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segunda-feira, 20 de maio de 2024

Promotor do Tribunal Penal Internacional pede mandado de prisão contra o ultradireitista Benjamin Netanyahu por crimes de guerra

 

Karim Khan, promotor-chefe do TPI, também pede que o tribunal emita mandados de prisão para o ministro da Defesa de Israel e líderes do Hamas


Benjamin Netanyahu e Faixa de Gaza após ataque de Israel
Benjamin Netanyahu e Faixa de Gaza após ataque de Israel (Foto: ABR | Reprodução/AlJazeera)

247 - Promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan pediu que o tribunal emita mandados de prisão contra o líder do Hamas, Yahya Sinwar, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade relacionados aos ataques de 7 de outubro a Israel e à guerra subsequente em Gaza.

Em entrevista a Christiane Amanpour, da CNN, nesta segunda-feira (20), Khan disse que também está buscando mandados para o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, bem como para dois outros líderes de alto escalão do Hamas: Mohammed Diab Ibrahim al-Masri, líder das Brigadas Al Qassem, mais conhecido como Mohammed Deif, e Ismail Haniyeh, líder político do Hamas.

Os mandados contra os políticos israelenses marcam a primeira vez que o TPI visa o líder máximo de um aliado próximo dos Estados Unidos. Um painel de juízes do TPI agora considerará a solicitação de Khan para os mandados de prisão.

Khan disse que as acusações contra Sinwar, Haniyeh e al-Masri incluem “extermínio, assassinato, tomada de reféns, estupro e agressão sexual em detenção". “O mundo ficou chocado no dia 7 de outubro quando pessoas foram arrancadas de seus quartos, de suas casas, dos diferentes kibutzim em Israel", disse Khan a Amanpour, acrescentando que “as pessoas sofreram enormemente.”

As acusações contra Netanyahu e Gallant incluem “causar extermínio, causar fome como método de guerra, incluindo a negação de suprimentos de ajuda humanitária, e deliberadamente alvejar civis em conflito,” disse Khan a Amanpour.

Quando surgiram relatos no mês passado de que o promotor-chefe do TPI estava considerando essa ação, Netanyahu disse que quaisquer mandados de prisão do TPI contra altos funcionários do governo e militares israelenses “seriam um ultraje de proporções históricas,” e que Israel “tem um sistema jurídico independente que investiga rigorosamente todas as violações da lei".

Questionado por Amanpour sobre os comentários de Netanyahu, Khan disse: “ninguém está acima da lei". Ele disse que se Israel discordar do TPI, “eles são livres, não obstante suas objeções à jurisdição, para levantar um desafio perante os juízes do tribunal e é isso que eu os aconselho a fazer".

Israel e os Estados Unidos não são membros do TPI. No entanto, o TPI afirma ter jurisdição sobre Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia depois que líderes palestinos concordaram formalmente em estar vinculados pelos princípios fundadores do tribunal em 2015.



segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Israel e Hamas: onde está a verdadeira linha divisória?, por Slavoj Žižek

 OK, parece lógico, a própria vítima decidir se é realmente uma vítima. Mas o mesmo não se aplica aos palestinos, que deveriam ser capazes de determinar quem está roubando as suas terras e os privando dos seus direitos elementares?

Apoio o direito de Israel de se defender contra ataques terroristas, mas simpatizo com o destino desesperado e sem esperança de palestinos

Coluna de fumaça sobre prédios em Gaza após bombardeios de Israel na última segunda-feira (09). Foto: MAHMUD HAMS / AFP via Blog da Boitempo

do Blog da Boitempo

Israel e Hamas: onde está a verdadeira linha divisória?

por Slavoj Žižek

O ataque do Hamas a Israel deve ser condenado incondicionalmente, sem quaisquer “mas” ou “se”. Basta recordar o massacre de jovens civis que saíram de uma festa rave com 260 mortos a tiros – isto não é “guerra”, isto é um massacre puro e simples que dá um sinal de que o objetivo do Hamas, a destruição de Israel como Estado, inclui o assassinato de civis israelenses. O que, no entanto, deve ser feito com urgência, é localizar este ataque no seu contexto histórico – tal contextualização de forma alguma o justifica, apenas esclarece por que e como ocorreu.

