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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Do El País, sobre a tragédia de Brumadinho: Quando carro ou geladeira valem mais que as vidas sacrificadas em Brumadinho


Do El País:


Quando carro ou geladeira valem mais que as vidas sacrificadas em Brumadinho

Enquanto a vida de um só ser humano valer menos que um eletrodoméstico, continuaremos sem esperança de redenção no túnel sem saída da barbárie


Rompimento de barragem em Brumadinho
Mulher chora ao observar os estragos causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho.  (GETTY IMAGES)

Aos que acompanhamos a tragédia da represa da mineradora Vale que desmoronou em Minas Gerais, e o número de vítimas mortais que aumenta a cada momento, só resta a indignação, a dor e a solidariedade com as famílias enlutadas. Indignação porque a catástrofe poderia ser evitada, como indicam todos os especialistas, e dor e solidariedade com as famílias em pranto.
Ficou evidente, apenas três anos depois do crime de Mariana, cujas feridas continuam abertas, que mais uma vez o lucro e a corrupção prevaleceram sobre a preocupação quanto a possíveis vítimas. E isso gera indignação e desespero para aqueles que se viram afetados e se sentem imponentes frente a esses gigantes complexos mineradores protegidos pela impunidade.
Em meio ao luto vivido pelo Brasil e ao sentimento de impotência que sacode as pessoas normais, a grande solidariedade das pessoas com as famílias atingidas serviu como único sopro de esperança de que a consciência solidária dos brasileiros não morreu e continua palpitando frente à dor causada pela avareza do capitalismo selvagem.
Em meus muitos anos de jornalismo, estou acostumado a relatar e analisar muitas outras catástrofes mundo afora, mas mesmo assim houve uma declaração de um político mineiro que me causou um mal-estar difícil de expressar. Eu a li no blog do jornalista, escritor e agudo polemista Reinaldo Azevedo. É um tuíte de Evandro Negrão Jr., vice-presidente do partido Novo no Estado de Minas, cenário da tragédia. Precisei ler várias vezes o texto, que Azevedo qualificou como “latrina”, para me convencer de que não estava alucinando.
Nele, o político, correligionário do atual governador de Minas, Romeu Zema, escreve que de fato os mortos de Brumadinho dão pena, mas que o importante é essa maravilhosa empresa que arranca minérios do coração da terra. Ou será que os brasileiros preferem ficar sem carros e sem geladeiras em vez de perder um punhado de vidas? E conclui que o importante é que a empresa retome sua atividade o quanto antes, para continuar produzindo materiais sem os quais ficaríamos privados de eletrodomésticos.
E as vítimas? Que a Vale pague uma multa. O político foi até generoso com os mortos: pede que seja uma “grande multa”. E a prisão para os possíveis responsáveis? Isso seria um castigo exagerado para uma empresa tão fantástica que, conforme escreve, torna o mundo “muito melhor”.
Não, não é uma fake news. Eis o texto literal:
“Lamentável, muito dolorido e MUITO sofrido o desastre de Brumadinho, mas n/ podemos demonizar a Vale. É uma baita empresa, sem minério n/ tem carro, avião, nem geladeira e o mundo é muito melhor c/ empresas como ela do q sem. Ela errou, deve pagar 1 grande multa e voltar a funcionar asap.”
Enquanto a vida de um só ser humano valer menos que um eletrodoméstico, continuaremos todos apanhados e sem esperança de redenção no túnel sem saída da barbárie. O texto do político do Novo é a melhor elegia do capitalismo em estilo puro, para quem o lucro é seu único bezerro de ouro digno de culto. O resto, o pranto das pessoas que tiverem que ser sacrificadas em seu altar, são um apêndice, um parêntese, uma insignificância. Menos que uma geladeira.
Afinal, o que são algumas dezenas de vítimas a mais ou a menos, em um país com mais de 200 milhões, frente à felicidade de poder ter nossas casas repletas de eletrodomésticos? Não se trata de condenar o sistema capitalista, sempre melhor que o da Coreia do Norte, mas sim de fazermos isso convencidos de que uma só vida humana sempre continuará valendo mais que todo o ferro e o ouro do mundo.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Bancos devoram metade da renda de quase 30% da população mais pobre





