Do Canal Doxa e Episteme:
sábado, 15 de fevereiro de 2025
O Brasil dos Humilhados e a Linha Insivisível da divisão social brasileira segundo Jessé Souza
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
Donald Trump e a destruição da hipocrisia americana, por Jessé Souza
Talvez não exista país no mundo mais servil e com mentalidade de escravo do que o Brasil
Do ICL Notícias:
Toda forma de dominação social e política precisa combinar violência física e simbólica. Como a violência física é um ataque explícito à dignidade das pessoas, o domínio pela violência física tende a operar e produzir seus efeitos em períodos limitados, agindo, normalmente, como recurso de última instância e ameaça potencial. Isso significa que o domínio, ao longo do tempo, tem que ser assegurado de outra maneira, por meio de uma “violência simbólica”, ou seja, àquela que conta com a conivência do oprimido que passa a se ver como inferior e a admirar o dominador.
A história do imperialismo europeu é uma excelente ilustração do que estamos dizendo. Tanto o imperialismo clássico francês ou inglês usavam o expediente simbólico ao lado da agressão física para oprimir povos colonizados. Eram utilizadas clivagens tribais e raciais de modo a cooptar, por exemplo, os segmentos “mais claros” contra os mais escuros de países africanos ou asiáticos sacralizando socialmente a hierarquia da supremacia branca. De resto, a oposição entre civilização, representada pelos europeus, e barbárie, representada pelos outros povos, terminava convencendo também muitos nativos — especialmente os educados na cultura europeia — de culturas oprimidas.
No entanto, foram os Estados Unidos que privilegiaram o uso da violência simbólica como arma cultural criando o imperialismo “soft” (suave) americano. A partir da Segunda Guerra Mundial, a vitória contra a tirania sem disfarces, que havia sido ganha antes de tudo pela União Soviética, mas que Hollywood transformou em triunfo americano, permitiu que os EUA pudessem ser vistos como uma potência benigna, amiga da liberdade e da autodeterminação dos povos.
Isso induziu os americanos a perceberem que o domínio global poderia ser conseguido mais facilmente se eles abdicassem, pelo menos em condições normais, do domínio militar e político explícito em favor da violência simbólica. É muito mais eficiente deixar uma elite nativa e do “atraso”, como a nossa, comandar e assaltar o país em nome dos interesses americanos.
Para isso é necessário usar o prestígio científico como arma de dominação. A “ciência americana”, comandada por Talcott Parsons, o intelectual americano mais influente, criou a ideia do “excepcionalismo americano” que permitiu ver a riqueza dos Estados Unidos como advinda não do saque e da força militar, mas de sua colonização protestante ascética tida como supostamente empreendedora, honesta e voltada ao bem comum. Essa bobagem foi retirada da interpretação abstrusa que Parsons fez da famosa tese weberiana sobre o espírito protestante, mas o mundo todo acreditou nela, inclusive os vira-latas de todas as latitudes.
Cerca de 90% de nossa ciência política, por exemplo, foi contaminada por este lixo e ainda é até hoje. A influência da ciência em si é muito importante porque ela constrói o paradigma de pensamento e interpretação dos fatos que vai prevalecer para dominados e dominantes. As universidades do mundo inteiro, que vão formar todas as elites dirigentes em todos os lugares, foram contaminadas por estas ideias envenenadas.
Mas foi a transformação dessas ideias em filmes, séries, livros e todas as mercadorias simbólicas da indústria cultural, com Hollywood à frente, que logrou internalizar dentro dos povos oprimidos o preconceito criado para oprimi-lo e roubar sua inteligência. Não é à toa que todos os criminosos nos filmes e séries americanas são mexicanos ou latino-americanos, quase sempre se opondo à honestidade do policial e do cidadão americano em geral. A corrupção, como sempre, passa a ser a arma principal desse ataque. Toda a indústria cultural vai opor a honestidade supostamente inata dos americanos às sociedades tidas como essencialmente corruptas do Sul Global: América Latina, África e Ásia, afinal quem é corrupto tem sua humanidade negada, e podem e até “devem” ser comandados e explorados pelos honestos e inteligentes.
Talvez não exista país no mundo mais servil e com mentalidade de escravo do que o Brasil e os brasileiros em relação aos Estados Unidos. O golpe de 2016 mostra isso ao lado de outros milhares de exemplos possíveis. Só um povo imbecilizado e servil pode aplaudir a entrega da Petrobrás, por exemplo, aos estrangeiros, dado que nossos políticos seriam corruptos e os americanos seriam tão honestos, bonitos e inteligentes. Agora temos as redes sociais, todas empresas privadas americanas mancomunadas com os interesses de Estado americano, que permite manipular as emoções e fragilidades dos oprimidos ao ponto de criar o “patriotário” bolsonarista que somos obrigados a testemunhar.
