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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Heloísa, filha do ex-astrólogo e mentor de Bolsonaro e Wintraub, Olavo de Carvalho, revela em entrevista à Revista Época pontos obscurantistas do pai


Da Revista Época, reproduzida no Contexto Livre

Heloísa, filha do ideólogo Olavo de Carvalho, fala da infância desassistida, da relação conflituosa com ele e das antigas convicções religiosas do pai, que agora são negadas

Heloísa e o pai, Olavo de Carvalho, em foto dos anos 90.
"Hoje ele se diz católico desde criancinha, mas foi muçulmano
e levou todos os quatro filhos, minha mãe a as esposas dele
na época para o islamismo"
Foto: Reprodução/Facebook
Aos 49 anos, Heloísa de Carvalho Martin Arribas mora numa casa simples e aconchegante em Atibaia, com árvores e flores pelo quintal. 

Professora de artesanato, saiu do anonimato em 2017, quando escreveu "Carta aberta a um pai". O texto relata parte da infância dela e dos irmãos, período marcado pela ausência do pai, o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, guru do governo de Jair Bolsonaro. Heloísa o acusa de não a ter enviado à escola. 

Carvalho, ainda segundo a filha, teria colocado a família para morar nos fundos da Escola Júpiter, onde dava cursos de astrologia, enquanto usava a casa da frente para se relacionar com a nova esposa. Em entrevista a ÉPOCA, Heloísa fala sobre o relacionamento com o pai e sobre a mágoa em relação ao abandono intelectual — ela foi alfabetizada pelo Mobral, antigo programa do governo de alfabetização de adultos. 


Você tinha um relacionamento ruim com seu pai? 


Eu sempre tive contato com meu pai. Todas as férias, quando dava, ia passar uns dias na casa dele no Rio ou em Curitiba. Mesmo depois de 2005, quando ele foi para os Estados Unidos, falávamos por e-mail, telefone, WhatsApp. Essa distância que meu pai diz que existe entre nós nunca existiu. Sempre tivemos contato. É apenas uma maneira de ele dizer "não sei da vida dela", "é uma filha que coloquei no mundo e perdi". Uma forma para justificar a falta de responsabilidade como pai, como não ter mandado os filhos para a escola. Não é nada disso que ele fala. Fico pasma de os meus irmãos dizerem que quem mente sou eu.  


Vocês tiveram uma criação religiosa?  


Teve épocas em que rezávamos antes das refeições, mas minha mãe rezava porque era obrigada. Isso não durou nem um ano e não íamos mais à missa. Quando fui morar com meu pai e a Silvana, a segunda esposa dele, frequentávamos uma igreja na Mooca de vez em quando, mas também não durou. Acordar cedo nunca fez parte da vida do meu pai. Às vezes, chegávamos atrasados à missa por ele perder a hora. 

Hoje ele se diz católico desde criancinha, mas foi muçulmano e levou todos os quatro filhos, minha mãe a as esposas dele na época para o islamismo. Chegou a ter três esposas muçulmanas ao mesmo tempo. Não batizou nenhum dos quatro filhos do primeiro casamento. Dos outros casamentos não sei, mas nunca ouvi falar em madrinha ou batismo. Ele me casou no islamismo. Eu optei por ser católica e, em 2015, depois de adulta, fui batizada.  


Por que ele foi morar nos Estados Unidos? 


No começo eu não entendia. Acompanhava ele pelo Facebook de vez em quando. Via as publicações, os ataques, mas sempre me mantive neutra. Quando começou a união com a campanha do Jair Bolsonaro, vi que a coisa era maior do que eu imaginava. Lembro de coisas do passado, das amizades que ajudaram ele a chegar onde chegou. 

Dos Estados Unidos ele tem condições de atacar as pessoas. É uma forma de falar o que quer sem ser atingido ou processado. Xinga e ofende todo mundo. Mas quem tem condição financeira de processar Olavo de Carvalho com ele morando lá? É caro, tem carta rogatória, tradução juramentada. Custa tempo e dinheiro. Eu mesma o processaria. Meu pai disse que fui presa em briga de bar, que sou usuária de drogas. Fora a questão do abandono intelectual que sofri na infância e me causa grande transtorno até hoje, com deficiência muito grande na escrita. 


Luiz Gonzaga, Davi, Pedro, Leilah, Heloísa e Percival, os filhos de Olavo de Carvalho no aeroporto de Curitiba, na despedida dele em 2005, quando mudou-se para os EUA Foto: Acervo pessoal
Luiz Gonzaga, Davi, Pedro, Leilah, Heloísa e Percival, os filhos de Olavo de Carvalho no aeroporto
de Curitiba, na despedida dele em 2005, quando mudou-se para os EUA
Foto: Acervo pessoal


Seu pai tinha dinheiro para viver nos Estados Unidos? 


Ele foi em 2005, ajudado pelo Guilherme Almeida, um dos herdeiros do Grupo CR Almeida. Meu pai morava em Curitiba e, um dia, me ligou: "Dá para vir para cá? Preciso falar com você urgente". Eu já morava aqui em Atibaia, trabalhava durante a semana e, nos fins de semana, fazia “bico” como caixa numa pizzaria para complementar a renda. Sempre trabalhei muito para me sustentar. Então eu fui. O Guilherme Almeida mandou três carros blindados para levar a gente até o aeroporto e pagou o almoço de despedida, com umas 40 pessoas. Uma vez meu pai falou que recebeu US$ 40 mil de um amigo para se estabelecer nos Estados Unidos. Imagino que tenha sido dele. 


Você falou recentemente que viveu numa comunidade islâmica com seus pais. Como foi isso? 


Foi em 1985, quando meus irmãos foram morar com ele numa casa no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Eu tinha 16 anos e morava com uma tia aqui em Atibaia. Tinha começado a estudar. Fazia jazz, jogava vôlei. Minha mãe veio e disse que estavam ela, meu pai e meus irmãos morando todos juntos — só faltava eu. Qual o filho de pais separados que não quer ver todo mundo junto? Até briguei com minha tia para ir. Mas, quando cheguei lá, não era uma casa normal. Era uma casa onde viviam umas 30 pessoas. Pelo menos 12, fora a minha família, moravam lá. Ele estava numa seita islâmica e todo mundo se converteu. Era uma comunidade, com rezação o dia todo, um monte de regra preconceituosa. 


Que tipo de regra? 


Tinha de sair na rua de véu, com saia comprida até o tornozelo e mangas compridas. Era proibido falar qualquer tipo de palavrão. Também era proibido ter contato com homossexuais ou prostitutas. Todas as sextas-feiras íamos a uma mesquita na Avenida do Estado [importante via da capital paulista]. Ele dizia que muçulmano não namora, só casa. Me apaixonei por um aluno dele. Eu tinha 16 anos e o rapaz, que é o pai do meu filho, tinha 18. Casamos e ficamos juntos durante seis anos. Vivemos na comunidade por uns dois anos. Depois meu pai brigou com todo mundo e a seita acabou, desmantelou. Primeiro fui morar com a minha avó materna. Depois minha tia nos chamou para morar aqui em Atibaia. Eu voltei a estudar e ele também. Nos separamos, mas mantemos a amizade. Ele tem urticária só de ouvir falar em Olavo de Carvalho.  


Você diz que não estudou, que foi alfabetizada no Mobral. Seus pais eram contra a escola? 


Não é que proibissem, mas nunca deram importância. Quando a gente ia à escola, não tinha material, roupa, uniforme. Nessa época, eu era criança. Morávamos na Zona Norte de São Paulo e ele chegou até a matricular a gente numa escola particular chamada Recanto da Petizada. Mas não pagava. Eu voltava da escola levando o boleto de cobrança para casa. Também não pagava perua para levar para a escola. Não tinha como ir. Só consegui me alfabetizar mesmo quando me matriculei no Mobral, incentivada por minha tia, que era professora.  


Quando você deixou de morar com seus pais para morar com sua tia?  


Minha mãe e meu pai se separaram e eu fiquei primeiro morando com ele e a Silvana, a segunda esposa dele. Eu tinha uns 11 anos e a Silvana havia tido a minha irmã Inês, que era um bebê ainda. Silvana não era boa dona de casa. Eu vivia jogada, sem comida pronta, roupas limpas ou ajuda para estudar. Às vezes, tinha de comprar cartolina para levar para a escola e eu não achava nem meu pai nem ela para pedir dinheiro. Ficava sem o material. Morria de vergonha. Tinha uma amiguinha que morava no mesmo prédio que eu e que estudava na minha classe. Quando dava, ela dividia o material comigo. Tenho muita saudade dela, mas nunca mais a encontrei. Só sei o primeiro nome dela: Irina. A única lembrança que guardei foi uma foto nossa. Eu com o cãozinho dela e ela com meu gatinho, tirada pela Silvana, no prédio onde morávamos, na Rua Tutoia.  


A segunda mulher dele era como? 


A Silvana é de família bem rica. Foi criada com empregada e mordomo. Quando a coisa apertava, ela saía correndo com a Inês para a casa do pai ou da avó dela. Ficava lá o dia todo. Só aparecia quando meu pai estava em casa. Nessa época, ele dava cursos de astrologia, viajava muito para o Rio, e eu ficava sozinha no apartamento, que era do pai dela. Um dia, minha tia foi levar minha mãe para me visitar e eu pedi para morar com minha tia. Eu tinha uns 12 ou 13 anos. Foi bom. Voltei a estudar, fazer esportes, ter amigos, casa, comida e roupa limpa. Foi com a minha tia que aprendi a me cuidar e cuidar de uma casa. Foi com a minha tia que fui estudar no Mobral. 


Seus pais continuaram morando com seus irmãos? 


Meus pais viviam num tal de separa e volta. Acho que ele morou com a gente até antes de o Davi nascer. Davi é o mais novo. Depois não me lembro mais de eles morarem juntos. Ele aparecia, dormia uma ou duas noites e sumia. Foram anos assim até ele montar a Escola Júpiter de Astrologia. Depois de várias namoradas, ele começou a namorar com a Silvana, até que ela engravidou e eles passaram a morar juntos. Foi nessa época que a minha mãe tentou suicídio e foi internada por ele num hospício. Eu fiquei morando com ele e a Silvana. E meus irmãos foram morar com a minha avó materna. 


E sua mãe? Nunca falou para você estudar? 


Os dois sempre foram ligados a religião, astrologia e ocultismo. Não estavam nem aí. Viravam a noite fumando, tomando café, fazendo "filosofia". No dia seguinte, minha mãe não acordava, não tinha café da manhã, nada. Sabe quando seu pai trabalha, ganha uma nota, vai para o restaurante com a família inteira e, no dia seguinte, vem a companhia energética e “corta” a luz pois ele não pagou? Essa foi a infância que eu tive. Ele também ia para restaurantes caros com os alunos, pagava a conta de todos, e, no dia seguinte, cortavam a água da minha casa. Não foi uma nem duas vezes que aconteceu isso. Foram muitas. Fora os despejos. Não passamos necessidade porque a família da minha mãe sempre deu amparo. Minha avó materna atravessava da Vila Guilherme, onde ela morava, até o Jardim Brasil [bairros da Zona Norte de São Paulo] para fazer a xepa da feira e ter comida para as crianças — eu e meus irmãos. Remédio, médico, era tudo na base da amizade. Quando ficava doente, nos levavam num médico amigo do Olavo. Meu pai trabalhou como jornalista na Revista Médica e conheceu o Dr. Paulo. Ele acabou sendo o pediatra da gente, uma pessoa com quem mantenho um pouco de contato até hoje. 


Seus irmãos estudaram? 


Meus irmãos, filhos da mesma mãe que eu, não têm o ensino fundamental. Sou a primogênita dele — a mais velha. Minha mãe se casou com ele em 1968 e fez separação de corpos nos anos 80. Em 2005, Olavo fez o divórcio porque precisava ir embora casado para os Estados Unidos. O Luiz estudou até a quarta série, o Tales até a terceira e o Davi até a segunda. Eu estudei porque fui morar com minha tia, que era professora. Fiz o Mobral e, em 2005, entrei num curso de Direito aqui em Atibaia. Demorei sete anos e meio para me formar porque tinha dificuldades. Os professores nunca perguntaram, mas achavam que eu tinha algum tipo de problema cognitivo. Eu não contava que tinha feito Mobral, supletivo. Não fui alfabetizada. Morria de vergonha. Eles acabavam dividindo a nota entre prova escrita, trabalho e apresentação. Teve uma prova que escrevi terra com um erre só. Na prova escrita eu ia mal, na apresentação dava show. Meus irmãos do segundo casamento dele — a Inês e o Percival — tiveram escola boa. Estudaram na escola da madrasta da mãe deles, com pedagogia Waldorf, classe com no máximo 10 crianças. Fizeram USP, são bem estudados, mas graças à mãe deles. Meus irmãos do terceiro casamento dele — a Leilah e o Pedro — moram com ele nos Estados Unidos. A Leilah faz faculdade e o Pedro foi ser  mariner  [fuzileiro naval dos Estados Unidos]. 


Sua divergência com o seu pai começou quando? 


Foi depois do filme O jardim das aflições [que retrata as ideias e o cotidiano de Carvalho e que foi lançado em 2017]. Comecei a ver uma briga pela internet entre os diretores do filme. O diretor de fotografia [Daniel Aragão] começou a falar coisas no Facebook e entrei em contato com ele para saber o que tinha acontecido. Ele estava sendo sacaneado. A questão não era dinheiro, era o reconhecimento do trabalho. Falavam do filme, mas omitiam o nome dele. Eu falei que ia interceder por ele e liguei para o meu pai. Meu pai disse para eu não me meter, que era melhor eu me calar. Perguntei por que era melhor eu me calar e ele falou: "Era o que me faltava, uma puta vagabunda se envolver com um maconheiro vigarista para me foder". Bateu o telefone na minha cara, me bloqueou no Facebook e no WhatsApp. Aí resolvi começar a falar o que sei sobre o lado que o Olavo esconde. Esse lado agressivo, maldoso, violento com as pessoas. É um lado que somente quem convive com ele já viu ou sabe. 


Você citou numa carta pública, em 2017, que a reação de seu pai em relação a sua defesa do Daniel Aragão parecia surto. O que são esses surtos? 


Quando ele fica nervoso, ele surta, com gritos, murros na mesa, muitos palavrões e grosserias com quem está por perto. Isso acontece quando ele se sente provocado ou ameaçado. Diz que a culpa é dos outros; nunca é dele. Uma vez, na casa da Bela Vista, logo depois que ele foi expulso da seita do Frithjof Schuon, ele ficou surtado, com mania de perseguição. Dizia que queriam matá-lo. Ficava paranoico, colocava tranca nas portas e janelas. Dizia que estava sendo vigiado e andava armado pela casa. Eu morava lá e não via nada de estranho. Acho que era tudo coisa da cabeça dele. 


Seu pai chegou a ficar internado? Você sabe algo sobre esse período?  


Sim. Eu tinha entre 5 e 7 anos, não sei exatamente. Fui duas ou três vezes visitar ele na clínica. Não podíamos entrar na casa, então ficávamos na área da piscina, que por sinal era enorme, com um belo jardim. Era uma clínica particular em regime comunitário, coisa bem diferente para aquela época. 


O que seus irmãos fazem hoje? 


Quando meu pai foi embora para os Estados Unidos, o Luiz e o Davi se mudaram para Curitiba e o Luiz herdou as aulas do meu pai. Há uns três anos, pelo que sei, fundaram um instituto e hoje só dão aulas, consulta astrológica e orientação espiritual pela internet. O Luiz hoje vive na Romênia. Ouvi dizer que virá para o Brasil este ano encontrar com os alunos. O Davi ajuda a conseguir alunos, a divulgar os cursos. O Tales é muçulmano e é o único que assume isso publicamente. É chefe de uma  tariqa  [confrarias esotéricas islâmicas, da corrente contemplativa e mística do Islã], tem duas mulheres e se mudou com elas para o Paraguai. O Luiz também faz parte da  tariqa , mas não diz publicamente. Na prática, todos vivem da marca Olavo de Carvalho e propagam a mesma filosofia. Eles nunca foram ligados em política, mas, de repente, viraram todos bolsonaristas. Pior! O Luiz fez campanha para o Bolsonaro nas redes sociais, mas nem foi votar. Depois das eleições, vi que ele estava com o título de eleitor cancelado por não ter ido votar. 


Você não permaneceu adepta da seita muçulmana. O que sabe dela? 


É difícil explicar. Trata-se de uma seita islâmica ligada ao sufismo. Entendem que todas as religiões, de alguma forma, se fundem para elevar a espiritualidade. Por isso, algumas  tariqas  recebem pessoas que não são muçulmanas, mas nem todas. Existem várias pelo mundo. Meu pai hoje tem essa fachada de católico tradicional, mas eu e meus irmãos não fomos sequer batizados na Igreja Católica e a única religião que meu pai fez a gente seguir foi o islamismo. As práticas são exercícios de respiração e muita oração em árabe, onde sacodem a cabeça para entrar em transe e ficam repetindo frases do Alcorão incessantemente, tudo sempre em árabe. Na nossa casa do bairro da Bela Vista, ele até montou uma sala especial apenas para essas orações. Era toda decorada com quadros com dizeres do Alcorão, tudo escrito em árabe. Eu nunca aprendi uma frase em árabe. Fui obrigada a me converter ao islamismo e, assim que deu, pulei fora daquilo e da convivência na mesma casa com meu pai. Foi meu meio de escapar da doutrinação religiosa.

Cleide Carvalho
No Época

quarta-feira, 13 de março de 2019

Atirador de Suzano era fã de Bolsonaro, por Eduardo Guimarães


Basta ver  o que diz a reportagem da Revista Época:
Traço constante em seu perfil [ do adolescente assassino] é o apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Durante a campanha, Guilherme curtiu conteúdos como a mensagem ‘O meu candidato é apoiado pela polícia, o seu é procurado por ela’, que aparece junto a uma foto do presidente abraçado a policiais

O “clã” Bolsonaro puxou o gatilho no massacre de Suzano. Reportagem da revista Época revela que Guilherme Taucci Monteiro, que estudava na escola atacada, postava fotos armado, interagia com páginas de amantes de armas de fogo e admirava a família Bolsonaro. Além disso, os Bolsonaro disseminam apreço por armas e violência. Causaram esse massacre.
Um amante de armas, um apoiador de Jair Bolsonaro, um fã de Walking Dead. É assim como se mostra nas redes sociais Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, um dos dois atiradores da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo”. É assim que reportagem da Revista Época recém-publicada apresenta o adolescente que promoveu o massacre
Antes do tiroteio, o adolescente, que se identificava como “Guilherme Alan” no Facebook, publicou 30 fotos em que veste as mesmas roupas usadas no atentado, inclusive a máscara de caveira. Também aparece nas imagens portando uma arma e mostrando o dedo do meio.
Bolsonaro demorou para se pronunciar sobre o caso. Por certo esperava que sua nova assessoria que o impedirá de dizer besteiras prepara-se o que deveria dizer.
O sujeito que governa o Brasil e seus filhos energúmenos, arrogantes e propagadores de violência e ódio são os fomentadores dessa mentalidade que está afetando sobretudo a juventude mais pobre.
Basta ver  o que diz a reportagem da Revista Época:
Traço constante em seu perfil [ do adolescente assassino] é o apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Durante a campanha, Guilherme curtiu conteúdos como a mensagem ‘O meu candidato é apoiado pela polícia, o seu é procurado por ela’, que aparece junto a uma foto do presidente abraçado a policiais
Esse sujeito que governa o Brasil é um disseminador do “amor pelas armas” que produziu a tragédia que todos estamos vendo
Bem como seus filhos e aliados políticos.
Chegou a hora, portanto, de a sociedade brasileira discutir até quando vai tolerar um governo composto por esse tipo de gente e que prega o uso da violência “contra bandidos” por pessoas despreparadas e que podem usar as armas, inclusive, para “resolver” desentendimentos pessoais. Ou tragédias como a de Suzano vão se tornar frequentes.
confira a reportagem em vídeo



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Revista Época afirma que família Bolsonaro contratou agência para criar grupos no WhatsApp


Veja antes do texto do Jornal GGN o seguinte vídeo esclarecedor da Rede TVT:






"A revista Época publicou uma entrevista nesta quarta (24) que revela que a família Bolsonaro criou artificialmente inúmeros grupos no WhatsApp, há mais de 2 anos, para disparar em massa mensagens "politicamente incorretas", trabalhar o repúdio da população à corrupção e aos projetos do PT, e influenciar o eleitorado a compactuar com as ideias de Jair Bolsonaro. "




Foto: Folhapress
Jornal GGNA revista Época publicou uma entrevista nesta quarta (24) que revela que a família Bolsonaro criou artificialmente inúmeros grupos no WhatsApp, há mais de 2 anos, para disparar em massa mensagens "politicamente incorretas", trabalhar o repúdio da população à corrupção e aos projetos do PT, e influenciar o eleitorado a compactuar com as ideias de Jair Bolsonaro. 
A reportagem conversou com um funcionário da agência que começou produzindo imagens para serem utilizadas na redes sociais. Depois, passou a receber pedidos para criar, dividir em nichos e administrar grupos de WhatsApp. 
Quando a célula, com mais de 100 pessoas, estava consolidada, a administração era transferida para algum voluntário pró-bolsonaro mais ativo. Ou seja: a estrutura montada profissionalmente era fundida com a militância orgânica, graças aos novos apoiadores de Bolsonaro, caracterizando o que especialistas têm chamado de guerra híbrida. 
O caráter da estrutura de comunicação montada por Bolsonaro no WhatsApp está sendo estudado por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, que acrescentaram ainda que os membros mais ativos dessas células têm números internacionais. A fonte anônima da agência revelou que recebia chips da Argentina, Portugal e outros países para fazer suas operações. Esses chips eram fornecidos em reuniões fechadas. O mesmo ocorreu com a entrega das listas de contatos do deputado.
O então funcionário, que pediu para não ter seu nome e nem o da agência revelados, relatou que o serviço foi rompido somente no início deste ano, quando a empresa percebeu que Bolsonaro teria chances de disputar e ganhar a eleição presidencial. Ele acrescentou ainda que a agência estava incomodada com a distribuição de muitas fake news.
Na semana passada, a Folha de S. Paulo revelou que empresas anti-PT estão comprando pacotes de disparos em massa no WhatsApp às véspera do segundo turno. Bolsonaro afirmou que não controla seus "apoiadores voluntários."
 Leia a matéria completa aqui.

quarta-feira, 16 de março de 2016

O Partido da imprensa Golpista resolveu abandonar Aécio Neves? A própria Globo, com sua revistinha Época, agora o acusa publicamente...

As voltas que o mundo dá.... Quem diria que a explicitamente golpista Globo, depois de tanto tempo maquiando e escondendo, resolveu divulgar o que até as pedras do calçamento mais esquecido já sabem há tempos: o neto de Tancredo é um hipócrita... Mas a maioria dos manifestantes "Contra a Corrupção", bem como seus políticos, heróis, juízes, mitos, também o é...


Documentos revelam que doleiro abriu conta secreta da família de Aécio Neves em Liechtenstein



Época obteve acesso aos papéis, apreendidos em operação da PF. Conta foi citada por Delcídio do Amaral, na delação homologada no STF, e está sendo investigada pela PGR na Lava Jato — anos atrás, MP chegou a arquivar o caso, sem apurá-lo





Na manhã do dia oito de fevereiro de 2007, um comboio da Polícia Federal atravessou sem alarde a avenida Rui Barbosa, no Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Estacionou próximo ao portão de abóboda dourada do edifício residencial Murça, no número 460. Desembarcaram dos carros agentes da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros, a unidade da PF encarregada de investigar esquemas de lavagem de dinheiro. Bateram à porta de um dos confortáveis apartamentos do décimo-terceiro andar. Um casal de senhores atendeu, atônito. Não havia engano: era atrás deles que a PF estava. O octogenário Norbert Muller e sua mulher, Christine Puschmann, eram suspeitos de comandar uma das mais secretas e rentáveis “centrais bancárias clandestinas” do país. Vendiam aos seus clientes um serviço que, por aqui, só eles podiam oferecer: a criação e manutenção, no mais absoluto sigilo, de contas bancárias no LGT Bank, sediado no principado de Liechtenstein, o mais fechado de todos os paraísos fiscais do mundo. Naquela manhã de fevereiro, tanto no apartamento do casal Muller quanto no escritório deles, os agentes e delegados da PF encontraram as provas de que precisavam.


Graças à organização minuciosa de Norbert Muller, havia pastas separadas para cada um dos clientes — apenas nos arquivos do apartamento, a PF localizou 75 nomes. Cada pasta apreendida continha extratos bancários de contas, procurações, cópias de passaporte do cliente, contratos, correspondências de Muller com o banco LGT, anotações de valores. Época obteve cópia — na íntegra e com exclusividade — dos papéis apreendidos e da investigação da PF. Havia ali pastas com nomes de advogados, médicos, empresários, socialites, funcionários públicos, um ex-deputado e até um desembargador do Rio recém-aposentado. Havia ali, especialmente, uma pasta-arquivo amarela, identificada pela PF nos autos de busca e apreensão pelo número 41. Nela, o doleiro Muller escrevera, a lápis, a identificação “Bogart e Taylor”. Era o nome escolhido por Inês Maria Neves Faria, mãe e sócia do senador Aécio Neves, do PSDB de Minas, então presidente da Câmara dos Deputados, para batizar a fundação que, a partir de maio de 2001, administraria o dinheiro da conta secreta 0027.277 no LGT.


Na terça-feira (15), tantos anos depois, veio a público a delação premiada do senador Delcídio do Amaral, do PT do Mato Grosso do Sul, que foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal. Nela, entre muitas outras denúncias, Delcídio cita a conta em Liechtenstein. Aos procuradores, o senador disse que fora informado "pelo ex-deputado federal José Janene, morto em 2010, que Aécio era beneficiário de uma fundação sediada em um paraíso fiscal, da qual ele seria dono ou controlador de fato; que essa fundação seria sediada em Liechtenstein". Delcídio diz que não sabe dizer ao certo, mas que "parece que a fundação estaria em nome da mãe ou do próprio Aécio Neves; que essa operação teria sido estruturada por um doleiro do Rio de Janeiro". Delcídio disse não saber se há relação entre essa fundação e as acusações que fez ao tucano — entre elas, de ser beneficiário de propinas em Furnas e de ter agido para interferir nas investigações da CPI dos Correios, da qual o petista foi presidente, em 2006. Janene era um dos líderes do esquema em Furnas, segundo as investigações.


Foi a primeira vez que uma testemunha da Lava Jato citou em público o que os investigadores da Procuradoria-Geral da República investigam sigilosa e discretamente. Os procuradores que trabalham ao lado de Rodrigo Janot apuram a participação de Aécio nos esquemas citados por delatores, em especial o de Furnas. Pediram colaboração internacional, junto às autoridades de paraísos fiscais, para averiguar se contas como a associada ao senador em Liechtenstein foram usadas para o recebimento de propinas. Já descobriram, informalmente, que vários políticos brasileiros foram pagos em contas secretas em paraísos fiscais europeus. Aguardam o compartilhamento oficial dessas evidências. Marcelo Miller, um dos procuradores que atuaram no caso do doleiro Norbert Muller, integra a força-tarefa da PGR.


Aécio acabara de assumir a Presidência da Câmara dos Deputados quando a conta em Liechtenstein foi aberta. De acordo com os documentos apreendidos pela PF, ela poderia ser movimentada por Inês Maria e por Andréa Neves, irmã de Aécio. Segundo os papéis, Aécio não estava autorizado a movimentar a conta da fundação no banco LGT. Era, no entanto, seu beneficiário, de acordo com um documento apreendido pela PF e conhecido como “By Law”. Trata-se de um documento sigiloso, cujas cópias estão disponíveis apenas para os signatários e seus advogados — e que nem sequer é registrado perante as autoridades de Liechtenstein. O beneficiário, ou membro, de uma fundação tem direito a receber bens e dinheiro dela. Uma cláusula do By Law da fundação Bogart & Taylor especificava que, no caso da morte de Inês Maria Neves, Aécio herdaria a fundação e, com isso, o direito de movimentar livremente a conta no LGT. Ele, a mãe e a irmã são sócios em diversos outros empreendimentos, entre eles uma rádio e duas empresas de participação, de acordo com documentos da Junta Comercial de Minas Gerais.


A investigação da PF confirmou que nem Inês Maria, nem Andréa, nem Aécio declararam a existência da conta e da fundação Bogart & Taylor à Receita Federal ou ao Banco Central, como determina a lei. Nenhum dos outros clientes de Muller havia declarado também. Em tese, cometeram os crimes de evasão de divisas, ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. Procurados por Época, nem Aécio nem Inês Maria quiseram dar entrevista. Por meio de seus advogados, a família Neves confirmou que os documentos apreendidos são verdadeiros e que Inês Maria pretendia criar a fundação Bogart & Taylor em Liechtenstein para destinar recursos à educação de seus netos. Mas afirmam que a conta secreta no LGT foi aberta “sem conhecimento” da família. E permaneceu aberta por seis anos “à revelia” — até a operação da PF naquela manhã de fevereiro de 2007. Numa das notas enviadas a Época, os advogados da família Neves afirmam: “Em 2001, assessorada pelo seu marido, o banqueiro Gilberto Faria, a Sra. Ines Maria pensou em criar uma fundação no exterior para prover os estudos dos netos. Foram feitos contatos com o representante de uma instituição financeira, no Brasil, e a Sra. Ines Maria encaminhou ao representante as primeiras documentações. Em função da doença de seu marido (Gilberto Faria morreria em outubro de 2008), os procedimentos foram interrompidos, e a fundação não chegou a ser integralmente constituída. A Sra. Ines Maria nunca assinou qualquer documento autorizando a abertura de conta bancária e nunca realizou remessa financeira para a mesma”.


Após a revelação do depoimento de Delcídio, a assessoria de Aécio divulgou nota reafirmando, em essência, o que seus advogados haviam informado a Época. Omitiram, porém, que a conta só foi declarada após a batida da PF na casa do doleiro. Acrescentaram que o MPF no Rio e, ano passado, a própria PGR arquivaram investigações sobre o caso. É verdade. Omitiram, no entanto, que não houve investigação em nenhuma das duas instâncias. Numa, os procuradores disseram ser inviável apurar a existência da conta, em razão da proteção assegurada por Liechtenstein; noutra, a mais recente, a PGR limitou-se a seguir burocraticamente o que os procuradores no Rio já haviam dito. Ao arquivar o pedido de investigação, a PGR, no entanto, ressaltou que ele poderia ser reaberto mediante o surgimento de mais provas - como a delação de Delcídio e o avanço na colaboração da Lava Jato com autoridades de paraísos fiscais.


O segundo beneficiário


Indepedentemente do desenrolar da investigação na Lava Jato, um exame atento dos documentos da pasta amarela permite levantar sérias dúvidas sobre as declarações apresentadas por Aécio e seus advogados.Os papéis contradizem a versão de que a conta foi aberta "sem conhecimento da família" de Aécio e que permaneceu aberta "à revelia" dela. A pasta amarela guardava toda a papelada usada para abrir a conta. Havia cópia do passaporte de Inês Maria, assinaturas dela nos contratos com o LGT e procurações a Muller. Havia também páginas de extrato da conta. Em 2007, havia US$ 32 mil de saldo. Como são poucos os extratos apreendidos, não há como saber quanto dinheiro foi movimentado – nem quem fez depósitos ou saques. Na pasta, havia ainda numerosos faxes trocados entre Muller e um grupo de advogados ligados ao LGT, sediados em Vaduz, capital de Liechtenstein, com quem Muller mantinha parceria para facilitar contatos com o banco. Havia, por fim, os documentos de criação da fundação Bogart & Taylor, titular da conta no LGT. A criação da fundação, um tipo de entidade jurídica destinada a administrar patrimônios, estabelece uma camada extra de anonimato ao cliente. Uma coisa (a conta) não existe sem a outra (a fundação). Trata-se de uma precaução comum em Liechtenstein, também seguida por outros clientes de Muller.


Os documentos revelam que as tratativas para abrir a conta secreta começam em abril de 2001. Não se sabe quem da família de Aécio procura Muller — nem por quê. Naquele momento, apesar das declarações dos advogados de Aécio, Muller já é um personagem conhecido no mundo dos negócios clandestinos cariocas. Não é um "representante de uma instituição financeira". É um doleiro, conhecido também da PF, que o havia processado por crimes contra o sistema financeiro e fraude cambial em casos dos anos 1990. No dia 26 de abril, surge o primeiro registro formal da abertura da conta (todos os documentos em alemão obtidos por Época foram vertidos ao português por um tradutor juramentado). Muller envia um detalhado fax aos advogados de Liechtenstein que, em parceria com ele, cuidavam das contas secretas da clientela brasileira. O assunto: “Nova fundação Bogart and Taylor”. Em anexo ao fax, seguem os documentos de abertura da Bogart & Taylor e, também, da conta bancária dessa fundação. “Hoje eu recebi da proprietária US$ 21.834,00 a título de capital e peço que me informe por fax o endereço para o qual deve ser transferido o dinheiro”, escreve Muller. Ele é claro quanto à administração do dinheiro: “A fundação deve abrir uma conta no Banco LGT Bank em Liechtenstein AG, e ambas as pessoas inscritas no cartão de assinaturas deverão poder assinar”. Assinar, nesse caso, significa o poder de movimentar a conta. As pessoas autorizadas são Inês Maria e Andréa.


Três dias depois, em 29 de abril, Muller envia mais documentos da família Neves a Liechtenstein. Conta detalhes das tratativas com Inês Maria: “Gostaria de informar que a proprietária quer substituir ‘and’ por ‘&’. Por favor, faça esta alteração. Em anexo, encaminho o estatuto que acertei com ela na data de hoje. Peço a gentileza de informar se esta minuta pode ser aceita. Na quarta feira visitarei a proprietária novamente, para colher a assinatura”. No dia seguinte, a advogada Daniela Wieser, uma das parceiras de Muller em Liechtenstein, confirma o recebimento dos papéis: “A fundação está sendo criada na data de hoje, e espero todos os documentos de volta até a metade da semana que vem. Por favor, envie ainda o endereço e a data de nascimento da cliente (eventualmente por fax), e uma cópia autenticada do passaporte”. Daniela Wieser informa a conta (0400130AH) no LGT que deverá receber os recursos para a criação da Bogart & Taylor. Essa conta pertencia à Hornbeam Corporation, era administrada pelo grupo de Muller – e, noutras investigações da PF, já aparecera metida em transações ilegais com doleiros brasileiros. Não há comprovantes da origem dos dólares repassados pela família de Aécio ao doleiro Muller. Mas é certo que eles chegaram à conta secreta no LGT por meio de uma conta usada para lavar dinheiro.


Em 7 de maio de 2001, prossegue a troca de documentação entre Muller e seus contatos em Liechtenstein. A advogada Daniela pede, por fax, mais informações sobre Inês Maria: “Por favor, me informe por fax a profissão da cliente e de seu ex-marido, pois necessito destas informações para a Hornbeam (a empresa de Muller, cuja conta abasteceria a conta da família Neves em Liechtenstein)”. Muller responde no mesmo dia: “A cliente (Inês Maria) administra seu próprio patrimônio. O ex-marido (Gilberto Faria) é um industrialista com diversas empresas, além de acionista de um grande banco (Bandeirante)”. No mesmo dia, Muller envia os documentos necessários para a criação da Bogart & Taylor: cópia autenticada do passaporte de Inês Maria, procuração assinada por ela e os estatutos da fundação.


O estatuto, assinado por Inês Maria, prevê que ela teria a liberdade de distribuir o dinheiro em nome da Bogart & Taylor como quisesse. Segundo o estatuto, cria-se a Bogart & Taylor com um patrimônio inicial de 30 mil francos suíços. Noutro documento, uma espécie de procuração, Inês Maria delega a Muller, por meio de uma das companhias dele, a Domar Fiduciary Management, com sede em Liechtenstein, o poder de administrar a Bogart & Taylor e o dinheiro dela. No mesmo documento, assinado pela mãe de Aécio, especifica-se que a Bogart & Taylor abrirá conta no LGT, que os recursos dessa conta serão geridos em dólares americanos – e que a conta poderá ser movimentada por Inês Maria e Andréa. Ou seja, nada indica que tenha sido uma operação "sem conhecimento da família". Muller aparece como contato da Bogart & Taylor, com a seguinte ressalva: “(Contactar) Apenas em casos de extrema necessidade”. Semanas depois, Muller viaja a Liechtenstein. Encontra-se em Vaduz com os advogados que cuidam das contas no LGT. Recolhe as assinaturas deles, os recibos do LGT e, logo depois, traz a papelada ao Brasil. Guarda-as na pasta amarela.


LGT, um banco de lavagem


Quatro anos após a abertura da conta, os advogados ligados a Muller pedem que Inês Maria assine mais papéis. Agora, a família Neves demonstra cuidado. Em 16 de março de 2005, Muller explica aos advogados, por fax, por que Inês Maria não quer assinar os documentos restantes: “A proprietária (Inês Maria), por ocasião de minha visita no dia de ontem, declarou que ela não quer assinar nenhum documento no Brasil. (…) Se a assinatura das declarações que me foram enviadas tiver que ser de imediato, ela prefere fechar a fundação (...) Em poucos meses, ela (Inês Maria) estará em Paris e me prometeu informar a data da viagem e o local de permanência em Paris, para que o senhor possa enviá-la os documentos para assinatura”.


Meses depois, em 17 de novembro do mesmo ano, nada mudara. Por fax, Muller reforça aos advogados que Inês Maria prometera resolver as pendências somente quando estivesse fora do Brasil. “Infelizmente, a senhora (Inês Maria) ainda não assinou o formulário ‘declaração’. Ela sempre diz que pretende resolver essa pendência tão logo esteja em Paris. Mas seu esposo está atualmente doente e se encontra em cadeira de rodas, de forma que ela não pode viajar”, escreve Muller. Diante da demora de Inês Maria em assinar os papéis, ele parece resignado: “Continuarei tentando colher a assinatura dela, mas não tenho muitas esperanças”.


No dia em que a PF apreendeu os papéis na casa de Muller, a conta de Inês Maria no LGT registrava saldo de US$ 32.316,12. Dois meses após a operação da PF, Inês Maria finalmente “cancelou os procedimentos de criação da fundação”, nas palavras de seus advogados. De onde saiu o dinheiro depositado por Muller na conta de Liechtenstein? Os advogados dizem que Inês Maria pagou, embora não identifiquem a origem dos recursos nem forneçam comprovantes: “Ao longo de seis anos, o Sr. Norbert cobrou duas vezes, em 2001 e em 2005, da Sra. Ines Maria, honorários e taxas para a criação da fundação. O valor total dos dois pagamentos, feitos em moeda nacional, no Brasil, correspondeu, na época, a cerca de US$ 30 mil, uma média anual de US$ 5 mil. Em 2007, após protelar por anos a assinatura dos documentos faltantes, tomou a iniciativa de encerrá-lo para evitar que se mantivesse indefinidamente em aberto”.


Abrir uma conta em Liechtenstein e declará-la ao governo seria tão inusitado que não há registro público disso. O BC não pôde informar a Època o total de recursos enviados por brasileiros a Liechtenstein — uma informação que costuma ser pública. O montante, diz o BC, é tão pequeno que revelá-lo ameaçaria o sigilo bancário dos poucos remetentes. O LGT, que pertence à família real de Liechtenstein, é conhecido, no sistema financeiro internacional, como um porto tranquilo para dinheiro de origem duvidosa. Em fevereiro de 2009, dois anos após a operação da PF, Heinrich Kieber, um funcionário do LGT, fez cópia completa dos documentos de 1.400 contas hospedadas no banco. Vendeu-as aos serviços secretos da Alemanha e da Inglaterra – dois dos países com maior número de correntistas, que maior prejuízo haviam tido com a sonegação de impostos. Seguiram-se extensas investigações e a maior operação de combate à evasão fiscal nos dois países. Os dados foram compartilhados com outros países prejudicados, como França, Espanha, Itália, Grécia, Suécia, Áustria, Austrália, Nova Zelândia, Índia, Canadá e Estados Unidos. Houve investigações em todos e prisões na maioria. Até a Lava Jato, o Brasil não pedira acesso aos dados.


Num depoimento ao Senado americano, ainda em 2009, Kieber deu detalhes de como clientes são orientados pelo LGT a proceder, de maneira a enganar as autoridades. “O LGT orientava seus clientes a não contar a ninguém sobre a existência dessas entidades (fundações), incluindo advogados ou familiares que não fossem beneficiários do patrimônio mantido no bancos suíços”, afirmou Kieber. “As relações humanas podem não terminar bem, e o cliente se transformar em vítima de alguma chantagem.” Outra orientação, nas palavras de Kieber: “Não ligue para o LGT de casa, não ligue de casa nem do trabalho. Use apenas telefones públicos”. De acordo com o Kieber, o LGT só usava telefones celulares da Suíça e da Áustria, para dificultar o rastreamento das autoridades. Ele informou também que o LGT não se comunica com seus clientes por e-mail. “O fato de os clientes do LGT não precisarem do dinheiro escondido para despesas rotineiras ajuda a não ser detectado.”


A central bancária paralela


De posse do material recolhido e analisado pela PF, e ciente também das revelações do ex-funcionário do LGT, o Ministério Público Federal decidiu não aprofundar as investigações. Em 20 de abril de 2009, os procuradores Fábio Magrinelli e Marcelo Miller ofereceram denúncia apenas contra os três integrantes da família do patriarca Muller, que morrera recentemente: a viúva dele, Christine Puschmann (segundo os procuradores, ela assumira os negócios do marido) e duas de suas filhas, Christine Muller e Ingrid Muller. “A denunciada Christine Puschmann, agindo em conjunto com seu companheiro Norbert Muller, fez operar uma verdadeira instituição financeira informal, mas suficientemente estruturada, gerindo recursos de terceiros em larga escala. As atividades eram desenvolvidas com a captação, intermediação e aplicação de divisas pertencentes a seus clientes, pessoas físicas majoritariamente residentes no Brasil, em especial a partir da administração de contas mantidas no exterior, mais precisamente no LGT Bank, sediado em Liechtenstein, e no UBS Bank, sediado na Suíça, em notórios paraísos fiscais”, escreveram os procuradores. Eles afirmam que a família Muller atuava como uma espécie de “central bancária paralela”. Abriam e movimentavam contas em paraísos fiscais, sacavam dinheiro, depositavam dinheiro — e até distribuíam cartões de crédito, de modo a facilitar os gastos cotidianos dos clientes.


Segundo a denúncia, o material apreendido pela PF na casa de Muller, aliado aos diálogos telefônicos interceptados no decorrer da investigação, revela a existência de “mais de uma centena de contas vinculadas ao LGT Bank e ao UBS Bank que eram administradas pelo casal”. “Tem-se que a identificação das contas e de seus titulares a partir dos elementos carreados aos autos, todos harmônicos e complementares entre si, evidencia a dimensão do esquema ilícito posto em prática por Norbert Muller e Christine Puschmann, revelando a perenidade da sistemática, o longo lapso temporal em que executada, a expressividade dos valores envolvidos (…), tudo realizado à margem da fiscalização das autoridades brasileiras, sempre com o cuidado de se manter a clandestinidade dos negócios”, afirmam os procuradores.


E quanto aos clientes? Os procuradores acharam melhor transformar o caso de cada um num processo separado. A depender da cidade de residência do investigado, encaminharam fragmentos de provas a diferentes procuradores, que tiveram autonomia para decidir que providências tomar. Essa estratégia produziu resultados incoerentes com a denúncia do MP contra Christine Puschmann. Em Porto Alegre, os procuradores resolveram pedir a Liechtenstein acesso às contas dos investigados. No Rio de Janeiro, onde mora a maioria dos clientes, diferentes procuradores ofereceram diferentes entendimentos sobre como proceder, apesar de analisar iguais evidências. Houve casos de denúncia. E houve casos de pedido de arquivamento. Foi o que aconteceu com a família Neves.


Em 23 de fevereiro de 2010, o procurador Rodrigo Poerson — dez meses após seus colegas de andar na Procuradoria da República do Rio acusarem Muller de operar uma “central bancária paralela” — assinou despacho em que pede o fim das investigações sobre a conta da fundação Bogart & Taylor. (O MPF se recusou a fornecer cópia do parecer; Época teve que obter o documento na Justiça.) Nele, em três páginas, Poerson acolheu integralmente os argumentos da defesa de Inês Maria. E disse ser inviável conseguir a colaboração de Liechtenstein. Ele desconsiderou os documentos assinados por Inês Maria, que previam a abertura da conta, e a própria natureza das fundações em Liechtenstein — para criar uma fundação, é necessário depositar 30 mil francos suíços numa conta aberta em nome dela. Diante do parecer de Poerson, em 26 de fevereiro de 2010 o juiz federal Rodolfo Hartmann, do Rio de Janeiro, não teve opção senão arquivar o processo. Ele fez a ressalva de que, se o Ministério Público tentasse conseguir mais provas, reabriria a pasta amarela.