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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O colapso do Bolsonaro, os militares a ilegitimidade do regime, por Jeferson Miola


Do Contexto Livre:



Em “Era bolsonarista pode terminar antes de começar”, de 10/12/2018 [ler aqui], dissemos que “Escândalos, incompetências e riscos ao país são motivos que alimentam as conjecturas sobre o encurtamento do prazo de validade do Bolsonaro”.

Concluímos o artigo sustentando que “A era bolsonarista poderá acabar antes de iniciar. O general Mourão já admitiu que, ‘na hipótese de anarquia, pode haver autogolpe do presidente com apoio das FFAA’”.

O que no início de dezembro passado era uma hipótese plausível afigura-se como uma tendência realista, decorridos 40 dias. Doravante, pelo tempo que os militares decidirem manter Bolsonaro no cargo, ele será um zumbi político sem autoridade política e institucional.

A descoberta das falcatruas da família na política e no submundo miliciano do Rio de Janeiro ganharam força inercial, e os Bolsonaro já não conseguem deter a exposição dos escândalos nos quais, suspeita-se, estejam implicados.

Moro, Deltan e a Lava Jato, apesar da larga expertise em vazamentos seletivos contra os inimigos e na contenção de vazamentos prejudiciais aos amigos, já não conseguem abafar as ilicitudes do clã, mesmo que o super-ministro da Justiça tenha o COAF sob seu controle e mantenha articulações orgânicas com setores bolsonarizados do judiciário, do MP, da PF e da mídia.

No “Xadrez do fim do governo Bolsonaro”, o jornalista Luis Nassif oferece um panorama dos negócios dos Bolsonaro, a associação deles com esquemas escabrosos do RJ e com outros escândalos que poderão ser revelados em investigações sérias e independentes e que têm enorme potencial de abreviar a vida do governo [ler aqui].

O Globo detonou uma bomba que não poderia ser mais aterradora para os Bolsonaro: revelou dados do COAF que mostram que Queiroz movimentou atipicamente não “apenas” R$ 1,2 milhão em 1 ano, mas R$ 7 milhões em 3 anos em transações típicas de lavagem de dinheiro [ler aqui].

Queiroz integra o círculo íntimo da família há quase 3 décadas, o que indica que o montante de dinheiro ilícito transacionado e os ilícitos cometidos em todo esse período deve ser muito maior, realidade que poderá reverberar ainda mais o escândalo.

A bajulação de Luiz Fux, o vice-presidente do STF que fabricou uma decisão teratológica e sob medida para safar o filho presidencial Flávio, acabou produzindo o efeito contrário, exponenciando a desmoralização da família presidencial e dele próprio, Fux.

Afora o escândalo familiar, em 3 semanas o governo revelou-se uma usina de absurdos, desatinos, incompetências e atrapalhações protagonizadas pelos ministros civis. Damares, Ricardo Salles, Vélez Rodriguez, Onyx, Ernesto Araújo etc [ler aqui] propiciaram momentos não menos que ridículos, para não dizer escatológicos.

Dos ministros civis responsáveis pelas áreas governamentais mais relevantes, por enquanto Teresa Cristina, Sérgio Moro e Paulo Guedes não caíram na fritura militar. Por sinal, as áreas mais estratégicas.

A colonização do governo por militares – 45 oficiais de altas patentes ocupam ministérios centrais e funções-chave de 21 áreas – é sintoma do poder de mando e da influência técnica, gerencial, política e ideológica das Forças Armadas no aparelho de Estado.

Os militares conhecem as imensas debilidades do Bolsonaro, e têm consciência dos limites do governo. Por isso assumiram a gestão de áreas prioritárias para preservar a imagem pública das FFAA diante dos riscos de colapso governamental.

É sintomático que generais se reúnam mais com empresários, representações sociais, agentes políticos, embaixadores de outros países e representantes de organismos internacionais – ou seja, que governem de fato – que os ministros das Pastas aos quais corresponderia cumprir agendas específicas.

O silêncio e a discrição dos militares ante o caos instalado não significa indiferença ou desatenção, mas observação e acompanhamento atento da conjuntura.

Embora sejam os maiores fiadores do Bolsonaro, os militares agem como árbitros, não como parte da crise. Eles não hesitarão, por isso, em assumir as rédeas do jogo para deter o desastre político, econômico e institucional derivado do colapso do governo.

O impeachment seria um remédio prescrito na Constituição, mas isso não garante que possa ser a primeira escolha do regime de exceção.

O vice-presidente general Mourão, por exemplo, em setembro de 2017 defendeu que

“ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso [a intervenção militar]. […]. Se [os Poderes constitucionais] não conseguirem, né, chegará a hora que nós teremos que impor uma solução. E essa imposição ela não será fácil, ele trará problemas, podem ter certeza disso aí” [ler aqui].

Já no período eleitoral, em setembro de 2018, em entrevista na Globo News [ler aqui], Mourão explicitou defender um “autogolpe”, se “necessário” para conter a “anarquia”:
“Mourão: As Forças Armadas têm responsabilidade de garantir que o país se mantenha em funcionamento. Cruzamos os braços e deixamos que o país afunde?

