segunda-feira, 4 de novembro de 2024

A Estranha luta de classes nas eleições plutocráticas dos EUA em excelente artigo de Chris Hedges, jornalista e professor americano, ganhador do Prêmio Pulitzer

 

No coração de um sistema em crise, duas facções dominantes estão em choque. Uma é corporativa e “domesticada”; outra, mafiosa. Ambas praticam o rentismo, odeiam a democracia e querem a guerra. Roteiro para entender o que está em jogo

Ilustração: Lindsey Bailey/Axios. Fotoa: Andrew Caballero-Reynolds, Andrew Harnik via Getty Images

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Por Chris Hedges, em seu blog | Tradução: Antonio Martins

A escolha nas eleições norte-americanas é entre o poder corporativo e o poder oligárquico. O poder corporativo precisa de estabilidade e de um governo tecnocrático. O poder oligárquico prospera no caos e, como diz Steve Bannon, na “desconstrução do Estado administrativo”. Nenhum dos dois é democrático. Ambos compraram a classe política, a academia e a imprensa. Ambos são formas de exploração que empobrecem e desempoderam a população. Ambos canalizam dinheiro para as mãos da classe bilionária. Ambos desmantelam regulamentações, destroem sindicatos, cortam serviços públicos em nome da austeridade, privatizam todos os aspectos da sociedade, desde a infraestrutura até as escolas, perpetuam guerras permanentes, incluindo o genocídio em Gaza, e neutralizam uma mídia que deveria, se não fosse controlada por corporações e ricos, investigar seu saque e corrupção. Ambas as formas de capitalismo dilaceram o país, mas o fazem com ferramentas diferentes e têm objetivos diferentes.

Kamala Harris, ungida pelos doadores mais ricos do Partido Democrata sem receber um único voto nas primárias, é a face do poder corporativo. Donald Trump é o mascote bufão dos oligarcas. Esta é a divisão dentro da classe dominante. É uma guerra civil interna ao capitalismo que se desenrola no palco político. O público é pouco mais do que um adereço em uma eleição onde nenhum dos partidos avançará os interesses ou protegerá os direitos das maiorias.

George Monbiot e Peter Hutchison, em seu livro Invisible Doctrine: The Secret History of Neoliberalism [“Doutrina invisível – A história secreta do neoliberalismo”, ainda sem tradução para o português”], referem-se ao poder corporativo como “capitalismo domesticado”. Os capitalistas domesticados precisam de políticas governamentais consistentes e de acordos comerciais sólidos porque fizeram investimentos que demoram às vezes anos para amadurecer. As indústrias de manufatura e agricultura são exemplos de “capitalismo domesticado”. Você pode ler minha entrevista com Monbiot aqui.

O capitalismo de máfias

Monbiot e Hutchison referem-se ao poder oligárquico como “capitalismo das máfias”1. Ele busca a erradicação total de todos os impedimentos à acumulação de lucros, incluindo regulamentações, leis e impostos. Ele gera lucro cobrando rentas, erguendo pedágios para cada serviço de que precisamos para sobreviver e coletando taxas exorbitantes.

Os ídolos políticos do capitalismo das máfias são os demagogos da extrema direita, incluindo Trump, Boris Johnson, Giorgia Meloni, Narendra Modi, Victor Orban e Marine Le Pen. Eles semeiam a dissensão promovendo ideias absurdas, como a teoria da “Grande Substituição”, e desmontando estruturas que proporcionam estabilidade, como a União Europeia. Isso gera incerteza, medo e insegurança. Aqueles que orquestram essa insegurança prometem que, se abrirmos mão de ainda mais direitos e liberdades civis, eles nos salvarão de inimigos fantasmas, como imigrantes, muçulmanos e outros grupos demonizados.

Os epicentros do capitalismo das máfias são as empresas de gestão de ativos [“private equity”]. Fundos como Blackstone, Carlyle, Apollo e Kohlberg Kravis Roberts compram e saqueiam empresas. Acumulam dívidas. Recusam-se a reinvestir. Reduzem drasticamente o quadro de funcionários. Levam intencionalmente as empresas à falência. O objetivo não é sustentar as companhias, mas depená-las como ativos para obter lucro de curto prazo. Os dirigentes dessas empresas, como Leon Black, Henry Kravis, Stephen Schwarzman e David Rubenstein, acumularam fortunas pessoais de bilhões de dólares.

O grupo de apoiadores de Trump no Vale do Silício, liderado por Elon Musk, foi descrito pelo The New York Times como “cansados dos democratas, dos reguladores, da estabilidade, de tudo isso. Eles passaram a optar, em vez disso, pelo caos desenfreado que gera fortunas, algo que conheciam do mundo das startups.” Eles planejavam “implantar dispositivos no cérebro das pessoas, substituir moedas nacionais por tokens digitais não regulamentados, [e] substituir generais por sistemas de inteligência artificial.”

O bilionário Peter Thiel, fundador do PayPal e apoiador de Trump, declarou guerra aos “impostos confiscatórios”. Ele financia um comitê de ação política [“PAC”, nos Estados Unidos] contra impostos e propõe a construção de nações flutuantes, que não imporiam tributos obrigatórios sobre a renda.

