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segunda-feira, 16 de março de 2020

Coronavírus, ou quando os fatos permitem ver o valor da ciência ante a estupidez de terraplanistas, neoliberais, fundamentalistas, trumpistas e bolsonaristas, por André Mota Araújo



Coronavírus, a vingança da ciência contra os terraplanistas, por Andre Motta Araujo

O Coronavírus vai derrubar mundialmente a financeirização especulativa das economias porque agora SÓ O ESTADO PODE SALVAR SETORES E EMPRESAS.

Coronavírus, a vingança da ciência contra os terraplanistas

por Andre Motta Araujo

Os Trump do mundo tiveram que parar sua luta inglória contra a CIÊNCIA e apelar para essa inimiga, não é possível combater o novo vírus com twitters e xingamentos. Trump baixou a crista, continua a chutar irrealidades e bobagens, mas teve que abrir espaço para infectologistas e epidemiologistas no seu palanque permanente. O NEGACIONISMO CIENTÍFICO não vai combater o vírus que pegou em cheio os populistas de extrema direita pelo mundo.
Nos EUA, Trump, desde seu primeiro ano de mandato, cortou drasticamente as verbas do CDC, o Center for Desease Control, órgão do governo federal para controle de epidemias, reduziu seu pessoal em 80% e agora o Centro vai ser fundamental para o controle do Coronavírus, Trump está sendo cobrado por isso e não tem resposta convincente.
No Brasil, o mesmo aconteceu com a Fundação Oswaldo Cruz, o célebre Instituto Manguinhos, centro de referência internacional na pesquisa e produção de vacinas contra epidemias, que os bolsonaristas chamam de “antro de comunistas”, agora como fica?
O CORONAVÍRUS VAI DERRUBAR GOVERNOS
Governantes de várias latitudes estão sendo testados ao enfrentar essa crise e nesse teste muitos não passarão e serão derrubados. Há uma notória falta de liderança global no tratamento da crise sanitária, o Secretário Geral da OMS parece fraco para essa situação, Trump está escorregando hora a hora, o G-7 não funciona mais porque Trump implodiu o mecanismo permanente de coordenação dos grandes países, a crise está sendo tratada a nível nacional, cada País faz uma abordagem sem consultar outros, Trump suspendeu os voos à Europa sem avisar os governos europeus. Por causa dessa falta de sincronização, os custos serão mais altos e o tempo de enfrentamento vai  ser maior, todos olharam para os EUA para ver liderança e não encontraram, Trump agiu isoladamente para proteger SÓ os EUA, mas a crise é global e só pode ser enfrentada por um abordagem mundial, o vírus não tem fronteiras.
RENASCE O ESTADO NECESSÁRIO, ENTERRA-SE A NOÇÃO DE ESTADO MÍNIMO DOS GUEDES E NELIBERAIS
Essa crise só pode ser enfrentada por ESTADOS e não pela iniciativa privada. A noção neoliberal de ESTADO MÍNIMO já estava sendo afastada desde a crise financeira de 2008, a academia econômica dos grandes países JÁ PROPUGNAVA PELO REFORÇO DOS ESTADOS PARA COMBATER A DESIGUALDADE, mas agora a crise sanitária acelera o ciclo de RENASCIMENTO DO ESTADO e pelo rebaixamento do “mercado” para seu lugar menor, de onde nunca deveria ter saído. “Mercado” não é solução para a pobreza, a doença, a desigualdade, as carências básicas de educação e saúde, as mudanças climáticas.
O Coronavírus vai derrubar mundialmente a financeirização das economias porque agora SÓ O ESTADO PODE SALVAR SETORES E EMPRESAS.
O Coronavírus enterra de uma vez o NEOLIBERALISMO DOS ANOS 70, esse mesmo que malucos estão querendo implantar no Brasil.
Crises sanitárias MOLDAM A HISTÓRIA, esta vai acelerar processos e remover barreiras, enterrar demagogos e mudar a política, como foi a Peste Negra, a Gripe Espanhola de 1918, a tuberculose dos anos 20 e 30, a poliomielite dos anos 40 e 50, o HIV dos anos 70, as epidemias estão no CENTRO DA HISTÓRIA.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O roubo do tempo individual, ou Cronofagia: a nova modalidade da perversidade capitalista



Cronofagia: o roubo do tempo, sono e ideias

  Nova fronteira do capitalismo: capturar as horas humanas – não mais no chão da fábrica, mas convertendo todo tempo livre em trabalho extra, consumo idealizado e burocracia. Acima de tudo bloquear o ócio, a reflexão e a possível dissidência


Por Giuseppe Luca Scaffidi, em Dinamopress | Tradução: Antonio Martins

Quando Paul Lafargue escreveu seu manifesto Le Droit à la Paresse (O Direito à Preguiça), entre 1880 e 1883, primeiro como exilado em Londres e depois em vestes de prisioneiro político, no interior de uma cela úmida do cárcere de Sainte-Pélagie, em Paris, a classe operária europeia vivia em uma situação que, hoje, chamaríamos de aprisionada. O preço a pagar pela reivindicação de um ilusório e venenoso “direito ao salário” era a aceitação de condições de trabalho massacrantes, que, de fato, afogavam na mais completa escravidão. Estava entre os regimes de servidão voluntária plenamente normalizados e institucionalizados por aquela que o pensador francês definia profeticamente como a “religião do capital” – ou seja, a pretensa necessidade de um capitalismo que, já naquele tempo, tentava de todas as maneiras impor-se como lei natural e universal.

