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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Donald Trump e a destruição da hipocrisia americana, por Jessé Souza

 

Talvez não exista país no mundo mais servil e com mentalidade de escravo do que o Brasil


Do ICL Notícias:


Toda forma de dominação social e política precisa combinar violência física e simbólica. Como a violência física é um ataque explícito à dignidade das pessoas, o domínio pela violência física tende a operar e produzir seus efeitos em períodos limitados, agindo, normalmente, como recurso de última instância e ameaça potencial. Isso significa que o domínio, ao longo do tempo, tem que ser assegurado de outra maneira, por meio de uma “violência simbólica”, ou seja, àquela que conta com a conivência do oprimido que passa a se ver como inferior e a admirar o dominador.

A história do imperialismo europeu é uma excelente ilustração do que estamos dizendo. Tanto o imperialismo clássico francês ou inglês usavam o expediente simbólico ao lado da agressão física para oprimir povos colonizados. Eram utilizadas clivagens tribais e raciais de modo a cooptar, por exemplo, os segmentos “mais claros” contra os mais escuros de países africanos ou asiáticos sacralizando socialmente a hierarquia da supremacia branca. De resto, a oposição entre civilização, representada pelos europeus, e barbárie, representada pelos outros povos, terminava convencendo também muitos nativos — especialmente os educados na cultura europeia — de culturas oprimidas.

No entanto, foram os Estados Unidos que privilegiaram o uso da violência simbólica como arma cultural criando o imperialismo “soft” (suave) americano. A partir da Segunda Guerra Mundial, a vitória contra a tirania sem disfarces, que havia sido ganha antes de tudo pela União Soviética, mas que Hollywood transformou em triunfo americano, permitiu que os EUA pudessem ser vistos como uma potência benigna, amiga da liberdade e da autodeterminação dos povos.

Isso induziu os americanos a perceberem que o domínio global poderia ser conseguido mais facilmente se eles abdicassem, pelo menos em condições normais, do domínio militar e político explícito em favor da violência simbólica. É muito mais eficiente deixar uma elite nativa e do “atraso”, como a nossa, comandar e assaltar o país em nome dos interesses americanos.

Para isso é necessário usar o prestígio científico como arma de dominação. A “ciência americana”, comandada por Talcott Parsons, o intelectual americano mais influente, criou a ideia do “excepcionalismo americano” que permitiu ver a riqueza dos Estados Unidos como advinda não do saque e da força militar, mas de sua colonização protestante ascética tida como supostamente empreendedora, honesta e voltada ao bem comum. Essa bobagem foi retirada da interpretação abstrusa que Parsons fez da famosa tese weberiana sobre o espírito protestante, mas o mundo todo acreditou nela, inclusive os vira-latas de todas as latitudes.

Cerca de 90% de nossa ciência política, por exemplo, foi contaminada por este lixo e ainda é até hoje. A influência da ciência em si é muito importante porque ela constrói o paradigma de pensamento e interpretação dos fatos que vai prevalecer para dominados e dominantes. As universidades do mundo inteiro, que vão formar todas as elites dirigentes em todos os lugares, foram contaminadas por estas ideias envenenadas.

Mas foi a transformação dessas ideias em filmes, séries, livros e todas as mercadorias simbólicas da indústria cultural, com Hollywood à frente, que logrou internalizar dentro dos povos oprimidos o preconceito criado para oprimi-lo e roubar sua inteligência. Não é à toa que todos os criminosos nos filmes e séries americanas são mexicanos ou latino-americanos, quase sempre se opondo à honestidade do policial e do cidadão americano em geral. A corrupção, como sempre, passa a ser a arma principal desse ataque. Toda a indústria cultural vai opor a honestidade supostamente inata dos americanos às sociedades tidas como essencialmente corruptas do Sul Global: América Latina, África e Ásia, afinal quem é corrupto tem sua humanidade negada, e podem e até “devem” ser comandados e explorados pelos honestos e inteligentes.

Talvez não exista país no mundo mais servil e com mentalidade de escravo do que o Brasil e os brasileiros em relação aos Estados Unidos. O golpe de 2016 mostra isso ao lado de outros milhares de exemplos possíveis. Só um povo imbecilizado e servil pode aplaudir a entrega da Petrobrás, por exemplo, aos estrangeiros, dado que nossos políticos seriam corruptos e os americanos seriam tão honestos, bonitos e inteligentes. Agora temos as redes sociais, todas empresas privadas americanas mancomunadas com os interesses de Estado americano, que permite manipular as emoções e fragilidades dos oprimidos ao ponto de criar o “patriotário” bolsonarista que somos obrigados a testemunhar.

Os recentes episódios com os brasileiros algemados e maltratados pelas autoridades americanas mostram um outro país. Um país que quer ser conhecido e temido, agora, pela truculência. É uma mudança radical do imperialismo americano nesta sua fase terminal. Como diria Gramsci, é neste lusco-fusco que os monstros aparecem. Alguns podem comemorar o fim da hipocrisia americana de quase cem anos. O risco, no entanto, é termos saudade dessa hipocrisia que preferia mandar Brad Pitt e Marilyn Monroe, junto com os seus estereótipos envenenados, no lugar de armas e deportações humilhantes. E a nova fase está só no começo. Quem sabe o que ainda vai vir por aí?