A bilionária israelense-americana Miriam Adelson, viúva do magnata dos cassinos Sheldon Adelson, com uma fortuna estimada em US$ 35 bilhões, doou US$ 100 milhões para a campanha de Trump. Embora Adelson, que nasceu e foi criada em Israel, seja uma fervorosa sionista, ela também faz parte do clube dos oligarcas que buscam reduzir impostos para os ricos, impostos que já foram cortados pelo Congresso ou diminuídos por meio de uma série de brechas legais.

O economista Adam Smith alertou que, a menos que a renda dos rentistas fosse fortemente tributada e reinvestida no sistema financeiro, ela seria autodestrutiva.

A destruição orquestrada pelas empresas de gestão de ativos e pelos oligarcas recai sobre os trabalhadores, que são forçados a entrar em uma economia de “bicos” e veem salários estáveis e benefícios serem erradicados. Isso também afeta os fundos de pensão, que são esgotados devido a taxas usurárias ou simplesmente abolidos. Afeta nossa saúde e segurança. Por exemplo: os residentes de asilos que pertencem a empresas de gestão de ativos, estão sujeitos a 10% mais mortes — sem mencionar as mensalidades mais altas — devido à escassez de pessoal e à redução no cumprimento dos padrões de cuidado.

As empresas de gestão da ativos são uma espécie invasora. Também são onipresentes. Adquirem instituições educacionais, empresas de serviços públicos e cadeias de varejo, ao mesmo tempo em que drenam centenas de bilhões em subsídios dos contribuintes, auxiliados por promotores, políticos e reguladores comprados. O que é particularmente revoltante é que muitas das indústrias tomadas por empresas de gestão de ativos — água, saneamento, redes elétricas, hospitais — foram pagas com fundos públicos. Elas canibalizam os países, deixando para trás de si indústrias fechadas e falidas.

Gretchen Morgenson e Joshua Rosner documentam como as empresas de private equity funcionam no livro “These are the Plunderers: How Private Equity Runs-and Wrecks-America“, [“Os que pilham: Como a Private Equity governa e devasta os Estados Unidos”]

“Sempre endeusados pela imprensa financeira por seus acordos, e elogiados por suas doações ‘caritativas’, esses capitalistas sem freitos lançam campanhas de lobby caras para garantir seu próprio enriquecimento contínuo, por meio de leis fiscais favoráveis”, escrevem os autores.

“Doações generosas garantiram a eles posições de poder em conselhos de museus e think tanks. Publicaram livros sobre liderança exaltando ‘a importância da humildade e da humanidade’, no topo enquanto dizimam estes valores na base. Suas empresas organizam-se para que evitem pagar impostos sobre bilhões em ganhos, gerados por suas participações acionárias. E, claro, raramente mencionam que as empresas que possuem estão entre as maiores beneficiárias de investimentos governamentais em rodovias, ferrovias e educação básica, colhendo enormes benefícios de subsídios e políticas fiscais que lhes permitem pagar taxas substancialmente mais baixas sobre seus ganhos”, explicam o livro.

“Esses homens são os barões ladrões da era moderna dos Estados Unidos. Mas, ao contrário de muitos de seus predecessores do século XIX, que acumularam riquezas espantosas extraindo os recursos naturais de uma nação jovem, os barões de hoje extraem sua riqueza dos pobres e da classe média por meio de transações financeiras complexas.” Você pode ver minha entrevista com Morgenson aqui.

O capitalismo “domesticado”

Os capitalistas “domesticados” são representados por políticos como Joe Biden, Kamala Harris, Barack Obama, Keir Starmer e Emmanuel Macron. Mas o “capitalismo domesticado” não é menos destrutivo. Ele aprovou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), a maior traição à classe trabalhadora norte-americana desde o Ato Taft-Hartley de 1947, que impôs restrições debilitantes à organização sindical. Revogou a Lei Glass-Steagall, de controle sobre bancos (de 1933), que separava a banca comercial da banca de investimento. Desmantelar a barreira entre os bancos comerciais e de investimento levou ao colapso financeiro global em 2007 e 2008, provocando a falência de quase 500 bancos. Ele aprovou a eliminação da Doutrina do Tratamento Justo [Fairness Doctrine] pela Comissão Federal de Comunicações sob Ronald Reagan, bem como a Lei de Telecomunicações durante a presidência de Bill Clinton, permitindo que um punhado de corporações consolidasse o controle dos meios de comunicação. Destruiu o antigo sistema de bem-estar, do qual 70% dos beneficiários eram crianças. Dobrou a população carcerária dos EUA e militarizou a polícia. No processo de transferência de indústrias para países como Bangladesh, onde os trabalhadores labutam em condições desumanas, 30 milhões de norte-americanos foram submetidos a demissões em massa, segundo dados compilados pelo Labor Institute. Enquanto isso, acumularam-se déficits massivos — o déficit orçamentário dos EUA subiu para US$ 1,8 trilhão em 2024, com a dívida nacional total se aproximando de US$ 36 trilhões — e negligenciou-se nossa infraestrutura básica, incluindo redes elétricas, estradas, pontes e transporte público. No mesmo período, os EUA gastaram mais com seu exército do que todas as outras grandes potências da Terra juntas.

