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sábado, 30 de março de 2019

“Em uma democracia, um golpe jamais pode ser festejado”, afirmam juízes em nota





Do Justificando:


A Associação Juízes para a Democracia (AJD), entidade não governamental e sem fins corporativos, que tem dentre seus objetivos estatutários o respeito aos valores próprios do Estado Democrático de Direito, vem, diante das manifestações estatais no sentido de se comemorar o golpe de 1964, manifestar seu veemente repúdio ao ato.
Aproxima-se a data na qual, em 1964, um golpe militar instituiu uma longa ditadura civil-militar no Brasil. O atual governo, segundo informou o porta-voz da presidência, Otávio Rêgo Barros, pretende realizar as “comemorações devidas” com relação ao 31 de março de 1964, cujos eventos resultaram no golpe civil-militar de 1º de abril de 1964.
Na data de 1 de abril de 1964, as forças armadas assumiam o governo brasileiro, no que chamaram de “revolução”, sob o pretenso fundamento de uma “ameaça comunista” que justificaria a instituição de uma nova ordem de cassação de liberdades e direitos. 
Por ironia, a data é popularmente conhecida como o “dia da mentira”, que fez com que os apoiadores do golpe simplesmente adequassem o evento histórico para o dia anterior: o 31 de março que agora se pretende celebrar.
A data está longe de ser a única imprecisão histórica que o atual Presidente da República comete. Não houve revolução, mas um golpe civil-militar que destituiu o presidente democraticamente eleito, João Goulart. Não havia ameaça comunista, como já provaram documentos oficiais como o relatório da Comissão Nacional da Verdade e diversos historiadores. 
Em 1964, as forças que promoveram o golpe civil militar precisaram reeditar a história para adequar à narrativa que lhes permitiu tomar de assalto o poder, o quebrar a ordem constitucional vigente.
Um governo pretensamente democrático não pode exaltar uma data que simboliza o fim da democracia no Brasil, que passou a ser governado por uma ditadura durante mais de duas décadas.
É inaceitável que um governo que se pretenda democrático exalte um período obscuro de nossa história, em que os mais comezinhos valores democráticos foram vilipendiados pelo regime imposto. 
A deposição de um presidente legitimamente eleito pelo povo, a tortura institucional, os assassinatos e os desaparecimentos perpetrados pelo Estado, o enfraquecimento do Poder Judiciário, a cassação de parlamentares, o desrespeito à liberdade de imprensa, o desprezo pelos direitos e garantias fundamentais, além de outros atos autoritários, somente devem ser lembrados com o escopo de nunca mais serem repetidos, e jamais festejados, principalmente através do patrocínio estatal.
Ressalte-se que a sistemática política de violação de direitos e extermínio de opositores da ditadura impôs ao Brasil duas condenações pela Corte Interamericana de Direitos Humanos ao julgar os casos Vladimir Herzog e Gomes Lund. 
A comemoração institucional do golpe de 1964, além de ser mais um episódio vergonhoso da nossa história, é um ato tendente ao enfraquecimento da democracia. À rigor, a Presidência da República faz apologia a um fato histórico que,na atual ordem constitucional, é descrita como crime imprescritível e inafiançável nos termos do artigo 5, XLIV da Constituição de 1988. 
Em última instância, a celebração proposta pelo Presidente  é desrespeitosa e atinge os direitos de honra e imagem  das/os cidadã(o)s que reconhecidamente sofreram com as perseguições, violências, tortura, desaparecimentos forçados durante a ditadura civil-militar e de suas famílias.
Ao celebrar o golpe, o Presidente eleito vale-se da mesma prática utilizada em 1964. Corrompe a história num revisionismo infundado para apagar da memória institucional e coletiva a lembrança dos direitos que foram suprimidos e a luta dos que resistiram. 
Privar um povo de sua história, da memória e da verdade é um ato de tirania de um governo que macula o passado para tentar usurpa-lhe do futuro. 
O regime democrático é uma frágil conquista civilizatória, dependendo sua perenidade de sua intransigente e constante defesa por todos aqueles que com ele tem compromisso.
Inexiste outro caminho para a convivência pacífica dos indivíduos, da pluralidade de ideias e da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, se não for através da democracia. Um golpe, que é a antítese de sua essência, deve ser execrado e jamais comemorado por um Estado que pretende ser classificado como Democrático de Direito.
Por essas razões, a Associação Juízes para a Democracia (AJD) manifesta veementemente seu repúdio contra a comemoração estatal do golpe de 1964, ato que viola e enfraquece o Estado Democrático de Direito e conclama todas/as/os seus associadas/os e todas/os que prezam pela democracia a manifestar-se ,de todas as formas possíveis, pelo direito à memória, à verdade e ao futuro da democracia brasileira.
São Paulo, 27 de março de 2019.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Ernesto Samper, ex-secretário geral da Unasul e ex-presidente da Colômbia: "Quem condenou Lula não buscou justiça, mas uma vitória política"



