segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O capitalismo e a felicidade (re)apresentada de cima para baixo, por Romulo Moreira




O capitalismo, erigindo o crescimento econômico como “o bem supremo, ou pelo menos uma via para o bem supremo”, acabou por fazer dependentes daquele crescimento “a justiça, a liberdade e até mesmo a felicidade.”


Arte de Beatriz Simões

O capitalismo e a felicidade

por Romulo Moreira

O Professor Yuval Noah Harari, da Universidade hebraica de Jerusalém, é Doutor em História pela Universidade de Oxford e especializado em História mundial. Autor de vários livros e escritos, alguns dos quais já traduzidos para o português, ele costuma tratar de questões históricas de uma maneira bastante abrangente, relacionando a História com a Biologia, por exemplo. Um de seus livros mais conhecidos, que se tornou um best-seller internacional, publicado em mais de quarenta países, chama-se “Sapiens: Uma breve História da Humanidade.[1]
Trata-se de uma obra “realmente impressionante, de se ler num fôlego só, pois questiona nossas ideias preconcebidas a respeito do universo[2], “ilumina as grandes questões da história e do mundo moderno[3] e foi escrito “de verdade, com gosto, clareza, elegância e um olhar clínico para a metáfora.[4]
Neste ensaio abordarei quatro temas que são muito bem analisados pelo autor, e ele o faz numa perspectiva absolutamente original e surpreendente. A primeira questão diz respeito às origens do capitalismo, e lembra Adam Smith, em “A Riqueza das Nações”: “Quando um proprietário de terras, um tecelão ou um sapateiro tem mais lucro do que precisa para manter a própria família, ele usa o excedente para empregar mais assistentes, a fim de aumentar seu lucro. Quanto mais lucro tiver, mais assistentes pode empregar. Daí decorre que um aumento no lucro dos empreendedores privados é a base para o aumento na riqueza e prosperidade coletivas.”[5]
Ora, “o que Smith afirma é, na verdade, que a ganância é algo bom e que ao ficar mais rico eu beneficio a todos, e não só a mim mesmo.” Logo, “egoísmo é altruísmo.” Com isso, Smith “negou a contradição entre riqueza e moralidade e escancarou os Portões do Céu para os ricos”, pois “ser rico significava ser moral.” Para o economista britânico, portanto, “as pessoas ficam ricas não saqueando os vizinhos, e sim aumentando o tamanho do boloQuando o bolo cresce, todos se beneficiam, os ricos são, portanto, as pessoas mais úteis e benévolas da sociedade, porque impulsionam o crescimento em benefício de todos.”
Eis uma lição repetida no Brasil pelos atuais detentores do Poder, especialmente do poder econômico, e seus representantes neoliberais que ocupam as principais funções públicas em nosso País.
Assim, uma consequência “crucial da economia capitalista moderna foi o surgimento de uma nova ética, segundo a qual os lucros tinham de ser reinvestidos na produção.” Esta ideia, derivada dos princípios oriundos do sistema capitalista e, por óbvio, de suas concepções neoliberais, evidentemente, trata-se de uma incrível falácia (esta última afirmação é minha), pois nada garante (muito pelo contrário) que os ricos gananciosos usarão “seus lucros para abrirem novas fábricas e contratarem novos empregados, em vez de desperdiçá-los em atividades não produtivas”, diz Harari.
Como dizem Dardot e Laval, “o neoliberalismo é precisamente o desenvolvimento da lógica do mercado como lógica normativa generalizada, desde o Estado até o mais íntimo da subjetividade”, razão pela qual “muitos psicanalistas dizem receber no consultório pacientes que sofrem de sintomas que revelam uma nova era do sujeito. Esse novo estado subjetivo é frequentemente referido na literatura clínica a amplas categorias, como a ´era da ciência` ou o ´discurso capitalista`.[6]
A consequência é que “as pessoas alteram seu comportamento porque pagamentos regulares e grande capacidade de crédito lhes dá acesso à mais extraordinária gama de escolhas, de roupas e restaurantes, a viagens de volta ao mundo. O controle social passa a localizar-se não apenas na performance no trabalho, mas no status financeiro”, levando com que as pessoas sejam tratadas “como mercadorias, como coisas e como essências.”(Yong)[7]
O neoliberalismo atinge todas as esferas do viver e do conviver, e o faz de uma maneira tão nociva que contamina a todos, ainda que a grande maioria nem sequer se dê conta do desastre que, mais cedo ou mais tarde – ou agora! – ocorrerá. Veja-se, entre nós, os casos chileno, argentino e equatoriano.
Há no mundo, e no Brasil não poderia se dar o oposto, o que Milton Santos chamava de “uma concorrência superlativa entre os principais agentes econômicos – a competitividade”, permitindo “a emergência de um lucro em escala mundial, buscado pelas firmas globais que constituem o verdadeiro motor da atividade econômica”, “produzindo ainda mais desigualdades. E, ao contrário do que se esperava, crescem o desemprego, a pobreza, a fome, a insegurança do cotidiano, num mundo que se fragmenta e onde se ampliam as fraturas sociais.”[8] Para o baiano, “o modelo de desenvolvimento neoliberal, dada a sua maior dependência dos mercados e do setor privado, exige um marco jurídico para o desenvolvimento que fomente o comércio, os investimentos e o lucro.”[9]
Desse modo, para ficarmos no exemplo de Smith, quem garante que o sapateiro ganancioso não vai aumentar seus lucros exatamente “pagando menos aos empregados e aumentando a jornada de trabalho deles?” (Para isso, aliás, eles podem contar, por exemplo, com leis trabalhistas flexíveis, como agora acontece em nosso País).
O certo, como a História mostrou e nós sabemos, é que o que começou “como uma doutrina econômica”, acabou, desgraçadamente, concebido como “um conjunto de ensinamentos sobre como as pessoas devem se comportar, educar seus filhos e até mesmo pensar.” Uma verdadeira ética, portanto!
O capitalismo, erigindo o crescimento econômico como “o bem supremo, ou pelo menos uma via para o bem supremo”, acabou por fazer dependentes daquele crescimento “a justiça, a liberdade e até mesmo a felicidade.” Acontece que “quando o crescimento se torna um bem supremo, irrestrito por qualquer outra consideração ética, pode facilmente levar à catástrofe.”
Esta religião (a expressão é de Harari), que acredita “no crescimento econômico perpétuo”, é de uma tal tolice que “desafia quase tudo que conhecemos sobre o universo.” Compara, então, o autor: “uma sociedade de lobos seria extremamente tola em acreditar que a oferta de ovelhas continuaria crescendo por tempo indefinido.”
Ele, inclusive, e muito acertadamente, responsabiliza o capitalismo pela escravidão, pois, enquanto “no fim da Idade Média, a escravidão era quase desconhecida na Europa cristã”, no começo “da era moderna, a ascensão do capitalismo europeu andou de mãos dadas com a ascensão do comércio de escravos no Atlântico, que não era controlado por nenhum Estado ou governo. Forças mercantis irrestritas (o capital e a mercadoria, digo eu), e não reis tirânicos ou ideólogos racistas, foram responsáveis por essa calamidade.” O capitalismo “matou milhões por pura indiferença unida à ganância, pois o comércio de escravos no Atlântico não derivou do ódio racista para com os africanos”, mas com a sede de lucro que este comércio representava. Para além da escravidão, a Revolução Industrial, e o capitalismo como consequência, “condenou milhões de trabalhadores a uma vida de pobreza abjeta”, enquanto “enriqueceu os banqueiros e os donos do capital.”
