
E emendo: se o avião cair, Bolsonaro que se vire.
Ou seja, tenho o diagnóstico sobre a crise, o caminho óbvio para destravar a economia – aumentando os gastos públicos -, mas vou manter tudo onde está porque meu objetivo final não é recuperar a economia, mas tirar o Estado definitivamente do jogo.
Qual o mérito da entrevista de Campos Neto? Expor de maneira crua a irresponsabilidade e os objetivos finais do modelo Guedes. Guedes não está minimamente interessado em recuperar a economia. Seu objetivo final é aproveitar a crise para destruir da maneira mais rápida o “inimigo”, o Estado. Pouco importa o custo econômico, social e político.
Aliás, o pecado fatal de Bolsonaro não é acreditar no terraplanismo, mas em Paulo Guedes. Seu governo será abreviado pelas estratégias de Guedes que, ao final, voltará para seu habitat, o mercado. E é até possível que, nas noites mais alegres, conte histórias escabrosas sobre a maneira como engabelou um presidente fundamentalista e e fundamentalmente ignorante.