da Agência Brasil
por Bruno Bocchini
Estudo da Serasa Experian mostra que 27% da população de baixa renda, com ganhos de até R$ 2 mil, tem mais de 50% de seus rendimentos comprometidos com produtos financeiros, como cartão de crédito, empréstimo consignado, empréstimo pessoal, financiamento de automóvel, financiamento imobiliário e cheque especial.
Entre os brasileiros de alta renda, que recebem acima de R$ 10 mil, o percentual é de 13%.
Os dados foram divulgadosno dia 9 de maio, no Recover Money 2017, evento que reúne, na capital paulista, economistas, especialistas, empresas do segmento financeiro e fornecedoras de serviços de recuperação. Os números levam em conta cerca de cinco milhões de consumidores que aderiram ao cadastro positivo da Serasa Experian.
“Se você pagar mais da metade do seu salário, da sua renda, apenas com produtos bancários, como você vai pagar as outras coisas? É uma situação difícil, e 27% dessas pessoas têm grande chance de não conseguir pagar isso, e entrar na lista dos inadimplentes. O ponto é tentar rapidamente regularizar, procurar uma taxa de juros mais baixa para evitar problemas futuros”, destacou Julio Guedes, diretor da Serasa Experian.
Segundo o levantamento, a maioria (69%) dos brasileiros negativados tem renda de até R$ 2 mil. Eles estão, principalmente, em débito com o banco ou cartão de crédito (39%), seguido por financeiras (13%), empresas de serviços (12%), varejo (9%), água, energia e gás (9%), e outros (18%).
“A gente acaba tendo muitas situações em que o brasileiro tem acesso ao crédito e depois não consegue pagar, porque os juros ficam muito altos, o que torna mais difícil pagar. Houve uma redução do rendimento do brasileiro e os juros não caíram na mesma proporção”, acrescentou Guedes.
Segundo os dados, cerca de 40% dos brasileiros de baixa renda têm acesso ao cartão de crédito. A proporção é de 51% para os de alta renda. No cheque especial, a porcentagem de acesso é de 12% para os de baixa renda e de 18% para os de alta. O cartão de crédito e o cheque especial são os dois principais produtos bancários utilizados tanto pelos clientes de baixa renda como pelos de alta.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Foster Gamble sobre as elites e o controle financeiro contra todos nós, as pessoas e o meio-ambiente





  Foster Gamble, um dos herdeiros da corporação P& G, é um dos poucos empresários que, apesar de tudo contra, conseguiu manter a mente aberta ao mundo e à sua época. Ele e sua esposa, Kimberly, são os apresentadores de um interessante documentário chamado Thrive - Prosperar: o que será necessário?", que põe em questão os reais motivos por trás da crise econômica, energética e ambiental que se abate sobre todos nós, com as consequencias graves que conhecemos.... Apesar de passagens bastante polêmicas, no geral o documentário, efetuado a partir de entrevistas com especialistas, é bem direito nas causas do mal que se abate de cima para baixo sobre o mundo inteiro...  Vejamos, aqui, apenas uma parte do que Foster Gamble discute, em um trecho do documentário (que pode ser assistido na íntegra ao final da postagem):


"Tão difícil quanto foi pra mim, cheguei a uma conclusão inevitável e profundamente perturbadora: Eu acredito que um grupo de elite e as corporações que ele dirige tomaram o controle não apenas da nossa energia, fonte de alimentos, educação e medicina, mas de praticamente todos os aspectos de nossas vidas. E eles fazem isso através do controle do mundo financeiro: não criando mais valores, mas realmente controlando a fonte do dinheiro. Quando eu segui o dinheiro, ele me levou aos níveis de uma pirâmide.
Estamos aqui, no nível inferior, apenas vivendo nossas vidas cotidianas.

Acima de nós está o governo. Pessoas que receberam o monopólio da força que utiliza para nos controlar e exigir o pagamento de impostos, concordemos ou não. Mas quem os controla?
No próximo nível estão as corporações. Muitos diriam que agora são as corporações que governam o mundo e não os Governos, chamam isso de "corporocracia". Para adquirir os recursos do mundo e controlar os mercados, esta "corporocracia" deve possuir acesso a dinheiro fácil. As grandes corporações obtém seus empréstimos nos grandes bancos com tarifas baixas.


O que significa que aqueles que controlam os grandes bancos, e elite financeira, em última análise, controlam as corporações.
Quando eu segui o dinheiro, descobri que tudo o que eu sempre soube a respeito de dinheiro simplesmente não era verdade."
 Mais adiante, o mesmo pesquisador afirma:

"Será que estou errado? Talvez... Mas e se eu não estiver? Estamos numa bifurcação crítica no caminho da evolução humana. Um caminho leva à tirania, e provavelmente à autodestruição. O outro nos levaria a uma civilização pacífica e saudável, baseada em honrar os direitos e a liberdade de cada pessoa deste planeta. Partir nessa nova direção, depende de mim e de você. Chegou a hora de dizer: Basta! Existe outro caminho! Eu acredito que, juntos, nós temos o conhecimento, os recursos e as soluções para passar por este desafio. 
Eu vejo todo esse processo como nada menos do que uma luta pela alma humana. Começa com uma mudança na forma de enxergar o mundo, fazendo-nos perguntas como: Quem somos nós, de verdade? O que é a natureza humana? Nós somos o que a elite acha que somos? Criaturas estúpidas e gananciosas, que, se forem deixadas soltas, criam a violência e o caos, e que, para o nosso próprio bem, devemos ser controlados por uma autoproclamada elite? Ou somos naturalmente cuidadosos e criativos? Eu acredito que quando o povo está saudável e tem o que precisa para sobreviver, pode criar um mundo baseado na integridade, liberdade e compaixão. Um mundo onde todos podem prosperar!
Qual dessas duas visões irá moldar o nosso futuro? Essa é a nossa decisão. AGORA!
A agenda de controle da elite global é o produto de uma visão destrutiva do mundo, baseada na crença de que não há o suficiente para todos; que algumas pessoas merecem mais do que as outras; e que a sua segurança depende do controle que mantêm sobre o resto de nós. Em poucas palavras, sua visão de mundo está baseada em escassez e medo. Mas apesar de seu poder, os arquitetos dessa Nova Ordem Mundial não podem criar essa visão terrível sem o nosso apoio. Para detê-los, para tornar a sua agenda obsoleta, nós temos que acordar! Devemos tomar uma atitude."

