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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Noam Chomsky sobre a viabilidade da espécie humana


Do Dossier Sul:


 Entrevista do filósofo e linguista americano Noam Chomsky. Hoje com 92 anos e tendo vivido como testemunha muitos dos grandes fatos que marcaram o século XX e o início do XXI, ele analisa o cenário da crise do Coronavírus e traça um quadro nada animador para os próximos anos. No entanto, cita que o isolamento social destes tempos deve ser usado para fortalecer os laços sociais e desenvolver projetos de resistência. A entrevista foi concedida no fim de março de 2020, uma conversa com o filósofo e co-fundador do DiEM25, Srecko Horvat. Acompanhe. 
 Chomsky e a viabilidade da espécie humana
Srecko Horvat: Você nasceu em 1928 e escreveu seu primeiro ensaio quando tinha 10 anos de idade sobre a Guerra Civil Espanhola, após a queda de Barcelona em 1938, o que parece bem distante. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, testemunhou Hiroshima e muitos eventos históricos e políticos importantes, da Guerra do Vietnã, a crise do preço do petróleo, a queda do muro de Berlin, Chernobyl, testemunhou o momento histórico que levou ao 11 de setembro e o crash financeiro de 2007/2008. Com esse background e sendo um ator da maioria desses processos, como vê a atual crise do Coronavirus, algo sem precedente histórico. Surpreende você? Como observa isso tudo?

Noam Chomsky: Devo dizer que as memórias mais tenras que me assombram agora são dos anos 1930, o artigo que você mencionou sobre a queda de Barcelona foi sobre, aparentemente, a inexorável propagação da praga fascista sobre a Europa e como chegou ao fim. Descobri muito mais tarde, quando os documentos internos vieram à publico que os analistas do Governo americano, na época e nos anos seguintes esperavam que a guerra terminasse com  mundo dividido entre regiões dominadas pelos EUA e uma região dominada pela Alemanha.

Meus medos infantis não estavam completamente errados. E essas memórias voltam agora. Quando era criança, posso lembrar, ouvindo comício de Hitler em Nuremberg no rádio, podia não compreender as palavras, mas podia facilmente entender o clima daquilo tudo, e tenho que dizer que quando escuto os discursos de Trump hoje, soa algo parecido. Não que ele seja fascista, não tem muito de uma ideologia, é apenas um sociopata, um indivíduo preocupado consigo mesmo, mas o clima e o medo é similar e a ideia de que o destino do país e do mundo está nas mãos de um sociopata bufão é chocante.

O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exarcebada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o Coronavirus é terrível e pode ter péssimas consequencias, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos acabados. As memórias da infância continuam voltando para me assustar, mas em uma dimensão diferente. A ameaça de guerra nuclear não fazia sentido com o mundo onde está, mas olhando para o passado recente, em janeiro, o relógio do juízo final é ajustado a cada ano com os ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim.  Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da meia noite. Ano passado estava a dois minutos da meia noite. O mais próximo já alcançado. Esse ano os analistas retiraram os "minutos" e movem agora o ponteiro em segundos, 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já estivemos. Observando três questões: A ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia, essa última que não está tendo espaço aqui, mas é a única esperança que temos para a superação da crise. Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino, se isso não acontecer, estamos condenados.

Se deixarmos nosso destino com sociopatas bufões, será o fim. E isso está próximo, Trump é o pior, por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos EUA, mas você olha para o mundo e não vê quando os EUA impõe sanções, assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão na Europa estar subordinada ao mestre em Washington, outros países não tem nem tem mesmo como escolher. Voltando ao Coronavírus, um dos mais chocantes e severos aspectos disso, é o uso de sanções para maximizar a dor, intencionalmente, o Irã está em uma zona com enormes problemas internos pelo estrangulamento do arrocho das sanções, que são intencionalmente desenhadas, para fazer sofrer mais e mais agora. Cuba vem sofrendo, desde o momento em que  ganhou sua independência, mas é surpreendente que tenha sobrevivido, mas ficaram resilientes e um dos elementos mais irônicos desta crise do virus, é que Cuba está ajudando a Europa. Quero dizer, isso é tão chocante, que você não sabe como descrevê-lo. Que a Alemanha não pode ajudar a Grécia, mas Cuba pode ajudar a Europa. Se você parar pra pensar sobre o que significa isso, todas as palavras não servirão. Quando você vê milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo, fugindo de uma região que foi devastada por séculos e sendo enviadas para morrrer ali, você não sabe que palavras usar. A crise civilizacional do ocidente neste ponto é devastadora, pensar nisso e trazer memórias de infância de ouvir Hitler no radio enrouquecer as multidões, faz você pensar se esta espécie é mesmo viável.