O título de um diálogo recente sobre antissemitismo e BDS [Boicote, Desinvestimento e Sanções] no Der Spiegel foi: “Wer Antisemit ist, bestimmt der Jude und nicht der potenzielle Antisemit” [“Quem é antissemita é determinado pelo judeu e não pelo potencial antissemita”]. OK, parece lógico, a própria vítima decidir se é realmente uma vítima. Mas o mesmo não se aplica aos palestinos, que deveriam ser capazes de determinar quem está roubando as suas terras e os privando dos seus direitos elementares? Para se ter uma ideia do desespero dos palestinos comuns da Cisjordânia, basta lembrar os vagos ataques individuais suicidas nas ruas (principalmente) de Jerusalém há cerca de uma década: um palestino comum aborda um judeu, saca uma faca e o esfaqueia (geralmente), sabendo muito bem que ele/ela será morto instantaneamente por outras pessoas ao seu redor. Não houve qualquer mensagem nestes atos “terroristas”, nenhum grito de “Palestina Livre!”; não houve nenhuma grande organização por trás deles (nem mesmo as autoridades israelenses o afirmaram), nenhum grande projeto político, apenas puro desespero. Eu estava, naquela época, em Jerusalém e meus amigos judeus me alertaram sobre esse perigo, aconselhando-me que, se eu visse isso chegando, deveria gritar bem alto: “Eu não sou judeu!” – e lembro-me claramente que fiquei profundamente envergonhado de me comportar assim, sabendo muito bem que não tinha certeza do que realmente faria em tal situação… Então, quando lemos agora na imprensa manchetes como “Isso é o pesadelo para Israel e seu povo” ou “11 de setembro de Israel: Terror inimaginável atinge o coração da nação!” – sim, com certeza, mas os palestinos da Cisjordânia vivem num pesadelo há décadas.

As coisas pioraram com o novo governo de Netanyahu – em um painel de TV em 25 de agosto de 2023, Itamar Ben Gvir, Ministro da Segurança Nacional, disse: “Meu direito, o direito da minha esposa, o direito dos meus filhos de circular livremente nas estradas da Judéia e Samaria [Cisjordânia] é mais importante do que o dos árabes.” Depois, voltando-se para o palestrante Mohammad Magadli, o único árabe no painel, Ben Gvir disse: “Desculpe, Mohammad, mas esta é a realidade”.1 Em suma, a violência anti-Palestina já não é sequer formalmente condenada pelo Estado. O destino de Ben-Gvir é o indicador mais claro desta mudança. Antes de entrar na política, Ben-Gvir era conhecido por ter na sua sala um retrato do terrorista israel-americano Baruch Goldstein, que em 1994 massacrou vinte e nove fiéis muçulmanos palestinos e feriu outros 125 em Hebron, no que ficou conhecido como o massacre da Caverna dos Patriarcas. Ele entrou na política juntando-se ao movimento juvenil do partido Kach e Kahane Chai, que foi designado como organização terrorista e proibido pelo próprio governo israelense. Quando atingiu a maioridade para o recrutamento nas Forças de Defesa de Israel, aos 18 anos, foi impedido de servir devido à sua formação política de extrema direita. E tal pessoa, condenada por Israel como racista e terrorista, é agora o ministro que deveria salvaguardar o Estado de Direito… O Estado de Israel, que gosta de se apresentar como a única democracia do Oriente Médio, agora de fato se transformou em um Estado teocrático (com o equivalente à lei Sharia). Shlomo Ben-Ami escreveu em “Hubris Meets Nemesis in Israel”: “Ao excluir qualquer processo político na Palestina e afirmar corajosamente, nas diretrizes vinculativas do seu governo, que ‘o povo judeu tem um direito exclusivo e inalienável a todas as partes da Terra de Israel’, o governo fanático de Netanyahu tornou o derramamento de sangue inevitável.”2