“Não há um único dos princípios universais do devido processo legal que não tenha sido violado no caso do ex-presidente Lula”, disse Ernesto Samper

Do Diário do Centro do Mundo:

O ex-secretário da Unasul e a perseguição a Lula: “não buscam justiça, mas uma vitória política”. Por Joaquim de Carvalho

 
Ernesto Samper, na entrevista concedida no Instituto Lula, ao lado de Luiz Dulci

Ernesto Samper foi presidente da Colômbia e secretário-geral da Unasul — a União das Nações Sul-Americanas. Hoje, um dia antes de visitar Lula na prisão em Curitiba, ele esteve em São Paulo, onde deu entrevista coletiva para falar sobre o caso Lula e suas implicações no continente, ao lado do ex-ministro Luiz Dulci — o DCM participou.
“Não há um único dos princípios universais do devido processo legal que não tenha sido violado no caso do ex-presidente Lula”, disse.
A posição de Samper sobre o processo de violência institucional no Brasil já era conhecida desde 2017, quando deixou a secretaria-geral da Unasul depois de não conseguir formar uma comissão para investigar o “golpe branco” no país.
Na ocasião, não conseguiu também aprovar uma medida que denunciava o afastamento de Dilma como “ruptura democrática”.
Para ele, o golpe branco em Dilma e a prisão de Lula são duas faces da mesma moeda: o avanço da direita no continente através da atuação de juízes, em aliança com grandes grupos de comunicação.
“São atores políticos, que estão fazendo política sem responsabilidades políticas. Suplantaram partidos políticos em aliança com grandes grupos empresariais de comunicação. Estou falando de juízes e promotores que são apoiados midiaticamente e também por organizações internacionais que intervêm em nossos assuntos internos”, assinalou.
Há dois meses, Samper publicou um artigo para apontar nove violações do devido processo legal contra o ex-presidente: acusações sem prova, provas obtidas ilegalmente, violação do princípio da presunção de inocência, ausência de um juiz natural, parcialidade do magistrado, violação da intimidade, constrangimento, enquadramento em leis que não existiam e prisão antes de esgotados todos os recursos.
“Não há nenhuma prova que o condene. Não apareceu a prova cabal que estavam buscando os seus inimigos. Creio que o que eles estão buscando não é uma sentença justa, mas uma vitória política”, declarou Samper, que é advogado.
Ressaltou, entretanto, que Lula não está sozinho. Segundo ele, a comunidade internacional tem clareza de que o processo contra Lula não é justo.
Samper fez elogios à liderança de Lula no continente e lembrou do dia em que o conheceu, quando Lula ainda era presidente. Primeiro, falou José Mujica, então presidente do Uruguai, muito aplaudido. Depois Lula.
Samper ficou impressionado com o carisma de Lula. Seu discurso foi em português, poucos entenderam, mas a forma como o ex-presidente brasileiro fez as colocações emocionou a todos. “É uma energia que impressiona”, disse.
O ex-secretário-geral da Unasul destacou a habilidade de Lula para construir consensos e a falta que ele faz no processo de construção da unidade sul-americana.
O futuro da Unasul — esvaziada neste momento — depende do resultado das próximas eleições no Brasil. 
“Se Lula ganhar as eleições no Brasil, a Unasul tem futuro. Não há outra pessoa que possa convocar um consenso neste momento senão Lula. Ele é muito poderoso, tanto na esquerda quanto na direita. É como um transatlântico”, disse.
A Unasul se esvazia num momento em que o continente mais precisa dela. Citou a tensão existente entre Colômbia e Venezuela e a possibilidade do conflito ser usado como pretexto para uma interferência dos Estados Unidos na América do Sul.
Relacionou a entrada na Colômbia na OTAN, organização que nasceu durante a guerra fria, como parte desse processo de interferência.
A tensão entre os dois países aumentou tanto que colocou o continente sob o risco de um confronto armado.
Seria uma possível uma guerra?
Samper ouviu a pergunta, deu um leve sorriso e disse:
“Estamos no país do realismo fantástico. Tudo pode acontecer”, alertou o ex-presidente. 
Ele se referia a Colômbia, terra de Gabriel García Marquez, que com sua obra possibilitou ao mundo conhecer o realismo fantástico.
Mas poderia muito bem estar falando do Brasil e do processo contra Lula.