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

O manipulado pobre de direita nos Estados Unidos, Brasil e no mundo, por Jessé Souza, Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA

 

"O Coringa do filme famoso, ou seja, na sua primeira versão, espelhava exatamente este desalento e a raiva sem direção que ela provoca. O sentimento originário da extrema direita é a desorientação de não se saber quem ou o que causa o sofrimento.  Se não há direção, se nunca se identifica os reais causadores da pobreza, então a extrema direita entra realizando o seu trabalho de canalizar a raiva sem explicação de modo a criar um estado de guerra entre os pobres."


Do ICL Notícias:



Jamil Chade fez uma reportagem muito interessante há poucos dias sobre uma fila quilométrica de milhares de pessoas nos Estados Unidos. Davam voltas em vários quarteirões, querendo uma vaga dos poucos empregos oferecidos por uma empresa. Cada um tinha um formulário preenchido e ficaram horas em pé na espera. Para Jamil, são muito prováveis eleitores de Trump, no que eu acredito também. O trabalhador médio americano tem seu salário estagnado há 50 anos. Se reclamar, outros ocupam o seu lugar.

O Coringa do filme famoso, ou seja, na sua primeira versão, espelhava exatamente este desalento e a raiva sem direção que ela provoca. O sentimento originário da extrema direita é a desorientação de não se saber quem ou o que causa o sofrimento.  Se não há direção, se nunca se identifica os reais causadores da pobreza, então a extrema direita entra realizando o seu trabalho de canalizar a raiva sem explicação de modo a criar um estado de guerra entre os pobres.

A questão principal aqui é como compreender essa opção de pessoas e partidos de elite pelos pobres? O ponto principal aqui é a desinformação que acompanha a privatização da mídia e das redes sociais no mundo todo.

A mídia não explica como e por quem essas pessoas são oprimidas e humilhadas. Sem saber o que causa seu sofrimento, as pessoas podem ser abusadas na sua vulnerabilidade pelo apelo da extrema direita que é o de basicamente apontar como causa da pobreza grupos já estigmatizados e ainda mais vulneráveis por conta disso. Os bodes expiatórios são muitos e todos intercambiáveis, dependendo do contexto e momento. Podem ser mexicanos ou muçulmanos nos Estado Unidos, assim como o nordestino, tido como preguiçoso, e o negro, visto como bandido no Brasil.

Paralelamente, para fazer a tragédia grande, os sindicatos foram enfraquecidos e não podem mais manter o contraponto de uma visão específica para os de baixo da escala social. Sem isso, a mídia e redes sociais movidas pelo dinheiro fazem a festa. Também falta um mínimo de inteligência e imaginação política aos partidos do campo democrático. A reação ao discurso dominante é praticamente nula. E este é o quadro muito especialmente nos Estados Unidos e Brasil, países de empobrecimento visível dos grupos marginalizados como os negros e os marginalizados.

Na Europa, a tradição social-democrata é mais forte e você não tem partidos defendendo a demagogia de um Pablo Marçal e dizendo que tudo depende do empenho individual. O que distingue um partido como o linke na Alemanha, mais à esquerda, e o partido nazista, o AFD, é a questão da imigração, mas se protege do mesmo modo nos dois casos os ganhos do trabalhador médio. Também não tem a influência nefasta da religiosidade neopentecostal.

Este é ponto central aqui: a singularidade da extrema direita americana e brasileira é muito parecida e tem a ver com empobrecimento não compreendido nas suas causas. Aí entra o racismo, por meio de suas máscaras, para transformar o negro em criminoso e o nordestino em aproveitador, como explicação espontânea do mundo social para quem não tem outra explicação. O “mapa racial” vem ocupar este lugar vazio. Outra similaridade fundamental com a política americana. Por conta disso, as extremas direitas que mais se parecem são a americana e a brasileira. Não por acaso existe até similitude nos casos de tentativa de golpe de Estado.

 

SAIBA MAIS:

Trump diz que imigrantes que cometeram crimes introduziram 'genes ruins’ nos EUA

 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Fracassamos como Nação? Para Jessé Souza, apesar do obscurantismo bolsonarista-militarista atual, há espaço para o otimismo quanto ao futuro