Exagero? Aqui está o primeiro dos “princípios básicos oficiais do 37º governo de Israel”: “O povo judeu tem um direito exclusivo e inalienável a todas as partes da Terra de Israel. O governo promoverá e desenvolverá a colonização de todas as partes da Terra de Israel – na Galiléia, no Negev, no Golã, na Judéia e na Samaria.”3 Como é que alguém, depois do aparecimento de tal “princípio”, pode censurar os palestinos por se recusarem a negociar com Israel? Este “princípio” não exclui quaisquer negociações sérias, não deixa aos palestinos APENAS a resistência violenta?

Se eu fosse mais propenso a teorias da conspiração, certamente expressaria a minha dúvida sobre o fato muito divulgado de que o serviço secreto israelense realmente não sabia nada sobre o ataque. Acho a surpresa de “como isso pôde passar despercebido” uma farsa. Não estava Gaza totalmente sob o seu controle, com numerosos informantes, todos os mais recentes conjuntos de sensores terrestres e aéreos etc.? Não é permitido levantar a questão: quem lucrou mais com o ataque do Hamas? Dito de uma forma stalinista, o ataque do Hamas serve objetivamente ao interesse dos radicais israelenses que agora governam o Estado (para não mencionar também o interesse da Rússia: a guerra já desviou a atenção da guerra ucraniana). No entanto, mesmo que Netanyahu soubesse que o Hamas estava preparando algo, ele não poderia ter previsto o número de israelenses mortos, pelo que o ataque do Hamas também poderia significar o fim de Netanyahu, que perdeu o título de “Sr. Segurança”… Quem sabe o que realmente aconteceu? A situação é obscura. Qual foi o verdadeiro papel do Irã, da Rússia e também da China? A guerra de Gaza é o primeiro momento da III Guerra Mundial? Uma coisa é certa: esta guerra é uma catástrofe com consequências históricas.

No entanto, em vez de nos perdermos em teorias da conspiração, bastaria salientar que ambos os lados (Hamas e o governo de Netanyahu) são contra qualquer opção de paz e defendem a luta até a morte. O ataque do Hamas deve ser lido no contexto do grande conflito que dividiu Israel nos últimos meses. Comentando as medidas propostas pelo governo Netanyahu, Yuval Harari disse de forma brutal: “Isto é definitivamente um golpe. Israel está a caminho de se tornar uma ditadura.”4 Israel estava dividido entre os fundamentalistas nacionalistas que tentavam abolir as restantes características do poder estatal legal, e os membros da sociedade civil conscientes desta ameaça, mas ainda com medo de propor um pacto com os palestinos não antissemitas. A situação aproximava-se da guerra civil entre os próprios judeus israelenses, com sinais de decadência da ordem jurídica. Com o ataque do Hamas, a crise terminou (pelo menos temporariamente) e o espírito de unidade nacional prevalece: a oposição propôs imediatamente a formação de um governo de emergência de unidade nacional, ou, como disse o líder da oposição Yair Lapid: “Eu ganhei. Não me preocupo com a questão de quem é o culpado e por que fomos surpreendidos. Enfrentaremos o nosso inimigo em unidade.”5 Existem outros gestos semelhantes: reservistas que antes se abstinham do serviço militar em oposição à reforma legal e à redução da doutrina da separação de poderes, agora realistaram-se etc. Num clássico movimento político, a divisão interna é superada quando ambos os lados estão unidos contra um inimigo externo. Como sair deste maldito ciclo vicioso?