Essas duas formas são variantes de capitalismo totalitário, ou o que o filósofo político Sheldon Wolin chama de “totalitarismo invertido”. Em ambas as formas de capitalismo, os direitos democráticos são abolidos. O público está sob vigilância constante. Os sindicatos são desmantelados ou neutralizados. A mídia serve aos poderosos, e vozes dissidentes são silenciadas ou criminalizadas. Tudo é transformado em mercadoria, desde o mundo natural até nossos relacionamentos. Movimentos populares e de base são proibidos. O ecocídio continua. A política é uma farsa.

A servidão por dívidas e a estagnação salarial garantem o controle político e a concentração contínua da riqueza. Bancos e financiadores corporativos escravizam não apenas indivíduos endividados, mas também cidades, municípios, estados e o governo federal. O aumento das taxas de juros, aliado à queda das receitas públicas, especialmente por meio da tributação, é uma maneira de extrair os últimos vestígios de patrimônio dos cidadãos, bem como do Estado. Quando indivíduos, estados ou agências federais não conseguem pagar suas contas — e para muitos norte-americanos isso significa frequentemente contas médicas — os ativos são vendidos a corporações ou apreendidos. Terras públicas, propriedades e infraestrutura, juntamente com as aposentadorias, são privatizados. Os indivíduos são expulsos de suas casas e levados ao colapso financeiro e pessoal.

“O chefe da Goldman Sachs declarou que os trabalhadores da corporação são os mais produtivos do mundo”, disse o economista Michael Hudson, autor de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Destroy the Global Economy (“Matando o Hospedeiro: Como Parasitas Financeiros e Dívidas destroem a economia global”, ainda sem tradução em português). “É por isso que eles ganham tanto. O conceito de produtividade nos EUA é renda dividida por trabalho. Por isso, se você é da Goldman Sachs e paga a si mesmo 20 milhões de dólares por ano em salário e bônus, considera-se que você acescentou 20 milhões ao PIB, e isso é considerado enormemente produtivo. Estamos lidando com uma tautologia, com um raciocínio circular.”

“A questão é se a Goldman Sachs, Wall Street e as empresas farmacêuticas predatórias realmente adicionam ‘produto’ ou se estão apenas explorando outras pessoas”, continua Hudson. “É por isso que usei a palavra parasitismo no título do meu livro. As pessoas pensam em um parasita como algo que tira dinheiro, tira sangue de um hospedeiro ou recursos da economia. Mas, na natureza, é muito mais complicado. O parasita não pode simplesmente entrar e tirar algo. Primeiro, ele precisa anestesiar o hospedeiro. Ele tem uma enzima que faz com que o hospedeiro não perceba sua presença. Além disso, o parasita tem outra enzima que toma o controle do cérebro do hospedeiro. Este imagina que o parasita faz parte de seu próprio corpo – na verdade, parte de si mesmo e, portanto, deve ser protegido. Basicamente, é isso que Wall Street fez. Ela se retrata como parte da economia. Não como algo externo, mas como parte que está ajudando o corpo a crescer, e que, de fato, é responsável pela maior parte do crescimento. Mas, na verdade, é o parasita que está tomando o controle do hospedeiro.”

“O resultado é uma inversão da economia clássica”, diz Hudson. “Ela vira Adam Smith de cabeça para baixo. Afirma que o que os economistas clássicos disseram ser improdutivo – o parasitismo – na verdade é a economia real. E que os parasitas são o trabalho e a indústria.”

A weimarização da classe trabalhadora americana é intencional. Trata-se de criar um mundo de senhores e servos, de elites oligárquicas e corporativas empoderadas e uma sociedade desempoderada. E não é apenas nossa riqueza que nos é tirada. É nossa liberdade. O chamado mercado autorregulado, como escreve o economista Karl Polanyi em A Grande Transformação, sempre termina com o capitalismo mafioso e um sistema político mafioso. Um sistema de autorregulação, Polanyi alerta, leva à “demolição da sociedade.”

Se você votar em Kamala Harris ou Trump — eu não tenho intenção de votar em nenhum candidato que sustente o genocídio em Gaza — você estará votando numa forma de capitalismo predatório ou em outra. Todas as outras questões, desde o direito à posse de armas até o aborto, são tangenciais e usadas para distrair o público da guerra civil dentro do capitalismo. O pequeno círculo de poder que essas duas formas de capitalismo encarnam exclui o público. São clubes de elite – cujos membros muito ricos habitam cada um dos lados da cerca e, às vezes, transitam entre ambos. Mas são impenetráveis para outsiders.

