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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Do El País, sobre a tragédia de Brumadinho: Quando carro ou geladeira valem mais que as vidas sacrificadas em Brumadinho


Do El País:


Quando carro ou geladeira valem mais que as vidas sacrificadas em Brumadinho

Enquanto a vida de um só ser humano valer menos que um eletrodoméstico, continuaremos sem esperança de redenção no túnel sem saída da barbárie


Rompimento de barragem em Brumadinho
Mulher chora ao observar os estragos causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho.  (GETTY IMAGES)

Aos que acompanhamos a tragédia da represa da mineradora Vale que desmoronou em Minas Gerais, e o número de vítimas mortais que aumenta a cada momento, só resta a indignação, a dor e a solidariedade com as famílias enlutadas. Indignação porque a catástrofe poderia ser evitada, como indicam todos os especialistas, e dor e solidariedade com as famílias em pranto.
Ficou evidente, apenas três anos depois do crime de Mariana, cujas feridas continuam abertas, que mais uma vez o lucro e a corrupção prevaleceram sobre a preocupação quanto a possíveis vítimas. E isso gera indignação e desespero para aqueles que se viram afetados e se sentem imponentes frente a esses gigantes complexos mineradores protegidos pela impunidade.
Em meio ao luto vivido pelo Brasil e ao sentimento de impotência que sacode as pessoas normais, a grande solidariedade das pessoas com as famílias atingidas serviu como único sopro de esperança de que a consciência solidária dos brasileiros não morreu e continua palpitando frente à dor causada pela avareza do capitalismo selvagem.
Em meus muitos anos de jornalismo, estou acostumado a relatar e analisar muitas outras catástrofes mundo afora, mas mesmo assim houve uma declaração de um político mineiro que me causou um mal-estar difícil de expressar. Eu a li no blog do jornalista, escritor e agudo polemista Reinaldo Azevedo. É um tuíte de Evandro Negrão Jr., vice-presidente do partido Novo no Estado de Minas, cenário da tragédia. Precisei ler várias vezes o texto, que Azevedo qualificou como “latrina”, para me convencer de que não estava alucinando.
Nele, o político, correligionário do atual governador de Minas, Romeu Zema, escreve que de fato os mortos de Brumadinho dão pena, mas que o importante é essa maravilhosa empresa que arranca minérios do coração da terra. Ou será que os brasileiros preferem ficar sem carros e sem geladeiras em vez de perder um punhado de vidas? E conclui que o importante é que a empresa retome sua atividade o quanto antes, para continuar produzindo materiais sem os quais ficaríamos privados de eletrodomésticos.
E as vítimas? Que a Vale pague uma multa. O político foi até generoso com os mortos: pede que seja uma “grande multa”. E a prisão para os possíveis responsáveis? Isso seria um castigo exagerado para uma empresa tão fantástica que, conforme escreve, torna o mundo “muito melhor”.
Não, não é uma fake news. Eis o texto literal:
“Lamentável, muito dolorido e MUITO sofrido o desastre de Brumadinho, mas n/ podemos demonizar a Vale. É uma baita empresa, sem minério n/ tem carro, avião, nem geladeira e o mundo é muito melhor c/ empresas como ela do q sem. Ela errou, deve pagar 1 grande multa e voltar a funcionar asap.”
Enquanto a vida de um só ser humano valer menos que um eletrodoméstico, continuaremos todos apanhados e sem esperança de redenção no túnel sem saída da barbárie. O texto do político do Novo é a melhor elegia do capitalismo em estilo puro, para quem o lucro é seu único bezerro de ouro digno de culto. O resto, o pranto das pessoas que tiverem que ser sacrificadas em seu altar, são um apêndice, um parêntese, uma insignificância. Menos que uma geladeira.
Afinal, o que são algumas dezenas de vítimas a mais ou a menos, em um país com mais de 200 milhões, frente à felicidade de poder ter nossas casas repletas de eletrodomésticos? Não se trata de condenar o sistema capitalista, sempre melhor que o da Coreia do Norte, mas sim de fazermos isso convencidos de que uma só vida humana sempre continuará valendo mais que todo o ferro e o ouro do mundo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Quando rompe uma barragem, a culpa "é sua", por Daniel S. Lacerda, professor e pesquisador de administração da UFRGS



 "Ora, se uma empresa observa que em tragédias ambientais as multas são frequentemente “perdoadas", a suspensão da licença de operação revertida e os processos penais arquivados - frequentemente tudo isso graças ao lobby da própria empresa e suas bancadas - que valor ela utilizará então para calcular o máximo a ser gastos em seus controles de mitigação de risco? No cálculo dos agentes econômicos auto-interessados, comprar deputados tem se mostrado uma decisão muito mais racional do que investir valores muito maiores em segurança e proteção."