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Temer é o retrato do PMDB: um parasita covarde e traiçoeiro. Por Carlos Fernandes, no Diário do Centro do Mundo

Traiçoeiro e covarde: Temer
Traiçoeiro e covarde: Temer
Michel Temer é o retrato do PMDB: um parasita covarde, traiçoeiro e insaciável.
Nesse verdadeiro folclore multifacetado que se tornou o pantanoso terreno da política brasileira, existem alguns personagens que de tão emblemáticos transcendem os seus próprios limites pessoais e passam a ser representantes fiéis de toda a ortodoxia histórica que está contida no conjunto das práticas, valores e idéias de seu grupo.
O vice-presidente da República, Michel Temer, é um clássico exemplar desse tipo de político. Mais do que os seus próprios valores, suas atitudes refletem os valores de seu próprio partido, o PMDB. O fisiologismo, a ganância, a ausência de pudores, a falta de uma ideologia clara e definida e o pedantismo frente ao poder fazem com que o indivíduo se confunda com o todo. Temer não poderia estar em outro partido.
Não que essas falhas éticas e morais sejam exclusividade do PMDB. Vivemos uma efetiva deficiência de carácter não só nos partidos de direita mas também nos de esquerda. O que torna o PMDB, e claro, o próprio Temer, especiais no meio de toda a canalha política é o fato de terem durante toda a sua existência, e mesmo antes disso, se aperfeiçoados na indecente arte da traição.
Novamente na história política brasileira, Temer, e o PMDB, se preparam para praticar a segunda coisa que melhor sabem fazer: trair. A primeira é se aliar a quem quer que seja. A grande questão é que por mais que a traição agrade a alguns setores, ninguém perdoa os traidores. Michel Temer entrará particularmente para a história como um Judas em busca de suas trinta moedas. O seu destino, tal qual Judas, será a corda ao pescoço.
(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Carlos Fernandes
Sobre o Autor
Economista com MBA na PUC-Rio, Carlos Fernandes trabalha na direção geral de uma das maiores instituições financeiras da América Latina

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O que está por trás da insistência na "crise da Previdência", por Denise Gentil em entrevista para o Jornal da UFRJ