Sociólogo destaca o papel da elite sobre a sociedade desigual e miserável que marca o Brasil
Reprodução/TV GGN
Jornal GGN O sociólogo Jessé de Souza explica as estranhas das fragilidades dos princípios morais da elite brasileira e suas consequências no cenário social e político atual em entrevista ao jornalista Luis Nassif, no episódio desta terça-feira, 21 de julho, da série “Fracassamos como Nação?”, exibida na TV GGN
Para Jessé, apesar do obscurantismo político e os retrocessos ocasionados pelo negacionismo que enfrentamos, há um otimismo sobre o futuro da nação, a partir de processos de aprendizagens que levam ao desmonte de organizações apresentadas como “salvadoras”, por exemplo, a Operação Lava Jato, que se utilizou de processos irregulares para levantar a bandeira “anticorrupção”. 
Questionado sobre a perda de valores da elite, Jessé destaca que a eficácia da “violência simbólica” própria deste nicho e a falta de controle das instituições são as marcas do desastre da sociedade brasileira.
O sociólogo também pontua a importância de compreender a distinção social como estímulo econômico e para a universalização dos direitos, os pactos sociais que dificultam o acesso as raízes dos problema políticos, o papel da esquerda, as influências da imprensa, a força irracional e as mascaras do racismo, a criminalização da política e as intenções do governo Bolsonaro. Confira.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Jessé Souza sobre como funciona o Imperialismo Americano contra o Brasil com o uso de tipos como Bolsonaro




Do Canal de Jessé Souza:

A guerra contra o Brasil: como funciona o imperialismo americano




Como havia dito na semana passada, apresentarei nos próximos quatro vídeos os pontos centrais analisados em meu próximo livro, “A guerra contra o Brasil”, que será lançado em breve pela Estação Brasil/Sextante). Hoje, falo essencialmente sobre como o imperialismo norte-americano foi elaborado, de que maneira ele opera no mundo e, especificamente, como ele age no caso brasileiro. Para que se compreenda como funciona o imperialismo da maior potência econômica do mundo é fundamental ter em mente que seu modo de atuação é, antes de tudo, uma invenção da elite norte-americana, das suas grandes corporações e de seus grandes bancos. É importante também perceber que os Estados Unidos testam domesticamente suas estratégias de dominação cultural e econômica antes de colocá-las em prática nos demais países do mundo. Mas, afinal, como isso se dá? A análise que proponho em meu novo livro cruza aspectos políticos, econômicos, jurídicos e culturais para que os leitores possam ter uma visão do todo e não apenas uma análise fragmentada. Considero indispensável para que se entenda como ocorreu o retrocesso brasileiro dos dias atuais a ampla compreensão do mecanismo do imperialismo norte-americano. O vídeo passou por um ligeiro processo de edição para atenuar meus vícios de linguagem. Se você gostou do vídeo, não se esqueça de curtir e compartilhar com os amigos. Isso ajuda na divulgação do canal e no aumento das visualizações. Se ainda não é inscrito, inscreva-se agora e clique no sininho para acompanhar em primeira mão os novos vídeos postados. Conheça meus livros: A Classe Média no Espelho: http://bit.ly/AclasseMediaNoEspelho A Elite do Atraso: http://bit.ly/AeliteDoAtrasoJesseSouza Siga minhas redes sociais: Blog: https://jessesouza.com.br Facebook: https://www.facebook.com/jesse.souza.... Instagram: https://www.instagram.com/jesse_souza... Twitter: https://twitter.com/jessesouzaecht

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Jessé Souza: Sérgio Moro é o general da guerra híbrida americana contra o Brasil



Do Canal de Jessé Souza:



Este é o meu terceiro vídeo da série “A guerra contra o Brasil”, que será lançado em breve pela Estação Brasil/Sextante). Volto, hoje, a destacar alguns pontos centrais do meu novo livro. Diante dos últimos acontecimentos no Brasil, gostaria de refletir novamente aqui sobre o ministro Sérgio Moro, que personifica a figura do general a serviço dos interesses norte-americanos, e da guerra híbrida dos Estados Unidos contra o Brasil. O conceito de “guerra híbrida” é fundamental para a compreensão dos mecanismos de dominação dos Estados Unidos. Nesta semana, ocorreu uma denúncia absurda do Ministério Público Federal (MPF) contra o jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, e personagem fundamental pelas revelações contra a Vaza-Jato. Sérgio Moro é, sem dúvida, um dos articuladores dessa ação antidemocrática que, felizmente, esbarrou na reação imediata dos setores progressistas do nosso país. O que habilita Moro a agir conforme esses interesses antidemocráticos? Em que medida o conceito de “guerra híbrida” se aplica a este episódio? Assista ao vídeo e compartilhe aqui nos comentários sua opinião. O vídeo passou por um ligeiro processo de edição para atenuar meus vícios de linguagem. Se você gostou do vídeo, não se esqueça de curtir e compartilhar com os amigos. Isso ajuda na divulgação do canal e no aumento das visualizações. Se ainda não é inscrito, inscreva-se agora e clique no sininho para acompanhar em primeira mão os novos vídeos postados. Conheça meus livros: A Classe Média no Espelho: http://bit.ly/AclasseMediaNoEspelho A Elite do Atraso: http://bit.ly/AeliteDoAtrasoJesseSouza Siga minhas redes sociais: Blog: https://jessesouza.com.br Facebook: https://www.facebook.com/jesse.souza.... Instagram: https://www.instagram.com/jesse_souza... Twitter: https://twitter.com/jessesouzaecht

domingo, 20 de outubro de 2019

A justiça tarda por vezes demais, mas na História não falha: o julgamento social da Lava Jato, por Jessé Souza



Do Canal do sociólogo Jessé Souza:



O professor e sociólogo Jessé Souza fala sobre o julgamento social que a Lava Jato tem passado. Fala sobre a imensa contradição existente no processo, já que a Lava Jato foi, por muito tempo, o meio pelo qual acreditávamos que a justiça seria feita, no entanto, hoje é ela que se encontra no banco dos réus.

