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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Tarcísio de Freitas e a incapacidade visceral do jornalismo de ser isento ante os interesses dos super ricos, por Luís Nassif

 

Basta pronunciar as palavras “corte de gastos” para ser consagrado pelo terraplanismo econômico e administrativo de um jornalismo de slogans.

Jornal GGN:

Aí vem os editoriais dos três jornais – Folha, Estadão e Globo – saudando Tarcisio de Freitas como grande gestor, porque anunciou corte de despesas e investimentos em São Paulo.

Não detalhou os cortes, a não ser o corte por represália à Fundação Padre Anchieta e o corte à Casa do Menor, antiga Febem.

Nada mais disse, nem lhe foi perguntado. Basta pronunciar as palavras “corte de gastos” para ser consagrado pelo terraplanismo econômico e administrativo de um jornalismo de slogans.

Aí, vão aparecendo os fatos.

  1. Em 2023, educação em São Paulo cai ao pior nível desde 2014, 
  2. Painel da Folha mostra que o programa federal Pró-Trilhos, lançado com toda pompa por Tarcísio/ em setembro de 2021, como Ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, jamais saiu do papel.  Até hoje não gerou um quilômetro de ferrovias sequer.
  3. O ajuste fiscal – que tanto encantou os editorialistas dos jornais – não passa de uma renegociação das dívidas dos estados com a União, uma excrescência criada pelo governo FHC e que o ministro da Fazenda Fernando Haddad está tentando corrigir.

Mas para os bravos editorialistas, não há necessidade de comprovação, análise de gestão, análise de histórico do gestor, apuração de resultados práticos. Basta a retórica. Ou então, como a Velhinha de Taubaté, acreditar nos sucessivos factoides que pavimentaram a carreira pública de Tarcísio de Freitas.

Pergunto: é assim que pretendem cumprir a missão histórica do jornalismo? Um pouco de pesquisa histórica, de como o jornalismo foi visto, como um dos pilares das sociedades democráticas:

“A missão histórica do jornalismo é informar, educar e entreter o público, além de servir como um contraponto ao poder e como um guardião da democracia. O jornalismo tem o papel fundamental de investigar, relatar e analisar os eventos e questões importantes da sociedade, garantindo que a população tenha acesso a informações precisas e relevantes para formar suas opiniões e tomar decisões informadas. 

Além disso, o jornalismo também deve fiscalizar o poder público, denunciar abusos, injustiças e corrupção, e dar voz aos grupos marginalizados e minoritários. Em resumo, a missão histórica do jornalismo é promover a transparência, a accountability e a liberdade de expressão em uma sociedade democrática”.

O endosso cego à retórica de Tarcísio, junto à falta completa de avaliação sobre sua história e, mesmo, sobre o que entregou em quase um ano e meio de gestão, cumpre com as responsabilidades do jornalismo? Ou o jornalismo é utilizado apenas para fins políticos e para interesses pessoais.


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Os disparatistas e o paradoxo da ignorância que se acha lúcida, por Lucas Kölln

 

Peculiar espécime troca, invariavelmente, a coerência pela gritaria. Acredita que “atitude” suplanta ideias. Inverte a máxima de Sócrates: não sabe que nada sabe — por isso, tem certezas agudas, e fazem disso o combustível para barbáries

Já perceberam como as coisas mais estapafúrdias são quase sempre ditas com uma certeza inabalável? Terraplanistas seguram réguas entre a câmera do celular e o horizonte e declaram sem titubear que estão certos. Teóricos da conspiração, embora operem levantando dúvidas, falam delas como se fossem a prova cabal sem tremer a voz uma vez sequer. Se lêssemos em voz alta a manchete das fake news que recebemos naqueles grupos sem-vergonha de WhatsApp, a entonação que elas requereriam é a de juiz de filme, bem na hora em que ele profere a sentença irrecorrível.

A segurança deles todos é assombrosa!

Há quem chame a retórica de “a arte de bem falar” e os que preferem “a arte de bem enganar”. Baseando-se nisto, obteríamos a seguinte taxonomia para os espécimes acima: ou são oradores eloquentes, ou espertalhões ardilosos. Damos com uma catalogação insuficiente. Se somos forçados a reconhecer que têm seus momentos de eloquência e que existem entre eles oportunistas e charlatões, colocá-los no patamar de Cícero ou tomá-los por leitores temporãos de Maquiavel seria distorcer a realidade tanto quanto eles, além de dar-lhes crédito demais.