Na sequência, o Professor Harari passa a analisar o “culto ao livre mercado, hoje a mais comum e mais influente variante do credo capitalista.” Os seus adeptos e os seus arautos aconselham os governos, tais como “os mestres zen fazem com seus iniciantes”, que “simplesmente não façam nada.” Ora, esta “crença no livre mercado é tão ingênua quanto a crença no Papai Noel”, mesmo porque nunca existiu, tampouco haverá “um mercado completamente isento de interesses políticos.” Veja-se o exemplo brasileiro.
Quando o Estado “falha em sua função e não regula o mercado devidamente, a consequência é a perda de confiança, a redução de crédito e a depressão econômica.” E ele cita dois exemplos: a Bolha do Mississipi, em 1719, e a bolha imobiliária nos Estados Unidos, em 2007, ambas causas de uma gravíssima crise creditícia e uma profunda recessão. Assim, algo que parece ser, à primeira vista, praticamente irrespondível (a teoria do livre mercado), não resiste a uma análise mais aprofundada, mesmo porque, e certamente, “em um mercado completamente livre, não supervisionado por reis e padres, capitalistas avarentos podem criar monopólios ou entrar em conluio contra sua mão de obra”, que ficaria, assim, sem qualquer possibilidade de migrar de um empregador para outro.
Ademais, e essa é “a pedra no sapato do capitalismo de livre mercado, não há como garantir que os lucros sejam ganhos de forma justa, ou distribuídos de maneira justa”, mesmo porque, como mostram a mancheias os exemplos que todos nós conhecemos, “a ânsia por aumentar os lucros e a produção cega as pessoas para qualquer coisa que possa estar no caminho.” E arremata: “O crescimento da economia moderna talvez se revele uma fraude colossal”, pois “a espécie humana e a economia global podem muito bem continuar crescendo, mas muito mais indivíduos passam fome e privação.”
Então, qual é a consequência de tudo isso? É exatamente o surgimento de uma outra ética: o consumismo! O raciocínio do Professor israelense é preciso: se a economia capitalista, para a sua própria sobrevivência, precisa aumentar desesperadamente a produção, e como só produzir não basta, “também é preciso que alguém compre os produtos, ou os industrialistas e os investidores irão à falência.” Logo, é preciso comprar. Comprar é preciso, viver não é preciso, como diriam os argonautas.[10]
A humanidade já viveu tempo, cuja frugalidade era “sua palavra de ordem”, como lembra a “ética austera dos puritanos e a dos espartanos.” Hoje, bem ao contrário, “o consumo de cada vez mais produtos e serviços é visto pelo consumismo como algo positivo e a frugalidade é uma doença a ser curada, uma auto opressão.
Em nosso mundo atual, as pessoas são levadas mesmo a “se matarem pouco a pouco pelo consumo exagerado, compramos uma série de produtos de que não precisamos realmente e que até ontem não sabíamos que existiam.” A cada dia são criados “deliberadamente produtos de vida curta e inventados modelos novos e desnecessários de produtos perfeitamente satisfatórios que devemos comprar para ´não ficar de fora`. Ir às compras se tornou um passatempo favorito e os feriados religiosos como o Natal se tornaram festivais de compras.
A situação é de uma tristeza profunda (digo eu), pois “há muitos indícios de que estamos destruindo as bases da prosperidade humana em uma orgia de consumo desenfreado”, diz ele, concluindo que a “ética capitalista e a consumista são dois lados da mesma moeda, uma combinação de dois mandamentos. O mandamento supremo dos ricos é ´invista!`. O mandamento supremo do resto de nós é ´compre`!”.
E a felicidade? Para ele, há vários modos de tratar este tema. Pode-se, por um lado, discuti-la desde um ponto de vista puramente material. Neste sentido, fatores materiais, como a saúde, a dieta e a riqueza, serviriam de parâmetros para “medir” a felicidade humana. Assim, “se as pessoas são mais ricas e mais saudáveis, também devem ser mais felizes.” Sob outro aspecto – o preferido pelos filósofos, padres e poetas durante milênios -, “fatores sociais, éticos e espirituais têm tanta influência sobre nossa felicidade quanto as condições materiais.”
Uma terceira ideia – desenvolvida nas últimas décadas, especialmente pelos biólogos – é estudar a felicidade cientificamente, levando-se em consideração que o “nosso mundo mental e emocional é governado por mecanismos bioquímicos definidos por milhões de anos de evolução.” Logo, não são fatores externos, “como salário, relações sociais ou direitos políticos” que, necessariamente, trazem a felicidade.” Ao contrário, nosso “bem-estar subjetivo é determinado por um complexo sistema de nervos, neurônios, sinapses e várias substâncias bioquímicas como serotonina, dopamina e oxitocina.” Ficamos felizes não porque ganhamos na loteria ou compramos uma casa nova, ou um carro de luxo, ou porque nos apaixonamos ou fazemos uma viagem para o exterior. Na verdade, “as pessoas ficam felizes por um único motivo: sensações agradáveis em seu corpo, causadas pelos hormônios que inundam sua corrente sanguínea, pela tempestade de sinais elétricos pipocando em diferentes partes do seu cérebro.”
Portanto, a espécie humana evoluiu “para sermos nem felizes demais, nem infelizes demais, mas para sentirmos um ímpeto momentâneo de sensações agradáveis, que nunca duram para sempre, pois, mais cedo ou mais tarde, diminuem e dão lugar a sensações desagradáveis.” Neste aspecto, a questão da felicidade está intrinsicamente ligada ao nosso sistema bioquímico, havendo “algumas pessoas que nascem com um sistema bioquímico alegre” (e são geralmente felizes e contentes), enquanto outras “são amaldiçoadas com uma bioquímica melancólica, que as tornam infelizes e deprimidas mesmo que desfrute do apoio de uma comunidade coesa, ganhe milhões na loteria e seja tão saudável quanto um atleta olímpico.” O cérebro de tais pessoas (no segundo caso), “simplesmente não é projetado para a euforia, aconteça o que acontecer.
Para demonstrar tal assertiva, Harari leva-nos a pensar por um instante em nossa família e em nossos amigos. Certamente conhecemos “algumas pessoas que estão sempre relativamente alegres, não importa o que aconteça com elas.” Mas, também conhecemos outras tantas “que estão sempre insatisfeitas, não importa que dádivas o mundo deite a seus pés.”
Obviamente, não há “fanatismo” dos biólogos nestas conclusões, pois admitem, nada obstante “a felicidade ser determinada principalmente pela bioquímica, fatores psicológicos e sociológicos também têm o seu lugar.”
Mas, esta concepção de felicidade também sofre contestação, como, por exemplo, a do economista comportamental Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, para quem, a partir de estudos empíricos, “há um importante componente ético e cognitivo na felicidade, consistindo em enxergar a própria vida em sua totalidade como algo significativo e valioso.” Assim, desde um ponto de vista nietzschiano, “se há um motivo para viver, tolera-se praticamente qualquer coisa, pois uma vida cheia de sentido pode ser extremamente gratificante mesmo em meio a adversidades, ao passo que uma vida sem sentido é um suplício terrível independentemente de ser repleta de conforto.”