A leitura política do sociólogo Jessé Souza do filme Coringa (Joker), de Todd Phillips, com Joaquim Phoenix e Robert De Niro



Do Canal de Jessé Souza:



"Em mais um vídeo imperdível, o professor Jessé Souza faz uma leitura política sobre um dos filmes mais comentados do momento: Joker (Coringa). Com uma profunda significação política e extremamente representativo sobre o momento que o Brasil e os Estados Unidos passam na atualidade, ao romper com os estereótipos e fugir de uma visão maniqueísta proposta pelos filmes de super-heróis, Joker vem para causar um desconforto em nós, fazendo com que nosso olhar se volte para algo além das nossas próprias realidades. "ATENÇÃO: SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU O FILME, CUIDADO: ESSA ANÁLISE CONTÉM SPOLEIRS!"

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Por que Moro ainda não caiu? Por Jessé Souza




 "O escândalo da “Vaza Jato”, provocado pelo The Intercept e pela extraordinária coragem de Glenn Greenwald, desmascarou a hipocrisia do jeito brasileiro de fazer política que já vem acontecendo há mais de cem anos. A Lava Jato não é, afinal, uma história de cinco anos que começa em 2014 com o “escândalo da Petrobras”, mas sim uma história que vem desde 1930, quando Getúlio toma da “elite do atraso” o poder de Estado. Foi aí que se construiu a ideia estapafúrdia de que a “corrupção só da política”, usando o conceito de patrimonialismo como contrabando, é a raiz de todos os problemas brasileiros. A construção dessa ideia ridícula como suposta explicação central para os problemas brasileiros “coincide” com a ascensão de Vargas ao poder político contra as elites do dinheiro. Como a elite do dinheiro tem que “moralizar” sua rapina, desde então seus inimigos são perseguidos e sistematicamente depostos do poder com falsas acusações de irregularidade pelo uso supostamente “patrimonialista” e corrupto do Estado e da política." - Jessé Souza


Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) realiza audiência pública interativa para ouvir o ministro de Estado da Justiça e Segurança Pública, sobre informações e esclarecimentos a respeito das notícias veiculadas na imprensa relacionadas à Operação Lava Jato. À mesa, ministro de Estado da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. | Foto: Pedro França/Agência Senado

Por que Moro ainda não caiu?

