terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Religiosos extremistas: o estranho ecumenismo centrado na ambição do poder político. Artigo de Valdemar Figueredo (Dema)

 

Os pretensos "cristãos" ultraconservadores, "islamitas" radicais e "judeus" fundamentalistas ultraortodoxos de extrema-direita são contrários à modernidade, à democracia, à pluralidade, aos direitos humanos e ao Estado laico

Do ICL:


Religiosos extremistas: estranho ecumenismo político

Artigo de 
Valdemar Figueredo (Dema)

As profecias sobre o fim ou arrefecimento do religioso na modernidade ocidental, visivelmente, malograram. Além do fenômeno religioso estar bem situado nas sociedades modernas, ganha feições radicais, como integristas católicos, fundamentalistas protestantes, islamistas e ultraortodoxos judeus.

Para essas vertentes religiosas radicalizadas, dissidentes, a sociedade moderna seria uma sociedade “sem Deus” que se converte (segundo eles) numa sociedade “contra Deus”.

Jean-Louis Schlegel[1] ao distinguir os quatro grupos que se colocam nos extremos, permite-nos perceber o quanto se tocam na vida pública. São diferentes no que diz respeito às doutrinas e crenças religiosas, mas bem parecidos nas reivindicações políticas no Estado.

Islamistas

O Estado islâmico que idealizam se guiaria pela lei islâmica. O que serve para o sujeito religioso serviria para a vida civil, social, cultural e econômica. A vida social, para os islamistas, seria expressão da sua fé. O Alcorão ditaria a regra de fé e conduta. Legislação e legisladores obedeceriam a lei maior, vocalizada pelos religiosos devidamente legitimados por Deus.

Integristas católicos

Saudosos de uma ordem social católica. Algo que aconteceu em alguns contextos nacionais ao longo da Idade Média. O poder legitimado por Deus sob a tutela do poder eclesiástico verticalizado e “divinamente” hierárquico. Esse espírito, nomeado como integrismo católico, esteve presente na Igreja durante o século XIX enquanto reação contrarrevolucionária na França. Fundamentalmente, contra a modernidade. Contra a separação Igreja e Estado. Para os integristas, a democracia não é algo a ser vivido no âmbito interno da Igreja, muito menos na esfera externa, no Estado. Neste sentido, coincide com os islamistas.

Fundamentalistas protestantes

Embora não condenem em si as instituições democráticas ou recusem o expediente da alternância de poder, reivindicam a condição de Moral Majority. Isto é, são adeptos de certa ditadura da maioria. Usam a “democracia procedimental” para impor os seus valores ao restante da sociedade. Como se os “infiéis” ao serem regidos pelos “fiéis” fossem, ainda que a contragosto, também beneficiados. Expoentes nos Estados Unidos desde o final da década de 1970, proponentes de uma agenda política contra o aborto, contra a emancipação das mulheres, contra os direitos dos homossexuais, pelas preces nas escolas, pela leitura bíblica nas instituições públicas, pela posse e porte de armas pelos cidadãos. Creem no patriotismo enquanto expressão de povo eleito por Deus para abençoar outras nações. Todos esses elementos reunidos serviriam como antídoto contra o comunismo e a ascensão da esquerda, supostamente ateia.

Judeus ultraortodoxos

Muito do que fora dito sobre islamistas, integristas e fundamentalistas aplica-se também aos ultraortodoxos, guardadas as devidas proporções. Parcela dos ultraortodoxos são afeitos aos guetos como preservação das tradições e proteção das ameaças da modernidade. Mas, entre eles, há quem seja favorável à conquista do poder do Estado de Israel para estabelecer uma teocracia. Para as favas com a democracia ocidental, o governo dos sacerdotes estabeleceria a lei sem apartar o Estado da religião. O pluralismo celebrado pelo Estado democrático de direito, neste caso, não se aplicaria.

xxx 

Apoiados na lógica causa e efeito, os extremistas religiosos alegam que os fracassos da modernidade têm relação direta com a ausência de Deus. Como se alijar Deus das decisões centrais na política e o alienar da vida social resultasse em mazelas naturais, miséria social e econômica, vícios e desvio moral. Todas as insatisfações com a modernidade são postas na conta da arrogância humana que se colocou no lugar de Deus, dizem.