Você mencionou a crise da democracia. Neste momento acho que devemos nos encontrar em um momento sem precedentes no sentido de que cerca de 2 bilhões de pessoas estão de uma forma ou de outra confinadas em casa, em isolamento, auto-isolamento ou quarentena. Ao mesmo tempo o que nós podemos observar é que a Europa, mas também outros países perto de suas fronteiras, internas ou externas, há um estado de exceção em todos os países em que possamos pensar, em regressão em lugares como França, Servia, Espanha, Itália e outros, exército nas ruas... e quero perguntar a você como linguista. A linguagem que circula nesse momento: Ouvindo não apenas Trump, se você ouvir Macron ou alguns outros políticos europeus, constantemente escutará que eles falam sobre Guerra. Mesmo na mídia se fala sobre "frontliners" e o vírus sendo tratado como inimigo. O que me lembra também Victor Klemperer em "Lingua Tertii Imperii", livro em que falou da linguagem do Terceiro Reich e como a linguagem e a ideologia foram impostas. Sob sua perspectiva , o que esse discurso sobre guerra representa, para legimitar um estado de exceção, ou algo mais profundo neste discurso?
Eu penso que não é exagero. O significado é se nós lidamos com a crise, estamos nos movendo para uma mobilização como as de tempos de guerra. Se você pensar, pegue um país rico, como os Estados Unidos que tem recursos para superar a questão econômica de imediato. A mobilização para a 2ª guerra Mundial deixou o país com uma grande dívida que está completamente saldada hoje e a mobilização foi bem sucedida, praticamente quadruplicou a indústria dos Estados Unidos, acabou com a depressão e deixou o país com mais capacidade para crescer. 
Isso é menos do que precisamos provavelmente, não naquela escala, isso não é uma guerra mundial, mas nós precisamos da mentalidade desse movimento, nessa crise que essa é severa aqui nós também podemos lembrar da epidemia da gripe suína em 2009, originada nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas se recuperaram do pior, mas tem que lidar com isso em um país rico comp os Estados Unidos.
Agora dois bilhões de pessoas, a maioria está na Índia. O que acontece para os indianos, eles vivem "da mão para a boca", estão isolados e morrem de fome. O que irá acontecer? Em um mundo civilizado os países ricos dariam assistência, aqueles que estivessem em necessidade ao invés de estrangulá-los, que é o que estamos fazendo particularmente na Índia e em muitos dos países no mundo.
Se a atual tendência persiste no sul da Ásia, se tornará inabitavel em poucas décadas. A temperatura alcançou 50 graus no Rajastão, neste verão está aumentando. A questão das águas agora pode piorar, há dois núcleos de poder que irão lutar por recursos reduzidos de água. Eu digo que que o Coronavirus é muito sério, nós não podemos subestima-lo, mas nós temos que lembrar que isso é uma pequena fração da crise que está vindo. Pode talvez não ameaçar a vida o que o coronavírus faz hoje mas, (tais fatos) irão perturbar a vida ao ponto de tornar a espécie inviável em um futuro não muito distante.
Então nós temos que lidar com muitos problemas, problemas imediatos, o coronavírus é sério, como muitos outros maiores, vastamente maiores, e que são eminentes. Agora há uma crise civilizacional, temos que ver o lado bom do coronavírus, o que pode fazer as pessoas pensarem sobre que tipo de mundo nós queremos? Nós queremos um mundo que nos leva a isso? Devemos pensar sobre a origem desta crise, por quê há uma crise do coronavírus? É uma falha colossal do mercado, leva direto a essência dos mercados exacerbados pelo neoliberalismo selvagem, a intensificação neoliberal, os problemas socioeconômicos. Isso era sabido há muito tempo, que a pandemia era muito provável, entendemos muito bem a probabilidade da pandemia do coronavírus, uma modificação epidemia da SARS, qiue foi superado há 15 anos atrás, o vírus foi identificado, sequenciado, vacinas estavam disponíveis, laboratórios ao redor do mundo poderiam trabalhar diretamente em desenvolver uma proteção para uma potencial pandemia do coronavírus. 
Por que não fizeram isso?  As companhias farmacêuticas. Nós temos entregado nosso destino a tiranias privadas, corporações, que são inexplicadas para o público, nesse caso, o Big Farma. Para eles fazer novos cremes corporais é mais lucrativo do que encontrar uma vacina que proteja as pessoas da destruição total. É possível para o governo entrar nisso, voltar às mobilizações dos tempos de guerra, foi o que o que aconteceu com a pólio naquele tempo, eu posso me lembrar muito bem, a terrível ameaça que foi extinta pela descoberta da vacina Salk, por uma instituição do governo, apoiada pela administração Roosevelt. Sem patentes, disponível a todos. Que pode ser feito agora, mas a praga neoliberal bloqueia isso. Estamos vivendo sobre uma ideologia para qual os economistas tem uma boa parte de responsabilidade, que vem do setor corporativo. Uma ideologia que é tipificada por aquilo que Ronald Reagan colocou no script, pelo seu Mestres corporativos com seus sorrisos reluzentes, dizendo que governo é o problema. Vamos nos livrar do governo que quer dizer "vamos deixar as decisões nas mãos das tiranias privadas que não tem responsabilidade com o público". Do outro lado do Atlântico Margaret Thatcher nos mostra que há uma sociedade, em que apenas indivíduos jogados dentro do mercado podem sobreviver de alguma forma e para além disso não há alternativa. O mundo tem sofrido sob o poder dos ricos por anos, e agora é o ponto onde as coisas podem estar acabadas. Com intervenção direta do governo no escopo da invenção da vacina salk, mas que é bloqueado por razões ideológicas da praga neoliberal e o ponto é que essa epidemia de coronavírus poderia ter sido prevenida.
A informação estava ali para ser lida era bem conhecida em outubro de 2019 logo antes do surto. Houve uma grande simulação em escala nos Estados Unidos para uma possível pandemia Mundial deste tipo. Nada foi feito, agora a crise ficou bem pior pela traição do sistema político. Nós não prestamos atenção a informação que estavam cientes em 31 de dezembro, a China informou À OMS sobre uma pneumonia com sintomas com etiologia desconhecida. Uma semana depois eles identificaram, alguns cientistas chineses, como um coronavírus, também sequenciaram e deram a informação ao mundo pelos seus virologistas, outros que ficaram incomodados em ler o report da OMS. Os países naquela área, China, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura começaram a fazer algo e contiveram o surgimento da crise. Na Europa o que aconteceu, Alemanha foi capaz de agir de maneira egoísta, não ajudando os outros. Outros países apenas ignoraram. Um dos piores deles o Reino Unido e o pior de todos, os Estados Unidos, que disseram um dia que não havia crise, diziam "ser apenas uma gripe", e no dia seguinte era uma terrível crise, que sabiam de tudo. No dia seguinte: "nós temos que tratar de negócios, porque tenho que vencer a eleição..."
A ideia de que o mundo está nessas mãos é chocante, mas, o ponto é que começou com uma, novamente, colossal falha do mercado ao ponto fundamental da ordem econômico-social deixada muito pior pela praga neoliberal e ela continua por causa do colapso nas estruturas institucionais que poderiam lidar com isso, se estivessem funcionando. 
Esses são os pontos que nós temos que pensar seriamente e pensando mais profundamente digo, em que tipo de mundo nós queremos viver? Se superarmos de qualquer forma haverá opções. O alcance das opções vão da instalação de  Estados altamente autoritários por todas as partes até a  reconstrução da sociedade em termos mais humanos, preocupados com as necessidades humanas ao invés do lucro privado. Isso é o que nós devemos ter em mente, que estados altamente autoritários e viciados são bastante compatíveis com o neoliberalismo, os teóricos do neoliberalismo como Hayek e o resto eram perfeitamente felizes com o estado massivo de violência apoiada pela economia. O neoliberalismo tem suas origens em 1920 em Viena.. no estado protofascista austríaco que esmagou a união dos trabalhadores e a social-democracia austríaca e fez parte do governo proto fascista e louvou o fascismo e sua economia protecionista. Quando Pinochet instalou ditadura assassina brutal no Chile eles amaram, eles lutaram lá, auxiliando esse "milagre maravilhoso", que que trouxe "solidez da economia", grandes lucros, para uma pequena parte da população.
Não é errado pensar que sistema neoliberal selvagem pode ser reinstalado por auto-proclamados liberais por forte violência do Estado, um pesadelo que pode vir. mas é necessário a possibilidade de que as pessoas se organizem, se tornem engajados para um mundo muito melhor, que também enfrentará os enormes problemas que estamos lidando... Problema da guerra nuclear que está mais próximo do que nunca esteve, o problema da catástrofe ambiental do qual pode não haver retorno uma vez que chegamos em tal estágio e não está em uma distância tão grande, a menos que nós arranjamos decisivamente. Então é um momento crítico da história humana não apenas por causa do coronavírus, mas deve nos trazer a consciência das profundas falhas, de forma mais profunda, as características disfuncionais de todo sistema sócio-econômico. Pode ser um sinal de alerta em uma lição para nos prevenir de uma explosão, mas pensando sobre isso e como essas vai nos levar a mais crises piores que essas com um preço extra a se pagar.