por Jessé Souza

em seu site 

O escândalo da “Vaza Jato”, provocado pelo The Intercept e pela extraordinária coragem de Glenn Greenwald, desmascarou a hipocrisia do jeito brasileiro de fazer política que já vem acontecendo há mais de cem anos. A Lava Jato não é, afinal, uma história de cinco anos que começa em 2014 com o “escândalo da Petrobras”, mas sim uma história que vem desde 1930, quando Getúlio toma da “elite do atraso” o poder de Estado. Foi aí que se construiu a ideia estapafúrdia de que a “corrupção só da política”, usando o conceito de patrimonialismo como contrabando, é a raiz de todos os problemas brasileiros. A construção dessa ideia ridícula como suposta explicação central para os problemas brasileiros “coincide” com a ascensão de Vargas ao poder político contra as elites do dinheiro. Como a elite do dinheiro tem que “moralizar” sua rapina, desde então seus inimigos são perseguidos e sistematicamente depostos do poder com falsas acusações de irregularidade pelo uso supostamente “patrimonialista” e corrupto do Estado e da política.
Como nenhum fato isolado se explica por si só, é necessário articular conscientemente a cadeia entre as causas. Toda exploração econômica tem que se servir de um “álibi”, ou seja, de um recurso simbólico que torne o fato da exploração invisível enquanto tal, para poder ser exercida de modo que os próprios explorados a considerem aceitável ou inevitável. O caso brasileiro é, no entanto, um caso limite. Alguma forma de distorção da realidade está sempre presente em todos os casos de sociabilidade humana conhecidos na história. No caso do nosso país, como o escândalo da “Vaza Jato” mostra tão bem, a capa de moralidade não é mera distorção da realidade vivida. Aqui, tal realidade é “invertida” e posta de cabeça para baixo, o que explica o caráter patológico e neurótico para quem vive a conjuntura política atual.
Afinal, a descoberta irrefutável de uma quadrilha funcionando dentro do aparelho de Estado, usando os cargos públicos não apenas para enriquecimento e vantagens pessoais, mas também como uma forma despudorada de manipular a opinião pública e minar todos os pressupostos da democracia com fins partidários, não levou – ainda –sequer à perda dos cargos nem à prisão dos responsáveis. A lei parece não se aplicar aos desmandos de Moro e sua quadrilha, muito menos para as fontes de renda misteriosas da família Bolsonaro. Será que é porque esse pessoal assegura, por outro lado, o saque do Estado e das riquezas nacionais pela elite endinheirada? Quem ainda possuir dois neurônios intactos saberá responder.
Mas, e como fica a necessidade de se criar uma capa de moralidade e de falseamento da realidade para legitimar os desmandos? A Lava Jato funcionou como articulação explícita para a “corrupção real”, a da apropriação por agentes privados de empresas públicas a preço de banana, o mesmo que, aliás, aconteceu recentemente com a BR Distribuidora, pelos bancos que tiveram uma reunião secreta com Fux e Deltan. Ao que parecia, a questão era que o PT não podia ser alçado ao poder para não melar os “bons negócios”. Então, com uma corrupção tão descarada como essa, como ninguém dos “camisas amarelas” vai às ruas para pedir que a honestidade volte?
Ora, só pode ser porque a maior parte dos “camisas amarelas” nunca esteve de fato interessada em combater a corrupção. O que, de resto, apenas comprova a tese do falso moralismo do “combate à corrupção”, visto que só vale para partidos populares. A dificuldade geral, especialmente para a elite e a classe média, é a perda do único “álibi” existente para mascarar seu ódio e desprezo pela população negra e mais humilde sob a forma da falsa criminalização dos seus representantes. É a compreensão intuitiva disso, o que explica também as idas e vindas de órgãos da elite, como a Veja e a Rede Globo, na cobertura do caso. Eles precisam manter um vínculo com a realidade, agora desmascarada, sob o risco de perder qualquer legitimidade, até para a parte mais esclarecida do próprio público. Por outro lado, estão envolvidos até o pescoço na manipulação desse mesmo público. O jogo havia sido controlado de cima pela elite e sua imprensa venal. Moro e Deltan foram apenas os “laranjas”, os pequenos oportunistas que ficam com as sobras do negócio grande. Tudo indica que a parte mais esclarecida da classe média já desceu do barco. Reinaldo Azevedo e outros arrependidos falam para esse público.
É Bolsonaro e sua base de poder infensa a argumentos racionais que permite a continuidade da farsa. O seu público não precisa de legitimação porque seu protesto radicalizado está vincado em sentimentos irracionais como ressentimento, inveja social e preconceitos racial e de classe. Inveja e ressentimento contra os de cima, o que explica os ataques à arte, à cultura e ao conhecimento em geral. Também a vingança, há muito esperada, contra séculos de desprezo dos “doutores” contra os remediados entre os pobres, a base real de Bolsonaro, muitos dos quais são brancos e, por isso, se acham no direito “racial” de um futuro melhor do que de fato possuem. Contra os de baixo, por sua vez, a raiva se volta para os negros e mestiços pobres que tiveram a ousadia de ascender socialmente no período recente e de chegar ainda mais perto deles. É difícil saber o que causa mais revolta nestes 20% da população brasileira que são a base real da força de Bolsonaro: a raiva contra os de cima ou contra os de baixo. Esse é seu público cativo, os 20% que sempre apostaram nele mesmo antes da “fakeada”.
Para esse pessoal, a democracia não é mais do que uma palavra odiada, afinal ela nunca lhes serviu para nada. Ela só parece vantajosa para os já privilegiados e para a população negra e humilde que ascendeu com o PT. Por causa disso, Bolsonaro lhes parece o “vingador” perfeito. O discurso contra as elites, utilizado para a arregimentação dos “bolsominions” para o último dia 26 de maio, mostra o sequestro do tema da luta de classes pela direita, já que a esquerda foi covarde e incapaz de qualquer protagonismo nessa área. Por outro lado, a única política pública informal efetiva do bolsonarismo é armar milícias e polícias para a chacina indiscriminada dos negros, índios e pobres, o que alimenta seu desprezo e o de seu público pelos mais frágeis. Da mesma forma que a distância em relação à “cultura” os inferioriza, a violência aberta contra os mais frágeis os torna “aparentemente” poderosos. A destruição da cultura e do conhecimento satisfaz sua inveja. A destruição dos fragilizados satisfaz seu desprezo e seu medo deles. É tudo aparência para mentes doentias, mas a aparência pode ser tudo para quem não tem mais nada.
Essa “minoria barulhenta” pressente que o momento da vingança chegou. Ela se tornou abertamente fascista porque é ela que diz: não importa se é ou não verdade o que diz a “Vaza Jato”. O que importa é o que é “necessário” para se sentir melhor do que se é. São pessoas em boa parte frustradas na vida privada, que usam a política como forma de dar sentido a uma vida vazia e sem direção. O “bolsominion” típico é um pobre remediado, na maioria um “lixo branco” sem cultura e sem grandes esperanças na vida, que, de repente, pode se ver como protagonista de alguma coisa. Ao se definir como conservador e de direita, se sente como alguém que “protesta”, um pequeno herói, supostamente contra as tendências de seu tempo, que ao se identificar com o tirano que “tira onda” de poderoso, se sente igualmente poderoso. Como é incapaz de compreender uma realidade complexa, refugia-se em bravatas estereotipadas e finge conhecer muito do que nada conhece.
Para essas pessoas, Moro é, hoje, tanto seu herói quanto Bolsonaro. Os “likes” de Moro desceram a escala social, embora ele não tenha a menor ideia disso. Acredita-se onipotente. Como sua valia para Bolsonaro era ser uma ponte com a classe média estabelecida pseudomoralista, toda a sua base de apoio mudou ou está mudando. Os 20% de supostos “empoderados” barulhentos é a única sustentação real do atual arranjo de poder. Bolsonaro, por sua vez, também depende de Moro. Afinal, a mentira da Lava Jato se alongou na própria mentira. Sem a Lava Jato não existiria Bolsonaro. Os dois são carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue. A solução não é simples para ninguém neste jogo. Ver a “casa cair” é o que o “bolsominion” mais quer. Enquanto isso, a elite mais saqueadora quer a grana fácil das grandes mamatas e sequer se dá conta do perigo. Bolsonaro institucionaliza o roubo pequeno e miliciano do botijão de gás sem bandeira. Esses são, hoje em dia, os apoios efetivos da Lava Jato. Os 80% restantes observam bestializados um mundo que não mais compreendem.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Jessé Souza: Bolsonaro, sua loucura e sua idiotice são a expressão perfeita do ódio racial brasileiro


"Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo “racial” entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios."



Jessé Souza

Publicado no blog de Jessé Souza (reproduzido também pelo DCM)
Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo “racial” entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios. Como esse mecanismo funciona na realidade cotidiana? Minha tese é a de que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve “na prática” inalterado desde a abolição da escravatura.
Fundamental para compreender este estado de coisas é a função que o ex-escravo abandonado e humilhado vai ter na sociedade pós-escravocrata. O ex-escravo é afastado do mercado de trabalho competitivo e passa a desempenhar as mesmas funções humilhantes e indignas que exercia antes. Seja tanto as funções de trabalho sujo, pesado e perigoso, para os homens, quanto as funções domésticas do antigo “escravo doméstico”, para as mulheres, as quais reproduzem todas as vicissitudes da antiga relação senhor/escravo. Faz parte do âmago desta relação não só a exploração do trabalho vendido a preço vil, mas também a humilhação cotidiana transformada em prazer sádico para o gozo frequente e para a sensação de superioridade e a “distinção social” das classes média e alta.
Mas isso tudo não é nem sequer o principal. Os negros na base da pirâmide social brasileira sempre desempenharam uma função semelhante à casta dos intocáveis na Índia. Como nota Max Weber no seu estudo clássico sobre o hinduísmo, os intocáveis possuem a função de legitimar toda a ordem social hindu na medida em que todas as outras castas, mesmo as inferiores, são distinguidas positivamente em relação aos intocáveis.
Como a “distinção social”, ou seja, a sensação de se saber “superior” a outros é tão importante na vida social quanto o dinheiro e a necessidade econômica, isso significa que uma classe social na qual todos podem pisar, humilhar, violar, agredir, e, no limite, assassinar sem temer consequências satisfaz, a uma necessidade primitiva fundamental a todas as classes acima dela. É óbvio que uma sociedade deste tipo não é apenas desumana, desigual, primitiva e tosca, mas também, na pior das hipóteses, burra, já que reproduzir a exclusão social produz insegurança, pobreza e instabilidade social para todos. Entretanto, este é o DNA da sociedade brasileira.
É importante notar que, paralelamente à condenação do negro à exclusão, o país passa a implementar a política abertamente racista da importação de imigrantes europeus brancos, na imensa maioria italianos, precisamente como no caso da família do excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro. Uma parte considerável destes “neobrasileiros” ascende rapidamente, alguns inclusive à elite de proprietários e de novos industriais, mas boa parte irá constituir a classe média branca de grandes cidades como São Paulo. Nas outras grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e Recife, os portugueses exerceriam o mesmo papel do italiano em São Paulo.
O imigrante branco, na maioria o italiano ou o português, irá constituir no Brasil, ao mesmo tempo em aliança e a serviço da elite de proprietários, uma espécie de “bolsão racista e classista” contra os negros e pobres que constituem a maior parte do povo. Para a elite, isso significa a oportunidade de criminalizar e estigmatizar a soberania popular no nascedouro com a cumplicidade das classes médias e garantir só para si o orçamento do Estado via juros escorchantes, “dívida pública”, sonegação de impostos e outros assaltos legalizados. Para as outras classes, o preconceito universal contra o negro e ex-escravo permite a construção de uma frente comum para a manutenção de uma distinção social positiva contra os negros, o que eterniza o abandono, a humilhação, e o genocídio desta raça/classe como política pública informal.
Mais interessante ainda para nossos propósitos aqui é a função do racismo contra o negro para os imigrantes que não lograram sucesso econômico na nova terra. Muitos imigrantes não conseguiram ascender à classe média verdadeira nem à elite. Boa parte vai constituir uma zona cinza que inclui a classe trabalhadora precária e o que poderíamos chamar de “baixa classe média”. O cotidiano de muitos destes não difere muito da vida do negro e do pobre brasileiro. Moram eventualmente no mesmo bairro e passam privações materiais. É precisamente nesta faixa social que o preconceito de raça é ainda mais importante. Afinal, a única distinção que este pessoal tem na vida é a “brancura” da cor da pele para exibir contra o negro.
Entrevistando pessoas desta classe social no interior de São Paulo descendentes de italianos, como Bolsonaro, e alguns que inclusive moram onde ele nasceu para meu livro “A classe média no espelho”, notei um racismo que não tem nada de cordial. Bolsonaro é filho da baixa classe média de imigrantes para os quais a carreira no exército ou na polícia era a promessa de ascensão segura ainda que limitada. Neste contexto, não se casar com um negro ou com uma negra é a regra familiar mais importante e mais rígida. Aqui, o preconceito puro, o orgulho da cor da pele e da origem é a única distinção social positiva ao alcance. Se a elite e a classe média exploram economicamente – além de humilhar – os negros, aqui só se pode humilhar. Enfatizar uma distância social quase inexistente do ponto de vista econômico exige um racismo “racial” turbinado e levado às últimas consequências.
Este é também precisamente o caso do “lixo branco” norte-americano que ajudou a eleger Trump, o objeto do desejo e de imitação de Bolsonaro. Os brancos do Sul dos EUA, inferiores social e economicamente aos brancos do Norte, são, por conta disso, como uma espécie de “compensação” da riqueza inexistente, os racistas mais ferozes e ativistas de uma “Ku Klux Klan” que assassinava e linchava negros indiscriminadamente. Este é o caso de Bolsonaro e de seus seguidores no Brasil. E o que é a “milícia” carioca, com a qual Bolsonaro e seus filhos estão envolvidos até o pescoço, se não a Ku Klux Klan brasileira, que existe para explorar e matar negros e pobres, os supostos “bandidos” das favelas?
Embora a elite e a classe média real e canalha também tenham votado nele, sua real base de apoio é o “lixo branco” brasileiro, próximo do negro e por conta disso ávido por criminalizá-lo, estigmatizá-lo como bandido e por assassiná-lo impunemente. A associação com a milícia, a tara pelas armas e o discurso de ódio são para matar o preto e o pobre. O que está por trás de Bolsonaro é racismo “racial” mais cruel e expresso do modo mais aberto e canalha que se viu.  O ódio à universidade pública está também ligado ao fato desta, agora, ter sido “invadida” por negros e pobres. Essa gente não estaria lá para estudar. Só poderia ser para fazer balbúrdia. Urge cortar as verbas para isso.
A irracionalidade de Bolsonaro, sua loucura e sua idiotice são a expressão perfeita do ódio racial brasileiro. O ódio que não se explica racionalmente, nem apenas por motivos puramente econômicos. O ódio do racista que se vê como fracasso social é um ódio de morte. Ele não compreende as razões de sua posição social e só tem ressentimento sem direção na alma e no coração. Ódio em estado puro que Bolsonaro expressa e exprime como ninguém. Bolsonaro é o líder da Ku Klux Klan e do “lixo branco” brasileiro. É isso que o define e o explica mais que qualquer outra coisa.

