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sábado, 4 de setembro de 2021

GGN: Covenant Bolsonaro e sua farsa no Valhalla brasiliense. Texto de Fábio de Oliveira Ribeiro

 

    Sempre que encena o personagem “o mito” diante dos seus seguidores, Bolsonaro fala como se fosse Walter 1 (aquele personagem do filme Alien Covenant que é o portador da informação verdadeira e confiável). Todavia, o discurso dele é um amontoado de informações distorcidas e algumas vezes mentirosas que visam provocar o colapso total da racionalidade e do sistema constitucional. David 8 concretiza no filme o genocídio que Bolsonaro sonha colocar em prática. As vítimas do presidente brasileiro, entretanto, não serão os homens brancos.



Nos dias 6 e 7 de setembro de 2021 os especuladores internacionais redobrarão suas apostas contra o nosso país. Nenhum investimento externo novo será decidido ou feito no Brasil enquanto Bolsonaro continuar no poder

Foto: Marcos Corrêa/PR

Bolsonaro Covenant e sua entrada triunfal no Valhalla brasiliense

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Duas cenas do filme Alien: Covenant (2017) ajudam a compreender o que está ocorrendo no Brasil.

Na primeira, o androide David 8 começa a recitar o poema Ozymandias. Walter 1, o outro androide, termina de recitar o poema após as imagens do genocídio. Então, David 8 atribui o pema a Lord Byron.

Na segunda, Walter 1 informa David 8 que o poema Ozymandias foi escrito por Percy B. Sheley em 1818 e não por Byron.

“Quando uma nota está fora [do tom correto], eventualmente toda a sinfonia é destruída”. Diz Walter 1 ao seu interlocutor.

O problema da informação: quando ela é inexistente ou fragmentária, a ignorância pode induzir o cidadão a erro; quando é abundante, a verdade pode se tornar inexpressiva ou irrelevante; quando é distorcida, o resultado pode causar tragédias que produzirão reverberações na realidade por muito tempo.

Sempre que encena o personagem “o mito” diante dos seus seguidores, Bolsonaro fala como se fosse Walter 1 (aquele que é o portador da informação verdadeira e confiável). Todavia, o discurso dele é um amontoado de informações distorcidas e algumas vezes mentirosas que visam provocar o colapso total da racionalidade e do sistema constitucional. David 8 concretiza no filme o genocídio que Bolsonaro sonha colocar em prática. As vítimas do presidente brasileiro, entretanto, não serão os homens brancos.  

O culto da raça braça, do sangue imaculado, da violência redentora, da morte na guerra santa e da purificação do mundo que está sendo encenado por Bolsonaro não vai terminar com ele regurgitando em segurança as novas sementes de um antigo mal. O capitão amalucado terá que colher e digerir o veneno que plantou. Adolf Hitler cometeu suicídio sendo cremado com gasolina numa vala. Mussolini foi metralhado e o corpo dele ficou pendurado de cabeça para baixo. 

No caso brasileiro, é inevitável ficar com a impressão de que os conflitos reais e artificiais criados por Bolsonaro tem apenas três finalidades:

1º – dificultar a investigação dos crimes financeiros e eleitorais que ele cometeu antes e depois da eleição e impedir sua responsabilização pelo genocídio pandêmico.

2º- garantir a permanência dele no poder apesar do fracasso econômico e da hecatombe humanitária provocada pela união explosiva e extremamente volátil do autoritarismo policial com os grileiros gananciosos, jornalistas antiéticos, ruralistas radicalizados, banqueiros irresponsáveis, pastores estelionatários, militares esclerosados e milícias criminosas (o Talibãsonaro);

3º – desviar a atenção da população do verdadeiro problema estrutural do Brasil, qual seja, a submissão política/militar aos EUA e a perpetuação da transferência da riqueza nacional para os estrangeiros que se assenhoraram da Petrobras e do pré-sal ficando, por via de consequência, em condições de saquear toda economia brasileira.

No filme, Alien: Covenant (2017) Walter 1 acaba sendo substituído por David 8. Em decorrência disso, os embriões de Aliens regurgitados pelo androide serão levados para a nova colônia.