Cristiana: A política não tem como mediar isso?

Mourão: Se a política não estivesse mediando. Olha a situação que eu estou colocando, Cristiana, é o momento em que a anarquia toma conta do país. Não está acontecendo.

Cristiana: Mas em qualquer hipótese, uma intervenção é …

Merval: Quem é que vai decidir que a situação está de anarquia nesse limite que o senhor está colocando?

Mourão: Para isso que existe comandante, né? O comandante teria que decidir, não seria a iniciativa…

Merval: Mas o comandante quem? O presidente da República?

Mourão: O próprio presidente é o comandante-chefe das Forças Armadas, ele pode decidir isso. Ele pode decidir empregar as Forças Armadas. Aí você pode dizer: ‘mas isso é um autogolpe’.

Merval: É, é um autogolpe.

Mourão: É um autogolpe, você pode dizer isso.

Cristiana: Mas o congresso que tem que decidir…

Mourão: É um autogolpe também.

Merval: O senhor admite a possibilidade teórica de haver um autogolpe?

Mourão: Já houve em outros países, né? Aqui nunca houve”.
A solução militar defendida pelo general Mourão não está prevista na Constituição. Isso não significa, contudo, que não possa ser empregada, porque o país está sob a vigência do regime de exceção e a presidência do STF está tutelada pelos militares.

A eleição da chapa Bolsonaro/Mourão transcorreu num ambiente de fraude que foi tolerada pelo TSE e STF.

Não foi uma eleição limpa e livre. Houve manipulação com injúrias e notícias falsas, financiamento milionário da fraude do WhatsApp com dinheiro de caixa 2 por empresários corruptos, e proibição ilegal da candidatura do candidato favorito, Lula.

Esta realidade atesta a ilegitimidade do golpe, do regime de exceção e do atual governo.

A velocidade vertiginosa dos acontecimentos não permite a interpretação da realidade em tempo real. É preciso, nesse momento, confiar que os militares possam agir como corresponde, ou seja, devolvendo a soberania deliberativa ao povo.

Se prevalecer a visão do vice-presidente Mourão, o Brasil ficará ameaçado de sofrer mais um golpe dentro do golpe. É fundamental, nesse sentido, resistir à imposição de uma solução militar que, se implementada, poderá evoluir para uma ditadura – opção que, infelizmente, está no horizonte de certos setores dos estamentos militares e judiciais.

Não se deve esquecer que o poder militar hegemônico hoje é exercido pelos setores mais especializados da contra-insurgência das FFAA, ou seja, pelo militarismo de cultura e temperamento repressivo, treinado a combater e reprimir insurgências e inimigos.

São segmentos militares que, por formação, criminalizam e combatem com violência e repressão o conflito social legítimo existente em toda sociedade de classes.

É importante lembrar que os comandantes militares que dirigem o governo foram treinados e aperfeiçoados em missões internacionais contra-insurgentes, de enfrentamento de crise humanitária [Haiti] e de atuação em guerra civil [Congo].

A saída para a crise brasileira está na democracia, não na ditadura. A saída mais correta para o impasse criado pela própria classe dominante, nessa perspectiva, está na convocação de eleição livre, limpa e soberana.

O Brasil precisa se reencontrar com a democracia, com o desenvolvimento, com o emprego, com a liberdade, com o respeito e com a paz entre seus irmãos.

Jeferson Miola



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Do El País: Por que figuras folclóricas, medíocres e violentas como Bolsonaro acabam desafiando a razão e a inteligência?






"Precisamos nos perguntar por que o político brasileiro poderia, hoje, como no passado Hitler, Mussolini ou o caudilho Franco, chegar ao poder, até mesmo pelas urnas, apesar de serem figuras folclóricas, inexpressivas e com biografias insignificantes. Precisamos nos perguntar o que os tornou protagonistas e inimigos da democracia e da liberdade." - Juan Arias


Do El País:



O capitão reformado Jair Messias Bolsonaro, de extrema direita, com ideias fascistas, que discrimina as minorias, denigre as mulheres, exalta a tortura e defende a violência, lidera as intenções de voto nas eleições presidenciais no Brasil, uma das maiores democracias do mundo. Isso deveria obrigar os demais políticos a se fazerem algumas perguntas incômodas.
Precisamos nos perguntar por que o político brasileiro poderia, hoje, como no passado Hitler, Mussolini ou o caudilho Franco, chegar ao poder, até mesmo pelas urnas, apesar de serem figuras folclóricas, inexpressivas e com biografias insignificantes. Precisamos nos perguntar o que os tornou protagonistas e inimigos da democracia e da liberdade. Descobriríamos que todos eles, a começar pelo capitão brasileiro, mais do que os valores que defendem, são o fruto dos erros dos que os precederam.
Por trás desses personagens, que estão mais para figuras do teatro do absurdo do que para guias mundiais e estadistas de alto nível, está a deterioração de uma classe política e de uma sociedade na qual as pessoas perderam a confiança nos valores da democracia e da liberdade. E nesses casos é forte a tentação, sobretudo dos mais desesperados, de cair nas mãos de caudilhos iluminados, messias religiosos e salvadores da pátria.
Há traços comuns nesses personagens, banais, mas perigosos para a democracia, que os unem numa espécie de destino curioso e fatal. Um deles é um desejo quase psicanalítico de superar sua mediocridade com a força de um messianismo que os resgate de sua pequenez e que, levado ao paroxismo, de repente os transforme em heróis e garantidores de uma sociedade que se sente ameaçada.
Não por acaso, em Bolsonaro e nos outros ditadores aparece sempre um conflito religioso que acaba sendo resolvido a serviço de sua divinização, de escolhidos pelos deuses para sua missão. Todos eles haviam tido antes uma relação conflituosa com a religião que acabaram instrumentalizando para fortalecer seu poder. Hitler foi ao mesmo tempo cristão e ateu, defensor e perseguidor da fé, conforme sua conveniência. Mussolini era filho de um socialista ateu convicto e de uma mãe religiosa, e terminou, por interesse, tornando-se católico e defendendo a Igreja e o Vaticano.
O ditador Franco foi outro personagem ambivalente com a religião, que acabou usando – e abusando– para manter seu poder. Ele foi o grande abençoado pelos papas e saía em procissão sob ornamentos religiosos, acompanhado de bispos e cardeais. E hoje, no Brasil, Bolsonaro, que tem formação católica, está nas mãos das poderosas igrejas evangélicas nas quais foi batizado novamente e que o apoiam nas eleições. E seu lema é "Deus acima de tudo". E foi Deus, segundo ele, que milagrosamente o salvou do ataque sofrido durante a campanha, que o deixou à beira da morte.
Todos esses personagens medíocres que acabaram surpreendendo o mundo com a força de sua violência aparecem em suas biografias como artistas malsucedidos ou militares fracassados com sede de superação para exorcizar suas fraquezas. Hitler queria, e não conseguiu, ser um grande pintor, assim como o ditador espanhol. E hoje Bolsonaro, que aparece como o grande ex-militar capaz de redimir o Brasil de seus demônios do comunismo e dos destruidores da família e dos bons costumes, era um paraquedista sem brilho, demitido do Exército por sua conduta.
O deificado estrategista militar Franco, que levou a Espanha a uma sangrenta guerra civil e a 40 anos de ditadura e terror policial, que estudou em uma escola religiosa, era chamado por seus colegas da Academia de Toledo – dizem seus biógrafos – de "Franquito", por ser pequeno, miúdo, fraco e ter voz afeminada. Chegou-se a pensar em lhe dar uma arma de cano curto, um mosquetão, em vez do pesado rifle do regulamento. A vingança de Franco por sua mediocridade juvenil é conhecida por seu mais de um milhão de mortos nas costas e seu hábito de anotar em uma folha de papel, enquanto tomava café, aqueles que deveriam ser fuzilados, desenhando uma flor sobre cada nome destinado à morte.
Bolsonaro foi um dos políticos brasileiros mais insignificantes em 27 anos como deputado federal, durante os quais, sem conseguir aprovar sequer uma única lei importante, se distinguiu apenas por suas bravatas e insultos a mulheres e gays, e sua defesa dos valores mais retrógrados da sociedade.
Na manifestação em favor de sua candidatura em São Paulo, um de seus filhos ofendeu as mulheres quando disse que as da direita são "mais bonitas e limpas" do que as da esquerda, que até "defecam na rua". Mussolini, um dos fundadores do fascismo mundial, que alardeava suas aventuras sexuais, tinha um conceito menos higienista nessa questão. Contava, sem pudor, que preferia, quando desfrutava das mulheres, que fossem "cabeludas e não muito limpas" (La Caída de Mussolini, Ed. Planet, Barcelona). Também entre ditadores costuma haver uma estranha criatividade sexual e uma alergia e até mesmo desprezo, quando não perseguição, por tudo que não for macho e fêmea em estado puro. As políticas de gênero e sua riqueza humana e sexual tendem a ser ignoradas, e até a irritar aqueles líderes e salvadores da moralidade e da religião.
No entanto, permanece sem resposta, como no caso do capitão brasileiro, quem foram os verdadeiros responsáveis que lhes permitiram crescer e ganhar eleições que mais tarde desprezariam para dar lugar ao totalitarismo. Há um dito dos romanos que poderia nos ajudar a decifrar esse enigma que hoje atormenta o Brasil com Bolsonaro: "Corruptio optimi, pessima", isto é, "a pior corrupção é a dos melhores". E um mais moderno, que se escuta em alguns países da América Latina: "Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito por eles". É essa corrupção de quem deveria ter zelado pelos valores da civilização e da democracia que acaba gerando os monstros e fantasmas que hoje atormentam quem não abandonou os valores da democracia. Esses valores foram o sustentáculo das grandes civilizações do passado e de todas as lutas contra a barbárie.
Que o Brasil saiba escolher desta vez, com as armas da democracia e a aposta na liberdade, para não reescrever as páginas trágicas de um passado que sua maturidade democrática parecia ter sabido superar e exorcizado para sempre.