Eis, então, a grande questão: o sentido da vida!, pois, “até onde sabemos, de um ponto de vista puramente científico, a vida humana não tem sentido algum e qualquer significado que as pessoas atribuem à própria vida é apenas uma ilusão.”
Ora, “se a felicidade se baseia em ter sensações agradáveis, para sermos mais felizes precisamos reformular nosso sistema bioquímico.” Mas, se ao contrário, ela se baseia “em sentir que a vida tem sentido, para sermos mais felizes precisamos nos iludir de maneira mais eficaz.” Observe-se que ambas as visões “partem do pressuposto de que a felicidade é uma espécie de sensação subjetiva (de prazer ou de sentido).”
Haveria, então, outras possibilidades? Para ele, o budismo faz uma abordagem particularmente interessante a respeito da felicidade. Apesar de concebê-la da mesma forma que a biologia, ou seja, como uma resultante “de processos que ocorrem em nosso corpo, e não de acontecimentos no mundo externo”, a religião budista chega a conclusões distintas, especialmente a de que “a maioria das pessoas identifica sensações agradáveis como felicidade e sensações desagradáveis como sofrimento”, razão pela qual, ao longo de sua existência, “atribuem enorme importância ao que sentem, ávidas por vivenciar cada vez mais sensações agradáveis e por evitar sensações desagradáveis.”
A questão é que tais momentos felizes são muito transitórios – tais “como as ondas do oceano que mudam a cada instante” -, o que leva o homem (e a mulher) a perseguir constantemente aquelas “sensações agradáveis” e a tentar afastar “as sensações desagradáveis.” Ocorre que como aquelas são sempre transitórias, “logo temos de começar tudo de novo, sem jamais obter recompensas duradouras por nossos esforços.” São, portanto, sempre “prêmios efêmeros.” E, se são assim transitórios, por que os perseguir por toda uma existência? Eis, para os budistas, a raiz do sofrimento humano: “essa incessante e inútil busca de sensações efêmeras, que nos leva a estar em um constante estado de tensão, inquietude e insatisfação”, motivo que faz a nossa mente nunca estar satisfeita, ainda quando sentimos prazer, pois ela “teme que essa sensação logo desapareça e deseja ardentemente que permaneça e se intensifique.”
Logo, só nos libertaremos desse sofrimento “quando entendermos a natureza transitória de todos os nossos sentimentos e pararmos de persegui-los.” Somente assim, libertos dessa busca inútil, a nossa mente ficará “tranquila, clara e satisfeita e, apesar de sentimentos de todo tipo continuarem indo e vindo – alegria, raiva, tédio, desejo – não mais ansiamos por sentimentos específicos, mas simplesmente aceitamos tais como são. Que paz!
Se Buda concordava com a biologia quando admitia que a felicidade independia de condições externas, dela discordava, pois “a verdadeira felicidade também independe de nossas sensações interiores, pois quanto mais importância damos a nossas sensações, mais ansiamos por elas, e mais sofremos. A recomendação de Buda era parar a busca não só de conquistas externas, como também, acima de tudo, parar a busca de sensações internas.[11]
Concluindo: o caminho para a felicidade “é conhecer a verdade sobre você mesmo – entender quem, ou o que, você é realmente” e acabar com “a busca incessante por determinadas sensações que só aprisiona ao sofrimento.” Aí reside a principal questão: conhecer seu verdadeiro eu. Se o desconhecemos, ignoramos a verdadeira felicidade. Aqui Harari lembra a principal razão de ser da psicoterapia: “as pessoas não se conhecem realmente e às vezes precisam de ajuda profissional para se livrarem de comportamentos autodestrutivos.”[12] De toda maneira, acerca da felicidade, “é cedo demais para adotar conclusões rígidas e encerrar um debate que mal começou.
Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS
[1] Londres: Harvill Secker, 2014. São Paulo: L&PM Editores, 2015.
[2] The Guardian.
[3] Jared Mason Diamond, biólogo evolucionário, fisiologista, biogeógrafo estado-unidense. Vencedor do Prêmio Pulitzer de 1998, pelo “Armas, Germes e Aço”, publicado no Brasil pela Editora Record.
[4] The Times.
[5] Este trecho está no Volume I, Capítulo VIII, da obra “A Riqueza das Nações.”
[6] DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian, “A Nova Razão do Mundo – Ensaio sobre a sociedade neoliberal”, São Paulo: Editora Boitempo, 2016, páginas 34 e 321.
[7] YONG, Jock, “A sociedade excludente – Exclusão social, criminalidade e diferença na modernidade recente”, Rio de Janeiro: Editora Revan, 2002, páginas 279 e 285.
[8] SANTOS, Milton, “O País distorcido”, São Paulo: Publifolha, 2002, 3ª. edição, página 80.
[9] SANTOS, Boaventura de Souza, “Para uma revolução democrática da Justiça”, São Paulo: Cortez Editora, 2010: 3ª. edição, páginas 30 e 31.
[10] “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim o espírito d’esta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha”. (Fernando Pessoa, http://sualingua.com.br/2009/04/29/navegar-e-preciso/, acessado em 04 de fevereiro de 2019).
[11] Siddhartha Guatama, o Buda (“aquele que está totalmente desperto ou iluminado”), nasceu em 563 a.C., no norte da Índia. Filho de uma família rica, “concluiu, ao chegar à idade adulta, que sua vida de conforto era incompatível com a crescente conscientização das dificuldades da existência e a certeza da morte. Além disso, o conforto material não oferecia nenhuma proteção contra essa dura realidade”, levando-o a uma “busca religiosa para encontrar a origem do sofrimento e uma forma de superá-lo.” Ele dizia “que a busca pela felicidade leva as pessoas a direção errada. Os indivíduos desejam coisas – sexo, riqueza, poder, posses materiais – na esperança de que essas coisas as façam felizes, mas isso não acontece, pois a origem do sofrimento é o desejo de obter o que querem, imaginando que, se conseguirem realizar o que desejam, todos os seus problemas serão resolvidos.” Este desejo, que a nós parece ser essencial e natural, na verdade, “é contraproducente, gerando apenas mais sofrimento e infelicidade.” Dizia ele que como tudo tem uma causa, o sofrimento também a tem, de tal forma que se a sua causa for removida, acabará o seu sofrimento. E a causa do sofrimento é, rigorosamente, o desejo: “por conseguinte, se o desejo for removido, o sofrimento deixará de existir.” Somente assim, chegar-se-ia ao nirvana, “um estado de paz para além do desejo ou anseio por qualquer coisa ou por alguém.” (O Livro das Religiões, São Paulo, Editora Globo, 2014, páginas 138 e 139).
[12] Sem tratar, obviamente, da questão específica da felicidade, Freud, em 1920, escreveu um ensaio, “Além do princípio do prazer”, no qual afirma “que o curso dos processos psíquicos é regulado automaticamente pelo princípio do prazer; isto é, acreditamos que ele é sempre incitado por uma tensão desprazerosa e toma uma direção tal que o seu resultado final coincide com um abaixamento dessa tensão, ou seja, com uma evitação do desprazer ou geração do prazer.” Para ele, prazer e desprazer estão relacionados “com a quantidade de excitação existente na vida psíquica, de tal modo que o desprazer corresponde a um aumento, e o prazer, a uma diminuição dessa quantidade.” (Obras Completas, Volume 14, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, páginas 162 e 163).

