Mostrando postagens com marcador Intercept Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Intercept Brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Com atraso e miopia, a Folha de São Paulo faz autocrítica sobre cobertura da Lava Jato



Folha distorce um pouco a realidade quando faz autocrítica mas trata como se as irregularidades e abusos praticados na Lava Jato só tivessem saltado aos olhos agora


Jornal GGN Folha de S. Paulo fez neste domingo (6), no espaço destinado à ombudsman Flávia Lima, uma tímida autocrítica a respeito da cobertura da Lava Jato. A repórter relata que num almoço para comemorar os 30 anos da função, o diretor de redação Sérgio Dávila admitiu que as delações premiadas, com base no “fulano disse que beltrano fez tal coisa”, foram usadas sem critério para fazer alarde quase diariamente.
“Se eu tivesse que revisitar o caso e fazer a cobertura de novo, sei que isso não é possível, talvez repensasse o espaço que demos, manchetes atrás de manchetes…”, disse. “Então, sim, faço essa autocrítica. Mas a postura que o jornal teve em relação à operação, talvez não desde o começo, mas desde que se configurou que eles estavam ultrapassando todos os sinais, eu estou satisfeito com ela”, pontuou Dávila.
O mea culpa da Folha não pode ser desprezado, mas é indiscutivelmente tardio e carregado de uma visão míope dos fatos.
Primeiro porque estabelece como divisor de águas o vazamento do dossiê Intercept, que expôs os desvios de conduta da força-tarefa da Lava Jato. A cobertura crítica, contudo, quase sempre existiu em meios alternativos, seja em blogs independentes, nos sites especializados ou nos veículos estrangeiros. Não é como se grandes jornais como Folha, Estadão e O Globo não tivessem condições de fazer uma cobertura mais equilibrada.
Este GGN, por exemplo, produziu uma série de reportagens mostrando os furos nos processos contra o ex-presidente Lula utilizando, em parte, documentos e vídeos que foram disponibilizados na íntegra pelo Estadão. O material para questionar o que diziam as testemunhas e delatores sempre esteve disponível. Faltou vontade ou coragem para não se curvar à agenda oculta da Lava Jato, que facilmente tomou a grande mídia por“cão de guarda”.
A própria ombudsman da Folha admitiu essa falha quando escreveu que “a imprensa foi transformada, muitas vezes, em linha auxiliar da operação como uma estratégia de angariar suporte” e que “apontar problemas na Lava Jato virou quase um tabu em nome de um objetivo maior: o combate à corrupção.”
Em segundo lugar, ainda que jornais como Folha não quisessem se pautar pela cobertura crítica na mídia alternativa, não precisavam esperar o dossiê do Intercept ser vazado em julho de 2019 – mais de 5 anos depois do início da operação – para começar a apurar melhor os passos controversos da Lava Jato. Os sinais de que as delações premiadas que alimentavam “manchetes atrás de manchetes” não eram confiáveis apareceram muito antes disso.
Só para citar um exemplo: em setembro de 2017, o procurador da República Ivan Cláudio Marx apresentou à 10ª Vara Federal de Brasília as alegações finais do Ministério Público Federal no caso em que Lula era acusado de comprar o silêncio de Nestor Cerveró, com base na delação de Delcídio do Amaral. Marx pediu a absolvição de Lula porque a narrativa construída pelo ex-senador era imprestável, e isso não poderia ser ignorado em “prol de uma cruzada acusatória”.
Essa crítica, que partiu de dentro do próprio Ministério Público, deveria, no mínimo, ter despertado o interesse da imprensa pela veracidade de outras delações.
Folha distorce um pouco a realidade quando faz autocrítica mas trata como se as irregularidades e abusos praticados na Lava Jato só tivessem saltado aos olhos agora. Ao contrário, o dossiê Intercept serviu num primeiro momento para confirmar as convicções dos críticos de sempre. E seguiu dali em diante revelando outras condutas inimagináveis, que deveriam conduzir outros veículos à autocrítica também.
Como disse a ombudsman, esse reconhecimento de que a cobertura foi desequilibrada é “importante”, “mesmo que esse reconhecimento venha muito depois das primeiras ressalvas feitas aos métodos da Lava Jato e num momento (após os vazamentos), em que ficou mais fácil fazer a crítica.”

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Vaza Jato: Moro interceptou filha para forçar investigado a se entregar à polícia



Apesar de o nome de Nathalie ter sido envolvido em negócios de Raul Schmidt, as conversas de Telegram mostram que os procuradores só miraram na empresária para pegar o pai


Foto original: Agência Brasil
Jornal GGN A pedido dos procuradores de Curitiba, o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro aceitou uma operação contra a empresária Nathalie Angerami Priante Schmidt Felippe, para forçar seu pai, Raul Schmidt, a se entregar. Ele é acusado de participar de esquemas de lavagem de dinheiro e estava em Portugal quando sua prisão foi decretada.
Foi na tentativa de forçar que Raul se entregasse à polícia lusitana que os procuradores de Curitiba tiveram a ideia de pedir uma operação de busca e apreensão e outras medidas de restrição – como impedimento de deixar o País – contra Nathalie. O nome da empresária que vive no Brasil foi usado na abertura de uma offshore pelo pai, Raul, motivo pelo qual a Lava Jato pôde arrastá-la para a mira de Moro.
Diogo Castor de Mattos, o então procurador à frente do caso, sugeriu, em fevereiro de 2018, num chat de Telegram com colegas: “Prezados, gostaria de submeter à analise de todos a questão da operação na filha do raul schmidt.. basicamente, ela esta envolvida em algumas lavagens por ser beneficiária de uma offshore do pai.. pensamos em fazer uma operação nela para tentar localizá-lo.. oq acham?”
Os procuradores então discutiram sobre os prós e contras de deflagrar uma ação contra Nathalie. Deltan Dallagnol, por exemplo, ponderou que a investida só faria Raul fugir de um lugar para outro em Portugal, dificultando ainda mais o trabalho da polícia local.
A despeito da discussão, os procuradores encaminharam naquele mês um pedido de operação ostensiva contra Nathalie. Moro negou. “Apesar dos argumentos do MPF, não há provas muito claras de que Nathalie Angerami Priante Schmidt Felippe tinha ciência de que os valores tinham origem ilícita e/ou eram fruto de atos de corrupção”, despachou o então juiz.
Porém, três meses depois, o MPF voltou a pedir operação, sem alterar a fundamentação do requerimento. Àquela altura, Raul já havia sido preso e solto em Portugal, para responder seu processo em liberdade, e o pedido de extradição feito pela Lava Jato não andava a contento. Desta vez, Moro mudou de opinião e acolheu o pedido.
Na busca e apreensão na casa de Nathalie, policiais federais armados com metralhadoras ameaçaram a empresária. Disseram que ela deveria entregar imediatamente a localização do pai em Portugal, se não quisesse ter “dor de cabeça” com o filho, um menino de 7 anos. O relato constou em pedido de habeas corpus enviado ao TRF-4.
“A operação de busca e apreensão na casa de Nathalie, no Rio de Janeiro, reteve o seu passaporte. No mesmo dia, o pedido de extradição de Schmidt foi cancelado em Portugal. Segundo o Intercept, ‘Nathalie foi denunciada pela Lava Jato por lavagem de dinheiro pela compra do imóvel em Paris no final de 2018, mas o caso corre, até hoje, sob sigilo'”, descreveu o UOL desta quarta (11).