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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Coronavírus: o sistema operacional que roda em Brasília e a reengenharia social para manter a direita no poder. Por Ferreira



 "Atores que se promovem mutuamente, enquanto o Sistema Operacional, oculto pela criptografia roda a sua agenda secreta da Operação Pandemia global: com recursos públicos injetar liquidez no cassino financeiro dos bancos e bolsas, reciclar figuras da extrema-direita para um futuro cenário pós-polarização, com Bolsonaro impedido e PT com registro cassado e... monitorar celulares dentro de uma nova reengenharia social." 


Coronavírus: o sistema operacional que roda em Brasília e a reengenharia social

por Wilson Ferreira

no Cinegnose
O leitor deste Cinegnose deve lembrar do filme “Ela” (Her, 2013) no qual um homem triste e solitário se apaixona pela voz de uma Inteligência Artificial, sem prestar atenção no sistema operacional que roda por trás da interface da tela. A situação desse protagonista é análoga ao atual cenário político e opinião pública sequestrados pela sofisticada guerra criptografada que pula na interface como ícones em uma tela: Bolsonaro X Mandetta, Negacionistas X Ciência, Weintraub X China, Bonsonaro X General Braga Neto, Bolsonaro X governadores, e assim “ad infinitum” numa espiral de simulações de polarização. De repente, por contraste, Mandetta, Doria e Witzel surgem como faróis da Razão e da Ciência. Quando, há não muito tempo, desmontavam o SUS, atiravam em “cabecinhas” e mandavam a polícia atirar em bailes funks. Todos hipnotizados por uma interface criptografada, enquanto por trás roda um sistema operacional (SO) com atores em piloto automático, criando dissonâncias, conflitos e “golpes brancos” para excitar o distinto público. Atores que se promovem mutuamente, enquanto o SO, oculto pela criptografia roda a sua agenda secreta da Operação Pandemia global: com recursos públicos injetar liquidez no cassino financeiro, reciclar figuras da extrema-direita para um futuro cenário pós-polarização, com Bolsonaro impedido e PT com registro cassado e… monitorar celulares dentro de uma nova reengenharia social. 
Perdidas na noite do tempo, estão algumas lembranças das eleições presidenciais de 1989. Entre elas a do candidato do PSDB, Mário Covas.
Às vésperas do segundo turno, Brizola fez uma proposta ousada para Lula: os dois abririam mão das suas candidaturas para Covas disputar com Collor o segundo turno pois teria maior chance de derrota-lo. Ao contrário dos dois, Covas agregaria mais votos, pois não disputaria um duelo de “rejeições”.
Mas os analistas da grande mídia não pensavam assim. Por exemplo: para a Folha de São Paulo, ao contrário, Covas era o mais fraco pois sua estratégia (e personalidade) era incapaz de “produzir acontecimentos”, logo, notícias que pudessem ser repercutidas pelas mídias. Uma opinião “midiacêntrica” própria da Folha, numa época em que vivia o auge da sua modernização editorial chamada “Projeto Folha”, e se via como o centro do mundo.
Passaram para o segundo turno Lula e Collor… e o resto da história, todo mundo sabe.
Onze anos depois, pareceu que Mário Covas tinha aprendido essa lição. Cercado no prédio da Secretaria da Educação no Centro de SP, por uma massa de professores e manifestantes, o então Governador Mário Covas não quis saber: forçou a saída do prédio num rompante, para ser agredido e ficar com um galo na cabeça, sujo de terra e a boca sangrando… ganhou as lentes das câmeras e criou um desgaste importante na imagem do movimento do professorado.
O acontecimento rendeu uma repercussão midiática ainda maior quando se lembrou que Covas vinha de uma recente cirurgia para retirar um tumor cancerígeno…
Hoje, todo o espectro político está refém não de uma simples estratégia de criação de factoides ou pseudoeventos para conseguir repercussão nas páginas e telas da imprensa.
Mas de uma sofisticada estratégia de guerra criptografada com múltiplas camadas, tornando o cenário político atual cada vez mais opaco e, por isso mesmo, hipnotizante. Principalmente para as classes médias, confinadas diante das telas da TV e celulares, acompanhando tudo como uma partida de ping-pong em plena crise da pandemia do coronavírus.
Reis do Ringue…