Um dos fundadores do Partido Operário Francês, esposo de Laura Marx e genro de Karl, Lafargue logo compreendeu que os avisos de tempestade descritos por seu sogro em O Capital, e ainda antes por Engels (seu padrinho de casamento) em A Situação da Classe Operária na Inglaterra (1845) haviam se transmutado numa realidade dramática. Para percebê-lo, bastava observar o que ocorria do lado de dentro dos portões de entrada das fábricas. O proletariado industrial parisiense – mulheres, homens e crianças – trabalhava, em média, doze horas por dia. Longe da “zona de conforto” da capital, nas províncias e no campo, a predação de tempo podia chegar a picos de 14 horas. Na Itália, o quadro era ainda mais dramático, principalmente em razão de uma cultura sindical mais escassa. O dado mais preocupantes relacionava-se à situação das mulheres empregadas nas fábricas: nas fiações piemontesas, centenas de operárias passavam até 16 horas ao dia com as mãos imersas na água fervente, obrigadas a permanecer em espaços restritíssimos, a inalar vapores nauseabundos, a suportar condições higiênico-sanitárias péssimas e a conviver com um abafamento insustentável (para favorecer a fiação da seda, as janelas deviam permanecer fechadas, do contrário o ar poderia danificar a trama), sacrificando a própria saúde por 45 centavos ao dia.

O proletariado europeu aceitava passivamente os abusos dos patrões, que impunham suas próprias condições graças a uma posição contratual de preeminência absoluta e a um movimento operário ainda pouco maduro. Privado de uma consciência de classe ele, de um lado, fez do “direito ao trabalho” o núcleo essencial do próprio manifesto reivindicativo; de outro, raramente parecia interrogar-se a fundo o real significado daquele direito.


É a partir da observação deste exército de assalariados nos porões, da escuta dos gemidos de desespero dos novos subjugados das fábricas e escritórios, que Lafargue escreveu O Direito à Preguiça, colocando ao centro de sua reflexão a necessidade de recuperar algo muito similar ao conceito latino de otium: para romper as grades da prisão, os subproletários deveriam reapossar-se daquele tempo que os antigos dedicavam ao estudo, ao cuidado com o espírito e à estruturação do pensamento. Uma dimensão do viver de valor inestimável, que a fé cega no produtivismo havia rapidamente restringido à damnatio memoriae [condenação da memória]. Apenas recuperando o próprio tempo, a classe operária poderia identificar um antídoto eficaz à alienação, cuidando do desenvolvimento das potencialidades humanas que a dominação capitalista reprimia ao som do trabalho por peças e dos prêmios de produção.

O convite a lutar pela recuperação do sacrossanto direito ao ócio e a lançar forte desconfiança nos diálogos de um capitalismo predatório, que na maior parte das vezes apresenta-se diante de nossos olhos de forma mutável e amistosa, com “faces que asseguram o progresso, a liberdade de expressão e de entretenimento” aparecem com força também nas linhas de Cronofagia. Come il capitalismo depreda il nostro tempo [Cronofagia: como o Capitalismo devora nosso Tempo], último ensaio de Davide Mazzocco, publicado pela D Editore em 2019. No transcurso de suas páginas, a força disruptiva da mensagem de Paul Lafargue se renova com toda a sua brutal atualidade, lembrando-nos como, agora ou há um século e meio, as tramas do capitalismo permaneceram, em essência, inalteradas.

O Zeitgeist dominante é o mesmo: temos pouquíssimo temo a dedicar a nós mesmos. O que mudou foram os mecanismos voltados a fazer estoque dos tempos mortos. Tornaram-se mais sutis e imperceptíveis. Diferente do que ocorria no tempo de Lafargue, Marx e Engels, o apetite “cronófago” do capital não investe tanto sobre o horário de trabalho, mas também (e sobretudo) sobre a esfera do tempo livre, objeto de uma campanha de colonização cada vez mais agressiva. Em consequência, um pensador como Lafargue podia conceder-se o “luco” de focalizar apenas o que ocorria no interior das fábricas, uma análise crítica das dinâmicas atuais do capitalismo tardio exige projetar o olhar também ao que sucede além dos locais de trabalho.

A reflexão de Mazzocco retoma a obra do ensaísta francês Jean-Paul Galibert. Este, em seu manifesto Cronòfagi (2015), cunhou pela primeira vez o termo “cronofagia”, configurando-o como uma das bases de sustentação do hipercapitalismo contemporâneo. Segundo Galibert, o indivíduo é “simultaneamente uma quantidade de tempo disponível para a cronofagia e uma quantidade de dinheiro disponível para o hipercapitalismo. Esta regra ergue-se em condição para nossa existência, ao ponto de se tornar uma nova condição humana. No ideal de disponibilidade, o ser humano reduz-se a um jazida dupla de dinheiro e de tempo a explorar sem limites. Porém, é necessário estabelecer uma relação de equivalência entre o tempo, do qual ele é privado, e o dinheiro, que lhe é tirado”. Retomando e atualizando o trabalho de Galibert, Mazzocco volta a aprofundar o tema da cronofagia, o braço armado de que o hipercapitalismo serve-se para autoperpetuar-se, fagocitando o tempo das massas e procedendo a uma progressiva erosão do tempo da inatividade e, em consequência, da não rentabilidade.