Os recentes episódios com os brasileiros algemados e maltratados pelas autoridades americanas mostram um outro país. Um país que quer ser conhecido e temido, agora, pela truculência. É uma mudança radical do imperialismo americano nesta sua fase terminal. Como diria Gramsci, é neste lusco-fusco que os monstros aparecem. Alguns podem comemorar o fim da hipocrisia americana de quase cem anos. O risco, no entanto, é termos saudade dessa hipocrisia que preferia mandar Brad Pitt e Marilyn Monroe, junto com os seus estereótipos envenenados, no lugar de armas e deportações humilhantes. E a nova fase está só no começo. Quem sabe o que ainda vai vir por aí?
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
O manipulado pobre de direita nos Estados Unidos, Brasil e no mundo, por Jessé Souza, Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA
"O Coringa do filme famoso, ou seja, na sua primeira versão, espelhava exatamente este desalento e a raiva sem direção que ela provoca. O sentimento originário da extrema direita é a desorientação de não se saber quem ou o que causa o sofrimento. Se não há direção, se nunca se identifica os reais causadores da pobreza, então a extrema direita entra realizando o seu trabalho de canalizar a raiva sem explicação de modo a criar um estado de guerra entre os pobres."
Do ICL Notícias:
Jamil Chade fez uma reportagem muito interessante há poucos dias sobre uma fila quilométrica de milhares de pessoas nos Estados Unidos. Davam voltas em vários quarteirões, querendo uma vaga dos poucos empregos oferecidos por uma empresa. Cada um tinha um formulário preenchido e ficaram horas em pé na espera. Para Jamil, são muito prováveis eleitores de Trump, no que eu acredito também. O trabalhador médio americano tem seu salário estagnado há 50 anos. Se reclamar, outros ocupam o seu lugar.
O Coringa do filme famoso, ou seja, na sua primeira versão, espelhava exatamente este desalento e a raiva sem direção que ela provoca. O sentimento originário da extrema direita é a desorientação de não se saber quem ou o que causa o sofrimento. Se não há direção, se nunca se identifica os reais causadores da pobreza, então a extrema direita entra realizando o seu trabalho de canalizar a raiva sem explicação de modo a criar um estado de guerra entre os pobres.
A questão principal aqui é como compreender essa opção de pessoas e partidos de elite pelos pobres? O ponto principal aqui é a desinformação que acompanha a privatização da mídia e das redes sociais no mundo todo.
A mídia não explica como e por quem essas pessoas são oprimidas e humilhadas. Sem saber o que causa seu sofrimento, as pessoas podem ser abusadas na sua vulnerabilidade pelo apelo da extrema direita que é o de basicamente apontar como causa da pobreza grupos já estigmatizados e ainda mais vulneráveis por conta disso. Os bodes expiatórios são muitos e todos intercambiáveis, dependendo do contexto e momento. Podem ser mexicanos ou muçulmanos nos Estado Unidos, assim como o nordestino, tido como preguiçoso, e o negro, visto como bandido no Brasil.
Paralelamente, para fazer a tragédia grande, os sindicatos foram enfraquecidos e não podem mais manter o contraponto de uma visão específica para os de baixo da escala social. Sem isso, a mídia e redes sociais movidas pelo dinheiro fazem a festa. Também falta um mínimo de inteligência e imaginação política aos partidos do campo democrático. A reação ao discurso dominante é praticamente nula. E este é o quadro muito especialmente nos Estados Unidos e Brasil, países de empobrecimento visível dos grupos marginalizados como os negros e os marginalizados.
Na Europa, a tradição social-democrata é mais forte e você não tem partidos defendendo a demagogia de um Pablo Marçal e dizendo que tudo depende do empenho individual. O que distingue um partido como o linke na Alemanha, mais à esquerda, e o partido nazista, o AFD, é a questão da imigração, mas se protege do mesmo modo nos dois casos os ganhos do trabalhador médio. Também não tem a influência nefasta da religiosidade neopentecostal.
Este é ponto central aqui: a singularidade da extrema direita americana e brasileira é muito parecida e tem a ver com empobrecimento não compreendido nas suas causas. Aí entra o racismo, por meio de suas máscaras, para transformar o negro em criminoso e o nordestino em aproveitador, como explicação espontânea do mundo social para quem não tem outra explicação. O “mapa racial” vem ocupar este lugar vazio. Outra similaridade fundamental com a política americana. Por conta disso, as extremas direitas que mais se parecem são a americana e a brasileira. Não por acaso existe até similitude nos casos de tentativa de golpe de Estado.
SAIBA MAIS:
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
domingo, 6 de dezembro de 2020
Sociólogo Jessé Souza e o Engenheiro Eduardo Moreira discutem sobre a Gestapo do atual estado brasileiro de exceção com a lista dos "Detratores" de Guedes e Bolsonaro
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Fracassamos como Nação? Para Jessé Souza, apesar do obscurantismo bolsonarista-militarista atual, há espaço para o otimismo quanto ao futuro
sábado, 7 de março de 2020
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Jessé Souza sobre como funciona o Imperialismo Americano contra o Brasil com o uso de tipos como Bolsonaro
A guerra contra o Brasil: como funciona o imperialismo americano
Categoria
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Jessé Souza: Sérgio Moro é o general da guerra híbrida americana contra o Brasil
Categoria
domingo, 20 de outubro de 2019
A justiça tarda por vezes demais, mas na História não falha: o julgamento social da Lava Jato, por Jessé Souza
O professor e sociólogo Jessé Souza fala sobre o julgamento social que a Lava Jato tem passado. Fala sobre a imensa contradição existente no processo, já que a Lava Jato foi, por muito tempo, o meio pelo qual acreditávamos que a justiça seria feita, no entanto, hoje é ela que se encontra no banco dos réus.