domingo, 8 de dezembro de 2019

Cercado de fascistas, fiquei com saudade de um pequeno rei sábio, por Sebastião Nunes




Ah, que saudades que tenho de quando o presidente da Funarte entendia de arte, o ministro da educação sabia escrever e havia, na área da cultura, pessoas realmente cultas ligadas à música e à literatura

Cercado de fascistas, fiquei com saudade de um pequeno rei sábio

Por Sebastião Nunes, no GGN

Ah, que saudades que tenho de quando o presidente da Funarte entendia de arte, o ministro da educação sabia escrever e havia, na área da cultura, pessoas cultas ligadas à música e à literatura. Em suma, quando havia vida inteligente no governo, no lugar dessa quantidade espantosa de débeis mentais.
Como foi que isso aconteceu? Quando foi que os corações e mentes deste país, distraídos por suas ainda pequenas conquistas, permitiram essa avalanche inacreditável de estupidez, intolerância, burrice e ignorância?
De que esgoto, de que cloaca, de que subterrâneo imundo saíram eles?
Quase um ano depois, ainda é difícil acreditar que estejamos mergulhados numa inacreditável Idade Média mental, com uma multidão asquerosa de criaturas patéticas ocupando os postos mais importantes do país.
 Resolvi, então, reproduzir, pela segunda vez, um texto escrito para crianças.
Trata-se do capítulo X do livro infantil “O pequeno príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1943, um ano antes de sua morte.
À medida que o copio, imagino como o aviador-humanista Saint-Exupéry ficaria horrorizado se aterrizasse em Brasília, nossa infeliz e absurda capital federal.
“Ele se achava na região dos asteroides 325, 326, 327, 328, 329, 330. Começou, pois, a visitá-los, para procurar uma ocupação e se instruir.
O primeiro era habitado por um rei. O rei sentava-se, vestido de púrpura e arminho, num trono muito simples, posto que majestoso.
– Ah! Eis um súdito, exclamou o rei ao dar com o principezinho.
E o principezinho perguntou a si mesmo:
– Como pode ele reconhecer-me, se jamais me viu?
            Ele não sabia que, para os reis, o mundo é muito simplificado. Todos os homens são súditos.
– Aproxima-te, para que eu te veja melhor, disse o rei, todo orgulhoso de poder ser rei para alguém.
O principezinho procurou com os olhos onde sentar-se, mas o planeta estava todo atravancado pelo magnífico manto de arminho. Ficou, então, de pé. Mas, como estava cansado, bocejou.
– É contra a etiqueta bocejar na frente do rei, disse o monarca. Eu o proíbo.
– Não posso evitá-lo, disse o principezinho confuso. Fiz uma longa viagem e não dormi ainda…
– Então, disse o rei, eu te ordeno que bocejes. Há anos que não vejo ninguém bocejar! Os bocejos são uma raridade para mim. Vamos, boceja! É uma ordem!
– Isso me intimida… eu não posso mais… disse o principezinho todo vermelho.
– Hum! Hum! respondeu o rei. Então… então eu te ordeno ora bocejares e ora…
Ele gaguejava um pouco e parecia vexado.
Porque o rei fazia questão fechada de que sua autoridade fosse respeitada. Não tolerava desobediência. Era um monarca absoluto. Mas, como era muito bom, dava ordens razoáveis.
“Se eu ordenasse, costumava dizer, que um general se transformasse em gaivota, e o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha.”
– Posso sentar-me? interrogou timidamente o principezinho.
– Eu te ordeno que te sentes, respondeu-lhe o rei, que puxou majestosamente um pedaço do manto de arminho.
Mas o principezinho se espantava. O planeta era minúsculo. Sobre quem reinaria o rei?
– Majestade… eu vos peço perdão de ousar interrogar-vos…
– Eu te ordeno que me interrogues, apressou-se o rei a declarar.
– Majestade… sobre quem é que reinais?
– Sobre tudo, respondeu o rei, com uma grande simplicidade.
– Sobre tudo?
O rei, com um gesto discreto, designou seu planeta, os outros, e também as estrelas.
– Sobre tudo isso?
– Sobre tudo isso… respondeu o rei.
Pois ele não era apenas um monarca absoluto, era também um monarca universal.
– E as estrelas vos obedecem?
– Sem dúvida, disse o rei. Obedecem prontamente. Eu não tolero indisciplina.
Um tal poder maravilhou o principezinho.
– Eu desejava ver um pôr de sol… ordenai ao sol que se ponha…
– Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem – ele ou eu – estaria errado?
– Vós, respondeu com firmeza o principezinho.
– Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos uma revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.
– E meu pôr de sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.
– Teu pôr de sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.
– Quando serão? indagou o principezinho.
– Hein? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. Será lá por volta de… por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido.
O principezinho bocejou. Lamentava o pôr de sol que perdera. E depois, já estava se aborrecendo um pouco!
– Não tenho mais nada que fazer aqui, disse ao rei. Vou prosseguir minha viagem.
– Não partas, respondeu o rei, que estava orgulhoso de ter um súdito. Não partas: eu te faço ministro!
– Ministro de quê?
– Da… da justiça!
– Mas não há ninguém a julgar!
– Quem sabe? disse o rei. Ainda não dei a volta no meu reino. Estou muito velho, não tenho lugar para carruagem, e andar cansa-me muito.
– Oh! Mas eu já vi, disse o príncipe que se inclinou para dar ainda uma olhadela do outro lado do planeta. Não consigo ver ninguém…
– Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio.
– Mas eu posso julgar-me a mim próprio em qualquer lugar, replicou o principezinho. Não preciso, para isso, ficar morando aqui.
– Ah! disse o rei, eu tenho quase certeza de que há um velho rato no meu planeta. Eu o escuto de noite. Tu poderás julgar esse rato. Tu o condenarás à morte de vez em quando: assim a sua vida dependerá da tua justiça. Mas tu o perdoarás cada vez, para economizá-lo. Pois só temos um.
– Eu, respondeu o principezinho, eu não gosto de condenar à morte, e acho que vou mesmo embora.
– Não, disse o rei.
Mas o principezinho, tendo acabado os preparativos, não quis afligir o velho monarca:
– Se Vossa Majestade deseja ser prontamente obedecido, poderá dar-me uma ordem razoável. Poderia ordenar-me, por exemplo, que partisse em menos de um minuto. Parece-me que as condições são favoráveis…
Como o rei não dissesse nada, o principezinho hesitou um pouco; depois suspirou e partiu.
– Eu te faço meu embaixador, apressou-se o rei em gritar.
Tinha um ar de grande autoridade.
As pessoas grandes são muito esquisitas, pensava, durante a viagem, o principezinho.”
Ah, seria tão bom se, neste país tornado impossível, houvesse a possibilidade de ter um presidente sábio como esse rei e um ministro da justiça humano assim.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Toni Dozane, em vídeo-análise sobre o Circo que Bolsonaro fez do Brasil e sobre mais um processo penal aberto contra ele