Ora, como se pode explicar a origem de sua segurança?

Parto da hipótese de que, para responder a essa pergunta, temos de pensar a segurança primeiro como uma questão de atitude para então entendê-la nos seus fundamentos, digamos, gnosiológicos. A mecânica mesma dos momentos inglórios em que falam olavistas e afins conspira nesse sentido: o traço mais saliente daquela segurança é a ausência de qualquer sombra de dúvida nas afirmações; e em seguida questões de outra natureza entram em jogo, isto é, a dimensão propriamente lógica da coisa. A ordem “atitude > lógica”, importante dizer, é uma hierarquia de prioridade e não uma fatalidade cronológica: precisamos considerar a atitude primeiro porque ela tem mais peso, e não porque ela acontece antes.

A título de didática, tomemos um exemplo. Alguém diz: “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”. Afirmações desse tipo costumam vir acompanhados de um certo inflar de peito, reedição torta do “J’Accuse!”. Colocamos na citação acima o ponto final por convenção de redação, pois em contextos verbais, o mais adequado é quase sempre o ponto de exclamação. Aproveitando estarmos no terreno linguístico, peço que notem a sintaxe e a morfologia da afirmação: o modo indicativo é mera concessão à gramática, pois o tom pretendido mesmo é o imperativo; não há espaço para meias-palavras. Enunciações tais como “pode ser”, “há chance de que”, “é possível que” e afins não têm lugar aqui, afinal, não expressam a ênfase que a atitude requer.

Afirmações como as do parágrafo anterior exigem antes a contundência que a coerência. Leia-se, atitude antes de consistência.

Ter dúvidas ou ser cauteloso é entendido por esses disparatistas como estar nu, por isso é preciso que a linguagem não deixe entrever qualquer rachadura, nem sequer como uma salutar reserva intelectual tática. Ceticismo? Só se for em relação aos outros. A atitude precisa conter o essencial, porque vem antes de tudo e é quase tudo. Os disparatistas parecem às vezes supor que seus ouvintes são como os cães, que se guiam antes pela entonação do que pelo teor do que dizemos.

Entender essa importância da atitude ajuda a explicar a forma, mas ainda não explica de onde vem a segurança dos eruditos do almoço de domingo. É por isto que agora precisamos nos deter sobre a mecânica propriamente lógica desse fenômeno.

Uma das coisas que mais chama a atenção nesse sentido é o quanto destoam esses pseudoutos do grande panteão intelectual ocidental, ou da maior parte dele. É instrutivo que Sócrates adotasse como um de seus pressupostos metodológicos o “só sei que nada sei”; ou que Santo Agostinho tenha adotado postura humilíssima ao refletir sobre a natureza das coisas nas suas Confissões. De fato, é difícil não encontrar passagens aparentadas a de Sócrates no cânone do pensamento humano: os pensadores parecem ter estado sempre bastante dispostos a admitir que não sabiam tudo o que gostariam. Descartes declarou “Penso logo existo”, e não “Penso logo sei tudo. Ajoelhem-se perante minha sabedoria”.

Se esses luminares prontamente admitiram que podiam estar errados ou ter esquecido de algo, porque os tweeteiros de banheiro não o fazem? Gosto de chamar esse fenômeno de paradoxo da ignorância. Diferentemente dos grandes filósofos e pensadores, que tinham uma noção bastante razoável do que não sabiam, os disparateiros ignoram o que ignoram, e isso lhes concede uma certeza particularmente aguda. Posto noutros termos: por saberem menos, eles parecem saber mais.

Consideremos a Introdução da Crítica da razão pura, de Kant. São páginas tortuosas e cheias de senões, em que o filósofo busca acertar as contas com seus predecessores e limpar o terreno para construir a argumentação que virá em seguida.

O que ele faz ali é colocar as escoras do que sabe para poder suportar o peso do que não sabe: para poder argumentar com alguma solidez, Kant considerou aquilo que ignora através do estabelecimento dos pressupostos dos quais parte – inclusive para dar ao leitor as condições de refazer suas pegadas e testar suas conclusões por si próprio. A segurança e a autoridade que Kant conseguiu ter, portanto, estão calcadas em seu reconhecimento de que havia coisas que ele não sabia, e no seu confronto com elas.

Os disparatistas, por sua vez, não necessitam passar pelos apertos de Kant, e precisamente porque ignoram que ignoram. O “lado de lá” do conhecimento deles simplesmente não existe, e por isso não os constrange. Suas convicções não são forçadas à reflexão com o contraditório, por vezes nem mesmo com o real. Banham-se preguiçosamente no sol das certezas absolutas, porque no céu de sua lógica não há nuvem alguma.

Se você prestar atenção àquela afirmação de antes, “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”, vai perceber que, além de uma pausa no fim, onde encontrava-se o complemento “lá na Cochinchina” antes de ele cair em desuso, não há mais nada ali. Nada! Na superfície perfeitamente lisa dessas águas, que os pseudoutos tomam por plácidas por ignorarem a charneca ao redor, tudo é certeza. Donde a segurança.


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Boaventura de Sousa Santos reflete sobre as mentiras do capitalismo e neoliberalismo expostas pela pandemia, o negacionismo terraplanista e fundamentalista que incentiva e aceita o fascismo, o gatopardismo financista que, para manter os privilégios, aceita alguma reforma de fachada e, por fim, o transicionismo que abre uma possibilidade de volta da razão e do equilíbrio ao planeta

 

 "(A pandemia) mostrou, nomeadamente, que é o Estado (e não os mercados) que pode proteger a vida dos cidadãos; que a globalização pode colocar em perigo a sobrevivência dos cidadãos se cada país não produzir os bens essenciais; que os trabalhadores com empregos precários são os mais atingidos por não terem qualquer fonte de rendimento ou proteção social quando o emprego termina, uma experiência que o Sul global conhece há muito; que as alternativas social-democratas e socialistas voltaram à imaginação de muitos, não só porque a destruição ecológica causada pela expansão infinita do capitalismo atingiu limites extremos, como porque, afinal, os países que não privatizaram nem descapitalizaram os seus laboratórios parecem ter sido os mais eficazes na produção e mais justos na distribuição de vacinas. "


O negacionismo, o gatopardismo e o transicionismo

"O transicionismo, apesar de ser uma posição por agora minoritária, é a posição que me parece carregar mais futuro e menos desgraça para a vida humana e não humana do planeta", escreve o professor Boaventura de Sousa Santos

(Foto: Reuters)

A pandemia do novo coronavírus veio pôr em causa muitas das certezas políticas que pareciam consolidadas nos últimos quarenta anos sobretudo no chamado Norte global. As principais certezas eram: o triunfo final do capitalismo sobre o seu grande concorrente histórico, o socialismo soviético; a prioridade dos mercados na regulação da vida não só económica como social, com a consequente privatização e desregulação da economia, das políticas sociais e a redução do papel do Estado na regulação da vida colectiva; a globalização da economia assente nas vantagens comparativas na produção e distribuição; a brutal flexibilização (precarização) das relações de trabalho como condição para o aumento do emprego e o crescimento da economia. No seu conjunto, estas certezas constituíam a ordem neoliberal.

Esta ordem alimentava-se da desordem na vida das pessoas, sobretudo das que chegaram à vida adulta durante estas décadas. Basta recordar que a geração dos jovens que entrou no mercado de trabalho na primeira década de 2000 já conheceu duas crises económicas, a de 2008 e a atual crise decorrente da pandemia. Mas a pandemia significou muito mais que isso. Mostrou, nomeadamente, que é o Estado (e não os mercados) que pode proteger a vida dos cidadãos; que a globalização pode colocar em perigo a sobrevivência dos cidadãos se cada país não produzir os bens essenciais; que os trabalhadores com empregos precários são os mais atingidos por não terem qualquer fonte de rendimento ou proteção social quando o emprego termina, uma experiência que o Sul global conhece há muito; que as alternativas social-democratas e socialistas voltaram à imaginação de muitos, não só porque a destruição ecológica causada pela expansão infinita do capitalismo atingiu limites extremos, como porque, afinal, os países que não privatizaram nem descapitalizaram os seus laboratórios parecem ter sido os mais eficazes na produção e mais justos na distribuição de vacinas (Rússia e China). 

Não admira que os analistas financeiros ao serviço dos que criaram a ordem neoliberal prevejam agora que estamos a entrar numa nova era, a era da desordem. Compreende-se que assim seja uma vez que não sabem imaginar nada fora do catecismo neoliberal. O diagnóstico que fazem é muito lúcido e as preocupações que revelam são reais. Vejamos alguns dos seus traços principais. Os salários dos trabalhadores no Norte global estagnaram nos últimos trinta anos e as desigualdades sociais não cessaram de aumentar. A pandemia veio agravar a situação e é muito provável que dê azo a muita agitação social. Neste período, houve, de fato, uma luta de classes dos ricos contra os pobres e a resistência dos até agora derrotados pode surgir a qualquer momento.

Os impérios em fase final de declínio tendem a escolher figuras caricaturais, sejam elas Boris Johnson na Inglaterra ou Donald Trump nos EUA, que apenas aceleram o fim. A dívida externa de muitos países em resultado da pandemia será impagável e insustentável e os mercados financeiros não parecem ter consciência disso. O mesmo sucederá com o endividamento das famílias, sobretudo de classe média, já que foi este o único recurso que tiveram para manter um certo nível de vida. Alguns países escolheram o caminho fácil do turismo internacional (hotelaria e restauração), uma atividade por excelência presencial que vai sofrer de incerteza permanente.

A China acelerou a sua caminhada para voltar a ser a primeira economia do mundo, como foi durante séculos até ao início do século XIX. A segunda onda de globalização capitalista (1980-2020) chegou ao fim e não se sabe o que vem depois. A época da privatização das políticas sociais (nomeadamente, da medicina) com largas perspectivas de lucro parece ter chegado ao fim.

Estes diagnósticos, por vezes desassombrados, dão a entender que vamos entrar num período de opções mais decisivas e menos cômodas do que as que vigoraram nas últimas décadas. Antevejo três caminhos principais. Designo o primeiro por negacionismo. Não partilha o caráter dramático da avaliação exposta atrás. Não vê na atual crise nenhuma ameaça ao capitalismo. Pelo contrário, acha que ele se fortaleceu com a crise actual. Afinal, o número dos bilionários não cessou de aumentar durante a pandemia e, aliás, houve setores que viram aumentar os seus lucros em resultado da pandemia (veja-se o caso da Amazon ou das tecnologias de comunicação, Zoom, por exemplo). 

Reconhece-se que a crise social vai agravar-se; para a conter, o Estado apenas tem de reforçar o seu sistema de “lei e ordem”, fortalecer a sua capacidade de reprimir os protestos sociais que já começaram a acontecer, e que certamente irão aumentar, ampliando os corpos de polícia, retreinando o exército para atuar contra “inimigos internos”, intensificando o sistema de vigilância digital, ampliando o sistema prisional. Neste cenário, o neoliberalismo vai continuar a dominar a economia e a sociedade. Admite-se que será um neoliberalismo geneticamente modificado para poder defender-se do vírus chinês. Entenda-se, um neoliberalismo em tempo de intensificada guerra fria com a China e, por isso, combinado com algum tribalismo nacionalista. 

 A segunda opção é a que corresponde mais fielmente aos interesses dos setores que reconhecem serem necessárias reformas para que o sistema possa continuar a funcionar, ou seja, para que a rentabilidade do capital possa continuar a estar garantida. Designo esta opção por gatopardismo, com referência ao romance Il Gattopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1958): é preciso que haja mudanças para que tudo fique na mesma, para que o essencial esteja garantido. Por exemplo, deve ampliar-se o setor público da saúde e reduzir as desigualdades sociais, mas não se pensa em alterar o sistema produtivo ou o sistema financeiro, a exploração dos recursos naturais, a destruição da natureza ou os modelos de consumo. 

Esta posição reconhece implicitamente que o negacionismo pode vir a dominar e teme que, a prazo, isso leve à inviabilidade do gatopardismo. A legitimidade do gatopardismo está baseada numa convivência que se sedimentou nos últimos quarenta anos entre capitalismo e democracia, uma democracia de baixa intensidade e bem domesticada, para não pôr em causa o modelo econômico e social, mas mesmo assim garantindo alguns direitos humanos que tornam mais difícil a recusa radical do sistema e a insurgência anti-sistémica. Sem a válvula de segurança das reformas, acabará a paz social mínima e, sem ela, a repressão será inevitável.

Há, no entanto, uma terceira posição que designo por transicionismo. Por enquanto habita apenas no inconformismo angustiado que aflora em múltiplos lugares: no ativismo ecológico dos jovens urbanos, um pouco por todo o mundo; na indignação e na resistência dos camponeses, povos indígenas e afrodescendentes e povos das florestas e das regiões ribeirinhas perante a invasão impune dos seus territórios e o abandono do Estado em tempos de pandemia; na reivindicação da importância das tarefas de cuidado a cargo das mulheres, ora no anonimato das famílias, ora nas lutas dos movimentos populares, ora à frente de governos e das políticas de saúde de vários países; num novo ativismo rebelde de artistas plásticos, poetas, grupos de teatro, rappers, sobretudo nas periferias das grandes cidades, um conjunto vasto a que podemos dar o nome de artivismo.

Esta é a posição que vê na pandemia o sinal de que o modelo civilizacional que domina o mundo desde o século XVI chegou ao fim e que é necessário iniciar uma transição para outro ou outros modelos civilizacionais. O modelo actual assenta na exploração sem limites da natureza e dos seres humanos, na ideia do crescimento econômico infinito, na prioridade do individualismo e da propriedade privada, no secularismo. 

Este modelo permitiu avanços tecnológicos impressionantes, mas concentrou os benefícios em alguns grupos sociais ao mesmo tempo que causou e legitimou a exclusão de outros grupos sociais, aliás maioritários, por via de três modos de dominação principais: exploração dos trabalhadores (capitalismo), racismo legitimador de massacres e pilhagens de raças consideradas inferiores e apropriação dos seus recursos e saberes (colonialismo) e sexismo legitimador da desvalorização do trabalho de cuidado das mulheres e da violência sistêmica contra elas no espaços doméstico e público (patriarcado). 

A pandemia, ao mesmo tempo que agravou estas desigualdades e discriminações, tornou mais evidente que, se não mudarmos de modelo civilizacional, novas pandemias continuarão a fustigar a humanidade e os danos que elas causarão na vida humana e não humana são imprevisíveis. Como não se pode mudar de modelo civilizacional de um dia para o outro, é necessário começar a desenhar políticas de transição. Daí a designação de transicionismo. 

Em meu entender, o transicionismo, apesar de ser uma posição por agora minoritária, é a posição que me parece carregar mais futuro e menos desgraça para a vida humana e não humana do planeta. Merece, pois, mais atenção. Partindo dela, podemos antecipar que vamos entrar numa era de transição paradigmática feita de várias transições. As transições ocorrem quando um modo dominante de vida individual e colectiva, criado por determinado sistema econômico, social, político e cultural, começa a revelar crescentes dificuldades em reproduzir-se ao mesmo tempo que, no seu seio, começam a germinar, de modo cada vez menos marginal, sinais e práticas que apontam para outros modos de vida qualitativamente distintos.

A ideia da transição é uma ideia intensamente política porque pressupõe a existência alternativa entre dois horizontes possíveis, um distópico e outro utópico. Vista do transicionismo, o não fazer nada, que é próprio do negacionismo, implica, de fato, uma transição, mas uma transição regressiva para um futuro irremediavelmente distóptico, um futuro em que se intensificarão e multiplicarão todos os males ou disfunções do tempo presente, um futuro sem futuro, já que a vida humana irá se tornar invivível, como já o é para muitas pessoas no nosso mundo. Pelo contrário, o transicionismo aponta para um horizonte utópico. E como a utopia por definição nunca se atinge, a transição é potencialmente infinita, mas nem por isso menos urgente. Se não começarmos já, amanhã pode ser demasiado tarde como nos advertem quer os cientistas das mudanças climáticas e do aquecimento global, quer os camponeses que sofrem os efeitos dramáticos dos eventos climáticos extremos.

A característica principal das transições é que nunca se sabe ao certo quando começam e quando terminam. É bem possível que o nosso tempo seja avaliado no futuro de modo diferente daquele que hoje defendemos. Pode mesmo vir a considerar-se que a transição já começou, mas sofre constantes bloqueios. A outra característica das transições é que ela é pouco visível para os que a vivem. Essa relativa invisibilidade é o outro lado da semi-cegueira com que temos de viver o tempo de transição. É um tempo de tentativa e erro, de avanços e recuos, de mudanças persistentes e efémeras, de modas e obsolescências, de partidas disfarçadas de chegadas e vice-versa. A transição só é plenamente identificável depois de acontecer. 

O negacionismo, o gatopardismo e o transicionismo vão enfrentar-se nos próximos tempos, e o enfrentamento será provavelmente menos pacífico e democrático do que desejaríamos. Uma coisa é certa, o tempo das grandes transições inscreveu-se na pele do nosso tempo e é bem possível que venha a contradizer o verso de Dante. Escreveu Dante que a seta que se vê vir vem mais devagar (che saetta previsa viene più lenta). Estamos a ver a seta da catástrofe ecológica a vir na nossa direcção. Vem tão rápida que por vezes dá a sensação de já se ter cravado em nós. Se for possível removê-la, não será sem dor.  

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segunda-feira, 3 de junho de 2019

A sociologia não é uma terra plana como nas cabeças de olavistas e bolsonaristas, por Lúcio Verçoza



Texto escrito a partir das declarações do governo Bolsonaro sobre “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia”.


A sociologia não é uma terra plana[1]

por Lúcio Verçoza

Se olharmos para o horizonte, a olho nu, a terra parece plana. No entanto, ela não é. A sociologia, para alguém muito distante dela, pode parecer apenas uma oficina de ideias revolucionárias, mas está longe disso. Engana-se quem pensa que Marx é o autor mais ensinado pelos sociólogos contemporâneos. O pensamento sociológico é tão plural e diverso quanto o seu objeto de estudo. Nos cursos de sociologia no Brasil, são lidos desde o positivista Auguste Comte (autor da célebre frase “Ordem e progresso”, costurada na bandeira brasileira), ao liberal Max Weber; do conservador Émile Durkheim, à pós-estruturalista Judith Butler; do funcionalismo de Parsons, ao interacionismo simbólico da Escola de Chicago. Se a sociologia abriga tão amplas matizes do pensamento social e político, por que a tratar como inimiga? Por que ameaçar fechar seus cursos?
A questão é que mesmo com tão variadas e divergentes perspectivas teóricas e metodológicas no interior da sociologia, existe algo comum entre os grandes pensadores desse campo do conhecimento: todos buscam, ainda que por diferentes caminhos, explicar a sociedade a partir da própria realidade social – e isso implica desmistificar e desnaturalizar as relações sociais. É por essa razão que até mesmo a sociologia conservadora pode ser considerada perigosa em um contexto de disseminação de explicações que carecem de o mínimo de lastro na realidade.
Isso não é bem uma novidade. Roberto Schwarz demonstrou como a leitura de Adam Smith e David Ricardo poderia ser incômoda e constrangedora para os autodeclarados liberais no Brasil do século XIX, pois muitos desses “liberais” eram a favor do livre mercado, mas contra a abolição da escravatura. O mesmo é válido para o Brasil de hoje. Até mesmo Casa grande e senzala, do conservador Gilberto Freire, corre o risco de ser rotulada de “marxismo cultural”, simplesmente por se contrapor a eugenia, ou por reconhecer o peso do sistema patriarcal e da monocultura latifundiária na formação da sociedade brasileira. Vivemos realmente tempos estranhos.
O que dizer, então, sobre uma sociologia que encontra na superexploração da força de trabalho a chave para a compreensão do padrão de reprodução do capitalismo periférico (Ruy Mauro Marini)? Ou que analisa o relativamente recente processo de redemocratização brasileira como uma “transição transada”, marcada pela ausência de rupturas significativas e de punição para os agentes da ditadura (Florestan Fernandes)? O que falar sobre uma sociologia que questiona por que formas legitimadas de dilapidação e rapina do orçamento e do patrimônio público não são analisadas como sinônimo de corrupção (Jessé Souza)? A sociologia pode mesmo ser incômoda. Em razão disso, talvez ela seja tão combatida pelo atual governo. Até mesmo a mais dócil das sociologias é vista como suspeita.
[1] Texto escrito a partir das declarações do governo Bolsonaro sobre “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia”.
Lúcio Verçoza – Sociólogo, professor universitário e autor do livro Os “homens-cangurus” dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde (Edufal-Fapesp, 2018).