No Brasil, 86,8% da população se declarou cristã. Em plena modernidade tardia ou pós-modernidade, muito longe das previsões de ocaso do religioso, no Brasil, conta-se mais templos religiosos do que hospitais e escolas juntos (IBGE, 2022).

Assistimos a ascensão na República Federativa do Brasil de religiosos extremistas. Pouco afeitos a pluralidade, variações de integristas católicos e fundamentalistas protestantes atuam despudoramente num estranho “ecumenismo” político.

[1] SCHLEGEL, Jean-Louis. A lei de Deus contra a liberdade dos homens. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

Valdemar Figueredo (Dema)

Idealizador e coordenador desde 2017 do Observatório da Cena Política Evangélica pelo Instituto Mosaico (www.institutomosaico.com.br). Pós-doutorando em sociologia pela USP. Doutor em ciência política (antigo IUPERJ, atual IESP-UERJ) e em teologia (PUC-RJ). Pastor da Igreja Batista do Leme e da Igreja Batista da Esperança, ambas na cidade do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

O mundo e o Brasil na era da Inteligência Artificial, por Luís Nassif

 

É provável que nem todos os investimentos sejam realizados ou metas cumpridas. Mas a relevância do PBIA está no mapeamento de todo o setor

                                                                        Júlio César Silva – MDIC


No início do século 21 o Brasil tornou-se uma potência em software livre – desenvolvido por comunidades de desenvolvedores em código aberto. Houve grande impulso no início do governo Lula, em torno do sistema operacional Linux e de vários aplicativos, inclusive substituindo o campeão Office, da Microsoft. Tudo isso ancorado na adoção de sistemas abertos pelo setor público.

Ainda hoje, corporações como o Ministério Público Federal utilizam programas de código aberto em seus notebooks funcionais. O Banco do Brasil utilizava em suas agências, mas passou a substituir por sistemas fechados.

O lobby das empresas de tecnologia sempre foi muito forte e acabou reduzindo o espaço para o software livre. 

Agora, com o DeepSeek, o movimento ganha um novo fôlego. A empresa chinesa desenvolveu uma tecnologia barata e abriu o código para quem quiser. A Inteligência Artificial (IA) sai do controle das grandes corporações e se democratiza, justo no momento em que o Brasil preparou seu plano de IA, apresentado na 5a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O plano se baseia em duas âncoras.

A primeira, a regulamentação do FNDCT (Fundo Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação), proibindo o contingenciamento de seus recursos, conforme lei aprovada pelo Congresso Nacional. A segunda, a viabilização da captação de crédito para a Finep (Financiadora de Estudos e Pesquisas) e para o BNDES, por meio do Mais Inovação, a taxas de juros favorecidas.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028 trabalha com cinco eixos principais:

Infraestrutura e Desenvolvimento de IA – Investimentos em supercomputadores, redes de alta velocidade, energias renováveis e software nacional para IA.

Difusão, Formação e Capacitação em IA – Educação e treinamento de profissionais para suprir a demanda do mercado de IA.

IA para Melhoria dos Serviços Públicos – Aplicação de IA para melhorar serviços de saúde, educação e segurança pública.

IA para Inovação Empresarial – Incentivo ao desenvolvimento de IA para aumentar a competitividade da indústria e do comércio.

Apoio ao Processo Regulatório e de Governança da IA – Criação de diretrizes para garantir o uso ético e seguro da IA no Brasil.

Eixos 1 – A infraestrutura

O PBIA prevê a aquisição de supercomputadores de alto desempenho e a ampliação da capacidade de processamento através da descentralização dos recursos tecnológicos pelo país. Ponto importante será a sustentabilidade energética, já que o processamento consome grande quantidade de energia.