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

E se Bolsonaro ganha, Mourão governa?, por Fábio de Oliveira Ribeiro




  "Em 2018, o Brasil está sendo sacudido por uma disputa entre civilização e barbárie. Mas no polo da barbárie a disputa interna é crescente e evidente. A relação entre Mourão e Bolsonaro não é e nunca será tranquila, harmoniosa e produtiva como foi aquela que existiu entre Lula e José Alencar. Caso ambos sejam eleitos, se o capitão não se curvar ao general as coisas irão se complicar. Mourão já está deixando bem claro que pretende ser o verdadeiro “chefe de governo”, algo que inevitavelmente rebaixaria o novo presidente ao papel decorativo de “chefe de Estado”."



Bolsonaro ganha, Mourão governa?, por Fábio de Oliveira Ribeiro
A incontinência verbal do general vice já se tornou um problema para Bolsonaro. Cada vez que Mourão abre a boca ele enfia uma facada na própria candidatura e um prego no caixão eleitoral que está fabricando para o colega de chapa.
Acostumado a lidar com subalternos num ambiente hierarquizado, Mourão fala o que quer onde bem entende. Ele age como se estivesse num Quartel e presume que deve ser obedecido. Os descontentes têm, no máximo, o direito de ficar quietos e acatar suas determinações como ordens válidas e irrevogáveis.
Bolsonaro pediu para ele moderar, mas ele obviamente não obedeceu ao comando do líder da chapa. Onde já se viu um general abaixar a crista para capitão? 
Entre os militares as reclamações sobem e as ordens descem. O inverso não pode ocorrer, pois um comandante que se sujeita aos comandados, ou não disciplina a tropa, perde o comando dela. A inversão da hierarquia não se coaduna com a mentalidade militar. Mourão não é José Alencar.
O vice de Lula era um grande empresário e tinha, portanto, uma condição social melhor do que o líder petista. Mas ele não tinha uma mentalidade rígida. Ao contrário de Mourão, Alencar não viveu décadas confinado num ambiente social fechado em que a hierarquia e a disciplina são mais importantes do que as qualidades inatas ou adquiridas que distinguem e devem estabelecer precedências entre os lideres políticas.
José Alencar aceitava voluntariamente a liderança de Lula. Ao fazer isso, ele foi um vice-presidente brilhante e pode colocar toda sua experiência de empresário a serviço de um projeto de Brasil que deu certo. O vice de Lula pode ser considerado um dos responsáveis pelo crescimento acelerado do Brasil durante o Milagrinho.
Homem reservado e autoconfiante, José Alencar nunca exigiu homenagens públicas exageradas. Mesmo assim, Lula nunca deixou de retribuir e premiar a modéstia e a eficiência do vice diante das câmeras de TV. Mourão é diferente. Desde o momento que trocou a farda pela passarela da política, o general vice demonstrou que gosta de salamaleques e que se considera o verdadeiro comandante da tropa que levará Bolsonaro à presidência. Tanto que ele chegou a requerer na Justiça o direito de substituir o candidato a presidente nos debates televisivos.
Em 2018, o Brasil está sendo sacudido por uma disputa entre civilização e barbárie. Mas no polo da barbárie a disputa interna é crescente e evidente. A relação entre Mourão e Bolsonaro não é e nunca será tranquila, harmoniosa e produtiva como foi aquela que existiu entre Lula e José Alencar. Caso ambos sejam eleitos, se o capitão não se curvar ao general as coisas irão se complicar. Mourão já está deixando bem claro que pretende ser o verdadeiro “chefe de governo”, algo que inevitavelmente rebaixaria o novo presidente ao papel decorativo de “chefe de Estado”.
Bolsonaro aceitará ser subalterno do general vice? Até o presente momento o candidato tem dado a entender que não. Mas em algum momento ele pode se resignar, bater continência e dizer: “Sim senhor, general; o senhor manda”. Quando isso ocorrer o regime presidencial brasileiro deixará de existir, mas nós não estaremos vivendo num parlamentarismo.
O perigo da eleição da chapa Bolsonaro/Mourão, portanto, não é apenas econômico. As disputas entre ambos podem acelerar o processo de degradação do sistema constitucional erigido em 1988. O povo será definitivamente colocado para fora do cenário político. A predominância do ego do vice sobre o ego do presidente irá dar origem a uma nova forma de (de)governo muito diferente daquela que foi aprovada pelo povo no plebiscito de 1993. Não só isso.
Caso venha ocorrer uma ruptura entre Mourão e Bolsonaro após a vitória eleitoral, o general vice sempre terá precedência ao presidente. Afinal, quando os generais se reunirem para decidir o que fazer Mourão poderá falará com eles de igual para igual enquanto o Bolsonaro será sempre considerado um oficial subalterno descartável.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

As movimentações do Partido da Guerra na campanha eleitoral, por Rogério Mattos



  "Líderes do partido da guerra (ou neocons) se movimentam na Europa, com Theresa May, e nos EUA, para forçar uma massiva ação da OTAN na Síria (mais contundente que a de abril deste ano) e a legitimação do "Russiangate", campanha no seio da qual nasceu o termo "fake news". A guerra total que vivemos hoje pode ou não ser nuclear. Depende de como os dados sejam lançados. Nesse sentido, as eleições de 2018 nos EUA são tão importantes como serão as daqui do Brasil. Um marco para o bem ou para o mal pode ser estabelecido."