Do Jornal GGN:



Quando rompe uma barragem, a culpa é sua, vou explicar por quê.
Assistindo as coberturas sobre o crime ambiental de Brumadinho, achei curioso ver as emissoras pró-Bolsonaro tentando jogar toda a culpa na Vale, enquanto a Globo empurra a culpa para a falta de fiscalização e punição do Estado. Nesse caso, elas nem precisavam brigar.
Na minha época de consultor, fiz dois projetos de Gestão de Risco, um deles na própria Vale. A Vale é obviamente culpada quando algo assim acontece, mas não mais do que qualquer empresa que trabalhe com extrativismo. Segundo as premissas de funcionamento de mercado, ela existe para dar lucro (empresa não é ONG e nem governo), e tudo tem que ser colocado em uma equação econômica para justificar os empreendimentos. Se não dá lucro, não faz.
O 'risco’ é um evento com determinada probabilidade de ocorrer. Caso esse evento ocorra, haverá um impacto. Toda empresa tem riscos em sua operação, com impactos possíveis de diferentes naturezas (econômica, ambiental, de imagem, etc). Existem duas formas de tratar o risco: mitigando seu impacto (fazendo seguro que cobrirá o sinistro, evacuando pessoas da área de impacto, terceirizando trabalhadores para não ter processos trabalhistas, etc) ou reduzindo as chances de que aconteça (implantação de alarmes, redundância de equipamento, agindo conforme a lei, etc).
Mas todas as formas de gestão de risco implicam em custo, todo controle tem um preço. A grande questão da empresa é decidir: 1) sobre quais riscos agir e quais ignorar; 2) quais medidas de tratamento de risco adotar. E é aí que entra a equação econômica, se os custos dos controles for alto demais a operação não dá lucro. Primeiro, eventos com baixa probabilidade e baixo impacto podem ser ignorados. Para os demais, multiplicando a probabilidade de um evento ocorrer (digamos 1/100.000) pelo seu impacto econômico (digamos R$50.000.000) temos o valor do risco (nesse caso R$500). Esse é o máximo que a empresa gastará no seu tratamento.
E é aqui que entra a culpa do Estado nessa história. Como a empresa transforma o impacto de uma morte em valores financeiros para fazer essa conta? Não existe nada melhor à sua disposição do que o valor da indenização paga para a família (e de perda de um funcionário se for o caso). Como calcular o impacto de uma tragédia ambiental? Pelo valor da multa paga caso isso ocorra. Todos esses valores são calculados pela jurisprudência de casos semelhantes.
Ora, se uma empresa observa que em tragédias ambientais as multas são frequentemente “perdoadas", a suspensão da licença de operação revertida e os processos penais arquivados - frequentemente tudo isso graças ao lobby da própria empresa e suas bancadas - que valor ela utilizará então para calcular o máximo a ser gastos em seus controles de mitigação de risco? No cálculo dos agentes econômicos auto-interessados, comprar deputados tem se mostrado uma decisão muito mais racional do que investir valores muito maiores em segurança e proteção.
Diante dessa ética gerencial, eu só vejo duas saídas possíveis para uma pessoa dotada de preocupações humanitárias:
1) admitir que o capitalismo é um sistema de acumulação orientado ao crescimento infinito que é incompatível com o conceito de “sustentabilidade"; 
2) acreditar que o capitalismo pode ser "social” e eleger/lutar por políticos e políticas que fiscalizem e punam de forma exemplar qualquer dano social/ambiental, concedendo licenças de operação apenas a quem seguir rigorosamente as normas.
Mas o Estado não é uma entidade abstrata autônoma da sociedade. O Estado é também a sociedade civil que pauta o que é importante ou não. Ou seja, o Estado somos nós. Então, hoje é dia de cada um reconhecer a própria parcela de culpa por Mariana e Brumadinho.
Daniel S. Lacerda é professor e pesquisador de administração da UFRGS



sábado, 19 de abril de 2014

David Puttnam discute o que acontece com a Democracia quando a Mídia sobrepõe seus interesses lucrativos aos da população\Nação. A escolha entre informar ou inflamar


