domingo, 21 de abril de 2013

Leonardo Boff e a confiança nos jovens


Extraído do site de Leonardo Boff:

Jovens que nos dão esperança de que se pode proteger a Terra

19/04/2013



  Todos nos perguntamos: quem serão os protagonistas de uma relação salvadora da Mãe Terra? Eles estão despontando em todas as partes. São eles que levam a esperança de que outro mundo é possível e necessário. E se comprometem a inaugurar práticas que significam verdadeiras revoluções moleculares: começam com eles e se irradiam para todos os lados. 
Aqui vai uma carta de jovens do ensinao fundamental de Curitiba que nos dão este testemunho. Merecem que outros conheçam tais sua disposição e os compromissos que coletivamente assumiram. Por isso lhes somos gratos. Vocês são sementes de um mundo que ainda deve nascer mas que, com pessoas, como vocês, vai realmente nascer.  Lboff

Curitiba, 15 de Abril de 2013
Olá Professor Leonardo…
Somos do Colégio Nossa Senhora Medianeira de Curitiba – Paraná. Fazemos parte da turma do 3º ano G da primeira fase do Ensino Fundamental.
Nas aulas de Ensino Religioso conhecemos a Carta da Terra e aprendemos várias coisas que podemos fazer para ajudar o Planeta.
A Carta da Terra nos fez perceber que podemos realizar pequenas atitudes que contribuirão para a qualidade de vida no planeta. Por isso, a nossa turma defenderá e assumirá 20 metas para ajudar o planeta neste ano de 2013, aqui estão elas:
·     Não poluir o mar!
·     Não poluir o meio ambiente!
·     Separar o lixo!
·  Participar ou organizar de campanhas para ajudar as pessoas carentes, com alimentos e roupas!
·     Não jogar pilhas, baterias e celulares em lixos comuns!
·     Não deixar a torneira aberta quando escovar os dentes.
·     Economizar energia.
·     Preservar o bem-estar dos animais.
·     Não jogar lixo no rio.
·     Proteger os animais aquáticos e terrestres ameaçados de extinção.
·     Tomar banho mais rápido.
·     Respeitar todas as pessoas.
·Recolher óleo de cozinha usado e enviar para estabelecimentos habilitados.
·   Não contribuir com o trabalho infantil, dando dinheiro para crianças na rua.
·     Plantar árvores.
·     Não cortar árvores.
·     Não jogar objetos que possam causar incêndios na mata.
·     Não comprar CD’s piratas.
·     Não jogar lixo na rua.
·     Evitar o uso de embalagens plásticas.
          
       Professor Leonardo, sabemos que o senhor é um protetor da vida no planeta, queremos que saiba que a nossa turma gosta muito da Natureza e queremos ajudar para que todos tenham uma vida melhor.
Um grande abraço da turma do 3º ano G   
Resposta 19/04/2013

Queridos estudantes do 3º ano do Ensino Fundamental do Colégio Nossa Senhora Medianeria, Curitiba, PR.

A carta de vocês me encheu de alegria. Há muitos anos que, muitos junto comigo, nos preocupamos com o futuro da vida, com a preservação da Mãe Terra e com a garantia da continuidade de nossa civilização.

Essa meta só será alcançada se mais pessoas, como vocês, logo no alvorecer da vida e da inteligência, tomam a sério as medidas que podem garantir o nosso futuro. Sem gente como vocês, que devem crescer em número no mundo inteiro, dificilmente escaparecemos de um grande  sofrimento para a humanidade e para todos os seres vivos. 

Vocês nos dão esperança de que um outro mundo é possível. E vocês o mostram concretamente. As metas que se propuseram alcançar, são as corretas. Elas estão no rumo certo. E nos dão a esperança de que a vida é mais forte do que a morte, que o amor à natureza tem mais dignidade que o uso irresponsável dos bens e serviços que ela nos propicia.

Vejam e tratem a Terra como nossa Grande Mãe, a Pacha Mama dos povos andinos e a Magna Mater de quase todas as tradições da humanidade. Mãe a gente cuida, respeita e ama. Nunca a ofende e a explora.

Façam assim com a Mãe Terra que ela lhes mostrará sua gratidão. E continurá a dar generosamente tudo o que precisamos para viver, além da beleza e o encantamento que ela cada dia nos proporciona.

Com  todo o meu apoio, também em nome da Comissão Internacional da Carta Terra, à qual pertenço, saúdo a todos e a todas com muito carinho, especialmente à Professora Suzana F. Brito que os inicou nesta consciência ecológica. Colocarei a carta de vocês no meu blog (Leonardoboff.wordpress.com) e enviarei o texto de vocês à Comissão Central que fica em Costa Rica (Mirian Vilela; e-mail: <mvilela@earthcharter.org>)

Leonardo Boff

Para ouvir a própria canção...



