Do Canal de Cesar Calejon:
Do Jornal GGN:
Carta de Marco Rubio revela promessa de alinhar equipe de transição a Washington antes do pleito; oposição vê traição à pátria

A correspondência oficial enviada pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) expôs uma postura de profunda submissão política e diplomática por parte do parlamentar brasileiro, abrindo uma nova frente de debate na campanha eleitoral de 2026. No documento, Rubio menciona e agradece uma “generosa oferta” feita pelo filho 01 de Jair Bolsonaro (PL): a promessa antecipada de colocar uma equipe de transição de governo à inteira disposição de Washington caso ele vença as eleições presidenciais de outubro.
A referência, que não havia sido divulgada anteriormente pelo senador e só veio a público na resposta oficial do governo norte-americano, provocou indignação e forte reação nos bastidores de Brasília. Lideranças partidárias acusaram formalmente o senador de “traição à pátria” e de submeter a soberania nacional e as decisões estratégicas do Estado brasileiro aos interesses diretos do governo de Donald Trump.
No rito democrático tradicional, o governo de transição é um mecanismo estritamente institucional, soberano e interno. Trata-se do período compreendido entre a divulgação do resultado das urnas e a posse do novo mandatário, cujo objetivo principal é garantir a continuidade administrativa do Estado sem solavancos e sem ingerência estrangeira.
No modelo brasileiro, o processo é amparado por legislação federal específica e prevê regras claras:
Historicamente, os presidentes eleitos mantêm contatos diplomáticos com governos estrangeiros e investidores antes da posse para debater comércio e cooperação. No entanto, não é prática institucional conhecida colocar formalmente uma equipe de transição brasileira à disposição de uma potência estrangeira.
Ao oferecer essa estrutura para os Estados Unidos antes mesmo da eleição, Flávio Bolsonaro rompe o preceito básico de autodeterminação nacional e transforma um instrumento republicano de diagnóstico em um balcão de negócios internacionais.
A gravidade do aceno político ganha contornos de humilhação diplomática diante do contexto econômico real. A menção feita por Rubio reproduz um compromisso que já constava da carta enviada pelo próprio Flávio ao secretário de Estado no início de junho, na qual o senador afirmava estar confiante na vitória e preparado para acionar sua equipe para fechar um amplo acordo de comércio. O aceno foi uma tentativa desesperada de conter o desgaste provocado pela proposta americana de aplicar um tarifaço de 25% sobre produtos importados do Brasil.
Flávio inclusive se inscreveu para depor como testemunha em uma audiência pública da Seção 301 do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), agendada para 6 de julho, sob o pretexto de mitigar os impactos da sobretaxa.
Contudo, a resposta escrita por Marco Rubio sinalizou que Washington manterá a linha dura em relação às barreiras comerciais impostas ao Brasil. O secretário de Estado americano apenas registrou a oferta de alinhamento do brasileiro e deixou claro que a agenda protecionista de Donald Trump não será flexibilizada por conta da subserviência antecipada do candidato.
O documento público limita-se ao registro da oferta e não traz qualquer compromisso ou contrapartida assumida pelo governo norte-americano, além da protocolar disposição de trabalhar com o líder legitimamente eleito pelo povo brasileiro.
O episódio unificou o discurso das forças governistas e de setores independentes na defesa da soberania nacional. Integrantes do governo Lula (PT) passaram a sustentar que a iniciativa reforça as críticas de que a família Bolsonaro busca estreitar a interlocução com Washington em temas considerados estratégicos e sensíveis para a política brasileira. O ex-ministro José Dirceu classificou a carta de Rubio como uma “confissão” de que a campanha de Flávio está diretamente umbilical ao interesse estrangeiro, afirmando que “dependência política significa dependência econômica, tecnológica e militar“, escreveu nas redes sociais.
Analistas políticos apontam que nem mesmo nos períodos mais agudos de alinhamento internacional o Brasil testemunhou um candidato oferecer o controle técnico e informacional de seu futuro governo a uma potência estrangeira antes do crivo das urnas.
Enquanto aliados de Flávio tentam minimizar o episódio alegando “antecipação de negociações comerciais e diplomáticas” sem participação estrangeira na condução do governo, o documento oficial expõe o que críticos chamam de abdicação antecipada da autonomia brasileira na formulação de suas próprias políticas de Estado.

Do Canal do ICLNotícias de Ricardo Mello:
Economista diz que ação na Venezuela simboliza uma nova fase no imperalismo liderado por Trump, marcado pela força e desprezo ao direito
Do Jornal GGN:
Joseph Stiglitz, economista e vencedor do Nobel. Foto: Reprodução/IPD - Initiative for Policy Dialogue, Columbia University
Os Estados Unidos entraram em uma nova era de imperialismo, marcada pelo uso da força, pelo desprezo ao direito internacional e pelo enfraquecimento do Estado de Direito, segundo Joseph Stiglitz, economista e vencedor do Nobel.