Como se dará a resistência em tempos de distânciamento social e o que se esperar de um futuro pós-Coronavirus?
Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald's e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hambúrguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais tem tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios tem placas dizendo "olhe para frente" porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social auto-induzido, o que é muito prejudicial. Estamos agora em situação real de isolamento social. Que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito.   Qualquer coisa que puder ajudar as pessoas em necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises... Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto... Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil,mas os humanos tem encarado seus problemas. Soberania para todas as pessoas em português. 
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sexta-feira, 13 de março de 2020

Apesar dos males, Slavoj Zizek vê o poder subversivo no choque - que faz pensar sobre as crueldades do capitalismo - do Coronavírus



Mercados financeiros em pânico. Indústria de automóveis parada. Cidades sem trabalho. Aos poucos, pandemia transtorna normalidade opressora do capitalismo, expõe suas entranhas e mostra: outras formas de estar no mundo são necessárias


Por Slavoj Zizek | Tradução: Simone Paz
A disseminação contínua da epidemia do coronavírus acabou desencadeando, também, certas epidemias de vírus ideológicos que estavam adormecidos em nossas sociedades: fake news, teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo.
A quarentena, devidamente fundamentada em evidências médicas, encontrou um eco na pressão ideológica por estabelecer fronteiras estritas e isolar os inimigos que representam uma ameaça à nossa identidade.
Mas, talvez, outro vírus muito mais benéfico também se espalhe e, se tivermos sorte, irá nos infectar: o vírus do pensar em uma sociedade alternativa, uma sociedade para além dos Estados-nação, uma sociedade que se atualiza nas formas de solidariedade e cooperação global.
Especula-se que o coronavírus pode levar à queda do regime comunista chinês, do mesmo jeito que a catástrofe de Chernobyl foi a gota d’água que levou ao fim o comunismo soviético (como o próprio Gorbachev admitiu). Mas existe um paradoxo nesta situação: o coronavírus também nos levará a reinventar o comunismo, com base na confiança nas pessoas e na ciência.
Na cena final de Kill Bill 2, do diretor Quentin Tarantino, Beatrix derruba o vilão Bill, destruindo-o com a “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” — o golpe mais fatal das artes marciais. O movimento consiste numa combinação de cinco golpes com as pontas dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do alvo. Assim que a vítima se afasta e dá cinco passos, seu coração explode dentro do seu corpo, e ele desmorona no chão.
Este ataque faz parte da mitologia das artes marciais e não é factível nos combates da vida real. Porém, voltando ao filme, depois que Beatrix ataca Bill, ele faz as pazes com ela, calmamente, anda cinco passos e morre…
O que torna esse ataque tão fascinante é o tempo existente entre o golpe e o momento da morte: posso manter uma agradável conversa enquanto eu permanecer sentado e sossegado, mas durante todo esse tempo estarei ciente de que no momento em que eu começar a andar, meu coração irá explodir e eu cairei morto.
Não se parece com a ideia daqueles que especulam sobre como o coronavírus levaria o sistema comunista da China à sua queda? Numa espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” social, no regime comunista do país, as autoridades podem sentar-se, observar e atravessar os movimentos da quarentena, mas qualquer mudança real na ordem social (como confiar nas pessoas) resultará em sua queda.
Minha modesta opinião é muito mais radical: a epidemia do coronavírus é uma espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” de ataque ao sistema capitalista internacional — um sinal de que não podemos seguir pelo mesmo caminho que viemos até agora, de que precisamos uma mudança radical.