Faz já vinte anos que Naomi Klein evidenciou, em seu No Logo, como os produtos a desenvolver no futuro serão aqueles não apresentados como “mercadorias”, mas como “conceitos”, explorando do trabalho imaginário dos consumidores por meio da criação de uma mitologia empresarial que possa “infundir significado aos objetos colocando-lhes simplesmente o nome de uma grife”. O paradoxo do intercâmbio cronófago reside mesmo neste curto-circuito lógico: “trabalhar e depois pagar, àqueles para os quais trabalhamos, o preço justo do nosso trabalho”. Uma vez exaurido o “verdadeiro” uso, o indivíduo passa a quase totalidade do próprio “tempo livre” vestindo as fantasias de consumidor e, por meio da própria imaginação, realiza inconscientemente uma segunda tarefa profissional em favor do capital, in primis desejando fortemente um certo tipo de bem (um carro, um notebook, um smartphone) e contribuindo, de tal modo, a aumentar o valor econômico: em segundo lugar, pagando o sobrepreço da sua própria mente contribuiu a estruturar:
Se a quantidade de tempo que os indivíduos deveriam consagrar à “preguiça” de memória lafarguiana – e que, ao invés disso, é sacrificado no altar do consumo – representa o primeiro âmbito de colonização do hipercapitalismo, outro objetivo estratégico de valor absoluto é constituído da ocupação do único espaço em que ainda é permitido permanecer pessoa, e não consumidor: o sono.
Não por acaso, uma outra influência literária muito presente em Cronofagia é um ensaio de 2015, Capitalism 24/7 – Il capitalismo all’attacco del sonno [Capitalismo 24/7 – o sono sob ataque do sistema]. O autor, Jonahthan Crary, evidencia como uma necessidade biológica fundamental entrou em claro contraste com as exigências voltadas a alcançar a distopia de um capitalismo 24 horas por dia, 7 dias por semana, uma ucronia que só poderia ser animada por zumbis sonâmbulos e em dependência perene do consumo.

Retomando Crary, Mazzoco evidencia como, ao longo de um século, o tempo que os indivíduos dedicam ao sono reduziu-se abruptamente: das dez horas por noite, do início dos anos 1900, às oito da metade daquele século e à média tual de cerca de seis horas. Não é à toa que o executivo-chefe da Netflix, Reed Hastings, definiu, durante uma conferência em Los Angeles, em 2017, o sono como o principal competidor de sua plataforma. Sua observação é muito verossímil. O tempo que passamos dormindo está protegido de todas as necessidades induzidas artificialmente, que aplacam os apetites cornófagos do hipercapitalismo. Uma zona de imunidade cuja fruição, cada vez mais frequentemente, tendemos a subestimar: o tempo que os indivíduos deveriam dedicar ao sono acaba, cada vez mais engrossando os lucros da indústria do entretenimento, através de sessões bulímicas noturnas de bingewatching [maratona insone para assistir a seriados]. Compras compulsivas na Amazon ou despesas improvisadas nos tantos hipermercados abertos 24 horas que proliferam, contribuindo à criação de espirais gigantes de precariado no Ocidente, símbolo de “progresso”. Abater a necessidade humana de fechar os olhos por um terço dos dias é, provavelmente, o objetivo estratégico mais importante que a economia de mercado pretende perseguir nos próximos anos.
Como evidenciado em Crary:
“o sono estabelece o problema de uma necessidade humana que pode ser satisfeita apenas em um certo intervalo de tempo e não pode, portanto, ser dominado ou subjugado a uma máquina para gerar lucros, oferecendo-se assim como uma exceção incôngura, uma verdadeira área de crises no âmbito da atual globalização”.
Um ponto posterior de reflexão oferecido pelo ensaio de Mazzocco é o que concerne o tempo que, dia a dia, é dispendido pela burocracia. Há meio século, os tecno-otimistas impuseram a própria narrativa sobre o poder redentor da informatização. Ela teria se convertido em libertadora da “escravidão do papel e dos atrasos dos processos de tratamento de dados”. Apesar das previsões entusiásticas, a simplificação burocrática está se tornando um mito: basta defrontar com qualquer guichê da administração pública para perceber que a tecnologia não resolveu o problema mas, em determinados casos, contribuiu para ampliar as barreiras.

Como David Graeber evidenciou, em Burocracia (citado explicitamente por Mazzocco no terceiro capítulo de seu livro), no estágio atual “cada um de nós sabe que deverá aprender a fazer o trabalho que, em outra época, faziam os agentes de viagem, os intermediários financeiros e os comerciantes”. Graeber sublinha como, paradoxalmente, a hiperburocratização de nossa sociedade ocoreu no período imediatamente posterior à queda dos aparatos da burocracia socialista.

Aqueles encargos que, até há algumas décadas, pesavam sobre as costas de profissionais formados adequadamente, atualmente pesam sobre todos os indivíduos. Para um professor universitário, tornou-se inevitável dedicar sempre mais tempo à correta gestão das bolsas de estudo, assim como para um pai é perfeitamente normal é agora perfeitamente normal dedicar horas e horas na compilação de módulos infinitos, para inscrever seus próprios filhos em uma escola digna. As horas que empregamos para nos alienar das exigências de uma burocracia que “nos transformaram em funcionários administrativos em tempo parcial e em secretários de nós mesmos” são horas roubadas do desenvolvimento de nossas potencialidades. Os labirintos burocráticos nos transformaram em uma massa indistintas de autômatos insatifeitos, ocupados, preocupadíssimos e esgotados.
O ensaio de Mazzocco, por meio de uma linguagem deliberadamente não acadêmica e de referências contínuas a histórias próprias do quotidiano do autor (como aquele em que é obrigado a enfrentar filas intermináveis nos correios, para obter a isenção de uma taxa ferroviária), realiza perfeitamente sua intenção. Ele quer conferir ao leitor a consciência de uma contemporaneidade dramática, que os poderes que governam nossa sociedade tendem a normalizar cada vez mais. Para tanto, empregam uma narrativa complacente, voltada a tornar desejável um mundo em que o conceito de otium é, agora, pouco mais que uma fotografia desbotada.

