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quinta-feira, 7 de março de 2019

Lideranças feministas convocam ofensiva internacional contra a extrema direita


"Vinte e quatro lideranças feministas de diferentes países lançaram nesta quarta-feira (6) um manifesto contra o fortalecimento da extrema direita. Na semana do dia 8 de março, em que se realizam mobilizações em todo o mundo, a ideia é convocar uma ofensiva internacional para “deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos” – segundo o próprio manifesto."

Do GGN:

Lideranças feministas convocam ofensiva internacional contra a extrema direita

"Chegou a hora de levar nosso movimento um passo adiante", diz manifesto lançado nesta quarta-feira (6)
Mulheres preparam mobilização global no dia 8 de março / Agência Brasil

Vinte e quatro lideranças feministas de diferentes países lançaram nesta quarta-feira (6) um manifesto contra o fortalecimento da extrema direita. Na semana do dia 8 de março, em que se realizam mobilizações em todo o mundo, a ideia é convocar uma ofensiva internacional para “deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos” – segundo o próprio manifesto.
O texto, intitulado “Para além do 8 de Março: rumo a uma Internacional Feminista”, pode ser assinado on-line. Para isso, é necessário informar o nome completo e as informações para contato via telefone e e-mail.
Das 24 autoras do manifesto, quatro são brasileiras: a escritora e ativista Antonia Pellegrino; Jupiara Castro, integrante do Núcleo de Consciência Negra; a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco; e Sônia Guajajara, liderança da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Além delas, assinam personalidades como Angela Davis, filósofa socialista estadunidense, e Verónica Gago, liderança do movimento Ni Una Menos na Argentina.
Leia o manifesto na íntegra:
Para além do 8 de Março: rumo a uma Internacional Feminista
Pelo terceiro ano consecutivo a nova onda feminista transnacional chamou um dia de mobilização global no 8 de março: greves legais do trabalho assalariado – como as 5 milhões de grevistas do 8 de março de 2018 na Espanha e as centenas de milhares no mesmo ano na Argentina e na Itália; greves protagonizadas pelas bases de mulheres sem direitos ou proteção trabalhistas, greves do trabalho de cuidado e não pago; greves de estudantes, mas também boicotes, marchas e trancamentos de vias. Pelo terceiro ano consecutivo mulheres e pessoas que por todo o mundo estão se mobilizando contra os feminicídios e toda forma de violência de gênero; pela autodeterminação de seus corpos e acesso ao aborto seguro e legal; por igualdade salarial para trabalhos iguais; pela livre sexualidade. Se mobilizam também contra os muros e fronteiras; o encarceramento em massa; o racismo, a islamofobia e o anti-semitismo; a desapropriação das terras de comunidades indígenas; a destruição de ecossistemas e a mudança climática. Pelo terceiro ano consecutivo, o movimento feminista está nos dando esperança e uma visão para um futuro melhor em um mundo em desmoronamento. O novo movimento feminista transnacional é moldado pelo sul, não só no sentido geográfico, mas também no sentido político, e é nutrido por cada região em conflito. Essa é a razão de ele ser anticolonial, antirracista e anticapitalista.