A ironia é que a ganância desenfreada dos corporativos, os “capitalistas domesticados”, criou um pequeno número de bilionários que se tornaram sua nêmesis: os capitalistas de máfias. Se o saque não for interrompido, se não restaurarmos o controle sobre a economia e o sistema político por meio de movimentos populares, o capitalismo de máfias triunfará. Seus partidários consolidarão o neo-feudalismo, enquanto o público estará distraído e dividido pelas palhaçadas declowns assassinos como Trump.

Não vejo nada no horizonte que possa evitar esse destino.

Trump, por enquanto, é a figura de proa do capitalismo de máfias. Mas ele não o criou, não o controla e pode ser facilmente substituído. Kamala Harris, cujas divagações sem sentido podem fazer Biden parecer focado e coerente, é o figurino vazio e sem substância que os tecnocratas adoram.

Escolha seu veneno. Destruição pelo poder corporativo ou destruição pela oligarquia. O resultado final é o mesmo. Isso é o que os dois partidos dominantes nos EUA oferecem em novembro. Nada mais.


Nota:

1No original, “warlords capitalism”. Evitei adotar a tradução mais óbvia (“capitalismo dos senhores de guerra”) porque ela tende a associar apenas os partidários de Trump ao “partido da guerra” – ou seja, aos setores que têm interesse nas agressões militares dos EUA. Como o texto demonstra, tanto republicanos quanto democratas apoiam os conflitos em que Washington se envolve em todo o mundo. [Nota do tradutor]

EUA: Democracia sem escolha, por Tatiana Carlotti

 

Crônica em Washington, às vésperas de uma eleição em que não há saída real. Vencerá a candidata da guerra perpétua ou o da ameaça fascista? Nas ruas, poucos parecem se importar. Mas os bilionários tomaram partido, e evita-se o voto negro

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No próximo 5 de novembro, a maior potência militar (US$ 886 bi para gastos militares), econômica (PIB de US$ 28,6 tri) e cultural (US$ 9 bi só em bilheterias) vai eleger “o seu” ou “a sua” presidenta em uma das mais acirradas e imprevisíveis disputas eleitorais nos Estados Unidos. Frente aos empates técnicos de cada sondagem registrada desde que Kamala Harris entrou no páreo contra Donald Trump, ninguém ousa cravar um resultado.

Com a aproximação das eleições, os republicanos apelam para um perigoso neofascismo, vide o comício de Trump na Madison Square Garden, domingo passado (27), promovendo uma agenda que reverbera um individualismo extremo, um profundo ódio à esquerda, uma misoginia escancarada e o racismo incrustado contra os “não-brancos”, além da xenofobia de carga explosiva. Em suma: a “sopa de ódios” que aquece as frustrações em meio “cada um por si” de um sistema mais e mais disfuncional, pelo menos, para a imensa massa “não-bilionária” do planeta.

Os democratas, por sua vez, apoiam-se nos argumentos e prometem a generalização de oportunidades hoje (e nem sempre) restritas à classe média e acesso a direitos básicos como saúde e moradia. Também apelam para “o bom senso” enquanto financiam um inominável genocídio de crianças e famílias inteiras em Gaza, que se expande aos demais países do “eixo do mal” no Oriente Médio; além de acenarem para a continuidade da guerra contra a Rússia na Ucrânia.

Em meio ao belicismo democrata e ao neofascismo republicano, a população estadunidense que se autodenomina “americana”, encontra-se profundamente polarizada, como mostrou na última sexta-feira, dez dias antes do pleito, a pesquisa divulgada pelo New York Times cravando exatos 48% em ambos os candidatos. A sondagem também apontava um contingente de 15% de indecisos e, após esta pesquisa, as demais que saíram, com pequenas variações, também indicam empate técnico.

Considerando, também, que as pesquisas são apenas acenam tendências, na medida em que a definição do presidente é realizada por uma maioria de delegados, a única certeza até agora, ante a impossibilidade de se cravar um resultado, é de confusão e judicialização do processo eleitoral pela turba republicana caso perca as eleições.

Vale lembrar que, em 2020, quando Trump se negou a aceitar a derrota (a primeira desde 1992 de um candidato-presidente à reeleição nos EUA), Joe Biden o vencia com uma margem expressiva: 81 milhões de votos e com o apoio de 306 delegados do Colégio Eleitoral. Na época, Trump obteve 74 milhões de votos e contou com apoio de 232 delegados.

Naquele ano, houve uma participação considerada recorde nas urnas – a maior desde 1900! – em um país onde o voto é facultativo. Neste ano, a considerar os votos já encaminhados pelo correio e os números da votação antecipada, a expectativa é de uma alta participação. Em Michigan, por exemplo, 1,5 milhões de eleitores já anteciparam seu voto em uma semana, e a soma dos que enviaram sua decisão pelo correio ultrapassa (a uma semana do pleito) vinte e três milhões.

Inversamente, a movimentação eleitoral não acontece nas ruas. O clima eleitoral, em particular nos estados como Nova York e na própria Whashington (D.C.), é ameno onde as colorações partidárias estão mais definidas, nos dois casos com a prevalência do azul (democrata) sobre o vermelho (republicano).