Em artigo publicado no Project Syndicate, ele avalia que a intervenção americana na Venezuela simboliza uma mudança profunda na política externa do país, com consequências negativas tanto para os EUA quanto para a estabilidade global.
Segundo Stiglitz, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro violou normas constitucionais americanas e princípios básicos do direito internacional, ao ignorar mecanismos como a extradição e a necessidade de aval do Congresso.
Para o economista, ações desse tipo refletem uma lógica em que “a força faz o direito”, afastando-se de valores democráticos historicamente defendidos por Washington.
O autor também critica declarações do presidente norte-americano Donald Trump sobre controlar a economia venezuelana e se apropriar do petróleo do país, interpretando-as como sinais claros de um projeto imperialista movido por interesses econômicos e não por princípios.
Esse comportamento, alerta Stiglitz, pode estimular retaliações globais, como disputas por áreas de influência e o uso de instrumentos econômicos como armas geopolíticas.
No plano interno, o economista argumenta que o enfraquecimento dos freios e contrapesos institucionais nos EUA favorece a corrupção e a busca de rendas, prejudicando o crescimento econômico. Para ele, sociedades dominadas por interesses rentistas não geram prosperidade sustentável, pois dependem do Estado de Direito e da previsibilidade institucional.
Diante desse cenário, Stiglitz defende que Europa, China e outras regiões não podem depender exclusivamente dos Estados Unidos e devem construir estratégias de contenção e cooperação alternativa. Resistir ao novo imperialismo americano, conclui, tornou-se essencial para preservar a paz e a prosperidade globais.

"Parece que já superamos a fase de tentar descobrir o que há por trás do tarifaço do Trump. A fachada de que se trata de rearranjos do comércio internacional ou o alegado crepúsculo da globalização, seguido da alvorada de uma nova ordem mundial, estadunidense turbo, não escondem as motivações políticas e pessoais de tentar deslegitimar as instituições democráticas brasileiras."
A soberania do Brasil não está na mesa de negociações.
As recentes investidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Brasil, geraram um efeito imediato no nosso vocabulário político: o uso extensivo da palavra soberania.
Parece que já superamos a fase de tentar descobrir o que há por trás do tarifaço do Trump. A fachada de que se trata de rearranjos do comércio internacional ou o alegado crepúsculo da globalização, seguido da alvorada de uma nova ordem mundial, estadunidense turbo, não escondem as motivações políticas e pessoais de tentar deslegitimar as instituições democráticas brasileiras.
O movimento golpista 8/1 tentou derrubar a democracia por dentro. Fizeram estragos material, simbólico e institucional. Ainda estamos pautados no debate público por quem não tem qualquer apreço pela democracia. Essa talvez seja a grande ironia que entubamos, anestesiados.
O projeto explícito dos políticos reacionários é eleger a maioria do Congresso Nacional nas eleições de 2026 para derrubar ministros do STF, promover a destituição do Lula caso ele seja reeleito e determinar a anistia ampla e irrestrita aos golpistas de 8/1.
O movimento golpista que visa subverter a democracia brasileira por dentro
Enquanto o tarifaço de Trump representa a demarcação de poder da superpotência nas relações internacionais, no plano nacional, soa como chantagem ao tentar interferir nas decisões do STF sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e em relação a empresas americanas de redes sociais, as chamadas “big techs”.
Assentir ante as chantagens do Trump é eclipsar a soberania da República Federativa do Brasil.
Numa aula introdutória de Ciência Política, enunciamos, superficialmente, as noções da teoria geral do Estado. Seja pela ótica jurídica ou pelo projeto didático, para introduzirmos as concepções de Estado moderno, dizemos que ele é definido como sujeito do direito internacional enquanto constituinte de: (1) população, (2) território e (3) governo.
Posteriormente, no aprofundamento dos cursos, essas noções esquemáticas são problematizadas. Mas não há na literatura consagrada, ao menos que eu saiba, nada de respeitável que abaliza a prática de um governo estrangeiro que usa a chantagem comercial para determinar decisões da Suprema Corte de Justiça ou do Poder Executivo Federal.
Os Estados soberanos são – por definição, natureza e aspiração – independentes.
A soberania interna é demarcada pela condição de Estado Constitucional. As leis que vigoram, ainda que imperfeitas e eventualmente frágeis, são nossos pactos sociais legitimados.
Não faz sentido o Brasil soberano ser regido ou tutelado por leis ou tarifaços ditados por qualquer Estado estrangeiro.
