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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Do El País: Um milhão de mulheres contra Bolsonaro: a rejeição toma forma nas redes



Grupo no Facebook consegue 10.000 novos pedidos de participação por minuto de eleitoras indignadas. Elas querem, agora, levar a insatisfação para as ruas (apesar das ameaças dos covardes fascistas contra elas).


Do El País:

Mulheres contra Bolsonaro
Manifestação pelo direito das mulheres em dezembro de 2016.  AGÊNCIA BRASIL

A rejeição do eleitorado feminino ao candidato Jair Bolsonaro (PSL), refletida em todas as pesquisas e que no último Datafolha, do dia 10 de setembro, chegou a 49%, se materializou nas últimas duas semanas como um grupo massivo de debate político no Facebook. O "Mulheres unidas contra Bolsonaro" já conta mobilizou mais de um milhão e meio de usuárias da rede social e, a cada minuto, recebe 10.000 novos pedidos de participação. Para os usuários que não são membros do grupo, o número visível de participantes é menor —860 mil na última atualização desta reportagem—, porque reflete apenas o número de perfis que realmente estão ativos nos debates do mesmo (os demais estão esperando autorização para participar ou ainda não responderam o convite feito pelas demais), conforme explicou a EL PAÍS um porta-voz do Facebook.
"Destinado à união das mulheres de todo o Brasil contra o avanço e fortalecimento do machismo, misoginia e outros tipos de preconceitos representados pelo candidato Jair Bolsonaro e seus eleitores", de acordo com a descrição do Facebook, o grupo nasceu com a intenção de agregar os discursos de eleitoras indignadas com os posicionamentos do presidenciável em relação aos direitos das mulheres, explica Ludimilla Teixeira, publicitária baiana de 36 anos, uma das criadoras. "Percebia nas minhas próprias redes muitas amigas comentando e criticando essas posturas, então decidimos unir todas essas mulheres e criar um fato político para mostrar que grande parte da população não é favorável a essa candidatura", conta.


Isso aconteceu na quinta-feira, 30 de agosto. 24 horas depois, o grupo, exclusivamente feminino, já chegava a 600.000 participantes. O rápido crescimento já se desdobrou na convocatória de uma manifestação contra o candidato, em 29 de setembro, em São Paulo, que já conta com 40.000 confirmações de assistência. O objetivo, asseguram as administradoras do grupo, é realizar atos similares em outras cidades do país. Como reação, nesta quarta-feira, um outro grupo chamou a atenção no Facebook: "Mulheres unidas a Favor de Bolsonaro", com cerca de 38.000 participantes, mas que, curiosamente, foi criado e é administrado por um grupo de homens.
Na plataforma da rede social, as postagens do grupo contra Bolsonaro criticam não apenas as propostas do candidato, como a flexibilização do acesso a armas, mas principalmente suas declarações em relação à brecha salarial de gênero —o candidato acredita que a equiparação no sistema privado não é competência política do Estado e seu gabinete, conforme adiantou o Valor Econômico, paga menos às mulheres— e seus comentários violentos contra repórteres e colegas políticas. "Um país sério de verdade jamais permitiria que esse cidadão falasse as barbaridades que falou. Cadê o Ministério Público? Cadê os órgãos de defesa das mulheres?", questiona Teixeira em relação à frase "não te estupraria porque você não merece", dita à deputada Maria do Rosário.
O grupo se define como apartidário ("A única bandeira é ser anti-Bolsonaro", diz Teixeira), mas existem postagens fixas sobre os demais candidatos à presidência, nos quais as simpatizantes de cada um podem publicar informações sobre eles e suas propostas. "Acredito que muitas indecisas decidiram em quem votar com base nessas discussões online", comenta a publicitária.
Com um perfil de participantes que vai desde adolescentes até senhoras que, por lei, já não precisariam mais votar, o grupo é espaço de discussão de mulheres que enfrentam familiares e amigos na tentativa de combater o voto ao que consideram "um candidato nefasto". "Meu marido é um coronel militar que vai votar nele. Já não sei mais o que fazer, só penso em rasgar o título de eleitor dele ou esconder seus documentos para que ele não possa votar", conta uma professora de 62 anos, que prefere não se identificar.


Reprodução de imagem postada no grupo do Facebook.
Reprodução de imagem postada no grupo do Facebook.


As participantes definem o grupo como um "elo de ligação", um espaço de reunião onde elas pudessem debater política livremente, sem ser silenciadas. "Porque quando fazíamos postagens individuais, sempre havia mansplaining (explicação masculina), homens nos atacando com termos chulos, assédio. Há casos até de usuários que tiraram print de fotos das meninas e espalharam por aí, éramos atacadas pelos seguidores de Bolsonaro, que são bastante agressivos. Faltava esse espaço para debate", conta Teixeira.
Também são muitas as postagens de usuárias que desabafam sobre violência doméstica e relações abusivas e de mulheres trans que agradecem por terem encontrado um “espaço solidário”. "Sinto que o Brasil todo está lá. É muito maior do que só um grupo contra Bolsonaro", afirma a publicitária, que destaca que as participantes "não são contra a pessoa" do presidenciável. "Ele é um ser humano que merece respeito. Inclusive, lamentamos muito o ocorrido [referindo-se ao ataque à faca sofrido por Bolsonaro no dia 6 de setembro]. Não somos favoráveis a nenhum tipo de violência ou discurso de ódio, queremos vencê-lo nas urnas".
Foi justamente depois desse atentado que o candidato registrou um crescimento entre três e dois pontos percentuais na intenção de voto feminino, de acordo com as últimas pesquisas Datafolha e Ibope, respectivamente. "O esfaqueamento mobilizou parte dos eleitores indecisos, principalmente as mulheres, que se solidarizaram com o candidato", avalia a antropóloga e cientista social Rosana Pinheiro-Machado.
Por outro lado, a cientista política acredita que o ataque foi também a "faísca" para que mais mulheres se mobilizassem contra Bolsonaro. "A mensagem sobre o voto feminino como faixa de contenção contra ele já vinha circulando e esse atentado disparou o medo de que se gerasse mais simpatia pelo candidato e que levasse a uma vitória sua no primeiro turno".

Para além das eleições

Pinheiro-Machado considera que o movimento de "mulheres unidas contra Bolsonaro" pode ter o mesmo impacto no Brasil que a marcha das mulheres contra Trump nos Estados Unidos, mas matiza que, para isso, o milhão de participantes do grupo virtual tem que se traduzir nas ruas para que se possa gerar um fato político relevante. "Desde a primavera feminista, quem consegue se organizar hoje no Brasil são basicamente as mulheres", diz.
E as organizadoras e participantes da plataforma na rede social não pretendem parar. Elas contam que já consideram mudar o nome do grupo depois das eleições para se tornar, de fato, um movimento que promova rodas de conversa, debates e outras ações em prol dos direitos das mulheres. "Não são só as eleições, temos uma série de pautas pelas quais lutar, como contra o Estatuto do Nascituro [PL 5069/13, que dificultará o acesso ao aborto em casos de estupro], ou a favor da criação de uma lei para criminalizar o assédio", afirma Teixeira.

MAIS INFORMAÇÕES




O dia das Eleições é o dia da Luta contra o Fascismo, por Gilberto Maringoni



"O 7 de outubro deveria ser oficializado nacionalmente como o Dia da Luta Contra o Fascismo. É preciso, 84 anos depois, colocar os galinhas verdes (os antigos integralistas, os nazistas brasileiros) para correr. Desta vez nas urnas!"



O dia das Eleições é o dia da Luta contra o Fascismo
por Gilberto Maringoni
O 7 de outubro marca os 84 anos da Batalha da Praça da Sé
Vamos ao calendário: o 7 de outubro de 2018 marca uma efeméride fundamental na luta contra a extrema-direita no Brasil. Nessa data, em 1934 (também um domingo!), a Ação Integralista Brasileira (AIB) havia marcado um comício na praça da Sé, em São Paulo, para comemorar dois anos do lançamento de seu Manifesto.
Não contavam com a disposição e iniciativa de um largo movimento antifascista, nucleado pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), então na clandestinidade. Praticamente todas as organizações progressistas e de esquerda do movimento popular aderiram à convocação da contramanifestação.
O integralismo era uma versão tropical do fascismo. Liderado por Plínio Salgado, tinha numa carolice extremada e no anticomunismo visceral suas razões de existir. Tornou-se um movimento de massas no início dos anos 1930.
A adesão democrática às vésperas do final de semana veio em cascata, após a criação da FUA (Frente Única Antiintegralista).
Conheci um dos participantes, o comunista Alberto de Souza (1908-1991), ex-soldado da Força Pública e dirigente do Partido em Bauru. Em depoimento inédito a Arthur Monteiro Junior, que em breve lançará sua biografia, Souza contou o que se segue:
"Dia 7 de outubro. Domingo. Meio-dia. Desfilando, chegam à praça mulheres e crianças trajando roupas verdes, postando-se nas escadarias da Catedral, entoando hinos partidários e dando vivas ao integralismo. Posteriormente, em marcha, chegam os demais integralistas, muitos armados.
Um tiro ecoa na cercania da praça. Não se sabe de onde partiu, mas foi o bastante para o início do embate campal, quando os militantes da Frente tomaram a praça, realizando mini comícios, em meio ao tiroteio que durou cerca de quatro horas.
A presença maciça dos frentistas levou os integralistas a abandonarem a praça em debandada; livrando-se pelo caminho das camisas verdes que usavam, símbolo do integralismo. Não foi por acaso que o confronto entrou para a história como a “Batalha da Praça da Sé” ou “Revoada dos Galinhas Verdes”.
O 7 de outubro deveria ser oficializado nacionalmente como o Dia da Luta Contra o Fascismo. É preciso, 84 anos depois, colocar os galinhas verdes para correr. Desta vez nas urnas!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A intolerância ao intolerável como virtude democrática, por Eliseu Raphael Venturi




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"(...) as repercussões de diversos fenômenos na esfera pública têm destacado a urgência de se discutir a virtude democrática da tolerância na mediação de diversas facetas da convivência social.Urgente, sobretudo, na interdição de práticas e políticas arbitrárias, fascistas e totalitárias que concorrem à derrocada de direitos sociais e à criminalização da política e dos movimentos sociais, além do esvanecimento substancial das instituições democráticas e suas funções de proteção e promoção de direitos e garantias fundamentais “para todos” (sem quaisquer discriminações)."

Do site Justificando:

Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2018

A intolerância ao intolerável como virtude democrática


Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil
Situações variadas da política brasileira atual e as repercussões de diversos fenômenos na esfera pública têm destacado a urgência de se discutir a virtude democrática da tolerância na mediação de diversas facetas da convivência social.
Urgente, sobretudo, na interdição de práticas e políticas arbitrárias, fascistas e totalitárias que concorrem à derrocada de direitos sociais e à criminalização da política e dos movimentos sociais, além do esvanecimento substancial das instituições democráticas e suas funções de proteção e promoção de direitos e garantias fundamentais “para todos” (sem quaisquer discriminações).
Pode-se diagnosticar que muito da cultura do ódio e da intolerância decorre de desajustes interpretativos, perversos ou não, dos planos em que seria oportuno ser tolerante e, por outro lado, daqueles em que seria um imperativo moral e democrático justamente ser intolerante.
O equívoco de uma ideia geral e irrestrita de obrigação de tolerância, laxismo e leviandade, assim como um excesso de violências nas convicções, parecem marcar o desdobramento de práticas alarmantes de retrocessos em termos da realização de preceitos mínimos de liberdade e solidariedade e, igualmente, de uma manutenção mínima de indicativos de democracia.
Exemplos breves: este candidato “diz o que pensa”, mas pouco importa o que diz ou o que propõe, ou, ainda, se esta propositura carrega em si uma violação substancial de um direito alteritário ou inviabiliza uma continuidade democrática. Este julgador condena porque tem poder para tanto, pouco importando sua contrariedade ao processo como técnica democrática e aos direitos humanos que limitam a atuação estatal.
Defender práticas totalitárias ou ditatoriais integra o escopo do pluralismo.
Portanto, a partir de uma aparente facilidade da linguagem e do conceito, se dissemina uma condescendência em momentos equivocados, em conjunto a uma intolerância desnecessária e indevida em outros – ataca-se insistentemente um ou outro gosto musical, ou modo de vida, que tranquilamente se poderiam tolerar em um cenário verdadeiramente cívico.
Um recurso importante, nesse sentido, pode ser a discussão da tolerância a partir do filósofo francês Paul Ricouer[i] (1913-2005), posta sua central presença na contemporânea teoria hermenêutica filosófica, assim como pela atuação na analítica crítica do mundo pós Segunda-Guerra.
Para Ricoeur, “tolerância”evoca o sentido de uma abstenção de interdição ou exigência (o que pressupõe uma autoridade para agir) e da liberdade decorrente desta abstenção. E, ainda, da admissão individual da diferença do outro acerca do pensar e do agir distinto daqueles que pessoalmente se adota.
A “intolerância”, por sua vez, apresenta-se como a tendência a não suportar e a condenar o que desagrada no outro, em termos individuais, assim como a disposição hostil à tolerância religiosa ou civil, no plano institucional.
O filósofo, assim, insere no jogo “tolerância-intolerância” a figura do “intolerável” como discrímen que possibilita o discernimento e, assim, a construção democrática – daí não existir, para o autor, propriamente um paradoxo da tolerância, porque o intolerável está para além do não gostar ou não suportar: ele inviabiliza as liberdades. Quando se está diante do intolerável, a possibilidade democrática é aniquilada e a tolerância impraticável.
É a partir desta distinção, que permite situar a ambiguidade, que se pode localizar a fronteira da “rejeição” ou da “abjeção” constantes da afirmação de que algo é “intolerável”, considerando-se que é da oposição que se abre o problema da tolerância. A questão passa a ser, assim, a motivação da indignação de acordo com os planos de sua ocorrência e os seus efeitos no espaço político.
Filosofia Constitucional: diálogos com a democracia contemporânea
Ricoeur destaca a confusão como ameaça no sentido de que as conclusões acerca da tolerância são diferentes em diferentes planos de análise: os limites no direito constitucional são os mesmos das tradições culturais e das mentalidades, ou da reflexão teológica? É nesta questão de gêneros que o filósofo desenvolve o problema. Deste modo, os jogos “tolerância” e “intolerância”, bem como o ponto intolerável, funcionam com diferentes dinâmicas nos planos institucional, cultural e religioso.
No plano institucional, da relação Estado e Igreja, estar-se-ia, em historicidade, diante do Estado Laico e do Estado de Direito, associado à ideia de justiça e dependente, portanto, das noções de liberdades públicas, igualdade legal, proteção e promoção de minorias.
O intolerável se apresentaria naquele momento em que justiça e verdade revelada são confundidas, ou seja, em que o poder político insiste em “[…] dizer a verdade em vez de se limitar a exercer a justiça, que é a suprema ascese do poder” (p. 190).
Por sua vez, no plano cultural, das mentalidades e mutações, novamente segundo um referencial leigo, a marca da tolerância seria o consenso conflitual, com o reconhecimento do direito de existência do outro e com a vontade de convivialidade cultural na diversidade, o que dependeria de atitudes fundamentais diante do outro, sobretudo, a de não imposição das próprias convicções e o respeito pela liberdade do outro quando da adesão originária às crenças dele. 
O intolerável, então,seria o que escapa do consenso conflitual do viver-comum, aquilo que expressa o irrespeitável, ou seja, “[…] a recusa de presumir a liberdade de adesão na crença adversa” (p. 186), delimitando-se, pois, o “abjeto”, aquilo que exclui a possibilidade do respeito mútuo.
No plano teológico, por fim, Ricouer busca identificar a unidade plural das interpretações religiosas, indicando a justificação da tolerância justamente a partir da noção de que as comunidades de fé são comunidades de escuta e de interpretação, que reiteradamente operam compreensões finitas em horizontes infinitos de sentido.
Disto, seria possível a cooperação e a emulação em proximidades, que não se reduzem em fusão e confusão, segundo uma hospitalidade eucarística. Trata-se, assim, do reconhecimento mútuo na diversidade de compromissos possíveis. O intolerável, neste contexto da palavra e do compromisso, seria unicamente o intolerante.
Parece claro que, atualmente, há entraves decisivos, institucionais, no cenário brasileiro no sentido de se confundirem motivações cívicas e religiosas, com claras dificuldades em termos da laicidade e de uma bioética laica nos mais diversos espaços de decisão.
Ao mesmo tempo, no plano cultural, diversas são as manifestações da violência das convicções, acompanhadas das práticas abjetas de exclusão de qualquer viabilidade de respeito mútuo, seguidas da própria aniquilação do outro (ainda que disfarçada e simbólica) e das possibilidades de sua existência diferente, sobretudo, pela subtração de direitos.
Ao mesmo tempo, é marcante a intolerância religiosa, em que se atacam as bases da convivência na diversidade dos compromissos que a liberdade religiosa permite assumir.
O escopo valorativo do Direito Internacional dos Direitos Humanos, em especial em sua configuração pós Segunda Guerra Mundial, representa um excelente indicativo (deontológico) dos rumos da condução da vida política e coletiva, das políticas públicas e dos caminhos de interpretação e de  valoração cívica – reitera-se, incluindo-se os princípios informativos de decisão bioética.
A realização de distorções e violações, diante da força das práticas pós neoliberais, acompanhadas da insistência interminável da fusão dos preceitos religiosos nos espaços públicos, têm representado a intolerável corrosão dos mais basilares fundamentos de uma potencial cultura jurídica e democrática.
Desperdiçam-se instituições, tempo, dinheiro público, possibilidades de vida, tranquilidade social e efetividade jurídica, bem como se capturam e consomem subjetividades, a partir de uma confusão, intencional ou não, dos espaços, figuras e finalidades legítimas de atuação.
A construção de uma cultura democrática – se esta ainda importar em um futuro cada vez mais distópico – encontra na virtude da tolerância um dos seus pilares intransplantáveis, ao compasso de a fixação consciente de práticas da intolerância necessária uma das mais caras atitudes de resistência e de reconstrução democráticas e republicanas fundamentais.
Eliseu Raphael Venturi, doutorando e mestre em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná. Editor executivo da Revista da Faculdade de Direito UFPR e Membro do Comitê de Ética na Pesquisa com Seres Humanos da UFPR. Advogado.

[i] RICOEUR, Paul. Tolerância, intolerância, intolerável (1990). In: ______. Leituras 1: em torno ao político. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1995.p. 174-186.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Banqueiro, TFP, ultraconservadores e pedófilos contra o Papa Francisco



Um banqueiro é o articulador da ofensiva ultraconservadora contra o Papa, num grupo de 79 signatários dentre os quais não constam cardeais, bispos, teólogos ou figuras de maior expressão no catolicismo. Há de tudo: membros da TFP, sedevaticanistas (que consideram que a Igreja não tem Papa desde Pio XII) e um inimigo feroz das investigações contra os milhares de casos de abuso de menores na Austrália. O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, a manutenção em pleno século 21 da guerra contra o Modernismo e o ataque a Lutero e ao ecumenismo. Mas o pano de fundo é o combate frontal à opção de Francisco pelos pobres e o desejo de ver revogado o Concílio Vaticano II.


O banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, líder da oposição ao Papa

Banqueiro é o líder do manifesto contra o Papa


No último domingo (24) foi divulgada a “carta de correção formal” que conservadores católicos de diversos países assinaram para criticar o Papa e sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor).
O banqueiro italiano Ettore Gotti Tedeschi é o líder do manifesto dos conservadores católicos que acusam o Papa Francisco de cometer “heresias”. O fato de um banqueiro ser o líder de um ataque contra o chefe da Igreja dá a dimensão precisa do evento, ainda mais que o alvo dos acusadores é um Papa que escolheu estar ao lado dos pobres de todo o planeta. De um lado, o banqueiro; de outro o Papa dos pobres.
O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, a manutenção em pleno século 21 da guerra contra o Modernismo e o ataque a Lutero e ao ecumenismo -como se poderá observar mais abaixo.
Mas o fundo da questão remete a uma frase de Jorge Semprún que frei Betto costuma repisar: “a cabeça pensa onde os pés pisam”. E, de fato, os solos em que pisam Tedeschi e Bergoglio são muito diferentes. A posição de cada um deles sobre o capitalismo dá a dimensão de uma das facetas que separa os conservadores de Francisco –a outra é o controle sobre a vida afetiva e sexual das pessoas.
O Papa é um severo crítico do capitalismo, que qualificou como uma “ditadura sutil” no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015. Para Francisco, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” (aqui). No ano seguinte, na terceira edição da reunião com os movimentos populares, o Papa falou especificamente sobre os bancos: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto?”.
O banqueiro Gotti tem uma visão do capitalismo diametralmente oposta à do Papa. Não é à toa: em 1987, ao fundar na Itália o banco Akros, arrebanhou nada menos que 275 milhões de euros de ricos italianos e de outros países da Europa e EUA. Alguns anos depois, ele se associou ao multimilionário Emilio Botín para fundar a filial italiana do Banco Santander, que presidiu por alguns anos.
Como se vê, o líder e porta-voz dos conservadores rebelados não tem o que reclamar do capitalismo sobre o qual escreveu uma verdadeira elegia num artigo para a Fundação Liberal da Itália: “A economia é uma técnica avançada e sofisticada, mas neutra, que, para ser vantajosa para o homem, deve ser considerada importante, central. […] O capitalismo, sem dúvida, fez muito pelo homem e pode fazer muito mais”.
Em 2005, foi investigado por irregularidades num rumoroso caso envolvendo a Parmalat, que acabou prescrevendo sem julgamento em 2007. O processo não impediu que em 2008 ele fosse nomeado gestor das finanças da Cidade do Vaticano. De quem partiu o convite? Do então todo poderoso cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, homem forte do papado de Ratzinger e hoje envolvido num escândalo de grandes proporções: o desvio de dinheiro do hospital pediátrico Bambino Gesù, do Vaticano, para uma reforma de 500 mil euros na sua megacobertura de 600 metros quadrados com 100 metros quadrados de terraço.  Em 2009, Gotti foi nomeado por Bento XVI presidente do IOR, o Banco do Vaticano, para ser acusado um ano depois pela Procuradoria de Roma de violações às normas contra a lavagem de dinheiro nas instituições financeiras –em 2012, foi afastado do Banco.
Em entrevista ao site conservador espanhol InfoVaticana, Gotti Tedeschi pontificou, com a soberba e a ironia típicas de um banqueiro: “Imagino que o papa vai agradecer os signatários do documento e vai querer se reunir um por um para reconhecer os erros cometidos no seu magistério”.  Uma nota: nenhuma mídia católica conservadora qualificou-o como banqueiro em todas as reportagens ele foi apresentado pela denominação de economista, que devem ter considerado menos antipática ou denunciadora.
TFP, sedevaticanistas e ao menos um defensor dos pedófilos – Na verdade, dizer que Gotti é líder de um movimento conservador é, talvez, uma matização forçada. Ao se examinar os nomes dos signatários da carta contra o Papa, o que se vê é uma reunião de ultraconservadores ou, para citar Francisco, verdadeiros restauracionistas que de maneira aberta ou vela opõem-se ao Vaticano II e advogam a restauração do Concílio de Trento (1545-1563), que marcou o rompimento da Igreja com a modernidade nascente e significou uma declaração de guerra à Reforma Protestante.
Outros dos líderes do grupo é Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e herdeiro de Marcel Lefebvre, o bispo cismático arquiconservador que se rebelou contra o Vaticano II, acusando-se de “liberal e protestante” e que escreveu numa carta para João Paulo II em 1985 que os judeus, comunistas e maçons seriam “inimigos declarados da Igreja”. Nem o conservador Wojtyla aguentou o grupo de Lefebvre, que foi excomungado por ele –pena suspensa em 2009 por Bento XVI.
O grupo de signatários da carta é espantoso –ela tem recebido adesões e, na terça-feira (26) eram 79. Nenhum nome de expressão na Igreja ou no terreno da formulação teológica contemporânea.  Nenhum cardeal ou bispo, exceto pelo bispo emérito da diocese de Corpus Christi, no Texas, dom Rene Henry Gracida, de 94 anos. Em entrevista ao National Catholic Reporter, Richard Gaillardetz, teólogo do Boston College e ex-presidente da Associação Católica Teológica dos EUA afirmou que os signatários “são figuras marginais” na Igreja e “devem ser reconhecidos como vozes extremistas e automarginalizadas”.
Veja-se o caso do Brasil. Dois brasileiros assinam o documento, monsenhor José Luiz Villac e Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, ambos sem expressão na Igreja brasileira e membros da infame TFP (Tradição, Família e Propriedade), organização católica de extrema-direita que apoiou a ditadura militar e as prisões, torturas e mortes de opositores ao regime.
Outro dos signatários é o padre francês Claude Barthe, que durante anos um estridente membro dos grupos dos sedevaticanistas –ultraconservadores para quem que a Santa Sé está vaga desde a morte do Papa Pio XII, em 1958. Para eles, João XXII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco são usurpadores do “trono de Pedro”. Não pense que isso é piada, é sério, há mesmo grupos que pensam assim, e o padre Barthe foi membro desses grupos durante anos.
Mas não é só.
O padre Glen Tattersall, da diocese de Melbourne (Austrália), que aparece com destaque na lista dos signatários, tem se notabilizado em seu país nos últimos meses por seus ataques violentos à Comissão Real de investigação dos casos de pedofilia na Igreja australiana. Os números são aterradores e foram qualificados de “surpreendentes, trágicos, indefensáveis” por Francis Sullivan, diretor executivo do Conselho de Verdade, Justiça e Cura instituído pela própria conferência episcopal da Austrália. Entre 1980 e 2015, quase 4.500 pessoas denunciaram abusos sexuais contra menores cometidos pelos 1.880 membros da Igreja, o que significa 7% do clero do período, percentual que chegou para mais de 15%, em algumas dioceses. No entanto, segundo o padre Tatersall, é tudo é culpa da “moralidade frouxa dos liberais e homossexuais” (aqui). Mais ainda. Para ele, haveria má vontade com os pedófilos: “Se há um relacionamento entre um padre e um menino no final da adolescência, quer dizer que é abuso sexual quando ele tem 16 ou 17 e então é um relacionamento maravilhoso quando você tem 19 anos? Quero dizer, é ridículo”.
O documento – Este é o grupo que ataca o Papa. Clique aqui Se você quiser conhecer a íntegra do documento, intitulado em latim de Correctio filialis de haeresibus propagatis (Correção filial à propagação de heresias).
O título já é um prato cheio para interpretações de fundo psicanalítico. Os conservadores consideram o Papa como um verdadeiro “pai”, a quem os filhos deveriam obediência cega. Só que não é bem assim. Obedece-se cegamente o Papa (pai) quando ele faz o que os filhos desejam. Se o pai faz diferente da expectativa dos filhos, é heresia. Mas, curiosamente, a operação pretendida pelos signatários da carta não é, como o padrão freudiano, derrubar (matar) o pai para assumir seu lugar. Não. O objetivo é liquidar este pai benevolente (Francisco) para tentar impor um pai severo, autoritário (como uma reencarnação de Pio X ou Pio XII). Os conservadores passariam a mandar novamente na Igreja, por meio deste pai implacável.
É singular que no texto os signatários afirmem aderir “sinceramente à doutrina da infalibilidade papal tal como ela foi definida pelo Concílio Vaticano I”… contanto que o Papa concorde com eles!
O tom do documento, em que pese o título de “correção filial”, é de franca ameaça: os ensinamentos de Francisco levariam os fiéis “a colocar em dúvida a validade da renúncia do Papa emérito Bento XVI ao papado”. Ou seja, sinalizam que podem reinstalar Ratzinger na cadeira papal.
Os autores do ataque ao Papa consideram a exortação apostólica Amoris Laetitia um “escândalo à Igreja e ao mundo, em matéria de fé e moral” e asseguram que o direito à comunhão de casais católicos divorciados em segunda união seria uma afronta a “verdades divinamente reveladas”. São páginas seguidas de citações entremeadas pela palavra heresia.
Pode parecer inacreditável, mas em pleno século 21 os ultras usaram o documento para atacar a Modernidade, mais de 500 anos depois! O documento explicita o desejo de hegemonia do catolicismo, como se a reinaugurar a cristandade, afirmando que tudo o que a verdade integral repousa sobre a Igreja Católica e que a humanidade deve dobrar-se a essa constatação: “A razão humana pode por si mesma deduzir a verdade da fé católica baseada na evidência publicamente disponível da origem divina da Igreja Católica”. Apesar de uma pequena concessão à possibilidade de outras compreensões sobre Deus, o texto recende a fogueiras da Santa Inquisição: “A fé católica não esgota toda a verdade sobre Deus, porque somente o intelecto divino pode compreender plenamente o Ser divino. No entanto, todas as verdades da fé católica são inteira e completamente verdadeiras, porquanto as características da realidade que tais verdades descrevem são exatamente como elas as apresentam”.
O documento termina com quase cinco páginas de ataque cerrado a Martinho Lutero e ao diálogo e aproximação que o Papa tem promovido com as igrejas protestantes. “Em segundo lugar, sentimo-nos obrigados em consciência a nos referir às simpatias sem precedentes de Sua Santidade por Martinho Lutero, e à afinidade entre as ideias de Lutero sobre a lei, a justificação e o casamento e aquelas ensinadas ou favorecidas por Sua Santidade em Amoris Laetitia e em outros lugares.” Aparentemente, os signatários estão alinhados com o bispo cismático ultraconservador Marcel Lefebvre, que considerava o Vaticano II como algo próximo de uma obra diabólica, liberal e de fundo protestante.
Os signatários atacam Francisco, mas seu objetivo final é encerrar a retomada da opção da Igreja pelos pobres e frágeis e revogar o Concílio Vaticano II.
[Mauro Lopes]