Estamos vivendo um momento de crise geral. Essa crise não é de forma alguma somente econômica; é também política e ecológica. O que está em jogo nessa crise são nossos futuros e nossas vidas. Forças políticas reacionárias estão crescendo e apresentando-se como uma solução a essa crise. Dos EUA à Argentina, do Brasil à Índia, Itália e Polônia, governos e partidos de extrema direita constroem muros e cercas, atacam os direitos e liberdades LGBTQ+, negam às mulheres a autonomia de seu próprio corpo e promovem a cultura do estupro, tudo em nome de um retorno aos “valores tradicionais” e da promessa de proteger os interesses das famílias de etnicidade majoritária. Suas respostas à crise neoliberal não é resolver a raiz dos problemas, mas atacar os mais oprimidos e explorados entre nós
A nova onda feminista é a linha de frente na defesa contra o fortalecimento da extrema direita. Hoje, as mulheres estão liderando a resistência a governos reacionários em inúmeros países.
Em setembro de 2018, o movimento “Ele Não” juntou milhões de mulheres que se levantaram contra a candidatura de Jair Bolsonaro, que agora tornou-se um símbolo mundial dos planos da extrema direita para a humanidade e o catalisador de forças reacionárias na América Latina. Os protestos ocorreram em mais de trezentas cidades no Brasil e em todo o mundo. Hoje, Bolsonaro está colocando em prática uma guerra contra os pobres, as mulheres, as LGBTQ+ e as pessoas negras. Ele apresentou uma reforma da previdência draconiana e afrouxou as leis de controle das armas. Feminicídios estão disparando num país que já em 2018 tinha um dos maiores números de feminicídios do mundo, sendo 70% dessas mulheres assassinadas negras. 126 feminicídios já ocorreram em 2019. O movimento feminista brasileiro está respondendo esses ataques e se preparando para a mobilização no 8 de março e novamente no 14 de março, no aniversário do assassinato político de Marielle Franco, ao mesmo tempo em que emergem informações sobre os fortes laços entre os filhos de Bolsonaro e um dos milicianos responsáveis por sua morte.
Da mesma forma, o Non Una Meno na Itália é hoje o único movimento organizado respondendo às políticas anti-imigrantes e misóginas do governo de direita da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas. Na Argentina, mulheres lideraram a resistência contra as políticas neoliberais de direita do governo Macri. E, no Chile, o movimento feminista está lutando contra a criminalização da luta dos povos indígenas e o machismo sistêmico de uma educação muito cara.
O movimento feminista também está redescobrindo o significado da solidariedade internacional e da iniciativa transnacional. Nos últimos meses o movimento feminista argentino usou o evocativo nome de “Internacional Feminista” para se referir à prática da solidariedade internacional reinventada pela nova onda feminista, e em alguns países, como a Itália, o movimento está discutindo a necessidades de encontros transnacionais para melhor coordenar e compartilhar visões, análises e experiências práticas.
Diante da crise global de dimensões históricas, mulheres e pessoas LGBTQ+ estão encarando o desafio e preparando uma resposta global. Depois do próximo 8 de março, chegou a hora de levar nosso movimento um passo adiante e convocar reuniões internacionais e assembleias dos movimentos: para tornar-se o freio de emergência capaz de deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos.