Do Canal de Toni Dozane:



 "Deputado Mamãe Falei na Alesp, provocou deputados do PT e do PSOL sobre a previdência. O Deputado Arthur Do Val, mais conhecido como Mamãe Falei, por causa de seu canal no Youtube, deu o recado que deixou outros deputados muito revoltados. A sessão teve de ser suspensa. Arthur Do Val entretanto voltou atrás porque poderia ser cassado por causa de ter provocado os deputados do PT e do PSOL."

‘Austeridade não é caminho para o crescimento’, diz Randall Wray, autor da Teoria Moderna da Moeda (TMM)




Randall Wray, um dos autores da Teoria Moderna da Moeda (TMM), segundo a qual é possível ao Estado que gasta na própria moeda investir em mais saúde, mais educação, mais habitação, sem preocupação com o tamanho de sua dívida.
Foto: Eduardo de Oliveira.

do CEE Fiocruz

‘Austeridade não é caminho para o crescimento’, diz autor da Teoria Moderna da Moeda

por Andréa Vilhena e Eliane Bardanachvili

A defesa de um necessário diálogo – hoje ainda incipiente – entre a área econômica e a área social orientou as discussões do seminário Políticas sociais e pleno emprego: a Teoria Moderna da Moeda como alternativa, realizado pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, em 26/11/2019. O evento teve como convidado o economista norte-americano Randall Wray, um dos autores da Teoria Moderna da Moeda (TMM), segundo a qual é possível ao Estado que gasta na própria moeda investir em mais saúde, mais educação, mais habitação, sem preocupação com o tamanho de sua dívida.
“A MMT não é exatamente nova, mas a integração de uma variedade de tradições em Economia. O que fazemos é recuperar ideias do fim da Segunda Guerra, que, de alguma forma se perderam nos anos 1960, 1970, e, agora, tornaram-se assustadoras aos economistas e formuladores de políticas”, explicou Wray, que teve ao seu lado na mesa dois economistas com visões distintas acerca do papel do Estado na garantia de políticas sociais à população: os professores Pedro Rossi, da Unicamp, e José Marcio Camargo, da PUC-Rio. A mediação foi do pesquisador Carlos Gadelha, coordenador de Ações de Prospecção da Fiocruz.
Acesse a íntegra do seminário (em inglês). Aguarde a íntegra legendada
A motivação do CEE-Fiocruz em trazer o tema para debate, em um cenário marcado por políticas de austeridade [ver aquiaqui ], foi discutir o potencial de políticas monetárias e fiscais baseadas na TMM para aumentar os recursos financeiros federais disponíveis para as áreas sociais e, assim, garantir à população os direitos definidos na Constituição de 1988. “Estamos em uma armadilha do desenvolvimento. Temos capital demais e ociosidade demais”, observou Gadelha, ao abrir o evento. “Temos o que nosso professor [o economista e professor da Unicamp] Luiz Gonzaga Belluzzo chama de escassez na abundância”.
Ele destacou a importância do seminário em dar voz à diversidade de ideias, na mesa e na plateia, para se pensar em um projeto alternativo com convergências, para sairmos da crise. “Vamos ver como as ideias de Randall Wray dialogam com a situação de um país periférico que não perde a esperança no desenvolvimento”, disse Gadelha, enfatizando a importância de se conceber o desenvolvimento de forma sustentável, promovido em suas três dimensões: econômica, social e ambiental. Mais à frente, acrescentou ainda o braço da inovação nesse processo.
O QUE FAZEMOS É RECUPERAR IDEIAS DO FIM DA SEGUNDA GUERRA, QUE, DE ALGUMA FORMA SE PERDERAM NOS ANOS 1960, 1970, E, AGORA, TORNARAM-SE ASSUSTADORAS AOS ECONOMISTAS E FORMULADORES DE POLÍTICAS (RANDALL WRAY)
A partir de um resgate histórico das origens e da natureza do dinheiro, Randall Wray apresentou alguns fundamentos da Teoria Moderna da Moeda. “Observar como os sistemas monetários de fato operam no mundo real, pode levar a olharmos para a formulação de políticas de uma forma diferente. As opções são muito maiores do que a maioria das pessoas é levada a acreditar”, afirmou.
Wray iniciou observando que, na prática, os bancos centrais já abandonaram a noção de que é preciso controlar as reservas bancárias para controlar a oferta de moeda, de modo a manter a inflação baixa. “Essa noção ainda aparece nos livros didáticos, porque leva algum tempo para eles se atualizarem. O que os bancos centrais fazem é direcionar a taxa de juros, em vez da quantidade de reservas bancárias. No entanto, ainda existe a crença de que a política monetária tem tudo a ver com o controle da inflação, mesmo que não possamos mais controlar a oferta de moeda”.
Na busca por responder a indagação quanto a de onde veio o dinheiro, o economista mencionou o fluxo circular apresentado nos livros didáticos, que mostra que as famílias vendem serviços para firmas e estas pagam seus salários; ao mesmo tempo, as famílias compram o produto das firmas, que, assim, têm o dinheiro de volta. “Onde as empresas conseguem o dinheiro que usam para empregar mão-de-obra? Das vendas de bens de consumo. Onde as famílias conseguem dinheiro? Dos salários pagos pelas empresas. Na verdade, nunca se diz de onde veio o dinheiro pela primeira vez”, analisou.
Em um “fluxo circular mais complicado”, é possível observar a entrada de instituições financeiras, mostrou Wray. “O que as instituições financeiras fazem? Recebem as economias das famílias e as utilizam para financiar empresas de investimento. Onde os bancos conseguiram o dinheiro que emprestam? Da economia das famílias. Onde as famílias conseguiram o dinheiro que pouparam nos bancos? Dos salários. Ainda fica-se sem saber de onde veio o dinheiro pela primeira vez. Depois de muitos anos estudando o registro histórico, cheguei à conclusão de que nunca conseguiremos responder definitivamente essa pergunta”.