Do GGN:


Imagem ilustrativa do New York Times para o artigo anônimo de um suposto membro do governo de Donald Trump
As movimentações do Partido da Guerra na campanha eleitoral
por Rogério Mattos

Líderes do partido da guerra (ou neocons) se movimentam na Europa, com Theresa May, e nos EUA, para forçar uma massiva ação da OTAN na Síria (mais contundente que a de abril deste ano) e a legitimação do "Russiangate", campanha no seio da qual nasceu o termo "fake news". A guerra total que vivemos hoje pode ou não ser nuclear. Depende de como os dados sejam lançados. Nesse sentido, as eleições de 2018 nos EUA são tão importantes como serão as daqui do Brasil. Um marco para o bem ou para o mal pode ser estabelecido. As campanhas difamatórias começaram com toda a força por lá, enquanto por aqui continuamos a viver momentos dramáticos.

A artimanha britânica


Em cinco de setembro, Theresa May declarou guerra a Rússia, acusando o país de diversos ataques terroristas no mundo, na esteira do suposto ataque químico a família Skripal dentro do solo britânico. O governo britânico também supostamente prendeu agentes russos da DCI (Departamento Central de Inteligência) por causa desse incidente, porém só mostrou fichas onde contém seus codinomes. Até a Scotland Yard duvidou que esses agentes de fato existam. Como relatou a Executive Intelligence Review (link acima), "O assistente da Presidência russa, Yuri Ushakov, respondeu: 'Nós ouvimos e vimos que dois nomes foram dados, mas esses nomes não significam nada para mim pessoalmente, assim como isso não significa nada para você, eu acho'. Ele observou que a Scotland Yard admitiu em uma declaração que esses nomes foram inventados. 'Eu não entendo porque eles fizeram isso e quais são os sinais que o lado britânico está enviando. É difícil entender'".
Enquanto isso, a Rússia apresentou relatórios da OPAQ (Organização para a Proibição de Armas Químicas) e da ONU sobre o possível ataque químico em Idlib. Theresa May, por seu lado, disse que se houver esse ataque (provavelmente provocado pela assessoria de imprensa dos White Helmets, financiada pelo MI6 britânico como relatamos aqui) uma ação militar de larga envergadura será deslanchada contra os russos. De um lado, a Rússia tenta advertir com relatórios de organismos internacionais, sobre possíveis ataques que depois seriam atribuídos aos governo de Assad. De outro, May considera que, baseada apenas em suas convicções, qualquer ataque químico só poderá vir da parte de seus inimigos e os ameaça. Claro, nenhuma menção ela poderia fazer do conluio do MI6 com os White Helmets.