Ninguém menos que Ehud Olmert apresentou uma voz um pouco diferente: sim, Israel deveria combater o Hamas, mas também deveria usar esta situação para oferecer uma mão aos palestinos prontos para negociar, uma vez que o que se esconde no pano de fundo da guerra é a questão palestina não resolvida.6 E definitivamente não existem palestinos antissemitas. No domingo, 10 de setembro de 2023, um grupo de mais de cem acadêmicos e intelectuais palestinos assinou uma carta aberta para condenar os “comentários moral e politicamente repreensíveis” feitos recentemente pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sobre o Holocausto e as origens dos judeus Ashkenazi: “Enraizados em uma teoria racial difundida na cultura e na ciência europeias da época, o genocídio nazista do povo judeu nasceu do antissemitismo, do fascismo e do racismo. Rejeitamos veementemente qualquer tentativa de diminuir, deturpar ou justificar o antissemitismo, os crimes nazistas contra a humanidade ou o revisionismo histórico em relação ao Holocausto.”7

Então, o que poderia a Europa fazer aqui além de simplesmente se irritar por não dar apoio suficiente a um ou outro lado na guerra em curso? Nem todos os israelenses são nacionalistas fanáticos, nem todos os palestinos são antissemitas (da mesma forma que nem todos os russos são pró-Putin). Talvez a primeira coisa a fazer seja reconhecer claramente o enorme desespero e confusão que podem dar origem a atos ocasionais de maldade. E o próximo passo é ver a estranha semelhança entre os palestinos, a quem é negado o único lugar que conheceram como sua pátria, e os próprios judeus ­­­­- esta homologia vale até para o termo “terrorismo”: nos anos da luta judaica contra os militares britânicos na Palestina, o próprio termo “terrorista” tinha uma conotação positiva. No final da década de 1940, os jornais americanos publicaram um anúncio com a manchete “Carta aos Terroristas da Palestina”, contendo estas frases: “Meus Bravos Amigos. Vocês podem não acreditar no que escrevo, pois há muito esterco no ar neste momento. Os palestinos da América estão com vocês.” Este texto foi escrito por ninguém menos que Ben Hecht, o célebre roteirista de Hollywood.

Por baixo de todas as polêmicas sobre “quem é mais terrorista”, encontra-se como uma pesada nuvem escura a massa de árabes palestinos que durante décadas foram mantidos num limbo. Quem são eles, em que terra vivem? Território ocupado, Cisjordânia, Judeia e Samaria… ou o Estado da Palestina que é atualmente reconhecido por 139 dos 193 Estados membros das Nações Unidas. É membro do Comitê Olímpico Internacional, bem como da UNESCO, da UNCTAD e do Tribunal Penal Internacional. Após uma tentativa fracassada em 2011 de garantir o pleno estatuto de Estado membro das Nações Unidas, a Assembleia Geral das Nações Unidas votou em 2012 para reconhecer a Palestina como um Estado observador não membro. Israel (que controla o seu território) trata-os como colonos temporários, como um obstáculo ao restabelecimento do estado “normal” com os judeus como os únicos verdadeiros nativos. Até mesmo muitos israelenses ateus argumentam que, embora Deus não exista, deu-lhes a terra de Israel para seu uso exclusivo. Eles são estritamente tratados como um problema, o Estado de Israel nunca lhes ofereceu qualquer esperança, delineando positivamente o seu papel no estado em que vivem. O mais obsceno foi a ideia, que circulou há cerca de uma década, de que cada palestino da Cisjordânia receberia meio milhão de dólares se deixasse o país.

O Hamas e a linha dura israelense são, portanto, as duas faces da mesma moeda: a verdadeira escolha não é entre eles, mas entre os fundamentalistas da linha dura e aqueles que estão abertos à coexistência de ambos os lados. Aqui, mais uma vez, devemos nos opor à dupla chantagem: se alguém é pró-Palestina, é eo ipso antissemita, e se alguém é contra o antissemitismo, deve ser eo ipso pró-Israel. A solução NÃO é um compromisso, uma “medida certa” entre os dois extremos – deve-se antes ir até ao fim em AMBAS as direções, na defesa dos direitos palestinos, bem como na luta contra o antissemitismo. Por mais utópico que isto possa parecer, as duas lutas são dois momentos da mesma luta (especialmente hoje, quando os sionistas antissemitas florescem – pessoas que são secretamente antissemitas, mas apoiam a expansão de Israel, desde Breivik até aos fundamentalistas religiosos dos EUA). Portanto, sim, apoio incondicionalmente o direito de Israel de se defender contra tais ataques terroristas, mas ao mesmo tempo simpatizo incondicionalmente com o destino desesperado e cada vez mais sem esperança dos palestinos nos territórios ocupados. Aqueles que pensam que há uma “contradição” nesta minha postura são aqueles que efetivamente representam uma ameaça à nossa dignidade e liberdade.