Outro ponto relevante é a criação de um ecossistema de dados e software, facilitando a montagem de consórcios de pesquisa entre os diversos institutos.

Os recursos ainda são pequenos para o desafio: R$ 3,0 bilhões para a infraestrutura e R$ 500 milhões para sustentabilidade e energias renováveis para IA.

Os sistemas de software livre terão uma injeção de recursos de R$ 1,4 bilhão, com a criação de curadoria e disponibilização de conjuntos de dados nacionais para treinamento da IA em português.

Prevê também a criação de um modelo de IA fundacional em português.

Finalmente, o Programa de Pesquisa e Desenvolvimento prevê R$ 873 milhões para a criação de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia voltados para IA, e cooperação internacional com América Latina, Caribe e África.

Eixo 2 – a capacitação

Serão R$100 milhões para campanha nacional de conscientização sobre IA para a sociedade. Inclui a criação da Olimpíadas Brasileira de IA.

Haverá R$ 548,5 milhões para a criação de cursos de graduação e disciplinas em IA em universidades e faculdades, a expansão do ensino técnico-profissionalizante, bolsas de estudo para graduação, mestrado e doutorado em IA, incluindo bolsas no exterior. E Laboratórios Interdisciplinares de Formação de Educadores (LIFE).

A meta é criar 5 mil vagas em cursos de graduação de IA em 3 anos, oferecer 100% das vagas em IA e ciência de dados no FIES, criar e ampliar 47 laboratórios LIFE e 1.200 bolsas para pesquisadores focados no desenvolvimento de soluções de IA.

Serão investidos também R$ 500 milhões em uma plataforma nacional de cursos online gratuitos de IA e parcerias com empresas e Sistema S para formação técnica em IA. 

A meta é capacitar 20 mil profissionais no primeiro ano, 30 mil no segundo e 50 mil no terceiro. E fornecer 250 mil vagas para formação técnica em IA até 2028.

Eixo 3 – serviços públicos

A previsão é de investimentos de R$1,76 bilhão para a modernização e digitalização dos serviços públicos através de IA.

R$ 59 milhões serão aplicados em um núcleo de IA do governo federal, que criará uma plataforma de IA para desenvolvimento e implementação de modelos nos serviços públicos, além de testar soluções, antes da implementação em larga escala.

As metas são de capacitação de 115 mil servidores, estruturação de 25 projetos estratégicos de IA (devidamente identificados) e 25 projetos-pilotos de experimentação com IA até 2026,

Ponto relevante é o investimento de R$ 1,4 bilhão na criação de uma Nuvem Soberana – para armazenar dados governamentais -, o estabelecimento de uma política de governança de dados públicos, e de sistemas de privacidade e segurança da informação.

A meta é catalogar 2 mil conjuntos de dados do governos federal até 2027 e economizar R$ 6 bilhões com a eliminação de exigências burocráticas.

Mais R$ 259 bilhões serão aplicados no Programa de Soluções de IA para Serviços Públicos, implementando soluções de IA em pelo menos 10 órgãos por ano.

Eixo 4 – inovação empresarial

São previstos R$ 13,79 bilhões em investimentos, R$ 4,49 bilhões dos quais para a criação de datacenters nacionais, apoio à cadeia produtiva, incentivo a startups, fomento à adoção de IA por micro e pequenas empresas e inserção de mestres e doutores em IA em empresas privadas.

R$ 2,3 bilhões irão para datacenters sustentáveis no Norte e Nordeste. Haverá a expansão da Rede Embrapii (uma parceria Ministério de Ciência e Tecnologia e Confederação Nacional da Indústria) para 35 unidades até 2026. R$ 400 milhões irão para apoio a startups de IA. E R$ 9,39 bilhões para desenvolvimento de soluções aplicadas à indústria, em alinhamento com a NIB (Nova Indústria Brasil).

O mapa da mina

É provável que nem todos os investimentos sejam realizados, nem todas as metas cumpridas. Mas a relevância do PBIA está no mapeamento de todo o setor, na definição clara das linhas de ação, na visão sistêmica para a implantação da política.