segunda-feira, 13 de março de 2017

Carta ao Papa Francisco para a convocação de uma Assembléia Universal das Igrejas, das Religiões e dos Caminhos Espirituais para uma nova Ordem planetária ético-espiritual




Resultado de imagem para espiritualismo x capitalismo

  No mundo inteiro se observa uma espantosa acumulação de riqueza com a qual 1% da humanidade controla quase todos os fluxos financeiros. Tudo é feito à custa de duas injustiças: a social como milhões e milhões de pobres e a ecológica com a exaustão dos bens e serviços da natureza pondo em risco a sustantabilidade da Casa Comum que é  Mãe Terra. Face a esse quadro dramático o Papa Francisco animou o surgimento de um grupo para estudar esta do contradição, que a partir da Argentina estivesse aberto a todos continentes. Criou-se um Observatório da Riqueza Padre Arrupe:para um Novo Sistema Financeiro e Comunicacional Mudial.O grupo inicial começou na Argentina com pessoas notáveis como Perez Esquivel, Zaffaroni e outros. Agora convidamos as pessoas de todos os níveis para apoiarem esta iniciativa que será acompanhada pessoalmente pelo bispo de Roma, o Papa Francisco. As adesões poderão ser feitas no seguinte enderço de e-mail: observatoriopadrearrupe@gmail.com               Leonardo Boff
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                           Querido Papa Francisco, nuestro Hermano Mayor
        Impulsionados por seus pronunciamentos, especialmente pela encíclica “Laudato Si sobre o cuidado da Casa Comum”, por seu impactante discurso na ONU de 2015 y pelos três mensagens aos movimentos populares mundiais, nos animamos escrever-lhe esta carta que contem uma sugestão, amadurecida em muitos grupos de todos os Continentes.
Pensamos que se trata de um passo adiante e complementar aos documentos acima referidos.
Partimos da constatação presente em sua encíclia, de que o sistema Terra e o sistema Vida passam por graves ameaças. Como diz a Carta da Terra:”ou formamos uma aliança global para cuidar dda Terre e uns dos outros ou arriscaremos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo)
As Igrejas, as Religiões e os Caminhos Espirituais, particularmente a Igreja Católica são portadores de mensagens espirituais e éticas. Têm uma responsabilidade fundamental em fazer avançar a consciência da humanidade e dos dirigentes políticos dos povos no sentido de empenhar esforços para garantir um futuro bom para a vida, para a Mãe Terra e para o futuro de nossa civilização.
Sabemos, querido Papa Francisco, nosso Irmão Maior, que o Sr. comparte profundamente desta preocupação com espírito de esperança no poder da criatividade humana e sobretudo na força vital do Espírito Criador, Deus “soberano amante da vida”(Libro da Sabedoria 11,26).
Em razão disso tudo, nos atrevemos fazer-lhe uma proposta por que pensamos que o Sr. alcançou uma autoridade espiritual, moral, ecumênica e política para iniciar este processo em nome de toda a humanidade, que foi também o sentido de sua encíclica Laudato Si.
Trata-se simplesmente de solicitor-lhe que o Espírito que o illumine para convocar uma Assembléia Universal das Igrejas, Religiões e Caminhos Espirituais para conciliar e aprofundar temas que concernem ao futuro de nossa espécie e da diversidade da vida na única Casa Comum que temos.
Ousamos dar forma concreta a suas inspirações e iluminações.
O tema geral poderia ser formulado assim:
Una nova ordem ético-espiritual na economia, na política, na cultura, na sociedade e nos hábitos de cada pessoa individual.
         Pensamos, como mera sugestão, alguns tópicos que nos parecem essenciais:
  • a espiritualidade como un processo antropológico atuante em cada ser humano;
  • A água como um bem natural, essencial, comum e insubstituível;
  • A sustentabilidade de todos os seres, especialmente da natureza e dos organismos vivos;
  • A fome no mundo e o direito a uma alimentação saudável e suficiente para todos;
  • Os direitos da Mãe Tera e da natureza;
  • Os direitos dos povos a sua soberania e ao respeito de suas culturas, religiões e tradições;
  • Os direitos humanos individuais e sociais;
  • A condenação de todo tipo de guerra, especialmente, as preventivas, e a elaboração de propostas de paz;
  • O direito a um desenvolvimento pleno da consciência;
  • A economia solidária dos bens comuns da Mãe Terra e da Humanidade;
  • A urgência de uma governabilidade plural do planeta Terra. E assim realizar o que se disse na Academia Pontifícia de Ciências em seu documento:”Humanidade e natureza sustentável, nossa responsabilidade”:”uma redistribuição da riqueza é alcançavel, pois as bases tecnológicas e operativas de um desenvolvimento sustentável já estão disponíveis e de fácil acesso”.
Estas são apenas algumas sugestões.
Evidentemente, cada grupo convidado tratará de convidar seu corpo de especialistas, pessoas de notório saber e de boa fé, independentemente de sua inscrição religiosa ou espiritual.
Querido Papa Francisco, foi com muita reflexão e oração que nos veio à mente esta proposta que seguramente o Sr. saberá acolher. Pedimos ao Espírito que o encoraje em suas inspirações e decisões e leve à realização este propósito, pensando especialmente nos mais vulneráveis.
