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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Bolsonazismo. Coluna de Ruy Castro na Folha de São Paulo

 

Bolsonazismo

Começa pela quebra do moral e da resistência do adversário. As armas só entram depois



O governo Bolsonaro reacendeu-me, veja só, o interesse pelo nazismo. No passado, ao ler sobre o assunto, era como se fosse um capítulo da história impossível de se repetir. De repente, 80 anos depois, sente-se nas proximidades o seu bafio, exalado por gente íntima de suas táticas. Pensei nisso outro dia ao aprender sobre uma delas, a Sitzkrieg, guerra de posições. Veja se lhe diz alguma coisa.

É a guerra moral, psicológica, das expectativas fatigantes, dos cansaços nervosos. É a desmoralização, a destruição das energias internas, o estímulo das discórdias interiores e da desagregação nacional. É também a infiltração e penetração dos agentes do terror, do pânico e da dúvida, de modo a provocar a divisão do adversário e a vulnerabilidade da sua resistência psíquica. É a guerra não declarada, a guerra em estado de paz. A ela segue-se, claro, a Blitzkrieg, a guerra-relâmpago, que pega a vítima alquebrada e a subjuga.

Transfira isso agora para os ataques, agressões, ofensas, desrespeitos, afrontas, aviltamentos, humilhações e perdas que há dois anos e meio nos são infligidos por Jair Bolsonaro e seus musculosos sub-führers. Acrescente à receita a degradação da educação, da cultura, do meio ambiente e dos outros valores nacionais, as provocações machistas, racistas e homofóbicas, os disparos em massa de fake news pelas milícias digitais e a constante ameaça de ruptura das instituições. Quem aguenta isso por muito tempo?

Quebrada a nossa capacidade de resistência por essa barragem de palavras, gestos e atos, seria um delírio imaginar uma Blitzkrieg formada pelas SS bolsonaristas —as falanges com porte de arma—, os milicianos, os soldados, cabos e sargentos da PM e a parte do Exército que tem uma leitura própria da Constituição?

Ah, sim, a descrição da Sitzkrieg. Tirei-a de uma fonte insuspeita: Lourival Fontes, o Goebbels de Getulio Vargas no Estado Novo.

Bolsonaro atira com metralhadora em Israel
Jair Bolsonaro faz mira com um fuzil de assalto - jairmessiasbolsonaro

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Teremos o necessário impeachment ou, ao contrário, o sonho nazifascista de Estado de Sítio?, por Erick Kayser

  Os efeitos da crise sanitária e econômica do país – que ingressou em uma irrefreável curva de estagnação econômica e aumento inflacionário – são permeados e potencializados pela crise política, que possui seu epicentro no governo Bolsonaro. Mais do isso, temos a sensação que ingressamos em uma crise dentro da própria crise, onde as incertezas e a instabilidade são a regra.

 Bolsonaro tentando convencer a Ema de que a Cloroquina cura a Covid 19, sem sucesso


Crise do governo Bolsonaro: teremos impeachment ou o sonho fascista de Estado de Sítio?

por Erick Kayser

O Brasil vive uma grave e generalizada crise, com difícil e custosa solução. Os efeitos da pandemia ainda estão muito longe de serem superados, mais do que isso, tudo indica que ao longo de 2021 as coisas tendem a piorar significativamente antes de vislumbrarmos alguma melhora. Os efeitos da crise sanitária e econômica do país – que ingressou em uma irrefreável curva de estagnação econômica e aumento inflacionário – são permeados e potencializados pela crise política, que possui seu epicentro no governo Bolsonaro. Mais do isso, temos a sensação que ingressamos em uma crise dentro da própria crise, onde as incertezas e a instabilidade são a regra.

Decifrar as reais intenções deste governo é sempre uma tarefa difícil. Seus movimentos erráticos são em parte calculados, como ensinam as cartilhas de comunicação militar e suas táticas para confundir aos adversários, mas também revelam o despreparo político em seu estado puro. O mês de março se encerra com uma espécie de “reforma ministerial” que mescla medidas de contenção de curto prazo, com boa dose de esculhambação, tipicamente miliciana, onde interesses gerais e pessoais se confundem.

Nas áreas mais sensíveis e objeto de crítica, as substituições representam a troca de seis por meia dúzia e a certeza da continuidade dos problemas. Ocorrida um pouco antes, a troca do ministério da saúde, tirando o desastroso general Pazzuelo e colocando Queiroga, representa apenas um leve ajuste retórico, sem nenhuma mudança profunda que busque frear o morticínio pandêmico. A queda de Ernesto Araújo no Itamaraty não causou surpresas e era tida como inevitável, após uma gestão amplamente fracassada, que corroborou para converter o país em uma condição de pária internacional. Assim como a substituição por uma figura com o mesmo perfil obscurantista, também não teve surpresas. Bolsonaro, em meio a seus delírios messiânicos, sempre aprovou a condução da política externa.

As demais trocas, buscam resolver questões imediatas e “estancar a sangria”. Em franca crise com o centrão, com seu fisiologismo insaciável, entregar um ministério para uma deputada do PL é um paliativo fraco, com curto efeito para aplacar a pressão do Congresso, que será redobrada com a crise social e o agravamento da pandemia. A “cereja do bolo” do arremedo de reforma ministerial é o novo ministro da justiça. Figura inexpressiva, em termos nacionais, sua principal qualificação para o cargo parece ser a amizade com os filhos do presidente, em um momento que o cerco sobre seus crimes aumentaram.

Com maior efeito político, a demissão do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, indicam muito mais que uma turbulência, mas o desdobramento de uma crise em um governo que, desde sua posse, vive em permanente estado de crise. Para a manutenção da “estabilidade” bolsonarista, o apoio incondicional do “Partido Militar” é um de seus pilares. A imprensa noticia, de forma extraoficial, que a queda do ministro da Defesa ocorreu após sua recusa em um maior alinhamento das Forças Armadas ao governo Bolsonaro. O presidente teria apresentado uma proposta para implementar um Estado de Sítio. Oficialmente esta informação é negada, mas não faltam elementos para dar credibilidade para esta versão.

As condições objetivas para Bolsonaro deflagrar um golpe de Estado lhe são desfavoráveis. O agravamento da pandemia no país forçou um deslocamento de setores do capital, que até então, vinham lhe prestando apoio. Ainda que boa parte da burguesia brasileira, especialmente os setores ligados ao mercado financeiro, sigam apoiando Bolsonaro, sua base de sustentação encolheu, dificultando o avanço de um projeto autocrático de poder. Seus conflitos com a grande imprensa, especialmente a Globo, reduzem as chances de obter apoio midiático majoritário para um golpe. Ao contrário de 1964, hoje não haveria o apoio unânime dos Barões da mídia, tornando a aventura golpista mais tortuosa.

Contudo, o sonho fascista de instalar um Estado de Sítio e conferir poderes ditatoriais para Bolsonaro segue vivo. Para tocar adiante seus planos de um golpe de Estado, o apoio majoritário das forças armadas é um elemento importante, mas não indispensável. O bolsonarismo tem construído uma politização instrumental das polícias estaduais, parecendo buscar um caminho semelhante ao da Bolívia, onde o golpe de Estado teve sua vanguarda nas policias locais, sendo posteriormente endossado pelo Exército. Converter o país em um “narcoestado miliciano”, infelizmente, está longe de ser uma fantasia distópica e parece encontrar atualmente espaço para germinar no país.

A crise política está longe do fim. Tudo indica, em termos gerais, que nas próximas semanas viveremos a paradoxal situação de um país onde seu presidente tanto pode cair e ser defenestrado do poder, como poderá tentar um Golpe de Estado. Ambas são possibilidades reais colocadas na mesa. Serão semanas decisivas para o futuro do Brasil.

Erick Kayser é doutorando em História (UFRGS)

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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Xadrez da marcha do militarismo autoritário, por Luis Nassif

 


Pelos dados que mostraremos na sequência, não interprete as últimas manifestações do Supremo - como a prisão do ex-PM Daniel Silveira, como um xeque no militarismo. Pelo contrário.


Peça 1 – para entender o Xadrez

Para entender o jogo atual, é necessário dividir o bolsonarismo em duas vertentes: a militar e os aloprados.

Os aloprados são os discípulos de Olavo de Carvalho, cujo pé de bode para entrar no poder são os filhos de Bolsonaro, Eduardo e Carlos. E também o próprio presidente, que os considera seus verdadeiros seguidores.

A banda militar é a que se associa a Bolsonaro através dos generais Augusto Heleno e Hamilton Mourão, trazendo depois outros Ministros militares.

No período preparatório para a posse de Bolsonaro, os dois lados se digladiaram intensamente, disputando cada palmo de governo. Armados com dados da inteligência, os militares apareciam com dossiês sobre diversos candidatos a cargos no governo, visando desqualificá-los para ocupar espaço.

Posteriormente, houve conflitos pesados entre militares e olavistas, por ocupação de espaço.

Pelos dados que mostraremos na sequência, não interprete as últimas manifestações do Supremo – como a prisão do ex-PM Daniel Silveira, como um xeque no militarismo. Pelo contrário, as medidas adotadas podem ter sido exclusivamente em defesa do Supremo. Mas foram precedidas por contatos com os militares.

Como revelou o presidente do STF, Luiz Fux, em entrevista à Folha, houve um contato com o Ministro da Defesa Fernando Azevedo, que esclareceu partes do livro de Villas Boas. Na livro, Villa Boas dizia que o Twitter publicado na véspera do julgamento de Lula pelo STF – e encarado como ameaça – havia sido preparada com o Alto Comando. Azevedo esclareceu que Villas Boas pretendia soltar um Twitter mais radical. Em função disso, generais do Alto Comando o procuraram e o convenceram a amenizar a mensagem.

Com o saldo conduto definido, Fux conversou com Alexandre Moraes que avançou com mão de ferro sobre o deputado. Obviamente, em defesa do Supremo. Mas, tendo como subproduto o fortalecimento da banda militar do governo.

Peça 2 – o falcão Alexandre de Moraes

Alexandre de Moraes recebeu a incumbência de assumir a tarefa e não apenas por seu estilo impetuoso. Mas também por uma ligação umbilical com a militarização de governos.

Na Secretaria de Segurança de São Paulo, governo Geraldo Alckmin, foi figura central na radicalização da segurança, com uma série de medidas polêmicas, e na colocação de militares na área pública.

Em 2015, sob seu comando, uma tropa de choque da Polícia Militar invadiu o Centro Paula Souza, arrastando estudantes para fora.

Não tomou nenhuma medida contra uma chacina promovida por Policiais Militares para vingar a morte de um colega. Resultou em 19 pessoas mortas e 5 feridas e nenhuma apuração conclusiva.  Em sua gestão, houve aumento generalizado de violência policial. Segundo a explicação, “confrontos com a policia cresceram porque a criminalidade está mais violenta”. E também impôs sigilo em operações.

Depois, como Ministro da Justiça de Temer,  paralisou a polícia nacional de Direitos Humanos por 90 dias. Aliás, mal assumiu, Temer extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direito Humanos, tornando-os secretarias sob o Ministério da Justiça.

No episódio das chacinas dos presídios em Manaus, que levou à morte 56 pessoas, montou rapidamente uma plano de segurança liberando a violência policial, a ponto de provocar a demissão de 8 diretores do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

Com ele teve início a militarização do governo federal. Indicou um coronel da Polícia Militar, Roberto Alegretti, para dirigir a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (SENAD). E também o aumento da repressão contra crianças e adolescentes.

Para fortalecer o governo Temer, e conquistar a adesão militar,  lançou a Operação Hashtag, contra um grupo de radicais que atuava em redes sociais, às vésperas dos Jogos Olímpicos de 2016. Era um grupo sem acesso a armas e o máximo que foi identificado foi a comemoração  dos atentados de Nice por mensagem privada.

No entanto, foram classificados como célula do grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante Brasil.  Foi o primeiro trabalho juntando ABIN, PF e Forças Armadas e agências internacionais. E denunciados de acordo com a Lei 13.260, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, tipificando crimes de terrorismo.

15 pessoas foram presas temporariamente por 60 dias. Foram denunciados inicialmente 8 pessoas. Em junho de 2017, mais 6 pessoas.

Houve plena repercussão do “jornalismo investigativo”. No dia 21 de julho de 2016, a frase de abertura do Jornal Nacional foi taxativa: “Dez suspeitos de terrorismo na cadeia”. E endossava acriticamente a versão do governo, de que os dez suspeitos “planejavam ataques durante as Olimpíadas”.

Na entrevista coletiva, Moraes tergiversou. Admitiu que era “uma célula amadora, sem nenhum preparo”. Segundo ele, a operação precipitara-se porque “os suspeitos teriam começado os preparativos para uma ação”. A prova seria a tentativa de comprar uma arma AK-47, pela Internet, por um deles, Alisson Luan de Oliveira, 19 anos. Depois, descobriu-se que era um e-mail de 2015, e não nas vésperas das Olimpíadas.

Com a imprudência dos apressados, Moraes apontou como líder da suposta celular Levi Fernandes de Jesus, de 21 anos. O inquérito da PF não comprovou a liderança. A acusação foi feita pelo notório Ministério Público Federal do Paraná e aceita pelo juiz juiz Marcos Josegrei da Silva,

Na fase inicial, houve interrogatórios policiais sob total incomunicabilidade, veto ao acesso de um defensor público, negação de audiência de custódia e de ciência dos reais motivos da prisão.

No final do inquérito não havia nada, nem risco de atentado, nem planos de atentado e não era célula terrorista, apenas um grupo de rede social.

O clima de paroxismo criado levou ao linchamento de outro detido, Valdir Pereira da Rocha, na cadeia pública de Várzea Grande próximo a Cuiabá. Ele não foi denunciado pelo MPF, por considerar sua participação secundária. Mas, em função do alarde teve uma prisão preventiva (por outro crime) revogada e colocado na prisão com outros detentos. Foi linchado por ser “terrorista”.

A exposição do caso na TV certamente contribuiu para esta morte. Depois que foi divulgado que não havia provas contra Valdir, o próprio Comando Vermelho pediu a cabeça dos líderes da chacina, mostrando um senso de justiça superior ao de Moraes no episódio do massacre de Osasco.

Os abusos foram evidentes. A defensoria apontou as falhas principais do inquérito:

* nenhum dos acusados adquiriu artefatos terroristas, traçou planos de atentado, adquiriu passagens rodoviárias ou aéreas, ou detinham documentos com efetivo intento migratório e de engajamento terrorista.”

* estavam geograficamente distantes;

* parte das provas foi colhida de forma irregular nos grupos de conversa do Telegram, “agente infiltrado não-policial” e “sem autorização judicial”, provavelmente um jornalista do Fantástico recolhendo material para uma reportagem.

A denúncia do MPF-PR é curiosa. Informa que os acusados usavam aplicativos criptografados para trocar informações sensíveis, “mas continuavam utilizando os meios de publicações públicos para promover, também abertamente, o Estado Islâmico e atrair novos membros”. Como se um grupo terrorista profissional fosse fazer apologia de crime em redes sociais abertas.

Peça 3 – a militarização com Temer

Mal assumiu, em maio de 2016, Temer retirou o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) com controle sobre a ABIN (Agencia Brasileira de Inteligência) e entregou ao comando do general Sérgio Etchgoyen.

Temer criou o Ministério Extraordinário de Segurança Pública, transferiu para lá Raul Jungman e colocou em seu lugar, no Ministério da Defesa, o general Joaquim Luna e Silva.

O primeiro sinal foi a já mencionada entrega a um militar, Roberto Allegretti, coronel da PM, da Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas.  No dia 1o de março de 2016, Allegretti criou polêmica ao defender o uso de fardas por crianças, para ajudar a construir, na sua identidade, um “militar que participa de algum ato heróico”.

Entregou também a Funai (Fundação Nacional do índio) ao general Franklimberg Ribeiro de Freitas, indicado pelo Partido Social Cristão (PSC), partido que sempre procurou criminalizar as demarcações de terras indígenas. A reação de diversos setores o fez recuar na indicação.

A chefia de Gabinete da Casa Civl também foi entregue a um militar,.

Foi decorrência óbvia da indicação de Sérgio Etchegoyen para Chefe do Gabinete de Segurança Institucional. A indicação foi aprovada pelos comandantes das três forças, puxada pelo general Villa Boas, comandante do Exército.

Outra decisão que afrontava a Constituição foi entregar o comando da intervenção do Rio de Janeiro a um general, contrariando o que dispunha a Constituição. Ao mesmo tempo, alterou a legislação para que crimes praticados por militares, nas operações de rua, fossem julgados pela Justiça Militar.

Culminou com a transferência do Ministro Raul Jungmann para o recém criado Ministério Extraordinário de Segurança Pública, colocando no Ministério da Defesa o general Joaquim Luna e Silva – o mesmo que assumiu, agora, a presidência da Petrobras.

Colocou na chefia do de gabinete da Casa Civil o general Roberto Severo Ramos.

A militarização obedecia a uma lógica natural, depois que a Lava Jato, com a anuência do STF, destruiu o sistema político brasileiro e permitiu a ascensão ao comando do país do mais suspeito grupo político pós-redemocratização – o Centrão. Sabendo que seria um governo fraco, com vários integrantes na mira da Justiça, Temer e Alexandre Moraes trataram de cooptar o segmento militar.

Peça 4 – o pensamento militar

A eleição de Bolsonaro foi o coroamento de uma volta gradativa dos militares ao jogo político.

Recentemente, em entrevista ao Deutsch Welle, o antropólogo Piero Leirner, sintetizou os pontos básicos da construção do pensamento militar brasileiro contemporâneo.

Com o fim da ditadura militar, não houve uma punição sequer pela quebra de hierarquia, como não houve nenhuma apuração de crimes contra a humanidade, a partir do pacto da anistia, na qual Sepúlveda Pertence e Nelson Jobim, Ministros do STF, julgaram falar em nome do povo.

Esse silêncio obsequioso foi abrindo espaço cada vez mais para a volta do protagonismo militar. Em sua opinião, a politização do Exército renasceu  em 2007, com a reação à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Em abril de 2008, o comandante militar da Amazônia, o notório general Augusto Heleno, reuniu-se com o comandante do Exército, Enzo Peri, para explicar as críticas à reserva em palestra no Clube Militar sob o título significativo de “Brasil, Ameaças à Sua Soberania”.  E sofreu punição.

A politização atingiu o paroxismo quando o general Villas Boas assumiu o comando do Exército, exercitando um falso discurso legalista para fora, e estimulando a politização da força para dentro, refletindo a adesão das famílias militares às manifestações de rua pelo impeachment. Segundo Leirner, “tais assuntos eram intensamente discutidos com o alto-comando, para mantê-los informados e garantir o alinhamento até os escalões mais baixos e o pessoal da reserva.”

A partir de 2014, a politização ganhou novos ares, inclusive com a permissão para campanha dentro de uma Academia Militar. O que foi feito por Bolsonaro entre 2014-2018, obviamente com pleno conhecimento e autorização do Alto Comando.

Para legitimar sua atuação, o Exército criou sua versão de “inimigo externo”. O tema preferencial passou a ser a Amazônia, a vulnerabilidade das fronteiras, a ação contra o crime organizado, elementos centrais do que foi definido como o nova doutrina de segurança, a “guerra híbrida”.

Em cima desse novo padrão, cria-se o Programa Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), que passa a exigir do Exército contatos frequentes com o Judiciário, Ministério Público Federal, Polícia Federal e ação política no Congresso, disputando verbas.

Paralelamente, iam criando uma nova narrativa, à altura da “guerra híbrida”, como a versão interna de que setores do PT eram os próprios agentes produtores de ameaças híbridas. Nesse quadro inseriam as ONGs que atuavam na Amazônia e que seriam agentes para a criação de territórios estrangeiros no país. No livro, aliás, Villas Boas endossa outras bandeiras obscurantistas, tratando o “politicamente correto” como uma bandeira petista para levar o país ao caos. “ O politicamente correto seria, na visão dele, o “disfarce” que as ações imperialistas tomariam para consolidar toda essa arquitetura de ameaças às Forças Armadas e ao Brasil”, explica Leirner. Por esses caminhos tortuosos, foi sendo criada a coesão ideológica entre os militares, transformando a resistência do PT em questão militar.

Um dos pontos centrais da “guerra híbrida” era a manipulação de informações através de redes sociais. Lembra ele que em 2019, o general Rego Barros admitiu que coube ao Exército “mergulhar de cabeça no submundo das mídias sociais, e se tornar o órgão público com maior influência no mundo digital do Brasil”.

Leiner defende a hipótese de que, nas eleições de 2018, a campanha de fake news de Bolsonaro teve participação direta de militares. Mostrava ele que a cúpula bolsonarista contava com a participação de diversos membros das Forças Armadas que já tiveram contato com essas doutrinas da “guerra híbrida”. Além do fato de Bolsonaro ser o candidato favorito da maioria dos 17 generais de quatro estrelas.

Em 14/10/2018, o mesmo Piero Leiner já antecipava o uso de tática militar de ponta na campanha de Bolsonaro. Segundo ele, “a comunicação de Bolsonaro tem se valido de métodos e procedimentos bastante avançados de estratégias militares, manejados de maneira muito inteligente, precisa, pensada. Não se trata exatamente de uma campanha de propaganda; é muito mais uma estratégia de criptografia e controle de categorias, através de um conjunto de informações dissonantes”, explicava ele.

O princípio básico consistia em “um conjunto de ataques informacionais que usa instrumentos não convencionais, como as redes sociais, para fabricar operações psicológicas com grande poder ofensivo, capazes de ‘dobrar a partir de baixo’ a assimetria existente em relação ao poder constituído”.

Em que consiste exatamente isso?

As características principais da guerra híbrida eram as fake news e as contradições entre as principais figuras da campanha, disputando opiniões, divulgando informações desencontradas que “criam um ambiente de dissonância cognitiva”, desnorteando as pessoas, as instituições e a imprensa”.  Nos ambientes de dissonância, diz ele, a troca de informações passa a ser filtrada por critérios de confiança, atuando como “estações de repetição”, liberando Bolsonaro para produzir conteúdo.

Bolsonaro só aparecia depois que os fake news estavam assimilados, dando nos seguidores a ideia de empoderamento, de confirmação de suas teorias e de relacionamento horizontal. Ao contrário dos “poderosos”, que transmitem suas informações de maneira vertical, como políticos, imprensa e instituições.

Para Leirner, por fim, a proliferação de notícias falsas colabora para o deslocamento de poder dentro de instituições centrais à democracia, como a Justiça e as Forças Armadas. “Hoje vemos  setores do Estado, especialmente do judiciário, entrando em modo invasivo, cada um se autorizando a tentar estabelecer uma espécie de hegemonia própria”, diz.

Mesmo tendo mais racionalidade que o bolsonarismo raiz, o pensamento militar não elaborou projetos ambiciosos de construção nacional – como ocorreu nos anos 30 e 64 como agentes da industrialização do país. Hoje em dia, seu pensamento político restringe-se a temas morais e visões conspiratórias sobre a Amazônia.

Peça 5 – “antes que um aventureiro lance mão

Sábias palavras de Dom João VI para Dom Pedro 1, aconselhando a colocar a coroa na cabeça, antes que algum aventureiro lançasse mão.

Períodos de vácuo de poder abrem espaço para toda sorte de ambições.

No STF,  o amadorismo político e marqueteiro do do Ministro Luis Roberto Barroso julgou que poderia estimular um ativismo político do Judiciário, em parceria com o mercado, para acelerar a entrada do Brasil na era iluminista.

Cabeças com maior compreensão sobre as estruturas de poder, como Gilmar Mendes, trataram de se aproximar do Exército, visando pactos de não-agressão. Culminou com o presidente da corte, Dias Toffoli, convocando um militar como assessor especial.

Por tudo isso, seja qual for o desfecho do governo Bolsonaro, a militarização do poder ganhou uma dinâmica que, se não for revertida, mais cedo ou mais tarde, se tornará irreversível, mesmo com desastres épicos como a participação do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Leonardo Attuch entrevista o jurista e professor Alysson Mascaro sobre a sucessão de golpes no País promovidos pela Direita

 Da TV 247:

O professor Alysson Mascaro avalia a sucessão de golpes institucionais no Brasil, em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch.



1:30 “O que aconteceu em 2016 foi um grande golpe no Brasil”, diz Alysson Mascaro. “Ao grande golpe, somam-se pequenos golpes, aliados aos interesses econômicos do golpe” 8:00 “Para o grande capital, tanto fez como tanto faz a eleição da mesa diretiva da Câmara” 14:00 “O discurso da ciência está vindo de bandeja para a direita tradicional”, afirma. “Esquerda não deve se pautar pelo vacina ou não vacina” 17:00 “Bolsonaro é contra a vacina, enquanto Doria é contra o SUS” 18:00 “Esquerda está sendo empurrada para a armadilha da direita vacinada”, diz Alysson Mascaro. “A questão central não é a vacina, mas sim o SUS” 32:00 “A esquerda brasileira é liberal e defende a ordem burguesa” 38:00 “A pauta da esquerda não pode ser liberal” 41:00 Alysson Mascaro fala sobre as lutas por representação e o rótulo identitário. “Ninguém pode ser progressista compactuando com opressões” 55:00 Mascaro diz o que um estudante de esquerda deve fazer caso siga o direito

domingo, 6 de dezembro de 2020

Tereza Cruvinel: Bolsonaro estimula o "novo cangaço"

 

Bolsonaro estimula o "novo cangaço"

Jair Bolsonaro "vem tomando medidas a favor do armamento da população - que supostamente deve cuidar da própria segurança, desistindo da proteção do Estado", afirma Tereza Cruvinel, do Jornalistas pela Democracia. "E com isso turbina a violência, inclusive em novas modalidades, como o 'novo cangaço' ", complementa

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nobrega - PR)

Por Tereza Cruvinel, do Jornalistas pela Democracia

No purgatório em que vivemos no Brasil, afligidos por tantos males, vamos deixando alguns acontecimentos em segundo plano, deixando de conectá-los com suas causas políticas, vale dizer, com a responsabilidade que por eles têm o desgoverno de Jair Bolsonaro. 

Esta semana, por exemplo, bandos armados e violentos aterrorizaram os moradores de Criciúma (SC) e Cametá (PA). Para estourar caixas eletrônicos do Banco do Brasil, eles chegaram em carros blindados, portando armas pesadas, como fuzis exclusivos das Forças Armadas ou importados, gastando munição a rodo para assustar a população. Moradores foram humilhados e usados como reféns ou como escudos. Os vídeos feitos pelos habitantes mostram a similaridades dos métodos. A diferença foi que em Cametá eles acabaram estourando a máquina errada e não conseguiram levar o dinheiro. Mas  deixaram um morador morto na ação.

Estes casos não são isolados. Ações semelhantes já aconteceram este ano em outras cidades do Pará, como Ipixuna, e do interior de São Paulo, como Araraquara e Botucatu. E também no interior de Minas e em alguns pontos do Nordeste. De lá veio o apelido de "novo cangaço" para estas ações violentas e rápidas, com uso de armas pesadas e de explosivos, tomada de reféns e cerco aos quarteis ou delegacias. Assim agiam também, com menor poder de fogo, os cangaceiros que espalharam o terror pelo Nordeste no final do século XIX e começo do século XX. 

Muitas causas têm sido apontadas, como a chegada do final do ano, quando bancos movimentam muito dinheiro, a busca de compensação por quadrilhas ou organizações criminosas que "faturaram" pouco durante a pandemia, entre outras. Mas certo mesmo é que nestas ações chama a atenção o grande volume de armas e explosivos utilizados,  e  a presença de fuzis e outras armas de uso exclusivo das Forças Armadas. E isso tem uma relação clara com a política bolsonarista de flexibilizar as regras para posse, uso e circulação de armas no país.

E onde estavam os órgãos de inteligência (ABIN) e de segurança (Polícia Federal e outras polícias) que não foram capazes de perceber que num mesmo período houve um número enorme de roubos de carros blindados? Ah, estavam muito ocupados, principalmente com a defesa de familiares do presidente, como o encrencado senador Flávio Bolsonaro.  Ou colaborando com a elaboração de listas de antifascistas ou de detratores de ministros do governo.

Nesta quinta-feira, o deputado Eduardo Bolsonaro foi fotografado com uma arma na cintura durante uma visita ao Palácio do Planalto. Entrar armado no palácio presidencial é proibido mas certamente isso deixou de valer para  filhos do presidente. Eduardo não perde chance de fazer proselitismo a favor das armas, seja com gestos ou com declarações.

Desde o início, o governo vem tomando medidas em série para flexibilizar a posse de armas, inclusive as de uso exclusivo das Forças Armadas. Bolsonaro acabou com o controle e o rastreamento de munições, liberou quantitativo maior para compra de munição, e armou e municiou, descontroladamente, os clubes de tiro,  que potencialmente  podem ser usados para armazenagem e distribuição de armas e munição para milícias e para o crime organizado. O "novo cangaço" recebe uma inegável ajuda das medidas tomadas por Bolsonaro.

Em abril passado ele revogou três portarias do Exército, importantes para o controle de armas. A de número 46 estabelecia a criação do SisNaR (Sistema  Nacional de Rastreamento de Produtos Controlados). Neste sistema deveriam ser lançados mais de 380 itens controlados pelo Exército.  Ele revogou também a portaria 60, que previa a identificação e marcação de todas as armas de fogo produzidas no país ou importadas, que passariam a ter inscritos dados como nome do fabricante, país de origem, calibre, número de série, ano de fabricação e modelo. Revogada foi também a portaria 61, que estabelecia mecanismos de controle de embalagens e cartuchos, obrigando os fabricantes e comerciantes a  manter um banco de dados sobre todas as operações, importações, expedições, vendas, movimentação e eventuais sinistros envolvendo munições. Um general do Exército demitiu-se da função em protesto contra a revogação dos controles.

Outra medida armamentista do governo foi o aumento, quantitativo e qualitativo, das armas que podem ser adquiridas por pessoas físicas ou pelos CACs (colecionadores, atiradores e caçadores), o que inclui os clubes de tiro. O ex-sargento Ronnie Lessa, aquele vizinho de condominio de Bolsonaro que está preso e é tido como um dos assassinos de  Mariele Franco,  tinha autorização para comprar armas e munições, pois possuía um certificado de CAC. Outro que tinha a mesma regalia era o miliciano Adriano da Nóbrega, de forte conexão com Fabrício Queiróz e o gabinete de Flavio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, o vale da "rachadinha".

Estelionato eleitoral também é isso. Bolsonaro, na campanha, prometia jogo duro contra o crime. No cargo, vem tomando medidas a favor do armamento da população - que supostamente deve cuidar da própria segurança, desistindo da proteção do Estado. E com isso turbina a violência, inclusive em novas modalidades, como o "novo cangaço". 

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

O "capitão" que foi expulso é racista, o general que o poderá substituir é racista e o Brasil é racista. Artigo de Milton Blay

 

Do seu ponto de vista, o 'presidente' tem razão, já que para ele não apenas inexiste racismo no Brasil como tudo não passa de uma montagem com o objetivo de desestabilizá-lo. Obra de comunista, claro


(Foto: REUTERS/Adriano Machado | Mídia NINJA)

Racismo? Não existe, é pura invenção. 

Na visão do capitão-presidente e de seu vice, que obviamente só poderia ser um general, a existência de racismo no Brasil é uma falácia criada por traidores da pátria. Jair Bolsonaro deixou isso muito claro na reunião dos líderes do G20, no final de novembro, ao comentar os protestos contra a discriminação racial  após o assassinato do negro João Alberto Freitas, por seguranças de um supermercado Carrefour no Rio Grande do Sul. Espancado até a morte, Beto Freitas ficou como triste exemplo, na véspera do Dia da Consciência Negra, de como os negros continuam a ser os maiores alvos da violência no Brasil.

Como de hábito, o capitão não achou necessário prestar solidariedade à família da vítima, ignorando assim, pela enésima vez, o papel de um chefe de Estado. 

Desavergonhadamente, jogou a responsabilidade dos protestos sobre aqueles que querem "colocar a divisão entre raças" no Brasil. "Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e provocando conflitos, atentam contra a nação e contra a nossa própria história". 

Do seu ponto de vista, o presidente tem razão, já que para ele não apenas inexiste racismo no Brasil como tudo não passa de uma montagem com o objetivo de desestabilizá-lo. Obra de comunista, claro. Numa publicação no Facebook defendeu que “o Brasil tem uma cultura diversa”, um “povo miscigenado”, “uma única família”, mas “há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre classes”.

Para o chefe de Estado brasileiro, “problemas como o da violência são vivenciados por todos, de todas as formas” e quem pretende dividir “o sofrimento do povo brasileiro” com questões de raça, apenas quer jogar uns contra os outros, porque “um povo vulnerável é mais fácil de ser controlado”.

“Como homem e como Presidente, sou daltónico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus”, garantiu.

Jair Bolsonaro pode ser acusado de todos os males do mundo, mas não de ser opaco. Foi, é e sempre será transparente. Ninguém tem a desculpa de dizer que não sabia quem era o personagem ao apertar a tecla 17 da urna eletrônica. Durante uma entrevista no programa Roda Vida, da TV Cultura, o então candidato, num caso exemplar de revisionismo histórico, chegou a negar a responsabilidade do homem branco no passado escravocrata do país; amenizou o papel de Portugal e responsabilizou os próprios negros pelo tráfico negreiro que perdurou do século 16 ao 19, levando de forma forçada cerca de 12 milhões de africanos às Américas, mais de 4,8 milhões dos quais para o Brasil.

"O português nem pisava na África,  disse Bolsonaro. Foram os próprios negros que entregavam os escravos".

Ao ser indagado pelo diretor da ONG Educafro, Frei David, sobre a política de cotas raciais, o candidato se declarou contra, argumentando que as cotas visavam "dividir o Brasil entre brancos e negros". Foi questionado sobre de que forma pretendia reparar a dívida histórica existente diante da escravidão, no que respondeu: "Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida". 

Dias antes da entrevista, Jair Bolsonaro comparou os negros que vivem nos quilombos a gado e disse que eles não servem nem para procriar.

Ao contrário do presidente, o vice Hamilton Mourão chegou a lamentar a morte de  Beto Freitas, mas atribuiu-a apenas ao despreparo dos seguranças e não ao fato da vítima ser negra, até porque, como ele próprio sublinha, não há racismo no Brasil. “Eu digo para você com toda a tranquilidade: não tem racismo aqui”, sublinhou o general em declarações à imprensa. "Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui." 

O vice continuou então dizendo que racismo existe em outros países, como nos Estados Unidos. Acrescentou ter morado naquele país na década de 1960 e, com base nessa experiência, pode concluir que não existe um problema racial no Brasil.

Acontece que Mourão, a exemplo de seu chefe, é racista. 

Após conversar com jornalistas ao desembarcar no aeroporto de Brasília, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, o general elogiou seu neto, afirmou que ele representava o "branqueamento da raça". "Gente, deixa eu ir lá que meus filhos estão me esperando. Meu neto é um cara bonito, viu ali. "Branqueamento da raça", afirmou no fim da conversa, dando gargalhada.

É salutar abrirmos um parêntese: A tese do "branqueamento" teve origem na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, quando vigoraram em várias partes do globo as teses eugenistas, que defendiam um padrão genético superior para a “raça” humana. Argumentava-se que o homem branco europeu tinha o melhor padrão de saúde, beleza e maior "competência civilizacional" em comparação às demais “raças”: amarela, referindo-se aos asiáticos, vermelha, relativa aos povos indígenas, e a negra, africana.

Foi então que intelectuais brasileiros incorporaram essas teses e delas derivaram outra, aplicável ao contexto do continente americano: a “tese do branqueamento”, que partia da ideia de que, dada a realidade do processo de miscigenação na história brasileira, os descendentes de negros passariam a ficar progressivamente cada dia mais brancos.

O antropólogo e médico carioca João Baptista de Lacerda foi um dos expoentes da tese do branqueamento, tendo participado, em 1911, do Congresso Universal das Raças, em Londres. Esse congresso reuniu intelectuais do mundo todo para debater o tema do racialismo e da relação das raças com o progresso das civilizações. Baptista levou ao evento o artigo “Sur les métis au Brésil” - Sobre os mestiços no Brasil, em que defendia o fator da miscigenação como algo positivo no caso brasileiro, por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre as outras, a negra e a indígena.

Em um trecho do artigo, ele afirmava: “A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.”

A partir dessa teoria, felizmente desmentida, temos condições de saber quem é de fato o general Hamilton Mourão.

O Brasil é racista. Talvez, como disse a ex-consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, em debate na Flip de Paraty com a antropóloga Lilia Schwarcz, seja um dos países mais racistas do mundo. Ela conta que nas recepções dadas em sua casa, os convidados sistematicamente a confundiam com a empregada doméstica. 

A realidade se apresenta em números. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2020, os assassinatos de negros no Brasil aumentaram 11,5% na última década, enquanto as de não negros caíram 12,9%. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

Na pandemia, a cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos, que representam a categoria de brasileiros negros. Os dados são resultados de uma análise da reportagem da CNN com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. No caso das internações pela doença, há um equilíbrio: negros representam 49,1% dos internados, enquanto brancos representam 49%. Mas na análise das mortes, o descompasso aparece, pretos e pardos representam 57% dos mortos pela doença enquanto brancos são 41% dos mortos.

"As pessoas negras são maioria no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar os serviços de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. São pessoas que também têm uma localização geográfica que não favorece a busca por hospitais, ficando geralmente em pronto socorros e serviços de saúde periféricos, que vão ter o maior tempo de espera para a transferência para uma vaga de UTI, por exemplo, além desses serviços serem serviços de qualidade inferior", segundo a médica Denize Ornelas.

Outro fator que os especialistas afirmam poder explicar esses números é o perfil de quem está na linha de frente e tem contato direto com os infectados pela doença. "Dentre os profissionais de saúde, com exceção  dos médicos, os auxiliares de enfermagem e técnicos de enfermagem  são majoritariamente pessoas negras e isso também os coloca em maior risco de contaminação, adoecimento e óbito", diz Alexandre da Silva, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí.

Entre os profissionais de enfermagem brasileiros, 42,3% são brancos e 53% pretos e pardos, de acordo com a Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, de 2013, feita pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem. 

Em São Paulo, apenas um em cada dez alunos de escolas privadas (via de regra melhores que as públicas) é negro.

E a diferença salarial entre brancos e negros é de 45%, de acordo com a Pnad, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 2019. 

Essa diferença não pode ser atribuída apenas à falta de oportunidade de formação para pessoas negras. Segundo cálculo do Instituto Locomotiva, a diferença continua a ser significativa, de 31%, mesmo quando comparados os salários de brancos e negros com ensino superior. Sobra apenas a cor da pele; diz um artigo do jornal Folha de S. Paulo, de 6 de janeiro de 2020. 

“Trata-se de uma desigualdade persistente que só pode ser explicada pelo racismo estrutural. Por um lado, ele se expressa no preconceito racial. Por outro, no maior capital social dos brancos: o famoso ‘quem indica’ um branco é outro branco que está em um cargo alto”, afirma Renato Meirelles, presidente do Locomotiva.

Apesar da realidade fria dos números, apenas 5% dos brasileiros consideram que o racismo é um problema no país. Entre estes não estão os membros do governo civil-militar liderado pelo capitão.

Como escreveu Fernanda Mena, mestre em sociologia e direitos humanos pela London School of Economics e doutora em Relações Internacionais, “os protestos antirracistas em algumas capitais do país indicam que, assim como muitos americanos diante do caso George Floyd, muitos brasileiros não estão mais dispostos a se calar sobre as violências que ceifam vidas negras no país. Se os protestos são o início de uma onda, só o tempo o dirá, mas parece cada vez mais difícil fechar os olhos para o fato de que o racismo finalmente caminha para ser compreendido como um problema de todos.”

Ou quase todos, com exceção do Planalto.

Milton Blay


Formado em Direito e Jornalismo, com master no Centre d’Etudes Diplomatiques et Stratégiques, mestrado em Economia e doutorado em Política pela Université Paris 3, Milton Blay vive em Paris desde 1978. Integrou a equipe da Jovem Pan que ganhou o prêmio Esso de melhor programa radiofônico, nos anos 1970. Foi prêmio Valmet de jornalismo econômico com matéria sobre os boias-frias, publicada no Jornal da Tarde. Como correspondente baseado na França, trabalhou na revista Visão, na Folha de S.Paulo, nas rádios Capital, Excelsior (futura CBN), Eldorado, Bandeirantes e TV Democracia. Por 15 anos foi redator-chefe da Radio France Internationale, assim como presidente da Associação da Imprensa Latino-Americana na França. É autor dos livros Direto de Paris, A Europa Hipnotizada e coautor de O Brasil no Contexto:1987-2017.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O avanço das milícias sobre as instituições, rescaldo da Ditadura Militar. Entrevista de Luis Nassif com Bruno Paes Manso

 

Luis Nassif entrevista Bruno Paes Manso, do Centro de Estudos da Violência da USP; entre os temas, a figura do crime dentro da sociedade


Bruno Paes Manso, pesquisador do Centro de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro República das Milícias (Todavia, 2020). Foto: Reprodução/USP

Jornal GGN Um dos temas centrais para se entender o que houve de deterioração das instituições, é o avanço do crime organizado. Como exemplo, pode-se citar o avanço da influência do jogo do bicho e, posteriormente, do PCC (Primeiro Comando da Capital) e as milícias, mas também existe um contexto histórico que precisa ser abordado quando o assunto é o avanço do crime organizado pela sociedade e pela política do Brasil.

“O crescimento das cidades, nos anos 50 e 60, quando as populações e o processo de urbanização e industrialização são muito intensos, e as pessoas passam a ter um certo receio e medo dessa cidade nova que se forma, nas favelas, uma certa impressão de que a cidade estava fugindo ao controle, e com os processos de polícias agindo de forma violenta como se, dessa forma, conseguia se controlar essa ameaça de desordem que as cidades começavam a viver, retomando desde a história dos Esquadrões da Morte nos anos 60, e que se intensifica durante a ditadura”, explica Bruno Paes Manso, do Centro de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro República das Milícias (Todavia, 2020).

Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, Manso diz que “a guerra ao crime, o uso da violência, é uma forma de impor autoridade e construir uma espécie de ordem”, e que “isso dialoga totalmente com o surgimento dos DOI-CODS ao redor do Brasil – operação Bandeirantes primeiro, e depois os DOI-CODS (…) No Rio de Janeiro, muitos dos policiais que atuavam nos Esquadrões da Morte vão trabalhar nos porões da ditadura militar, no combate à guerrilha ao longo de 69 a 74.

Manso explica que, com o processo de abertura e a chegada da redemocratização, esses militares vão perdendo espaço e, com o Exército da democracia, “eles vão percebendo que é hora de sair e ganhar dinheiro com o crime, muitos aproveitando as conexões que eles tinham desde a época dos Esquadrões da Morte, pois muitos dos policiais dos Esquadrões da Morte e dos porões tinham essa ligação muito estreita com as contravenções, e fazem a ponte também com os militares”.

Confira a íntegra da entrevista com Bruno Paes Manso no link abaixo

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