A leitura política do sociólogo Jessé Souza do filme Coringa (Joker), de Todd Phillips, com Joaquim Phoenix e Robert De Niro
"Em mais um vídeo imperdível, o professor Jessé Souza faz uma leitura política sobre um dos filmes mais comentados do momento: Joker (Coringa). Com uma profunda significação política e extremamente representativo sobre o momento que o Brasil e os Estados Unidos passam na atualidade, ao romper com os estereótipos e fugir de uma visão maniqueísta proposta pelos filmes de super-heróis, Joker vem para causar um desconforto em nós, fazendo com que nosso olhar se volte para algo além das nossas próprias realidades. "ATENÇÃO: SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU O FILME, CUIDADO: ESSA ANÁLISE CONTÉM SPOLEIRS!"
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Por que Moro ainda não caiu? Por Jessé Souza

Por que Moro ainda não caiu?
por Jessé Souza
em seu site
sexta-feira, 14 de junho de 2019
Jessé de Souza sobre o desespero dos golpistas representado pelo chilique do general entreguista e a revolução causada pelas revelações do The Intercept e o falso moralismo da elite conservadora...
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Jessé Souza: A grande mídia, em conluio com a Casa Grande os os velhos políticos e Mercado Financeiro, é o câncer da Democracia Brasileira
terça-feira, 28 de maio de 2019
Jessé Souza: Bolsonaro, sua loucura e sua idiotice são a expressão perfeita do ódio racial brasileiro
"Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo “racial” entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios."

Jessé Souza
segunda-feira, 20 de maio de 2019
Jessé Souza, em vídeo, analisando o desastre e o ridículo do Governo Bolsonaro
sábado, 18 de maio de 2019
Jessé Souza discute, em vídeo, a onda destrutiva fascista-bolsonarista-militarista-olavista na Educação e o início da reação contra Bolsonaro por parte dos Estudantes
Do Canal do Sociólogo Jessé Souza sobre a Elite destrutiva e seu presidente ridículo:
O sociólogo Jessé Souza faz uma avaliação pontual sobre as manifestações que varreram o Brasil da data de ontem, 15 de maio. Professores e universitários de todo o país foram às ruas contra os cortes de 30% do orçamento, promovidos pelo governo Bolsonaro.
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Jessé Souza: “A Lava Jato é o câncer da democracia brasileira. Desde 2014 vem cometendo arbitrariedades”
A Lava Jato é o câncer da democracia brasileira. Desde 2014 vem cometendo arbitrariedades, manipulando o moralismo postiço do público, chantageando a política e entregando o Brasil para ocupar o poder em benefício próprio. Canalhas!
sábado, 13 de outubro de 2018
Entendendo, com o sociólogo Jessé Souza, a ascenção do Nazifascismo (forma do velho ódio contra as minorias) no Brasil
"Todo fascismo é reflexo de uma luta de classes truncada, percebida de modo distorcido e por conta disso violento e irracional no seu cerne. A elite e a alta classe média haviam, com sucesso, legitimado a opressão das classes populares pelo moralismo seletivo da corrupção apenas do Estado e da política como forma de criminalizar a soberania popular. (...) O ódio ao escravo se transformou simplesmente em ódio ao pobre. O escravo negro é eternizado nas massas majoritariamente mestiças com escolaridade precária condenadas ao trabalho desqualificado e semiqualificado. Esta é a base primeira de todo o ódio e ressentimento reprimido e recalcado que é o núcleo da sociedade brasileira." - Jessé Souza
Do GGN:
Todo fascismo é reflexo de uma luta de classes truncada, percebida de modo distorcido e por conta disso violento e irracional no seu cerne. A elite e a alta classe média haviam, com sucesso, legitimado a opressão das classes populares pelo moralismo seletivo da corrupção apenas do Estado e da política como forma de criminalizar a soberania popular. Os “belgas”, que se vem como estrangeiros na própria terra, oprimiram o “Congo”, ou seja, o próprio povo, e o reduziram á pobreza e á ignorância. O ódio ao escravo se transformou simplesmente em ódio ao pobre. O escravo negro é eternizado nas massas majoritariamente mestiças com escolaridade precária condenadas ao trabalho desqualificado e semiqualificado. Esta é a base primeira de todo o ódio e ressentimento reprimido e recalcado que é o núcleo da sociedade brasileira. O fascismo implícito sempre foi o DNA da opressão de classes entre nós. O que tem que ser explicado, portanto, é como ele contaminou as próprias classes populares.