O movimento golpista que visa subverter a democracia brasileira por fora
A respeito da soberania externa, o Brasil, em relação aos demais Estados soberanos, é igual em termos jurídicos.
Não há qualquer possiblidade de vergar ante os atores internacionais que se arrogam a condição de “mais soberanos” que os demais no sistema internacional.
Caso haja, em alguma medida, subordinação ao poder exógeno, por certo, perde-se por inteiro a soberania.
Imagina uma distopia em que atores internacionais, quer organizações, indivíduos ou corporações multinacionais, usem governos de superpotências como laranjas para garantir os seus interesses e negócios à revelia dos Estados soberanos que orbitam num sistema internacional sem núcleo.
O ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, nesta segunda-feira (04), no Itamaraty, por ocasião da sessão solene em celebração aos 80 anos de fundação do Instituto Rio Branco (IRBr), se pronunciou nestes termos: “A constituição cidadã não está e nunca estará em qualquer mesa de negociação. Nossa soberania não é moeda de troca diante de exigências inaceitáveis”.
Em outros termos, nossa bandeira jamais será laranja e nossa soberania não está na mesa de negociações do comércio internacional.
Donald Trump e Lula (Foto: Reuters | ABR)
A abertura de uma investigação comercial contra o Brasil pelo governo dos Estados Unidos, sob a direção do presidente Donald Trump, marca um momento decisivo nas relações internacionais do País. Não se trata de uma divergência pontual ou de uma disputa ideológica entre chefes de Estado. É um ataque direto do império norte-americano ao Brasil, com motivações econômicas e geopolíticas, que exige uma resposta firme e unificada da sociedade brasileira.
A decisão do USTR, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, de iniciar uma investigação baseada na Seção 301, a mesma ferramenta jurídica utilizada para atacar a China durante a guerra comercial iniciada em 2018, parte de premissas escancaradamente falsas. O documento oficial acusa o Brasil de práticas desleais em comércio digital, serviços financeiros, meio ambiente e outras áreas. Mas o objetivo real é claro: frear o avanço do Brasil como potência emergente, retaliar sua atuação soberana no cenário global e, acima de tudo, tentar conter o crescimento do BRICS como alternativa à ordem unipolar liderada por Washington.
É preciso olhar para além da superfície para entender o que está em jogo. O verdadeiro incômodo de Trump e dos interesses financeiros que ele representa não é apenas a política externa independente do presidente Lula ou a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro, um capacho voluntário dos Estados Unidos, mas o fortalecimento do Brasil enquanto país soberano.
O avanço do Pix como sistema de pagamento digital gratuito, por exemplo, ameaça diretamente o oligopólio de gigantes norte-americanas como Visa e Mastercard no mercado de pagamentos brasileiro. O protagonismo do Brasil no BRICS, ao lado de China, Rússia, Índia e África do Sul e dos novos países membros e parceiros do bloco, é visto como uma afronta à hegemonia dos Estados Unidos sobre o comércio global, o sistema financeiro internacional e a governança mundial.
A retórica dos Estados Unidos tenta mascarar seus interesses econômicos com argumentos morais – falsamente acusando o Brasil de práticas comerciais desleais, corrupção ou desmatamento. Trata-se da velha tática imperialista: culpar o adversário para justificar medidas unilaterais de coerção. Não é coincidência que a ofensiva ocorra logo após uma bem-sucedida cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro, onde foram defendidas pautas de uso de moedas locais no comércio internacional e fortalecimento da integração do Sul Global.
Diante dessa agressão, o caminho que se impõe é o da defesa intransigente da soberania nacional. Não é momento para divisões internas ou para rivalidades político-partidárias. O que está em jogo transcende governos. O ataque não é ao governo Lula ou à esquerda, é ao Brasil. Por isso, é essencial construir consensos entre o setor público, o setor privado, trabalhadores, empresários, mídia e sociedade civil.
É hora de reafirmar que o Brasil tem o direito de escolher seu próprio modelo de desenvolvimento, suas próprias políticas públicas e seus próprios aliados internacionais. O País tem o direito de proteger sua economia, de fomentar a inclusão financeira através do Pix, de defender sua indústria, de ampliar o protagonismo do BRICS e de cooperar com os países em desenvolvimento.
O Brasil já viveu momentos difíceis na história e sempre saiu mais forte quando prevaleceu a unidade nacional. Enfrentar a guerra comercial não será simples, pois é de fato uma guerra contra a autonomia do País. Mas com uma resposta firme, apoio popular e articulação internacional, o Brasil pode transformar a tentativa de intimidação em uma oportunidade histórica de fortalecer sua soberania e de consolidar seu papel como potência do Sul Global.
A resposta precisa ser inequívoca: o Brasil não se curva mais ao Império.