Sobre o tempo de leitura, o próprio Mazzocco nos tranquiliza, na quarta capa do livro: 594 minutos…

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Fascismo... Do ódio ao pobre ao ódio aos ricos, por Fernando Horta




Na Alemanha de Hitler, este momento se dá a partir de 1938, quando o Führer vai concentrar ainda mais poder, exterminar opositores e acelerar a preparação para a guerra.

Do ódio aos pobres, ao ódio aos ricos, por Fernando Horta

Já está muito claro que o autoritarismo só pode existir com a conivência das instituições cuja missão principal é exatamente detê-lo. É quando o judiciário e a imprensa se unem contra o que julgam “uma ameaça comum” que o autoritarismo surge. Em países com imprensa independente e profissional ou com um judiciário institucionalmente impessoal, limitado totalmente pela lei e submetido à prestação de contas para com a sociedade, o autoritarismo não vinga.
Ocorre que, sob certas circunstâncias, a classe média e as elites econômicas se unem contra “um inimigo comum”. E dado que estas instituições – imprensa e judiciário – são majoritariamente formadas por homens brancos e de classe média urbana, tais homens passam a “fazer vistas grossas” aos abusos. Desde que contra os inimigos políticos, é claro. É o juiz que não pune o policial que tortura e mata, é o procurador que não indicia fulano, porque “pode ser um aliado” ou ignora provas contra sicrano. São, portanto, as instituições que abrem as portas para o autoritarismo e, mais precisamente, para o tipo de autoritarismo que chamamos de fascismo.
O acordo tácito é claro. As instituições fecham os olhos para os abusos, vilipêndios e absurdos e, em troca, o fascismo se joga contra os opositores políticos da classe média e do capital com fúria. Este acordo funciona bem no início. O capital consegue a destruição das proteções sociais, acaba com sindicatos e outras coletividades que buscam representação e, assim, faz parceria com o fascismo pela “libertação do país”. Até as palavras parecem ser as mesmas. O capital pede o “livre mercado” e o fascismo exige a “liberdade nacional” que, supostamente, esteve refém dos seus opositores políticos. Neste estado de coisas, a classe média e os pequenos empresários são levados a acreditar que o país “vai melhorar” e, por óbvio, que eles participarão do butim. Ocorre que, com o passar de um tempo muito curto, a situação econômica deteriora-se e as massas de manobra se dão conta que não serão convidadas para os churrascos com picanha.
O fascismo, aqui empoderado nas instituições e no Estado, fica então com uma escolha a fazer: ou aceita a dirigência do capital e, para conter o empobrecimento das classes médias, precisa aumentar a produção em escala global de forma gigantesca, gerando empregos cada vez mais mal pagos. Ou rompe com o capital e alia-se à classe média, absorvendo ainda mais o moralismo empastelado dos recalcados, e a violência vira regra social. Assim, em dado momento, o fascismo precisa escolher entre deixar de ser fascismo para tornar-se apenas um neoliberalismo escandalosamente agressivo ou manter-se fascismo e abrir mão do apoio político do capital em troca do apoio das instituições de uma classe média ressentida e violenta.
É neste momento que se passa do ódio aos pobres (que moveu todo o processo até agora) para o ódio aos ricos, que será a bandeira do fascismo daqui em diante. Passa-se ao Estado policialesco, sem nenhum respeito pelos direitos e sigilos civis. Tudo é crime. Tudo é “de interesse do estado”. Desde altos salários, até altos honorários e lucros, tudo serve para gerar o ódio aos que têm riqueza. Na impossibilidade de a classe média que apoiou e consubstanciou o fascismo de melhorar sua vida econômica, ela passa a perseguir aqueles que têm recursos.
Na Alemanha de Hitler, este momento se dá a partir de 1938, quando o Führer vai concentrar ainda mais poder, exterminar opositores e acelerar a preparação para a guerra. Há a ruptura com o capital internacional e com todo o capitalista alemão que não se submetesse aos desejos e ordens do ditador. Muitos empresários são presos, julgados e condenados à morte por “traição”, por “atentarem contra a Alemanha” ou por qualquer outra acusação que as instituições corrompidas quisessem lhe impor. A verdade é que o ódio que criou o regime, consumiu as populações mais pobres e viveu do extermínio das oposições precisa ser alimentado. Sem as oposições a quem odiar (por terem sido virtualmente exterminadas) o fascismo se volta contra os grupos que lhe deram apoio inicialmente.
Este é precisamente o momento que estamos vendo no Brasil. A ruptura entre Bolsonaro e o PSL é sintomática. Os liberais do PSDB já romperam “sem barulho”, por medo do retorno da esquerda, mas já se apresentam como uma oposição suave, com Dória e Huck. O fascismo vai exigindo mais, e a luta pelos dados da receita é o combustível que a lava a jato de Moro precisa para continuar incendiando o país. Com todos os sigilos quebrados, Moro – com sua proverbial imparcialidade – decidirá quem são os inimigos e quem são os amigos. Bolsonaro poderá continuar sua cruzada moralista, jogando nas fogueiras um número cada vez maior de pessoas. Inimigos, opositores, possíveis rivais e etc. todos serão queimados nas chamas do fascismo. O jatinho de Huck, a concessão da Globo e etc.
Para tentar evitar este fim, nos seus estertores, os liberais soltaram Luiz Inácio Lula da Silva. E o fascismo já respondeu com a rebeldia do TRF4. Basta uma fagulha para o executivo devorar a alta cúpula do judiciário e do legislativo e transformar o STF num órgão decorativo, seja pela indicação de membros fascistas, seja pela “depuração” dos atuais membros. Nas forças armadas este processo já está acontecendo, com oficiais constitucionalistas sendo perseguidos ou afastados e a banda podre fascista assumindo todos os postos de importância.
O preço da carne, o fim do ensino público, o aumento da gasolina, o aumento de impostos e a redução da demanda na economia brasileira NÃO será o que acabará com o regime fascista de Bolsonaro. Muito pelo contrário. Estes fatores apenas convidam o autoritarismo bolsonarista a atingir um outro nível de violência. Isto está sendo tentando pelo excludente de ilicitude de forma direta, mas também está sendo colocado em prática pelas polícias militares do Brasil inteiro, que registram números recordes de assassinatos, torturas, massacres e todo tipo de abuso e violência.
O governo Bolsonaro diz, com todas as letras ao capital, que ou ele se submete ao moralismo violento fascista ou será também vítima da sua ensandecida turba. O mesmo aviso é claro ao STF, aos órgãos de imprensa que ainda se acham “livres”, e aos indivíduos que, em postos institucionais relevantes, optarem por seguirem um mínimo de civilidade e obedecerem a Constituição.
Os ricos, que tanto esforço fizeram para colocar Bolsonaro no poder, verão agora serem eles mesmos alvos do fascismo. O que o século XX mostra é que o fascismo não admite nada diferente de si mesmo, e o pequeno e médio empresário vai ter que ver seu negócio ruir pela brutal concentração de renda imposta pelo regime de Bolsonaro, ou vai ver o seu negócio ruir pela perseguição moralista e o ódio visceral que o fascismo liberta.
A libertação de Lula pode ter sido vista por muitos como uma oportunidade de luta. Perdoem-me o pessimismo. Acho que muito em breve, o regime de Bolsonaro atingirá um novo nível de violência e autoritarismo. E com efusivos aplausos de militares, policiais, juízes e promotores, eles exterminarão a pouca democracia que ainda nos resta. Os que estão esperando um “AI-5” para se convencerem da necessidade de apear o fascismo do poder acordarão, um dia, alijados de seus espaços de poder. O golpe final de Bolsonaro se aproxima, e é aconselhável que a cúpula do judiciário, do legislativo e todo aquele que for constitucionalista não tenha um sono muito pesado. Será acordado, à noite, pelo cabo e pelo soldado.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O projeto neoliberal no mundo e no Brasil é anti-vida e inimigo da natureza, por Leonardo Boff e Manfredo de Oliveira


“Neste contexto se mostra que agora o eixo básico do projeto de civilização é a subordinação da qualidade de vida dos seres humanos à acumulação do capital”. - Manfredo de Oliveira

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O projeto neoliberal no mundo e no Brasil é anti-vida e inimigo da natureza


                           Leonardo Boff
Aproveito as reflexões de um de nossos melhores filósofos, da Universidade Federal do Ceará, Manfredo de Oliveira, especializado na relação entre economia, sociedade e ética. Sua obra sobre o tema é vasta. Aqui resumimos um estudo mais longo sobre o projeto implementado no mundo e agora no Brasil: o neoliberalismo ultra radical. Escreve ele:
“Este projeto fundamentalmente consiste na implementação radical do que se denomina “Liberalismo Econômico”. Esta corrente de teoria econômica é conhecida como a Escola de Chicago que tem, contudo, seus fundamentos filosóficos nas teses da assim chamada Escola Austríaca, cujo principal expoente é Ludwig von Mises. Eis as teses básicas: o direito de propriedade é o único direito universal, fundamental e absoluto que começa com o direito absoluto do próprio corpo e inclui todos os bens que se possa adquirir. Deste direto se derivam o direito absoluto de não agressão à propriedade e o direito de defender a propriedade”.
“O Estado é visto como o grande usurpador da propriedade e a única instituição eticamente aceitável na esfera da atividade econômica é o “Mercado Livre”. Todos no mercado livre têm os mesmos direitos. Cada indivíduo é o único responsável por seus objetivos. Suas regras constituem um mecanismo semelhante às leis da natureza: elas são algo objetivo que o ser humano não tem condições de modificar. Devemos estudar a ação humana como um físico estuda as leis da natureza”.
“Assim como não podemos julgar boa ou má a lei da gravidade, do mesmo modo não podemos julgar as leis do mercado. Não tem sentido aqui levantar questões éticas que pertencem a outro nível. A única questão aqui é sua eficiência técnica. O mercado é compreendido como um mecanismo auto-organizador e enquanto tal sua avaliação tem como critério a eficiência e não a valoração ética”.
“Não há direitos fora das leis do mercado. Portanto, a desigualdade e a exclusão nada têm a ver com injustiça social. Assim, a pobreza não é um problema ético, mas uma incompetência técnica. O maior erro dos opositores do capitalismo é a acusação de injustiça social baseada na ideia de que a “natureza” concedeu a todas as pessoas certos direitos só pelo fato de terem nascido”. Por esta razão, no que toca à distribuição da riqueza…”não tem sentido referir-se a um suposto princípio natural ou divino de justiça”(Cf. MISES L. von, The Anti-Capitalist Mentality, Auburn, 2008, p. 80, 81).”
“O imposto é uma forma de confisco da propriedade. Portanto, nem saúde, nem educação, nem previdência, nem segurança pública, nem justiça se legitimam enquanto financiados pelo Estado. Os pobres são indivíduos que por culpa própria perderam a competição com outros. Assim, o mérito emerge como único critério de ascensão social.”
“Esse projeto de sociedade é chamado, frequentes vezes, pelo Papa Francisco de “anti-vida”, “assassino dos pobres e da natureza”. Ele visa se opor ao Estado de Bem Estar Social (no Brasil, Estado democrático de Direito). Este orienta-se pelos seguintes elementos na linha de J.M.Keynes: 1) Intervenção do Estado nos mecanismos de mercado; 2) Política de pleno emprego (melhoria dos rendimentos dos cidadãos); 3) Institucionalização do sistema de proteção; 4) Institucionalização de ajudas para os que não conseguem estar no mercado de trabalho”.
“O resultado deste processo foi o aumento da capacidade de consumo das classes menos favorecidas”.
“O objetivo fundamental agora,no novo modelo de sociedade neoliberal, é maximizar o lucro do capital, o que faz com que os direitos sociais tendam a desaparecer e que aumentem as riquezas para os mais ricos, junto com a desregulação dos mercados de trabalho. Daí a cruzada global contra a intervenção estatal e os direitos sociais e econômicos criados pelas políticas do Estado Social, pois constituem um obstáculo à operação das leis de concorrência e por isto são políticas irracionais e populistas. Desta forma, os defensores do “mercado totalmente livre” se contrapõem às políticas sociais, consideradas ineficientes e perturbadoras do processo produtivo”.
“O caminho agora é confiar plenamente no mercado enquanto sistema auto-organizador que, uma vez libertado de regulações e intervenções indevidas, soluciona por si os problemas econômicos e sociais”.
“Neste contexto se mostra que agora o eixo básico do projeto de civilização é a subordinação da qualidade de vida dos seres humanos à acumulação do capital”.
“Importa, entretanto, reconhecer que os resultados deste processo ameaçam a vida humana e toda vida no planeta. A exploração ilimitada da natureza se mostra nas catástrofes socioambientais. Cientistas,dos mais notáveis, alertam-nos para o fato de que o modelo econômico vigente pode encaminhar a humanidade a um colapso ecológico-social”
Se Bolsonaro e Guedes assumirem este projeto ultra neoliberal farão surgir um país com milhões de pobres e até párias, com poucos ricos e um punhado de multi-milionários, um país não só pobre mas também injusto.
Leonardo Boff escreveu: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, Vozes 2018.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Wilson Rocha Fernando Assis, procurador da República, escreve sobre Fascismo e a Lava Jato




“Chamo a atenção para o flerte da Lava Jato com uma estratégia fascista: promessa revolucionária, mobilização das massas, confusão entre Estado e sociedade”
Do Canal de estudos Justificando:

Wilson Rocha Assis: Há fascismo na Lava Jato?

Terça-feira, 12 de março de 2019
Wilson Rocha Assis: Há fascismo na Lava Jato?
Imagem: Procuradores da Operação Lava Jato.
Por Wilson Rocha Fernandes Assis, membro do Ministério Público Federal

A pergunta é grave, porque lança um anátema sobre a mais significativa ação do Ministério Público no combate à corrupção. Se a resposta é afirmativa e parte de um membro da instituição, o caso é gravíssimo, porque se atribui sempre algum nível de credibilidade à fala do insider. E a gravidade do libelo poderá lançá-lo a um ostracismo impiedoso. Feitas as contas, vamos à tarefa.
O fascismo é um fenômeno complexo, que sofreu os males de sucessivas apropriações, filiações, mutações e desdobramentos. Embora seja a Itália o berço do fascismo, foi a ascensão de Hitler na Alemanha que fez do fascismo um fenômeno mundial. Não havia racismo no arco-íris confuso de ideias políticas que Mussolini mobilizou. E não era possível antever as câmaras de gás em sua fala carismática. Mas a filiação de Hitler ao fascismo é um consenso histórico, responsável talvez pela carga semântica marcadamente negativa que gravita em torno da expressão.
Os múltiplos fascismos que pulularam no mundo tornam difícil a tarefa de discernir um ideário comum, embora, com certa facilidade, pudéssemos apontar, na década de 1930, os regimes de inspiração fascista. Não se tratava de uma forma de organização do estado, tampouco de uma teoria política. Era retoricamente revolucionário porque prometia uma radical transformação da sociedade, embora conservador em sua promessa de assegurar às classes altas e médias a manutenção da ordem e da moral tradicionais. Ensina Hobsbawm, em Era dos extremos, que “os fascistas eram os revolucionários da contra-revolução: em sua retórica, em seu apelo aos que se consideravam vítimas das sociedade, em sua convocação a uma total transformação da sociedade”; “denunciavam a emancipação liberal […] e desconfiavam da corrosiva influência da cultura moderna, sobretudo das artes modernistas” (p. 121).
Portanto, embora se trate de um fenômeno datado historicamente – em sentido estrito, o fascismo refere-se ao regime político inaugurado por Mussolini na Itália dos anos 1920 – há desdobramentos posteriores que mantém um núcleo semântico essencial, caracterizado pelo nacionalismo, pelo antiliberalismo e pelo anticomunismo. Na prática, expressava-se como um movimento de massas, articulado em torno de uma liderança política carismática que dispensava a institucionalidade política representativa. Retenho aqui a imagem essencial do fascismo: o machado envolto por um feixe de varas. Uma imagem simplificadora e unificadora da sociedade, direta e firmemente atada ao Estado, sem corpos intermediários ou subsidiários, inteiramente mobilizada ou instrumentalizada como ferramenta de poder.
As corporações tradicionais ralharam diante da ascensão fascista, exatamente pela dispensa de sua intermediação na construção do poder estatal. Registra Hobsbawm que “o único grupo que realmente lançou uma revolta contra Hitler – e foi consequentemente dizimado – foi o velho exército prussiano aristocrático” (p. 131). Sob o nazismo, o sistema de justiça adaptou-se à nova realidade política, substituindo o brocardo “nullum crimen sine lege” pela assustadora fórmula “nullum crimen sine poena”, sinalizando uma expansão do punitivismo estatal, em prejuízo dos princípios liberais clássicos.
Dito isso, a aproximação da Lava Jato com o fascismo certamente guarda dificuldades. Além do distanciamento histórico, há na atualidade um conjunto de atores e instituições inédito. Contextualizando, no limiar do século XXI, o neoliberalismo reformulou a administração pública impondo-lhe métricas de eficiência com pouca permeabilidade democrática. O ativismo do poder judiciário foi fomentado e, depois, aperfeiçoado em complexos processos de planejamento estratégico. A autonomização do judiciário foi tolerada na medida em que percebida como um instrumento de eficientização do próprio estado. Novos tempos, certamente.
A crise capitalista iniciada em 2008 fez crescer a insatisfação social e estimulou novas formas de ação política, com forte questionamento das instâncias tradicionais de representação. Novas formas de mediação social desafiaram os mecanismos tradicionais de intermediação política. Entra aqui o fenômeno radicalmente novo das redes sociais. No sistema de justiça, o mural da repartição, o edital, as portarias tornaram-se anacrônicos diante da velocidade e dos baixos custos das redes sociais. Para o Ministério Público, moldado constitucionalmente para a defesa da ordem democrática, tornou-se sedutor atravessar o caminho das representações tradicionais – partidos políticos e parlamento, sobretudo – para construir diretamente com o corpo social novos consensos democráticos. A burocracia bem formada, situada no topo da Administração, não resistiu à tentação e foi às ruas.
O capital institucional acumulado em décadas de atuação comprometida com a promoção de direitos não dispensou a instituição de fazer promessas revolucionárias para mobilizar as massas, a principal delas, o fim da corrupção. A promessa – efetivamente revolucionária – arregimentou setores heterogêneos da sociedade e o desiderato cumpriu-se com o fortalecimento dos setores da instituição encarregados da persecução penal e do combate à corrupção.
Até aqui, poder-se-ia discutir o acerto da estratégia, a efetividade dos instrumentos propostos ou os limites a serem observados pelo Ministério Público em sua interlocução direta com a sociedade. Mas não haveria que se falar em fascismo. A Lava Jato, embora ensaiasse, não havia ainda lançado um esforço sistemático de mobilização popular. A virada ocorre com o projeto das “Dez medidas contra a corrupção”. Tratava-se de um projeto de lei redigido nos gabinetes do Ministério Público Federal, mas apresentado à sociedade como um projeto de lei de iniciativa popular.
Lançada pela Lava Jato, a iniciativa é encampada pela cúpula da instituição e corre o Brasil financiada com recursos do Ministério Público Federal. Servidores públicos receberam incentivos funcionais para colher assinaturas em diversos espaços sociais. Procuradores da República viajaram pelo país divulgando o projeto de lei. Projeto de lei apresentado como de iniciativa popular, mas elaborado por funcionários públicos, divulgado em campanhas oficiais de marketing, com coleta de assinaturas financiada com recursos públicos. O paradoxo era evidente, mas também era conveniente. Tratá-lo como um projeto de iniciativa popular amarfanhava legitimidade à proposta e incrementava o capital institucional em meio a uma cruzada contra poderosos. Havia guerreiras e guerreiros sinceramente devotados na infantaria. Mas não houve cálculo estratégico. O Congresso Nacional acusou a manobra.
Não teço comentários sobre o conteúdo da proposta, apenas chamo a atenção para o flerte com uma estratégia fascista: a promessa revolucionária, a mobilização das massas, o apagamento da distinção formal e essencial entre Estado e sociedade. Não faltou o personalismo de um herói, o apelo aos valores tradicionais, o medo da classe média frente à crise econômica, os escândalos de corrupção desencadeados por um governo de esquerda. O avanço da operação policial-judicial proporcionou méritos concretos no combate à criminalidade, comparáveis aos de Mussolini. Ensina Hobsbawm que o fascismo foi “o único regime italiano a conseguir suprimir a Máfia italiana e a Camorra napolitana” (p. 131). A promessa da Lava Jato, para além das vicissitudes democráticas e contratempos históricos, estava lançada: doravante, não haverá crime sem pena.
No caso mais recente da fundação anunciada a partir do acordo dos membros da Lava Jato com a Petrobrás, duas questões chamam a atenção. Primeiro, a criatividade institucional. Segundo, a justificativa de que a nova entidade será gerida pela sociedade, em benefício da sociedade.
Há perigosas contradições no desenho institucional proposto. O item 2.4.1, (i), do acordo, prevê um desenho institucional que leve em consideração a autonomia de sua gestão em relação a grupos ou pessoas ligadas à política partidária. O item 2.4.6, por sua vez, reforça o fechamento da fundação ao modelo de representatividade democrática prescrito pela Constituição Federal quando estabelece que “não poderá atuar na fundação, em qualquer função, pessoa filiada a partido político ou que tenha sido filiada nos último 5 (cinco) anos, podendo o estatuto ampliar esta restrição”.
Já o item 2.4.1, (ii), pretende garantir a legitimidade da proposta por meio da pluralidade institucional de sua gestão, da transparência quanto ao critérios para tomada de decisões e pela ampla consulta e participação social.
Ora, os itens 2.4.1, (i) e 2.4.6 colidem frontalmente com o item 2.4.1, (ii), quando excluem da pluralidade institucional pretendida para a gestão da nova fundação grupos ou pessoas ligadas a partidos políticos. Vale lembrar que os partidos políticos destinam-se a assegurar, no interesse do regime democrático, a autenticidade do sistema representativo e a defender os interesses definidos na Constituição Federal, conforme artigo 1o., da Lei n. 9.096/95. Atento às entrelinhas do Acordo, vê-se que Lava Jato não apenas exclui os partidos políticos, agremiações centrais da vida democrática brasileira, mas pretende exatamente criar legitimidade em razão desta exclusão. O equívoco é tremendo.
Trata-se novamente de um flerte com o fascismo? Aproximações são possíveis, na linha do já exposto em relação ao projeto de lei iniciado pelo MPF. Justifico. O princípio da legalidade é provavelmente a maior contribuição do liberalismo clássico à democracia moderna. Ao prescrever a lei como meio e limite da ação estatal, o princípio da legalidade liberta o indivíduo do arbítrio, do capricho e das boas intenções – às vezes pouco refletidas – do gestor público. Por regra de cautela e por amor à democracia, é necessário cautela ao inovar. Quando a inovação surge sem esteio na lei, labora para afastar-se de controles institucionais democráticos e, ainda por cima, tem um forte componente de fortalecimento corporativo, acende-se a luz amarela.
A soma de recursos públicos envolvidos é vultosíssima e sua destinação a uma fundação privada exorbita as prescrições legais. A medida viola o princípio da legalidade e, portanto, os pressupostos teóricos do liberalismo político clássico. Doutro lado, falar em nome da sociedade, do povo ou da nação é sempre um ato solene, cercado de formalidades materiais e formais. Pretender a realização do princípio democrático por meio de referências pouco claras a “organizações da sociedade civil” não é suficiente, sobretudo quando evidenciada a atuação destas organizações subordinada aos poderes da corporação, no caso, do Ministério Público.
Bom, mas isso é fascismo? Pode-se dizer que houve no fascismo um grande esforço para dar a volta nos mecanismos formais de representação democrática, consolidando poderes que exorbitavam os limites da lei e feriam a democracia, em prol de transformações favoráveis no tecido social. Tudo foi feito em favor da sociedade. As vicissitudes e contratempos do regime democrático foram preteridas em prol da eficiência das instituições, segundo a visão privilegiada de um chefe. Dizia-se na Itália que “Mussolini fez os trens rodarem no horário”.
Por fim, para bem entender como o fascismo pode imiscuir-se em projetos inovadores de engenharia social, vale dizer que ele não é uma ideologia. Segundo Hobsbawm, “a teoria não era o ponto forte de movimentos dedicados às inadequações da razão e do racionalismo e à superioridade do instinto e da vontade”. A suposta banalização de seu uso não constitui um erro teórico, mas é expressão de sua natureza imprecisa e difusa. A identificação de suas características em fenômenos políticos contemporâneos demonstra a não superação da realidade histórica que marcou seu nascimento. Hoje, como na década de 1930, crises econômicas que ameaçam o status quo de grupos estabelecidos fazem emergir movimentos ao mesmo tempo reformistas e regressivos, que desafiam a democracia liberal.
A autocontenção é a maior virtude de quem exerce parcela do poder soberano. O fascismo, em suas múltiplas aparições, manifesta-se como estratégias inovadoras de expansão do poder, verdadeiramente criativas, capazes de contornar os meios tradicionais e, às vezes, precários pelos quais se manifesta a democracia liberal, em prol da aceleração do tempo histórico. Impelidos pelo clamor popular, pessoas e instituições podem contribuir com o avanço do fascismo das mais variadas formas. O indiferentismo técnico é um dos instrumentos mais trágicos de ação do fascismo, porque cega o indivíduo acerca das consequências mediatas ou imediatas de suas ações, dispensando-o de sua responsabilidade ética perante os seus semelhantes.
Ao perguntar se há fascismo na Lava Jato, o que se pretende é refletir sobre o processo histórico mais amplo do qual o Ministério Público Federal tornou-se protagonista. No fascismo histórico, havia boas intenções no esforço de eficientização dos processos sociais. Pode haver boas intenções na autonomização da Lava Jato e em sua institucionalização na forma de uma fundação privada. Mas há claro desrespeito às regras constitucionais da gestão da vida democrática. O fascismo é plenamente moderno ao propor a superação das velhas regras do jogo político democrático pela velocidade da relação direta e pessoal de um líder ou uma instituição com “a sociedade”. Sem paramentos, partidos políticos ou liturgia.
Havia fascismo antes das câmaras de gás.
Wilson Rocha Fernandes Assis é Procurador da República em Goiás
                                                                                             
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