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sábado, 26 de dezembro de 2020

Mandetta diz que Bolsonaro tem "condução desastrosa" no combate à pandemia

 

Ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que Jair Bolsonaro teve uma "condução desastrosa” desde o início da pandemia e que até "até hoje não houve uma fala do presidente que ajudasse a Saúde pública brasileira”

Luiz Henrique Mandetta e Jair Bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta e Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR | Isac Nóbrega/PR)

247O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que o Brasil está “sem liderança”  para enfrentar o avanço da Covid-19 e que Jair Bolsonaro “teve uma condução desastrosa” durante a pandemia. “Até hoje não houve uma fala do presidente que ajudasse a Saúde pública brasileira”, disse o ex-ministro em entrevista ao jornal O Globo. 

Mandetta, que deixou o governo em abril, ressaltou que  “o presidente não acredita (no vírus)” e que a defesa da economia em detrimento da saúde feita por ele atrapalha o combate contra a doença. “Até hoje não houve uma fala do presidente que ajudasse a Saúde pública brasileira. Ninguém aguenta mais, é legítima a pressão da economia, mas todo mundo deveria andar junto, ou ter uma regra bem clara e transparente para recomendar lockdown tecnicamente e o governo federal apoiar medidas necessárias”, disse. 

“Quando a taxa de ocupação hospitalar ultrapassa 90%, tem que frear. A saída da crise depende muito da capacidade de vacinação da população. Até agora não transparece que a gente vá ter a execução de um plano bem fundamentado. Parece tudo errático. É preciso ter uma capacidade de liderança muito forte, e o Brasil está sem liderança em Saúde”, emendou.

“Ele (Bolsonaro) falou várias vezes que entre a saúde e a economia, ele ia ficar com a economia. E a população começou a construir as suas linhas de defesa sem contar com a liderança da figura maior do governo. Vimos o Ministério da Saúde falando uma coisa e ele falando outra”, afirmou o ex-ministro. 

Mandetta também voltou a criticar a “intervenção militar” no ministério da Saúde feita por Bolsonaro. “Um militar não tem a menor noção do que é Saúde. A gente passa a ter um governo federal que sai completamente do enfrentamento da Saúde e com o argumento de que o problema era de logística. Nunca foi, o problema era de Saúde pública, muito mais complexo do que carregar caixa para lá e para cá. E agora tem uma crise tripla, de prevenção, atendimento e vacina”, destacou.

Ele ressaltou, ainda, que o números de mortes em função da Covid-19 “ fala por si. Ele (Bolsonaro) teve uma condução desastrosa. A desautorização do ministro em público, “manda quem pode e obedece quem tem juízo”; o “e daí?”; “não sou coveiro”; “gripezinha”; “está no final”. Está no final nada. Se teve alguma coisa digna de nota eu não saberia te citar”. 


quinta-feira, 14 de maio de 2020

A história vai julgar Bolsonaro, diz Mandetta em entrevista à BBC inglesa


Ex-ministro da Saúde diz que discurso de Bolsonaro sobre coronavírus "confunde" a população e tem prejudicado o enfrentamento à pandemia no Brasil
Jornal GGN O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse em entrevista exclusiva à BBC do Reino Unido que “a história vai julgar” o presidente Jair Bolsonaro por sua postura irresponsável no enfrentamento à pandemia de coronavírus.
A fala de Mandetta foi registrada após o jornalista da BBC frisar que Bolsonaro tem um discurso contrário às recomendações sanitárias da OMS, participa e incentiva atos com aglomerações humanas, não usa máscara nem mantém distância das pessoas. Ao contrário disso, tira selfies e toca a mão de seus seguidores, e minimiza, sempre que pode, a gravidade do vírus, como se fosse uma “gripezinha”. “Eu tenho certeza que a história vai julgá-lo por tudo isso que você disse”, admitiu Mandetta.
Apesar disso, o ex-ministro comentou que é “direito” de Bolsonaro ter um discurso próprio e se preocupar com a economia. Ele também amenizou as críticas dizendo que a sociedade brasileira não tem apenas uma liderança para influenciar as decisões. Imprensa, governadores e prefeitos têm feito um papel importante orientando a população a seguir as dicas de prevenção.
“Bolsonaro decidiu priorizar a economia, o que me colocou em colisão [com o governo] enquanto ministro da Saúde. Mas é direito dele, ele está no comando, ele foi eleito. Nós teremos eleição daqui dois anos e as pessoas serão capazes de julgar” o presidente, disse Mandetta.
A BBC também destacou na entrevista que o Brasil caminha para ser o novo epicentro da pandemia de coronavírus e que o descaso de Bolsonaro o responsabiliza, de alguma forma, pelo aumento no número de mortes. Seria como ter, metaforicamente, “as mãos sujas de sangue”, colocou o repórter.
Mandetta respondeu que não colocaria as coisas nesses termos, “porque não ajudaria em nada na situação em que estamos.” Mas reconheceu que Bolsonaro terá de assumir as consequências de seus atos no futuro. “A mensagem dele é muito confusa para as pessoas”, disse.
Mandetta também disse que é absolutamente contra Bolsonaro colocar a economia acima de vidas humanas. Questionado por que não se demitiu do cargo antes, o ex-ministro respondeu: “Porque um médico nunca abandona um paciente.” Ter ficado no Ministério no começo da pandemia foi importante para ajudar “muitas pessoas a terem um juízo melhor sobre quem deveriam seguir e como deveriam se comportar. Era um período em que precisavam ver que existe uma voz diferente” da de Bolsonaro.
A reportagem da BBC considerou ainda que Bolsonaro merece um impeachment por sua gestão da crise de coronavírus. Questionou se não é motivo suficiente para deflagrar o processo. Mandetta tangenciou: “Não é hora de discutir isso. Nós temos um inimigo maior e mais forte, que é o coronavírus. Vamos falar de política depois. Agora precisamos que todos ajudem na luta” contra a doença.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

11 vezes em que Osmar Terra falou equívocos gritantes e/ou mentiras de caso pensado, bem ao estilo olavista-bolsonarista terraplanista, sobre coronavírus



Ex-ministro vem defendendo uma visão preocupante: a de que a pandemia é incontrolável e o isolamento social adotado por governos é uma decisão política, e sem respaldo científico, que não vale a pena

Jornal GGN O ex-ministro Osmar Terra é médico, já foi secretário de Saúde e se orgulha de ter enfrentado a epidemia de H1N1 em 2009 como gestor no Rio Grande do Sul. Isso tudo deveria ser uma credencial para que possa ocupar o Ministério da Saúde em eventual saída de Luiz Henrique Mandetta, não fosse o desespero para agradar incondicionalmente o presidente Jair Bolsonaro.
Nos últimos dias, Terra passou a publicar mensagens no Twitter, vídeo e até artigo na Folha de S. Paulo para sustentar uma visão preocupante: a de que a pandemia é incontrolável e o isolamento social é uma decisão política, sem respaldo científico, que não vale a pena.
GGN analisou as manifestações do ex-ministro e expõe, abaixo, o resumo das principais ideias e o contraponto com dados que ele ignora.
1- A quarentena aumentou casos de coronavírus onde foi adotada.
“A ideia de fazer quarentena para reduzir a velocidade e ‘achatar’ a curva de aumento de casos, não funcionou em nenhum país do mundo nesta epidemia! Estão submetendo a população a enormes sacrifícios por uma teoria sem resultados práticos!”, escreveu Osmar Terra no Twitter.
Esse tipo de análise é equivocada porque os efeitos de uma quarentena não são vistos nos primeiros dias subsequentes ao decreto dos governos. Cientistas apontam que há um prazo mínimo para verificar a efetividade das metidas de mitigação que envolvem fechamento de escolas, serviços não essenciais, entre outros: cerca de 14 dias, que é é o tempo de incubação do vírus.
É preciso considerar ainda que há um intervalo de espera entre o momento em que o caso chega ao hospital e o momento em que o teste em laboratório é concluído e entra para as estatísticas. O boom de casos visto pelo ex-ministro em outros países deveria levar em conta esses fatores.
2 – Brasil vive uma quarentena radical sem sinais do achatamento da curva.
Disse Osmar Terra: “No Brasil, onde estamos sendo submetidos a uma quarentena radical que destrói nossa economia e empregos, eu pergunto: onde está o achatamento da curva??!! NÃO EXISTE. Com a quarentena ou não, chegaremos ao pico da epidemia antes do final de abril! (…) Está na hora dos governadores ouvirem o Presidente e acertarem com ele o fim dessa quarentena sem resultados.”
O Brasil não vive, na visão do próprio Ministério da Saúde, uma quarentena radical. Na semana passada, o ministro Luiz Henrique Mandetta chegou dizer que chamaria as medidas adotadas por governos e municípios de “quarentena”. Diferente de outros países, o Brasil não fez nenhum “lockdown”, suspendendo todas as atividades e isolando a sociedade em geral por, no mínimo, 14 dias.
Há diferenças entre medidas de mitigação e medidas de supressão ao coronavírus. O que os estados adotaram foram algumas medidas de mitigação, como fechar escolas e universidades, fechar comércios com atividades não essenciais, suspender eventos públicos, entre outras ações que não são sequer orquestradas em nível nacional.
Ainda de acordo com Mandetta, o esperado é que o País viva um aumento significativo dos casos à medida em que os testes comprados no exterior e fabricados nacionalmente comecem a ser feitos em mais pessoas e gerem resultados para as estatísticas. A Pasta continua trabalhando para receber milhões desses testes.
Além disso, o achatamento da curva, ao contrário do que faz parecer Osmar Terra em seus comentários, não sugere que a epidemia está exterminada. A ideia de “achatar” a curva tem outro objeto primário: impedir que os casos graves cheguem todos ao mesmo tempo no hospital, gerando um colapso no sistema de saúde. Pode haver um mesmo volume de casos, portanto, mas espalhados ao longo do tempo, para que o sistema de saúde possa se preparar para absorver a demanda.
3 – A epidemia de H1N1 é a prova de que quarentena é desnecessário.
“Eu me baseio em experiência que tive ao comandar o enfrentamento a várias epidemias, com bons resultados, onde nos concentramos em grupos de riscos sem impedir que atividades continuassem”, disse Osmar Terra, em referência ao surto de H1N1 em 2009.
O ministro omite que as condições em que aquele vírus surgiu eram outras. O H1N1 era menos transmissível que o coronavírus. O primeiro transferia para 1,3 pessoa em média. A COVID-19 passa de uma para 2 ou 3 pessoas, numa estimativa conservadora.
Isso tem a ver com o fato de que o vírus de 2009 era parecido com o H1N1 de 1968. Os idosos que pegaram o vírus em 1968, portanto, estavam menos vulneráveis a ele em 2009. Por isso também a doença foi menos letal entre idosos naquele ano. Esse dado está relacionado ainda à taxa de transmissão, pois uma parcela da população já tinha alguma imunidade.
A COVID-19 mata mais idosos que a H1N1 porque não há imunidade, vacinas ou remédios contra ela no momento. No final de 2009 e começo de 2010, o H1N1 já tinha uma vacina. E com contágio menor, ela não colapsou o sistema de saúde nos termos vistos pela COVID-19.
O virologista Átila Iamarino fez um vídeo sobre coronavírus no domingo (5) e comentou a situação do H1N1 em paralelo com a COVID-19:

4 – O vírus é assintomático em 99% dos casos.
O ex-ministro não informou qual estudo científico respalda essa informação que ele repete em vídeo, artigo e mensagens nas redes sociais.
Aferir o nível de casos assintomáticos no mundo depende da testagem em massa, e ainda há pesquisas em andamento sobre isso. Um estudo de referência é o da Islândia, que apontou que metade dos casos, e não 99%, seriam assintomáticos.
Curioso que esse dado seja usado por Terra para justificar o fim da quarentena. Pela lógica, quanto mais gente circulando nas ruas sem saber que porta o vírus, maior a chance de que pessoas em grupo de risco possam se contaminar.
5 – É preciso contaminar metade da população.
Esse era o plano do Reino Unido, desenvolver a chamada imunidade de rebanho, para conter a epidemia. Ocorre que essa decisão gera o problema de milhares de casos graves ocorrendo ao mesmo tempo, e é aí que o sistema de saúde de qualquer país pode entrar em colapso. Esse plano foi abandonado tão logo o Imperial College apresentou as estimativas de quase meio milhão de mortes por COVID-18 no Reino Unido, caso nada fosse feito.
6 – O Imperial College está errado.
“O conceito de achatamento da curva está errado. O Imperial College errou. Previu milhões de mortos que não aconteceram. Não vai acontecer. O calculo está errado”, disse Terra em um vídeo divulgado no Youtube.
O que o Imperial College faz é projetar o crescimento exponencial dos casos e estimar as mortes considerando as taxas de letalidade vistas em alguns países que foram atingidos pela epidemia primeiro, como a China. Com base nesses dados, esboçam cenários que relacionam as medidas que podem ser adotadas e suas consequências.
O ministro não explica como chegou à conclusão de que o “conceito de achatamento da curva está errado” e qual estudo de seu conhecimento contradiz o Imperial College.
7 – A Itália já chegou ao final da pandemia, e Brasil chegará em junho.
“No final de abril termina a epidemia na Itália. No Brasil termina em maio. Em junho, não terá mais epidemia no Brasil.”
Quando fala sobre o Brasil, o ex-ministro jamais diz quais dados o levam a projetar o cenário em que a epidemia estará acabada em junho. Contrasta com essa informação as notícias de que os países asiáticos, que enfrentaram primeiro o coronavírus no mundo, estão preocupados e se preparando para uma segunda onda.
No final de março, as autoridades da Itália de fato afirmaram que acreditam que o País atingiu o pico da crise e, em breve, a curva de casos passará a cair lentamente. Mas isso não significa que eles vão afrouxar as medidas de restrição social. Silvio Brusaferro, do Instituto Superior de Saúde italiano, disse que serão muito “cautelosos” porque o fim da quarentena pode retomar o crescimento de casos.
8 – Suécia só isolou grupo de risco e já atingiu o pico de casos.
“Olha a Suécia, a Suécia está começando a cair [a curva de novos casos]”, diz o ministro no vídeo que em afirma que o país tem 5568 casos e 390 mortes, segundo dados de 3 de abril.
Hoje, três dias depois, a Suécia já tem mais de 7,2 mil casos e 477 mortes, e nenhum motivo para ver esses dados caírem, pois, de fato, não tomou medidas duras de restrição social contra o coronavírus desde o começo.
A Suécia é outro País usado pelo ex-ministro de maneira curiosa, porque lá o debate é justamente sobre aumentar as medidas de mitigação, o que vem ocorrendo lentamente nos últimos dias.
9 – Oxford mostra que metade do Reino Unido está contaminado, logo, a quarentena não adianta.
“No Reino Unido metade da população está contaminada. Oxford mostra isso. Já está chegando no efeito rebanho e começa a cair. Não é com a quarentena que estão fazendo isso. Depois que fizeram quarentena, subiu mais ainda [o volume de casos] e a curva do Reino Unido não está achatada.”
O estudo de Oxford que Osmar Terra cita em vídeos, Twitter e também em artigo publicado na Folha de S. Paulo nesta segunda (6) não foi submetido a nenhuma avaliação. E, para a infelicidade do ministro, tampouco seus idealizadores defendem o fim da quarentena.
O que a pesquisa fez foi “supor” qual o comportamento do coronavírus, para levantar a tese de que ele já contaminou, silenciosamente, boa parte da população no primeiro mês em que chegou ao Reino Unido. Com base nessa suposição, os pesquisadores apontam necessidade de fazer testes em massa nas próximas semanas, para descobrir se a população adquiriu a imunidade de rebanho aventada.
10 – Coréia do Sul não fez quarentena forçada.
“O que a Coreia fez foi muito simples, isolou os grupos de risco e testou em massa. Não fechou nem fez quarentena forçada de ninguém.”
A Coreia do Sul fez uma política acirrada de identificação, isolamento e vigilância dos casos de coronavírus que entraram por aeroportos. Somada à testagem em massa (uma capacidade que nem todo país tem) e imposição de quarentena aos grupos de riscos identificados nesse processo.
Para aqueles que puderam continuar transitando nas ruas, a recomendação foi de uso de máscaras. As pessoas também recebem mensagens no celular diariamente, com os dados do monitoramento do vírus por geolocalização, e sabem quando e onde estarão mais expostos à doença. Os transportes públicos também passam por higienização constante. Ao contrário do que o ministro faz parecer, os coreanos não seguiram a vida normalmente, como se não houvesse vírus por aí. A rotina de contenção sanitária é intensa.
Desde o dia 21 de março, para conter a ameaça de uma segunda onda, a Coreia do Sul também fechou “instalações de alto risco” e proibiu reuniões religiosas, esportivas e de entretenimento. Está de olho em asilos e outros focos de contaminação. Aumentou a multa para quem fura o isolamento sendo COVID-19 positivo, agora em R$ 42 mil. E vai estender as recomendações de isolamento por mais duas semanas, já que as autoridades observaram que em fevereiro, a população ficou mais em casa e, agora, o movimento aumentou em 20%.
11 – Isolar idosos é o método correto e há exemplos.
“(…) defendo priorizar e reforçar a proteção dos grupos de maior risco de contágio: idosos e doentes crônicos, como fazem os países com melhor resultado, como Coreia do Sul, Japão, Israel e Suécia. E complementar aplicando o maior uso de testes”, escreveu Terra no artigo na Folha.
Como já mostrado acima, Coreia do Sul e Suécia estão endurecendo medidas de mitigação contra o coronavírus.
O Japão pode ter desenvolvimento um ritmo mais lento no começo da pandemia, mas o cenário começa a mudar. Embora algumas escolas onde houve registro de coronavírus tenham fechado, comércios continuaram operando normalmente nas últimas semanas, e agora o País discute decretar emergência nacional. Tóquio, com mais casos, faz pressão pelo decreto e já pediu, no último final de semana, que a população faça “home office” e evite as saídas não indispensáveis.
A ideia é que o estado de emergência afete os lugares onde há mais casos de COVID-19, e não todo território nacional. Porém, a partir disso, os governadores “poderão solicitar aos moradores que permaneçam em suas casas e aos comércios não essenciais que suspendam suas atividades”.
Assim como na Suécia, o sistema no Japão será baseado na “disciplina” ou colaboração cidadã, sem intenção de impor quarentena obrigatória e multas para quem fura as recomendações.
De um lado, especialistas dizem que o Japão tem controlado relativamente bem sua epidemia de coronavírus, considerando a proximidade com a China, porque tem hábitos de higiene que dificultam a transmissão da doença. Uso de máscaras por civis é praticamente mandatório. Beijos e apertos de mão não são usados pela população em geral e os estabelecimentos têm desinfetantes e álcool em gel disponíveis usualmente.
Por outro lado, há questionamentos sobre a veracidade dos números oficiais divulgados, e considerações sobre o fato do Japão não fazer testes em massa, o que impactaria no número de casos confirmados.

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domingo, 29 de março de 2020

Xadrez do novo período, em que Bolsonaro, a hiena desorientada, não mais governa, por Luis Nassif


Haverá inevitavelmente o choque final, no qual os Bolsonaro tentarão envolver bases das Polícias Militares, os caminhoneiros ligados a ele (que não são maioria na classe) e mais grupos aliados, já esvaziados. Tem-se, agora, uma hiena desdentada. Quanto menos poder institucional, maior gritaria.

Os sinais de que Jair Bolsonaro não mais governa estão nítidos. É um fato que muda totalmente o jogo político.

Peça 1 – o poder militar

No dia seguinte ao pronunciamento de Bolsonaro, conclamando o fim da quarentena, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, falou para a tropa, recomendando a quarentena e enfatizando que respondia ao Ministro da Defesa e às autoridades da Saúde.
Ecos de Brasília, através de alguns jornalistas com fontes militares, mostraram a indignação dentro do Palácio, sustentando que não iriam participar de semelhante massacre.
Há muito chute no ar, de jornalistas que exercitam probabilidades como se fossem informações objetivas. De objetivo tem-se o descontentamento do Alto Comando com Bolsonaro.

Peça 2 – o grupo da saúde

A reação do Ministério da Saúde foi nítida. Antes de ontem, o grupo de técnicos que toca a guerra contra o coronavirus divulgou um manifesto reiterando a ordem para manter a quarentena.
Veja bem: o presidente da República decreta o fim da quarentena; e os técnicos da saúde reiteram a ordem de mantê-la.  Não foi nem a título de recomendação. Foi ordem mesmo. Foi o sinal mais nítido do fim do comando de Bolsonaro sobre o governo.
Ontem, o Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta fez longa apresentação pela Internet, onde reiterou todas as recomendações iniciais, de manter a quarentena para permitir o movimento das pessoas trabalhando em atividades essenciais.
Desqualificou as declarações sobre gripezinhas e mortes de poucos mil, mostrando o efeito sobre a rede do SUS e as consequências posteriores. Condenou as carreatas visando acabar com a quarentena.
Em suma, desdisse ponto por ponto as tolices do presidente da República. No final, em um jogo claro de “engana-o-bobo”, fez um ataque desnecessário à imprensa, mas necessário para manter o louco sob controle.
Há informações fidedignas de que qualquer movimento de Bolsonaro, visando inibir os trabalhos de prevenção, será respondido com renúncia coletiva de toda a turma da saúde.

Peça 3 – o grupo da economia

A economia nunca foi a praia de Bolsonaro e, agora, menos ainda. É curioso que Paulo Guedes, sem dimensão pública, sem noção das estratégias necessárias de combate à depressão, tem compensado a falta de ousadia com discursos de solidariedade e de apoio aos mais fracos. É um mero recurso retórico, para compensar a falta de medidas mais substantivas. Mas é curioso que seja utilizado pelo tecnocrata, enquanto o presidente se limita a gracejos, tipo o brasileiro entra em esgoto e não fica doente.
Aliás, Guedes é o mais assustado com o coronavirus, a ponto de se ausentar de todos os eventos do governo.
No meio empresarial, acabou definitivamente qualquer veleidade em relação a Bolsonaro. Sabe-se que, ficando ou saindo, não terá mais a menor influência sobre reformas, nenhuma interlocução com o Congresso, nenhum respeito do Supremo, nenhuma ascendência sobre a área econômica.

Peça 4 – a direita virtual

A aposta na minimização do coronavirus minou amplamente sua ascendência sobre grupos de direita. É um fenômeno similar ao que está ocorrendo nos Estados Unidos.
No âmbito da grande mídia, cessou a época dos influenciadores negacionistas. Esta semana, foi demitida uma das principais âncoras da Fox News – a empresa que descobriu o público de direita e explorou até o limite os fake News políticos -, devido ao fato de ter minimizado a epidemia e atribuído as estatísticas a uma conspiração para derrubar Donald Trump. Esse mesmo processo vai se dar na mídia tradicional brasileira.
Pesquisas feitas logo após os últimos pronunciamentos de Bolsonaro mostraram uma ampla queda entre eleitores de direita. Hoje em dia, o bolsonarismo está restrito a um grupo minoritário de terraplanistas, sem massa crítica para grandes manifestações. Tanto que as carreatas deste final de semana se tornaram um rotundo fracasso.

Peça 5 – o Judiciário

Até agora, majoritariamente o Judiciário e o Ministério Púbico se alinhavam com o bolsonarismo. Aparentemente, o noivado foi rompido. Houve sentenças em vários estados proibindo as carreatas. E uma sentença da Justiça Federal em Brasília proibindo a veiculação da campanha da Secom estimulando a quebra da quarentena.
Comprovando o enfraquecimento final de Bolsonaro, a Secom voltou atrás a ponto de negar que tivesse planejado a campanha.

Peça 6 – a queda de braço com os governadores

Outra derrota foi para os governadores, em sua tentativa de quebrar o isolamento para enfrentar o coronavirus. A maioria dos governos relevantes manteve sua posição de não quebrar o isolamento. E as capitais mostraram que a maioria da população acatou a ordem de não se juntar em grandes aglomerados.
Completou o ciclo a fala de Mandetta, fortalecendo a posição dos governadores, recomendando que não alterem sua estratégia.
A frente dos governadores, de enfrentamento do coronavirus, não é unânime apenas devido a alguns personagens extremamente medíocres, como Romeu Zema, governador de Minas.

Peça 7 – o papel de Rodrigo Maia

Nesse vácuo de poder, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se fortalece definitivamente como o grande interlocutor do mundo político, das empresas e dos partidos políticos em geral.

Peça 8 – próximos passos

Stricto sensu, Jair Bolsonaro tem os seguintes instrumentos de exercício do poder de Presidente:
  1. O acesso a rede nacional para pronunciamentos.
  2. A rede de fake News do gabinete do ódio.
  3. Os resmungos do general Alberto Heleno, provavelmente o mais inepto militar que já passou pela área pública.
Haverá mais dois movimentos previsíveis.
Do lado dos Bolsonaro, o inconformismo resultando em novos crimes virtuais. Do lado dos órgãos de investigação, a aceleração dos inquéritos sobre seus filhos.
Fosse um grupo minimamente racional, os Bolsonaros recolheriam as armas e tentariam se recompor para um novo confronto mais adiante. Mas são toscos demais. Acuados, tenderão a dobrar a aposta.
Haverá inevitavelmente o choque final, no qual os Bolsonaro tentarão envolver bases das Polícias Militares, os caminhoneiros ligados a ele (que não são maioria na classe) e mais grupos aliados, já esvaziados. Tem-se, agora, uma hiena desdentada.
Quanto menos poder institucional, maior gritaria.
O que irá acontecer daqui para diante tem uma certeza e uma incógnita. A certeza é do fim de seu poder como presidente. A incógnita é a maneira como será tirado do poder.
Saindo, é questão de tempo para que ele e a família sejam julgados por tribunais nacionais e cortes internacionais e se faça Justiça com algumas décadas de atraso: ele deveria ter sido preso no momento em que foi expulso do Exército.

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