Bolsonaro já está plantando as sementes de um novo genocídio. No dia 07 de setembro de 2021 os deuses entrarão no Valhalla brasiliense. Portanto, a manifestação em Brasília deve ter uma tilha sonora adequada ao perfil nazista do mito e dos seguidores dele que pretendem invadir e incendiar o Congresso, o TSE e o STF.

A Embaixada dos EUA não está disposta a correr riscos e já emitiu uma nota aconselhando os norte-americanos a ficar longe dos atos bolsonaristas https://blogs.correiobraziliense.com.br/vicente/embaixada-dos-eua-pede-que-cidadaos-americanos-fiquem-longe-de-manifestacoes-a-favor-de-bolsonaro/. A oposição, porém, minimiza o risco de violência generalizada. Líderes políticos e ativistas têm preferido espalhar boatos, falsos ou verdadeiros, acerca da sexualidade do presidente brasileiro. O Twitter está sendo inundado com piados e piadas acerca da infidelidade de uma das esposas de Bolsonaro.

Estamos prestes a entrar num período sem precedentes? É difícil dizer o que ocorrerá. Porém, uma coisa é certa: nos dias 06 e 07 de setembro de 2021 os especuladores internacionais redobrarão suas apostas contra o nosso país. Nenhum investimento externo novo será decidido ou feito no Brasil enquanto Bolsonaro continuar no poder.

Os deuses financeiros jogarão gasolina no Valhalla brasiliense antes do quebra-quebra e do incêndio final das instituições? A conferir. Se a segunda-feira começar com uma fuga massiva de capitais, o mercado indicará que acredita num cenário de guerra civil com mortos e feridos sem prazo para terminar ou resultado previsível. Todavia, existe um abismo entre o primeiro tiro de morteiro e o cenário criado pelos especuladores para garantir seus ativos e/ou maximizar seus lucros.

A economia, o amor, a política e a guerra são capazes de fazer um observador rir ou chorar. Esses quatro domínios da atividade humana são absurdos e abissais. Neles, algumas vezes as coisas realmente saem de controle. Outras vezes, o controle da situação é restaurado justamente quando as coisas parecem estar descontroladas.

O melhor a fazer no dia 07 de setembro de 2021 é ver um bom filme e não dar muita atenção à encenação bolsonarista. Ela será um misto de ficção e insanidade com pitadas de violência entre os próprios manifestantes. Além disso, a pandemia continuará interrompendo muitas vidas antes de chegar ao fim.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A parasitária mão dos bancos e mercado das finanças deformando e destruindo direitos sociais, por Vanessa Patriota da Fonseca, Procuradora do Trabalho e membro do Coletivo Transforma Ministério Público

 

Infelizmente, os interesses das finanças têm prevalecido sobre os mais elementares direitos: trabalho, saúde, assistência social, direito à convivência familiar e comunitária.

Jornal GGN:

do Coletivo Transforma MP

A mão das finanças esculpindo reformas sociais

por Vanessa Patriota da Fonseca

A consolidação do modelo protetivo e de seguridade social pública se deu com a vitória das lutas operárias contra o Estado Liberal burguês, dentro de um contexto de relações estáveis e duradouras de trabalho propiciada pelo regime fordista de produção, que permitiu a sustentabilidade do sistema. Era preciso manter a relação capital-trabalho, mas dar conta de amparar a classe trabalhadora contra os infortúnios do trabalho, bem como proteger-lhe na velhice ou na inatividade decorrente de acidentes.

O alargamento das políticas sociais garantiu a expansão do consumo, tendo o fundo público papel relevante para própria manutenção do capitalismo, o que viabilizou o compromisso com o pleno emprego nos países centrais no período de 1945 a 1975. Mas com a crise do petróleo, na década de 1970, a Escola de Chicago, sob o comando de Friedman, passou a pregar firmemente o fim do Estado Providência. O período dos governos Thatcher e Reagan representou “a grande virada”, momento em que se consolidaram as políticas neoliberais e se fortaleceu a luta ideológica contra o Estado de Bem Estar Social.

A desregulamentação e o desbloqueio dos sistemas financeiros por parte dos Estados-Nações levaram ao ressurgimento de um capital de aplicação financeira extremamente concentrado. Os lucros das indústrias não reinvestidos e as rendas não consumidas, concentrados em instituições especializadas (fundos de pensão, sociedades de seguro etc.) e mantidos fora da produção de bens e serviços, fizeram com que o capital portador de juros assumisse a centralidade das relações econômicas e sociais. Esse capital, que não é reinvestido na produção, impulsionou o mercado de títulos, inclusive em função da abertura das operações de empréstimos, que antes era restrita aos bancos.

A oferta de empréstimos para países em desenvolvimento promoveu o surgimento de enormes dívidas públicas, que levaram a novos empréstimos com o objetivo de pagamento dos juros da dívida anterior e, consequentemente, às crises das dívidas, iniciada em 1982 no México.  E a receita passou a ser uma maior desregulamentação, privatização, terceirização, acelerando o processo de desindustrialização nos países emergentes e intensificando a acumulação financeira.

Passou-se a acusar a ampliação dos benefícios sociais (públicos, universais e gratuitos) de terem comprometido a capacidade de sustentação do sistema e a travar uma guerra para reduzir encargos sociais e trabalhistas e para incentivar a mercantilização dos bens e serviços sociais.

Nesse contexto, sobressalta o poder dos grandes acionistas, cujo objetivo principal não é o aumento da produção, mas o rendimento. Eles impõem pressão negativa sobre os salários e aumento de produtividade em busca de novas formas de rentabilidade. A acumulação financeira, portanto, modifica a relação capital-trabalho. E os próprios trabalhadores aposentados, beneficiários de fundos de pensão, que seguem a lógica de acionistas, passam a pressionar, sem que o saibam, pelo aumento da exploração dos antigos companheiros em prol de maior rentabilidade.

Os contratos de longo prazo, o investimento em qualificação profissional, são substituídos por contratos precários, temporários, de curta duração para atenderem a urgência dos investidores financeiros. A flexibilização trabalhista e a subcontratação, em nível internacional, de força de trabalho garantem o alto lucro dos acionistas. É nesse ambiente que se insere a Uberização – a contratação precária de trabalhadores por empresas detentoras de plataformas digitais que prestam os mais tradicionais serviços (transporte, entrega, limpeza, manicure e tantos outros), mas sem reconhecimento de direitos trabalhistas. Nesse ambiente, também, foram implementadas, no Brasil, as recentes reformas Trabalhista e Previdenciária.

Os efeitos da Reforma Trabalhista já são claramente percebidos. Seus defensores repetiam o mantra de que era necessário flexibilizar para gerar empregos. A flexibilização externa de entrada, com incentivo a formas atípicas de contratação – contrato de trabalho intermitente, autônomo exclusivo, contratação de trabalhador como pessoa jurídica, terceirização de atividade-fim, trabalho em tempo parcial – não promoveram a geração de emprego, como aventado, mas apenas a substituição de relações de emprego protegidas por postos de trabalho precários. A diminuição de benefícios não foi acompanhada do aumento dos níveis de emprego e a qualidade de trabalho que está sendo gerado é questionável.  As principais alterações introduzidas pela Reforma Trabalhista contribuíram para a elevação da informalidade e das fraudes trabalhista, previdenciária e tributária.

Não se configurou a correlação positiva entre diminuição de direitos e aumento de empregos formais, conforme defendido pela Teoria Econômica Ortodoxa há mais de um século, revelando que as modificações legislativas tiveram o objetivo central de aumento de lucro das empresas às custas da classe que vive do trabalho. Em regra, a concentração de riqueza se elevou, a taxa de crescimento é lenta e o desemprego aumentou. E o consumo dos beneficiários da acumulação financeira nunca se igualará à parte da demanda impedida pelo desemprego em massa.

Quanto à Previdência Social, a lógica da repartição foi suplantada pela lógica da capitalização e a esfera pública foi abandonada em prol da esfera privada. O sistema de repartição se fundamenta no princípio da solidariedade intergeracional, pois a arrecadação dos trabalhadores e trabalhadoras em atividade garantem o pagamento de benefícios aos que já foram contribuintes um dia e se encontram inativos. O sistema de capitalização, por sua vez, elimina tal princípio ao colocar nas costas de cada cidadão a responsabilidade pela sua própria aposentadoria, ao gerirem sua aplicação financeira.

No que se refere aos riscos sociais, é evidente que o regime de capitalização é profundamente desfavorável. Nem todo mundo pode abrir uma conta individual de poupança, impossibilitando, a uma boa parte da população, o acesso à aposentadoria e pressionando ainda mais os gastos públicos em assistência. Ademais, no atual estágio do capitalismo financeirizado a Previdência já não se presta a assegurar a verdadeira proteção social. Instabilidade e insegurança são a tônica.

Infelizmente, os interesses das finanças têm prevalecido sobre os mais elementares direitos: trabalho, saúde, assistência social, direito à convivência familiar e comunitária. Os mercados financeiros insaciáveis tornam descartáveis a mulher e o homem trabalhadores. Não há saída possível para a crise que assola o planeta, em especial nas economias periféricas, dentro desse sistema.

A relação entre capital e trabalho não é uma relação histórico-natural, mas é essa naturalidade que o capitalismo quer fazer transparecer. Ele demanda o desenvolvimento de uma classe que vive do trabalho que reconheça as exigências do modo de produção capitalista como leis naturais. E o capitalismo financeirizado altera a relação capital-trabalho, mas não afasta um do outro, pois passa a exigir muito mais dos trabalhadores e trabalhadoras.

A mais-valia é imanente ao modo de produção capitalista, de modo que a desigualdade entre os que compram a força de trabalho e os que a vendem pode ser minorada, mas não superada. Trata-se de um sistema forjado na existência de um exército de reserva desempregado sempre disponível à exploração. Um processo alienante quer em função da transformação do homem e da mulher em máquina, como bem retratado com o modelo taylorista-fordista, quer em função da captura de sua subjetividade tão sobressaltada a partir do modelo toyotista de gestão. Portanto, é preciso ter em comum e como pauta prevalecente dos movimentos sociais, o enfrentamento do modo de produção capitalista e a libertação da força de trabalho frente ao capital.

Vanessa Patriota da Fonseca – Procuradora do Trabalho. Sócia-fundadora e coordenadora nacional do Coletivo Transforma MP

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quinta-feira, 23 de abril de 2020

A crise provocada pela epidemia deixa a direita e a extrema direita sem capacidade de retomar seu projeto de exploração massiva do povo, por Rogério Maestri



O resultado dessa imensa massa de falências que ocorrerá, durante e logo após a epidemia, milhões de apoiadores e adoradores do mercado verão que a mão nada invisível do mesmo cairá sobre a sua cabeça

Salvador Dali

A crise provocada pela epidemia deixa a direita e a extrema direita sem capacidade de retomar seu projeto depois do fim da epidemia

por Rogério Maestri

Discutir se a crise terá uma dimensão X ou Y é uma verdadeira brincadeira de criança que tentam jogar futebol sem ter a bola. Dezenas de propostas do tipo Teoria Monetária Moderna (MMT), ou jogar dinheiro de helicóptero ou ainda fortalecer o máximo o caixa dos bancos para os mesmos comprarem tudo que anda ou que se arrasta pela face da Terra, estão sendo estudadas, mas na realidade só a última já está sendo executada em nome da medo do risco sistêmico do sistema financeiro.
Como de uma forma ou outro os bancos sairão extremamente reforçados pelo financiamento que toda a população do mundo ocidental está dando de mão beijada ao setor é a única realidade que parece que será tomada chegaremos a uma situação muito interessante, uma economia real falida e uma economia fictícia enriquecida.
Como os governos precisarão recuperar alguma parte desse dinheiro “emprestado” (seria melhor dado) ao sistema financeiro, felizes da vida os bancos farão o que mais gostam, tomar a propriedade real de todas as pequenas, médias e até grandes empresas para colocar nos seus ativos e fecha-las ou incorporá-las as empresas associadas a estes bancos e ficarem felizes.
Porém, sempre há um “porém”, esta classe empresarial não associada e não proprietária do sistema bancário será totalmente saqueada voltando a condição ou de falidos ou de mesmo para os pequenos e médios “empreendedores” proletarizadas.
O resultado dessa imensa massa de falências que ocorrerá, durante e logo após a epidemia, milhões de apoiadores e adoradores do mercado verão que a mão nada invisível do mesmo cairá sobre a sua cabeça como um martelo, com essa perda da massa de apoiadores, ou seja, algo em torno de 30% no Brasil e maior ainda em outros países centrais, será perdida para a chamada economia de mercado.
Para onde poderão se deslocar essa massa de apoiadores? Talvez seja essa a grande pergunta. Porém há na realidade duas alternativas, uma proposta fascista e uma proposta socialista. A proposta fascista, que grande parte da esquerda não entende, ela não é algo espontâneo que saia do nada e precisa de financiamento para que ela progrida. Tanto na Itália fascista, na Alemanha Nazista e nos fascismos ibéricos, sempre foram financiadas regiamente pelo grande capital, entretanto para haver algum apelo popular e atrair imensas massas de um operariado sem formação política é necessário alguma saída econômica com algum nacionalismo que seja mais do que fazer continência a bandeira, ou seja, uma proposta liberal do tipo o mercado reagirá, não convence nem os mais despolitizados, pois a própria inexistência de um Estado provedor que levou a tragédia da epidemia.
Ao mesmo tempo que a inexistência de uma cenoura na frente do burro para que ele siga, qualquer proposta de um fascismo mais ou menos clássico, sofrerá restrições ferozes dos países centrais que saírem menos machucados dessa epidemia e são fornecedores de produtos de alto valor agregado aos outro países periféricos, ou seja, assim como a Alemanha e Japão sofreram fortes embargos quando quiseram colocar as manguinhas de fora, nos dias atuais, sabedores do risco as “democracias” representativas que sobreviverem, a reação será ainda mais forte do que meros embargos. Vis a vis da dependência tecnológica que possuem os países periféricos, um forte embargo resultará num recuo de algumas décadas em capacidade produtiva, isso acima da depressão que causará essa epidemia.
Como num momento de crise a política progride muitas vezes mais rápido do que em situações normais, a única solução que será possível de empregar é um caminho ao socialismo que será acelerado em função dos próprios embargos das nações Imperiais, porém todos sabem da prática dos últimos cem anos que sistemas coletivos reais reagem com muito maior eficiência do que sistemas de livre mercado. Com uma economia planificada a velocidade com que vão progredir países com uma indústria pequena porém diversificada a reação poderá surpreender a muitos.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Uma explicação didática sobre por que o crash (e estouro da bolha) dos mercados vai prosseguir, por Luis Nassif


A bolha já estava prestes a estourar, quando aparece o problema coronavirus, trazendo uma expectativa de queda mais aguda ainda no faturamento das empresas. Uma queda na previsão de faturamento provoca uma queda mais que proporcional no valor da companhia.

Há pontos em comum entre a crise de 2008 e a crise atual.
Houve um intenso processo de acumulação de riqueza financeira. Em parte, devido à mudança de paradigmas e à disseminação de empresas tecnológicas. Em parte, devido ao próprio processo de cartelização da economia mundial, dominado pelo capital financeiro. Mas muito, devido ao excesso de liquidez, de dinheiro sobrando no mercado, que beneficiou muito mais as empresas líderes de setor do que seus concorrentes, favorecendo a concentração.
Até  2008, a liquidez era garantida pela simbiose entre aumento do endividamento nos Estados Unidos, financiado pela compra de títulos americanos pela China. Esse movimento dava fôlego para o Tesouro garantir o crédito abundante nos EUA que, por sua vez, ajudava a aumentar a compra de produtos chineses e a produzir bolhas no mercado financeiro.
Foi um movimento que transcendeu o comportamento da economia real, produzindo um valor financeiro das empresas muito vezes superior ao valor real do negócio.
O que é o valor real do negócio? É o valor equivalente ao faturamento esperado da empresa durante um determinado período, trazido a valor presente por uma determinada taxa de juros que o comprador aceita pagar.
Se o comprador quiser uma rentabilidade maior, exigirá um preço menor. Se aceitar uma rentabilidade menor, aceitará pagar um preço maior. É esse mecanismo que provoca uma valorização dos ativos reais sempre que as taxas de juros caem.
Depois da crise de 2008, houve outro movimento enorme de liquidez. Os recursos serviram especificamente para resolver inadimplência do setor financeiro e do mercado em geral. Mais uma vez, a economia real caminhava lentamente. Grandes volumes de recursos se acumularam na tesouraria das grandes corporações, sem que resultassem em aumento dos investimentos. Se a riqueza financeira não cria riqueza real, na forma de novos ativos, o resultado óbvio é aumentar o preço dos ativos existentes.
Além disso, o modelo de remuneração dos executivos criou uma enorme armadilha.
  1. Sua remuneração passou a ser participação em resultados e compra preferencial de ações da companhia.
  2. As metas a serem alcançadas incluíam faturamento da companhia mas, principalmente, seu valor de mercado.
    Nesse modelo, as sobras de caixa passaram a ser utilizadas para recompra de ações da própria companhia, com um duplo propósito: de um lado, proporcionavam valorização nos preços das ações, ajudando a cumprir as metas; de outro, permitia aos executivos negociar suas ações no mercado, a preços valorizados.
Mais do que isso, com a liquidez abundante e taxas de juros historicamente baixas, houve um enorme processo de alavancagem (endividamento das empresas) para adquirir ações da própria empresa ou concorrentes.
O resultado objetivo foi a ampliação da concentração e do deslocamento da riqueza financeira em relação à riqueza real. Ou seja, uma bolha disseminada por todos os mercados.
A bolha já estava prestes a estourar, quando aparece o problema coronavirus, trazendo uma expectativa de queda mais aguda ainda no faturamento das empresas. Uma queda na previsão de faturamento provoca uma queda mais que proporcional no valor da companhia.
Explico: pela lógica se a receita de uma empresa cai 30%, seu valor deveria cair 30%. Não é isso que ocorre. O que vou mostrar é que nos modelos de negócios, se o faturamento cai 30%, o lucro cai muito mais e o valor da empresa mais ainda.
Acompanhe o raciocínio (os números foram chutados apenas para descrever o fenômeno da desalavancagem.
Imagine uma empresa com
  • 100 de faturamento,
  • 35 de custo fixo,
  • 35 de custo variável,
  • e lucro de 30.
  • E imagine um preço de mercado correspondendo a 15 vezes seu lucro líquido, ou 450.
Ai, supus uma queda de vendas de 30%.
  • O faturamento cai para 70.
  • Os custos fixos permanecem em 35.
  • Os custos variáveis caem 30% e vão para 24,5.
  • O que sobra – 10,5 – é o novo lucro.
  • Ou seja, o faturamento cai 30% (de 100 para 70), mas o lucro despenca 65% – de 30 para 10,5.
Mais que isso. Houve a quebra da corrente, o furo da bolha e os multiplicadores acabam caindo também, acompanhando a onda de pessimismo do mercado.
Supondo que os multiplicadores de preços caiam de 15 para 8 vezes, o valor da companhia cairá de 450 para 84, uma queda de 81,3%,
Por aí, dá para entender o crash que está derrubando todos os mercados. Desde o começo do ano, a AB Inbev perdeu 50% do seu valor. Outras acompanharam.
Por aí se entende que a queda dos mercados não irá parar. Há muita gordura para queimar, o que levou operadores de todo mundo a pedir o fechamento das bolsas por tempo indeterminado.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A estrada financiada pela elite neoliberal que nos trouxe ao precipício bolsonarista, por Fernando Horta




Bolsonaro, como uma doença aproveitadora, tomou o poder quando os liberais usaram todos os seus recursos para desmantelar a ideia de “Estado” e mesmo de “democracia”.

A estrada que nos trouxe ao precipício, por Fernando Horta

GGN. - Desde que Max Weber descreveu as modificações na racionalidade do mundo moderno ocidental como em consonância com o capitalismo que vivemos às voltas com metáforas liberais escondidas como se fossem “naturais”.
O “livre mercado”, categoria econômica que não passa e nem nunca passará da teoria, encontra eco em várias áreas. Existe o “livre mercado das ideias”, um local em que supostamente todos os pensamentos e teorias produzidos “livremente” seriam “comprados” por um número também imenso de “consumidores” baseados apenas em seu julgamento. Assim se constrói os argumentos mais basais para a “liberdade de expressão”, “liberdade de ensino” e etc. Na mesma analogia, uma eleição seria “um grande mercado de votos” em que o eleitor compraria aquela que achasse a melhor ideia. Nos dois exemplos, o economicismo está presente. Veja que nas duas concepções de espaços de liberdade não deveria haver consumidor ou vendedor que pudesse influenciar o “preço” das ideias, e cada eleitor tem um e apenas um voto.
Desta forma que se consolida a ideia do liberalismo difuso. Tudo é explicado como virtuoso se tiver as características teóricas do “livre mercado”. Precisa ser impessoal, baseado em cálculos racionais individuais, com o interesse individual sendo a base de cada escolha. Na teoria do “livre mercado” os “produtos” oferecidos podem ser comparados através de um esforço lógico que cada indivíduo faz para filiar-se a uma ideia, gostar de um romance, uma música ou defender uma bandeira política. Livres e impessoais, as ofertas de bens (ideias, crenças, teorias e etc.) encontrariam consumidores e as “mais consumidas” se fortaleceriam, demonstrando o virtuosismo do produto.
Na verdade, os algoritmos das redes sociais são totalmente baseadas nesta ideia. Não há como as companhias manterem pessoas para ler tudo o que é produzido e postado mundo afora. E, mesmo que houvesse maneira, não se poderia garantir a igual de julgamento pois compreender e valorar são atividades humanas. O que fazem o Facebook, instagram, twitter e etc. é estabelecer os seus contatos (amigos) como seu mercado imediato. Tudo o que você posta vai para uma amostra dos seus amigos imediatamente. Uma amostragem pequena, que não deve passar de 10% dos seus amigos num primeiro momento. Conforme o retorno que estes dão o algoritmo “julga” o conteúdo de sua mensagem. Se recebe muito suporte, esta mensagem passa no teste do “livre mercado” e é apresentada a mais pessoas. E assim, após sucessivos testes, uma postagem “viraliza” exatamente como um “produto” ganha mercado e enriquece o seu inventor. No caso, enriquece o dono da rede social e você ganha “muitos” likes.
Nas teorias sobre eleições e democracia ocorre o mesmo. Vários candidatos apresentam-se como mercadoria (de ideias e propostas) e são “comprados” por eleitores pagando a moeda do “voto”. No final, o que foi mais “comprado” se elege e os de menos votos ficam fora do jogo. Na prática este liberalismo economicista nos governa desde o nascimento até a morte. Pesquisas recentes argumentam que os bebês aprendem a sorrir e serem “fofinhos” como estratégia de sobrevivência. Teoricamente vai ganhar mais carinho, leite e ter suas necessidades atendidas o bebê que se vender melhor. E um sorriso, um “gu-gu-dá-dá” no lugar certo pode fazer toda a diferença.
Todos os méritos, então, são dados ao tal “livre mercado” e, enquanto a direita enfatiza a palavra “mercado”, uma parte da esquerda fetichiza o termo “livre”. Abominam-se “ditadores”, ataca-se tudo o que não trouxer explicitamente a ideia-prática da “liberdade” e há quem defenda a liberdade de expressão até mesmo daqueles que pautam a sua vida na defesa do extermínio da vida dos outros. Inconscientemente esta esquerda adora o mercado e todas as suas características teóricas. A visão destas pessoas não difere muito daquele espectro de defensores do capitalismo, talvez com um pouco mais de “humanidade”.
Acontece que nem o “livre mercado” existe, nem “liberdade” é um valor etéreo, descolado das possibilidades práticas dos indivíduos. Em tese, você é livre para ir a qualquer lugar no mundo, com poucas barreiras de fronteira ou coisas assim. Sua liberdade de ir, no entanto, em nada modifica sua incapacidade material para tanto. E este é o ponto chave.
Assim como o capitalismo construiu formas para subverter totalmente o “livre mercado” de tal sorte que ele INEXISTE na realidade, o mesmo capitalismo criou formas para subverter o “livre mercado das ideias” e até mesmo “o livre mercado dos votos”, que chamamos de “eleição”. E as ferramentas usadas para inviabilizar o sonho teórico da “liberdade” são EXATAMENTE as mesmas. Quando você concentra uma grande quantidade de capital na mão de um ou duas pessoas, um verdadeiro vale surge no tecido social. Estas pessoas são capazes de moldar o universo à sua volta, alterando as preferências dos atores, sejam eles outras pessoas, ou até instituições inteiras.
O dono da AMBEV pode, por exemplo, convencer pessoas (que convencem outras pessoas) que qualquer um “que faça o que ele fez” pode se tornar bilionário. “Basta se esforçar”. Mesmo que não haja nenhum indício de veracidade na afirmação. O mesmo acontece com Luciano Huck, Felipe Neto, Neymar e outros tantos que defendem, aberta ou inconscientemente, a ideia de “meritocracia”. Supostamente todos eles triunfaram num ambiente de “concorrência livre” e através de seus “predicados pessoais”, e foram “justamente” recompensados pelo “mercado”. Dificilmente algum deles admite a variável sorte e NENHUM nunca irá admitir o uso de práticas moralmente abjetas como a exploração de outrem, o conluio para afastar concorrentes ou outras violências comuns.
Historicamente duas são as forças que conseguem rivalizar com o tal “mercado”: de um lado o Estado enquanto instituição regulatória e controladora única da violência física e, por outro, coletivizações organizadas como, por exemplo, sindicatos e partidos políticos. Tanto o estado, quanto as organizações coletivas conseguem “pesar” a balança para se contraporem à influência do “mercado”. Não é por acaso, portanto, que, em momentos de crise econômica (momentos em que se está disputando a posse e uso de recursos econômicos de forma acentuada), uma das ferramentas políticas mais evidentes do liberalismo (e do neoliberalismo) é atacar o “Estado” e “a esquerda”, aqui usada como sinônimo de “ação organizada coletiva”. É o mesmo mecanismo do vírus HIV que antes de qualquer coisa ataca o sistema de defesa do corpo humano. Indefeso, o corpo assiste à tomada das “doenças oportunistas” e acaba por sucumbir a uma gripe.
O fascismo é uma destas “doenças oportunistas” e a mediocridade de Bolsonaro, por exemplo, é semelhante a um grande organismo morrendo por ter sido infectado por uma gripe. Em condições normais, a gripe seria debelada, mas, com o liberalismo tendo destruído todo o sistema de defesa do corpo, a gripe é incontornável e letal.
Durante os governos do PT, o Estado alterou a correlação de valores do liberalismo. A educação passou a ser prioridade, a defesa das minorias era essencial, o fortalecimento do trabalho frente ao capital, a preservação do meio ambiente, a pluralidade na comunicação e tudo isto mesmo que houvesse custos. Não é barata uma educação inclusiva de qualidade, nem a manutenção de várias instituições de proteção da Amazônia. Não é barato manter uma democracia viva, plural e inclusiva, ou um judiciário imparcial, célere e efetivo. Contudo, a lógica do Estado não é a lógica do “mercado”. Coisas que não visam lucro são essenciais e não podem ser pesadas com o mesmo raciocínio de Lehmann ou Huck.
Bolsonaro, como uma doença aproveitadora, tomou o poder quando os liberais usaram todos os seus recursos para desmantelar a ideia de “Estado” e mesmo de “democracia”. O fascismo recalibrou os valores da sociedade. O conhecimento passou a ser desimportante, professores não conseguem mais se sustentar, artistas estão sendo atacados, a imparcialidade do poder judiciário foi extinta e a diversidade do legislativo está na UTI. O meio ambiente é menos importante do que o interesse do “mercado”, o trabalho tem menor tamanho do que o capital e democracia, nesta nova visão, é a imposição por meio da força das vontades incutidas na cabeça de um número de pessoas que são pintadas como “maioria”.
A porta para isto tudo, contudo é a noção de “livre mercado” e “meritocracia”, com a qual os liberais e neoliberais desmantelaram as instituições e a própria democracia. A luta hoje no Brasil é entre a ditadura do capital com média violência (liberalismo) ou a violência pura com mediana capacidade de ação do capital (fascismo). Nenhuma das duas alternativas é aceitável para os trabalhadores ou para qualquer pessoa com um mínimo de humanidade. E quando a polícia que permite que um nazista rico tome sua cerveja num bar público é a mesma que grita e ameaça professores dentro de escolas passou o momento de reagirmos. Ou pegamos os remos para nos defender, parando a canoa, ou, em breve, estaremos remando com as mãos e eles é que usarão os remos no nosso lombo.