Por aqui, por exemplo, apesar da polarização, da ameaça trumpista e da possibilidade de muita gente simplesmente deixar de votar, ninguém usa adesivos de campanha, não há santinhos distribuídos nas ruas e muito menos aquele xingamento acalorado no cruzamento das grandes avenidas. Com Harris na liderança em pelo menos 18 pontos à frente de Trump, na “Big Apple” (NY) pelo menos, as caveiras de Halloween ganham – e de longe – das plaquinhas eleitorais.

Foi preciso caminhar um bocado em busca da imagem abaixo:

Estados pêndulos, onde a eleição acontece

As eleições, no entanto, acontecem com força nos chamados estados pêndulos, ou swing states, onde permanecem indefinidas as tendências de votação num ou noutro partido, porque o sistema eleitoral da considerada “maior democracia do mundo”, além de não direto e facultativo, também é essencialmente bipartidário. É nestes estados – Nevada, Arizona, Wisconsin, Michigan, Pensilvânia, Carolina do Norte e Georgia – que estão acontecendo investimentos milionários e onde, de fato, a campanha eleitoral ganha as ruas.

Os democratas estão mobilizando mais de 2.500 pessoas em 353 escritórios nessas regiões para, entre outras atividades, bater de porta em porta e ajudar os eleitores a votarem. A tarefa é crucial, em particular, após os estados republicanos terem proposto uma série de medidas de restrição de votos, cerca de 400 leis estaduais em 47 estados, segundo a União Americana pelas Liberdades Civils (ALCU).

A ideia dos republicanos foi conter o boom da participação dos eleitores, em particular os mais pobres e, portanto, de tendência democrata, registrada durante as eleições presidenciais de 2020. Boa parte dessas leis foram implementadas em 2022, durante as eleições de meio de mandato para o Congresso, as midterms. Como nos EUA cada estado tem a sua própria legislação eleitoral, e por aqui inexiste um Tribunal Superior Eleitoral (TSE) regendo e coordenando todo o processo, a possibilidade do governo Biden de conter esse movimento foi nula. O que não o impediu de reclamar.

De modo geral, são pequenas medidas, porém mortais para a participação popular em um país onde o voto não é obrigatório. Obrigar as pessoas a entregarem os votos presencialmente ou somente aceitar que familiares o façam, por exemplo, atrapalhou a participação dos eleitores cadeirantes, de idosos moradores em abrigos, da população de rua. Exigir documentos com fotos para votar pelo correio. Reduzir o tempo para a votação e até os locais de depósito das cédulas, contribuindo para o aumento das filas. Todas essas medidas aconteceram na Georgia, onde Trump perdeu por pouco para Biden, em 2020.

Além dos democratas, os republicanos estão investindo pesado nestes estados, criando comitês – Super Political Action Committees (SuperPAC), que vêm recebendo investimento graúdo de instituições privadas. É o caso do Future Coalition PAC, do Duty to America PAC e do America PAC, criado pelo “mega-bilionário” Elon Musk com um fundo de US$ 75 milhões. O bilionário foi publicamente convidado para participar de um eventual governo Trump.

Segundo apuração do The Guardian, entre julho e outubro, o herdeiro sul-africano já investiu, somente em anúncios para a campanha do magnata: US$ 201 mil no X, mais de US$ 3 milhões na META (Facebook e Instagram) e US$ 1,5 milhões no Google. Todos esses anúncios são dirigidos para as populações e às necessidades destes estados decisivos.

Musk, que tão bem sabemos o que pensa da Justiça brasileira, vem participando como cabo eleitoral de Trump e se divertindo – como uma espécie turbinada de Silvio Santos – em ofertar cheques gigantescos em comícios e anunciar sorteios de US$ 1 milhão por dia, até a eleição, para quem assinar a petição do American PAC. Sua presença, embora ele não tenha dito nada com nada, foi um dos pontos altos do comício de Trump.

Foram muitas horas de fila, em meio à turbe trumpista e sob a vigilância dos “snipers” – dois em cada um dos prédios que circundavam o Madison Square Garden – antes de começar o palavrório republicano. Não, não foi no mesmo Madison Square Garden que, em 1939, abrigou o desfile nazista em solo americano (as imagens são chocantes, confira aqui). O nome é o mesmo, o prédio é novo, mas o fascismo, com seu discurso de ódio, a substituição do argumento pelo slogan, a performática da testosterona e a perigosa tese do “inimigo interno” estavam sim por lá.

E a massa, que acompanhei tão proximamente na fila, aplaudiu para valer os animadores do circo trumpista – um misto de humoristas, coaches, bilionários dopados – e os políticos republicanos, além de funcionários e familiares do magnata, que tentaram cravar o slogan “New York is Trump country” [Nova York é o país de Trump] no coração de um estado essencialmente democrata e que há 40 anos não elege nenhum presidente republicano.

Tirando uma ou outra figura com toda a tarimba de animador partidário, dentro do cercadinho trumpista onde passei a tarde e a noite no domingo passado, o que vi foi o povo e, em particular, um povo de imigrantes: indianos (todos homens contra Kamala), hispânicos (muitas mulheres – acima dos 40 – fãs de Trump), mais rapazes do que moças (em particular, judeus, brancos e negros).

Pelo menos onde fiquei, a incidência de homens prevaleceu sobre as mulheres. Nenhum bilionário no cercadinho, só gente que trabalha e que bateu efusivas palmas com os slogans de coaching durante o evento. Ao me pedir para desligar o gravador, um rapaz alto, branco e de óculos grossos me disse que Trump vai alavancar a economia em vez de ficar gastando dinheiro com os imigrantes miseráveis que entram pelas fronteiras.

Outro rapaz, negro e estudante de Direito, garantiu que com Trump, os Estados Unidos terão mais empregos, porque ele cortará as taxas pagas pelos empregadores, o que vem dificultando a abertura de trabalho. “Biden só cobra impostos”, frisou. Um pouco mais adiante, num grupo de simpáticas senhoras hispânicas, uma delas me disse que certamente “seria muito bom para os EUA ter uma mulher presidente, mas não Kamala. “Não gosto dela, eu gosto dele e ponto”.

Também poderia comentar sobre um casal de americanos, os dois com o boné MAGA na cabeça, que me disseram, em meio a tantas guerras, que nunca mais votarão nos democratas. A mesma questão veio forte de um estudante de economia, os cabelos de fogo, egresso da Dinamarca. Ele também me esperou desligar o gravador, para dizer que o governo Biden é assassino. E quando o questionei se o fascismo de Trump também não era, ele respondeu: “é tudo bobagem para conseguir voto”.

Infelizmente, não me pareceu bobagem a fala contra as minorias que consegui observar tão de perto naquela fila. Tampouco a agonia que, confesso, foi crescendo conforme as pessoas riam das piadas preconceituosas de Tony Hinchcliffe, que chamou Porto Rico de “ilha flutuante de lixo no meio do oceano” e disse que nós, latinos, gostamos de fazer bebês.

Ou quando o amigo evangélico de Trump, David Rem, chamou Kamala de “anticristo” e “diabo”. Quando Grant Cardone, investidor imobiliário, criticou as taxas de Biden e afirmou que Kamala e seus “cafetões” destruirão a América – sim, ele a chamou de “prostituta”. Ou diante da forma misógina como J. D. Vance, senador de Ohio, referiu-se à inteligência de Kamala, que cursou a Howard University e a Universidade da Califórnia, foi procuradora-geral da Califórnia, senadora da República, vice-presidente da República e está prestes a se tornar a primeira mulher presidenta dos Estados Unidos.

Camiseta misógina da campanha republicana que vem sendo vendida nos comícios de Trump, com os dizeres “Diga não à prostituta. Vote Trump!”

A agonia aumentou diante do inacreditável aplauso da plateia repleta de imigrantes depois que Trump – que divagou um bocado em suas considerações – prometer o maior programa de deportação da história dos Estados Unidos para deixar o país mais seguro, batendo na tecla perigosa do inimigo interno.

Como não pensar em Modi, o taxista indiano de riso fácil e sobrancelhas grossas que me ajudou a chegar até o estádio?

Há cinco anos em Nova York, ele aguarda a liberação do green card [visto de permanência] para poder trabalhar, sem pressão e sem medo, no país. Só depois de muita insistência, ele me disse que preferia Trump a Kamala, não por causa dela, filha de mãe indiana, mas por causa do Biden, “os dois são a mesma coisa”.

Modi acredita piamente que com Trump, o documento sai. “Biden atrapalhou muito”, balança a cabeça, “Trump não, ele faz. É um empresário”.

Enquanto isso, na Pensilvânia…

No corpo a corpo com os eleitores da Filadélfia, na Pensilvânia, onde disputa o voto dos indecisos no estado, Kamala apresentava para o eleitorado hispânico e negro, um programa de redução das desigualdades, prometendo oportunidades, emprego e ajuda ao pequeno comerciante.

“Sei que famílias negras têm 40% menos probabilidade de serem donas de uma casa. Parte da minha política beneficiará a todos, mas estou ciente de que precisamos dar às pessoas a oportunidade de ter uma casa própria, que é a oportunidade de construir riqueza intergeracional. Meu plano inclui uma assistência para os compradores pela primeira vez de um imóvel de US$ 25.000, para ajudá-los a dar o primeiro passo para a casa própria”.

Ela prometeu, também, um crédito tributário infantil de US$ 6.000. “É o que vai ajudar os pais jovens que desejam criar seus filhos, mas nem sempre possuem os recursos. Vai ajudá-los a pagar pelos cuidados infantis, comprar um berço, uma cadeirinha para as crianças no carro. Quando fizemos o Crédito Tributário Infantil pela última vez, reduzimos a pobreza infantil negra pela metade. São essas coisas que pretendo fazer, com foco no que podemos fazer e que comprovadamente funciona”, disse a uma rádio local.

A ver o apelo que mais moverá a escolha dos americanos. Enquanto a incerteza paira, um breve compilado, publicado pela Forbes nesta terça-feira (29 de outubro), de várias pesquisas locais nos estados pêndulos. Os números correspondem às primeiras sondagens citadas pela reportagem:

Pennsylvania
Harris 48%, Trump, 48%

Michigan
Harris 51%, Trump 46%

Wisconsin
Harris 50%, Trump 47%

Nevada
Harris 51%, Trump 47%

Arizona
Trump 51%, Harris 47%

Georgia
Trump 51%, Harris 46%

North Carolina
Trump 50%, Harris 48%

TVGGN: Regra no Brasil é que as atrocidades e conspirações de militares sigam sem punição

 

Historiador ressalta que, no Brasil, a regra geral é passar a mão na cabeça dos militares, que seguem nas listas de promoções e em posições de comando da FAB

Jornal GGN:

Crédito: Reprodução/ TVGGN


O ministro da Defesa, José Múcio, afirmou nesta semana que é  a favor da anistia para os envolvidos na depredação da sede dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, mas apenas para aqueles que cometeram infrações leves. 

Múcio afirmou ainda que as penas devem ser graduadas, a fim de evitar a polarização do processo. “Deve haver uma punição específica para quem organizou o ato, enquanto para aqueles que foram manipulados, a situação é outra”, disse em entrevista ao UOL News.

Para analisar esta declaração, que foi um dos fatos de grande repercussão da semana, o programa TVGGN 20H da última sexta-feira (1°) contou com a participação do professor e historiador Manuel Domingos, que observou que na história do Brasil, atitudes firmes diante de golpes militares só se mostraram em conjunturas muito específicas. 

“A regra geral foi passar a mão na cabeça, foi a anistia”, observou o convidado. “E a própria voz governamental do ministro Múcio já anistiou todo mundo, eles acham que deve haver gradação de punições. A investigação sobre a carta aponta alguns, poucos oficiais, sempre poucos, quatro apenas, são coronéis, tenentes-coronéis, todos eles, inclusive, não sei se todos eles, mas alguns deles que continuaram desde o evento até hoje na lista de promoções normalmente, bem assimilados no cotidiano dos quartéis.”

Para exemplificar a conivência com os militares, Neto lembrou do Almirante Garnier, que desafiou as urnas, o tribunal e Lula, mas nada aconteceu com ele. Pelo contrário. Recentemente, estava no comando da Marinha.

Manuel Neto ressalta ainda que vivemos tempo de extrema reação, brutalidade e golpismo, mas que este ambiente não deve ser atenuado, porque “vivemos nas tensões da guerra. “O Brasil está acorçoado, a posição brasileira, diante dessa conflagração imanente, sorte que as posições tendem a se acirrar. Não digo que vai acontecer isso ou vai acontecer… A gente verifica tendências. As tendências vão se acentuando.”

O resultado das eleições, aliás, demonstram a posição da sociedade brasileira na avaliação do entrevistado, que está contaminada com o conservadorismo e apenas em Fortaleza, onde o Evandro Leitão venceu a disputa contra o candidato do PL, houve a ideia da defesa da democracia. 

“Mas, se nós percorrermos a história do Brasil, vamos ver coisas atrozes, sem punição. Essa é a regra. Anistia ou não anistia é uma questão puramente política. Porque a força institucional, o esgarçamento que você menciona, ele retrata essa força institucional. E as corporações estão com força. Pega a Polícia Federal. O que eles aprontaram na Lava Jato não teve nenhuma punição. Aquela delegada que levou ao suicídio o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. O delegado que invadiu a Universidade Federal de Minas Gerais, todos aqueles abusos. O pessoal que levou o governador do Rio algemado nos pés, nos braços, que montaram operações fantasmas”, lista o historiador. 

Mais que o histórico de atrocidades impunes, o professor aponta ainda que o 8 de janeiro teve um conjunto de elementos preparados por anos para que fosse possível, como ausência de responsabilizações, inércia do comando militar, além de sinais claros de terrorismo, fatores que construíram um ambiente propício para uma tentativa de golpe. 

“A meu ver, demorou-se demais para desmobilizar aqueles golpistas dos quartéis. Aquilo continuou. Não posso entender o negócio daquilo. Como é que persiste tanto tempo? O presidente pediu a desmobilização,  mas a desmobilização foi negociada quando não tinha o que negociar.”

Manuel Neto reafirma ainda que a democracia brasileira vai continuar sempre falseada e subjugada se não houver uma reação institucional “contra essas corporações, esse espírito golpista que persiste desde sempre”. “Quem acompanha a história do Brasil sabe que não prestar contas agora  significa comprar uma complicação daqui a pouco.”

domingo, 3 de novembro de 2024

Do Portal do José: PREOCUPARAM! BOLSONARO E ORCRIM DE OLHO NOS EUA! ALGO SÉRIO OCORRERÁ! O MAIOR PROBLEMA ESTÁ AQUI!

 

Do Portal do José:

03/11/24 - O BRASIL ESTÁ IMPORTANDO MUITAS COISAS DOS EUA. Mas nada que seja mais danoso do que a importação da vigarice política. Tem gente querendo fugir!



sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Luís Nassif entrevista o advogado Kakay sobre o desfecho do inquérito contra os golpistas

 Em pauta, os planos do PL para 2026, que pretende lutar para reverter a inelegibilidade de Bolsonaro e pela anistia aos condenados do 8/1

Foto: Grupo Prerrogativas

O jornalista Luis Nassif entrevistou, no programa “TVGGN 20h” da segunda-feira, 28/10, o advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida, mais conhecido como Kakay.

Em pauta, os planos do PL para 2026. Em entrevista do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, à Globonews na segunda-feira (28/10), Neto diz que o partido lutará para reverter a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro para sair como candidato da direita daqui a dois anos, assim como trabalhará pela PEC da anistia a favor dos condenados pelo 8 de janeiro.

Ainda, as consequências para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito reeleito na capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), se comprovado crime eleitoral por acusação sem provas contra o candidato Guilherme Boulos (PSOL).

Assista:

A falsa discussão sobre empreendedorismo, por Luís Nassif

 

Políticas, esquecidas hoje em dia, tiveram papel relevante no bom desempenho da economia. Mas foram esquecidas pela falta de memória nacional.


Jornal GGN:

É curiosa essa discussão sobre o empreendedorismo, como se fosse uma ideia nova no país. E como se fosse um tema ignorado pelos sucessivos governos Lula.

O papel da pequena e micro empresa (PME) é reconhecido desde o momento em que o ex-presidente Fernando Collor de Mello se encantou com os programas de qualidade total e reformulou o Sebrae.

Até então, era um órgão para abrigar políticos sem mandato, o Sebrae transformou-se no grande impulsionador das PMEs, ao lado do sistema S – das federações de indústria.

Os anos 90 foram tomados por amplas discussões sobre o papel das PMEs e da inovação. Surgem os parques tecnológicos, o avanço do papel da Finep (Financiadora de Estudos e Pesquisas), a criação dos fundos setoriais de tecnologia.

Houve parcerias produtivas entre grandes empresas e seus fornecedores. A Cemig foi a primeira a montar programas de capacitação de seus pequenos fornecedores. Mais tarde, houve um movimento organizado em que grandes empresas inovadoras levando conhecimentos de gestão e inovação às suas cadeias produtivas.

Mas os maiores avanços ocorreram nos governos petistas.

Em 2008 foi criado o regime a MEI, ou Microempreendedor Individual, para facilitar a formalização de pequenos empreendedores e trabalhadores autônomos. Através do regime MEI, o empreendedor pode legalizar sua atividade, obter um CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), emitir notas fiscais e acessar benefícios previdenciários, como aposentadoria por idade, auxílio-doença e salário-maternidade.

Quem se registra como MEI paga uma taxa mensal fixa, que cobre impostos como INSS e ISS (para prestadores de serviços) ou ICMS (para comerciantes e industriais). Além disso, o MEI é isento de impostos federais, como Imposto de Renda, PIS, Cofins, IPI e CSLL.

Para se enquadrar como MEI, o faturamento anual deve ser de até R$ 81 mil (até atualização em 2024), e o empreendedor pode ter, no máximo, um empregado registrado.

Antes disso houve a promulgação do Estatuto da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, com faturamento bruto anual entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões.

Essas empresas passaram a ter direito ao SIMPLES Nacional, unificando  a arrecadação de tributos federais, estaduais e municipais em uma única guia de pagamento. 

Também definiu-se preferência em licitações públicas. Tem prioridade em Licitações até R$ 80 mil. Ganharam também direito de preferência caso ofereçam um valor até 10% maior que a proposta mais baixa de uma empresa de grande porte (ou 5% no caso de pregão).

Além disso, foram definidas inúmeras políticas setoriais para beneficiar as PMEs, como o programa de bioetanol da Petrobras, inicialmente planejado para a agricultura familiar. Além do fortalecimento das Finep e das fundações de amparo à pesquisa.

Essas políticas, esquecidas hoje em dia, tiveram papel relevante no bom desempenho da economia nos anos seguintes. Mas foram esquecidas pela falta de memória nacional.

A “gastança” federal

Algumas hipóteses que ganharam força nos últimos dias:

  1. Se Lula tiver algum favoritismo, nas eleições de 2026, haverá um novo movimento de impeachment.
  2. Indício forte é a obsessão da mídia em criminalizar a política fiscal, sabendo-se que o único preço fora de linha é dos juros da dívida pública. Trata-se de uma ação articulada explícita entre os jornalões.

A expressão “negacionismo fiscal” tem sido utilizada a torto e a direito, mesmo com todo empenho da Fazenda em conseguir equilíbrio no déficit primário. O trabalho de reconstrução da máquina pública, as enormes carências de pessoal, a ausência de concursos ou de reposição salarial – essenciais para manter a eficiência da máquina pública – são deixadas de lado pela campanha sistemática de criminalização de cada centavo gasto com a máquina pública. E, na sequência, despejam críticas contra o mau funcionamento de setores públicos, decorrentes justamente da falta de orçamento.

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