“Telecatch”

A oposição pede e protocola o impeachment de Bolsonaro. Ato contínuo, o Ministério Público dá parecer favorável a processo que pede cassação do registro do PT … Presidente discute com os governadores Doria e Witzel… Bolsonaro quer queimar o ministro da saúde Mandetta. Mais do que isso! Está tramando sua demissão: Ciúme? Cálculo político? Já está pensando em 2022?
Quando mais o isolamento social se estende e as pessoas estão hipnotizadas nas suas telas, mais se estende o “telecatch” (a ramificação de diversos conflitos artificiais para entreter o respeitável público afastado dos seus trabalhos e presos nas suas residências – conceito deliciosamente irônico do blog “Duplo Expresso”): negacionistas versus cientistas, presidente versus Ciência, Militares versus Mandetta contra Bolsonaro, o “Rasputin” Olavo de Carvalho latindo e fazendo trocadilhos de baixo calão com o sobrenome “Mandetta” …
Então, não mais que de repente, entra o ministro da Educação Weintraub, através das indefectíveis redes sociais, atacando politica e racialmente a China que, por sua vez, exige uma resposta do presidente… de uma hora para outra surgem rumores de um suposto “golpe branco” no qual o general ocupando a Casa Civil assumiria o controle operacional, enquanto Bolsonaro viraria a “rainha louca da Inglaterra”.
Tudo parece rodar como em piloto automático, como um sistema operacional (SO) em um computador: invisível ao usuário, que apenas presta atenção nos ícones da interface.
É o SO da guerra criptografada que visa não apenas produzir acontecimentos (pecado midiático capital de Mário Covas na corrida eleitoral de 1989), mas aplicar uma tática de ocupação da pauta através de uma avalanche de informações dissonantes, contradições, decisões que voltam para trás, desmentidos, ilações ou simplesmente mentiras.
Bolsonaro vai demitir Mandetta na reunião tensa de segunda-feira? Mas o general Braga Neto não havia dado o “golpe branco” e já era o presidente em exercício? Não diziam que era “o homem certo no lugar certo? Funcionários do Ministério da Saúde saem do prédio para manifestarem apoio ao ministro demissionário… e a grande mídia descreve em tons dramáticos: “gavetas estão sendo esvaziadas…”.
E nada acontece. Tudo volta na mesma com Henrique Mandetta e seus assistentes voltando às suas descrições de slides com números e gráficos de contaminados e mortos com sérias suspeitas de estarem subnotificados.
Show de telecatch para o respeitável público

O Sistema Operacional de Brasília

Esse SO que está rodando em Brasília conta com seus atores funcionando no piloto automático: Weintraub posta bravatas para agradar o mainstream da extrema-direita; os governadores juram não ser negacionistas e figuram como fãs da OMS desde criancinhas pensando em serem candidatos por contraste em 2020; Mandetta posa de médico do “paciente Brasil” mesmo depois de ter detonado o programa Mais Médicos e dinamitado o SUS – e só por fina ironia, posa com coletes do SUS nas coletivas de imprensa; e Bolsonaro achando que tudo é pessoal… contra ele. E a grande mídia e a oposição hipnotizadas pela performance desses atores zumbis.
Porém, em última instância, é um SO criptografado que está conectado em tempo real com a verdadeira função da pandemia COVID-19: violenta concentração de riqueza mediante a drenagem do dinheiro público pelos sistemas financeiros – o colapso financeiro causado pelas ganâncias especulativas precisa da mão invisível da liquidez injetada pelo Estado.
Como somos completamente dependentes dos bancos privados para o sistema digital de dinheiro e pagamentos, essa dependência pública dá plenos poderes do sistema financeiro sobre os governos.
Como este Cinegnose vem insistindo, o COVID-19 legitima um crash em slow motion, justificando o papel higiênico do dinheiro público para limpar o estrago especulativo da ganância do “livre mercado” que só aumentou desde a crise de 2008 – clique aqui.

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terça-feira, 2 de abril de 2019

Bancos, empresariado e grande mídia em suas estratégias para manipular a opinião pública segundo Noam Chomsky




O Livro “A manipulação do público” continua bem atual. Nele, Chomsky aborda 10 maneiras de pavimentar a manipulação da opinião pública

Do CineGnose, texto de  Wilson Roberto Vieira Ferreira:


Principalmente a partir das manifestações de rua em 2013, a esquerda perdeu completamente o controle da sua agenda. Desde então, enquanto permaneceu no governo limitou-se a agir reativamente controlando danos. E fora do poder, limita-se a deixar o sangue subir à cabeça e reagir a cada provocação do clã Bolsonaro, aceitando entrar no jogo da guerra semiótica criptografada. Sem conseguir criar uma agenda própria. A recente foi a ordem de Bolsonaro para as casernas comemorarem o golpe militar de 1964 como uma “revolução popular” – escandalizada, esquerda vai às ruas como se quisesse salvar a própria biografia, enquanto o País marcha para “reformas”, uberização do trabalho e extermínio do futuro de uma geração inteira. O linguista Noam Chomsky diria que a oposição está caindo na primeira tática de manipulação: a Distração. Para depois, por em prática as outras nove táticas de criação de falsos consensos na opinião pública.
                  Escrito pelo linguista Noam Chomsky e o crítico de mídia Edward S. Herman, o livro “A Manipulação do Público” continua bem atual. Nessa obra, são detalhadas as dez técnicas de criação artificial de consenso na opinião pública.


São elas: Distração (desviar a atenção daquilo que é realmente importante); Método Problema-Reação-Solução (criar uma situação de terra arrasada para impor medidas de suposta solução); Gradação (aplicar medidas impopulares de forma gradativa e imperceptível); Sacrifício Futuro (é mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que imediato); Discurso Infantilizado (tratar a opinião pública de forma afetuosa ou humorística);
Sentimentalismo e Temor (apelar para o medo e emoção para impedir uma resposta racional ou crítica; Valorizar a ignorância (dar espaço na mídia pessoas medíocres e ignorantes para que o estúpido e o vulgar sejam um exemplo para os mais jovens); Desprestigiar a inteligência (apresentar na produção audiovisual o cientista como vilão e o intelectual como pedante); Incentivar introjeção da culpa (incutir a culpa no indivíduo para dividir a sociedade entre vencedores e perdedores); Monitoramento (pesquisas de opinião e as atual mineração de dados e análises psicométricas em redes sociais para controle de opinião pública).
É claro que cada uma dessas técnicas é diariamente colocada em ação dos telejornais aos programas de entretenimento – por exemplo, nessa segunda-feira o telejornal da Globo “Bom Dia (?) Brasil” destacou uma matéria sobre como o fato de casais esconderem seus gastos de cartão de crédito para o parceiro prejudica o controle das finanças familiares, criando impacto na própria economia nacional. Num inacreditável exemplo de falácia lógica que, lá na Antiguidade, Aristóteles acusava os sofistas:  reductio ad absurdum, redução ao absurdo ou efeito lógico “bola de neve”, para incentivar a introjeção da culpa no incauto brasileiro pela crise econômica sistêmica.
Introjeção da culpa para criar uma sociedade de vencedores e perdedores

Esquerda hipnotizada

Porém, o atual clã familiar que ocupou o governo prima pela tática da Distraçãoao ocupar a pauta midiática com “caneladas”, provocações, bravatas, arroubos de crenças religiosas misturadas com negócios ministeriais etc.
Até aqui, OK! É até previsível que um governo, cuja pauta político-econômica (as “reformas”, cuidadosamente escondidas da opinião pública durante a campanha eleitoral) seja impopular, utilize-se de figuras bizarras e tragicômicas para compor os anti-ministérios (ministérios que se voltam contra si mesmos como Família, Educação e Trabalho) para distrair grande mídia e opinião pública.
Mas o preocupante é quando a oposição parece hipnotizada por essa pauta e passa a responder reativamente a cada provocação, não só retro-alimentando mas também dando pertinência pública aos temas.
Nos últimos dias acompanhamos como a grande mídia e a mídia alternativa deram espaço a mais uma provocação do capitão da reserva: a ordem do presidente Bolsonaro para que fosse comemorado neste 31 de março os 55 anos do golpe militar de 1964. Deveriam ser dadas as “comemorações devidas” a uma “revolução” que supostamente teria libertado o País “do pior”, e que, na época, teria contado com “amplo apoio popular”.
E toca a judicialização do tema, aliás, como de costume para qualquer coisa no País: o MPF manifesta-se, juíza proíbe a comemoração atendendo a um pedido de liminar apresentado pela Defensoria Pública… E, enquanto isso, Bolsonaro fala que não é “comemoração”, mas “rememoração”…

Amigo de caipirinhas

Como de costume, repórteres vão atrás da espécie de “presidente-em-exercício”full-time, General Mourão (alçado à condição de reserva nacional de racionalidade), para ouvir dele que os “eventos” seriam “intramuros”…
TV Globo deu razoável espaço aos protestos em todo o País, nos quais foram lembradas as mortes, torturas e desaparecimentos de pessoas na ditadura. Até a Rádio SulAmérica Trânsito 92.1 FM, sempre tão reticente em relatar os motivos dos protestos que ocasionalmente atrapalham o trânsito, dessa vez foi didática em explicar os motivos das manifestações em São Paulo, na Avenida Paulista e Parque do Ibirapuera.
Bolsonaro acende o rastilho e se manda para um tour em Israel, ao lado do seu amigo de caipirinhas, o Primeiro-Ministro de Israel Netanyahu. Enquanto a mídia alternativa e a esquerda gritam o slogan “Para que não se esqueça, para que não se repita!”, para relembrar, uma a uma, as atrocidades dos governos militares. Como reação a uma suposta tentativa de “reescrever a História”.
Qual a surpresa? Os militares sempre comemoraram “intramuros” a “revolução de 1964”. A questão é que as “bolsonarices” são muito provocativas e fazem subir o sangue da esquerda.


Efeito Pinball

Principalmente desde as grandes manifestações de 2013, a esquerda perdeu definitivamente o controle da própria agenda, resultando no efeito potencializador de bombas semióticas que esse humilde blogueiro chamou, na época, de “efeito Pinball”:
“Bolinhas são seguidamente disparadas: a agenda do mensalão; depois o caos aéreo; a descontrolada inflação do tomate; as manifestações de rua do “gigante que acordou”; o chamado “terceiro turno”; e atualmente o “escândalo do petrolão” e a iminência de um impeachment da presidenta eleita. 
Elas rebatem aleatoriamente nos pinos e flips criando ressonância, recursividade, loopings: numa estratégia reativa de controle de danos o Governo é obrigado a ser o interlocutor, dar respostas em notas aqui e ali. O que dá mais legitimidade ao jogo... e as bolas batem e rebatem... tlim!... tlim!... tlim!.... Pontos são somados num ciclo vicioso infernal” - clique aqui.
Diante dessa guerra semiótica criptografada (isto é, mensagens cujo protocolo de transmissão embaralha o conteúdo, não deixando claro para o público o significado real da mensagem, que fica apenas na superfície) estamos obviamente diante da primeira tática descrita por Chomsky e Herman: a distração. 
Forma de comunicação indireta: o jogo clã Bolsonaro-grande mídia não está atacando a esquerda. Está chamando-a para a sua agenda, o seu jogo, para fazer parte dessa tática diversionista de desviar a atenção da opinião pública para os problemas mais sérios nesse momento – o lento e progressivo desmonte das garantias sociais. 
Por exemplo, cotidianamente estudantes encontram entraves burocráticos e quedas de sistemas para conseguirem crédito educativo, como o Fies. Quando conseguem, dados e crédito não chegam às agências bancárias.
Ao mesmo tempo, remédios desaparecem e estabelecimentos são excluídos do Farmácia Popular.
Enquanto isso, milhões de desempregados marcham para a uberização – contratos intermitentes, flexíveis e sem proteção trabalhista, precarização, desregulamentação do trabalho, salários miseráveis e patrões invisíveis escondidos por plataformas tecnológicas.


O Uber está tão entusiasmado com o Brasil que pretende testar seu táxi voador no País (o primeiro país fora dos EUA), o projeto de táxi aéreo chamado UberAIR – imaginem o assustador quadro de trabalhadores precarizados sendo lançados aos céus e voando sobre nossas cabeças... – clique aqui.
Tudo isso sem falar nas “reformas” que pretendem exterminar o futuro de uma geração inteira. 
Essa preocupação equivocada da esquerda em ficar reativamente paralisada à pauta alimentada todo dia pelo clã Bolsonaro é também criticada pelo colunista Joaquim Xavier: ao invés de pensar no futuro ou no presente, cai na armadilha semiótica da distração e prefere falar do passado:
Os oposicionistas de plantão, mesmo os bem-intencionados, parecem pensar diferente. Gritam histericamente contra a apologia da ditadura morta, porém é sonolenta quando se trata da ditadura de fato em curso. A olhos vistos, está em marcha um movimento de liquidação do Brasil para transformá-lo em Brazil. Mas não se vislumbra uma mobilização à altura deste risco. Mais cômodo falar do passado. – clique aqui.
Distraída, hipnotizada e com o sangue subindo à cabeça a cada provocação do capitão da reserva e seus pitbulls, os oposicionistas parecem muito mais preferir salvar suas biografias do que ocupar a esfera pública (ruas, praças e avenidas) e a opinião pública através de uma contraguerrilha semiótica capaz de criar uma agenda própria.
Distraindo a oposição, desvia a atenção da própria opinião pública. Para quê? Para calmamente colocar em prática as outras nove estratégias de manipulação apontadas por Chomsky e Herman: gradativamente criar uma situação da terra-arrasada para sacrificar o futuro através da culpa e do medo. Infantilizando a opinião pública por meio das “caneladas” e “mitagens” de Bolsonaro e seus asseclas enquanto as redes sociais são monitoradas pelos algoritmos de Steve Bannon e a psicometria de Michal Kosinski.

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sexta-feira, 1 de março de 2019

A Deforma da previdência ao lado da ideia de sacrifício, por Lays Bárbara Vieira Morais, mestre em Ciência Política e em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG)


A reforma da previdência ao lado da ideia de sacrifício



 "O que mais tem se visto é o discurso oficial do governo de “fim de privilégios”. Um discurso que não fala da parcela do orçamento federal que vai para pagamento de juros, dívida pública, isenções e benefícios dados a grandes multinacionais, a necessidade de taxação de grandes fortunas e etc. Mas, tem algo nesse discurso que vem sendo dia-a-dia perpetuado: a ideia de um sacrifício necessário. Todos precisam se sacrificar um pouco para salvar o país. Esse é nosso dever com a pátria. Intuitivamente, até pode fazer sentido, mas quando refletimos melhor e criticamente sobre esse discurso, podemos perceber alguns aspectos interessantes."

Do site Justificando:


Terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A reforma da previdência ao lado da ideia de sacrifício


Imagem: O sacrifício do patriarca Abraham
Nos últimos dias, desde que foi apresentada a nova proposta para a previdência, esse tema não sai da grande mídia e das redes sociais. Apesar de uma crítica aqui e outra ali, a grande mídia vem, no mínimo, se mantendo neutra (ou não expondo aspectos relevantes). O que mais tem se visto é o discurso oficial do governo de “fim de privilégios”. Um discurso que não fala da parcela do orçamento federal que vai para pagamento de juros, dívida pública, isenções e benefícios dados a grandes multinacionais, a necessidade de taxação de grandes fortunas e etc. Mas, tem algo nesse discurso que vem sendo dia-a-dia perpetuado: a ideia de um sacrifício necessário. Todos precisam se sacrificar um pouco para salvar o país. Esse é nosso dever com a pátria. Intuitivamente, até pode fazer sentido, mas quando refletimos melhor e criticamente sobre esse discurso, podemos perceber alguns aspectos interessantes.
Para isso, vamos ter em mente que não só o cenário político, mas também o econômico deve ser pautado. Afinal, ambos sempre andaram de mãos dadas. O que de fato temos é que o neoliberalismo é um conjunto de suposições políticas que favorecem as corporações, como inseparáveis da globalização e do imperialismo, como uma forma específica de governabilidade e como uma nova forma de Estado. A liberdade, ao invés da justiça ou da igualdade, se tornou o valor político fundamental. O neoliberalismo atribui ao Estado um papel ativo na defesa dos mercados, na produção de sujeitos e condições para os mercados, mesmo que em termos ideais ele pense que o Estado não deve intervir nas atividades do mercado (a famosa lógica da “mão invisível”).
E é por tudo isso que acaba sendo inevitável a associação com a questão da governabilidade. Segundo a professora Jodi Dean[1], tendo como base o pensamento foucaultiano, existiria duas diferenças fundamentais entre aquele velho liberalismo e o nosso neoliberalismo: primeiro, o neoliberalismo inverte o modelo inicial do Estado como um princípio externo limitante que supervisiona o mercado para fazer com que o mercado forme o princípio regulador subjacente ao Estado. Segundo, o neoliberalismo se baseia em uma noção diferente do indivíduo ou sujeito. Para os liberais clássicos, como Thomas Hobbes e John Locke, o indivíduo livre e racional é o próprio fundamento do Estado, aquele que fundamenta e limita o governo legítimo.
Os neoliberais, em vez disso, veem o sujeito como agindo e reagindo de acordo com vários incentivos e desincentivos econômicos. Aqui, o objetivo da governança é construir sujeitos responsáveis ​​cuja qualidade moral é baseada no fato de que eles racionalmente avaliam os custos e benefícios de um certo ato em oposição a outros atos alternativos. Ou seja, o neoliberalismo não confia em condições preexistentes, ele cria novas formas, reformatando a vida social e política em termos de seu ideal de competição mercadologia.
Ao combater a hegemonia predominante anteriormente, o keynesianismo, nos círculos acadêmicos e políticos, os neoliberais lentamente reuniram o apoio das elites. Um elemento crucial desse sucesso foi o estabelecimento de instituições para além do Estado: uma rede internacional de fundações, institutos, centros de pesquisa, publicações, etc; que desenvolveram, empacotaram e impulsionaram a nova doutrina. Posteriormente, no fim da década de 1970 e início de 1980, a ideologia neoliberal passou a dominar a política econômica, após sua experiência bem-sucedida no Chile do ditador Pinochet.
As décadas precedentes foram seu auge, onde diversos Estados em todo o mundo adotaram sua política de privatização, desregulamentação e financeirização. No final do século XX, o neoliberalismo havia substituído o keynesianismo como a abordagem reinante na economia, no Estado, no desenvolvimento e até mesmo na subjetividade[2]. Prevalece o senso comum da ideologia neoliberal: não há outra alternativa. E essa ideologia neoliberal baseia-se em um suposto livre comércio. Tal fantasia promete que um mercado sem restrições beneficia a todos. Isso se daria porque os mercados são as formas mais eficientes de garantir que todos façam o que lhes for mais adequado e consigam tudo o que desejam. A fantasia prega que todos vão ganhar. De acordo com os estudos de Jodi Dean, para garantir que todos venham a ganhar, o mercado tem que ser liberado, livre de restrições, liberado para realizar o seu e todo o nosso potencial. Como agentes racionais livres armados com toda a informação, as pessoas farão as escolhas certas, mas, novamente, somente enquanto nada influenciar ou restringir essas escolhas, desde que nada atrapalhe a liberdade do mercado.
Como base nessas colocações, e nos estudos desenvolvidos pelo também professor Slavoj Zizek, Dean analisa de forma mais profunda essa tal fantasia. O primeiro ponto a ser colocado é que a ela não está escondida simplesmente sob declarações e políticas oficiais. Não é como algum tipo de truque ou ilusão enganando as massas, pobres e ingênuas. Pelo contrário, a fantasia é manifesta em nossas práticas reais (o que fazemos diariamente); e essas práticas são a localização das crenças ideológicas.
A ideologia neoliberal se concentra no comércio, isto é, nas práticas de troca. As trocas comuns de pessoas comuns, tomadas e entendidas como decisões racionais e sob condições ideais. Segundo a autora supracitada, quando os neoliberais falam em livre comércio, a maioria de nós tende a imaginar essas trocas individuais. Podemos pensar em pequenos agricultores e empresas locais ou em como é bom escolher o que queremos ou não levar do supermercado. Apenas raramente, e com grande esforço, se foca em bancos, cartões de crédito, dívidas, troca de moeda, seguradoras, etc. O fantástico apelo do neoliberalismo deriva, em parte, do modo como as trocas individuais substituem os fluxos globais do capital.
O segundo aspecto é que a fantasia responde à pergunta “O que sou do outro?”. Nos Estados Unidos, por exemplo, a resposta típica é “livre”, uma nação livre. O neoliberalismo afirma e amplia essa auto compreensão em termos de liberdade. Caminhando lado-a-lado a isso temos a ideia de que nós (pelo menos em termos de Ocidente) somos aqueles conectados uns aos outros através da troca, livre para fazermos como quisermos, e com a internet somos ainda mais livres para comprar qualquer coisa de qualquer lugar a qualquer hora.
Em terceiro lugar, existiria um impasse original que essa fantasia oculta: ela abrange a persistência do fracasso do mercado, das desigualdades estruturais, da proeminência dos monopólios, do privilégio dos contratos sem licitação, da violência da privatização e a redistribuição nada justa da riqueza. O livre comércio sustenta, portanto, no nível da fantasia, o que procura evitar no nível da realidade; ou seja, livre comércio entre iguais, participantes iguais com oportunidades iguais para estabelecer as regras do jogo, informações de acesso, distribuição e assim por diante.
Mas, paradoxalmente, o livre comércio é invocado como um mantra. Por um lado, o pensamento neoliberal enfatiza a necessidade de competição. Por outro lado, ele se apega à noção de que todos são vencedores, mas essa é uma noção que está em desacordo com a concorrência, porque nesta sempre existe vencedores, de um lado, e perdedores, do outro. É o que a gente vê, em termos de economia global, na relação entre os chamados “países do Terceiro Mundo”, ou “em desenvolvimento”, e os países do chamado “Primeiro Mundo”.
Em quarto lugar: a fantasia constrói uma cena em que o gozo, a realização do que queremos (do que queremos comprar, por exemplo), mas do qual somos privados muitas das vezes, se concentra no outro que a roubou de nós. O insight trazido por Zizek aqui é que uma das maneiras pelas quais a fantasia mantém nosso desejo intacto como desejo é nos dizer por que não o cumprimos: o livre comércio encena a cena do gozo roubado como uma promessa de cumprimento deferido quando realizamos nossas trocas no mercado, nossas necessidades e desejos serão atendidos.
Essa é a própria definição de um mercado perfeito. Ele atenderá às necessidades e desejos de todos. Em um sentido bruto, os mercados financeiros, de ações, títulos e commodities são apostas nesse futuro. Poderíamos também incluir aqui hipotecas, empréstimos, cartões de crédito, todos os tipos de instrumentos financeiros que dependem de uma presunção de satisfação futura. A fantasia do livre comércio nos diz que todos ganham e, se alguém perde, isso ocorreu por que alguém trapaceou, não jogou pelas regras. Dentro do quadro da fantasia, a solução para essa falha é a supervisão.
Ou seja, o governo pode e deve garantir que os outros não estejam lá fora, roubando nosso prazer, os frutos de nosso trabalho, através de seus negócios desonestos e injustos. Assim, novamente, temos outro paradoxo: o governo pode se envolver excessivamente, pode ultrapassar seus limites e impedir o “livre comércio”. Embora pareça estar em tensão com a fantasia de manter o comércio livre, a noção de supervisão sustenta o prazer roubado de uma maneira que reforça a influência da fantasia. Isso gera um deslocamento de ansiedades para longe das brutalidades e incertezas do mercado neoliberal e do Estado como instituição.
Muito mais do que interligar um conjunto de promessas conflitantes e contraditórias de prazer e de explicações para a falta desse prazer, as formações ideológicas funcionam para proibir, permitir, dirigir e obter prazer. Consequentemente, a categoria de desfrute é um acréscimo importante à teoria da ideologia na medida em que acentua a maneira como uma formação ideológica é mais do que um conjunto de significados, imagens e os efeitos acumulados de práticas dispersas. Ou seja, a ideologia toma conta do sujeito até mesmo no aspecto do prazer. Isso vincula os sujeitos a certos conjuntos de relações, estruturando e confinando seus pensamentos e ações, de modo a ligá-los a padrões aparentemente inescapáveis de dominação, padrões que eles bem podem reconhecer como dominação, mas que continuam seguindo.
Assim, para ter sucesso, o neoliberalismo depende da ocupação política organizada e da direção dos governos, do uso dos aparatos burocráticos, legais e de segurança do Estado de forma a beneficiar os interesses corporativos e financeiros. Ao mesmo tempo, para manter sua posição dominante, o neoliberalismo, como uma formação ideológica, tem de oferecer algo às pessoas cujas vidas são moldadas. Tem que estruturar suas expectativas e desejos para que pareça certo e permaneça tudo como está.
Tal conjuntura amplifica as pressões sobre e para o indivíduo. Essas pressões são, por um lado, políticas: o indivíduo é chamado a expressar sua opinião, falar por si próprio, envolver-se. Ele é informado de que ele, sozinho, pode fazer a diferença. E essas pressões também são econômicas: mesmo na ausência de mobilidade social significativa, o indivíduo é colocado como o determinante mais significativo de sucesso ou fracasso (a velha lógica da meritocracia). As pressões também são psicológicas: a intensificação informacional e a aceleração temporal saturam nossa atenção aos níveis patológicos, a exemplo dos cada vez mais comuns casos de depressão, que acabam por funcionar como uma espécie de defesa, já que a patologia real seria a própria forma individual.
O indivíduo é patológico no sentido de ser incompatível com seu ambiente, incapaz de responder às pressões que encontra sem dor, sacrifício ou violência. Vivemos em uma época em que se sobrecarrega o indivíduo de responsabilidades e expectativas, isentando o Estado de suas funções sociais. Sacrificamos conquistas e bem-estar em prol de uma suposta ideia de nação, de uma suposta moral e lógica religiosa onde o sacrifício de todos resulta em uma benção, um prêmio. Mas, esse sacrifício é realmente necessário? A melhor solução é realmente essa? E, o mais importante: o sacrifício é realmente coletivo? Ele é realmente igual para todas as partes envolvidas?
Lays Bárbara Vieira Morais é mestre em Ciência Política e em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), especialista em Comunicação e Multimídia pela PUC-GO, Jornalista pela PUC-GO, professora de Sociologia no Instituto Federal de Goiás (câmpus Anápolis) e integrante do coletivo de mídia independente Jornal Metamorfose.