Se eu der demasiada atenção ao que dizem os outros
Jamais entoarei a minha própria canção.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma Nova Aliança entre Ciências e Religião?




Texto de

Leonardo Boff


Cada época cultural estabelece seu diálogo com a natureza. Ora enfatiza seu caráter imponderável e por isso mágico; ora capta sua profunda simetria  e daí a natureza como cosmos; e outras vezes ainda seu aspecto criativo, irredutível à lógica linear. Segundo Alexandre Koyré e Ilya Prigogine (dois teóricos da ciência) é o diálogo experimental que constitui a prática específica da ciência moderna. Hoje para além dela, parece ser a prática holística aquela que caracteriza a abordagem contemporânea da natureza. 
Todas as pronúncias do mundo são complementares e ajudam na decifração daquilo que é mais do que o enigma da natureza, vale dizer, o seu verdadeiro mistério.
Para a visão contemporânea, o universo constitui mais e mais uma realidade incognoscível. Ela é continuamente desafiada a conhecer num processo que não tem fim. Por esta razão é importante tomar a sério as várias janelas que os distintos saberes abrem para a compreensão da natureza. Daí surge seu caráter holístico (totalizante e sintético).

De todas as formas, a leitura do mundo pertence ao complexo cultural do tempo e se inscreve no concerto das demais  práticas. Da dialogação do ser humano com a natureza surgem as  várias cosmologias. Cada cosmologia se orienta por uma imagem do mundo resultante dos mais distintos saberes.

Curiosamente, cada comologia suscita a questão de Deus. E com razão, pois como dizia o grande físico David Bohm, (prêmio Nobel):”as pessoas intuem  uma forma de inteligência que organizou, no passado, o universo e a personalizaram chamando-a “Deus”.

A cosmologia antiga via o mundo na metáfora da pirâmide. Deus se encaixava aí perfeitamente, como  o cume de todos os seres. Na cosmologia moderna de A. Newton e de G. Galilei o mundo era visto como uma máquina que funciona com suas leis determinísticas. Deus entra como  o arqueteto do universo  que  no início colocou a máquina em funcionamento. E não precisa mais acompanhá-la. A cosmologia contemporânea considera o mundo como um jogo ou uma dança ou uma teia ou uma rede. Já há décadas, se reconhece que o universo constitui um imenso jogo de forças em interação, uma dança cósmica de partículas sempre interdependentes, formando campos de matéria e de energia cada vez mais ordenados, até que nos seres vivos ganha autoregulação que escapa à segunda lei da termodinâmica: a entropia. A seta do tempo, ao invés de nos conduzir para a desordem máxima e a morte térmica, nos introduz a patamares sempre mais altos de sentido e de criatividade. É a visão de Ilya Prigogine (prêmio Nobel) com suas estruturas dissipativas.

O que mais fascina os cientistas é a constatação da harmonia e da beleza do universo. Tudo parece ter sido montado para que, da profundidade abissal de um oceano de energia primodial (o vácuo quântico), devessem surgir o campo de Higgs, os bósons, as partículas elementares, depois a matéria ordenada, em seguida a matéria complexa que é a vida e por fim a matéria em sintonia completa de vibrações, formando uma suprema unidade  holística: a consciência (condensado Bose-Einstein de tipo Fröhlich/Prigogine).


Como dizem os formuladores do princípio andrópico (forte e fraco, Brandon Carter, Hubert Reeves e outros): se as coisas não tivessem ocorrido como ocorreram, não estaríamos aqui para falar delas. Quer dizer, para que  pudéssemos estar aqui, foi necessário que todos os fatores cósmicos, em todos os 13,7 bilhões de anos, tivessem se articulado e convergido de tal forma que fosse possível (mas não necessário) a complexidade, a vida e a consciência. Caso contrário nada exisitira daquilo que hoje existe.

Há uma minuciosa calibragem de medidas sem as quais as estrelas jamais teriam surgido ou  eclodido a vida no universo. Por exemplo, caso a interação nuclear forte (aquela que mantem a coesão dos núcleos atômicos) tivesse sido 1% mais forte, jamais se formaria o  hidrogêneo que combinado com o oxigênio nos daria a água, imprescindível aos seres vivos.

Em cada coisa encontramos o todo, o caos sendo criativo, as forças interagindo, as partículas se articulando, a estabilização da matéria acontecendo, a abertura  para novas relações se dando e a vida criando ordens cada vez mais sofisticadas e autoconsciente.

A verificação desta  ordem do universo faz surgir nos cientistas, como em Einstein, Heisenberg, Bohm, Prigogine, Swimme e outros  o sentimento de assombro e de veneração. Ela nos abre para os espaços infinitos da indagação humana: o que existia antes da existência temporal do universo? por que existe o ser e não o nada? que é Aquela realidade que se apresenta como o ordenador e o sustentador de todos os fenômenos?