Texto enviado pelo autor para o Blog da Boitempo.

Notas
1 ‘Sorry Mohammad’: What’s behind Ben Gvir’s apartheid honesty? (972mag.com).
2 Hubris Meets Nemesis in Israel by Shlomo Ben-Ami – Project Syndicate (project-syndicate.org).
3 Judicial reform, boosting Jewish identity: The new coalition’s policy guidelines | The Times of Israel.
4 Yuval Noah Harari: This Is Definitely a Coup. Israel Is on Its Way to Becoming a Dictatorship – Haaretz.com.
5 Israeli opposition leader Lapid offers to form emergency government (msn.com).
6 https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/devemos-combater-hamas-mas-procurar-autoridades-palestinas-interessadas-no-dialogo-diz-ex-primeiro-ministro-de-israel/.
7 Palestinian academics sign open letter condemning Abbas’s antisemitic comments | The Times of Israel.

Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015), O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016) e o mais recente Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo (2020).

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O ocidente e o terrorismo na Palestina

 

Sentimos horror pela violência terrorista do Hamas contra judeus. Mas o que sentimos pelo terror a que os palestinos vêm sendo submetidos?


Banksy


O ocidente e o terrorismo na Palestina

por Aldo Fornazieri (publicado no Jornal GGN)

O ataque do Hamas contra civis em Israel foi um ato abominável que deve ser condenado com toda veemência pela consciência moral e também porque foi um crime de guerra, de acordo com o direito internacional, mesmo considerando-se que o Hamas é um ator não-estatal.

O povo judeu tem uma história admirável de resiliência ao longo dos séculos. Deixe-se a escravidão do Egito de lado, pois ela faz parte do mito e não da história. O que a história e a arqueologia atestam é que Israel Antigo (Reino do Norte)  foi devastado pelos assírios e sua população foi deportada; que Jerusalém, capital de Judá, foi  destruída pelos babilônios em 586 a.C.; e que, esta mesma Jerusalém, foi destruída mais duas vezes pelos romanos: em 70 por Tito e em 135 ´por Adriano, ocorrendo a grande diáspora. Na Era Moderna, os judeus foram terrivelmente massacrados pelo nazismo.

Mesmo com tudo isto, os judeus estão aí com seu Estado e com sua prosperidade. Mas a construção do Estado atual, com sua prosperidade, não foi feita sem grandes pecados e grandes crimes. Constatar isto, não significa dizer que os judeus não têm direito a um Estado. O problema é como ele foi constituído.

É certo que o terrorismo deve ser condenado por dirigir-se contra a população civil. Além disso, a história mostra que ele não é um método eficaz para atingir objetivos políticos. Mas se o terrorismo, e a violência que ele perpetra, deve ser condenado, ele deve ser também compreendido. Só compreendendo suas causas é possível agir para evita-lo.

Desta forma, não se pode compreender a violência do Hamas e de outros grupos radicais que lutam contra Israel sem compreender a história da região e dos acontecimentos causais que levaram aos sangrentos dias de hoje.

Pode-se dizer que a história contemporânea da Palestina começa em 1917 com a Declaração de Balfour – que consiste na carta do secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Arthur Balfour, ao líder judaico britânico Lionel Walter Rothschild. Com a declaração o governo britânico se comprometia a estabelecer “um lar nacional ao povo judeu na Palestina”. De 1923 a 1948 foi estabelecido o mandato britânico, espécie de colonialismo, sobre a Palestina. Foi nesse momento que começa a história do terrorismo contra os palestinos e demais árabes que viviam na região.