Uma economista disseca os cálculos que fabricam a “crise” e contra-ataca: objetivo do discurso é transferir à aristocracia financeira fundos que garantem direitos sociais 
Denise Gentil, entrevistada por Coryntho Baldez, no Jornal da UFRJ (também publicado no Outras Palavras)
Aos poucos, à medida em que se aprofunda o “ajuste fiscal” brasileiro, um velho bordão volta à cena: o do suposto “déficit da Previdência. Nos jornais, “especialistas” brandem números sem se preocupar em explicá-los. Benefícios supostamente “exagerados” teriam tornado o sistema previdenciário inviável. Não haveria outra saída exceto reduzir direitos. Em sua primeira entrevista do ano, a presidente Dilma Roussef propôs abertamente elevar a idade mínima para aposentadoria.
Que se esconde por trás destes números e argumentos? Por desconfiar de ambos, a economista Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedicou seu doutorado ao tema. Suas conclusões essenciais merecem amplo debate: 
> Para falar de “déficit” da Previdência é preciso realizar uma conta bizarra. Implica excluir da receita do sistema previdenciário tributos que a Constituição destina expressamente a ele: por exemplo, a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribuição sobre o Lucro Líquido) e a CPMF (que deverá ser recriada em breve). Basta incluir estes estes tributos para que surja, em vez do déficit, um vistoso superávit (RS 1,2 bilhões em 2006, por exemplo)
> O cálculo artificial esconde um interesse: deixar de ver os benefícios previdenciários (aposentadorias, pensões, assistência aos acidentes de trabalho, seguro-desemprego e tantos outros) como direitos que o Estado deve assegurar, por meio da arrecadação de tributos. Segundo este ponto de vista restritivo, e ao contrário do que diz a própria Constituição, as únicas receitas do sistema previdenciário seriam as contribuições descontadas dos salários da população formalmente empregada.
> Do ponto de vista da, exceto quando se distorcem os cálculos. destroça os mitos oficiais que encobrem a realidade da Previdência Social no Brasil. Em primeiro lugar, uma gigantesca farsa contábil transforma em déficit o superávit do sistema previdenciário, que atingiu a cifra de R$ 1,2 bilhões em 2006, segundo a economista.
> O objetivo último é facilmente previsível. Quem alardeia o “déficit” quer, no fundo, desviar para o pagamento de juros recursos que são claramente previdenciários. Em outras palavras, destinar à aristocracia financeira o dinheiro que a Constituição manda usar para os direitos sociais — inclusive dos mais necessitados.
A entrevista em que Denise Gentil expõe em detalhes suas conclusões vem a seguir. Para detalhes, leia também, na íntegra, sua tese:  “A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período 1990 – 2005” (A.M.)
A economista Denise Gentil desmascara o passo-a-passo da manipulação
A ideia de crise do sistema previdenciário faz parte do pensamento econômico hegemônico desde as últimas décadas do século passado. Como essa concepção se difundiu e quais as suas origens?
A idéia de falência dos sistemas previdenciários públicos e os ataques às instituições do welfare state (Estado de Bem- Estar Social) tornaram-se dominantes em meados dos anos 1970 e foram reforçadas com a crise econômica dos anos 1980. O pensamento liberal-conservador ganhou terreno no meio político e no meio acadêmico. A questão central para as sociedades ocidentais deixou de ser o desenvolvimento econômico e a distribuição da renda, proporcionados pela intervenção do Estado, para se converter no combate à inflação e na defesa da ampla soberania dos mercados e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos. Um sistema de seguridade social que fosse universal, solidário e baseado em princípios redistributivistas conflitava com essa nova visão de mundo. O principal argumento para modificar a arquitetura dos sistemas estatais de proteção social, construídos num período de crescimento do pós-guerra, foi o dos custos crescentes dos sistemas previdenciários, os quais decorreriam, principalmente, de uma dramática trajetória demográfica de envelhecimento da população. A partir de então, um problema que é puramente de origem sócio-econômica foi reduzido a um mero problema demográfico, diante do qual não há solução possível a não ser o corte de direitos, redução do valor dos benefícios e elevação de impostos. Essas idéias foram amplamente difundidas para a periferia do capitalismo e reformas privatizantes foram implantadas em vários países da América Latina.
No Brasil, a concepção de crise financeira da Previdência vem sendo propagada insistentemente há mais de 15 anos. Os dados que você levantou em suas pesquisas contradizem as estatísticas do governo. Primeiramente, explique o artifício contábil que distorce os cálculos oficiais.
Tenho defendido a idéia de que o cálculo do déficit previdenciário não está correto, porque não se baseia nos preceitos da Constituição Federal de 1988, que estabelece o arcabouço jurídico do sistema de Seguridade Social. O cálculo do resultado previdenciário leva em consideração apenas a receita de contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que incide sobre a folha de pagamento, diminuindo dessa receita o valor dos benefícios pagos aos trabalhadores. O resultado dá em déficit. Essa, no entanto, é uma equação simplificadora da questão. Há outras fontes de receita da Previdência que não são computadas nesse cálculo, como a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e a receita de concursos de prognósticos. Isso está expressamente garantido no artigo 195 da Constituição e acintosamente não é levado em consideração.
A que números você chegou em sua pesquisa?
Fiz um levantamento da situação financeira do período 1990-2006. De acordo com o fluxo de caixa do INSS, há superávit operacional ao longo de vários anos. Em 2006, para citar o ano mais recente, esse superávit foi de R$ 1,2 bilhões.
O superávit da Seguridade Social, que abrange o conjunto da Saúde, da Assistência Social e da Previdência, é muito maior. Em 2006, o excedente de recursos do orçamento da Seguridade alcançou a cifra de R$ 72,2 bilhões.
Uma parte desses recursos, cerca de R$ 38 bilhões, foi desvinculada da Seguridade para além do limite de 20% permitido pela DRU (Desvinculação das Receitas da União).
Há um grande excedente de recursos no orçamento da Seguridade Social que é desviado para outros gastos. Esse tema é polêmico e tem sido muito debatido ultimamente. Há uma vertente, a mais veiculada na mídia, de interpretação desses dados que ignora a existência de um orçamento da Seguridade Social e trata o orçamento público como uma equação que envolve apenas receita, despesa e superávit primário. Não haveria, assim, a menor diferença se os recursos do superávit vêm do orçamento da Seguridade Social ou de outra fonte qualquer do orçamento.
Interessa apenas o resultado fiscal, isto é, o quanto foi economizado para pagar despesas financeiras com juros e amortização da dívida pública.
Por isso o debate torna-se acirrado. De um lado, estão os que advogam a redução dos gastos financeiros, via redução mais acelerada da taxa de juros, para liberar recursos para a realização do investimento público necessário ao crescimento. Do outro, estão os defensores do corte lento e milimétrico da taxa de juros e de reformas para reduzir gastos com benefícios previdenciários e assistenciais. Na verdade, o que está em debate são as diferentes visões de sociedade, de desenvolvimento econômico e de valores sociais.
Há uma confusão entre as noções de Previdência e de Seguridade Social que dificulta a compreensão dessa questão. Isso é proposital?
Há uma grande dose de desconhecimento no debate, mas há também os que propositadamente buscam a interpretação mais conveniente. A Previdência é parte integrante do sistema mais amplo de Seguridade Social.
É parte fundamental do sistema de proteção social erguido pela Constituição de 1988, um dos maiores avanços na conquista da cidadania, ao dar à população acesso a serviços públicos essenciais. Esse conjunto de políticas sociais se transformou no mais importante esforço de construção de uma sociedade menos desigual, associado à política de elevação do salário mínimo. A visão dominante do debate dos dias de hoje, entretanto, freqüentemente isola a Previdência do conjunto das políticas sociais, reduzindo-a a um problema fiscal localizado cujo suposto déficit desestabiliza o orçamento geral. Conforme argumentei antes, esse déficit não existe, contabilmente é uma farsa ou, no mínimo, um erro de interpretação dos dispositivos constitucionais.