Esta Assembléia Universal sera inaugurada mas sem prazo para ser concluída.
Com nossas orações e desejos, expressando nossa admiração e total apoio a suas iniciativas humanitárias, corajosas e evangélicas.
Promovido pelo Observatorio dela Riqueza para un Nuevo Orden Financiero y Comunicacional Padre Arrupe
 Enviar as adesões a
observatoriopadrearrupe@gmail.com
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Segue agora a versão em espanhol desta carta dirigida ao Papa que lhe será entregue pessoalmente entre fins de fevereiro e começos de março do corrente ano em Roma.
Carta al Papa Francisco para la convocación de una Asamblea Universal de las Iglesias, de las Religiosos y de los Caminos espirituales para un nuevo Orden planetario etico-espiritual            
                          Querido Papa Francisco,nuestro Hermano Mayor
       Impulsionados por sus pronunciamientos, especialmente por la encíclica “Laudato Si sobre el cuidado de la Casa Comum” por su impactante discurso en la ONU de 2015 y por los tres mensajes e los movimientos populares mundiales, nos animamos escribirle esta carta que contiene una sugerencia madurada en muchos grupos de todos contienentes.
Pensamos que es un paso adelante y complementar a los documentos referidos arriba.
Partimos de la constatación, presente en su encíclica, de que el sistema Tierra y el sistema vida pasan por grandes amenazas. Como dice la Carta de la Tierra:”o formamos una alianza global para cuidar de la Tierra y de unos y otros, o arriegaremos nuestra propria destrucción y a la diversidad de la vida”(Preambulo).
Las Iglesias, las religiones y los caminos espirituales, particularmente, la Iglesia Católica, son todos portadores de mensajes espirituales y éticos. Tienen una resposabilidad fundamental en hacer avanzar la conciencia de la humanidad y de los dirigentes politicos de los pueblos en el sentido de empeñar esfuerzos para garantizar un futuro bueno para la vida, para la Madre Tierra y para el futuro de nuestra civilización.
Sabemos, querido Papa Francisco, Hermano Mayor, que Usted comparte profundamente esta preocupación con espíritu de esperanza en el poder de la creatividad de ser humano y más que todo en la fuerza vital del Espíritu Creador,”soberano amante de la vida”(Libro de la Sabiduria 11,26).
En razón de todo esto, nos atrevemos hacerle una propuesta por que pensamos que Usted ha alcanzado una autoridad espiritual, moral, ecuménica  y política para iniciar este proceso en nombre de toda la humanidad, como lo ha hecho antes con la enciclica Laudato Si.
Se trata sencillamente pedirle, que el Espiritu lo ilumine, para convocar una Asamblea Universal de las Iglesias, Religiones y Caminos Espirituales para conciliar y profundizar temas que atañen al futuro de nuestra especie y de la diversidad de la vida en la unica Casa Común que tenemos.
Imaginamos así la puesta en concreto de sus inspiraciones e iluminaciones.
El tema general podria ser formulado asi:
Un nuevo orden ético-espiritual en la economia, en la política, en la sociedad y en los            habitos de cada persona.
Pensamos como mera sugerencia algunos tópicos que nos parecen esenciales:
  • La espiritualidad, como un proceso antropológico en marcha en cada ser humano;
  • El agua como bien natural, esensial, común e insusituible;
  • La sostenibilidad de todos los seres, especialmente de la naturaleza y de la vida.
  • El hambre en el mundo y el derecho a una alimentación saludable y suficiente para todos;
  • Los derechos de la Madre Tierra y de la naturaleza;
  • Los derechos de los pueblos a su soberania y al respeto de sus culturas y tradiciones;
  • Los derechos humanos individuales y sociales;
  • Condenar todo tipo de guerra especialmente preventivas y elaborar propuestas de paz.
  • El derecho a un desarollo pleno de la conciencia;
  • La economia solidaria de los bienes communes de la Madre Tierra y da Humanidad;
  • La urgencia de una gobernabilidad plural del planeta Tierra. Y así realizar lo que se dijo en la Academia Pontificia de Ciencias en su documento:”Humanidad y naturaleza sostenible: nuestra responsabilidad”: “una redistribución justa de la riqueza, lejos de ser inalcanzable, las bases tecnológicas y operativas de un desarrollo sotenible ya están disponibles o bien de facil acceso”.
Estas son solamente algunas sugerencias.
Evidentemente cada grupo invitado tratará de traer su cuerpo de especialistas y de conocedores de los temas en cuestión. Otras personas de notorio saber y de buena fe, independemente, de su inscripción religiosa o espiritual, deberian ser invitadas.
Querido Papa Francisco, fué con mucha reflexión y oración que nos vino esta propuesta que seguramente Usted sabrá valorar. Pedimos al Espíritu que lo illumine con sus inspiraciones y conduzca semejante propósito a su realización urgente, especialmente por los más vulnerables. Será abierta y sin plazo para ser concluida.
Con nuestras oraciones y deseos, expresando nuestra admiración y total apoyo a sus iniciativas universales, humnitarias, valientes y evangélicas.
Promovido por Observatorio dela Riqueza para un Nuevo Orden Financiero y Comunicacional Padre Arrupe
 Adhesiones enviar a:
observatoriopadrearrupe@gmail.com