Sob o mandato, começaram ondas de ingressos crescentes de judeus na Palestina e o confisco de terras pelos britânicos para serem distribuídas para os judeus. De 1936 a 1939 ocorreu a Revolta Árabe (greves e protestos) por conta desta política. Ocorreram prisões em massa e demolições punitivas de lares palestinos, algo que os judeus ortodoxos aplicam até hoje. Os britânicos começaram a armar grupos paramilitares de judeus. Nesse período foram mortos cerca de 5 mil palestinos. Mais de 15 mil foram feridos e 5.600 foram presos.

Com a perseguição nazista, o fluxo de judeus para a Palestina se intensificou. Em 1947, os palestinos ocupavam 94% da Palestina histórica e eram 67% da população. Com a resolução 181, a ONU criou o Estado de Israel e lhe destinou 56% da Palestina. Em 1948, os paramilitares sionistas começaram uma política de expansão territorial, destruindo cidades e aldeias palestinas. Apenas na aldeia de Deir Yassin, 100 homens, mulheres e crianças foram mortos.

Em dois anos, mais de 500 cidades e aldeias foram destruídas e cerca de 15 mil palestinos foram mortos em inúmeros massacres. Com isso, os judeus capturaram 78% da Palestina histórica e o resto ficou para a Cisjordânia e Faixa de Gaza. Calcula-se que 750 mil palestinos tiveram que abandonar suas casas e 150 mil ficaram no Estado de Israel. Em 1948 a Resolução 194 apela para o direito de retorno dos palestinos, mas isto nunca se tornou efetivo.

Sucederam-se guerras e intifadas. Os palestinos foram perdendo terreno nesses processos. Israel foi condenado várias vezes pela ONU e nunca obedeceu as resoluções sobre territórios ocupados. Um relatório da ONU sobre Gaza, produzido em 2009, afirma que na operação Chumbo Fundido, que durou três semanas, Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra e, possivelmente, crimes contra a humanidade. Morreram 13 judeus e 1.400 palestinos. No mínimo, 400 dessas mortes podem ter sido execuções de civis. Nunca houve uma investigação conclusiva.

Em 2007 Israel impôs um bloqueio a Gaza, acusando o Hamas de terrorismo. Mas até mesmo analistas judeus sustentam que a extrema-direita de Israel e Netanyahu apoiaram indiretamente e fomentaram o grupo contra o Al Fatah, organização laica e moderada. Na medida em que o Hamas não reconhece o Estado judeu, isto serve aos interesses da extrema-direita israelita para bloquear a formação do Estado Palestino.

De qualquer forma, não é possível compreender o terrorismo e a violência dos grupos palestinos radicais sem estender a história de violência perpetrada contra os palestinos em geral no processo de formação do Estado de Israel. Violência que teve o patrocínio e a complacência das potências ocidentais. Teve também a omissão, quando não a traição, de governos árabes.

O fato é que os palestinos vêm sendo humilhados e espezinhados. A relação que o mundo ocidental tem para com eles é de indiferença. Ninguém se importa com a morte dos civis, das mulheres, das crianças. Ninguém se importa com sua fome, seu desespero, sua falta de pátria e de futuro. São vistos como massa excedente, que pode desaparecer.

Gaza é um campo de concentração a céu aberto. Sentimos horror pela violência terrorista do Hamas contra civis judeus. Mas o que sentimos pela história de terror a que os palestinos vêm sendo submetidos? Concordamos com a existência do Estado de Israel. Mas o que dizer do fato de que Israel viola as resoluções da ONU sobre territórios? E o que dizer da ONU que garante o Estado de Israel e é incapaz de garantir o Estado Palestino? Nos solidarizamos com as famílias e parentes dos civis mortos pelo Hamas. Mas o que sentimos e dizemos às famílias de palestinos que vêm tendo homens, mulheres e crianças mortos há décadas?