Leia também:

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Alguns tópicos sobre as implicações das novas descobertas no mundo da física quântica para o conhecimento de poucos humanos...

  Implicações filosóficas da física quântica... 

Do Canal Fatos Desconhecidos (apenas para refletir):

Imagine um problema tão complexo que levaria milhares de anos para todos os computadores da Terra solucionarem juntos. Agora, imagine uma máquina capaz de resolvê-lo em apenas um segundo. Essa é a promessa do novo computador quântico do Google.



Eduardo Bueno: AMÉRICA É UMA FRAUDE

 

Do Canal de Eduardo Bueno - Buenas Ideias:

AMÉRICA, FRUTO DO FAKE - Tem gente que anda querendo trocar o ancestral nome Golfo de México para Golfo da… América! Mas claro que o cosplay de Doritos que propôs isso não sabe o q quer dizer nem uma nem outra palavra. Mas claro que Buenas Ideias tudo sabe e tudo vê… Venha tomar sua decisão conosco.



Mídia Internacional: A Guerra Comercial Começou, Trump x Mundo

 

Do Canal de Julien Jubert:

A guerra econômica entre China e México, Canadá versus EUA envolve tarifas, incentivos industriais e disputas comerciais. Washington pressiona parceiros do T-MEC para reduzir laços com Pequim, enquanto China investe no México para driblar barreiras. Canadá enfrenta tensões com os EUA por subsídios e políticas industriais divergentes, afetando cadeias produtivas. E um grande foco, tarifas… Neste vídeo veremos a mídia internacional falando da guerra tarifária entre EUA X CHINA, Canadá, México. Tarifas do TRUMP



Análise Politica com Luis Nassif pelo ICL Notícias: Trump, geopolítica, Brasil...

 

Do ICL Notícias a A Voz Trabalhadora:




sábado, 1 de fevereiro de 2025

O nazifascismo entrou em cena, por Dora Incontri

 Eis um regime que se anuncia fascista, 100 anos depois da ascensão de Mussolini na Itália, que passou à condição de Duce, no ano de 1925.




O nazifascismo entrou em cena

por Dora Incontri, no Jornal GGN:

Não há como normalizar o que se apronta no mundo. Não há como relaxar diante do cenário que se põe com a ascensão de Trump, respaldado pela extrema direita mundial, com a comunicação dos donos das big techs, que terão terreno livre para manipular as massas. Não há como ignorar e achar desculpas para a saudação nazista de Elon Musk. Estamos diante de um regime que se anuncia fascista, exatamente 100 anos depois da ascensão de Mussolini na Itália, que assumiu o cargo de Primeiro-Ministro em 1922, mas passou à condição de Duce, no ano de 1925.

Figuras caricatas todas essas que esposam a prática da extrema direita: cheios de caretas, frases de efeito, estética duvidosa, arroubos autoritários e, sobretudo, supremo desprezo por qualquer civilidade, por qualquer respeito humano. Logo no primeiro dia de governo, Trump já mostrou a que veio: perseguirá imigrantes, estimulará a pena de morte nos estados, cancelará a cidadania das crianças nascidas nos EUA, filhas de imigrantes. Já retirou o país da OMS e do acordo climático de Paris. Na posse mesmo, baixou diversos decretos absurdamente discriminatórios e autoritários. Nem me dou ao trabalho de nomear todos. Apenas registro o assombro, o lamento, a indignação e a perspectiva sombria que nos bate à porta.Se o Duce e logo em seguida o Führer puseram fogo no mundo e desencadearam a Segunda Guerra Mundial, agora é a maior potência militar do planeta que assume descaradamente a postura nazifascista. Aliás, a potência que já usou a bomba atômica, a única até agora a cometer esse crime contra a humanidade.