Entretanto, ainda que tal déficit existisse, a sociedade, através do Estado, decidiu amparar as pessoas na velhice, no desemprego, na doença, na invalidez por acidente de trabalho, na maternidade, enfim, cabe ao Estado proteger aqueles que estão inviabilizados, definitiva ou temporariamente, para o trabalho e que perdem a possibilidade de obter renda. São direitos conferidos aos cidadãos de uma sociedade mais evoluída, que entendeu que o mercado excluirá a todos nessas circunstâncias.
E são recursos que retornam para a economia?
É da mais alta relevância entender que a Previdência é muito mais que uma transferência de renda a necessitados. Ela é um gasto autônomo, quer dizer, é uma transferência que se converte integralmente em consumo de alimentos, de serviços, de produtos essenciais e que, portanto, retorna das mãos dos beneficiários para o mercado, dinamizando a produção, estimulando o emprego e multiplicando a renda. Os benefícios previdenciários têm um papel importantíssimo para alavancar a economia. O baixo crescimento econômico de menos de 3% do PIB (Produto Interno Bruto), do ano de 2006, seria ainda menor se não fossem as exportações e os gastos do governo, principalmente com Previdência, que isoladamente representa quase 8% do PIB.
De acordo com a Constituição, quais são exatamente as fontes que devem financiar a Seguridade Social?
A seguridade é financiada por contribuições ao INSS de trabalhadores empregados, autônomos e dos empregadores; pela Cofins, que incide sobre o faturamento das empresas; pela CSLL, pela CPMF (que ficouconhecida como o imposto sobre o cheque) e pela receita de loterias. O sistema de seguridade possui uma diversificada fonte de financiamento. É exatamente por isso que se tornou um sistema financeiramente sustentável, inclusive nos momentos de baixo crescimento, porque além da massa salarial, o lucro e o faturamento são também fontes de arrecadação de receitas. Com isso, o sistema se tornou menos vulnerável ao ciclo econômico. Por outro lado, a diversificação de receitas, com a inclusão da taxação do lucro e do faturamento, permitiu maior progressividade na tributação, transferindo renda de pessoas com mais alto poder aquisitivo para as de menor.
Além dessas contribuições, o governo pode lançar mão do orçamento da União para cobrir necessidades da Seguridade Social?
É exatamente isso que diz a Constituição. As contribuições sociais não são a única fonte de custeio da Seguridade. Se for necessário, os recursos também virão de dotações orçamentárias da União. Ironicamente tem ocorrido o inverso. O orçamento da Seguridade é que tem custeado o orçamento fiscal.
O governo não executa o orçamento à parte para a Seguridade Social, como prevê a Constituição, incorporando-a ao orçamento geral da União. Essa é uma forma de desviar recursos da área social para pagar outras despesas?
A Constituição determina que sejam elaborados três orçamentos: o orçamento fiscal, o orçamento da Seguridade Social e o orçamento de investimentos das estatais. O que ocorre é que, na prática da execução orçamentária, o governo apresenta não três, mas um único orçamento chamando-o de “Orçamento Fiscal e da Seguridade Social”, no qual consolida todas as receitas e despesas, unificando o resultado. Com isso, fica difícil perceber a transferência de receitas do orçamento da Seguridade Social para financiar gastos do orçamento fiscal. Esse é o mecanismo de geração de superávit primário no orçamento geral da União. E, por fim, para tornar o quadro ainda mais confuso, isola-se o resultado previdenciário do resto do orçamento geral para, com esse artifício contábil, mostrar que é necessário transferir cada vez mais recursos para cobrir o “rombo” da Previdência. Como a sociedade pode entender o que realmente se passa?
Agora, o governo pretende mudar a metodologia imprópria de cálculo que vinha usando. Essa mudança atenderá completamente ao que prevê a Constituição, incluindo um orçamento à parte para a Seguridade Social?
Não atenderá o que diz a Constituição, porque continuará a haver um isolamento da Previdência do resto da Seguridade Social. O governo não pretende fazer um orçamento da Seguridade. Está propondo um novo cálculo para o resultado fiscal da Previdência. Mas aceitar que é preciso mudar o cálculo da Previdência já é um grande avanço. Incluir a CPMF entre as receitas da seguridade é um reconhecimento importante, embora muito modesto. Retirar o efeito dos incentivos fiscais sobre as receitas também ajuda a deixar mais transparente o que se faz com a política previdenciária. O que me parece inadequado, entretanto, é retirar a aposentadoria rural da despesa com previdência porque pode, futuramente, resultar em perdas para o trabalhador do campo, se passar a ser tratada como assistência social, talvez como uma espécie de bolsa. Esse é um campo onde os benefícios têm menor valor e os direitos sociais ainda não estão suficientemente consolidados.
Como você analisa essa mudança de postura do Governo Federal em relação ao cálculo do déficit? Por que isso aconteceu?
Acho que ainda não há uma posição consolidada do governo sobre esse assunto. Há interpretações diferentes sobre o tema do déficit da Previdência e da necessidade de reformas. Em alguns segmentos do governo fala-se apenas em choque de gestão, mas em outras áreas, a reforma da Previdência é tratada como inevitável. Depois que o Fórum da Previdência for instalado, vão começar os debates, as disputas, a atuação dos lobbies e é impossível prever qual o grau de controle que o governo vai conseguir sobre seus rumos. Se os movimentos sociais não estiverem bem organizados para pressionarem na defesa de seus interesses pode haver mais perdas de proteção social, como ocorreu em reformas anteriores.
A previdência pública no Brasil, com seu grau de cobertura e garantia de renda mínima para a população, tem papel importante como instrumento de redução dos desequilíbrios sociais?
Prefiro não superestimar os efeitos da Previdência sobre os desequilíbrios sociais. De certa forma, tem-se que admitir que vários estudos mostram o papel dos gastos previdenciários e assistenciais como mecanismos de redução da miséria e de atenuação das desigualdades sociais nos últimos quatro anos. Os avanços em termos de grau de cobertura e de garantia de renda mínimapara a população são significativos. Pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), cerca de 36,4 milhões de pessoas ou 43% da população ocupada são contribuintes do sistema previdenciário. Esse contingente cresceu de forma considerável nos últimos anos, embora muito ainda necessita ser feito para ampliar a cobertura e evita que, no futuro, a pobreza na velhice se torne um problema dos mais graves. O fato, porém, de a população ter assegurado o piso básico de um salário mínimo para os benefícios previdenciários é de fundamental importância porque, muito embora o valor do salário mínimo esteja ainda distante de proporcionar condições dignas de sobrevivência, a política social de correção do salário mínimo acima da inflação tem permitido redução da pobreza e atenuado a desigualdade da renda.
Cerca de dois milhões de idosos e deficientes físicos recebem benefícios assistenciais e 524 mil são beneficiários do programa de renda mensal vitalícia. Essas pessoas têm direito a receber um salário mínimo por mês de forma permanente.
Evidentemente que tudo isso ainda é muito pouco para superar nossa incapacidade histórica de combater as desigualdades sociais. Políticas muito mais profundas e abrangentes teriam que ser colocadas em prática, já que a pobreza deriva de uma estrutura produtiva heterogênea e socialmente fragmentada que precisa ser transformada para que a distância entre ricos e pobres efetivamente diminua. Além disso, o crescimento econômico é condição fundamental para a redução da pobreza e, nesse quesito, temos andado muito mal. Mas a realidade é que a redução das desigualdades sociais recebeu um pouco mais de prioridade nos últimos anos do que em governos anteriores e alguma evolução pode ser captada através de certos indicadores.
Apesar do superávit que o governo esconde, o sistema previdenciário vem perdendo capacidade de arrecadação. Isso se deve a fatores demográficos, como dizem alguns, ou tem relação mais direta com a política econômica dos últimos anos?
A questão fundamental para dar sustentabilidade para um sistema previdenciário é o crescimento econômico, porque as variáveis mais importantes de sua equação financeira são emprego formal e salários. Para que não haja risco do sistema previdenciário ter um colapso de financiamento é preciso que o país cresça, aumente o nível de ocupação formal e eleve a renda média no mercado de trabalho para que haja mobilidade social. Portanto, a política econômica é o principal elemento que tem que entrar no debate sobre “crise” da Previdência. Não temos um problema demográfico a enfrentar, mas de política econômica inadequada para promover o crescimento ou a aceleração do crescimento.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O corajoso Papa que dá à crise o seu verdadeiro nome