Fato triste: será preciso uma catástrofe

Há alguns anos, Fredric Jameson chamou a atenção para o potencial utópico dos filmes sobre catástrofes cósmicas (um asteroide que ameaça a vida na Terra ou um vírus que mata a humanidade, por exemplo). Tal ameaça global dá origem à solidariedade global, nossas pequenas diferenças se tornam insignificantes, todos trabalhamos juntos para encontrar uma solução — e aqui estamos hoje, na vida real. O ponto não é sobre curtir sadicamente o sofrimento generalizado, porque ele ajudaria nossa causa: pelo contrário, o ponto é refletir sobre o triste fato de que precisemos de uma catástrofe para nos permitirmos repensar as características básicas da sociedade na qual vivemos.
O primeiro esboço de modelo de uma coordenação global do tipo é da Organização Mundial da Saúde, da qual não estamos recebendo a tagarelice burocrática usual, mas avisos precisos, anunciados sem pânico. Tais organizações devem receber mais poder executivo.
Os céticos zombam de Bernie Sanders por sua defesa a uma saúde universal nos EUA — e não é que a lição da epidemia de coronavírus não apenas demonstra como ela é muito necessária, mas também que devemos começar a criar algum tipo de rede global de saúde?
Um dia após o vice-ministro da Saúde do Irã, Iraj Harirchi, aparecer em uma coletiva de imprensa para minimizar a disseminação do coronavírus e afirmar que as quarentenas em massa não seriam necessárias, teve de fazer uma breve declaração admitindo que contraiu o coronavírus e se isolou (inclusive, na sua primeira aparição na TV, ele já apresentava sinais de febre e fraqueza). Harirchi acrescentou: “Este é um vírus democrático, que não faz diferença entre pobres ou ricos, ou entre políticos e cidadãos comuns”.
Nesse ponto, ele estava correto — estamos todos no mesmo barco. É difícil não reparar na enorme ironia do fato: aquilo que nos uniu e nos levou à solidariedade global se expressa, no nível da vida cotidiana, em orientações severas para evitar o contato com os outros, e até de se isolar.
Além do mais, não estamos lidando apenas com ameaças virais — outras catástrofes já estão surgindo no horizonte ou mesmo acontecendo: secas, ondas de calor, tempestades fora de controle, etc. Para todos esses casos, a resposta não é o pânico, mas o trabalho árduo e urgente para estabelecer algum tipo de coordenação global eficiente.

Só estaremos a salvo na realidade virtual?

A primeira ilusão a ser dissipada é aquela formulada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, durante sua recente visita à Índia, onde ele disse que a epidemia recuaria rapidamente e que só precisamos esperar pelo seu pico, que a vida voltará ao normal.
Contra essas esperanças fáceis, a primeira coisa que precisamos aceitar é que a ameaça veio para ficar. Mesmo se a onda passar, ela reaparecerá em novas formas — quiçá bem mais perigosas.
Por esse motivo, podemos esperar que as epidemias virais afetem nossas interações mais elementares com outras pessoas e objetos ao nosso redor, incluindo nosso próprio corpo — evitar tocar em coisas que possam estar (invisivelmente) sujas, não sentar em assentos sanitários ou bancos públicos, evitar abraçar pessoas ou apertar as mãos. Podemos até passar a ter mais cuidado com gestos espontâneos: não encostar no nariz nem esfregar os olhos.
Portanto, não serão apenas o Estado e outras instituições nos controlando, devemos também aprender a nos autocontrolar e disciplinar. Talvez apenas a realidade virtual seja considerada segura e a movimentação livre em espaços abertos fique restrita às ilhas pertencentes aos ultrarricos.
Mas mesmo no nível da realidade virtual e da internet, devemos lembrar que, nas últimas décadas, os termos “vírus” e “viral” foram usados principalmente para designar vírus digitais que infectavam nossos espaços na web e dos quais não tínhamos consciência, pelo menos até que seu poder destrutivo fosse liberado (por exemplo, a destruição de nossos dados ou de discos rígidos). O que vemos agora é um forte retorno ao significado literal original do termo: as infecções virais trabalham de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual.

O Retorno do Animismo Capitalista

Outro fenômeno bizarro que podemos observar é o retorno triunfante do animismo capitalista, de tratar fenômenos sociais como mercados ou o capital financeiro como uma entidade viva. Lendo a mídia empresarial, ficamos com a impressão de que, na verdade, não deveríamos nos preocupar com os milhares que morreram (nem com os outros milhares que ainda vão morrer), mas com os “mercados que estão ficando apreensivos”. O coronavírus perturba cada vez mais o bom funcionamento do mercado mundial e, segundo o que ouvimos, o crescimento pode cair dois ou três por cento.
Tudo isso não indica claramente a necessidade urgente de uma reorganização da economia global, que não esteja mais à mercê dos mecanismos de mercado? É óbvio que não estamos falando de comunismo às antigas, mas de alguma forma de organização mundial que consiga controlar e regular a economia — bem como limitar a soberania dos estados-nação quando necessário. Os países já conseguiram fazer isso no contexto da guerra no passado, e agora todos nós estamos, efetivamente, nos aproximando de uma guerra clínica.
Além do mais, não devemos ter medo de reparar em alguns efeitos colaterais positivos da epidemia. Um de seus símbolos são os passageiros aprisionados (em quarentena) em grandes cruzeiros — boa maneira de se libertar da obscenidade desses navios, devo dizer. (Só precisamos tomar cuidado para que as viagens a ilhas isoladas ou a outros resorts exclusivos não se torne, novamente, o privilégio de uns poucos ricos, como aconteceu décadas atrás com voos de avião). A produção de automóveis também se vê seriamente afetada pelo coronavírus — o que não é de todo ruim, já que isso pode nos levar a pensar em alternativas à nossa obsessão pelos veículos individuais. E a lista não para por aí.
Num discurso recente, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, declarou: “Não existe essa coisa de liberal. Um liberal nada mais é do que um comunista com um diploma”.
E se o contrário estiver certo? Se designarmos como “liberais” todos aqueles que se preocupam com a nossa liberdade; e, como “comunistas”, aqueles que sabem que só poderemos salvá-la por meio de mudanças radicais — já que o capitalismo global está cada vez mais próximo de uma crise? Então, deveríamos dizer que, atualmente, aqueles que ainda se reconhecem comunistas são liberais com diplomas — liberais que estudaram seriamente o porquê de nossos valores liberais estarem sob ameaça, e que tomaram consciência de que só uma mudança radical poderá salvá-los.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Páscoa... A ressurreição de um prisioneiro político torturado e crucificado: Jesus de Nazaré, por Leonardo Boff


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   A Páscoa da ressurreição deste ano se celebra no contexto de um país onde quase toda a população está sendo sufocada por um governo de extrema-direita que tem um projeto político-social radicalmente ultra-neoliberal. Ele se mostra sem piedade e sem coração pois desmonta os avanços e os direitos de milhões de trabalhadores e de pessoas de outras categoriais sociais. Coloca à venda bens naturais pertencentes à soberania do país. Aceita a recolonização do Brasil no intuito indisfarçável de repassar a nossa riqueza para as mãos de pequenos e poderosos grupos nacionais e internacionais. Não há qualquer sentido de solidariedade e de empatia para com os mais pobres e com aqueles que vivem ameaçados de violência e até de morte pelo fato de serem negros e negras, de habitarem em favelas, indígenas, quilombolas ou de outra condição sexual.
  Andando por este país e um pouco pelo mundo, ouço, de muitas partes, gemidos de sofrimento e de indignação. Então, parece-me ouvir as palavras sagradas:”Eu vi a opressão de meu povo, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci pra libertá-los e faze-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).
  Deus deixa sua transcendência (“Deus acima de todos?”), desce e se coloca no meio dos oprimidos para ajudá-los a fazer a passagem (pessach=páscoa) da opressão para a libertação.
  Vale enfatizar o fato de que há algo de assustador e de perverso em curso: um chefe de estado exalta torturadores, elogia ditadores sanguinários e considera um mero acidente o fuzilmanto com 80 tiros, por militares, de um negro, pai de família. E ainda propõe o perdão pelos que promoveram o holocausto de seis milhões de judeus. Como falar de ressurreição num contexto de alguém que prega uma perene “sexta-feira santa” de violência? Ele tem continuamente o nome de Deus e de Jesus em seus lábios e esquece que somos herdeiros de um prisioneiro político, caluniado, perseguido, torturado e crucificado: Jesus de Nazaré. O que faz e diz é um escárnio, agravado pelo apoio de pastores de igrejas neo-pentecostais, cuja mensagem pouco ou nada tem a ver com o evangelho de Jesus.
  Apesar desta infâmia, queremos celebrar a páscoa da ressureição que é a festa da vida e da floração como a do semi-árido nordestino. Após algumas chuvas, tudo ressuscita e reverdesse.
  Os judeus, escravizados no Egito fizeram a experiência de uma travessia, de um êxodo da servidão para a liberdade em direção de “uma terra boa e vasta onde corre leite e mel”(símbolos de justiça e de paz: Ex 3,8). A “Pessach” judaica (Páscoa) celebra a libertação de todo um povo e não apenas de indivíduos.
  A Páscoa cristã se agrega à Pessach judaica, prolongando-a. Celebra a libertação da inteira humanidade pela entrega de Jesus, aceitando a injusta condenação à morte de cruz, imposta, não pelo Pai de bondade, mas como consequência de sua prática libertadora face aos desvalidos de seu tempo e por apresentar uma outra visão de Deus-Pai, bom e misericordioso e não mais um Deus castigador com normas e leis severas, fato inaceitável pela ortodoxia da época. Ele morreu em solidariedade para com todos os humanos, abrindo-lhes o acesso ao Deus de amor e de misericórdia.
  A Páscoa cristã celebra a ressurreição de um torturado e crucificado. Ele fez a passagem e o êxodo da morte para a vida. Não voltou para a vida que tinha antes, limitada e mortal como a nossa. Mas nele irrompeu um outro tipo de vida não mais submetida à morte e que representa a realização de todas as potencialides presentes nela (e em nós). Aquele ser que vinha nascendo lentamente dentro do processo da cosmogênese e da antropogênese, alcançou por sua ressurreição tal plenitude que, enfim, acabou de nascer. Como disse Pierre Teilhard de Chardin, ele, plenamente realizado, explodiu e implodiu para dentro de Deus. São Paulo entre perplexo e encantado o chama de “novissimus Adam” (1 Cor 15,45), o novo Adão, a nova humanidade. Se o Messis ressuscitou, toda a sua comunidade, que somos todos nós, até cosmos do qual somos parte, participamos desse evento bem-aventurado. Ele é o “primeiro entre mutos irmãos e irmãs ( Rom 8, 29). Nós seguiremos a ele.
  Apesar da “sexta-feira santa” do ódio e da exaltação da violência, a ressurreição nos infunde a esperança de que faremos a passagem (páscoa) desta situação sinistra para o resgate de nosso país, onde não haverá mais ninguém que ousará favorecer a cultura da violência nem exaltará a tortura, nem se mostrará insensível ao holocausto de milhões de pessoas. Aleluia. Feliz Páscoa a todos.
  Leonardo Boff, téologo e filósofo, escreveu "Paixão de Cristo-paixão do mundo”, Vozes 2005.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Mercedes Sosa e Beth Carvalho cantam "Eu só Peço a Deus", um hino pelo despertar das consciências, seguido por um poema de Mahatma Gandhi