sábado, 18 de maio de 2019

Jessé Souza discute, em vídeo, a onda destrutiva fascista-bolsonarista-militarista-olavista na Educação e o início da reação contra Bolsonaro por parte dos Estudantes


Do Canal do Sociólogo Jessé Souza sobre a Elite destrutiva e seu presidente ridículo:



O sociólogo Jessé Souza faz uma avaliação pontual sobre as manifestações que varreram o Brasil da data de ontem, 15 de maio. Professores e universitários de todo o país foram às ruas contra os cortes de 30% do orçamento, promovidos pelo governo Bolsonaro.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Jessé Souza: “A Lava Jato é o câncer da democracia brasileira. Desde 2014 vem cometendo arbitrariedades”

Do Twitter do sociólogo Jessé Souza:
A Lava Jato é o câncer da democracia brasileira. Desde 2014 vem cometendo arbitrariedades, manipulando o moralismo postiço do público, chantageando a política e entregando o Brasil para ocupar o poder em benefício próprio. Canalhas!
A Lava Jato é o câncer da democracia brasileira. Desde 2014 vem cometendo arbitrariedades, manipulando o moralismo postiço do público, chantageando a política e entregando o Brasil para ocupar o poder em benefício próprio. Canalhas!
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sábado, 13 de outubro de 2018

Entendendo, com o sociólogo Jessé Souza, a ascenção do Nazifascismo (forma do velho ódio contra as minorias) no Brasil


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"Todo fascismo é reflexo de uma luta de classes truncada, percebida de modo distorcido e por conta disso violento e irracional no seu cerne. A elite e a alta classe média haviam, com sucesso, legitimado a opressão das classes populares pelo moralismo seletivo da corrupção apenas do Estado e da política como forma de criminalizar a soberania popular. (...) O ódio ao escravo se transformou simplesmente em ódio ao pobre. O escravo negro é eternizado nas massas majoritariamente mestiças com escolaridade precária condenadas ao trabalho desqualificado e semiqualificado. Esta é a base primeira de todo o ódio e ressentimento reprimido e recalcado que é o núcleo da sociedade brasileira." - Jessé Souza