Ela tem um nome, da nossa reverência e de nossa unção. Um filósofo como J.Guitton podia dizer:”não ouso nomeá-la, pois qualquer nome é imperfeito para designar o Ser sem semelhança”. Um teólgo ousa mais: chama-o de Deus: a Energia de todas as energias.

Leonardo Boff e Mark Hathaway escreveram de O Tao da Libertação (diálogo entre ciência moderna e teologia: Vozes 2012)


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O que se deve aprender do momento de crise atual?



Texto de Leonardo Boff sobre o que se pode aprender da atual crise mundial:


Das muitas reflexões acerca do colapso do sistema neoliberal, três despontam com claridade. 

A primeira é que para salvar o Titanic afundando não bastam correções e regulações no sistema em naufrágio. Precisa-se de uma outra rota que evite o choque com o iceberg: uma produção que não se reja só pela ganância nem por um consumo ilimitado e excludente.

 A segunda, não valem rupturas bruscas na ilusão de que já nos transportariam para um outro mundo possível, pois seguramente implicariam no colapso total do sistema de convivência, com vitimas sem conta, sem a certeza de que das ruínas nasceria uma nova ordem melhor. 

A terceira, a categoria sustentabilidade é axial em qualquer intento de solução. Isso significa: o desenvolvimento necessário para a manutenção da vida humana e para a preservação da vitalidade da Terra não pode seguir as pautas do crescimento até agora vigentes (olho no PAC de Dilma Rouseff). Ele é demasiado depredador do capital natural e parco em solidariedade generacional presente e futura. Importa encontrar um sutil equilíbrio entre a capacidade de suporte e regeneração da Terra com seus diferentes ecossistemas e o pretendido desenvolvimento necessário para assegurar o bem viver humano e a continuidade do projeto planetário em curso que representa a nova e irreversível fase da história.

Esta diligência precisa acolher a estratégia da transição do paradigma atual que não garante um futuro sustentável para um novo paradigma a ser construído pela cooperação intercultural que signifique um novo acerto entre economia e ecologia na perspectiva da manutenção da vida na Terra.

Onde vejo o grande gargalo? É na questão ecológica. Ela é citada apenas en passant nas agendas políticas visando a superação da crise. Na reunião dos G-20 no dia 2 de abril, em Londres, o tema não influiu na formulação dos instrumentos para ordenar o caos sistêmico. Não se trata apenas do mais grave de todos - o aquecimento global -, mas também do degelo, da acidez dos oceanos, da crescente desertificação, do desflorestamento de grandes zonas tropicais e do surgimento do planeta-favela em razão da urbanização selvagem e do desemprego estrutural. E mais ainda: a revelação dos dados que mostram a insustentabilidade geral da própria Terra, cujo consumo humano ultrapassou em 30% sua capacidade de reposição.

Uma natureza devastada e um tecido social mundial dilacerado pela fome e pela exclusão anulam as condições para a reprodução do projeto do capital dentro de um novo ciclo. Tudo indica que os limites da Terra são os limites terminais deste sistema que imperou por vários séculos.
O caminho mais curto para o fracasso de todas as iniciativas visando sair da crise sistêmica é esta desconsideração do fator ecológico. Ele não é uma "externalidade" que se pode tolerar por ser inevitável. Ou lhe conferimos centralidade em qualquer solução possível ou então teremos que aceitar o eventual colapso da espécie humana. A bomba ecológica é mais perigosa que todas as bombas letais já construídas e armazenadas.

Desta vez teremos que ser coletivamente humildes e escutar o que a própria natureza, aos gritos, nos está pedindo: renunciar à agressão que o modelo de produção e consumo implica. Não somos deuses nem donos da Terra mas suas criaturas e seus inquilinos. Belamente termina Rose Marie Muraro um livro a sair em breve pela Vozes "Querendo ser Deus, por quê?". Quando tivermos desistido de ser deuses, poderemos ser plenamente humanos o que ainda não sabemos o que é, mas que já intuíamos desde sempre.

Leonardo Boff

sábado, 19 de janeiro de 2013

O que fazer para ajudar a iluminar o mundo?



O que posso fazer para deixar esse mundo um pouco menos escuro?

Eu acendo meu fósforo... espero que outros acendam também quando o verem... um dia a gente causa um incêndio renovador

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013



Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a Natureza parece
Dizer, em voz comovida,
Que o Homem não a merece. 


Carlos Queirós (1907–1949)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Mandamento que deveria constar no Decálogo e a carta do Cacique Seattle



Diz-se que em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, que habitava na região do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos à época, Francis Pierce, quando o Governo havia dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Não é assim o pragmatismo materialista moderno? Tudo ter um preço? Faz mais de 150 anos, pois, que esta carta foi enviada por um então considerado "primitivo". Mas o desabafo lúcido do cacique tornou-se famoso por conter uma perene atualidade.

Eis a carta:

    "O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.


Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.


    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.


Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.


Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.


    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.


De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.


    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."