Eu Só Peço a Deus....

Eu só peço a Deus Que a dor não me seja indiferente Que a morte não me encontre um dia Solitário sem ter feito o que eu queria Eu só peço a Deus Que a injustiça não me seja indiferente Pois não posso dar a outra face Se já fui machucado brutalmente Eu só peço a Deus Que a guerra não me seja indiferente É um monstro grande, pisa forte Toda foram de inocência desta gente É um monstro grande, pisa forte Toda foram de inocência desta gente Solo le pido a Dios Que la guerra que no me sea indiferente Es un monstruo grande y pisa fuerte Toda la pobre inocencia de la gente. Es un monstruo grande y pisa fuerte Toda la pobre inocencia de la gente. Es un monstruo grande, Pisa fuerte Toda la inocencia desta gente

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Vizinhos da PF abrem a casa em solidariedade e também colaboram com acampamento em Curitiba de apoio a Lula



Do Brasil de Fato (reproduzido também no Jornal GGN):

Vizinhos da PF abrem a casa e também colaboram com acampamento em Curitiba

Acampados montaram uma tenda para recebimento de materiais de higiene e alimentos não perecíveis - Créditos: Gibran Mendes

Manifestação de apoio ao ex-presidente Lula sensibilizou parte dos moradores do bairro Santa Cândida
Júlia Rohden e Diangela Menegazzi
Brasil de Fato | Curitiba (PR)
“Pode entrar, fica à vontade!” É assim que Gelsoli Bandeira dos Santos, funcionário público da Prefeitura de Curitiba, recebe as pessoas que estão acampadas a poucos metros da Superintendência da Polícia Federal (PF), no bairro Santa Cândida, em Curitiba.
Gelsoli mora com esposa e filha e oferece a casa, em frente ao acampamento, para quem quiser tomar água, banho, e carregar o telefone celular: “Tocou no meu coração e eu estou fazendo”, justifica. O funcionário público conta que já trabalhou na rua, com antipó e asfalto. “Eu sei o que é sofrer no trecho, quando a gente pede água, o povo não dá, ou dá água quente. Então, o que eu puder fazer, eu faço mesmo”, completa.
acampamento Lula Livre foi montado no último sábado (7) para fazer vigília permanente em defesa do ex-presidente. Todos os dias, dezenas de ônibus com apoiadores de Lula chegam de várias partes do país. Autoridades, lideranças de movimentos sociais e artistas também estão mobilizados.
Quem precisa de ajuda?
Thais Flessak mora no Jardim Aliança, a cerca de quatro quilômetros do acampamento. Na manhã desta terça-feira (10), ela foi ao local para levar doações e conversar com as pessoas. “Fui lá para ver se o pessoal estava precisando de alguma coisa. Levei cobertores, suporte para galão de água, porque acho que facilita muito, algumas roupas, porque tem feito frio aqui à noite”, disse.
Ela ficou surpresa com a atitude de uma mulher que a abordou no acampamento. “Uma senhora com a camiseta do MST me perguntou se eu morava em Curitiba. Eu disse que sim e ela me respondeu: ‘Não se preocupa que vocês não estão sozinhos’. Como se quem estivesse precisando de alguma ajuda fosse eu. A pessoa foi de uma generosidade e de uma fé tão bonita. Ela me deu um abraço e se dispôs a me ajudar, sendo que, na verdade, eu achei que não precisasse de ajuda nenhuma”, contou, emocionada.
Thais disse ainda que quer voltar outras vezes ao acampamento. “Quero ver se consigo arrecadar mais com alguns amigos e passar mais um tempinho com o pessoal”, completou.
Infraestrutura e doações
No local, há banheiros químicos e cozinhas comunitárias onde são preparadas refeições para os acampados. Foram divididas equipes de trabalho para cuidar da saúde, da segurança e da limpeza do local.
Também há uma equipe no acampamento que ajuda a organizar os alimentos doados e os distribui para as cozinhas montadas no local. Existe uma tenda específica para atender as pessoas que queiram fazer doações.
Zenilda Pereira, do assentamento Elias Gonçalves de Moura, em Carlópolis, no norte do Paraná, é uma das responsáveis pelo recebimento das doações. Ela afirma que, assim como Thais, muitas pessoas são solidárias e levam até o local itens de higiene, alimentos não perecíveis, água e até filtro solar.
“Tem muita doação da própria vizinhança que apoia a mobilização e quer dar suporte para a demanda que nós temos”, garante Zenilda.
Fluxo de veículos
Durante a apuração das informações para esta matéria, um policial procurou a reportagem para pedir que as pessoas que pretendam ir ao acampamento tomem cuidado com a sinalização de trânsito, as faixas amarelas e as guias rebaixadas, para evitar que os veículos sejam multados.
Edição: Daniel Giovanaz