É claro que temos o dever de entender a história e saber que a Segunda Guerra não foi esse duelo entre a liberdade e o nazifascismo. Teorias e práticas eugenistas, por exemplo, já eram adotadas nos EUA antes da ascensão do nazismo na Alemanha, em relação à população afrodescendente. Tivemos até no Brasil, defensores de tais descalabros eugenistas, como o autor que li a infância inteira, Monteiro Lobato. Empresas americanas como a IBM e a Coca-Cola (com a criação da Fanta na Alemanha nazista) além de inúmeras alemãs, que incluíam a Volkswagen, a BMW, a Bayer, a Basf e outras, sustentaram e apoiaram a insanidade nazista.

Digo isso para demonstrar que é o capital que sustenta o totalitarismo de direita e que não houve uma disputa entre o puro bem e o detestável mal, na Segunda Guerra. Estavam todos mais ou menos implicados na responsabilidade do sangue derramado. E no outro polo da luta, estava Stalin, também ditador sanguinário, em que pese o mérito de ter ajudado a derrotar o nazismo.

Encerrada a Segunda Guerra, inicia-se a polaridade da Guerra fria e os EUA se constituem como um império que semeia o tempo todo, guerras, ditaturas pelo mundo afora, inclusive a nossa, a brasileira, de que agora os norte-americanos estão assistindo um pequeno recorte no filme Ainda estou aqui. Mas sabemos que com o analfabetismo político que reina por lá, ainda mais forte nesses tempos de zumbis das mídias eletrônicas, a maioria absoluta do povo não tem ideia do papel do governo dos EUA nas ditaduras ferozes da América Latina, incluindo o treinamento de torturadores.

A tão propalada “maior democracia do mundo” foi a patrocinadora de inúmeras ditaduras no mundo. E pior, que democracia sempre foi essa, que desde o início excluiu os negros, que só tem dois partidos (que têm diferenças muito pequenas entre si), que nunca promoveu programas de saúde popular, que mantém um verdadeiro campo de concentração, como a prisão de Guantánamo?

Agora então, o que restava de uma esquerda liberal – que pelo menos se empenhava pelos direitos civis internos, mas com pouquíssimos representantes que se manifestavam por exemplo contra o genocídio da Faixa de Gaza, que os EUA patrocinaram, apoiando largamente Israel – essa tímida facção de ideias um pouco mais à esquerda, Trump fará tudo para calar, para imobilizar, impondo-se com a maioria do Congresso e a maioria da Suprema Corte.

O que havia de arremedo de democracia acabou.

E nós, como ficamos? Em alto risco, porque temos os lambe-botas dos EUA, os simpatizantes do imperialismo yanque, que desejam alinhar os ponteiros da política brasileira com Trump. O clã dos Bolsonaro, que sofreu já todas as humilhações feitas por Trump (a última foi o fiasco de não serem aceitos para a posse do dito cujo); Tarcísio que celebrou a ascensão do novo governo e é da mesma cepa que Jair e Donald, e outros representantes dessa extrema direita tupiniquim, com complexo de vira-lata, que se volta feroz contra os interesses do Brasil e contra os próprios cidadãos brasileiros.

O risco é nosso, o risco é mundial. Um risco quase certo de acontecer o pior. Governos de extrema direita em vários países, alinhados na barbárie e na destruição.

Por tudo isso, não podemos tratar o tema com naturalidade, como a mídia corporativa tende a fazer. Como aliás, fizeram com Hitler e com Mussolini.

Estejamos em alerta máximo, em posição de resistência coletiva, de lucidez aguda, com esperança de que tenhamos os meios de virar mais essa página trágica da história, que certamente ainda vai nos causar muito choro e ranger de dentes.

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

Rubens Paiva era torturado por sádicos assassinos da ditadura militar ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos, por Urariano Mota

 

"Em depoimento anexado pelo Ministério Público à denúncia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um salão ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um rádio foi ligado em alto volume. Tocavam ‘Jesus Cristo’, de Roberto Carlos…”

Do Jornal GGN:

As razões dos torturadores, que mataram um homem ao som de canções com extrema perversidade, não cabem no samba curto de um artigo.



Rubens Paiva era torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos*

por Urariano Mota

Hoje pela manhã, enquanto seguia para um médico, disse à senhora  Francêsca:

– Não me sai da cabeça esta composição de Mozart – e tentei cantarolar, ou assassinar com a voz esta obra-prima

E continuei:

– Isso é bem melhor que Roberto Carlos, não é?

Ao que ela me respondeu:

– É. Aí já seria uma tortura.

Aquilo me ficou. Depois, enquanto esperava no consultório, me lembrei de que eu já havia escrito sobre Roberto Carlos e a tortura nos anos da ditadura brasileira. Ao chegar em casa, revi o texto de 2014, que volta à tona com o justo sucesso do filme “Ainda estou aqui’. Aos trechos.

Em mais de uma oportunidade já escrevi que podíamos escrever a história política do Brasil a partir do som da sua música popular. Assim foi, por exemplo, em páginas de Soledad no Recife, quando a ressurreição dos malditos anos da ditadura se fez sob a canção dos tropicalistas. (Ao que acrescento agora em 2025: assim é com o romance “A mais longa duração da juventude”, onde há discussões homéricas sobre os grandes compositores da música popular).

Mas jamais poderia imaginar, e aqui mais uma vez a realidade supera o imaginado, que a música popular fosse usada do modo mais vil, como o noticiado na imprensa dos últimos dias.

A informação consta de um depoimento escrito pela professora Cecília Viveiros de Castro, que esteve presa nas mesmas instalações que Rubens Paiva. Cecília estava então com 48 anos. Ela foi detida ao voltar de uma visita ao filho, Luiz Rodolfo, exilado no Chile

Com ela estava Marilene Corona Franco, cunhada de seu filho. As duas traziam cartas de outros exilados para suas famílias.  No prédio da Aeronáutica, elas ouviram gritos de um preso que estava sendo interrogado. ‘Era a primeira vez que constatava a existência dos horrores da tortura, tão negados pelo governo’, diz.

Em depoimento anexado pelo Ministério Público à denúncia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um salão ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um rádio foi ligado em alto volume. Tocavam ‘Jesus Cristo’, de Roberto Carlos…”

A notícia não informa, talvez em nome da objetividade, que o ex-deputado Rubens Paiva foi morto ao som de Roberto Carlos por diferentes razões na escolha das músicas. Tentemos um esboço aqui. Roberto Carlos, o Rei, veio na contramão, contrário à rebeldia política, em real estado de conformismo.

A “maioria silenciosa”, nela incluídos os jovens mais alienados do mundo, os pequeno-burgueses que apenas queriam uma razão de se dar bem na vida, em lugar de uma razão de viver, acompanhavam Roberto Carlos na canção “Jesus Cristo! Jesus Cristo! / Jesus Cristo, eu estou aqui / Jesus Cristo! Jesus Cristo! / Jesus Cristo, eu estou aqui … / Quem poderá dizer o caminho certo / É você, meu Pai / Jesus Cristo! Jesus Cristo!….”

As razões dos torturadores, que mataram um homem ao som de canções com extrema perversidade, não cabem no samba curto de um artigo. As pessoas nascidas nos últimos anos não sabem que no tempo da ditadura a música era também uma realização política, a música era uma concreção, o mais próximo de uma arma possível. O seu lugar na vida e no imaginário da juventude rebelde era um ato inalienável de combate.

Sei que os fãs do “Rei” vão dizer: “Roberto Carlos não tem culpa dos crimes da ditadura”. É verdade. Mas, por coincidência, a música de Roberto Carlos acabou por ser uma das mais representativas desses anos. O Rei não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas que realçavam o mundo ordenado pelo regime. Entre outras, o Rei compôs a canção que foi um hino, um gospel de corações vazios, um som sem fúria de negros norte-americanos. O Rei orou “Jesus Cristo, eu estou aqui”. Que profunda ironia para o nome do filme “Ainda estou aqui”.

É uma perversa vitória do real que esse crime expresse tão cruel o valor da música popular no Brasil. Roberto Carlos e Rubens Paiva, numa estranha associação que eles não queriam.

*Vermelho Rubens Paiva era torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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