Francisco afirma que o mundo vive uma terceira guerra mundial, e resume o que entende por paz: 'nenhuma família sem teto, nenhum ser humano sem pão'.



O Papa que dá à crise o seu nome


por: Saul Leblon  - Extraído da Carta Capital

Wikipedia
Uma das características que impressionam no Papa, pelo ineditismo em relação à norma dominante, é a sensação de que ele está sempre chegando.  
 
Francisco é o dado novo na mesa rasa, previsível, da policrise do nosso tempo, ao mesmo tempo uma crise do capitalismo e da civilização, cujo vórtice ambiental ameaça a própria sobrevivência da humanidade.
 
É disso que ele trata em sua primeira encíclica ‘Laudato si’. 
 
E o faz de forma desabrida, como nas suas primeiras declarações ao chegar em Cuba, neste sábado (leia a cobertura de Carta Maior nesta pág; direto de Havana). 
 
Poucos minutos depois de seu desembarque, como o terceiro papa a pisar em solo cubano, mas o primeiro a abraçar a luta pelo fim do embargo norte-americano, disparou: ‘O mundo vive uma terceira guerra mundial por etapas. Precisamos de conciliação’.
 
A conciliação que ele tem pleiteado é aquela baseada na maior igualdade, na menor obsessão consumista, no fim do fetiche do dinheiro, no resgate dos excluídos, na repartição da riqueza, na reconciliação entre as formas de viver e de produzir e a natureza.
 
O nome da crise é capitalismo turbinado, diz o idioma religioso de Francisco.
 
Em outubro de 2014, ele promoveu um Encontro Mundial de Movimentos Populares nas dependências do Vaticano.
 
O desassombro não ficou na forma. 
 
Ao falar aos participantes, entre eles o líder do MST, João Pedro Stédile, que saiu convencido de que o Papa estava à esquerda dos presentes, resumiu o que entende por conciliação e reconciliação: ‘Nenhuma família sem teto; nenhum agricultor sem terra; nenhum ser humano sem pão’. 
 
Mas foi além.
 
Como se fora uma espécie de Polanyi de batina, criticou o comércio dos recursos essenciais: o solo e a água, por exemplo,
 
O filósofo e economista húngaro Karl Polanyi (1886/1964) autor de ‘A grande transformação’, advertiu pioneiramente para esse risco.
 
Elementos essenciais ao equilíbrio da vida e à construção do bem comum, como o trabalho, a terra --e também o dinheiro, disse Polanyi, filho de húngaros, nascido em Viena, não deveriam ser submetidos a um liberalismo subordinado à cobiça do interesse privado. 
 
As evidências do nosso tempo mostram que ele tinha razão.
 
Nesse mundo onde tudo o que é rentável deve ser desregulado, para a livre mastigação dos mercados, os recursos que formam as bases da vida na terra, e o ‘recurso’ humano, encontram-se ameaçados pela inconciliável relação entre o capitalismo, a temperança e o equilíbrio ambiental. 
 
Há dois anos e meio do seu Papado, iniciado em março de 2013, Francisco parece que acabou de entrar na sala.
 
É a visita que a qualquer momento pode trazer novidades.
 
Não é truque, nem miragem.
 
Ao contrário daquilo que se ouve da maioria dos líderes convencionais, seu discurso escapa à circularidade dos interesses e reiterações paralisantes.
 
A renovação que expressa ganha interesse ecumênico, para além das fronteiras dos vaticanistas, na medida em que envolveu uma superação dos limites e ambiguidades do próprio Cardeal Jorge Mario Bergoglio. 
 
Longe de ser retórica, reflete a circunstância histórica de quem soube captar toda a extensão da suas responsabilidades e a emergência dos dias que correm. 
 
Um ciclo está se fechando na sociedade capitalista como a conhecemos no século XXI.
 
A supremacia insaciável da lógica financeira perdeu a capacidade de girar a roda da história na direção das necessidades objetivas e psicológicas da humanidade.
 
O dinheiro celibatário, que se reproduz à margem da produção e do bem comum, coroou esse esgotamento em uma crise capitalista de superprodução de capital fictício.
 
O impasse coloca uma disjuntiva extremada: ou uma desvalorização épica da riqueza financeira predadora, ou a imposição, ao seu redor, de uma desigualdade exacerbada, vendida como  o novo normal da humanidade.
 
Diante do dilúvio, Bento VI,  seu antecessor, resignou-se ao encolhimento da fronteira cristã, atrás de um muro alto de expurgo e purificação doutrinária.
 
Renunciou.
 
Francisco entendeu a dimensão terminal da encruzilhada entre a entropia da finança desregulada e a ‘salvação’ que não prescinde do chão firme na terra.
 
Foi à luta. Que é ao mesmo tempo, por igualdade e libertação do garrote ideológico.
 
Por isso dá às coisas protegidas pela dissimulação midiática e plutocrática o seu nome.
 
O problema não é apenas que instituições internacionais,  partidos e lideranças passaram a incorporar políticas inadequadas, como a desregulamentação  indiscriminada e a abertura das contas de capitais a qualquer custo em vidas humanas e dilapidação ambiental.
 
O problema principal é a falta de capacidade política par refletir sobre o colapso correspondente fora da ‘caixinha’, isto é, fora do consenso conservador ancorado em arrocho e desemprego ante qualquer ameaça à remuneração do capital a juro.
 
Em 2011, em plena curva ascendente da crise, o Escritório de Avaliação Independente (IEO, na sigla e inglês) analisou 6.500 trabalhos escritos produzidos ou contratados pelo FMI nos últimos dez anos, portanto na chocadeira da crise mundial. 
 
Praticamente todos afiançavam as boas condições do comboio capitalista que rumava em alta velocidade para espatifar a ordem neoliberal.
 
Pior: 62% dos economistas do Fundo afirmaram que se sentiam pressionados a alinhar as conclusões de suas pesquisas econômicas ao pensamento dominante no órgão. 
 
Dados de então mostravam que 60% dos cargos de chefia no FMI eram ocupados por profissionais de países anglo-saxões. Nada menos que 63% dos economistas haviam obtido seu doutorado em universidades americanas.  
 
Não por acaso, representantes das economias em desenvolvimento consideravam que esses trabalhos e seus autores apenas reiteram um conjunto prevalecente de ideias e receitas, sem espaço para visões alternativas. 
 
A indiferenciação entre direita e a esquerda no manejo da crise é parte constitutiva da encruzilhada atual.
 
Por isso Francisco estremece o chão como um touro selvagem quando dá às coisas o seu nome. Por isso também políticos e governantes lhanos afundam na areia movediça quando recitam a bula do veneno para tratar dos seus efeitos.
 
O que chamamos de crise, hoje, é a fotografia de corpo inteiro da longa captura da esquerda mundial, e sobretudo da social-democracia europeia, pelo cânone neoliberal.
 
Como isso se transforma no interdito político que faz do pensamento livre do Papa Francisco uma usina  transgressora carregada de frescor?
 
O economista Robert Kuttner explica assim a asfixia do esclarecimento e da razão diante de uma crise que empurra a humanidade para o impasse: ‘É uma questão do poder. Os proprietários da riqueza financeira se tornaram cada vez mais poderosos politicamente; os movimentos que lhes são contrários se tornaram drasticamente enfraquecidos". 
 