domingo, 12 de novembro de 2017

O sentido da vida não se perdeu. Texto de Leonardo Boff



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Quem olha o panorama brasileiro sob a ótica da ética (toda ótica produz sua ética) não deixa de ficar desolado e profundamente entristecido. Um presidente não é apenas portador do poder supremo de um país. O cargo possui uma carga ética. Ele deve testemunhar, por sua vida e atos, os valores que quer que seu povo viva.
Aqui temos o contrário:um presidente tido por corrupto, não só por acusação de políticos, nem sequer por delações, sempre discutíveis, mas por investigação séria da Polícia Federal e de outros órgãos como o Ministério Público. Mas a desmesurada vaidade do cargo e a total falta de respeito face ao seu próprio país, se mantem à base de corrupção feita à luz do dia, comprando votos de deputados e oferecendo outros benesses. E os deputados, gaiamente, se deixam corromper, porque muitos são corruptos, aproveitam a ocasião para conquistar funções e outros benefícios.
A república apodreceu de vez. Temos que refundar o Brasil sobre outras bases pois aquelas que até agora mancamente o sustentaram já não conseguem dar-lhe digna sustentabilidade.
A despeito disso tudo, não deixamos a esperança morrer, embora nesse momento, no dizer de Rubem Allves, se trata de uma “esperança agonizante”. Mas ela ressuscitará desta agonia e nos resgatará um sentido de viver. Se perdermos o sentido da vida, o próximo passo poderá ser o completo cinismo e, no termo, o suicídio. Quero retomar a questão do sentido da vida.
Não obstante a desesperança e aa existência do absurdo face ao qual a própria razão se rende, acreditamos ainda na bondade fundamental da vida. O homem comum que somos a grande maioria, se levanta, perde precioso tempo de vida nos ônibus super lotados, vai ao trabalho, não raro penoso e mal remunerado, luta pela família, se preocupa com a educação de seus filhos, sonha com um Brasil melhor, é capaz de gestos generosos auxiliando um vizinho mais pobre que ele e, em casos extremos, arrisca a vida, para salvar  uma inocente menina  ameaçada de estupro. O que se esconde atrás destes gestos cotidianos e banais? Esconde-se a confiança de que, apesar de tudo, vale a pena viver porque a vida, na sua profundidade, é boa e foi feita para ser levada com coragem que produz auto-estima e sentido de valor.
Há aqui uma sacralidade que não vem sob o signo religioso  mas sob a perspectica do ético, do viver corretamente e do fazer o que deve ser feito.  O grande sociólogo austríaco-norte-americano Peter Berger, há pouco falecido, escreveu um brilhante livro, relativizando a tese de Max Weber sobre a secularização completa da vida moderna com o título:”Um rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (Vozes 1973). Aí descreve inúmeros sinais (chama de “rumor de anjos”) que mostram o sagrado da vida e o sentido que ela sempre guarda, a despeito de todo caos e dos contrasensos históricos.
Aduzo apenas um exemplo que me vem à mente, banal e entendido por todas as mães que acalentam seus filhos. Um deles acorda sobressaltado dentro da noite. Teve um pesadelo, percebe a escuridão, sente-se só e é tomado pelo medo. Grita pela mãe. Esta se levanta, toma o filhinho no colo e no gesto primordial da magna mater cerca-o de carinho e de beijos, fala-lhe coisas doces e lhe sussurra:” Meu filhinho, não tenhas medo; sua mãe está aqui. Está tudo bem e está tudo em ordem, meu querido”. O menino deixa de soluçar. Reconquista a confiança da noite e um pouco mais e mais um pouco, adormece, serenado e reconciliado com as coisas.
Esta cena tão comum, esconde algo radical que se manifesta na pergunta: será que a mãe não está enganando a criança? O mundo não está em ordem, nem tudo etá bem. E contudo, estamos certos: a mãe não está enganando seu filhinho. Seu gesto e palavras revelam que, não obstante a desordem que a razão prática aponta, impera uma ordem mais fundamental.
O conhecido pensador Eric Voegelin (Order and History, 1956) mostrou magistralmente que todo ser humano possui uma tendência natural para a ordem. Onde quer que surja o ser humano, aí aparece uma ordem das coisas, valores e  certos comportamentos.
A tendência para a ordem implica a convicção de que a vida possui sentido. Que no fundo da realidade, não vigora a mentira, mas a confiança, o consolo e o derradeiro aconchego.
Assim cremos que o tempo da grande tribulação da desolação por causa corrupção que destroi  a ordem, voltaremos a celebrar e desfrutar o sentido bom da existência.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e acaba de escrever: Brasil: continuar a refundação ou prolongar a dependência?  a sair pela Vozes brevemente