Esta guerra precisa acabar, com a convivência de dois Estados. De dois povos irmãos, que têm o mesmo Deus e vários profetas em comum. Nessa história não há povo escolhido. Cada povo precisa ter seu Estado, seus direitos e o direito de viver em paz.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Palestina e o fracasso da mediação dos Estados Unidos, por Luís Nassif

 

A conclusão da Eurasia Review é que os Estados Unidos são considerados, por muitos analistas, uma potência em declínio no Oriente Médio

Do Jornal GGN:



Segundo a NBC, os Estados Unidos confiam na influência da China sobre o Irã, para acalmar as tensões no Oriente Médio.

O maior sinal de fracasso da diplomacia americana ocorreu logo depois da ofensiva do Hamas sobre Israel. Uma comitiva de senadores democratas e republicanos americanos se reuniu com o presidente chinês Xi Jinping na manhã de segunda-feira. A reunião durou cerca de 80 minutos, disse Schumer, quase o dobro do esperado.

O líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, informou que a delegação pediu a Pequim que usasse sua influência com o Irã para evitar que o conflito Israel-Hamas se espalhasse.

O episódio mostra mais um fracasso da diplomacia Ocidental e da falência das instituições multilaterais.

O acordo Arábia-Israel

Ele ocorre em um momento em que os Estados Unidos trabalhavam por uma pacificação entre Arábia Saudita e Israel. Por se tratar de processo complexo de reconciliação, apontou a Eurasia Review, cada lado terá que assumir compromissos para que o acordo seja aceitável para o outro lado.

No final de 2020 e início de 2021, governo Trump, Israel normalizou relações com países muçulmanos dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão.

Se fechado o acordo com a Arábia, haveria uma mudança radical no Oriente Médio. O ultradireitista primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro, chegou a anunciar que Israel estava no “limiar” de um acordo de paz transformador com a Arábia Saudita.

“Essa paz contribuirá muito para acabar com o conflito árabe-israelense”, disse Netanyahu. “Isto encorajará outros estados árabes a normalizarem as suas relações com Israel. Isto aumentará as perspectivas de paz com os palestinos. Promoverá uma reconciliação mais ampla entre o Judaísmo e o Islão, entre Jerusalém e Meca, entre os descendentes de Isaac e os descendentes de Ismael.”

A insensibilidade em relação a Palestina sempre foi a pedra no sapato de qualquer acordo.

Já houve 6 fases deste acordo. Na primeira, a partir da década de 1990, as negociações foram conduzidas pelo Mossad (o serviço secreto de Israel) e o embaixador saudita em Washington. A segunda foi a Iniciativa de Paz Saudita de 2002. Riade oferecia o reconhecimento árabe de Israel em troca de um estado palestino demtro das feonteiras de 1967, com Jerusalém Ocidental como capital. Israel rejeitou.

A terceira fase foi após a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, especialmente depois de ambos os países definirem o Irã e o Hezbollah como inimigos comuns. A quarta foi no mesmo ano, quando o então primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, acompanhado pelo chefe do Mossad, reuniu-se com o príncipe Bandar Bin Sultan Al Saud na Jordânia.

A quinta etapa permitiu que aviões da Air India sobrevoassem o território saudita a caminho de Israel, e aviões de passageiros israelitas sobrevoassem o espaço aéreo saudita.

Entrou-se agora na sexta fase, através da diplomacia oficial, tendo os Estados Unidos como intermediário. O que levou as autoridades palestinas a irem a Riade para expor suas reivindicações no acordo de paz.

  • reabertura do consulado americano em Jerusalem Oriental e do escritório da OLP em Washington.
  • elevar o nível do representante palestiuno na ONU, de observador a membro;
  • congelamento da construção de novos assentamentyos israelenses, transferindo o território da zona C (sob controle total de Israel) para a zona B (sob constrole civil palestino).

A questão palestina

A questão palestina é tão central que o Ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, mais os Ministros do Egito e Jordânia, lideraram uma reunião extraordinária, à margem da Assembléia Geral da ONU, com participação de 50 Ministros de Relações Exteriores, visando promover uma solução de criação de dois Estados, Israel e Palestina, baseada na Iniciativa Árabe da Paz, junto com um “pacote de paz” a ser oferecido a israelenses e palestinos.