A TMM ORIENTA-SE PELO PRINCÍPIO DE QUE O USO DA MOEDA E DO VALOR DO DINHEIRO É BASEADO NO PODER DE AUTORIDADE DE QUEM A EMITE, NÃO NO SEU VALOR INTRÍNSECO. A MOEDA É UM REGISTRO DE DÉBITO, UMA PROMESSA DE RESGATE (RANDALL WRAY)
Wray observou que os sistemas monetários modernos são, sem exceção, sistemas monetários fiduciários, isto é, não lastreados em algum metal. “A razão pela qual você aceitará o dinheiro fiduciário, já que não é conversível em ouro, é porque você confia. Aceitarei dinheiro porque acredito que outra pessoa aceitará”, destacou, definindo o dinheiro como um monopólio do Estado. “Toda nova nação cria sua unidade de preços para denominar as dívidas e créditos nessa economia. Portanto, é uma unidade de medida social, uma unidade de referência do Estado para trocas”.
Nesse sentido, prosseguiu o economista, a TMM orienta-se pelo princípio de que o uso da moeda e do valor do dinheiro é baseado no poder de autoridade de quem a emite, não no seu valor intrínseco. “A moeda é um registro de débito, uma promessa de resgate. Você define um gasto, emite uma moeda que pode ser usada para fazer frente a ele, gasta primeiro e depois tributa. Você não precisa de receita para gastar; pode gastar antes”, afirmou Wray, após apresentar exemplos tomados de sociedades tribais e governos do período colonial, entre outros.
De acordo com o economista, o processo sempre se deu dessa forma, apenas tornou-se “obscuro”, porque foram inseridos um banco privado e um banco central entre a população e o governo. “Você não recebe mais notas em papel quando o governo gasta, porque ele sempre gasta [debitando a sua conta] no Banco Central. Você recebe um crédito em sua conta bancária privada”, explica.
O GOVERNO NÃO PODE FALIR GASTANDO EM SUA PRÓPRIA MOEDA; SEMPRE PODE FINANCIAR SEUS GASTOS (…) GOVERNOS SOBERANOS NÃO FICAM SEM DINHEIRO (RANDALL WRAY)
“Quando você paga seus impostos, emite um cheque ou tem um débito eletrônico em sua conta bancária, e o Banco Central debita as reservas de seu banco. Então, não os vemos queimando papel-moeda, mas o débito em conta é a inovação tecnológica moderna equivalente a queimar as notas em papel, como se fazia antes”.
Wray cita os economistas Charles Goodhart, Abba Lerner (1903-1982) e Hyman Minsky (1919-1996) para afirmar que a moeda sem lastro (fiat money) não é inútil, ao contrário, tem valor, devido à promessa do Estado de resgatá-la. “Todo dinheiro é um crédito”, disse.
De acordo com a MMT, destacou o economista, o governo não pode falir gastando em sua própria moeda; sempre pode financiar seus gastos. “Os governos normalmente impuseram a si restrições, como a de não fazer saque a descoberto no Banco Central”, assinalou. “Não estou dizendo que o governo pode comprar tudo em sua própria moeda, e sim que pode comprar qualquer coisa em sua própria moeda. Há uma diferença aí”.
Wray destacou que não descarta as restrições de caráter político ao processo que apresenta. No entanto, frisou, “problemas políticos podem ser muito significativos, mas não são impostos pelo mercado”. Ele apontou, ainda, que, se um governo diz coisas como “gostaríamos de gastar mais”, “sabemos que há pessoas desempregadas por aí, mas estamos sem dinheiro”, isso não é verdade. “Talvez não saibam que não é verdade e não estejam sendo bem orientados. Governos soberanos não ficam sem dinheiro”.
VIVER SEM RESTRIÇÃO ORÇAMENTÁRIA É O MAIOR SONHO QUE PODEMOS TER. NO ENTANTO, A EXPERIÊNCIA MOSTRA QUE ISSO SÓ É POSSÍVEL QUANDO EXISTE ALGUÉM PARA PAGAR NOSSAS DESPESAS. ISSO É VERDADE PARA AS PESSOAS E PARA OS PAÍSES (JOSÉ MARCIO CAMARGO)
Para José Márcio Camargo, aumentar o volume de recursos financeiros destinados às áreas sociais requer algumas condições. “Viver sem restrição orçamentária é o maior sonho que podemos ter. No entanto, a experiência mostra que isso só é possível quando existe alguém para pagar nossas despesas. Isso é verdade para as pessoas e para os países”, argumentou.
Segundo o economista, uma maior disponibilidade de recursos pelo Estado poderia ser alcançada se o Brasil emitisse moeda globalmente aceita. “Países emissores de moeda que não é aceita em outros terão que obedecer às restrições orçamentárias. Aqueles que não aceitaram adotar essas restrições experimentaram a inflação, recessão e o desemprego”, considerou, lançando uma provocação ao debate: “Até que ponto conseguimos financiar nossos gastos com a nossa própria moeda e até que ponto vivemos em um país autárquico que não compra nada que não é produzido no próprio país?”.
PAÍSES EMISSORES DE MOEDA QUE NÃO É ACEITA EM OUTROS TERÃO QUE OBEDECER ÀS RESTRIÇÕES ORÇAMENTÁRIAS. AQUELES QUE NÃO ACEITARAM ADOTAR ESSAS RESTRIÇÕES EXPERIMENTARAM A INFLAÇÃO, RECESSÃO E O DESEMPREGO (JOSÉ MARCIO CAMARGO)
De acordo com essa linha de raciocínio, observou Camargo, se o governo aumentasse seus gastos, estaria aumentando a renda doméstica e isso poderia pressionar uma alta do dólar. Parte dessa renda poderia se transformar em gastos de bens importados, aumentando a demanda por moeda estrangeira e consequentemente aumentando o nosso endividamento em dólar.
O professor da PUC-Rio disse não concordar com os preceitos da TMM, no que tange ao aumento de recursos por parte do Estado para financiar políticas públicas numa situação de crise, lembrando, no entanto, das necessidades sociais, ao assinalar que “44% das crianças vivem em famílias pobres”.
Para oferecer a elas um futuro mais promissor, ele defendeu melhor distribuição da receita tributária interna. “O que deveríamos perguntar é se o país está gastando certo. Se esses gastos correspondem aos nossos desejos”, explicou. A definição de como gastar é, segundo ele, uma decisão extremamente difícil. “Por isso que é preciso discussão. Democracia é isso”.
TODO ECONOMISTA TEM QUE DIALOGAR COM O SOCIAL, COM OS DIREITOS HUMANOS. ESSE DIÁLOGO, HOJE, É ZERO (PEDRO ROSSI)
Já o economista Pedro Rossi trouxe uma visão diferente da de Camargo, em relação à restrição orçamentária. “Estamos aceitando que as demandas sociais devem se adequar ao orçamento, mas o que precisamos é exatamente do contrário”, afirmou. “Todo economista tem que dialogar com o social, com os direitos humanos”, disse. “Esse diálogo, hoje, é zero”.
Para o pesquisador, nossas restrições orçamentárias são “auto impostas”, sobrepondo-se aos direitos sociais.  “É uma inversão de hierarquia que nosso debate fiscal está vivendo”, afirmou, observando que falta vontade política para distribuir os recursos na sociedade brasileira.
O professor lembra que a história do país foi marcada pela dívida externa, valorada em dólar, e talvez isso explique a preocupação com o endividamento em moeda estrangeira. Rossi cita a trajetória de países como Argentina e Equador, que, devido à dolarização, enfrentaram o enfraquecimento da economia. Mas, em relação ao Brasil, pergunta, certamente, referindo-se à quitação da dívida do país com o Fundo Monetário Nacional, em 2005: “Cadê o FMI agora?”
O GOVERNO NÃO É UMA FAMÍLIA. ELE TEM UMA MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO, EM PAPEL QUE TODO MUNDO ACEITA. É O GOVERNO QUEM DEFINE QUANTO ARRECADA (PEDRO ROSSI)
Em relação ao cenário atual da economia brasileira, Pedro Rossi explicou ser imprescindível “repensar o papel do Estado na reafirmação dos direitos sociais em momento de crise”. Para isso, em sua visão, os economistas têm que discutir mais com as áreas sociais a respeito do gasto público e a garantia dos direitos humanos.
O professor diz que a Teoria Moderna da Moeda tem estado em evidência no debate acadêmico nas universidades brasileiras. “Mesmo em momentos de crise, ela mostra que o gasto do governo é favorável para a Economia”, assinalou, criticando, a política de austeridade fiscal adotada pelo governo, que tem buscado o equilíbrio fiscal por meio de restrições orçamentárias para as políticas sociais. “É um caminho autodestrutivo, com impactos sociais muito fortes, negligenciados por economistas”.
A gestão governamental, afirmou Pedro Rossi, não pode ser comparada à gestão financeira de uma família. “O governo não é uma família. Ele tem uma máquina de fazer dinheiro, em papel que todo mundo aceita. É o governo quem define quanto arrecada”, observou.
Um erro muito comum, segundo Rossi, é atribuir ao aumento do gasto público o aumento da desigualdade. Citando estudo da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Austeridade e retrocesso, ele destacou que o gasto público com saúde e educação produz exatamente efeito contrário, contribuindo para reduzir a desigualdade. “Apesar das evidências, é justamente o gasto público na área social que vem sendo alvo da política de ajuste fiscal”, apontou. Para Rossi “há um projeto de redução do Estado em andamento e seria preciso estudar o impacto desses ajustes na saúde das pessoas”. Ele fez uma provocação ao debate: “Por que não discutimos o fim do SUS? Mas colocar por trás do pano (essa escolha política) é mentira”. Conforme lembrou Gadelha, “o setor da saúde é responsável pela geração de 20 milhões de emprego direto e indireto no Brasil”.
Randall Wray destacou alguns pontos de confluência expressos pelos economistas brasileiros. “É preciso elencar prioridades para as políticas públicas, escolhendo onde queremos gastar. É nisso que toda discussão sobre orçamento deve estar focada: onde se deve gastar, que percentual será destinado à esfera pública. Definir que políticas são prioritárias e persegui-las com prioridade não esgota seus recursos”, considerou. Além disso, é preciso garantir os recursos. “O que o governo gasta é extremamente importante, dando emprego com salário justo para as pessoas. Se o déficit orçamentário está aumentando, isso não quer dizer que as políticas são muito caras. É possível ter déficit orçamentário de forma positiva ou de forma negativa. A forma ruim se dá quando o crescimento é lento demais para gerar receita fiscal e outras formas de transferência de recursos, uma vez que a economia está se desenvolvendo de forma pobre”.
Do ponto de vista monetário, Wray assinalou o equívoco da ideia de que os vigilantes do mercado determinem os caminhos da indústria doméstica do país, quando se trata de gastar na própria moeda. “As restrições orçamentárias são importantes quando sua dívida é denominada em moeda estrangeira. Aí, você vai manter os vigilantes de títulos felizes. Se você não possui dívida em dólar, não precisa respeitar restrições orçamentárias, precisa garantir que seus gastos se deem onde os recursos estão disponíveis”, explicou. Para o economista, o pagamento pelos governos do serviço da dívida pública é uma forma ineficiente de gastar.
“O que faz a indústria cair é o banco central determinando as taxas”, disse Wray, afirmando, ainda, que as medidas de cortes não funcionam. “Austeridade não é caminho para o crescimento”.
Ele citou o exemplo do Brasil e sua economia altamente indexada. “Se você continua gastando em áreas onde os recursos são limitados, alimentará uma espiral inflacionária. Mesmo se você houver muitos recursos”, observou.
Wray voltou a afirmar a política de garantia de pleno emprego como a forma ideal, mais eficiente, de gasto governamental, e, assim, o objetivo mais importante a ser alcançado por um governo. “Você estará oferecendo emprego a quem não tem, empregando trabalhadores da forma como são, nos locais onde estão, criando postos de trabalho que tenham condição de ocupar. Assim, eles se aperfeiçoam, tornam-se mais empregáveis, e, quando o setor privado volta a empregar, em uma faz de expansão da economia, pode contratar esses trabalhadores”.
Leia também: Randall Wray no jornal O Globo, no Valor Econômico e na Rádio Band News.

