GOLPISTAS ASSANHADOS 3: Heleno também comete crime de responsabilidade
General Augusto Heleno: esperava-se que fosse atuar como força de contenção. Em vez disso, ele vem radicalizando posições antidemocráticas Imagem: Dida Sampaio/Estadão
Reinaldo Azevedo
Colunista do UOL
26/02/2020 10h01
Mais uma vez, chamo à memória de vocês o que dispõe o Artigo 2º da Lei 1.079:
Art. 2º Os crimes definidos nesta lei, ainda quando simplesmente tentados, são passíveis da pena de perda do cargo, com inabilitação, até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública, imposta pelo Senado Federal nos processos contra o Presidente da República ou Ministros de Estado, contra os Ministros do Supremo Tribunal Federal ou contra o Procurador Geral da República.
Assim, como se nota, ministros de Estado também podem cometer crime de responsabilidade. A questão, nesse caso, é o que fazer.
Recentemente, o ministro Edson Fachin arquivou uma denúncia por crime de responsabilidade contra o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente. Por quê? Fachin repetiu entendimento fixado pelo Supremo em 1984, ainda na vigência da Constituição anterior, segundo o qual o processo de impeachment dos ministros de Estado, por crimes de responsabilidade autônomos, não conexos com infrações da mesma natureza do presidente da República, ostenta caráter jurisdicional, devendo ser instruído e julgado pelo STF. Nesse caso, prevalece a natureza criminal do processo, cuja apuração judicial está sujeita à ação penal pública da competência exclusiva do MPF. Não passa pelo Congresso.
Vale dizer: cabe ao Ministério Público Federal denunciar ao Supremo um ministro de Estado por crime de responsabilidade autônomo, não conexo com o cometido pelo presidente.
Assim, se o Ministério Público Federal continuar a pisar nos astros — ou na democracia — distraído, nada acontece. De toda sorte, há um vazio a ser preenchido: jogar a tigrada contra o Congresso, como faz também o general Augusto Heleno, não é um crime autônomo, certo?
A sua conexão com o que faz Bolsonaro está mais do que evidenciada.
Nesse caso, faz-se o quê?
Não esperem que o MPF que aí está, contaminado pelo lava-jatismo autoritário e golpista, vá se mobilizar
"A bancada ruralista pode ter recebido a sua Antilei Áurea e, depois de ter pago com votos, vê-la revogada. Ninguém se esqueça de com que nível de escroques se lida quando se trata do atual governo do país."
Marcelo Auler, em seu blog, levanta hoje a hipótese de que haja um conteúdo de encenação ou de, ao menos, um “se colar, colou” na portaria do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, reduzindo a capacidade da fiscalização em caracterizar e punir o trabalho escravo no Brasil.
A prevalecer a Portaria. o governo Temer viverá mais um escândalo internacional. Tal como ocorreu ao tentar extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca). No caso da Renca, a pressão interna e externa foi tanta que o presidente golpista e mal visto por todos abandonou a ideia um mês depois de assinar o primeiro decreto liberando a área à sanha das mineradoras. A tendência da pressão internacional no caso da fiscalização ao trabalho escravo é real. Não será estranho, inclusive, se uma censura, ainda que de forma diplomática ou, quem sabe, como se fosse uma oração, partir do Papa Francisco.
Mas, em uma hipótese que deve ser considerada em se tratando do grupo que se aboletou no poder e dele não quer sair, pode estar em trama um jogo maquiavélico. A Portaria foi editada em surdina e veio ao conhecimento público -estrategicamente, como dissemos – às vésperas de a Câmara decidir o futuro da denúncia contra o presidente. Ela atende os anseios da bancada ruralista. Quem garante que, após obter os votos destes deputados, o governo golpista não irá, invocando a pressão popular e possivelmente externa, dar o feito por não feito?
Nada impede que, como no caso da liberação da reserva amazônica, alguém tenha comprado, recebido e, ao final das contas, “ficado sem”.
E como cobrar a devolução do que foi feito na sombra e na surdina?
A bancada ruralista pode ter recebido a sua Antilei Áurea e, depois de ter pago com votos, vê-la revogada.
Ninguém se esqueça de com que nível de escroques se lida quando se trata do atual governo do país.
E nós aqui ficamos na torcida que o bandido esteja sendo bandido com os bandidos.
“NÃO É PRA TIRAR madeira, é pra tirar minério que eu quero a terra”, explicou-nos no final de abril um grileiro do Pará que se dizia dono de alguns milhares de hectares dentro do Parque Nacional do Jamanxim. A madeira retirada de lá, ele já saqueou e “esquentou” com documentos que atribuíam outra origem a ela e possibilitaram sua venda. Mas um garimpo de grandes dimensões para extração de cassiterita, como é de seu interesse agora, dificilmente passaria despercebido como a pilhagem madeireira, uma vez que as Unidades de Conservação (UCs) constituem um enorme obstáculo ao negócio.
No final de 2016, entretanto, o governo federal, muito “generosamente”, editou as Medidas Provisórias (MP) 756 e 758, que determinam, entre outras alterações, a redução do Parque do Jamanxim e a alteração de parte da Floresta Nacional do Jamanxim para a categoria de Área de Proteção Ambiental (APA). Na prática, trata-se de um ato que retira proteção da área, uma vez que a APA é um tipo de UC pouco restritiva – as terras podem ser privatizadas, e o Estado pode autorizar desmatamento e a garimpagem em seu interior.
Montagem: Mauricio Torres
Quando foram analisadas pelo Congresso, no final de maio, como seria previsível, as MPs se tornaram ainda mais agressivas, chegando a colocar sob ameaça quase 1,2 milhões de hectares de áreas protegidas. Transformados nos Projetos de Lei de Conversão (PLVs) 4 e 5, os textos reduzem a proteção das áreas em 600 mil hectares que estão em uma região “sob intensa disputa, que sofre com o avanço da fronteira agropecuária, megaprojetos, atividades ilegais de exploração de madeira e minérios e a grilagem de terras públicas”, como manifestou a Ascema, (Associação Nacional dos Servidores Ambientais). A entidade classificou a redução das UCs como “atos autoritários de supressão de direitos feito por um governo golpista, com o apoio da bancada ruralista do Congresso Nacional”.
Na região que visitamos, no sudoeste do Pará, pretende-se a redução do Parque do Jamanxim e a criação, no lugar, da APA Rio Branco. Entretanto, não encontramos nada que justificasse a mudança. Ao contrário. Não há uma única ocupação efetiva, com morador, roça ou qualquer indício da presença de qualquer posseiro. Por outro lado, a área está permeada de grandes garimpos ilegais e ramais madeireiros. Esses seriam os grandes beneficiários da recategorização da UC, além da grilagem que controla a região.
O presidente Temer tem até 22 de junho para sancionar ou vetar, total ou parcialmente, os PLVs. Em comunicado, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que o ministro José Sarney Filho recomendou o veto, entre outros motivos, porque “as MPs alteradas representam também um retrocesso diante dos esforços do governo brasileiro em cumprir os compromissos assumidos no Acordo de Paris para combater o aquecimento global”.
“Não tem mais ponte, não. A gente derrubou pro Ibama e ICMBio não perturbarem.”
Entre abril e maio, a reportagem seguiu pela BR-163, a Cuiabá-Santarém, para apurar denúncias da retirada ilegal de grandes quantidades de madeira de unidades de conservação no Pará. Já havíamos confirmado o saqueio madeireiro com imagens de satélites e sabíamos que passaríamos primeiro uma ponte, construída pelos próprios madeireiros, sobre o Rio Branco e, no final da estrada, o acampamento de extração de madeira ilegal, onde esperávamos encontrar, além do crime ambiental, trabalhadores em condições análogas à escravidão.
Pegamos uma precária estrada de terra que parte da BR-163 rumo ao leste, um pouco ao sul da Vila de Três Bueiros, no município de Trairão (PA). Em poucos quilômetros, entretanto, nossa caminhonete ficou praticamente enterrada na lama. Enquanto tentávamos desencalhar o carro, apareceu um homem de cerca de 40 anos, vindo na direção contrária. Bastante desconfiado, como todos na região, e visivelmente exausto, ele nos contou que vinha de um garimpo muito adiante. Foi nosso primeiro contato com a gravidade da situação envolvendo os garimpos de cassiterita dentro da unidade de conservação, operando na total ilegalidade.
O homem contou que havia partido do garimpo, onde as condições de trabalho eram terríveis e, ainda por cima, não estava recebendo nada por seu trabalho. Falou, ainda, que caminhava desde a manhã do dia anterior e que havia partido com um companheiro que, esgotado, havia ficado para trás. Após uma última olhada para trás, ele sumiu tão rapidamente quanto apareceu minutos antes.
O socorro veio de onde menos esperávamos. Um madeireiro chegou em um trator e, com uma impressionante prática em lamaçais, nos rebocou de lá e avisou, em tom amistoso e sem qualquer constrangimento: “não tem mais ponte, não. A gente derrubou pro Ibama e ICMBio não perturbarem. Sem ponte, eles só chegam lá se for de helicóptero”.
Fomos mais ao sul, até onde a BR-163 atravessa o rio. Fretamos uma canoa com motor de popa (conhecida na região como “rabeta”) e subimos o Rio Branco por uma hora, ao fim, vimos que o madeireiro estava certo. Quando a voadeira dobrou o último meandro do rio antes da ponte, vimos uma grande balsa atracada na margem leste do rio. Da ponte, só restavam alguns resquícios da antiga estrutura de madeira. A travessia agora era operada pela balsa, que ficava atracada do lado da UC e sobre a qual garimpeiros e madeireiros tinham total controle. Só atravessava quem eles quisessem.
Balsa sobre o Rio Branco, no limite do Parque Nacional do Jamanxim, usada exclusivamente por garimpos ilegais e saqueio madeireiro no interior da UC. A área que pode virar APA Rio Branco e beneficiar a exploração criminosa.
Foto: Daniel Paranayba
No porto da balsa, nova surpresa: não encontramos madeireiros, mas garimpeiros que tentavam alcançar os cabos para puxar a balsa até eles. Sem querer conversa, eles deram a entender que o arranjo com o dono do garimpo saíra errado e eles teriam “ficado rodados” – expressão comum em garimpo para dizer que ficaram sem ter como ir adiante ou voltar. Estavam há dois dias em um acampamento improvisado, pouca comida e sem água potável.
Conforme conhecíamos os garimpeiros, ficava claro que são, comumente, trabalhadores rurais da região vivendo em um estado de aguda exploração por parte dos donos de garimpo, que acumulam fábulas às suas custas. Algo semelhante ao crime organizado da madeira, que explora, muitas vezes, os mesmos trabalhadores em uma cadeia que acaba nas grandes madeireiras com fachadas de legalidade.
“Retirar madeira hoje até que é fácil, difícil é vender ela sem documentação”
É bastante comum na região que envolvidos com crime ambiental, como Luiz Carlos Tremonte, que, além de dono de madeireira por muito tempo, foi por anos presidente do Sindicato das Indústrias Madeireiras do Sudoeste do Pará (Simaspa) e Walmir Climaco, atual prefeito de Itaituba (PA), alcem posições políticas. O prefeito de Trairão, Valdinei José Ferreira, mais conhecido como Django, também madeireiro, acumula multas milionárias extração ilegal de madeira.
Luiz Carlos Tremonte, liderança e empresário do setor madeireiro no oeste paraense.
Foto: Daniel Paranayba
O crime ambiental é tratado como um detalhe burocrático. Quando perguntamos a Climaco se o madeireiro enfrenta dificuldades em explorar madeira, o prefeito responde diante da nossa câmera: “retirar madeira hoje até que é fácil, difícil é vender ela sem documentação”.
“Você faz um projeto de manejo aqui, que tem pouca madeira, e tira do lado, ou de outro canto qualquer. E aquele documento serve pra esquentar essa madeira. Não é legal falar isso? Não é, mas é verdade e todo mundo sabe”, explica Tremonte, um insuspeito defensor do setor madeireiro.
Ele alega que a exploração madeireira é tão saudável para a floresta que chega a propor que o governo criasse um programa para pagar aos madeireiros para tirarem madeira, pois “o madeireiro pereniza a floresta”. Ainda assim, é taxativo: “O setor madeireiro opera na ilegalidade”
Valmir Climaco, prefeito de Itaituba (PA):”difícl é vender sem documentação”
Foto: Daniel Paranayba
Procuradora da República, Fabiana Schneider explica que a atividade madeireira ilegal é “altamente lucrativa e socialmente aceita, ou até mesmo ‘valorizada’, colocando o criminoso na falsa condição de empresário bem sucedido e gerador de empregos”. Entretanto, segundo a procuradora, essa aura encobre a “prática dos crimes de escravidão contemporânea, homicídios no campo, invasão de terras públicas, receptação e furto de bem público, além de uma enorme cadeia de corrupção”.
Trabalho escravo
Para Tremonte, um grande problema que relega o setor madeireiro à ilegalidade é a Justiça Trabalhista, que, segundo ele, “pega muito pesado na região. Você [o patrão] é sempre errado”. Para o Tremonte, a Justiça Trabalhista “acha que o patrão é inimigo. E patrão não é inimigo, muito pelo contrário”.
Não é a opinião do frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha Contra o Trabalho Escravo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), um frade dominicano internacionalmente conhecido por sua luta no combate à escravidão contemporânea. Segundo Plassat, a situação dos trabalhadores na exploração – basicamente ilegal – de madeira do oeste paraense vai além do não cumprimento da legislação trabalhista pelos patrões: “pelo que vem sendo evidenciado nas pesquisas dedicadas a essa questão, é impossível não haver trabalho escravo na operação ilegal das madeireiras.
Acampamento na beira do Rio Branco, no limite do Parque Nacional Jamanxim. Trabalhadores em condições análogas à escravidão são comuns no saqueio madeireiro e nos garimpos ilegais.
Foto: Daniel Paranayba
A razão é simples: na forma como vem sendo conduzida naquela região, a própria extração de madeira já nasce ilegal, criminosa, pois, para operar, ela requer a utilização de licenças fraudulentas, para poder saquear áreas onde não seria permitido esse tipo de extração. Uma atividade criminosa dessa natureza só pode continuar funcionando se for na invisibilidade. Essa exigência só se encontra ‘satisfeita’ na imposição do trabalho escravo: zero infraestrutura, zero rastro, vai e volta e some no mato”, explica o dominicano.
O colono Derisvaldo Moreira já foi vítima das comuns condições de trabalho na exploração ilegal de madeira na região de Uruará, na porção paraense da Transamazônica. “A coisa é feia. Quando não mandam comida e a gente tem que caçar é até melhor, senão é só carne podre e comida azeda”, conta. “Se a água é de igarapé, a gente bebe. Se não tem por perto, é o trator que traz aqueles tambor de 200 litros de água que fica lá até ficar verde. É beber aquilo ou passar sede. A gente bebe”, explica.
As precárias condições não se limitam aos acampamentos na floresta. Um professor de uma comunidade perto de Trairão, sem querer se identificar por medo de represálias, nos relatou que entre seus alunos de 13 a 15 anos, vários têm dedos e mãos mutilados por acidentes na madeireira em função da qual a vila se sustenta.
E, não foi só na exploração ilegal da madeira que encontramos trabalho escravo. Houve ainda os garimpos.
A febre da cassiterita
Ao que parece, por conta das oscilações do mercado e do esgotamento das madeiras mais valiosas nas faixas de até 100 km da BR-163, o garimpo ganhou protagonismo como atividade ilegal no interior daquelas UCs. “Vocês estão por fora da realidade daqui. A estrada chegou aqui por causa da madeira, mas agora a riqueza tá no minério”, nos contou um dono de garimpo no interior do Parque do Jamanxim. Ele se referia ao que parece uma nova febre na região marcada pelo ouro: a exploração de cassiterita, principal fonte do estanho utilizado na produção de latas.
Após não termos conseguido chegar ao nosso destino pela estrada e nem pelo rio, a terceira alternativa foi por ar. Decolamos de Itaituba em um voo tenso, debaixo de muita chuva, e com o monomotor sem a porta do lado direito, para facilitar as filmagens e as fotografias.
“Vocês estão por fora da realidade daqui. A estrada chegou aqui por causa da madeira, mas agora a riqueza tá no minério.”
Depois de uma hora de voo, o que encontramos foi estarrecedor: igarapés e suas matas ciliares completamente destruídos, máquinas de garimpo operando livremente e muitos barracos que evidenciavam a condição de trabalho escravo, como nos descreveu o garimpeiro que encontramos.
Montagem: Mauricio Torres
Na segunda semana de junho, o Ibama deflagrou uma operação com objetivo de desarticular grupos criminosos que exploravam cassiterita e ouro na região das UCs. Renê Luiz de Oliveira, coordenador-geral de Fiscalização Ambiental do órgão, falando em relação ao local onde se pretende reduzir o parque, explicou que “há ilícitos em todo lugar para onde se olha”. De toda a intensa exploração de garimpos e madeira, “nenhuma atividade se encontrava devidamente licenciada”, complementa o coordenador.
No interior da Floresta Nacional de Altamira, rio é destruído por garimpo.
Foto: Daniel Paranayba
Tudo se torna ainda mais chocante ao percebermos que toda a pilhagem e os impactos que vimos correm o risco de serem amplamente beneficiados por uma Medida Provisória.
Em um quadro onde temos atividades ilegais fora de controle dentro de UCs, sua redução acaba sendo uma didática lição de que basta que grileiros, madeireiros e donos de garimpos invadam e saqueiem uma UC que ficarão com a terra.
Mais de 140 organizações se reuniram no movimento #Resista e criaram uma petição para fazer pressão pelo veto presidencial. “A aprovação das MPs seria um desastre para a Amazônia com potencial para fazer explodir o desmatamento ao longo da BR-163 e abrir o precedente para redução da proteção em outros estados da região”, diz Ciro Campos, assessor do ISA.
Colaboração: Isabel Harari
Esta matéria é produzida em colaboração com Mongabay, portal independente de jornalismo ambiental.
O BRASIL NÃO É um país de metáforas, costuma dizer uma amiga. Por aqui, mar de lama são resíduos de barragem rompida, zica é questão de saúde pública e o partido da Ponte para o Futuro é o mesmo que derruba ciclovia em sua administração.Desta vez a não metáfora é uma manchete de portal: “Brasília está em chamas”.
Brasília ficou literalmente em chamas após mais de 35 mil manifestantes se reunirem contra o governo e as reformas Trabalhista e da Previdência. Até onde se sabe, um grupo com cerca de 50 pessoas, após confusão com a polícia, promoveu quebra-quebra, incendiou os ministérios da Agricultura, da Fazenda e da Cultura e depredou outros dois prédios, segundo o UOL. Todos os prédios da Esplanada foram evacuados, e as imagens de documentos em chamas e de vidraças, persianas, paradas de ônibus, placas de trânsito, orelhões, banheiros químicos arrebentados no entorno de Brasília se espalharam como num rastilho.
Fogo no Ministério da Agricultura durante protestos na Esplanada.
Foto: AFP/Getty Images
Michel Temer decretou ação de garantia de lei e da ordem e, como se confirmasse o delírio de saudosos da ditadura que se multiplicaram em outras manifestações recentes pelo país, tropas federais cercaram o Palácio do Planalto e o Itamaraty.
A ação acontece no pior momento do governo Temer, que nos últimos dias parecia finalmente unificar a nação no sentido da rejeição.
Quem até ontem era chamado de revanchista por gritar “Fora, Temer” e acusar o chamado golpe parlamentar ganhava a companhia de parte da opinião pública que fatalmente acompanhou revoltada a escalada do noticiário contra um governo cercado por delinquentes de todo tipo.
Acuado e prestes a cair de maduro, Temer fatalmente usará as cenas como argumento político da ordem (a que ajudou a degringolar) contra o caos – este supostamente provocado por partidários interessados em sua queda. Sabe que, em boa parte da opinião pública, apenas o medo da “baderna”, citada há pouco pelo seu ministro da Defesa, Raul Jungmann, é maior do que a sua rejeição.
Em seu pronunciamento, o ministro justificou a convocação das tropas federais dizendo que a marcha, “prevista como pacífica, degringolou para a violência, desrespeito, ameaça às pessoas”. Segundo ele, “o presidente da República faz questão de ressaltar que é inaceitável a baderna e o descontrole. E que ele não permitirá que atos como esse venham a turbar um processo que se desenvolve de forma democrática e com respeito às instituições”.
Sem força política, Temer ganhou uma brecha para fazer o que governantes impopulares fazem nas horas de desespero: apelar para o medo. Não faltará quem veja nessa brecha a chance de alimentar o seu próprio Reichstag. O mais provável, porém, é que as cenas do incêndio e da pancadaria em Brasília sirvam como epígrafe de um governo que prometeu pacificar o país e o devolveu em chamas.
Nome de Serraglio é definido na mesma semana em que Padilha, chefe da Casa Civil, é citado em depoimento de ex-assessor do presidente. Artigo de George Marques, para o The Intercept Brasil:
EM MEIO AO CAOS na segurança pública dos estados e a iminência do fim do sigilo das delações da Odebrecht na Lava Jato, o presidente Michel Temer definiu um ex-aliado de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para o Ministério da Justiça. A escolha do também pmedebista Osmar Serraglio (RS) evidencia uma vitória do PMDB na Câmara – que reivindicava o posto a qualquer custo – em uma queda de braço com a bancada mineira do partido, encabeçada por Fábio Ramalho, vice-presidente da Casa.
A Polícia Federal está subordinada ao Ministério da Justiça. Ainda que ela tenha autonomia de atuação, o ministro da Justiça pode, por exemplo, recomendar a troca de cargos da órgão. Por isso, investigadores da Lava Jato manifestaram receio de que possíveis mudanças de comando tenham impacto nas investigações em curso. Às pressas para seu nome não cair na fritura, Serraglio se apressou em dizer que a Lava Jato é intocável.
Michel Temer durante reunião com o ministro-chefe da Casa Civil Eliseu Padilha.
Foto: Marcos Correa/PR
O PMDB, como a maioria dos partidos no Congresso, já tem diversos integrantes entre os citados e investigados na Lava Jato e, ao que tudo indica, aparece de forma ainda mais ampla nas delações de executivos da Odebrecht. O mais recente caso noticiado envolve dois nomes próximos a Michel Temer. Em depoimento à Procuradoria-Geral da República, o ex-assessor presidencial e amigo do presidente José Yunes contou que recebeu um pacote a pedido de Eliseu Padilha (PMDB/RS), ministro da Casa Civil e braço-direito de Temer. Segundo Yunes, Lucio Funaro, tido como operador de propinas de Eduardo Cunha, teria aparecido em seu escritório, em São Paulo, e deixado a encomenda para Padilha.
O escolhido por Temer para o ministério foi relator, entre 2005 e 2006, da CPI dos Correios. Recentemente, Serraglio também foi presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na Câmara dos Deputados. Até então, o parlamentar era visto como integrante da tropa de choque do deputado cassado Eduardo Cunha, que hoje ocupa uma minúscula cela em Curitiba. Cunha, à época, bancou a indicação de Serraglio para a CCJ. Com a força política que tinha, conseguiu o que queria.
A comissão é a última instância da Câmara para se recorrer em casos de irregularidades no descumprimento do regimento da Casa antes que as votações sejam remetidas para o plenário. Após o Conselho de Ética recomendar a cassação de Cunha e o deputado perder por unanimidade no STF, ele viu na CCJ a última trincheira de sobrevivência, antes que seu processo de cassação fosse enviado para votação.
Sob o comando de Serraglio, a CCJ também foi palco de diversas polêmicas ano passado, como trocas de integrantes com objetivo de favorecer Eduardo Cunha. Acusado por parlamentares de proteger o então presidente da Casa, Serraglio viu a ira dos colegas em julho do ano passado. Veja no vídeo abaixo o momento da confusão:
Desde que o então ministro da Justiça Alexandre de Moraes foi indicado por Temer para o Supremo, o PMDB da Câmara reivindicava o posto. O principal entusiasta da campanha era o atual vice-presidente da Câmara, Fábio Ramalho (PMDB/MG). O desejo dele era que a vaga fosse entregue a algum nome que privilegiasse a bancada mineira. Deputados têm manifestado a Temer que Minas estaria subaproveitada no governo. Não por acaso, o nome do mineiro Rodrigo Pacheco (MG) despontava como favorito.
Também cotado para o Ministério da Justiça, o ex-ministro do STF Carlos Velloso rejeitou o convite. O desdém de Velloso, que chegou a afirmar que o presidente buscava alguém “para salvar o Brasil“, teve como justificativa cláusulas de exclusividade que seu escritório de advocacia e seus clientes impuseram.
Apesar da aparente sinergia do PMDB em torno do nome de Serraglio, a definição já começa a produzir sequelas. Inconformado com a derrota de Minas, Fábio Ramalho anunciou rompimento formal com Temer, após a escolha de Serraglio para o cargo. Pela vontade dele, agora é a hora de impor derrotas ao Planalto em votações. “Parece que o governo tem ódio de Minas”, disse.
Tudo que o Palácio do Planalto menos espera neste momento é que sua base política no Congresso entre em ebulição. Até porque, motivos de sobra para desorganizar o tabuleiro político estão pré-arranjados para depois do Carnaval, como as reformas em discussão (Trabalhista e Previdenciária) e também as delações da Odebrecht.
A cada nomeação para cargos na Esplanada o governo emite sinais. A escolha de Moraes para o STF, um político de carteirinha, é um sinal. Ao sugerir um deputado do PMDB ao invés de um nome técnico para o Ministério da Justiça, Temer demonstra que sua atuação está em manter a sua base aliada no Congresso coesa, como questão de sobrevivência política mesmo. Para isso, os cargos viram moedas de troca.