A Arábia Saudita definiu três questões principais para a aceitação do acordo. Uma delas, justamente, foi a questão palestina.

Israel teria muito a ganhar, se cedesse. Teria acesso ao petróleo árabe, mercado para seus produtos tecnológicos, conseguiria normalizar relações com todos países árabes, passaria a fazer parte do corredor econômico ferroviário, que vai da Índia, passando pelo Oriente Médio, até a Europa.

O presidente americano Joe Biden tentou convencer os israelitas e atender as reivindicações dos palestinos. Mas Netanyahu está preso aos compromissos com a extrema-direita que se opõe a qualquer concessão à Palestina.

Por isso mesmo, a paz local só seria possível quando um moderado assumisse o governo de Israel.

Enquanto os EUA debatem-se nesses dilemas, a diplomacia chinesa avança em todas as frentes. A China oferece uma central nuclear civil para a Atrábia Saudita. Em dezembro de 2022, Xi viajou para a Arábia Saudita, assinando vários acordos bilaterais sobre tecnologia, infra-estrutura e segurança. Os sauditas aderirão ao BRICS em 1o de janeiro de 2024 e em 2021 Riade tornou-se parceiro da Organização de Cooperação de Xangai. A China tornou-se o maior comprador do petróleo saudita e ambos negociam para pagar em yuan.

A conclusão da Eurasia Review é que os Estados Unidos são considerados, por muitos analistas, uma potência em declínio no Oriente Médio.

A ofensiva do Hamas pode ter sido uma pá de cal na pax americana. [link para Instagram aqui]

terça-feira, 2 de abril de 2019

Os Bolsonaros espalham o ódio aonde vão e põem em risco a segurança nacional. Por Kiko Nogueira



Do DCM:


O tuíte de Flávio Bolsonaro chamado o Hamas para a briga
Jair Bolsonaro é um caso de estudo de governante que procura dividir uma nação ao invés de tentar uni-la.
Coloca-nos em permanente risco, aqui e no exterior.
No Brasil, enquanto denuncia o “viés ideologico” do PT, faz um governo ideologicamente comprometido com as orientações psicóticas de seu guru Olavo de Carvalho, um elemento perigoso e patético da extrema direita.
Fomenta uma batalha interna entre a ala militar e a ala psiquiátrica olavista.
Todos os que não se alinham com as mentiras e as teorias conspiratórias sobre o “globalismo” e o “marxismo cultural” são comunistas e inimigos do povo.
No Chile, causou repulsa por sua defesa de Pinochet. O presidente da Câmara e o do Senado se recusaram a recebê-lo.
Piñera teve de se distanciar de Jair numa entrevista horas depois de o hóspede indesejado ir embora.
O México pediu explicações sobre as declarações favoráveis de Eduardo Bolsonaro ao indecente muro de Donald Trump.
A palhaçada da ajuda humanitária à Venezuela e o apoio idiótico aos interesses americanos robusteceram Maduro.
No Paraguai, teceu loas ao general Stroessner, assassino corrupto e pedófilo.
Em Israel, cavou mais ainda o fosso com os países árabes — e não só com relação ao comércio exterior.
O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, emitiu uma nota dura afirmado que “a visita não apenas contradiz a histórica atitude do povo brasileiro de apoio à causa palestina, mas também viola leis internacionais”.
Condenou os planos de abertura de um escritório de negócios do Brasil em Jerusalém.
“Essa política não ajuda a estabilidade e a segurança da região e ameaça os laços com países árabes e muçulmanos”, afirma o comunicado.
O filho Flávio, aquele do Queiroz, resolveu pôr lenha na fogueira e, qual um moleque mamando Whey Protein, achou por bem chamar o Hamas para a briga.
“Quero que vocês se EXPLODAM!!!”, escreveu o valentão, que deletou em seguida a bravata.
Esse bando está destruindo o país a um ritmo alucinante e precisa ser detido antes que uma bomba estoure não no colo deles, mas no nosso.
00:00/00:40Diário do Centro do Mundo
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