The Intercept: A democracia é um empecilho para a agenda ultraliberal de Paulo Guedes. Um novo AI-5, ou seja, o pior da ditadura, seria, para ele, bom para seus planos e os de Bolsonaro. Artigo de João Filho


Acreditava-se que Paulo Guedes seria um freio ao autoritarismo de Bolsonaro, mas ele se revelou um xucro antidemocrático.


O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, após reunião na sede do ministério, em Brasília.

Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, após reunião na sede do ministério, em Brasília.
 
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress








Do The Intercept Brasil:

Artigo de 

PAULO GUEDES FOI um professor não muito chegado ao batente. Faltava com frequência às aulas, não corrigia os exercícios e depois cobrava nas provas os exercícios que não havia corrigido. Era um professor tão medíocre que os alunos se mobilizaram para tirá-lo da PUC. E conseguiram.
Esse preguiça em lecionar contrasta com a dedicação do Chicago Boy em implementar uma política econômica ultraliberal para a ditadura sanguinária de Pinochet. Contrasta também com o empenho em multiplicar sua fortuna no day-trade, o cassino do mercado financeiro em que a sorte é decisiva para o investidor. Guedes tinha obsessão por esse jogo e passava muitas horas comprando e vendendo ações. Segundo seus ex-sócios, chegou a perder R$20 milhões nessa cracolândia dos investidores.
Esse é Paulo Guedes, um homem que trata o compartilhamento de conhecimento com desprezo, mas é pau pra toda obra na hora de acumular fortuna e contribuir para a agenda econômica de governos de extrema-direita.
Logo após a eleição de Bolsonaro, o economista respondeu com agressividade a uma pergunta simples e educada de uma jornalista argentina sobre o Mercosul. Nos 11 meses à frente do ministério da economia bolsonarista, Guedes confirmou que não é mesmo alguém simpático aos valores democráticos. Em audiência na Câmara em abril, protagonizou um bate-boca rasteiro com deputados, chegando a xingarum deles aos berros. Em setembro, debochou da aparência física da mulher do presidente da França.
A declaração desta semana sobre AI-5, portanto, está dentro do que se espera de um homem afeito ao autoritarismo. “Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez?”, disse em referência aos discursos de Lula convocando a população para se manifestar contra o governo Bolsonaro. Guedes trata o fechamento do Congresso e a suspensão dos direitos políticos de todos os cidadão como uma possibilidade natural para um país democrático. Tão natural que, inclusive, “já aconteceu uma vez”, “não se assustem”.

Não é possível relativizar essa fala como tanta gente tentou fazer dizendo que ele não pediu o AI-5.
Não é possível relativizar essa fala como tanta gente tentou fazer dizendo que ele não pediu o AI-5. Ele não pediu, mas o apresentou como uma carta possível do jogo democrático. É um aviso aos democratas mais assanhados de que um golpe está sempre à espreita. O nome que se dá a isso, meus amigos, é golpismo. Ainda mais quando parte do ministro mais importante de um governo que flerta permanentemente com o autoritarismo. Registre-se também que Guedes é o fiador do bolsonarismo junto às elites, as mesmas que apoiaram decisivamente o golpe de 64.

O golpismo é um estado de espírito do governo Bolsonaro.
A declaração de Guedes naturalizando o AI-5 vem na esteira de uma escalada dos discursos autoritários do bolsonarismo em relação às possíveis manifestações de rua contra o governo. Em menos de uma semana, o filho do presidente colocou a carta do AI-5 sobre a mesa, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional disse que “tem que estudar como fazer (o AI-5)”, e agora Paulo Guedes sacramenta a possibilidade. O golpismo é um estado de espírito do governo Bolsonaro.
Antes do golpe de 1964, foi construída uma narrativa mentirosa para justificá-lo. O Brasil estaria sob ameaça de uma revolução comunista, uma possibilidade que jamais existiu no país. Agora, o mesmo fantasma mas com nova roupagem está sendo apresentado para justificar a sanha autoritária do governo. Lula não convocou o povo para a “quebradeira” como disse Guedes. O discurso do petista esteve longe de pregar violência, como fez Bolsonaro ao dizer em campanha “vamos fuzilar a petralhada” — o que não incomodou Guedes.
Lula usou da prerrogativa de qualquer cidadão brasileiro de convocar manifestações de rua contra o governo. É um direito elementar numa democracia. Tratar isso como radicalização e baderna é só uma maneira de criar um espantalho para justificar o golpismo. E, mesmo que haja violência nas ruas, a resposta do governo deve sempre obedecer à Constituição. Essa seria uma obviedade para qualquer democrata.
Quando perguntado sobre a diminuição no ritmo das reformas impopulares por Bolsonaro temer a volta de Lula ao debate político, Guedes colocou novamente a faca no pescoço da democracia: “Aparentemente digo que não. Ele (Bolsonaro) só pediu o excludente de ilicitude. Não está com medo nenhum, coloca um excludente de ilicitude. Vamos embora”. Guedes considera legítimo o dispositivo que o Planalto quer que o Congresso introduza na GLO (Garantia de Lei e da Ordem). Na prática, o excludente de ilicitude dará carta branca para os policiais atirarem contra manifestantes. Bastará ao policial alegar que estava “sob escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. O recado para a população é claro: manifestações contra o governo podem acabar em derramamento de sangue.
O flerte de Eduardo Bolsonaro com o AI-5 teve repercussão internacional, reforçando a imagem de república das bananas que o bolsonarismo trouxe de volta para o país. Guedes não pensou duas vezes ao reforçar o golpismo do filho do presidente e dar declaração semelhante nos EUA. As consequências foram imediatas: gerou instabilidade para investidores de curto prazo e um clima de instabilidade institucional para os de longo prazo. Além disso, fez o dólar disparar e bater o recorde histórico por três dias seguidos.
Nos dias seguintes à declaração, Guedes tentou dizer o oposto do que disse antes. Rejeitou o AI-5 e disse que manifestações de rua são legítimas. Não se ameaça a democracia hoje e amanhã se aperta ctrl + z. Um ministro não pode brincar de metamorfose ambulante. As consequências para a economia são irreparáveis.
Os presidentes da Câmara e do STF repreenderam Guedes. Deram declarações importantes, mas ainda é uma reação aquém da que se espera quando a democracia está ameaçada. Não é a primeira vez que o ministro tenta colocar as garras sobre a democracia.
No começo deste mês, Guedes apresentou projetos econômicos do governo e afirmou que servidor público filiado a partido político não terá direito a estabilidade no emprego. “Tem filiação partidária? Não é servidor público. Não vou dar estabilidade para militante. É como nas Forças Armadas: é servidor do Estado”, afirmou Guedes, ignorando a Constituição que garante a liberdade de participação política a todos os cidadãos. A única resposta dos democratas para essa insistência do ministro em atacar preceitos constitucionais básicos, chegando até a cogitar um golpe, deveria ser o processo de impeachment. Crimes de responsabilidade não faltam.
Guedes era considerado a jóia rara do bolsonarismo. Um economista de sucesso que seria um freio à xucrice da extrema-direita brasileira. O fato é que o ministro acumulou prestígio apenas no mercado financeiro. Fora dele nunca atingiu grande notoriedade ou desfrutou de respeito entre seus pares na academia. No governo, Guedes se revelou um xucro antidemocrático como qualquer representante do baixo clero neofascista brasileiro. A única coisa que lhe importa é seguir a cartilha ultraliberal do mercado financeiro. Se a democracia se tornar um empecilho para essa missão, ela pode muito bem ser colocada de lado. Até porque “já aconteceu uma vez”, né?

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João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando