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quinta-feira, 23 de abril de 2026

A síndrome da sociedade do reconhecimento facial, por Fábio Ribeiro

 

Atributo pessoal indistinguível, o rosto é objeto de proteção legal. Ninguém pode usar o rosto de outra pessoa para obter lucro.

Do Jornal GGN:

    Imagem gerada por IA

por Fábio de Oliveira Ribeiro

É natural das pessoas temerem a feiura, porque ela infelizmente é fonte de zombarias, discriminação social e em alguma casos isolamento forçado. A feiura algumas vezes é equiparada a um defeito moral ou mesmo indício lombrosiano de criminalidade inata. Outras vezes é a beleza que esconde e feiura moral e a criminosa. Mas mesmo quando uma pessoa feia é virtuosa, a situação dela não melhora porque no mundo fenomênico a aparência é a essência do ser.

O rosto cola à pessoa. Através das características dela a pessoa é conhecida pelas demais, exceto pelas pessoas que tem uma doença rara que as impede de distinguir as faces das pessoas para reconhecer cada uma delas.

Atributo pessoal indistinguível, o rosto é objeto de proteção legal. Ninguém pode usar o rosto de outra pessoa para obter lucro, muito embora as Big Techs façam isso diariamente com uma naturalidade imensa. O que permite essa exceção é a autorização que as próprias pessoas dão para as Big Techs ao compartilhar suas fotos pessoais.

Num passado distante essas fotos foram usadas para treinar sistemas de reconhecimento facial. A princípio isso parecia uma boa ideia. Depois as pessoas começaram a perceber que era perigoso permitir que empresas privadas e Estados utilizassem esses recursos tecnológicos. Mas a verdade é que o reconhecimento facial continuou a se espalhar por todas as grandes cidades e depois delas ele se propagou para as cidades pequenas. Essa tecnologia se tornou uma realidade onipresente e em algum momento ninguém mais conseguia ficar em casa ou sair na rua sem ser “visto” por diversos sistemas de vigilância privados e públicos.

Em alguns países existir social e economicamente significava ser facialmente reconhecível. Ser designado como “não reconhecível” pelo sistema, uma punição administrativa comum algumas vezes imposta para delitos civis e crimes leves, outras vezes uma consequência automática da falta de dinheiro no banco ou cancelamento do crédito bancário, significava ser rebaixado à condição de não pessoa. Isso porque a pessoa não podia fazer nada, nem mesmo comprar passagem de trem ou de avião ou mesmo pagar pelo almoço num restaurante barato.

Num mundo em que o rosto diz quem você é, em tese não faria diferença ser feio ou bonito. O sistema de reconhecimento facial não faz valorações estéticas, ele apenas liga uma pessoa particular ao conjunto de dados que a representa num data center privado ou no data center estatal.

Os primeiros lugares imaginados dessa forma foram o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, da Divina Comédia de Dante, porque o Deus que vê tudo em todos os lugares e em todos os momentos distribui punições e recompensas de acordo com os vícios e as virtudes. Ele não precisa ponderar cada decisão porque o sistema da vida após a morte foi, de certa forma, programado, como dizemos hoje, para funcionar corretamente, reconhecendo cada indivíduo e enviando-o ao lugar que lhe cabe. Na Comédia de Dante, o reconhecimento é total, ontológico, não apenas facial. O inferno de um sistema político real baseado em reconhecimento facial é o rosto que é computado erroneamente por algum motivo, o rosto que foi modificado e não pode ser computado e, claro, a adulteração não autorizada do banco de dados.

Nesse contexto, era natural que os cirurgiões plásticos fossem rigorosamente monitorados. Afinal, em razão de suas habilidades eles podiam interferir no funcionamento do sistema fazendo-o reconhecer como a pessoa A pobre como outra pessoa, a pessoa B rica por exemplo. Eles eram obrigados a documentar fotograficamente todas as pessoas que atendiam antes e depois da cirurgia. Tudo era depois agregado ao banco de dados oficial, para que a pessoa operada A com novo rosto fosse reconhecido como a pessoa A em qualquer lugar. As modificações feitas no sistema público de reconhecimento facial eram imediatamente repassadas aos sistemas privados, para que a pessoas não sofresse algum tipo de constrangimento.

Todavia, sempre que um sistema político ou econômico, ou mesmo tecnológico, coloca nas mãos de alguém um poder excepcional as possibilidades de fraude criminosa se tornaram uma realidade. Cirurgiões plásticos gananciosos começaram a trabalhar para quadrilhas de modificação de personalidade e dando origem à criação do Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes.

Esses caras eram especialistas na arte do disfarce, da infiltração, do hackeamento de computadores e é claro monitoravam todas as clínicas de cirurgia plástica com bugs. Os cirurgiões plásticos sabiam da existência do Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes então eles não cometiam crimes nos seus locais de trabalho. Aqueles que prestavam serviços às quadrilhas trabalhavam em consultórios improvisados, geralmente instalados em favelas miseráveis.

Para ser honesto, é preciso lembrar que nem sempre o trabalho desses cirurgiões visava lucro. Alguns deles cometiam crimes por razões políticas, porque existiam lutadores da liberdade que lutavam pelo fim da opressão facial. Mas nas sociedades dominadas de cima a baixo pelo reconhecimento facial a resistência política significava imediato banimento do sistema, um tipo de exclusão que se tornava permanente e lembrado em qualquer lugar a qualquer momento sempre que o rosto do dissidente fosse visto por uma câmera.

Pessoas desesperadas as vezes mutilavam seus rostos simulando acidentes apenas para não serem reconhecidos. Esses casos não eram tratados pelo Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Crimes Faciais, mas pela polícia comum. Sempre que o sistema identificava uma face desfigurada por cicatrizes recentes que não podia ser atribuída a alguém o sistema gerava um alerta. E, então os policiais comuns iam palmilhar onde aquele rosto mutilado havia sido marcado como “irreconhecível, mas sem dados computáveis”. A pessoa era então apreendida, identificada por outros meios e o novo rosto dela era acrescentado ao banco de dados. Os casos de reincidência eram sempre dramáticos, os de tatuagens feitos no rosto despertavam grande suspeita.

Assim como os cirurgiões, os tatuadores também eram vigiados de perto Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes. Tatuar rostos era estritamente proibido, exceto se a pessoa conseguisse uma autorização judicial prévia. Caso em que o procedimento todo no consultório do tatuador era semelhante ao dos cirurgiões plásticos. O sistema tecnológico-político, econômico e social tinha horror à apenas duas coisas: os casos de “erros de reconhecimento facial por falsificação causada mediante cirurgia plástica” e os casos de “irreconhecível, mas sem dados computáveis”.

O Código Penal de uma sociedade inevitavelmente refletirá as necessidades impostas pela tecnologia que predomina e permite a validação de todos os atos públicos e privados. Mutilação do próprio rosto ou do rosto de outrem será crime grave: 10 anos de prisão. Apropriar-se da identidade facial de alguém por meio de cirurgia plástica não autorizada será crime gravíssimo: 20 anos de prisão. Operar o rosto de alguém ou tatuá-lo sem autorização: 10 anos de prisão, cassação da licença profissional e, em última instância, indenização equivalente ao dano causado. Alterar maliciosamente bancos de dados faciais: 15 anos de prisão e amputação de dedos. Danificar ou destruir câmeras instaladas em locais públicos ou abertos ao público: 2 a 3 anos de prisão, dependendo da importância estratégica do local para a polícia, além da perda dos dados faciais computáveis ​​pelo dobro da pena. O uso de máscaras é proibido: multa de US$ 10.000. Usar máscara com o rosto de outra pessoa: 4 anos de prisão. Lembre-se, cidadão: seu rosto não lhe pertence, ele pertence ao sistema.

Usar máscaras era proibido, pena de multa de 10 mil dólares. Usar máscaras com o rosto de outra pessoa podia causar prisão por 10 anos. Em situações excepcionais (baile de máscara, carnaval), poderia haver dispensa da obrigação de não usar máscara. Mas nesses casos todas as pessoas eram reconhecidas facialmente antes e depois do evento e qualquer discrepância nos dados era imediatamente resolvida, sendo que a pena nesses casos era em dobro porque havia ocorrido má-fé para com a generosidade do estado que permitiu o uso recreativo de máscaras em ambientes livres de reconhecimento facial por tempo determinado.

Ser dono da própria face era motivo de orgulho no passado. Não ser dono dela por algum tempo no presente se tornou uma necessidade psicológica, então esses eventos (bailes de máscara e carnaval) se tornaram muito importantes. Talvez até mais importantes do que havia sido.

Nas sociedades do reconhecimento facial, os espiões eram agentes estatais com dispensa parcial ou total de reconhecimento facial. Assim eles podiam não ser vistos onde deveriam estar. E raramente eles eram reconhecidos pelas outras pessoas, porque de fato as habilidades naturais de reconhecimento facial haviam declinado desde que essa atividade passou a ser ostensivamente realizada por câmeras conectadas de alguma maneira aos data centes oficiais e privados.

O espião era um criminoso com liberdade para matar seu próprio rosto no sistema. Ele poderia até matar o rosto de alguém temporariamente, desde que isso se tornasse indispensável ao que ele havia designado para fazer. Esse grande poder não vinha sem um fardo: o espião que usasse mal seu acesso ao sistema de reconhecimento facial não perdia apenas o emprego. Ele geralmente perdia a vida também. Não, ele não era fuzilado. Ele apenas passava a ser reconhecido como alguém eternamente indesejável pelo sistema.

Nesse ponto o leitor deve estar se perguntando quando a história vai começar e quem são os personagens dela. Todavia, a história chegou ao fim porque o personagem dela foi delineado de maneira consistente.

Em um sistema de vigilância total, onde o reconhecimento facial é a regra e há câmeras por toda parte, ninguém consegue escapar de ser visto pelo sistema o tempo todo, pois o acesso ou a negação de acesso a produtos e serviços depende disso. Rebeldes e revolucionários nessa sociedade são hackers ou simplesmente candidatos a punições automatizadas.

Ninguém escapa de ser visto, mas alguém vestindo uma fantasia tipo Homem-Aranha, de corpo inteiro, incluindo a cabeça, feita de tecido espelhado, seria um “rosto não computável”. Algo que se assemelhe a um ser humano com um “rosto não computável” pode disparar alarmes no sistema, mas se um hacker alterasse a rotina para que o “rosto não computável” detectado fosse considerado irrelevante e descartável, o revolucionário vestido dessa forma seria o homem invisível. Ele seria visto por outras pessoas, mas o sistema não o veria.

Esse criminoso perigoso pode fazer qualquer coisa sem ser identificado, processado, condenado e preso. Vestindo sua fantasia de corpo inteiro feita de tecido espelhado, ele será algo que existe muito além da capacidade do sistema de identificá-lo. Ele está vivo, mas é um fantasma computacional. Ele não é invisível, mas não pode ser visto pelas câmeras. O status ontológico do “rosto não computável” é distinto de qualquer coisa já concebida ou imaginada por qualquer escritor. Ele sem dúvida terá uma vida dupla, mas uma de suas vidas será paradoxalmente notável justamente porque ele não tem rosto.

O deus de Dante vê tudo e todos o tempo todo, em todos os lugares, mas um poderoso sistema de reconhecimento facial não é Deus. Ele é cegado pelo terrível homem invisível com um “rosto não computável”.

Dinanzi a me no fuor cose create
se non eterne, e io eterna Duro.
Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate
Nell’inferno del riconoscimento facciale,
solo chi non può mai essere visto è al sicuro.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

O Código do Capital: a arquitetura invisível da dominação algorítmica global, por Reynaldo Aragon, jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento.

 

Artigo revela como o capitalismo do século XXI (e seus objetivos domínio e controle) se esconde por trás de interfaces suaves — e como planeja dominar o futuro sem que se perceba.

Do Jornal GGN:

Jean-Michel Basquiat


O Código do Capital: a arquitetura invisível da dominação algorítmica global

por Reynaldo Aragon

Por trás do discurso da inovação e das promessas da inteligência artificial, um pequeno grupo de gestoras financeiras decide silenciosamente o destino das plataformas, dos algoritmos, da política e da própria democracia. Este artigo revela como o capitalismo do século XXI se esconde por trás de interfaces suaves — e como ele planeja dominar o futuro sem que você perceba.

A política das sombras.

No centro do debate contemporâneo sobre o poder das plataformas digitais, os holofotes se voltam quase sempre para nomes como Elon Musk, Mark Zuckerberg ou Sundar Pichai. Mas o que permanece nas sombras — e justamente por isso mais poderoso — é a arquitetura invisível que os sustenta. A pergunta que deveria guiar qualquer análise séria sobre o presente não é apenas quem comanda as Big Techs?, mas sim: quem financia, dirige e condiciona estruturalmente o que elas podem ou não fazer?

As respostas conduzem a um núcleo silencioso, transnacional, discreto e tecnicamente preciso: as grandes gestoras de ativos financeiros. Empresas como BlackRock, Vanguard, State Street, Fidelity e Amundi não apenas detêm participações significativas nas maiores plataformas tecnológicas do planeta. Elas impõem diretrizes, definem limites e orientam o desenvolvimento técnico, cultural e político de uma nova ordem mundial gerida por algoritmos e guiada por interesses financeiros.

Essa elite atua por meio do que Peter Phillips chamou de “Titãs do Capital”: um grupo de 117 diretores executivos que controlam mais de 50 trilhões de dólares em ativos globais, distribuídos em todos os setores estratégicos da economia, do armamento à vigilância digital, da indústria petrolífera à infraestrutura de inteligência artificial. Eles são, no sentido mais concreto da palavra, os donos do mundo. Mas não ocupam palácios nem cargos de governo. Preferem as salas de conselho, os comitês de auditoria, os fóruns técnicos internacionais e os canais silenciosos do lobbying financeiro.

Este artigo parte de uma premissa simples e radical: o atual estágio do capitalismo não é apenas uma fase avançada da financeirização, mas uma mutação estrutural do poder global. Trata-se de um tecnocapitalismo algorítmico, no qual os códigos que regem o comportamento das plataformas são subordinados à lógica dos ativos financeiros, e não à ética pública, ao interesse coletivo ou à soberania dos povos. O algoritmo, neste novo regime, não é apenas uma ferramenta: é um operador político a serviço do capital.

A seguir, desvendaremos como as gestoras de ativos se infiltraram no núcleo estratégico das Big Techs e como moldam, desde a base, os rumos do mundo digital. Vamos demonstrar como operam na técnica, na política, na cultura e na ideologia. E, por fim, defenderemos que qualquer projeto progressista do século XXI precisa enfrentar esse poder difuso, opaco e quase invisível, sob pena de lutar contra um inimigo que já modulou até os termos da resistência.

Quem são os “Titãs do Capital”?

Por trás da fachada pública das grandes corporações digitais, existe uma camada subterrânea de poder cuja existência ainda é ignorada pela maioria da população, e muitas vezes, até por analistas experientes. Peter Phillips, no livro Titans of Capital, nomeia esse poder: 117 executivos de elite que comandam as 10 maiores empresas de gestão de ativos do planeta. Eles são o centro da engrenagem do capitalismo global contemporâneo, os curadores invisíveis do presente e arquitetos do futuro.

Essas gestoras (BlackRock, Vanguard, State Street, Fidelity, JPMorgan, Capital Group, UBS, Amundi, Allianz e PIMCO) operam como concentradoras de capital pulverizado, reunindo bilhões de dólares de fundos de pensão, governos, bancos, fundos soberanos e indivíduos, e canalizando esses recursos para os setores que definem os rumos da humanidade. Elas não produzem chips, não desenvolvem redes sociais, não criam ferramentas de IA. Mas decidem quem fará isso, como fará e sob quais condições.

Juntas, essas dez entidades controlam mais de US$ 50 trilhões em ativos, o equivalente a quase metade do PIB mundial. Isso lhes confere o poder de decidir o destino de empresas inteiras, de vetar fusões, forçar mudanças em conselhos, reorientar investimentos e bloquear iniciativas que ameacem sua rentabilidade. O controle não é exercido por decreto, mas por “governança corporativa”: o voto por procuração em assembleias, a imposição de diretrizes ESG adaptadas ao capital, a pressão por maximização de dividendos, a seleção de executivos alinhados aos interesses dos fundos.

O mais impressionante é a conexão cruzada entre esses executivos. Eles se sentam simultaneamente em conselhos de grandes corporações, bancos, universidades, think tanks e instituições estatais, formando uma rede global de influência silenciosa e extremamente eficaz. Estão no Council on Foreign Relations, no Fórum Econômico Mundial, no Trilateral Commission, nos comitês de política monetária e nos bastidores da regulamentação internacional. São o “Estado-maior” do capital, não eleitos por ninguém, mas com poder para fazer ou desfazer governos inteiros, como se viu no colapso da Grécia, no impeachment de Dilma Rousseff ou nas políticas fiscais da América Latina nos anos 2000 e 2010.

Importa compreender que essas gestoras não são neutras nem passivas. Elas agem, deliberadamente, para preservar uma ordem de acumulação baseada na financeirização, na desregulação dos fluxos de capital e na naturalização de um mundo governado por algoritmos e plataformas corporativas. A cada voto emitido em nome de milhares de acionistas pulverizados, reforçam sua legitimidade técnica enquanto perpetuam a subordinação estrutural dos povos ao rentismo global. Esses são os Titãs do Capital. Não precisam dar entrevistas nem vencer eleições. Eles já venceram quando ninguém percebeu que eles existiam.

A captura das Big Techs pelas gestoras.

Se o século XX foi marcado por guerras geopolíticas travadas entre Estados-nação, o século XXI assiste à consolidação de outro tipo de guerra silenciosa, invisível e profundamente eficaz: a captura privada das infraestruturas digitais que organizam a vida social, econômica, política e afetiva do planeta. No centro desse processo estão as gestoras de ativos que, longe de serem meras investidoras, se tornaram operadoras centrais do novo regime de governança algorítmica global.

A dinâmica é simples e brutal: as gestoras adquirem participações acionárias significativas nas maiores empresas de tecnologia do planeta, Google (Alphabet), Microsoft, Apple, Amazon, Meta, Nvidia, Oracle, Palantir, entre outras. Não se trata de pequenas fatias especulativas. Em 2024, por exemplo, a BlackRock era o maior ou segundo maior acionista das cinco maiores Big Techs do mundo. Juntas, BlackRock, Vanguard e State Street controlavam cerca de 20% a 30% das ações em circulação das empresas do S&P 500, o que lhes conferia poder efetivo de veto, influência estratégica em conselhos e capacidade de definir prioridades internas.

Isso significa que, ainda que Mark Zuckerberg ou Elon Musk sejam as faces públicas de suas plataformas, as decisões centrais sobre algoritmos, moderação de conteúdo, inovação tecnológica e investimentos em inteligência artificial passam, em última instância, pelo crivo dessas gestoras. São elas que decidem se a IA da Microsoft deve priorizar aplicações civis ou militares, se a Meta deve continuar investindo em realidades imersivas, ou se a Alphabet deve seguir adquirindo startups de biotecnologia e automação da linguagem.

Um exemplo ilustrativo é o da aliança estratégica entre a Microsoft e a OpenAI, cujo financiamento inicial e reestruturações foram aprovados com o beneplácito dos fundos institucionais que participam do board corporativo da Microsoft, entre eles, Vanguard e BlackRock. As decisões sobre o rumo da IA generativa, os modelos de linguagem como o ChatGPT, a forma como eles são treinados, auditados (ou não) e implementados, estão subordinadas ao cálculo de retorno sobre investimento definido por essas entidades.

A captura vai além da posse acionária. As gestoras exercem governança ativa, o que significa que:

  • participam das assembleias com poder de voto relevante;
  • pressionam publicamente por mudanças de estratégia quando os lucros estão em risco;
  • impõem critérios de compliance “aceitáveis ao mercado”, mesmo quando isso entra em choque com valores éticos ou direitos fundamentais.

Elas se posicionam inclusive em temas sensíveis como moderação de discurso de ódio, políticas de desinformação, contratos com agências de defesa e uso de dados pessoais. Sua lógica não é a da transparência democrática ou do interesse público — mas sim a da maximização de valor para os acionistas institucionais. Assim, a infraestrutura algorítmica da sociedade passa a ser moldada não pela cidadania, mas pela engenharia financeira.

As Big Techs, nesse contexto, são mais do que empresas: são plataformas-operadoras de um projeto de dominação técnica, cognitiva e econômica, cujo back-end de comando está em Nova York, Londres e Frankfurt, não em Brasília, Buenos Aires ou Johannesburgo.

A governança da vida digital, portanto, não é um produto do Estado de Direito. É uma extensão da vontade do capital sob forma algorítmica, cujo núcleo decisório atende pelo nome de “asset under management”.

O lobby das gestoras contra a regulação.

Se as grandes gestoras de ativos já ocupam os conselhos de administração das maiores empresas de tecnologia do mundo, é no plano da política pública que elas revelam sua estratégia mais refinada: impedir que qualquer forma de regulação democrática ameace seus interesses estruturais. O lobby não é feito apenas por CEOs de Big Techs ou por associações empresariais do setor digital. Ele é articulado por uma elite financeira global que atua nos bastidores da política institucional, moldando marcos legais, vetando legislações e promovendo um arcabouço normativo funcional ao capital.

Na União Europeia, por exemplo, a tramitação da Digital Markets Act (DMA) e da AI Act foi alvo de intensa pressão por parte de fundos de investimento e conglomerados financeiros. A Associação de Mercados Financeiros da Europa (AFME), financiada por bancos e gestoras, atuou diretamente para suavizar os termos da legislação que buscava limitar o monopólio algorítmico das plataformas. Na prática, as gestoras financiam tanto as Big Techs quanto os lobistas que operam para manter as plataformas sob seu domínio irrestrito.

Nos Estados Unidos, o cenário é ainda mais grave. A SEC (Securities and Exchange Commission), agência reguladora do mercado financeiro, vem sendo constantemente pressionada por representantes de Wall Street, entre eles, BlackRock e Vanguard, para bloquear qualquer medida que exija transparência nos algoritmos de IA utilizados em decisões de crédito, vigilância, ou moderação de conteúdo. Ao mesmo tempo, as mesmas empresas apoiam iniciativas como o Center for AI and Digital Policy, cujo discurso aparente é ético, mas cuja agenda prática é garantir um modelo de autorregulação centrado no interesse das corporações.

Na América Latina, esse processo assume formas ainda mais brutais. As gestoras atuam em consórcios de consultoria e advocacia, pressionando parlamentos e governos para flexibilizar leis de proteção de dados, impedir a criação de instâncias públicas de auditoria algorítmica e influenciar os termos dos projetos de lei sobre regulação de IA, como vem ocorrendo no Brasil. O caso mais visível foi a reação coordenada contra o PL das Fake News, que tentava responsabilizar plataformas por conteúdos nocivos e impulsionamentos ilegais. A campanha contra o PL foi financiada indiretamente por redes de fundações e escritórios com vínculos diretos com fundos de investimento e plataformas digitais.

O modelo de autorregulação que essas gestoras defendem não passa de um eufemismo técnico para a blindagem da sua autoridade privada sobre a arquitetura digital global. Seu discurso é higienizado com palavras como “inovação”, “liberdade de expressão”, “livre mercado” e “eficiência técnica”, mas sua prática é de sabotagem ativa de qualquer tentativa de colocar a IA e os algoritmos sob controle público e democrático.

Essa lógica não opera apenas na política institucional. Ela invade universidades, laboratórios de pesquisa, editorias de jornalismo, redes de think tanks e consultorias estratégicas. Com isso, as gestoras não apenas dominam o capital e a tecnologia — dominam também o discurso sobre o que é aceitável pensar, propor ou implementar. Trata-se de um regime de hegemonia tecnocapitalista, onde o futuro é desenhado por cálculos de rentabilidade, e não por projetos de justiça social, redistribuição ou sustentabilidade real.

Enquanto isso, estados são rebaixados a entes regulados, e as democracias, ao invés de controlar o capital, passam a ser controladas por ele — com o verniz da inovação e a aura da inevitabilidade tecnológica como escudo ideológico.

A nova arquitetura da dominação: técnica, política, cultura e ideologia.

A hegemonia das gestoras de ativos sobre as plataformas digitais não é apenas uma questão de governança empresarial. Ela representa uma mutação estrutural na forma como o poder opera no século XXI. Trata-se da consolidação de uma arquitetura de dominação sistêmica, que atravessa a técnica, a política, a cultura e a ideologia. Não estamos apenas diante de uma disputa por mercados, mas da instauração de um regime de comando algorítmico-financeiro global, onde a dominação se exerce de forma difusa, automatizada e profundamente naturalizada.

Técnica: a codificação do capital

A técnica, outrora campo da emancipação humana e do progresso coletivo, tornou-se instrumento de rentabilização automatizada do mundo. Os algoritmos que organizam os fluxos de informação, consumo, interação e desejo são construídos sob parâmetros definidos pelas gestoras: eficiência, escalabilidade, vigilância preditiva e retorno de investimento. Cada linha de código é, nesse contexto, uma expressão cifrada da lógica do capital.

O que deveria ser infraestrutura pública — como os sistemas de IA, os grandes modelos de linguagem, os buscadores, as redes sociais — tornou-se propriedade privada submetida à lógica dos ativos financeiros. A técnica, hoje, não é neutra nem autônoma. Ela é curada, modelada e distribuída sob os critérios impostos por gestores financeiros que sequer compreendem sua complexidade tecnológica, mas sabem perfeitamente onde ela deve chegar: no lucro trimestral e na manutenção da ordem global vigente.

Política: o rebaixamento do Estado.

A consequência inevitável dessa captura técnica é o rebaixamento do Estado a um agente regulado, e não mais regulador. O poder público, limitado por amarras fiscais, dívidas impagáveis e chantagens de investidores, é progressivamente excluído das decisões sobre o futuro digital de seus próprios cidadãos. Projetos de IA pública, de plataformas soberanas, de educação algorítmica crítica — todos naufragam sob o peso da “responsabilidade fiscal” e do “realismo de mercado”.

As decisões que afetam diretamente a democracia — como o que é permitido circular nas redes, o que será impulsionado, o que será ocultado — passam a ser tomadas por conselhos privados, alinhados com os interesses dos grandes fundos. O poder político, nesse modelo, é substituído por um governamentalismo corporativo descentralizado, onde o algoritmo se torna norma e o compliance se torna Constituição.

  • Cultura: a modulação da subjetividade.

No plano da cultura, a dominação não se dá pela repressão, mas pela modulação de afetos, desejos e percepções. As plataformas, sob controle dos fundos, operam como máquinas de curadoria da experiência. Elas organizam o que vemos, como vemos, o que sentimos, com quem nos conectamos, o que lemos, quem ouvimos. As estruturas algorítmicas, formatadas para gerar engajamento e lucro, precarizam o tempo, colonizam a atenção e capturam a linguagem.

O resultado é uma cultura marcada pela ansiedade, pelo imediatismo, pela dopamina da recompensa digital, pela tribalização afetiva e pelo isolamento cognitivo. A nova ideologia não precisa convencer — ela basta. O algoritmo faz o trabalho ideológico sem precisar apelar à coerência. Ele oferece conforto, confirmação e pertencimento, enquanto reforça narrativas compatíveis com os valores do mercado.

  • Ideologia: o escudo moral da financeirização.

Para sustentar essa nova ordem, o sistema constrói um vocabulário de verniz moral: ESG, inovação, empreendedorismo, liberdade de expressão, transformação digital. São expressões que operam como significantes vazios, preenchidos conforme a necessidade do capital. A financeirização se disfarça de modernidade; a captura se apresenta como parceria público-privada; a dominação aparece como liberdade.

A tecnocracia do capital financeiro não se impõe pela violência direta, mas pela naturalização de sua inevitabilidade. Não há alternativas — apenas soluções “técnicas”. A política é substituída pela gestão. A democracia vira uma questão de design institucional. A dominação não precisa mais se justificar: ela se automatiza, se oculta no código, se dissolve na interface.

Com isso, estabelecemos que estamos diante de um novo tipo de poder — não apenas mais concentrado, mas mais opaco, mais inteligente, mais aderente à vida cotidiana. Um poder que atua no nível da infraestrutura, do código, da norma e do afeto. Um poder que não domina apenas corpos e territórios, mas mentes e futuros.

Sociedade 4.0 como campo de experimentação e alienação.

O mundo sob domínio das gestoras de ativos e das Big Techs não é apenas um sistema eficiente de administração de lucros. Ele é, sobretudo, um laboratório global de experimentação sobre a vida humana, onde o social é convertido em dado, o comportamento em métrica, o desejo em padrão previsível — e o sujeito, em consumidor perpétuo. A chamada Sociedade 4.0, que muitos celebram como a era da disrupção tecnológica, é, na prática, o campo de teste do tecnocapitalismo financeiro em sua forma mais avançada.

  • A subjetividade como infraestrutura explorável.

Nas redes sociais, em apps de entrega, em plataformas de streaming, no metaverso e nos modelos de IA generativa, a vida cotidiana é transformada em fluxo contínuo de dados. Tudo é registrado, analisado, interpretado e reconfigurado para retroalimentar os sistemas que, por sua vez, nos modulam de volta. Trata-se de uma alienação de novo tipo: não mais aquela em que o trabalhador se separa do produto de seu trabalho, como no século XIX, mas aquela em que o sujeito se separa de si mesmo — e se vê apenas como estatística, perfil ou KPI.

O trabalhador da economia de plataforma não apenas vende sua força de trabalho. Ele vende sua disponibilidade constante, sua atenção, sua localização, seu tempo morto, sua linguagem e sua imagem. O usuário, por sua vez, ao aceitar os termos de uso, consente com a extração daquilo que tem de mais íntimo: padrões de pensamento, ritmo de sono, preferências inconscientes, conexões emocionais. A subjetividade se torna infraestrutura explorável, e a alienação se torna natural, divertida e interativa.

  • O capitalismo como sistema de captura cognitiva.

Não se trata apenas de controle — trata-se de captura cognitiva e emocional em tempo real. As ferramentas de recomendação, personalização, ranqueamento e predição reorganizam o que podemos pensar, desejar e imaginar. Essa captura não é violenta, mas sedutora. Não é imposta, mas consentida. E não depende mais de ideologia tradicional: ela opera por design, por arquitetura informacional, por UX/UI, por gamificação da vida.

Como resultado, o mundo aparece aos sujeitos não como estrutura histórica, mas como interface — fluida, responsiva, moldável. A crítica se torna ruído, e o conflito se torna bug. A política é substituída por engajamento. O debate vira polêmica. O dissenso vira dissonância cognitiva. A forma social do capitalismo digital é a forma do like.

  • O experimento invisível: corpos, algoritmos e controle.

O que está em curso é um experimento civilizacional conduzido por conglomerados privados, com chancela das gestoras. Não há consentimento informado, nem garantias democráticas. O campo de testes somos nós. Cada scroll, cada clique, cada hesitação é contabilizada. Cada emoção, monitorada. Cada comportamento, modelado.

Em países do Sul Global — como o Brasil — essa experimentação adquire contornos ainda mais perversos. Plataformas são testadas em contextos de desigualdade estrutural, racismo algorítmico, ausência de regulação e hiperprecarização do trabalho. O que se naturaliza aqui vira padrão global amanhã. Somos a zona cinzenta da inovação, o corpo-território da dominação inteligente.

A financeirização das plataformas, nesse cenário, não é apenas um problema econômico. É uma questão de soberania ontológica. O que está em disputa é o que somos, o que podemos ser, o que nos constitui como humanos num mundo de dados, metas e interfaces.

No laboratório do capital algorítmico, a alienação não é a exceção — é o método. A dominação não é percebida — é incorporada. E a resistência, para ser possível, precisará começar com a reconquista da consciência sobre o que está sendo feito conosco, sem que saibamos, enquanto clicamos, deslizamos e reagimos.

A crítica como ato de soberania.

Diante de um sistema tão sofisticado de dominação — onde o poder financeiro captura a técnica, governa a política, modula a cultura e silencia a ideologia — resta perguntar: como resistir a algo que já pensa por nós, que já fala por nós, que já sonha por nós? A resposta, ainda que árdua, começa com o que Antonio Gramsci chamou de “pessimismo da razão e otimismo da vontade”: é preciso recuperar a crítica como ferramenta de soberania.

A crítica aqui não é um exercício acadêmico ou retórico. Ela é um ato radical de desnaturalização, de desmontagem do discurso técnico que se vende como neutro, do algoritmo que se apresenta como inevitável, da inovação que se mascara como destino. Como ensinou Lukács, a alienação só se desfaz quando o sujeito se reconhece como sujeito histórico, capaz de compreender a totalidade das relações que o constituem.

E nesse esforço, é indispensável politizar a técnica. A IA não é neutra. A arquitetura de uma plataforma não é neutra. Os filtros, os sistemas de recomendação, os parâmetros de moderação, os contratos de trabalho, as APIs, os datasets — tudo é político. Cada decisão técnica carrega uma disputa de classe, uma correlação de forças, uma concepção de mundo.

Por isso, propor uma regulação das plataformas e da IA que seja apenas “ética” ou “responsável” não basta. Precisamos de um projeto político de soberania digital, baseado em:

  • transparência radical dos algoritmos e das cadeias de comando corporativas;
  • auditoria pública, com participação cidadã e supervisão acadêmica;
  • plataformas públicas interoperáveis, sem fins lucrativos;
  • ruptura com a financeirização das infraestruturas informacionais;
  • leis antitruste e tributação real dos conglomerados tecnológicos e fundos de investimento;
  • investimento massivo em educação crítica, ciência pública e infraestrutura estatal de dados e inteligência.

Trata-se, portanto, de recuperar o poder político sobre o que hoje é comandado pelo capital financeiro sem rosto. De reverter o atual quadro onde a democracia é apenas uma casca institucional, enquanto a realidade é governada por interfaces controladas por quem jamais foi eleito — os mesmos que, como bem lembrou Peter Phillips, sentam-se nos conselhos da Amazon, da Raytheon e do Fórum Econômico Mundial ao mesmo tempo.

Romper com a hegemonia das gestoras de ativos sobre a técnica, a linguagem e o desejo não é um detalhe — é a condição para qualquer projeto emancipatório no século XXI.

Não haverá justiça social se não houver justiça algorítmica. Não haverá democracia se os códigos que nos governam forem escritos por e para a rentabilidade dos fundos. Essa crítica é, pois, um ato inaugural de insubmissão. É ela que abre o caminho para a reconstrução do comum. É ela que desafia a crença na inevitabilidade tecnológica. É ela que nos devolve o direito de hesitar — e, com isso, o direito de lutar.

Conclusão – Desmascarar os donos do algoritmo.

Vivemos sob o domínio de um poder sem rosto, que não envia tanques às ruas nem censura jornais, mas comanda o mundo por meio de planilhas, algoritmos, decisões de concelho e relatórios trimestrais. Este poder não veste farda nem ocupa tribunas — ele veste terno, fala em nome da racionalidade dos mercados e opera por trás dos códigos que definem o que é possível ver, dizer, sentir e pensar. Seu nome, muitas vezes ignorado, é gestora de ativos.

Enquanto nos distraímos com os delírios messiânicos de bilionários digitais ou com as batalhas teatrais da política institucional, as gestoras como BlackRock, Vanguard, State Street e seus pares constroem, silenciosamente, as fundações do que será o mundo nos próximos cinquenta anos. E o fazem a partir de um projeto de dominação técnica, política e afetiva que, para além de explorar, busca reorganizar o próprio tecido da realidade em nome da acumulação de capital.

Desmascarar esse poder é o primeiro passo para enfrentá-lo. É preciso nomear os donos do algoritmo, os engenheiros da alienação, os gestores da desigualdade digital. É preciso romper com a fantasia de neutralidade técnica e com a farsa da autorregulação, e reconhecer que a disputa pelo futuro é, antes de tudo, uma disputa pelo comando da técnica e pela soberania do comum.

Num mundo onde a política é hackeada por modelos de linguagem, onde a cultura é modulada por métricas de engajamento, e onde o trabalho é precarizado por plataformas que respondem a fundos de investimento, a resistência começa com a recusa em aceitar o algoritmo como destino.

A democracia que se quer viva no século XXI terá que enfrentar não apenas o autoritarismo tradicional, mas o totalitarismo financeiro codificado, o domínio das infraestruturas por agentes invisíveis, a colonialidade do dado, a engenharia do comportamento e a naturalização da alienação. A tarefa é imensa — mas não há emancipação possível que não a enfrente.

Porque no fim, a liberdade não será um produto da inteligência artificial. Será sempre o resultado da consciência crítica organizada contra a dominação. E para que essa consciência se torne prática histórica, o primeiro passo é esse: revelar quem são, onde estão e como operam os verdadeiros donos do mundo digital.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O fator Trump e o poder das big techs estadunidenses, por Luís Nassif

 

Está claro a instrumentalização das big techs por Trump, exigindo que se aliem contra a China, Irã e adversários internos.

Do Jornal GGN:

    Imagem: reprodução/internet


National Intelligence Council (NIC) é o órgão responsável por produzir análises estratégicas de longo prazo sobre ameaças globais, tendências geopolíticas , tecnológicas e econômicas. Ele é o principal centro de inteligência analítica estratégica da Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos.

Peça 1 – como o NIC analisa o Brasil

Global Trends de 2005

Em 26 de janeiro de 2005, o Global Policy Forum  divulgou o documento do NIC intitulado “Mapping the Global Future: Report of the National Intelligence Council’s 2020 Project”

Ele já previa o declínio relativo do poder americano, a emergência de um sistema multipolar, a perda da hegemonia econômica e financeira. E recomendava uma reorientação da estratégia para a política externa, equilibrando poder militar com engajamento diplomático 

O relatório antecipou a emergência de disputas geoeconômicas crescentes com a China, União Europeia e outras potências.

O relatório tinha um capítulo sobre o Brasil.

Previa um crescimento econômico comparável à Europa, prevendo que até 2020 Brasil e Indonésia poderiam superar todas as economias europeias em tamanho e desenvolvimento econômico.

Previa um aumento da influência regional do Brasil, consolidando-se como grande potência emergente, mas nada comparável à China e sem condições de moldar a política global de forma independente. Mas seria um ator relevante nos grandes arranjos internacionais estruturados em torno de governança coletiva e integração regional.

Global Trends de 2008

O segundo Global Trends montou projeções até 2025. A fatia de poder global dos EUA cairia de 22% para 18%, o da China subiria para 16%. O da Índia chegaria próximo a 10% e a União Europeia perderia participação proporcionalmente.

Arriscava cenários para o período 2025-2040, tentando estimar as tendências a partir de 2024. Analisava as macro-tendências em cima de cinco cenários possíveis:

  1. Renascença das Democracias

Um cenário em que as democracias abertas ressurgem com força, lideradas pelos Estados Unidos e seus aliados, promovendo cooperação internacional, inovação e crescimento inclusivo.

2. Um Mundo à Deriva

Um cenário caracterizado por um ambiente internacional desordenado, caótico e polarizado, sem liderança clara e com aumento da competição e fragmentação entre Estados.

3. Coexistência Competitiva

Um mundo onde as grandes potências competem intensamente (especialmente EUA e China), mas evitam conflito direto, mantendo uma coexistência tensa, com disputas geopolíticas, tecnológicas e econômicas.

4. Fusão

Um cenário em que Estados, empresas e sociedades se unem para enfrentar desafios globais, como mudança climática e pandemias. Há cooperação internacional intensa e governança compartilhada.

5. Silos Separados

Um mundo fragmentado em blocos regionais ou ideológicos, com pouca interdependência econômica e infraestruturas digitais, tecnológicas e comerciais desconectadas, semelhante a uma “balcanização” da globalização.

Global Trend 2025

  • Escassez emergente, apesar do crescimento econômico global, intensificado por mudanças climáticas e disputas por recursos (energia, água, alimentos).
  • Proliferação nuclear regional, com maior instabilidade entre potências regionais e risco de abandono de regimes de controle existentes.
  • Instabilidade regional e impactos globais: pressões ambientais e crises políticas causariam convulsões transbordando fronteiras.
  • Tecnologia e inteligência artificial tornando-se decisivas para capacidades militares, econômicas e governança científica..

O relatório antecipa que, a partir de 2025, o Brasil deverá consolidar-se como uma potência emergente em energia limpa e tecnologia, mas também enfrentará pressões internas e ambientais significativas (como desigualdade, crises hídrica e transição energética). Seu papel regional será relevante, especialmente em governança e integração regional, embora limitado se comparado a países como China e EUA, o que requer cooperação multilaterais reforçadas.

Peça 2 – A estratégia dos EUA em relação ao Brasil

A partir dessas conclusões, o relatório propõe parcerias institucionais para “fortalecer a democracia”. O Brasil é apontado como ator-chave no combate às mudanças climáticas, nas energia renováveis e no controle de emissões do setor agropecuário.

Há uma recomendação para contrabalançar a influência chinesa. A recomendação está longe do padrão Trump. Recomenda-se que os EUA ofereçam alternativas atraentes de financiamento, investimento e infraestrutura verde.

Peça 3 – Governo Trump e as big techs


Está claro a instrumentalização das big techs por Trump, exigindo que se aliem contra a China, Irã e adversários internos.

A retórica trumpista atual inclui uma revalorização das big techs como vetores da soberania digital americana.

Isso significa apoio às suas operações desde que estejam em sintonia com os objetivos de segurança nacional, como:

  • Censura a vozes críticas associadas a adversários geopolíticos (China, Rússia, Irã, Venezuela);
  • Expansão digital no Sul Global com respaldo geopolítico (incluindo Brasil, Índia e África);
  • Cooperação com agências de inteligência e o Departamento de Justiça em vigilância e controle de dados.

A lógica de segurança digital se estendeu ao campo digital. Exemplo é a pressão contra empresas chinesas (TikTok, Huawei e Alibaba).

Ao mesmo tempo, houve um enfraquecimento de regimes multilaterais regulatórios, dificultando a cooperação do Brasil com Europa e outros parceiros democráticos e induzindo a acordos bilaterais assimétricos com os EUA.

Peça 4 – as big techs como extensão do poder dos EUA

As formas de atuação das big techs já estão definidas.

Vigilância seletiva e censura internacionalizada

  • A tendência é de concentração de poder em big techs americanas com apoio tácito do governo Trump.
  • Plataformas poderão:
    • Reforçar algoritmos de silenciamento de movimentos de esquerda, movimentos sociais e ambientalistas, com base em acusações de “desinformação”;
    • Colaborar com autoridades americanas para monitorar perfis e redes em países como Brasil, Colômbia, Argentina e África do Sul — principalmente em contextos eleitorais ou de protestos.

Também os investimentos e transferências tecnológicas, via empresas americanas, estarão condicionados ao alinhamento diplomático com os EUA e adoção de políticas  subordinadas aos padrões regulatórios e geopolíticos americanos.

Haverá dificuldade para implementar modelos soberanos de governança da internet, proteção de dados e IA. E riscos de boicote velado a iniciativas nacionais (como Lei Brasileira de Inteligência Artificial, soberania da Anatel, e obrigações de transparência das plataformas).

Trump defende imunidade quase total para plataformas digitais nos EUA (Seção 230). A Seção 230 é um dispositivo legal dos Estados Unidos que protege as empresas de tecnologia (como Google, Meta/Facebook, Twitter/X, YouTube e outras plataformas online) de serem responsabilizadas legalmente pelo conteúdo postado por seus usuários.

Isso se traduz em oposição aberta à regulação brasileira, como o PL das Fake News, a regulação da IA ou exigências de moderação de conteúdo e combate à desinformação climática e eleitoral.

Peça 5 – A bancada das big techs

1. Lobby institucionalizado

  • As principais big techs (Google, Meta, Amazon, TikTok, Microsoft, X/Twitter) atuam por meio de representações formais em Brasília, como:
    • Associações empresariais: ABPI, Câmara Brasileira da Economia Digital, CCIA (Computer & Communications Industry Association);
    • Escritórios próprios ou de terceiros, como lobbyistas registrados na Câmara e Senado.

Exemplo: em 2023, a Google Brasil foi denunciada pelo TSE e pelo Ministério da Justiça por usar sua homepage e o YouTube para campanhas contra o PL das Fake News (PL 2630/20) — mobilizando usuários a pressionarem seus deputados.

2. Financiamento indireto de parlamentares e think tanks

  • Deputados e senadores recebem doações, eventos patrocinados e apoio técnico de fundações e entidades financiadas pelas big techs, como:
    • Instituto Millenium, Livres, CLP, Students for Liberty, MBL, entre outros;
    • Realização de seminários e audiências públicas com material técnico alinhado à pauta das plataformas.

3. Mobilização social e pressão digital

  • As big techs se valem da capilaridade de suas plataformas (YouTube, Instagram, WhatsApp, etc.) para mobilizar:
    • Influenciadores digitais a criticarem projetos de lei;
    • Campanhas com usuários comuns para pressionar parlamentares (com robôs ou impulsionamento pago).

Exemplo: durante a tramitação do PL 2630, o Google publicou links contrários ao projeto em sua página inicial, o que o governo classificou como abuso de poder econômico e manipulação do debate público.

Peça 6 – Pautas legislativas mais influenciadas pelas Big Techs

Projeto de Lei / TemaInfluência exercida
PL 2630/2020 (Lei das Fake News)Forte oposição; lobby para suprimir regras de moderação e rastreabilidade
PL 2338/2023 (IA e regulação de algoritmos)Pressão para excluir obrigações de transparência e responsabilização
Reforma do Marco Civil da InternetDefesa da imunidade das plataformas (modelo da Seção 230 dos EUA)
Tributação de serviços digitaisPressão contra a criação de um “imposto digital brasileiro”
Proteção de dados e LGPDAtuação para limitar o poder da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados)

Peça 6 – Como o NIC enxerga as Big Techs no contexto geopolítico

1. Extensão da influência americana no domínio digital

Nos relatórios mais recentes, o NIC destaca que:

  • As plataformas e provedores de nuvem sediados nos EUA (Google, Amazon AWS, Microsoft, Meta) funcionam como infraestrutura crítica da economia e da comunicação global.
  • Elas reforçam a primazia dos EUA nos setores de inteligência artificial, dados, redes sociais e serviços digitais.
  • Esse ecossistema cria uma interdependência global com base nos padrões, sistemas e valores técnicos americanos, mesmo quando os países buscam “soberania digital”.

2. Big Techs como ferramentas geoeconômicas

  • O NIC analisa que as empresas de tecnologia dos EUA atuam como projeções privadas do soft power americano.
  • Plataformas como Facebook (Meta), Google e Twitter/X moldam narrativas políticas, sociais e culturais, afetando opinião pública, eleições e polarizações em democracias emergentes (incluindo Brasil, Índia, Filipinas).
  • A ascensão da China como rival tecnológico levou o NIC a alertar para o risco de fragmentação digital global — com EUA e China competindo para impor seus ecossistemas tecnológicos em mercados terceiros.

Isso é discutido em profundidade no capítulo sobre “Global Information Ecosystems” (Global Trends 2030 e 2040).

3. Vulnerabilidades e desafios regulatórios

  • Embora reconheça o valor estratégico das big techs, o NIC aponta riscos à própria democracia americana:
    • Concentração de poder informacional nas mãos de poucas empresas;
    • Capacidade de interferência política sem transparência ou regulação robusta;
    • Propagação de desinformação, discursos extremistas e manipulação algorítmica.

Por isso, os relatórios defendem que os EUA devem equilibrar competitividade tecnológica com mecanismos democráticos de controle, para não comprometer sua legitimidade internacional.

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