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma Nova Aliança entre Ciências e Religião?




Texto de

Leonardo Boff


Cada época cultural estabelece seu diálogo com a natureza. Ora enfatiza seu caráter imponderável e por isso mágico; ora capta sua profunda simetria  e daí a natureza como cosmos; e outras vezes ainda seu aspecto criativo, irredutível à lógica linear. Segundo Alexandre Koyré e Ilya Prigogine (dois teóricos da ciência) é o diálogo experimental que constitui a prática específica da ciência moderna. Hoje para além dela, parece ser a prática holística aquela que caracteriza a abordagem contemporânea da natureza. 
Todas as pronúncias do mundo são complementares e ajudam na decifração daquilo que é mais do que o enigma da natureza, vale dizer, o seu verdadeiro mistério.
Para a visão contemporânea, o universo constitui mais e mais uma realidade incognoscível. Ela é continuamente desafiada a conhecer num processo que não tem fim. Por esta razão é importante tomar a sério as várias janelas que os distintos saberes abrem para a compreensão da natureza. Daí surge seu caráter holístico (totalizante e sintético).

De todas as formas, a leitura do mundo pertence ao complexo cultural do tempo e se inscreve no concerto das demais  práticas. Da dialogação do ser humano com a natureza surgem as  várias cosmologias. Cada cosmologia se orienta por uma imagem do mundo resultante dos mais distintos saberes.

Curiosamente, cada comologia suscita a questão de Deus. E com razão, pois como dizia o grande físico David Bohm, (prêmio Nobel):”as pessoas intuem  uma forma de inteligência que organizou, no passado, o universo e a personalizaram chamando-a “Deus”.

A cosmologia antiga via o mundo na metáfora da pirâmide. Deus se encaixava aí perfeitamente, como  o cume de todos os seres. Na cosmologia moderna de A. Newton e de G. Galilei o mundo era visto como uma máquina que funciona com suas leis determinísticas. Deus entra como  o arqueteto do universo  que  no início colocou a máquina em funcionamento. E não precisa mais acompanhá-la. A cosmologia contemporânea considera o mundo como um jogo ou uma dança ou uma teia ou uma rede. Já há décadas, se reconhece que o universo constitui um imenso jogo de forças em interação, uma dança cósmica de partículas sempre interdependentes, formando campos de matéria e de energia cada vez mais ordenados, até que nos seres vivos ganha autoregulação que escapa à segunda lei da termodinâmica: a entropia. A seta do tempo, ao invés de nos conduzir para a desordem máxima e a morte térmica, nos introduz a patamares sempre mais altos de sentido e de criatividade. É a visão de Ilya Prigogine (prêmio Nobel) com suas estruturas dissipativas.

O que mais fascina os cientistas é a constatação da harmonia e da beleza do universo. Tudo parece ter sido montado para que, da profundidade abissal de um oceano de energia primodial (o vácuo quântico), devessem surgir o campo de Higgs, os bósons, as partículas elementares, depois a matéria ordenada, em seguida a matéria complexa que é a vida e por fim a matéria em sintonia completa de vibrações, formando uma suprema unidade  holística: a consciência (condensado Bose-Einstein de tipo Fröhlich/Prigogine).


Como dizem os formuladores do princípio andrópico (forte e fraco, Brandon Carter, Hubert Reeves e outros): se as coisas não tivessem ocorrido como ocorreram, não estaríamos aqui para falar delas. Quer dizer, para que  pudéssemos estar aqui, foi necessário que todos os fatores cósmicos, em todos os 13,7 bilhões de anos, tivessem se articulado e convergido de tal forma que fosse possível (mas não necessário) a complexidade, a vida e a consciência. Caso contrário nada exisitira daquilo que hoje existe.

Há uma minuciosa calibragem de medidas sem as quais as estrelas jamais teriam surgido ou  eclodido a vida no universo. Por exemplo, caso a interação nuclear forte (aquela que mantem a coesão dos núcleos atômicos) tivesse sido 1% mais forte, jamais se formaria o  hidrogêneo que combinado com o oxigênio nos daria a água, imprescindível aos seres vivos.

Em cada coisa encontramos o todo, o caos sendo criativo, as forças interagindo, as partículas se articulando, a estabilização da matéria acontecendo, a abertura  para novas relações se dando e a vida criando ordens cada vez mais sofisticadas e autoconsciente.

A verificação desta  ordem do universo faz surgir nos cientistas, como em Einstein, Heisenberg, Bohm, Prigogine, Swimme e outros  o sentimento de assombro e de veneração. Ela nos abre para os espaços infinitos da indagação humana: o que existia antes da existência temporal do universo? por que existe o ser e não o nada? que é Aquela realidade que se apresenta como o ordenador e o sustentador de todos os fenômenos?

Ela tem um nome, da nossa reverência e de nossa unção. Um filósofo como J.Guitton podia dizer:”não ouso nomeá-la, pois qualquer nome é imperfeito para designar o Ser sem semelhança”. Um teólgo ousa mais: chama-o de Deus: a Energia de todas as energias.

Leonardo Boff e Mark Hathaway escreveram de O Tao da Libertação (diálogo entre ciência moderna e teologia: Vozes 2012)