Do GGN:

Resultado de imagem para nazifascismo no brasilTodo fascismo é reflexo de uma luta de classes truncada, percebida de modo distorcido e por conta disso violento e irracional no seu cerne. A elite e a alta classe média haviam, com sucesso, legitimado a opressão das classes populares pelo moralismo seletivo da corrupção apenas do Estado e da política como forma de criminalizar a soberania popular. Os “belgas”, que se vem como estrangeiros na própria terra, oprimiram o “Congo”, ou seja, o próprio povo, e o reduziram á pobreza e á ignorância. O ódio ao escravo se transformou simplesmente em ódio ao pobre. O escravo negro é eternizado nas massas majoritariamente mestiças com escolaridade precária condenadas ao trabalho desqualificado e semiqualificado. Esta é a base primeira de todo o ódio e ressentimento reprimido e recalcado que é o núcleo da sociedade brasileira. O fascismo implícito sempre foi o DNA da opressão de classes entre nós. O que tem que ser explicado, portanto, é como ele contaminou as próprias classes populares.
A ascensão do partido dos trabalhadores, com todas as suas limitações, foi uma inflexão importante no processo de organização popular. Com o golpe de 2013/2016 a reação conservadora veio primeiro de cima, da alta classe média nas ruas, da sistemática corrosão de valores democráticos diariamente perpetrada pela imprensa, e do acanalhamento do STF e por consequência da constituição. O governo Temer promoveu o saque e a rapina que a elite queria e empobreceu o povo que havia experimentado uma pequena ascenção social. Foi dito a este povo que a corrupção política havia sido a causa do empobrecimento. Quando a corrupção dos partidos de elite fica óbvia a todos, sem ser reprimida, todo o sistema perde representatividade. O golpe de misericórdia foi a prisão injusta do líder das classes populares desmobilizadas. Aqui o último elo de expressão racional da revolta popular foi cortado.
Abriu-se a partir daí a porta para a revolta agora irracional das massas. Neste contexto a ocasião faz o ladrão. A belíssima marcha do “ele não”, majoritariamente composta pelas mulheres da classe média mais crítica e engajada, possibilitou a cooptação do voto feminino das classes populares, última cidadela contra a “ética da virilidade” do fascismo popular. Aqui entra em cena o que há de mais sujo na política das “fake News” e da mentira institucionalizada. Analistas de ultradireita da campanha fascista, que perceberam as consequências do isolamento político dos indivíduos que é o que capitalismo financeiro representa na esfera política, se aproveitaram impiedosamente deste fato para oporem mulheres emancipadas da classe média contra as mulheres pobres e evangélicas.Se você é pobre e humilhada o ganho emocional que a distinção moral construída artificialmente com relação a mulheres supostamente “indecentes” exerce, por meio de mentiras que não podem ser desmentidas, passa a ter um apelo irresistível. É uma “vingança de classe”, obviamente distorcida e contra a fração errada da classe média, como escape em relação à pobreza vivida diariamente, mas cujas causas não são compreendidas.
Como já discuti no meu livro “A ralé brasileira”, contracorrente, 2017, a oposição pobre honesto versus pobre delinquente perpassa os mais pobres dificultando enormemente qualquer solidariedade de classe. Daí também a importância de líderes políticos que os representem a partir de cima e secundarizem a contradição interna de classe com uma política de interesse de todos os pobres. Era isso que Lula representava. Sem isso a porta fica aberta para a guerra de classe entre os próprios miseráveis divididos entre os supostos honestos e supostos delinquentes como definidos pelas elites.
É aqui que a “ética da virilidade”- ou seja, a ética dos que não tem ética – do fascismo reina absoluta. O fascismo arregimenta a partir de cima os ressentimentos, medos e ansiedades sem explicação possível e os canaliza a “bodes expiatórios” externos. O antipetismo é apenas o mais óbvio. Mas todo fascismo usa e abusa da sexualidade reprimida das classes populares. O homossexualismo que não pode ser admitido em si mesmo é canalizado em selvagem agressão externa e o ódio a mulher percebida como ameaça incitam a uma agressiva regressão a padrões primitivos de relações de gênero. O pobre não é apenas pobre. Ele é humilhado e dominado por valores construídos para subjuga-lo. Isso confere ao fascismo enorme capilaridade e contamina a vida familiar e relações de vizinhança em todos os níveis da sociabilidade popular. 
O líder fascista sem discurso e sem argumentos é o profeta exemplar perfeito das massas destituídas em todas as dimensões da vida. Sem organização hierárquica como os nazistas alemães, o nosso é um fascismo miliciano, capilarizado e sem controle. O que é necessário explicar ao povo de modo compreensível é porque ele ficou mais pobre. Sem isso se pavimenta o caminho ao ódio irreversível.