O aviso estrangeiro e a infame campanha do New York Times

Em um artigo de opinião, sem precedentes, escrito com palavras francas e diretas, que foi publicado em 3 de setembro pela versão alemã do RT, o ex-assistente do ministro da defesa alemão, Willy Wimmer (da União Democrata Cristã da Alemanha) alertou sobre qual poderia ser a situação no mundo no dia seguinte às eleições nos Estados Unidos em 6 de novembro, em que os opositores do presidente Trump ganhariam cadeiras suficientes para tirá-lo do cargo. Isso, diz Wimmer, seria o prelúdio de uma guerra nuclear contra a Rússia, o principal inimigo dos círculos identificados com os nomes de John McCain e Hillary Clinton.
"O potencial de ódio da mídia anglo-saxônica global significa que isso não será um confronto normal, nem mesmo em escalada, mas sim o caminho que leva à aniquilação do suposto inimigo da coalizão militar dos EUA. Isso lhes dá uma idéia do poder do estado profundo ", diz Wimmer, embora na realidade houvesse mais "império britânico "em vez de" estado profundo ".
Os preparativos para o confronto foram seguidos diligentemente na Europa nos últimos anos, de modo que a demissão de Trump "seria a quebra da barragem de contenção que mantinha viva a frágil paz". Os obituários do falecido senador John McCain mostram "onde bate o coração dos chefes de governo europeus, e há George Soros com sua campanha contra Trump, uma campanha que agora é levada desde sua nova sede europeia, em Berlim".
Essa campanha se dá no Oriente Médio, onde acossam a presidência dos EUA para um ataque sem precedentes baseados em falsos preceitos, e teve dois capítulos importantes nos últimos dias dentro dos Estados Unidos. Um, o lançamento de um livro amplamente calunioso (Pepe Escobar é um dos que já se pronunciaram a respeito do livro como uma peça publicitária contra o governo Trump, escrito por um autor sem crédito algum dentro dos círculos internacionais de maior responsabilidade), Fear: Trump in the White House. De outro lado, um artigo infame no New York Times, anônimo, de um suposto membro do governo Trump. Como muito bem se posicionou Gleen Greenwald a respeito do texto:
"A ironia no artigo de opinião do anônimo WH do NYT é gritante e massiva: ele/ela acusa Trump de ser 'antidemocrático' enquanto se gaba de ser membro de uma cabala não eleita que secretamente impõe sua própria ideologia com zero responsabilidade democrática, mandato ou transparência".
No artigo, o anônimo acusa Trump por seu relacionamento com a Rússia e a Coreia, diz não ser parte de uma "resistência popular de esquerda", fala do temperamento instável do presidente (o que faz parte da estratégia desse setor de buscar seu impeachment a partir da 25ª ementa) e comenta, com especificidade, sua preocupação com a Rússia, exatamente como faz Theresa May:
Por exemplo, sobre a Rússia, o presidente relutou em expulsar muitos dos espiões de Putin como punição pelo envenenamento de um ex-espião russo no Reino Unido. Ele reclamou por semanas que altos membros do gabinete o deixaram preso em mais confrontos com a Rússia e expressou frustração por os Estados Unidos terem continuado a impor sanções a esse país por seu comportamento maligno. No entanto, sua equipe de segurança nacional tinha razões para fazê-lo - essas ações tiveram que ser tomadas para obrigar Moscou a prestar contas.
Acaba com um elogio fúnebre ao republicano John McCain ou McWar, colaborador de primeira hora de Hillary Clinton, Barack Obama e do chamado "Estado Profundo" - o verdadeiro partido da guerra. Com tudo isso tão explícito, já foi reconhecido também nos EUA (mais acima relatamos o testemunho do dirigente alemão) que a "mudança de regime" nos EUA tem como objetivo iniciar a guerra. Nesse sentido, as eleições de 2018 nos EUA são tão importantes como serão as daqui do Brasil. Um marco para o bem ou para o mal pode ser estabelecido. As campanhas difamatórias começaram com toda a força por lá. Por aqui, continuamos a viver momentos dramáticos.
Como o autor anônimo do artigo do NYT enfatiza, não agrada ao partido da guerra qualquer política de aproximação com a Rússia. Nesse sentido, deve ser entendido como um primeiro golpe de Estado contra Donald Trump a invenção do Russiangate, a Lava-Jato deles (cujos agentes-chave trabalham tanto nessa mentira quanto na que aqui conhecemos a partir de Curitiba). Esse primeiro golpe provocou a demissão do assessor de Trump, o general Michael Flynn, e que colocou em seu lugar o extremamente belicista John Bolton. O "deep state" fincou raízes no governo de Trump e são esses mesmos agentes, junto com seu vice-presidente, que conspiram noite e dia contra o Brasil e, principalmente, contra a Venezuela. Apesar de seus pronunciamentos exaltados, Trump é antes um homem de negócios, e de negociações, do que um general no estilo do antigo Império Romano. A luta agora é por sua cabeça. Ou ele consente (e entrega a cabeça para ser comandada) ou a cortam: esse é o grito de guerra desse segundo golpe que se avizinha junto às eleições dos próximos meses e as movimentações ao redor de Idlib.

Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Antropólogo e professor de filosofia política da UERJ discute o "julgamento" de Lula



"As democracias se orgulham de submeter os contenciosos entre seus cidadãos e as denúncias de infração à legalidade não ao arbítrio do déspota ou ao escrutínio divino, mas à Justiça. E as características decisivas dessa instituição são a laicidade, a independência e a consciência plena tanto de sua imperfeição, por humana, quanto da magnitude de seu poder, na medida em que guarda em si, virtualmente, o peso coercitivo do Estado. Exatamente por saber-se falha e demasiadamente poderosa, a Justiça modera o eventual ímpeto punitivo de seus representantes e afirma sua legitimidade no exercício prudente de seu ofício."

Do Justificando:


O julgamento de Lula

Domingo, 21 de Janeiro de 2018

O julgamento de Lula


Foto: Mauro Pimentel/AFP
Não há vida coletiva democrática sem divergências. Ocorre que, enquanto no plano intelectual ela dá lugar a conclusões, inevitavelmente parciais e provisórias, no âmbito da Justiça, ela enseja decisões que incidem sobre destinos individuais.
As democracias se orgulham de submeter os contenciosos entre seus cidadãos e as denúncias de infração à legalidade não ao arbítrio do déspota ou ao escrutínio divino, mas à Justiça. E as características decisivas dessa instituição são a laicidade, a independência e a consciência plena tanto de sua imperfeição, por humana, quanto da magnitude de seu poder, na medida em que guarda em si, virtualmente, o peso coercitivo do Estado. Exatamente por saber-se falha e demasiadamente poderosa, a Justiça modera o eventual ímpeto punitivo de seus representantes e afirma sua legitimidade no exercício prudente de seu ofício.
É por saber-se intrinsecamente falha que a Justiça multiplica suas instâncias e as oportunidades de revisão das decisões. E é sobretudo por isso que a pena de morte degrada os fundamentos da Justiça: trata-se de sentença cujos efeitos são irreversíveis, o que só seria compatível com uma Justiça infalível. Ninguém volta à vida se um erro vier a ser constatado, no futuro.
Pois é aqui que essas ponderações nos levam ao julgamento do ex-presidente Lula: minha convicção pessoal e intelectual mais profunda é que o réu é inocente do crime que lhe imputam. Mas isso não importa. O que, sim, importa, é que estamos diante de um dilema análogo ao da pena de morte. Uma eventual confirmação da condenação impactará as eleições presidenciais e, portanto, a história futura da sociedade brasileira. Não há volta na história. Temos, de um lado, as decisões de três homens (os juízes também o são e compartilham a falibilidade, que é nossa natureza); de outro, a sociedade e seu principal instrumento de poder, o voto. Não há tribunal maior que a vontade popular, no regime democrático. É por sabermo-nos falhos que reconhecemos a soberania da decisão popular. Se coubesse a mim um apelo, eu o faria à consciência dos juízes para que atentem à falibilidade humana e admitam a necessidade de que a Justiça dose seu poder e limite os efeitos de sua decisão, recusando-se a dirigir o processo político brasileiro.
Luiz Eduardo Soares é antropólogo, escritor, dramaturgo e professor de filosofia política da UERJ. Foi secretário nacional de segurança pública. Seu livro mais recente é “Rio de Janeiro; histórias de vida e morte” (Companhia das Letras, 2015).

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Psiquiatra apresentou a congressistas análise sobre saúde mental de Donald Trump


“Os congressistas disseram que ficaram muito preocupados com o perigo do presidente, o perigo que sua instabilidade mental representa à nação”, afirmou Lee à emissora americana de televisão CNN. 

Psiquiatra apresentou a congressistas análise sobre saúde mental de Trump

Conteúdo do Opera Mundi e Justificando . Foto: Drew Angerer/AFP
Um grupo de congressistas americanos, a maioria democratas, foi informado por uma professora de Psiquiatria da Universidade Yale sobre a saúde mental do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo noticiou a imprensa americana nesta quinta-feira (05/01).
A análise sobre Trump foi apresentada no início de dezembro pela psiquiatra Bandy Lee, editora do livro The Dangerous Case of Donald Trump: 27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President (O caso perigoso de Donald Trump: 27 avaliações de psiquiátricas e especialistas em saúde mental sobre um presidente).
“Os congressistas disseram que ficaram muito preocupados com o perigo do presidente, o perigo que sua instabilidade mental representa à nação”, afirmou Lee à emissora americana de televisão CNN. Eles teriam pedido que ela fale com mais legisladores sobre a saúde mental de Trump, o que deve acontecer neste mês.
Entre os congressistas que participaram do encontro havia ao menos um republicano, segundo a psiquiatra, que se recusou a revelar quem seria essa pessoa.
O parecer dado por Lee contraria as regras da Associação Americana de Psiquiatria, que determinam que psiquiatras não emitam opiniões profissionais sobre a saúde mental de pessoas sem avaliá-las pessoalmente.
A psiquiatra disse que não pode diagnosticar o presidente de longe, mas que cabe aos profissionais da saúde intervir em instâncias em que haja perigo para um indivíduo ou para o público. Parecer sem avaliar paciente pessoalmente é contrário a regras da Associação Americana de Psiquiatria
Lee afirmou que os sinais que Trump demonstra alcançaram um nível perigoso. Como exemplo, ela citou as repetidas referências a teorias da conspiração, a negação de coisas que disse anteriormente e a agressividade do presidente.
“Ele parece estar se distanciando da realidade e recorrendo a teorias da conspiração”, disse a psiquiatra, citada pela CNN. “Há sinais de que ele entra em modo de ataque quando está sob estresse. Isso significa que ele tem potencial de se tornar impulsivo e muito volátil.”
À revista Politico, Lee disse que o presidente ficará ainda pior e incontrolável devido à pressão da presidência.
A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, afirmou que as declarações de Lee são lamentáveis e absurdas. “Se Trump não fosse capaz, ele provavelmente não estaria sentado onde está”, acrescentou.
Na Câmara dos Representantes, um grupo de 57 democratas está apoiando a criação de uma comissão para determinar se Trump possui saúde mental e física para o cargo. A Constituição dos EUA prevê duas maneiras de remover um presidente: por um processo de impeachment ou se ele for incapaz de realizar as funções da presidência.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Divisão do Exército do general Mourão, por Sergio Saraiva



"O Exército parece estar dividido. Isso não é exatamente novidade para quem conhece a história da nossa República. Se é assim, então, há o grupo do general Villas Bôas – legalista – e o grupo do general Hamilton Mourão - intervencionista. Para ficar no uso de um eufemismo."