      A questão entre informar bem ou buscar a informação como meio de manipulação para se atingir lucros é o tema desta palestra do cineasta David Puttnam (filmado no TEDxHouseofParliament). Você pode encontrar a legenda em português clicando no penúltimo retângulo, no canto abaixo, à sua direita, que aparece assim que o video começa a rodar. Abaixo do vídeo, segue um texto de Eduardo Guimarães sobre o poder das quatro principais famílias midiáticas do Brasil:






As quatro famílias midiáticas

Por Eduardo Guimarães em 13/03/2007 na edição 424 do Observatório da Imprensa
Quatro famílias detêm a parte do leão da imprensa escrita no Brasil. São elas a família Frias, a família Marinho, a família Mesquita e a família Civita, controladoras, respectivamente, dos jornais Folha de S.Paulo,O GloboEstado de S.Paulo e da revista Veja. Durante décadas, essa gente influenciou a sociedade brasileira. Na maior parte do tempo, de forma extremamente nefasta. Só para se ter uma idéia do mal que essas famílias e seus patriarcas já fizeram ao Brasil, basta lembrar que foram responsáveis, por exemplo, por atirá-lo numa ditadura militar que durou duas décadas, e por sustentá-la durante a maior parte desse tempo.
A sustentação da ditadura militar pela grande imprensa familiar brasileira foi possível porque, apesar de o brasileiro ser avesso à leitura – inclusive de jornais –, "formadores de opinião", ou seja, os que lêem esses veículos, tratavam de disseminar pelos estratos sociais, de uma forma ou de outra, as teorias que a aristocracia desejava ver prevalecerem.
Foi graças à imprensa escrita, por exemplo, que a maioria da sociedade viu Lula como um "perigo" durante longos treze anos, até que, fartos de ser esmagados pelos políticos que Frias, Marinhos, Mesquitas e Civitas recomendavam, os brasileiros deram uma banana para essa gente e elegeram – e depois reelegeram – o petista. Mas, depois de 2002, as famílias controladoras da grande imprensa brasileira jamais recuperaram plenamente o poder de eleger governantes. Claro que há o exemplo de São Paulo (a capital), onde a imprensa local conseguiu impedir a reeleição de Marta Suplicy, que melhorou como nunca a vida dos paulistanos mais pobres, e ainda elegeu José Serra governador, depois de ele ter mentido aos paulistanos prometendo que permaneceria no cargo de prefeito até o fim de seu mandato. Mas esse foi um feito paroquial, num estado que, apesar do poderio econômico, ainda persiste como um feudo de descendentes dos barões do café – como os Mesquita, por exemplo.

Injustiça social

Esses órgãos de imprensa familiares (FolhaGloboEstadão e Veja) constituem uma âncora que impede os brasileiros de evoluírem intelectual, política e ideologicamente. Apesar de terem perdido boa parte da influência que sempre tiveram sobre os corações e mentes do nosso povo, em termos regionais ainda causam estragos. Isso sem falar de que colaboram com setores corruptos da Justiça ao acobertarem casos de corrupção de seus aliados do PSDB e do PFL (agora, "PD"), pois suas freqüentes "denúncias" são dirigidas exclusivamente contra os adversários desses que são seus políticos favoritos, enquanto calam sobre as estripulias tucano-pefelistas.
A aristocracia brasileira (o grande empresariado à frente) dá o suporte financeiro a essa imprensa arcaica, que jamais conseguiria sobreviver do "jornalismo" que diz que produz. É por isso que, na condição de cidadão apartidário, totalmente desvinculado de grupos políticos, procuro fazer minha parte na necessária luta para livrar meu país desse câncer que é sua grande imprensa escrita. Aonde quer que vá, com quem quer que eu converse, a quem quer que eu escreva, sempre que possível procuro informar que as famílias Frias, Marinho, Mesquita e Civita são as responsáveis por enorme parte da injustiça social, da concentração de renda, da violência, da criminalidade que grassam neste país.
Se você que me lê acredita no que digo, concentre suas forças na denúncia desses nomes – de órgãos de imprensa e de seus controladores. Esse é o foco da luta por um Brasil melhor, mais justo e igualitário.