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Dalai Lama discute a diferença na forma (a superfície dos ritos e dogmas, a institucionaização humana dos ditos seguidores) mas a unidade de fundo de todas as principais correntes religiosas



A essência permite o Diálogo entre as aparentes diferenças:


  “O cultivo do amor e da compaixão é a verdadeira essência de todas as crenças. O importante é que em sua vida diária você pratique as coisas essenciais e, nesse nível, quase não existe diferença entre budismo, cristianismo, judaísmo, islamismo ou qualquer outra fé. Todas elas focalizam o desenvolvimento, o aperfeiçoamento dos seres humanos, o sentimento de fraternidade e de solidariedade. Nesse sentido, as diferenças entre as religiões não são de maneira alguma essenciais”.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Houve um tempo da delicadeza. E haverá, outra vez, por Fernando Brito



pena
Ia publicar a bela crônica da Marceu Vieira sobre Villas Boas Correia, mito para todos os que nos desventuramos no jornalismo político, com suas construções frasais floreadas mas, por isso mesmo, capaz de conduzir o leitor com a gentileza de um dançarino.
Como ia publicar, também , as memórias de Marcelo Auler sobre D. Paulo Evaristo Arns, o pastor suave e amigo da humanidade, sobretudo quando ele vai resgatar um religioso do abandono da Aids – no tempo em que o melhor que se tinha para tratar a doença era só uma cama limpa e carinho no final – e aos que o irão visitar exige apenas uma coisa: “vocês vão visitar o padre e ninguém vai perguntar como é que ele adoeceu. Não é para perguntar como adoeceu”.
Mas eles já fizeram a parte deles, escrevendo – e muito bem – do que viveram e sentiram com estes dois personagens.
O que poderia mais dizer?
Há algo, porém: que os dois tinham em grande escala, para além do jornalista e do pastor.
Eram homens que se destacaram num tempo de brutalidade – a ditadura militar – por sua extrema delicadeza, que em nada enfraquecia o que faziam, ao contrário.
Este bruto final de 2016, malvado, foi  minguando e sumindo com os últimos homens do século 20,  foi sumindo e minguando a democracia que reconquistamos, na qual Villas, no seu ofício e D. Paulo, em escala maior, no seu sacerdócio, ajudaram a trazer de volta.
Uma obra da qual o último grande remanescente, Lula, é hoje o objeto da mais incessante perseguição de homens jovens e bem sucedidos com o prestígio que ele deu ao Judiciário, mas que são de uma geração que regrediu em tudo à minha: na humanidade, na simplicidade, na delicadeza.
Nossos ícones que se vão e os que restam – mas  se quer matar antes que o tempo o faça – têm esse traço, que é uma ameaça.
Ameaça porque conduziu-se a sociedade de novo à selva, à ferocidade, às caçadas, aos  “escrachos”, às execuções morais, às fogueiras.
E a delicadeza tornou-se a negação deste tempo, em que se foi a democracia.
Mas, quem sabe, logo, a gente possa para a democracia  cantar os versos do Chico, outro  que odeiam por ser desta cepa: Depois de te perder / Te encontro, com certeza / Talvez num tempo da delicadeza.
Fonte: Tijolaço

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Então rolava uma “mortadela” do PMDB, do DEM e do PSDB para o MBL, “seu” Kim? O Mensalinho do Kataguiri

coxinhamortadela
Reportagem de Pedro Lopes e Vinícius Segall, no UOL,  Áudios mostram que partidos financiaram MBL em atos pró-impeachment:
O MBL (Movimento Brasil Livre), entidade civil criada em 2014 para combater a corrupção e lutar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), recebeu apoio financeiro, como impressão de panfletos e uso de carros de som, de partidos políticos como o PMDB e o Solidariedade.
O movimento negociou também com a Juventude do PSDB ajuda financeira a suas caravanas, como pagamento de lanches e aluguel de ônibus, e teria tido apoio da “máquina partidária” do DEM.
Quando fundado, o movimento se definia como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas. Em suas páginas em redes sociais, fazia campanhas permanentes para receber ajuda financeira das pessoas, sem ligação com partidos.
 Os coordenadores do movimento, porém, negociaram e pediram ajuda a partidos pelo menos a partir deste ano. Atualmente, o MBL continua com as campanhas de arrecadação nos seus canais de comunicação, mas se define como “suprapartidário”. Aliás, a contribuição financeira concedida é vinculada ao grau de participação do doador com o movimento. A partir de R$ 30, o novo integrante pode ter direito a votos.

Tem desculpas pra lá e pra cá, foi material, foi lanche, foi passagem, foi isso, foi aquilo.
O fato, porém, é que eles eram os primeiros a proclamar sua total independência dos partidos e a acusar os defensores da legalidade a serem movidos a “mortadela”.
Os comentários estão “bombando no site do UOL. E a defesa, claro, é a de dizer que os jornalistas são petistas ou “petralhas”.
E olha que só apareceu a pontinha do rabo desta gente.
Vai precisar de muita “coluna” de Kim Kataguiri na Folha para explicar.