generais
A Divisão do Exército do general Mourão
por Sergio Saraiva
GGN. - A posição do general Antonio Hamilton Mourão defendendo a possibilidade de uma intervenção militar no cenário político brasileiro causa espanto não somente relação ao aparente pouco cuidado para com óbvio efeito perturbador que teria no quadro de desgoverno nacional. Causa espanto principalmente por ser diametralmente oposta a posição expressa por seu superior hierárquico – o general Villas Bôas – comandante do exército.
Em 29 de julho de 2017, o Comandante do Exército - general Eduardo Villas Bôas - deu uma entrevista à Folha onde estabelece uma linha de conduta muito clara para a atuação do Exército, e por conseguinte, das Forças Armadas, em relação a atual crise.
A síntese dessa linha de conduta pode ser resumida na seguinte declaração:
“Neste momento, o que deve prevalecer é a Constituição Federal e todos, repito, todos devem tê-la como farol a ser seguido”.
Quando perguntado especificamente sobre intervenção militar, dadas as manifestações de alguns grupo favoráveis a essa ação, o general Villas Bôas não deixou dúvidas:
“Como tenho dito, vemos tudo isso com tranquilidade, pois o Exército brasileiro atua no estrito cumprimento das leis vigentes e sempre com base na legalidade, estabilidade e legitimidade”.
“O Brasil e suas instituições evoluíram e desenvolveram um sistema de pesos e contrapesos que dispensa a tutela por parte das Forças Armadas”.
Em relação às cobranças feitas às Foças Armadas quanto a sua participação na Ditadura de 64, o general Villas Bôas não se constrangeu nem quando confrontado com o termos “os erros e atrocidades que cometidas” e respondeu:
“A lei da anistia, compreendida como um pacto social, proporcionou as condições políticas para que as divergências ideológicas pudessem ser pacificadas. Ela colocou um ponto final naquela fase da história. Precisamos olhar para o futuro, atendendo ao espírito de conciliação”.
“É chegada a hora de consentir que o período que engloba 1964 é história e assim deve ser percebido”.
E quando questionado sobre quadro eleitoral concluiu:
“Está nas mãos dos cidadãos brasileiros a oportunidade de, nas eleições de 2018, sinalizar o rumo a ser seguido”.
Que dúvidas poderiam haver de que o Exército se portaria pela legalidade e, portanto, como fiador das eleições de 2018? Que dúvidas poderiam haver de que as forças militares consideravam que a crise política deveria ser resolvida pela sociedade civil?
Eis o porquê do espanto em relação às declarações do general Hamilton Mourão. Não que ele desconhecesse a posição do seu comandante – o general Villas Bôas. Suas palavras deixam claro que sabia:
"Primeira coisa, o nosso comandante, desde o começo da crise, ele definiu um tripé pra atuação do Exército. Então eu estou falando aqui da forma como o Exército pensa. Ele se baseou, número um, na legalidade, número dois, na legitimidade... E número três, não ser o Exército um fator de instabilidade, ele manter a estabilidade do país”.
Então, como alguém que “estava falando da forma como o Exército pensa” faz a seguinte declaração:
“Nós temos planejamentos, muito bem feitos. Então no presente momento, o que que nós vislumbramos ...ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso. E essa imposição não será fácil, ele trará problemas, podem ter certeza disso aí".
Em uma organização regida pela hierarquia e pela disciplina, tal qual as Forças Armadas, não existe espaço para tamanha diferença de posicionamento sobre um mesmo assunto.
Além disso, o general Mourão é um oficial em vias de passar para a reserva, está no topo e no final da carreira – deverá ser reformado em março de 2018. É, portanto, um oficial experimentado. Tampouco, foi surpreendido por uma pergunta impertinente e acabou por ser mal interpretado na resposta. Estava à vontade e seguro durante a palestra na maçonaria – onde deu as declarações que tratavam da intervenção da Forças Armadas.
Sobre o tamanho desse calculado ato de indisciplina já tratamos anteriormente – existe métodonisso.
O Exército parece estar dividido. Isso não é exatamente novidade para quem conhece a história da nossa República. Se é assim, então, há o grupo do general Villas Bôas – legalista – e o grupo do general Hamilton Mourão - intervencionista. Para ficar no uso de um eufemismo.
Que o grupo do general Mourão é poderoso dentro da arma, demonstra-o o fato de Mourão não ter sido punido após suas declarações.
Mas o que quer o grupo do general Mourão?
No dia seguinte, comentando a repercussão de sua palavras disse ao jornal Estadão: "não é uma tomada de poder. Não existe nada disso. É simplesmente alguém que coloque as coisas em ordem...”
O que fez com suas declarações foi dar um ultimato aos poderes constitucionais. Moveu uma peça. Espera agora um movimento correspondente do outro lado.
O que ocorrerá caso o movimento não ocorra na direção esperada? Que atitude tomará o grupo do general Villas Bôas?
Os bastidores do poder em Brasília devem estar agitados.

PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia na arquibancada para, a qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa.