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sexta-feira, 12 de abril de 2024

O golpista alinhamento estratégico para as mentiras de Arthur Lira, Elon Musk e Bolsonaro para atiçar os fanáticos bolsonaristas em artigo de Jeferson Miola

 

'Ausência de regulamentação das redes sociais prejudica governo, instituições republicanas e a debilitada democracia, alvos da guerra suja', diz Jeferson Miola

Arthur Lira | Elon Musk | Jair Bolsonaro
Arthur Lira | Elon Musk | Jair Bolsonaro (Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados | REUTERS/Tingshu Wang | REUTERS/Ueslei Marcelino)

A guerra fascista aberta contra o STF e a democracia brasileira pode não ter sido combinada em todos seus detalhes, mas tem um alto nível de coordenação.

É notório o alinhamento estratégico das iniciativas de Bolsonaro, Elon Musk e Arthur Lira para a retomada da ofensiva política da extrema-direita brasileira em articulação com o fascismo internacional.

Em poucas semanas a conjuntura nacional deu várias cambalhotas.

A perspectiva de condenação e prisão do Bolsonaro e do núcleo central de lideranças fascistas –civis e militares– nunca esteve tão tangível como a partir do avanço do inquérito sobre as tentativas de golpe de Estado e de ruptura institucional.

Apesar disso, o bolsonarismo conseguiu sair da situação de defensividade política. A primeira e rápida reação para sair do canto do ringue político foi o ato de 25 de fevereiro na avenida Paulista, convocado “em defesa do nosso estado democrático de direito”, como Bolsonaro anunciou.

“Mais que um discurso, uma fotografia para mostrarmos para o Brasil e para o mundo a nossa união, as nossas preocupações e o que nós queremos: deus, pátria, família e liberdade”, disse.

ato de 25 de fevereiro organizou o centro estratégico do combate da extrema-direita no plano interno e em articulação com a internacional fascista. A bandeira da anistia e a denúncia para o mundo da “ditadura judicial no Brasil” são os motores desta estratégia.

A vitimização do multi-criminoso Bolsonaro como um “perseguido pelo sistema” alimenta a usina de narrativas mentirosas dos extremistas.

Além de conseguir manter a matilha fascista permanentemente mobilizada e engajada, esta narrativa desacredita e deslegitima os processos criminais que deverão culminar na prisão dele pela tentativa de golpe de Estado e, também, por vários crimes, como o roubo de jóias e bens da União, a falsificação da carteira de vacinas, condução da pandemia e muitos outros.

Nas últimas semanas, parlamentares e políticos bolsonaristas fizeram peregrinação nos EUA, na ONU, na OEA e participaram de encontros da ultradireita internacional [CPAC e outros] para disseminar esta versão delirante mundo afora.

A entrada em cena de Elon Musk com o ataque à Suprema Corte faz parte deste roteiro orquestrado.

O instituto Democracia em Xeque analisou a repercussão da ofensiva de Musk sobre o judiciário brasileiro e constatou que “houve uma articulação internacional coordenada, contando com a presença no Brasil” do jornalista ultradireitista Michael Shellenberger, “que divulgou e-mails internos trocados por funcionários do Twitter com questionamentos às determinações e às solicitações da suprema corte brasileira”.

Shellenberger articulou suas denúncias a perfis da direita radical, “entre eles o do general norte-americano Mike Flynn e dos políticos André Ventura, [do partido Chega] de Portugal, e Santiago Abascal, [do partido Vox] da Espanha, que prontamente entraram na pauta, endossando os argumentos de Shellenberger e Musk”, afirma o relatório.

O estudo identificou, “também, uma articulação coordenada de perfis brasileiros ligados à direita, em especial de parlamentares, que saíram em defesa de Elon Musk, com alegações de que Alexandre de Moraes e o TSE teriam ultrapassado limites durante o processo eleitoral de 2022. As lives realizadas no último fim de semana corroboram o achado. Em uma das lives, veiculada no canal de Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro aproveitou o espaço para convocar seus apoiadores para novos atos que ocorrerão em 21/04, no Rio de Janeiro”.

O instituto Democracia em Xeque reconstituiu a cronologia da armação extremista e demonstrou o balé sincronizado dos atores envolvidos [relatório aqui], que começou com a inusitada provocação de Elon Musk [6/4] na última postagem feita pelo ministro Alexandre de Moraes na plataforma X/twitter em 11 de janeiro passado, há quase três meses.

Ao clamor pela retomada da votação do PL 2630/2020, que institui a lei brasileira de liberdade, responsabilidade e transparência na internet, o presidente da Câmara Arthur Lira respondeu jogando no lixo o projeto e todo esforço de anos de discussão na sociedade e de tramitação no Congresso.

No lugar da votação do PL no plenário, Lira criou um grupo de trabalho para embromar a discussão e manter livre o território do vale-tudo e da barbárie extremista nas plataformas digitais.

A não-votação do PL 2630 é funcional para a estratégia daqueles que querem manter um ambiente livre e desimpedido para a continuidade da delinquência fascista na internet. Por outro lado, a ausência de regulamentação prejudica o governo, as instituições republicanas e a já debilitada democracia, que são alvos centrais desta guerra suja.

O Arthur Lira sabe de tudo isso. E por isso mesmo ele age como age, alinhado estrategicamente a Bolsonaro, Elon Musk e à extrema-direita brasileira e internacional na guerra fascista contra a democracia.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Xadrez da crise das democracias e a volta de Lula, por Luis Nassif

 

O papel de articulador, de Lula, ganhará enorme eficiência com o uso recorrente das redes sociais. Cada vez mais, será essencial que todos saibam o que todos estão fazendo, para que a reconstrução nacional ganhe consistência e visibilidade.



Peça 1 – os modelos de capitalismo

Os estudos do economista russo Sergey Glazyev são o que de melhor li recentemente, sobre a luta ideológica por trás da disputa Estados Unidos x China. Aqui, um resumo de suas ideias: “Xadrez da nova ordem mundial e do fim do império do dólar”.

São dois modelos capitalistas, ambos em torno das duas entidades centrais: a burocracia estatal e os bilionários, oligarcas ou o nome que se dê a essa articulação do grande capital. A diferença entre o modelo americano e o chinês se dá na maneira como os dois poderes hegemônicos se relacionam. Os demais atores são secundários, demais poderes de Estado, cidadãos, trabalhadores, empresas e setores fora do circuito do poder.

No modelo americano, há uma simbiose entre os dois grupos – a alta burocracia e as grandes corporações – , com as grandes empresas representando a extensão do poder do Estado. É comum a porta giratória – o alto funcionário indo trabalhar na empresa que ele regulava -, assim como a parceria nas grandes operações internacionais. Vide as relações com o Pentágono dos grandes escritórios de advocacia a quem a Lava Jato entregou as grandes estatais brasileiras. Ou a absoluta naturalidade com que se aceita que o mais radical falcão americano, o Secretário de Estado Antony Blinken, seja investidor da indústria de armas. 

Essa promiscuidade criou uma corrupção intrínseca ao modelo, que comprometeu irreversivelmente seu dinamismo, conforme se verá a seguir.

No modelo chinês há uma separação entre as duas estruturas, com a preponderância da burocracia estatal.

Peça 2 – as diferenças nos modelos de desenvolvimento

Em ambos os casos – nos EUA e na China – , o desafio consiste no modo de administrar o terceiro elemento, a opinião pública, uma entidade difusa, composta de consumidores, pequenas e médias empresas, movimentos e setores econômicos que não integram o bloco de controle, o grande capital. O desafio consiste em dividir as sobras do banquete de maneira a manter o terceiro grupo sob controle.

No modelo chinês, a legitimação se dá pela inclusão social e redução da miséria. Por isso, há foco na produção de bens, na economia industrial e na geração de emprego. No americano, há a preponderância do capital financeiro, com foco total no corte de custos. 

No modelo chinês buscou-se o crescimento como única maneira de incluir a população e legitimar o regime. No americano, com o modelo já estratificado, a emissão de moeda se dispersou em bolhas especulativas. A China cresceu; os EUA estagnou. E a disputa pela hegemonia global é tema para outro artigo.

Peça 3 – as diferenças no modelo político

Outra diferença – também decorrente desse jogo – é no modelo político: o Ocidente com a democracia imperfeita e a China com sua autocracia.

Numa autocracia, tudo depende da cabeça do ditador ou do grupo de controle. No caso da China, há uma autocracia esclarecida.

A democracia imperfeita tornou-se o símbolo do modelo ocidental pela óbvia razão de permitir um controle efetivo sobre o jogo político. Desde o século 19, há alianças entre o grande capital, imprensa, Judiciário e política, modelo mais previsível que a cabeça do ditador de plantão, ainda que aliado.

O capital se articula internacionalmente a partir dos centros financeiros centrais – em fins do século 19, a banca londrina; depois, Wall Street – em parceria com os capitais nacionais.

No século 20, a entrada dos grandes grupos internacionais no Brasil se deu com dois movimentos simultâneos: trazendo suas próprias agências de publicidade (influenciando a mídia) e contratando grandes escritórios de advocacia. E, obviamente, montando as parcerias com os grupos nacionais.

Os nacionais são relevantes para garantir o poder político e jurídico e identificar os grandes negócios públicos locais. 

A conquista do poder político depende da cooptação de um partido político, do financiamento de parlamentares e do apoio de três instituições democráticas essenciais: mídia, Judiciário e poder militar.

São a elas que recorre quando o ritmo da inclusão coloca em risco o controle do poder político. No Brasil esse pacto foi nítido nos golpes de 1954, 1964 e 2016.

A retórica política é sustentada pelos financistas (como eram denominados no final do século 19 os economistas de mercado). 

A retórica é a mesma de cem anos atrás:

  • Trata todas as benesses do mercado como se fossem princípios científicos universais.
  • No oposto, demoniza qualquer gasto social como populismo que impede o funcionamento eficiente da economia.
  • Mantém acesa a fantasia do pote-no-final-do-arco-íris, com a fábula da lição de casa. Se os sacrifícios propostos forem aceitos, o resultado final será bom para todos.
  • A cada ano de promessa não-cumprida, levanta o argumento de que o sacrifício foi insuficiente e relaxar a lição de casa significará desperdiçar todo o sacrifício anterior.
  • Fantasia os casos de sucesso individual, como se fossem disponíveis a qualquer um.

Peça 4 – a superexploração e a crise das democracias 

Quando exagera-se na superexploração, a reação contra o regime torna-se ampla e resultado – como no início do século – é a eclosão de formas alternativas de regime, como o nazi-fascismo e o comunismo. 

Os horrores da guerra trouxeram um período de bom senso, em que se procurou reduzir a superexploração do período anterior. Houve um controle maior dos fluxos financeiros, estabilidade nas moedas nacionais e investimento em desenvolvimento econômico. Foi o período de maior prosperidade da história moderna até a volta do velho modelo no governo Richard Nixon, com o fim do acordo de Bretton Woods.

Paradoxalmente, grandes personagens dessa revolução humanista foram cientistas brasileiros tratados como subversivos pelo regime militar – Celso Furtado, Paulo Freire, Josué de Castro, Anísio Teixeira (cujo modelo pedagógico serviu de base para a Coréia do Sul).

O modelo de desenvolvimento ocidental consolidou-se, então, em cima dos seguintes princípios:

  1. Ritmo lento e gradual de incorporação dos vulneráveis, de maneira a controlar as pressões das massas.

No caso brasileiro, o movimento é lentíssimo. Só agora a questão racial veio para primeiro plano. As cotas raciais não têm 15 anos e foram conquistadas a fórceps.  Os movimentos dos sem-terra ainda são criminalizados, assim como o dos sem-teto. Os direitos das mulheres só são reconhecidos em ambientes mais modernos.

  1. Políticas sociais superficiais

Direito à saúde, educação, segurança e alimentação deveriam ser conquistas universais. Riquezas do subsolo, exploração das terras, mercado interno deveriam ser tratados como bens públicos e as rendas derivadas distribuídas de maneira a permitir a universalização dos direitos. Nas democracias imperfeitas, sáo substituídos por placebos, políticas sociais restritas. Só a partir dos anos 2.000 o Brasil ousou políticas sociais um pouco mais amplas, desmontadas com o golpe do impeachment.

  1. Inclusão política lenta.

Apenas no final dos anos 80 houve a liberação que deu a conformação aos novos partidos políticos, permitindo pela primeira vez um partido de sindicalistas.

  1. Algumas pausas para redução da superexploração

Em geral, ocorrem após grandes tragédias ou grandes períodos de compressão social. Foi o caso da Constituinte brasileira após o período profundamente anti social da ditadura. Ou no período lulista, após a financeirização do período fernandista e das crises após-1999.

Peça 5 – a eterna República Velha

O aumento da desigualdade econômica, devido à extrema financeirização da economia, no período fernandista, e da crise pós-1999 trouxe ameaças concretas ao modelo. O interregno Lula foi uma bóia de salvação para a estabilidade política do país. Soube aproveitar o boom das commodities e, sem comprometer os ganhos do mercado, implementou políticas sociais eficientes, tirando o país do mapa da fome e abrindo espaço para formas democráticas de militância social – como o Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Sem Teto, os recicladores de lixo, as pequenas e microempresas – e algumas políticas desenvolvimentistas de sucesso relativo.

Foi movimento similar ao pré-1964, com um partido trabalhista ascendendo politicamente, um grupo de intelectuais humanistas, uma redução, ainda que tímida, das desigualdades sociais e movimentos se organizando para o jogo democrático. 

O resultado seriam políticas mais inclusivas, fortalecimento da democracia brasileira – com a inclusão política de novos grupos -, fortalecimento do desenvolvimento – com ampliação do mercado de consumo e redução da superexploração.

Não é por outro motivo que Lula se tornou um símbolo da paz mundial e da estabilidade democrática, inclusive nos mercados internacionais, à altura de um Mandela.

Se, em ambos os casos, 1964 e 2016, não havia ameaças ao regime – a não ser como retórica para a oposição -, e um arrefecimento da superexploração, essencial para a estabilidade do modelo, qual a razão dos golpes de Estado? Aí entra a faceta mais atrasada do país, a síndrome da República Velha. De um lado, o preconceito social arraigado, contra qualquer forma de trabalhismo. De outro, negócios! E um componente externo das grandes disputas geopolíticas globais, expresso na política anticorrupção da OCDE e do Departamento de Estado.

A “Ponte para o Futuro” – implementada por Michel Temer – nada mais foi do que o passaporte para os grandes negócios públicos e o desfecho de uma operação, a Lava Jato, que juntou os três grupos centrais de aliança do grande capital – mídia, Judiciário e Forças Armadas -, mais o Departamento de Estado americano.

A maneira como o Supremo Tribunal Federal convalidou o desmonte da Petrobras, perpetrado pelo Centrão, é uma das peças mais ilustrativas da irresponsabilidade institucional brasileira. Não analisou o papel da empresa no desenvolvimento tecnológico do país, nas cadeias de produção, na segurança energética, no desenvolvimento de novos setores. 

O mesmo ocorreu com a reforma trabalhista, na qual se quebraram as pernas dos sindicatos e das ações trabalhistas. Em vez de uma modernização da legislação, necessárias para as novas formas de contrato, o STF enfraqueceu radicalmente a representação trabalhista em uma fase de tecnologias eliminadoras do emprego.

Mais que isso, graças a “iluministas” como Luís Roberto Barroso, houve o fortalecimento quase irreversível da ultradireita, da anticiência, da apropriação do orçamento público pelo Centrão e da ameaça recorrente a golpe de Estado por um presidente ligado aos porões da ditadura.

Peça 6 – a radicalização como apelo político

Nos próximos anos, haverá dois desafios pela frente. O primeiro, o de tirar o país das mãos do crime organizado. O segundo, o de administrar uma agenda de conciliação.

Não será fácil.

O fracasso da democracia, expressa no golpe do impeachment, fortalecerá enormemente o discurso radical da esquerda. E a crise internacional impedirá o jogo do ganha-ganha que marcou o primeiro pacto do lulismo. 

Depois do período de carência, haverá enorme pressão sobre o governo, não apenas pelos conservadores, mas também pelos progressistas.

Lula já se impôs dois desafios: tirar o controle do mercado sobre a política econômica e colocar o pobre no orçamento. Não é tarefa trivial, mas não basta. O caminho a ser percorrido será o do aprofundamento da democracia em todos os níveis. 

A construção das políticas econômicas terá que ser amplamente participativa, para poder consolidar o grande pacto nacional.

A economia industrial terá que retomar os grandes pactos entre setores industriais e centrais sindicais. Na gestão da economia, entender o país como uma federação e os municípios como os entes federados centrais. Terá que convocar fóruns de secretários do planejamento, da educação, da assistência social na formulação das grandes políticas públicas.

As pequenas e micro empresas têm que ser prioridade, através da articulação do Sebrae com institutos de pesquisa e com grandes empresas, a exemplo do Movimento Empresarial pela Inovação. As políticas sociais precisam incorporar a tecnologia social desenvolvida pelo MST e MTST.

O descrédito a que a democracia foi jogada pela ação conjunta do Judiciário-Mídia-Forças Armadas-Congresso exigirá ideias claras e ações objetivas. Senão a polarização se tornará irreversível.

O papel de articulador, de Lula, ganhará enorme eficiência com o uso recorrente das redes sociais. Cada vez mais, será essencial que todos saibam o que todos estão fazendo, para que a reconstrução nacional ganhe consistência e visibilidade.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Os disparatistas e o paradoxo da ignorância que se acha lúcida, por Lucas Kölln

 

Peculiar espécime troca, invariavelmente, a coerência pela gritaria. Acredita que “atitude” suplanta ideias. Inverte a máxima de Sócrates: não sabe que nada sabe — por isso, tem certezas agudas, e fazem disso o combustível para barbáries

Já perceberam como as coisas mais estapafúrdias são quase sempre ditas com uma certeza inabalável? Terraplanistas seguram réguas entre a câmera do celular e o horizonte e declaram sem titubear que estão certos. Teóricos da conspiração, embora operem levantando dúvidas, falam delas como se fossem a prova cabal sem tremer a voz uma vez sequer. Se lêssemos em voz alta a manchete das fake news que recebemos naqueles grupos sem-vergonha de WhatsApp, a entonação que elas requereriam é a de juiz de filme, bem na hora em que ele profere a sentença irrecorrível.

A segurança deles todos é assombrosa!

Há quem chame a retórica de “a arte de bem falar” e os que preferem “a arte de bem enganar”. Baseando-se nisto, obteríamos a seguinte taxonomia para os espécimes acima: ou são oradores eloquentes, ou espertalhões ardilosos. Damos com uma catalogação insuficiente. Se somos forçados a reconhecer que têm seus momentos de eloquência e que existem entre eles oportunistas e charlatões, colocá-los no patamar de Cícero ou tomá-los por leitores temporãos de Maquiavel seria distorcer a realidade tanto quanto eles, além de dar-lhes crédito demais.

Ora, como se pode explicar a origem de sua segurança?

Parto da hipótese de que, para responder a essa pergunta, temos de pensar a segurança primeiro como uma questão de atitude para então entendê-la nos seus fundamentos, digamos, gnosiológicos. A mecânica mesma dos momentos inglórios em que falam olavistas e afins conspira nesse sentido: o traço mais saliente daquela segurança é a ausência de qualquer sombra de dúvida nas afirmações; e em seguida questões de outra natureza entram em jogo, isto é, a dimensão propriamente lógica da coisa. A ordem “atitude > lógica”, importante dizer, é uma hierarquia de prioridade e não uma fatalidade cronológica: precisamos considerar a atitude primeiro porque ela tem mais peso, e não porque ela acontece antes.

A título de didática, tomemos um exemplo. Alguém diz: “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”. Afirmações desse tipo costumam vir acompanhados de um certo inflar de peito, reedição torta do “J’Accuse!”. Colocamos na citação acima o ponto final por convenção de redação, pois em contextos verbais, o mais adequado é quase sempre o ponto de exclamação. Aproveitando estarmos no terreno linguístico, peço que notem a sintaxe e a morfologia da afirmação: o modo indicativo é mera concessão à gramática, pois o tom pretendido mesmo é o imperativo; não há espaço para meias-palavras. Enunciações tais como “pode ser”, “há chance de que”, “é possível que” e afins não têm lugar aqui, afinal, não expressam a ênfase que a atitude requer.

Afirmações como as do parágrafo anterior exigem antes a contundência que a coerência. Leia-se, atitude antes de consistência.

Ter dúvidas ou ser cauteloso é entendido por esses disparatistas como estar nu, por isso é preciso que a linguagem não deixe entrever qualquer rachadura, nem sequer como uma salutar reserva intelectual tática. Ceticismo? Só se for em relação aos outros. A atitude precisa conter o essencial, porque vem antes de tudo e é quase tudo. Os disparatistas parecem às vezes supor que seus ouvintes são como os cães, que se guiam antes pela entonação do que pelo teor do que dizemos.

Entender essa importância da atitude ajuda a explicar a forma, mas ainda não explica de onde vem a segurança dos eruditos do almoço de domingo. É por isto que agora precisamos nos deter sobre a mecânica propriamente lógica desse fenômeno.

Uma das coisas que mais chama a atenção nesse sentido é o quanto destoam esses pseudoutos do grande panteão intelectual ocidental, ou da maior parte dele. É instrutivo que Sócrates adotasse como um de seus pressupostos metodológicos o “só sei que nada sei”; ou que Santo Agostinho tenha adotado postura humilíssima ao refletir sobre a natureza das coisas nas suas Confissões. De fato, é difícil não encontrar passagens aparentadas a de Sócrates no cânone do pensamento humano: os pensadores parecem ter estado sempre bastante dispostos a admitir que não sabiam tudo o que gostariam. Descartes declarou “Penso logo existo”, e não “Penso logo sei tudo. Ajoelhem-se perante minha sabedoria”.

Se esses luminares prontamente admitiram que podiam estar errados ou ter esquecido de algo, porque os tweeteiros de banheiro não o fazem? Gosto de chamar esse fenômeno de paradoxo da ignorância. Diferentemente dos grandes filósofos e pensadores, que tinham uma noção bastante razoável do que não sabiam, os disparateiros ignoram o que ignoram, e isso lhes concede uma certeza particularmente aguda. Posto noutros termos: por saberem menos, eles parecem saber mais.

Consideremos a Introdução da Crítica da razão pura, de Kant. São páginas tortuosas e cheias de senões, em que o filósofo busca acertar as contas com seus predecessores e limpar o terreno para construir a argumentação que virá em seguida.

O que ele faz ali é colocar as escoras do que sabe para poder suportar o peso do que não sabe: para poder argumentar com alguma solidez, Kant considerou aquilo que ignora através do estabelecimento dos pressupostos dos quais parte – inclusive para dar ao leitor as condições de refazer suas pegadas e testar suas conclusões por si próprio. A segurança e a autoridade que Kant conseguiu ter, portanto, estão calcadas em seu reconhecimento de que havia coisas que ele não sabia, e no seu confronto com elas.

Os disparatistas, por sua vez, não necessitam passar pelos apertos de Kant, e precisamente porque ignoram que ignoram. O “lado de lá” do conhecimento deles simplesmente não existe, e por isso não os constrange. Suas convicções não são forçadas à reflexão com o contraditório, por vezes nem mesmo com o real. Banham-se preguiçosamente no sol das certezas absolutas, porque no céu de sua lógica não há nuvem alguma.

Se você prestar atenção àquela afirmação de antes, “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”, vai perceber que, além de uma pausa no fim, onde encontrava-se o complemento “lá na Cochinchina” antes de ele cair em desuso, não há mais nada ali. Nada! Na superfície perfeitamente lisa dessas águas, que os pseudoutos tomam por plácidas por ignorarem a charneca ao redor, tudo é certeza. Donde a segurança.


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Rosana Pinheiro-Machado escreve sobre o poder das mentiras que sustenta Bolsonaro e estimula o fascismo através das Redes Sociais em artigo para o The Intercept



Na batalha das redes, a extrema direita ganha por W.O.

A grande mudança de paradigma político no século 21 foi impulsionada pela tecnologia. Mas a esquerda ainda não entendeu.

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Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil


ENQUANTO VOCÊ LÊ esta coluna, parte da rede bolsonarista de WhatsApp recebe aproximadamente 5 mil mensagens nos quase 2 mil grupos de apoio ao ex-capitão.
“A extrema direita ganha por W.O.”, quando há vitória de um time sem adversário. Assim Pedro*, expert em tecnologia e política, define a atual disputa ideológica entre direita e esquerda nas redes sociais. Ele segue sua explicação: “é como se fosse uma guerra aberta, na qual a direita vem com drone e bombardeio, e a esquerda joga um fogo de artifício para o alto para tentar demonstrar reação, sem exatamente entender que está numa guerra”.
Pedro se vale de muitas figuras de linguagem para explicar e dar sentido ao horror da caixa de pandora que tem em mãos. O último monitoramento realizado por sua equipe analisou 2.513 grupos de WhatsApp bolsonaristas, 93.886 usuários e mais de 5 milhões de mensagens conspiracionistas sobre o coronavírus compartilhadas desde fevereiro.
Eu acessei o software, sem preparo psicológico prévio, e fiquei enojada e atônita por alguns dias. Para pesquisadores que trabalham com big datae extrema direita, é normal lidar com uma quantidade imensa de dados desse tipo. Mas não é o meu caso. A sensação de ver a máquina do ódio funcionando a todo a vapor, segundo a segundo, me fez entender um pouco o que Pedro queria dizer com uma guerra sem adversário.
Pedro tem um vasto e respeitado currículo profissional na área de política e tecnologia, mas prefere manter sua identidade protegida para seguir nos bastidores sua luta contra a desinformação. Abrindo a caixa de pandora diariamente, ao mesmo tempo em que tenta dialogar com as principais lideranças do campo da esquerda no Brasil, o pesquisador tem uma visão bastante árida da fragilidade tecnológica do campo progressista. Para ele, as esquerdas têm uma dupla defasagem na disputa política-tecnológica.
Primeiro, uma parte da esquerda ainda não entendeu – e talvez não esteja disposta a entender – que a grande mudança de paradigma político no século 21 foi impulsionada pela tecnologia. Segundo, esse estado de inanição apenas reflete algo de fundo, que é uma falta de projeto e orientação para o futuro.
É claro que existem movimentos, mídias, ativistas, influenciadores digitais e parlamentares que se preocupam com o tema e têm grande impacto nas redes. Não se trata de ignorar o trabalho daqueles que, há alguns anos, estão tentando mudar esse quadro. O ponto é meramente reconhecer que esses esforços não chegam perto de compor estrategicamente um ecossistema de atores que se movem, mais ou menos de forma coordenada, num processo de disputa política propriamente dito.
Pedro relata situações em que desenvolveu projetos digitais para partidos e lideranças de esquerda. Sua frustração é, campanha após campanha, ver que o trabalho é muitas vezes interrompido após as eleições: “Não dá para parar. Esse é um projeto contínuo”.
Acreditar que basta ganhar a eleição de 2022 para mudar o quadro catastrófico em que nos metemos faz parte do autoengano generalizado e sintomático que acomete a esquerda tradicional há quase uma década.
Surgem manifestações coxinhas, a gente dá risada. Bolsonaro se coloca como candidato, a gente diz que ele não terá tempo de televisão e que o sistema político irá se regenerar em torno da polarização PT versus PSDB. Bolsonaro cresce nas pesquisas, é porque Lula está preso – sim, evidentemente, mas podemos pensar que não foi só isso? Bolsonaro ganha as eleições é porque levou a facada  – sim, esse foi um elemento desestabilizador, mas podemos pensar que não foi só isso?
Não se trata de ignorar os muitos golpes que a esquerda e o PT, em particular, sofreram. Mas é preciso também entender que a extrema direita vem se articulando nas mídias desde a virada do milênio. E essa articulação tem sido feito com propósito, tentativa de coordenação de diferentes vertentes e sistematicamente espalhando paranoia e pânico moral contra inimigos forjados.
Quando não entendemos que a vitória de Bolsonaro faz parte de um projeto muito maior, só nos resta esperar as pesquisas de aprovação do governo a cada semana e ficar agarrados naquelas que indicam alguma queda da base dos 30% do que seria o núcleo-duro bolsonarista. Resta-nos torcer para que o governo se autodestrua. Basta eleger alguns parlamentares e tentar não perder em 2022. Resta-nos acreditar que tudo o que aconteceu no Brasil foi fruto das fake news bolsonaristas produzidas no “gabinete do ódio”. Acreditamos que, ao prender seus agentes estratégicos, o núcleo-duro bolsonarista seria desestruturado.
Essa é uma visão limitada de como se articula a rede bolsonarista política e tecnologicamente. Pedro dá o exemplo da prisão de Sara Winter, que não tinha nenhuma menção no ecossistema de extrema direita. Após sua detenção, houve uma explosão de seu nome na rede, em uma onda de viralização de linguagem religiosa que pedia por orações por ela em mais de 1.031 grupos cheios de emojis de amém e linguagem de guerra espiritual.
A verdade é que pouco adianta regular as mídias e prender criminosos extremistas sem apresentar um projeto político e tecnológico alternativo a médio e longo prazo.
“Infelizmente, a rede de distribuição de informação do ecossistema é muito maior do que a operação da Polícia Federal foi capaz de identificar”, diz um relatório realizado pela equipe de Pedro, demonstrando que, para além dos grupos militantes declarados, essa rede atua também por clusters presentes em grupos de venda, pornografia e caminhoneiros.
Pedro sempre bate na tecla que a incompreensão de como funciona o ecossistema traz resultados negativos para a esquerda enquanto um campo de oposição. “Muitas pessoas pensam que basta acabar com o gabinete do ódio como se a rede bolsonarista fosse meramente uma estrutura de poder e financiamento vertical. A grande incompreensão é não entender que essa rede atua com suas próprias mídias e é muito mais autônoma, horizontal, autofinanciada do que se imagina”.
O gabinete do ódio – que precisa, sim, ser desestruturado –  é, portanto, consequência (e não apenas a causa) de um alinhamento de forças de articulistas e influenciadores outrora pulverizados. Acabar com esse ponto de organização não necessariamente mina os 18 mil outros domínios de divulgação política mapeados por Pedro.
É evidente que esse ângulo de olhar a realidade traz uma profunda angústia e uma sensação de impotência. A primeira coisa que nos perguntamos é como sair dessa. É possível que os ratos voltem para os esgotos depois de as comportas terem sido abertas? É possível regenerar um sistema putrefato que funciona livremente?
Em primeiro lugar, penso que é importante não perder de vista que nem tudo é vitória por W.O. do lado de lá. O professor especialista Fábio Malini, pioneiro no estudo de big data e política das redes no Brasil, comentou comigo recentemente que não podemos esquecer que o poder bolsonarista, atualmente, advém de uma máquina de propaganda governista, o que, a meu ver, enfraquece a espontaneidade e autenticidade do ecossistema.
Malini também destaca o fato que ideias progressistas estão ganhando espaço nas redes e no mercado editorial, citando Felipe Neto e Djamila Ribeiro, por exemplo, e que mais atenção pública tem sido dada ao trabalho de parlamentares de esquerda. O professor também mostra que as hashtags #antifa #antirracismo e #auxilioemergencial são exemplos de disputas narrativas que o campo progressista venceu nas redes.
Ambos os pesquisadores concordam que o anticientificismo de Bolsonaro é um ponto fraco. Quando a gente fala de esperança nas redes, ela vem da renovada atuação de cientistas pautando debates nacionais, os quais não apenas defendem o conhecimento técnico, mas também a democracia.
Buscando uma luz no fim do túnel, questionei Pedro se havia um ponto de abalo nesse ecossistema. Ele me disse que as mensagens de pessoas infectadas por coronavírus são um ponto importante de desestabilização. Começaram a circular mensagens de pessoas chorando, relatando sofrimento e morte, dizendo que não era uma “gripezinha”. Malini entende que isso afeta a classe médica e também os demais grupos apoiadores, produzindo um efeito negativo que não é instantâneo, mas tem “influência de longo prazo”.
Nada disso, contudo, impacta imediatamente a caixa de pandora bolsonarista, especialmente via WhatsApp. É por isso que, no curto e no médio prazo, é tão importante investigar e regular as mídias. Não se trata de uma salvação, mas um passo importante para impor limites no avanço da extrema direita, que até agora andou sem freios.
Quando conversei com o historiador Federico Finchelstein para minha última coluna, perguntei como e quando acabam regimes fascistas baseados em mentiras. Ele me respondeu que, olhando para o passado, o esgotamento se dá da maneira mais trágica: quando as pessoas começam a morrer. Essa é uma resposta que faz todo o sentido e encontra eco na própria política de morte bolsonarista, que agora atinge seus próprios apoiadores.
A experiência da extrema direita aponta para a formação de uma rede em que as pessoas se sentem incluídas no processo político.
Mas, em termos de ação política, essa não é uma resposta aceitável para o campo de oposição, que não pode esperar – e não tem esperado – que as pessoas morram.
A verdade é que pouco adianta regular as mídias e prender criminosos extremistas sem apresentar um projeto político e tecnológico alternativo a médio e longo prazo. A luta comunicacional contra a extrema direita é inglória e assimétrica porque os fascistas atuam por mentiras que tocam no âmago no medo – e o medo é um sentimento que mobiliza os indivíduos visceralmente. Mas é possível entrar nessa batalha de forma honesta mudando o modus operandi.
Por pelo menos quatro décadas, os gurus da extrema direita estudaram as táticas políticas da esquerda. Agora, está na hora de a esquerda fazer o movimento contrário, não para copiar os métodos sujos, mas para entender seu funcionamento.
A experiência da extrema direita aponta para a formação de uma rede em que as pessoas se sentem incluídas no processo político, se sentem atores ativos e não passivos no ecossistema bolsonarista. Isso já estava claro nas minhas pesquisas e de Lúcia Scalco com jovens no Morro da Cruz, realizadas em Porto Alegre em 2017. Os simpatizantes repassavam mensagens e criavam conteúdos voluntariamente no YouTube para espalhar em outras redes.
Há muito pouco disso no campo da esquerda tradicional, que usa o WhatsApp ainda de forma vertical, cadastrando números de telefone para passar informação de políticos e partidos unilateralmente. Também se disseminou a promoção de intermináveis lives, bastante explicativas do mundo e muito pouco participativas – e não raramente com a caixa de comentários do Instagram fechada. Por uma hora, o político x fala com o líder do movimento y – e há quem acredite que isso é disputa de redes. Esse é um modelo que está fadado ao fracasso.
A esquerda precisa já se ocupar das redes de forma mais propositiva, horizontal e articulada para formar um ecossistema inclusivo, que não fique permanentemente caçando a carteirinha de seus membros.
O campo tradicional da esquerda precisa se abrir, fomentar alianças amplas, ampliar as linhas de debate, formar novas lideranças e oferecer esperança, utopia e projeto no lugar do medo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

TV GGN: Felipe Nunes e a estratégia de Bolsonaro/Steve Bannon para as redes sociais


Diretor da Quaest Pesquisa mostra como Steve Bannon definiu um padrão internacional para a direita encarar o coronavírus
Jornal GGN

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sábado, 7 de setembro de 2019

O eterno fascismo: entenda suas bases estruturantes e conheça alguns antídotos, por Carlos Russo Jr.



O populismo qualitativo hoje é disseminado pela mídia e pelas redes sociais, locais onde a resposta e a participação de um grupo selecionado de manipuladores ao estilo Goebbels  podem ser apresentadas e aceitas falsamente como “a voz do povo”.


do Espaço Literário Marcel Proust

O eterno fascismo: bases estruturantes e antídotos

por Carlos Russo Jr.

Umberto Eco surpreende-nos ao dizer que aspectos fascistas podem ser encontrados desde a Grécia Antiga. Que no decorrer da História da humanidade, quer sob a forma imperialista ou nacional, trajando roupagem militar ou civil, o fascismo nos ronda permanentemente. Também conclama ser nosso dever, enquanto homens livres, de desmascarar o fascismo e apontar sempre o dedo em riste para cada uma de suas formas, em qualquer lugar onde apelos fascistas surjam à luz do dia. E, nesse sentido, a liberdade e liberação transformam-se em tarefas diuturnas, das quais não poderemos descurar sob a pena do avanço da barbárie.
Eco avança na análise dos diversos formatos e manifestações fascistas que, de tão antigas, criaram seus próprios arquétipos, impregnando-se nas mais diferentes estruturas sociais. Lista-nos quatorze arquétipos fascistas:
1. O culto da tradição como uma das bases do fascismo: O tradicionalismo, ainda mais velho que o fascismo, possui como paradigma que todas as mensagens originais contêm pelo menos um germe de sabedoria, um quê de alguma “verdade” dita primitiva. Com isso ele visa claramente estabelecer uma impossibilidade para avanços no saber! A verdade já foi anunciada de uma vez por todas e somente nos restaria continuar a interpretar sua obscura mensagem.
De todo modo, ao cultuar a tradição o fascismo o realiza de uma maneira sincrética. Apanha conceitos de doutrinas e ideologias diferentes, municiando-se da artificialidade dessa reunião de doutrinas mesmo que teoricamente incongruentes entre si. Logo, é inerente ao fascismo tolerar contradições que são intrínsecas a cada momento histórico em que ele se apresenta.
2. O tradicionalismo como recusa da modernidade: Se por um lado os fascistas adoram a tecnologia, por outro, o seu elogio da modernidade não passa de coisificação, dado que são adoradores de máquinas, não de ideias. No século XX, a recusa do modernismo camuflou-se com a condenação do modo de vida capitalista (Mussolini, na Itália). Acontece que esta condenação era tão somente uma roupagem, urdida em conjunto com os grandes capitalistas, já que se tratava de afastar o “fantasma” do comunismo.
O fascista do século XXI opõe-se até mesmo ao iluminismo e à idade da razão, vistos como pontos de partida para a “depravação” moderna. Por este caminho, o arquétipo fascista esteia-se no irracionalismo.
3. Culto da ação pela ação: Trata-se de um fruto necessário do irracionalismo. A ação torna-se bela em si e deve ser realizada sem qualquer reflexão. O fascismo de ontem, de hoje e de sempre odeia “a cultura”, dado ser ela em si uma atitude de crítica. A suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi e será um sintoma do fascismo.
4. O banimento da crítica: Na medida em que o espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal da modernidade, para o fascismo a crítica é sempre lida como desacordo ou traição, não importa o partido político em que o viés fascista se manifeste.
5. A diversidade: Quando o fascismo cresce, ele busca o consenso desfrutando, exacerbando o natural medo da diferença. Logo, é essência do mesmo a xenofobia, a piores demonstrações de racismo, a fobia pelos excluídos sociais.
6. O eterno fascismo provém da frustração individual ou social. Característica dos fascismos na história tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por crises econômicas, pela humilhação política, pela falta de representatividade de seus agentes (os políticos), assustadas pela pressão de grupos sociais inferiores. E essa ampla classe média consisti e consistirá na maioria do auditório fascista.
7. Para aqueles que se sentem privados de qualquer identidade social, o fascismo lhes diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: terem nascido em um mesmo País. Esta é precisamente a origem do “nacionalismo”. O fascismo carrega o viés de que os únicos agentes que podem conferir autenticidade ao “nacional” serão os inimigos da nacionalidade, sejam eles internos ou externos. Daí a obsessão pelo complô, pelo golpe, pelas invasões de outros países, pelas guerras.
Para levar os “nacionalistas” aos extremos, os defensores do fascismo precisam se sentir sitiados e o modo mais rasteiro e facilmente sentido são novamente, a xenofobia e o racismo.
8Se os adeptos do fascismo sentirem-se humilhados pela riqueza ostensiva ou pela força do inimigo, a doutrina do “faccio” leva-o a supor que pode vencê-lo. É por isso que, os regimes fascistas se fortalecem com a visão de que os inimigos, quer os internos, quer os externos, sejam ao mesmo tempo, fortes e fracos demais.
9. Para o eterno fascismo não há luta pela vida, mas, sim, vida pela luta. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo, a vida uma guerra permanente.
10. O elitismo é típico de qualquer ideologia reacionária. No curso da história, todo elitismo aristocrático ou militarista implicou em desprezo pelos fracos. O fascismo prega um “elitismo tipo popular”. Logo, todos os cidadãos pertencem ao melhor dos povos, os membros dos partidos, são os melhores cidadãos. E todo cidadão deve pertencer ao partido do líder.
Embora o líder fascista saiba que seu poder não foi obtido por delegação mas conquistado pela pressão, por fraude e pela força, ele sabe igualmente que sua força se baseia na debilidade das massas populares, tão fracas que têm necessidade e merecem um dominador.
Por isso, ao se organizar o fascismo cria estruturas em que um líder despreza seus subordinados, do mesmo modo em que cada subordinado é desprezado pelo chefe. Isto reforça o “elitismo de massa.”
11. Cada membro de uma organização fascista é educado para tornar-se um “mito”um “herói”, um ser exemplar. No fascismo de sempre, o heroísmo é norma, na justa medida em que este culto se liga a outro: o da morte! O fascista espera, impacientemente, sua própria morte e enquanto esta não chega ele assassina e estimula o assassinato “banal” de outros mortais.
12. Como tanto a guerra permanente quanto o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o fascista deriva a sua vontade de poder para jogos sexuais. Aí estão as origem do machismo, da intolerância para com os homossexuais, a base de uma “cultura” de estupro e instrumentalização dos seres imediatamente inferiores ao macho: a mulher.
13. O populismo qualitativo: No populismo qualitativo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e o “povo” é concebido como uma entidade de personalidade monolítica, que somente expressa uma vontade comum a qual tem em seu líder o único intérprete.
E os cidadãos, tendo perdido o poder de delegar não agem mais, sendo chamados exclusivamente para assumirem o papel de “povo de massa”. O populismo qualitativo hoje é disseminado pela mídia e pelas redes sociais, locais onde a resposta e a participação de um grupo selecionado de manipuladores podem ser apresentadas e aceitas como “a voz do povo”.
O fascismo, em virtude de seu “populismo qualitativo” opõe-se aos “pútridos partidos parlamentares”. Por isso, cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade democrática, pode-se sentir nele o cheiro do fascismo.
14. A utilização de uma linguagem empobrecida: O fascismo fala sempre uma nova língua, língua onde o léxico é pobre, a sintaxe elementar, tudo é simplificado e “popular”, um excelente instrumento voltado a limitar o surgimento de qualquer tipo de raciocínio complexo ou crítico.
Antídotos antifascistas:
Listar alguns antídotos contra o eterno fascismo não é difícil. Torná-los prática política, educacional, constitutiva de uma sociedade, estas são as questões cruciais.
Um desses contravenenos, talvez o mais importante, seria o pensamento crítico, a reflexão sobre o próprio pensar, a formatação de um pensamento modesto e, finalmente, a popularização do pensar filosófico, por si só questionador.
Buscar a razão sempre, dado que o problema da irreflexão é que aqueles que se conduzem por códigos e regras são os primeiros a aderir e a obedecer, o caso da maior parte de forças militares, paramilitares e policiais. Aquele que não pensa por si mesmo possui um eu que não fundou raízes, é um ninguém. São seres humanos que se recusam a serem pessoas.
No entender de Jaspers, ser ninguém é pior que ser mau; esse ser ninguém se revela inadequado para o relacionamento com os outros, porque os bons e os maus são, no mínimo, pessoas. É isto que faz da banalidade do mal, do fascismo, o pior dos males: espalha-se rapidamente sem necessidade de qualquer ideologia, ou apesar de qualquer que seja o viés ideológico.
Finalmente, resta-nos A REVOLTA. Voltaremos a ela na próxima postagem.