A trinca aberta entre a base da sociedade e aqueles que deveriam vocalizar o conflito, mas, sobretudo, a negligência deliberada com a organização dessa bases, redundou no paradoxo de uma crise sistêmica do capitalismo que não gera forças de ruptura capaz de supera-la.
 
O fosso é proporcional à virulência do que se busca despejar nos ombros da sociedade.
 
Ou não é essa transferência leonina que se assiste hoje no Brasil, mas também na Grécia, Espanha, Itália, Portugal, França etc etc
 
O déficit de democracia emerge, assim, como o mais importante desequilíbrio revelado pela crise, em contraposição à hegemonia capilar, estrutural, midiática e institucional acumulada pelo capital financeiro.
 
É nesse ambiente de ar quase irrespirável que ganha singularidade faiscante a figura de um Papa que não desvia o olhar diante do que vê e manifesta a sua repulsa diante do espetáculo.
 
Apenas um governo parece ter assumido coerência equivalente.
 
Ao devolver ao poder plebiscitário da sociedade a decisão quanto ao passo seguinte da crise que levara a Islândia à bancarrota, em 2009, seu presidente, Ólafur Grímsson, declarou, à moda Francisco: ‘Somos uma democracia, não um sistema financeiro’. 
 
Ser uma democracia, não um anexo do sistema financeiro é o que pode ainda devolver aos cidadãos a responsabilidade compartilhada pelas escolhas do seu destino e o comando do desenvolvimento em nosso tempo. 
 
A blindagem ideológica do neoliberalismo –e o evidente esgotamento do seu arranjo-- ainda não foram suficientes para  alterar a condução da crise justamente pela tímida delegação das decisões ao povo e a falta de uma contrapartida de coordenação internacional desse enfrentamento. 
 
O que se assiste por enquanto é a degradante marcha em sentido contrário. 
 
O fatalismo construído ao longo de décadas de recuos, e o correspondente desarmamento organizativo que se seguiu, explicam a sobrevida de uma  hegemonia cuja base objetiva esfarelou.
 
O esgotamento da margem de manobra na economia não dispõe de um contrapeso à altura no ambiente político.
 
O desenlace permanece em aberto em todo o mundo, a evidenciar uma mudança de época que não encontrou ainda o protagonista capaz de virar a página do calendário.
 
O Brasil faz parte desse salto parado no ar.
 
E é pelo menos arriscado apostar que o terceiro turno em curso, marcado pelo passo de ganso golpista, cederá a uma negociação branda entre concessão e indulgência.
 
A busca do impossível – arrochar para crescer, a contração expansionista—  faz água em todas as latitudes.
 
Oximoros -- contradições em seus próprios termos--  refletem o esgotamento de uma agenda, que só tem a oferecer a estabilidade inspirada na paz dos cemitérios.
 
Nesse novo  normal –para sempre ou por um prazo sem fim--  nada se move, exceto as curvas da desigualdade, o empoçamento  do capital fictício e a incerteza diuturna sobre tudo em todos os lugares.
 
Mais que isso.
 
Um conjunto bíblico de sobras  humanas passa a ser expelido pelo sistema cujo êxito gera a própria danação. 
 
Trata-se de uma entropia estrutural à engrenagem capitalista, cada vez mais clara na crise iniciada em 2008.
 
A eficiência acumulativa deprecia o valor adicionado ao promover o descarte do componente humano que impulsiona a riqueza e gera a sua própria obsolescência, ao mesmo tempo e com igual intensidade.
 
Sobra o ponto de fuga do capital fictício que se empanturra de bolhas à margem da produção e às expensas das dívidas públicas e dos direitos sociais, decepados para deslocar recursos ao rentismo.
 
Não há escolha fácil nesse ambiente difícil, assoalhado de chão mole por todos os lados.
 
Mas a história não é fatalidade.
 
O que importa perguntar aqui é o que teria sido do Papa se mantivesse em Roma a ambiguidade do seu cardinalato na Argentina?
 
Certamente seria uma figura de baixo relevo na desordem mundial; um pequeno conservador na cena de um mundo extremado, que busca de uma nova identidade para o desenvolvimento, a vida e a espiritualidade.
 
Seriam, enfim, tudo o que o cristão que agora reza missa em Cuba de olho no fim do embargo americano, decidiu não ser e não é.
 
A mutação processada na travessia de Bergoglio para Francisco oferece uma lição da inexcedível pertinência à encruzilhada brasileira nos dias que correm.
 
Só a determinação política de superar as amarras das circunstâncias pode alterar a circularidade de um processo em que a rendição da vítima é o lubrificante dopoder opressor.
 
O espaço estreito e perigoso das escolhas na história é a variável autônoma que restou nesse redil paralisante.
 
Parece pouco? 
 
Francisco, o Papa que parece que acabou de chegar, mostra o quanto existe de potência nessa condição.

domingo, 12 de maio de 2013

As Consequências Antidemocráticas da Concentração de Riquezas



Por Assis Ribeiro
Da Carta Maior
Enviado por luisnassif, dom, 12/05/2013 - 12:10

Como é possível que a sociedade seja mais rica e que, em contrapartida, os filhos vão viver pior que os seus pais? A resposta a esta pergunta é que o crescimento econômico se distribui muito desigualmente, concentrando-se nos rendimentos superiores, como resultado das políticas públicas que se aplicaram na maioria dos países do Atlântico Norte.