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sexta-feira, 7 de junho de 2019

O mito neoliberal-fascistóide da “destruição criadora” e do renascimento político, por Luis Nassif



Em artigo na Folha de S. Paulo, Fernando Schüller esbanja uma segurança invejável em relação ao pior que vem pela frente.


Em relação ao modelo político há duas certezas: esgotou-se o modelo político pós-redemocratização; e ninguém consegue garantir o que virá no vácuo que se formou.
No entanto, em artigo na Folha de S. Paulo, Fernando Schüller esbanja uma segurança invejável em relação ao que vem pela frente.
Constata ele que o presidencialismo de coalizão se tornou disfuncional. Antes disso, diz ele, vingou porque era ao gosto da tradição centralizadora brasileira, que só concebe a dinâmica política a partir do mando presidencial.
Atribui ao modelo uma espécie de fracasso total do país pós-redemocratização. Ignora os avanços ocorridos na área de direitos sociais, de inclusão social, em alguns setores da economia. Ignora a enorme renovação proporcionada pelas sucessivas mudanças de governo – da abertura de Fernando Collor, à desregulação de Fernando Henrique Cardoso ao desenvolvimentismo social e econômico de Lula.
E ignora, sobretudo, que a ausência de grandes reformas sociais não se devia ao poder do príncipe, mas justamente à falta de poder de um presidencialismo claudicante – que derrubou ou inviabilizou quase todos os presidentes eleitos pós-redemocratização.
O Brasil teve uma pequena experiência parlamentarista, na qual o poder do Congresso significou a imobilização ampla do governo. Sugiro a leitura da biografia de Walther Moreira Salles, no capítulo referente ao governo Jango.
Diz ele que, agora, ocorre a destruição criadora e crava as fichas no novo modelo que emergirá: o sistema de co-responsabilidade, no qual o poder do presidente será dividido com o Congresso.  
“O governo permanece como propulsor mais relevante da agenda política, mas abre mão da tutela e cede espaço a novos atores. Forma maiorias, mas o processo deixa de ser automático. É assim que caminha a reforma da Previdência”.
Aí se entra em um enorme desafio intelectual, de tomar como o novo normal o quadro político atual, com todas suas extravagâncias.  O quadro atual tem um conjunto de condicionantes específicos do momento atual:
  1. Um presidente sem a menor noção econômica, política ou social. Como seria com um presidente articulado, com ideias claras?
  2. Um parlamento sem partidos políticos. Ou a “corresponsabilidade” se fará sem partidos políticos, como agora, e com bancadas temáticas.
  3. O debate político interditado, com a prisão do principal porta-voz da oposição, Lula.
  4. O grupo hegemônico reunido em torno da bandeira única do antilulismo. Até quando resistirá?
Ora, tem-se uma realidade dinâmica, com um enorme conjunto de variáveis imprevisíveis. Mesmo assim, o autor teima em definir o que ele chama de “novo modelo”. Recorre a um truque retórico comum aos acadêmicos: cria a caricatura de dois opostos, o governo e a oposição, e coloca a sua hipótese como centro virtuoso.
O novo modelo se afasta de duas visões comuns em nosso debate. Uma delas, comum no governismo, aposta no chamado “going public”, na ideia algo mística de que o líder popular possa, com a pressão social, derrotar o sistema (seja isto o que for).
Outra, popular na oposição, profetiza o abismo a cada deslize do governo e sugere que estejamos sob o risco de um presidencialismo plebiscitário, autoritário e destinado ao fracasso.
Não se tem a menor ideia de como se comportaria o sistema político com outro tipo de presidente, nem se tem a menor ideia de como irá se refazer o sistema partidário, com o advento dos YouTube e a desmoralização dos partidos tradicionais
Mesmo assim, Schüller preconiza que o novo modelo será o “sistema de corresponsabilidade”, embora confesse que é “um sistema cujos contornos ainda não conhecemos exatamente”.
No trecho seguinte, substitui a certeza inicial por um “por ora”.
“O que ele faz, por ora, é abrir espaço ao protagonismo compartilhado, que por certo reforça a autonomia do Parlamento. Algo bem expresso na reiteração de Paulo Guedes, no Congresso: o poder é dos senhores, assumam a responsabilidade”.
Depois de todas essas certezas, Schüller recorre a um recurso jurídico conhecido, o SMF, “salvo melhor juízo”. SMJ, ele recorre ao salva vidas de todo teórico: o “suponhamos que”.
No mundo ideal, nosso presidente poderia combinar o pragmatismo de Angela Merkel com o charme intelectual de Obama. E a oposição, quem sabe, poderia ser liderada por Lord Anthony Giddens, direto da sala de chá do palácio de Westminster. 
Não temos nada disso. O presidente é Bolsonaro e a oposição é o que sabemos que é. Não voltaremos ao passado e não veremos um rolo compressor governista no comando do Congresso. Se isso é ruim ou não, cada um pode julgar. Digo apenas que, para quem imaginou que nos tornaríamos uma autocracia, pode não ser má ideia que o país avance sob um sistema bem estabelecido de freios e contrapesos e compartilhamento de responsabilidades.
Logo, SMJ, desconsiderem-se todas as hipóteses anteriores sobre a nova era que surgirá da destruição criadora.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Dez truques do mercado para justificar o fracasso de suas políticas, por Luis Nassif



O mesmo ocorrerá com a reforma da Previdência. O Congresso vai entregar uma parte da reforma e a economia continuará em profunda recessão. A alegação futura do mercado será a de que a reforma não foi suficientemente radical.

Por Luis Nassif, no Jornal GGN:


Para Platão, os sofistas rejeitavam a verdade e relativizavam a realidade resumindo o universo a partir, somente, de seus aspectos fenomenais.


Truque 1 – o conceito de interesse nacional.

Trate como antinacional toda medida econômica que não beneficie seu grupo. Esse truque existe desde a República Velha. O custo das políticas de sustentação do café era tratado como benefício para o país. O custo de políticas econômicas para outras regiões, como sendo contra o interesse nacional.

Truque 2 – o conceito de populismo.

Com todos seus equívocos, a vantagem da democracia é permitir que o interesse geral se sobreponha aos interesses particulares. É a única força que induz governantes a implementarem políticas universais em áreas essenciais.
Historicamente, populismo se referia a medidas de alcance imediato visando conquistar eleitores, sem nenhuma preocupação com a construção do futuro.
Com o tempo, todas os recursos que voltam ao cidadão, na forma de serviços, mesmo os essenciais, passaram a ser tratados como populismo.
O ápice dessa manipulação foi o brilhantíssimo ex-Ministro da Educação Cristovam Buarque afirmando que Lula abriu inúmeras universidades federais com propósitos eleitorais.

Truque 3 – o sucesso e o truque da defasagem.

Um governante adota uma série de medidas desastrosas, que impede a economia de crescer. Entra outro governante que toma uma série de medidas reativando a economia. O discurso passa a ser que o primeiro se sacrificou, trabalhando com responsabilidade, para que o segundo levasse a fama.
É histórico. Campos Salles renegociou a dívida externa brasileira, irresponsavelmente ampliada por Ruy Barbosa, em condições ultrajantes. Com o país quebrado e, portanto, em condições de negociar deságios, aceitou todas as imposições da Casa Rotschild. E ainda levou na comitiva de beija-mão jornalistas que reportaram os elogios do banqueiro à seriedade do futuro presidente. Ou seja, no seu beija-mão a Donald Trump, Bolsonaro teve antecedentes ilustres.
Depois, Rodrigues Alves fez um governo vitorioso. A história, segundo o mercado, foi de que a virtude maior foi de Campos Salles, preparando o terreno para seu sucessor.
Do mesmo modo, Fernando Henrique Cardoso implementou uma política monetária ruinosa, que jogou o nível de endividamento público e privado nas nuvens, provocou a estagnação da economia, comprometeu o ganho de mercado obtido com a estabilização da moeda. No período em que adotou uma política econômica pró-ativa, Lula conseguiu índices de crescimento inéditos, em plena crise global.
Mas o sucesso de Lula é atribuído ao trabalho prévio de FHC.

Truque 4 – o fracasso e o truque da defasagem

O segundo governo Dilma Rousseff foi um desastre. O pacote Joaquim Levy afundou ainda mais a economia, quebrou as pernas políticas do governo que, a partir dali, foi sufocado pelas pautas-bombas do Congresso. Ponto.
Entre Henrique Meirelles, pelo governo Temer, Paulo Guedes, pelo governo Bolsonaro, e mantem as mesmas políticas restritivas anteriores. Ou seja, tudo passou a ser de sua estrita responsabilidade, mesmo tendo apoio expressivo do Congresso.
Depois de quedas do PIB, a recuperação costuma ser rápida, porque há capacidade instalada a ser ocupada. No entanto, até hoje não ocorreu a recuperação da economia brasileira, configurando o mais longo período sem recuperação da história.
Mas a culpa continua sendo da Dilma.

Truque 5 – o golpe da lição de casa.

Foi aplicado sistematicamente, de Pedro Malan a Henrique Meirelles, com a contribuição luxuosa de Antônio Palocci e Joaquim Levy.
Consiste em impor um conjunto de medidas amargas – para os outros -, acenando com o pote de ouro no final do arco íris. Se tirar o leite das crianças, a aposentadoria dos idosos, se reduzir os direitos trabalhistas, se reduzir os gastos com saude e educação, a economia voltará a ser pujante e todos ganharão.
Começa o ano com tais promessas. Chega-se ao final com os sacrifícios impostos e nada de aparecer o pote de ouro. Alega-se, então, que o sacrifício foi insuficiente e toca a apertar mais ainda o torniquete em cima da rapa.
Como garantia o sábio Ministro Luis Roberto Barroso: se a legislação trabalhista tirar os torniquetes sobre as empresas, haverá abundância de emprego. Mudam-se as regras, o emprego cai por conta da recessão e a informalidade explode, por conta da nova legislação.

Truque 6 – o golpe do fim do mundo.

Utilizado desde tempos imemoriais. Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Ou o Brasil acaba com esses velhinhos que sugam a Previdência, ou esses malandros que teimam em ficar doentes para conseguir o auxílio-doença, ou eles acabam com o Brasil.
Imposto sobre grandes fortunas? Não, porque é de difícil aplicação. Sobre ganhos financeiros? Não, porque irá desestimular os investimentos. Contenção da engenharia fiscal dos grandes grupos? Não, porque embotará o empreendedorismo.

Truque 7 – a impossibilidade do impossível

Analise-se o pacote Joaquim Levy-Dilma. Aplicou simultaneamente choque tarifário, choque monetário, restrição de crédito, corte drástico de despesas prometendo a quadratura do círculo: se cortar toda a demanda, haverá o equilíbrio fiscal e instantaneamente os investimentos voltarão para a economia.
O resultado óbvio seria: se cortar toda a demanda, com a economia em queda, acelerará a queda do consumo. Com isso não haverá a volta do investimento, mas a queda vertiginosa da atividade econômica.
Alegação do mercado: o ajuste não foi suficientemente severo.
O mesmo ocorrerá com a reforma da Previdência. O Congresso vai entregar uma parte da reforma e a economia continuará em profunda recessão. A alegação futura do mercado será a de que a reforma não foi suficientemente radical.

Truque 7 – o truque do denominador

O país tem uma receita fiscal de 100 e uma dívida pública de 50. Aí, implemento uma política recessiva que derruba a receita em 10%. E uma política de juros que custa 6% ao ano. Mantidos todos os demais fatores, em apenas dois anos a relação dívida/PIB passará de 50/100 = 50% para 56/90 = 62%. Mas, aí, explico que a culpa do déficit foi das despesas.
É o que acontece com todos os cálculos de déficit primário e déficit da previdência. O déficit seria menor se as políticas econômicas não tivessem derrubado a receita.

Truque 8 – o truque da relação causal no déficit

É primo irmão do Truque 7. O país tem 100 de receita e 100 de despesa primária, portanto orçamento primário equilibrado. Aí derruba a receita que cai para 90. As despesas continuam as mesmas. Dir-se-á que a causa do desequilíbrio são as despesas.

Truque 9 – o golpe da identidade contábil

Os manuais de economia costumam recorrer a identidades contábeis para medir os fatores econômicos. Uma das identidades consiste em estimar que o gasto privado corresponde ao total produzido, menos o gasto público. É apenas uma medida.
Por ser apenas uma conta não leva em consideração, por exemplo, que gasto público significa ganho privado. Se o governo paga salários, ou contrata serviços, ou adquire bens, esse dinheiro será injeção na veia das empresas privadas, que produzem bens de consumo, bens de investimento e serviços. Se corta o gasto público, automaticamente diminui a renda privada.
Mas os cabeções sacam impavidamente a identidade contábil e garantem que bastará cortar o gastos público para o lugar ser imediatamente ocupado pelo setor privado.

Truque 10 – a falsa eficiência

Parte do pressuposto de que se um gasto é mal aplicado, basta corta-lo para melhorar a eficiência do serviço. O SUS (Sistema Único de Saúde) é um milagre brasileiro, porque consegue determinado nível de universalização pagando merreca pelos procedimentos médicos. A lógica dos cabeções é simples. O aumento da eficiência de qualquer serviço, especialmente os serviços públicos, depende de modelos gerenciais, implementação eficiente, criação de indicadores. Para os cabeções a lógica é outra. Se um serviço não é suficientemente eficiente, basta reduzir seu orçamento que a eficiência aparece.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

A grande mídia brasileira, como sempre, apresenta-se tendenciosa e manipulativa à favor dos dominantes e seus interesses... Editorial do Estadão usa aspas falsas de pesquisador para defender reformas contra o povo



Marcelo Medeiros diz que nunca concluiu que investimentos públicos no ensino superior privilegiam mais ricos; Estadão usou dados para defender reformas da Previdência, Tributária e mudanças estruturais na educação pública

Do Jornal GGN:



Página de editoriais do Estado de S.Paulo
Jornal GGN – Um dos principais estudiosos sobre desigualdade de distribuição de renda no Brasil, pesquisador de Princeton e colaborador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Medeiros, acusa o jornal “Estado de S.Paulo” de usar informações falsas a seu respeito.
Nesta terça-feira (28), o jornal divulgou entre seus editoriais o artigo “Cresce a desigualdade de renda” abordando dados sobre o aumento da pobreza e concentração de renda no Brasil com informações que teriam sido ditas pelo pesquisador.
Marcelo Medeiros divulgou em sua conta no Twitter que “jamais” conversou com o Estadão a respeito dos dados divulgados no editorial e muito menos defendeu as informações colocadas pelo jornal como palavras suas.
“O Estadão usa meu nome em seu editorial. Favor retuitar até chegar no @Estadao”, escreveu. “[O jornal] JAMAIS falou comigo sobre educação. Coloca o OPOSTO do que argumento. Sou CONTRÁRIO a aventuras sem fundamento sólido em educação”, pontuou. “Peço que RETIREM o editorial”, completou.

O Estadão disse que Medeiros “demonstrou em estudos recentes o quanto priorizar investimentos públicos no ensino superior privilegia os mais ricos”. Ainda segundo o jornal, o pesquisador teria apontado entre as alternativas para corrigir essa suposta distorção “a criação do ProUni do ensino básico e a distribuição de vale-escola para que estudantes pobres se matriculem em escolas privadas”.
“As universidades públicas, por sua vez, poderiam compensar a perda de recursos através de mensalidades proporcionais à renda familiar de seus estudantes e da flexibilização dos modelos de parceria e captação de recursos junto da iniciativa privada”, completa o Estado de S.Paulo.
O pesquisador afirma que nenhuma dessas informações foram defendidas por ele, rebatendo em outras postagens via Twitter:
“@Estadao, Marcelo medeiros JAMAIS “demonstrou em estudos o quanto a priorização dos investimentos públicos no ensino superior privilegia os mais ricos”. JAMAIS sugeriu “criação do ProUni do ensino básico e a distribuição de vale-escola”. JAMAIS falou com o @Estadão sobre isso”.
“Não faço a MENOR IDEIA do motivo para o @Estadao me usar para defender suas posições.. Posso apenas dizer que é uma invenção SEM QUALQUER FUNDAMENTO. Erro grave do Editorial, porque isso tudo ESTÁ ERRADO, não dou dado a propor aventuras mal fundamentadas”.

Ao longo do editorial, o Estado de S.Paulo diz que “a principal causa do aumento da desigualdade e da pobreza foi o desemprego”, usando a fala de outro pesquisador do Ibre, Daniel Duque, para dizer que “o cenário sem a reforma da Previdência é catastrófico, com o risco de uma reversão do mercado de trabalho”.
O jornal segue dizendo que, a reforma da Previdência “é uma condição necessária” mas não suficiente e que para reverter o processo de crescimento da desigualdade o país precisa ainda “rever o sistema de tributação”.
“Além desses ajustes, a redução na desigualdade de renda depende de mudanças estruturais que garantam maior igualdade de condições”, completou o Estadão abordando em seguida o tema da educação com as supostas falas de Marcelo Medeiros.




terça-feira, 2 de abril de 2019

Bancos, empresariado e grande mídia em suas estratégias para manipular a opinião pública segundo Noam Chomsky




O Livro “A manipulação do público” continua bem atual. Nele, Chomsky aborda 10 maneiras de pavimentar a manipulação da opinião pública

Do CineGnose, texto de  Wilson Roberto Vieira Ferreira:


Principalmente a partir das manifestações de rua em 2013, a esquerda perdeu completamente o controle da sua agenda. Desde então, enquanto permaneceu no governo limitou-se a agir reativamente controlando danos. E fora do poder, limita-se a deixar o sangue subir à cabeça e reagir a cada provocação do clã Bolsonaro, aceitando entrar no jogo da guerra semiótica criptografada. Sem conseguir criar uma agenda própria. A recente foi a ordem de Bolsonaro para as casernas comemorarem o golpe militar de 1964 como uma “revolução popular” – escandalizada, esquerda vai às ruas como se quisesse salvar a própria biografia, enquanto o País marcha para “reformas”, uberização do trabalho e extermínio do futuro de uma geração inteira. O linguista Noam Chomsky diria que a oposição está caindo na primeira tática de manipulação: a Distração. Para depois, por em prática as outras nove táticas de criação de falsos consensos na opinião pública.
                  Escrito pelo linguista Noam Chomsky e o crítico de mídia Edward S. Herman, o livro “A Manipulação do Público” continua bem atual. Nessa obra, são detalhadas as dez técnicas de criação artificial de consenso na opinião pública.


São elas: Distração (desviar a atenção daquilo que é realmente importante); Método Problema-Reação-Solução (criar uma situação de terra arrasada para impor medidas de suposta solução); Gradação (aplicar medidas impopulares de forma gradativa e imperceptível); Sacrifício Futuro (é mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que imediato); Discurso Infantilizado (tratar a opinião pública de forma afetuosa ou humorística);
Sentimentalismo e Temor (apelar para o medo e emoção para impedir uma resposta racional ou crítica; Valorizar a ignorância (dar espaço na mídia pessoas medíocres e ignorantes para que o estúpido e o vulgar sejam um exemplo para os mais jovens); Desprestigiar a inteligência (apresentar na produção audiovisual o cientista como vilão e o intelectual como pedante); Incentivar introjeção da culpa (incutir a culpa no indivíduo para dividir a sociedade entre vencedores e perdedores); Monitoramento (pesquisas de opinião e as atual mineração de dados e análises psicométricas em redes sociais para controle de opinião pública).
É claro que cada uma dessas técnicas é diariamente colocada em ação dos telejornais aos programas de entretenimento – por exemplo, nessa segunda-feira o telejornal da Globo “Bom Dia (?) Brasil” destacou uma matéria sobre como o fato de casais esconderem seus gastos de cartão de crédito para o parceiro prejudica o controle das finanças familiares, criando impacto na própria economia nacional. Num inacreditável exemplo de falácia lógica que, lá na Antiguidade, Aristóteles acusava os sofistas:  reductio ad absurdum, redução ao absurdo ou efeito lógico “bola de neve”, para incentivar a introjeção da culpa no incauto brasileiro pela crise econômica sistêmica.
Introjeção da culpa para criar uma sociedade de vencedores e perdedores

Esquerda hipnotizada

Porém, o atual clã familiar que ocupou o governo prima pela tática da Distraçãoao ocupar a pauta midiática com “caneladas”, provocações, bravatas, arroubos de crenças religiosas misturadas com negócios ministeriais etc.
Até aqui, OK! É até previsível que um governo, cuja pauta político-econômica (as “reformas”, cuidadosamente escondidas da opinião pública durante a campanha eleitoral) seja impopular, utilize-se de figuras bizarras e tragicômicas para compor os anti-ministérios (ministérios que se voltam contra si mesmos como Família, Educação e Trabalho) para distrair grande mídia e opinião pública.
Mas o preocupante é quando a oposição parece hipnotizada por essa pauta e passa a responder reativamente a cada provocação, não só retro-alimentando mas também dando pertinência pública aos temas.
Nos últimos dias acompanhamos como a grande mídia e a mídia alternativa deram espaço a mais uma provocação do capitão da reserva: a ordem do presidente Bolsonaro para que fosse comemorado neste 31 de março os 55 anos do golpe militar de 1964. Deveriam ser dadas as “comemorações devidas” a uma “revolução” que supostamente teria libertado o País “do pior”, e que, na época, teria contado com “amplo apoio popular”.
E toca a judicialização do tema, aliás, como de costume para qualquer coisa no País: o MPF manifesta-se, juíza proíbe a comemoração atendendo a um pedido de liminar apresentado pela Defensoria Pública… E, enquanto isso, Bolsonaro fala que não é “comemoração”, mas “rememoração”…

Amigo de caipirinhas

Como de costume, repórteres vão atrás da espécie de “presidente-em-exercício”full-time, General Mourão (alçado à condição de reserva nacional de racionalidade), para ouvir dele que os “eventos” seriam “intramuros”…
TV Globo deu razoável espaço aos protestos em todo o País, nos quais foram lembradas as mortes, torturas e desaparecimentos de pessoas na ditadura. Até a Rádio SulAmérica Trânsito 92.1 FM, sempre tão reticente em relatar os motivos dos protestos que ocasionalmente atrapalham o trânsito, dessa vez foi didática em explicar os motivos das manifestações em São Paulo, na Avenida Paulista e Parque do Ibirapuera.
Bolsonaro acende o rastilho e se manda para um tour em Israel, ao lado do seu amigo de caipirinhas, o Primeiro-Ministro de Israel Netanyahu. Enquanto a mídia alternativa e a esquerda gritam o slogan “Para que não se esqueça, para que não se repita!”, para relembrar, uma a uma, as atrocidades dos governos militares. Como reação a uma suposta tentativa de “reescrever a História”.
Qual a surpresa? Os militares sempre comemoraram “intramuros” a “revolução de 1964”. A questão é que as “bolsonarices” são muito provocativas e fazem subir o sangue da esquerda.


Efeito Pinball

Principalmente desde as grandes manifestações de 2013, a esquerda perdeu definitivamente o controle da própria agenda, resultando no efeito potencializador de bombas semióticas que esse humilde blogueiro chamou, na época, de “efeito Pinball”:
“Bolinhas são seguidamente disparadas: a agenda do mensalão; depois o caos aéreo; a descontrolada inflação do tomate; as manifestações de rua do “gigante que acordou”; o chamado “terceiro turno”; e atualmente o “escândalo do petrolão” e a iminência de um impeachment da presidenta eleita. 
Elas rebatem aleatoriamente nos pinos e flips criando ressonância, recursividade, loopings: numa estratégia reativa de controle de danos o Governo é obrigado a ser o interlocutor, dar respostas em notas aqui e ali. O que dá mais legitimidade ao jogo... e as bolas batem e rebatem... tlim!... tlim!... tlim!.... Pontos são somados num ciclo vicioso infernal” - clique aqui.
Diante dessa guerra semiótica criptografada (isto é, mensagens cujo protocolo de transmissão embaralha o conteúdo, não deixando claro para o público o significado real da mensagem, que fica apenas na superfície) estamos obviamente diante da primeira tática descrita por Chomsky e Herman: a distração. 
Forma de comunicação indireta: o jogo clã Bolsonaro-grande mídia não está atacando a esquerda. Está chamando-a para a sua agenda, o seu jogo, para fazer parte dessa tática diversionista de desviar a atenção da opinião pública para os problemas mais sérios nesse momento – o lento e progressivo desmonte das garantias sociais. 
Por exemplo, cotidianamente estudantes encontram entraves burocráticos e quedas de sistemas para conseguirem crédito educativo, como o Fies. Quando conseguem, dados e crédito não chegam às agências bancárias.
Ao mesmo tempo, remédios desaparecem e estabelecimentos são excluídos do Farmácia Popular.
Enquanto isso, milhões de desempregados marcham para a uberização – contratos intermitentes, flexíveis e sem proteção trabalhista, precarização, desregulamentação do trabalho, salários miseráveis e patrões invisíveis escondidos por plataformas tecnológicas.


O Uber está tão entusiasmado com o Brasil que pretende testar seu táxi voador no País (o primeiro país fora dos EUA), o projeto de táxi aéreo chamado UberAIR – imaginem o assustador quadro de trabalhadores precarizados sendo lançados aos céus e voando sobre nossas cabeças... – clique aqui.
Tudo isso sem falar nas “reformas” que pretendem exterminar o futuro de uma geração inteira. 
Essa preocupação equivocada da esquerda em ficar reativamente paralisada à pauta alimentada todo dia pelo clã Bolsonaro é também criticada pelo colunista Joaquim Xavier: ao invés de pensar no futuro ou no presente, cai na armadilha semiótica da distração e prefere falar do passado:
Os oposicionistas de plantão, mesmo os bem-intencionados, parecem pensar diferente. Gritam histericamente contra a apologia da ditadura morta, porém é sonolenta quando se trata da ditadura de fato em curso. A olhos vistos, está em marcha um movimento de liquidação do Brasil para transformá-lo em Brazil. Mas não se vislumbra uma mobilização à altura deste risco. Mais cômodo falar do passado. – clique aqui.
Distraída, hipnotizada e com o sangue subindo à cabeça a cada provocação do capitão da reserva e seus pitbulls, os oposicionistas parecem muito mais preferir salvar suas biografias do que ocupar a esfera pública (ruas, praças e avenidas) e a opinião pública através de uma contraguerrilha semiótica capaz de criar uma agenda própria.
Distraindo a oposição, desvia a atenção da própria opinião pública. Para quê? Para calmamente colocar em prática as outras nove estratégias de manipulação apontadas por Chomsky e Herman: gradativamente criar uma situação da terra-arrasada para sacrificar o futuro através da culpa e do medo. Infantilizando a opinião pública por meio das “caneladas” e “mitagens” de Bolsonaro e seus asseclas enquanto as redes sociais são monitoradas pelos algoritmos de Steve Bannon e a psicometria de Michal Kosinski.

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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Mídia brasileira, representante dos interesses da Casa Grande, se deixa humilhar na era Bolsonaro. Por Denise de Assis






Estávamos em 2016. A dois anos, portanto, das eleições regulamentares, previstas em lei. Estimulado por uma articulação urdida no seio do PSDB – que já vislumbrava a sua total incapacidade de fazer o próximo presidente – e de um vice do PMDB, ressentido e ambicioso, (com certeza de olhos no fórum privilegiado do cargo) o Congresso atropelou a Constituição e aprovou um impeachment sem crime configurado, sem provas concretas para justificá-lo.

O país trocou os pés pelas mãos. Tal como em "Alice no país das Maravilhas" – (Lewis Carrol), encantou-se com o exotismo de um coelho que falava e usava relógio. Entrou em sua toca sem refletir que descer seria fácil. Difícil mesmo era encontrar a saída.

O que faltava na conta da presidenta Dilma, para levá-la ao impeachment, sobrava na do vice: fortes indícios das suas falcatruas. E o que importava isto, naquele momento, se havia o perigo do retorno de Lula? Tudo, menos a volta de Lula, pareciam concordar a elite, a classe média intolerante e até a corte suprema, que se omitiu em fazer valer a letra da lei em momentos cruciais. Nada disto contou. Havia um plano de reformas a ser levado adiante, de interesse do mundo empresarial. Porém, o papel decisivo foi o da mídia, orquestrando manifestações e levando para a rua o discurso do ódio ao governo legalmente eleito.

Eis que, Dilma deposta, vieram à tona os malfeitos do vice. Os índices de aprovação da presidenta - um dos argumentos para o seu impeachment -, ainda na casa dos dois dígitos, nunca foram alcançados pelo seu sucessor, que desde que pisou no palácio ouviu o coro de "fora Temer". O que fez a mídia? Não fez. Não apurou verdadeiramente, ignorou denúncias e manobras, movidas a farta distribuição de emendas para impedir que o presidente ilegítimo – nunca é demais lembrar – virasse réu.

Michel não foi incomodado. Entregou o que esperavam dele. O pré-sal, a reforma trabalhista, e quase fez o gol de placa, a tão sonhada reforma da Previdência. Por conta disto, foi deixado em paz, não foi devidamente investigado, não houve apuração, de fato, dos seus malfeitos. Saiu do Planalto pela rampa principal.

Na descida, deu posse ao candidato que se não foi o escolhido dos meios de Comunicação, foi o acolhido. Valia qualquer um, desde que o PT fosse escorraçado de Brasília. E a mídia lá, omissa. Não cobraram do candidato da ultradireita participações em debates, não respeitaram o tempo de TV estipulado para a campanha, na cobertura do atentado sofrido pelo candidato; não se debruçaram, de fato, sobre a vida pregressa do candidato e suas "ramificações"; não cobraram dele projetos, plataforma de governo, nada.

Eis que agora, no vazio que se evidencia o seu governo (?), com três meses no posto, esta mesma mídia se dá conta de que é barrada em coletivas, é acusada de persegui-lo e é tratada a pão e água. Perplexa, entra em um processo de esquizofrenia. Nos editoriais, cobra a ausência de ações efetivas, acusam-no de jogar o país num "deserto de ideias", e de não ter aptidão para o cargo. Na linha editorial, em suas coberturas, continua passando a mão sobre a sua cabeça, para não atrapalhar o desenrolar da reforma da Previdência, o samba de uma nota só em que se transformou o discurso dos meios tradicionais. Todo apoio ao mercado financeiro!

Nunca antes na história deste país os jornalões e os principais canais de TV foram banidos dos salões do poder. Assim mesmo, humilhados e escorraçados, seguem com o rabinho entre as pernas, dando uma no prego outra na ferradura, à espera da manchete dos sonhos: "Aprovada a reforma da Previdência". Enquanto isto, escrevem editoriais raivosos, mas não contribuem no trabalho de apuração para esclarecer as muitas perguntas que deveriam ajudar a responder.

Quem mandou matar Marielle? Onde está Queiroz? Para onde foram tantos depósitos feitos pelo chefe de gabinete do filho do presidente? E outras tantas, que gostaríamos de ver respondidas. Por onde anda Adriano, o miliciano? Por exemplo...

Denise Assis, Jornalista há 43 anos, vencedora dos prêmios Esso e Ayrton Senna de Jornalismo, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade, autora dos livros "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", e membro do Jornalistas pela Democracia

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Os delírios autoritários de Paulo Guedes, por Gustavo Freire Barbosa



Os delírios autoritários de Paulo Guedes

"A Piauí de setembro traz um excelente perfil de Paulo Guedes, retratado pela jornalista Malu Gaspar.Aspirante a czar da economia em um eventual governo de Jair Bolsonaro[1], Guedes é um autêntico Chicago Boy: ultraliberal, privatista, entusiasta dos mais caricatos dogmas do mercado. É também, como é de esperar, adverso à políticae aos influxos nefastos da “ideologia”, que demonstra considerar sinônimo de “esquerdismo” e afins."


Do Justificando:



Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Os delírios autoritários de Paulo Guedes


É de Terry Eagleton, crítico literário inglês, a frase “ideologia é como mau hálito, só o outro tem”. Quando escreveram “A Ideologia Alemã”, Marx e Engels tomaram “ideologia” como algo do qual não se pode fugir -as luzes que não apenas esclarecem, mas também ofuscam, cegam e ocultam, impedindo que as determinações da vida sejam compreendidas.
A dupla de pensadores alemães desenvolveu uma rica teoria sobre o conceito dealienação, suas causas e desdobramentos. Segundo ela, as ideias dominantes de cada época são as ideias da classe dominante, expressão ideal das relações que a fazem ocupar o topo da pirâmide. Trata-se, em suma, dos meios de produção espiritual dominados por quem tem o controle dos meios de produção material.Da ideologia enquanto expressão invertida do mundo por ser a expressão de um mundo invertido.
A ideologia busca sempre naturalizar o que é histórico. A defesa contumaz daquilo que existe é talvez seu principal mecanismo, apresentando o que é particular como universal, como estágio definitivo do desenvolvimento da civilização humana. Suas formas – Estado, família, mercado, democracia representativa – são “as” formas. Definitivas, naturais, imutáveis, nascidas do contato da chuva com o solo. Em “A educação para além do capital”, Istvan Meszáros reflete o quão absurdo seria esperar a formulação de um ideal educacional, do ponto de vista da ordem feudal em vigor, que levasse em consideração o ponto de vista dos servos, como classe, sobre os senhores da classe dominante.
A Piauí de setembro traz um excelente perfil de Paulo Guedes, retratado pela jornalista Malu Gaspar.Aspirante a czar da economia em um eventual governo de Jair Bolsonaro[1], Guedes é um autêntico Chicago Boy: ultraliberal, privatista, entusiasta dos mais caricatos dogmas do mercado. É também, como é de esperar, adverso à políticae aos influxos nefastos da “ideologia”, que demonstra considerar sinônimo de “esquerdismo” e afins.
O fato de se enxergar como alguém blindado à atmosfera ideológica esquerdista se encontra presente em todo o perfil.   “É burrice ter ideologia”, conclui, por exemplo, ao defender que a Petrobras deveria ter sido privatizada há anos, pagando a dívida pública epossibilitando a distribuição de dinheiro para o povo. Para Paulo Guedes, seus posicionamentos não são ideológicos.Brotam de equações matemáticas.
Este receituário, todavia, teve ao menos por duas vezes sua eficiência contestada pelos mais legítimos prepostos do capitalismo financeiro e propagandistas do pecado original. As conclusões de que a cartilha das privatizações, austeridade, controle rigoroso e dogmático da inflação e diminuição do Estado não entregam o que prometem foi do próprio FMI[2], ressaltando que tais medidas foram responsáveis por gerar um quadro insalubre e explosivo de desigualdade social. A nacionalização dos hidrocarbonetos e políticas inversas a estas, a propósito, são apontadas pelo próprio FMI como alguns dos fatores pelos quais a Bolívia vem sendo o país que mais cresce na América Latina[3]. As experiências de Portugal[4] e Islândia[5] se juntam à dos nossos vizinhos para deixar na berlinda o castelo de cartas do Consenso de Washington.
No artigo “Paulo Guedes contra o liberalismo”[6], Miguel Lago traça um paralelo pertinente entre a experiência histórica da Alemanha da década de 30 e o casamento de última hora entre Bolsonaro e Guedes. Embora os nazistas tivessem sido os mais votados nas eleições de 1932, Hitler era visto como alguém tosco e despreparado pela elite política e econômica. Para suprir essa deficiência, foi necessário o apoio de Franz von Papen, respeitado representante da aristocracia alemã, de maneira a possibilitar a nomeação de Hitler para o cargo de Chanceler. Ao emprestar seu prestígio ao nazista, Papen acreditava estar domando a fera – exatamente o que Guedes acredita estar fazendo:
“Quer dizer: todo mundo aí trabalhou para o Aécio, ladrão, maconheiro. Trabalhou para o Temer, ladrão. Trabalhou pro Sarney, ladrão e mau-caráter que aparelhou o Brasil inteiro. Aí um sujeito completamente tosco, bruto e consegue voto como o Lula conseguiu. A elite brasileira, em vez de entender e falar assim, pô, nós temos a oportunidade de mudar a política brasileira para melhor (…) ah, mas ele xinga isso, xinga aquilo… Amansa o cara!”.
Lago conclui que “o apoio público de Paulo Guedes a Bolsonaro é muito grave, pois ele naturaliza a barbárie, travestindo-a de civilização e tornando-a uma opção entre outras. Sem Guedes, Bolsonaro representaria apenas aquilo que ele é: o horror, o ódio e a loucura em seu estado mais puro. Seria apenas uma versão menos religiosa do Cabo Daciolo”. Um dos três maiores gestores de fundos de investimento do Brasil revelou a Malu Gaspar que o apoio de Guedes fez toda a diferença para que o mercado passasse a enxergar o capitão com um olhar mais condescendente: “já que Bolsonaro tem a chance de ganhar, é melhor que esteja com um liberal. Muito empresário queria votar nele, mas tinha receio ou vergonha. O Paulo Guedes deu a desculpa que o pessoal precisava”.
A diferença é que a relação entre Guedes e Bolsonaro não aguardou o êxito eleitoral para azedar. Após o economista ter tido suas asas cortadas pelo candidato e cancelado compromissos em série, ficou claro que a solidez desse “casamento hétero” não é tão segura quanto Bolsonaro vinha tentando demonstrar[7].
Guedes não admite que suas fórmulas sejam temperadas pela política. O mesmo interlocutor realça que, na primeira situação em que um deputado discordar de suas proposições, Guedes “mandará o sujeito para aquele lugar e irá embora”. Em outra ocasião, o economista trata da política econômica adotada no segundo mandato de Dilma Rousseff: “o Brasil precisa de um ajuste, o problema não é o Levy [Joaquim Levy, então ministro da fazenda]. O problema é a política”.Tamanha aversão ratifica o fato de não ser de hoje o pendor antidemocrático dos freedomfighters do mercado[8].
 A insatisfação com a política e seus instrumentos democráticos de controle e fiscalização é, como visto, um ponto nodal de suas ideias. Se a soberania nacional e as instituições democráticas forem um entrave para a acumulação, que sejam suspensas, vide a emenda constitucional do teto de gastos. Economia, segundo Guedes, não tem a ver com política, tanto que, a exemplo do próprio Milton Friedman[9], não vê nenhuma contradição em ter trabalhado para a ditadura de Pinochet, numa repugnante mistura de ignorância e cinismo:
“Quando questionei pela primeira vez a respeito disso, Guedes rechaçou a associação com a ditadura chilena. ‘O Bacha dava aulas aqui na PUC durante a ditadura e ninguém fala nada’. Comentei que havia uma diferença importante: a Universidade do Chile era dirigida por general, e a PUC, não. Ele ficou sem jeito. Mas afirmou: ‘eu sabia zero do regime político. Eu sabia que tinha uma ditadura, mas para mim isso era irrelevante do ponto de vista intelectual’”.
Guedes passou a achar a ditadura chilena “relevante” quando encontrou agentes da polícia secreta vasculhando o apartamento onde morava. Abandonou o Chile, mas não perdeu de vista o ideário privatista, mencionado especialmente em relação aos presídios e à previdência social – a primeira experiência, um fracasso retumbante nos EUA[10], a segunda, um desastre no próprio Chile[11].
Guedes, o tecnocrata, está consciente das dificuldades impostas à aplicação de seu programa pelos filtros institucionais das democracias liberais. Assim também estava a turma de Chicago em 1973 quanto à impossibilidade de execução de suas ideias por meio das vias democráticas. Montados nos alazões da liberdade, chegaram ao Chile para servir uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina e aplicar exatamente o projeto que havia sido derrotado nas urnas anos antes. Curiosamente, também se achavam pós-ideológicos e acreditavamos viés apolítico dos serviços que prestavam.
Em outro trecho do perfil, o papel de espadachim do mercado vem entremeado de uma autocrítica incomum: “todos nós erramos. Já errei milhões de vezes também. A diferença é que, quando eu erro, pago com o meu dinheiro”. O que Guedes teria a dizer da crise de 2008, onde os erros e a irresponsabilidade de instituições financeiras foram pagos com trilhões de dólares diretos do bolso dos contribuintes? É bom realçar que estatizações – um palavrão para economistas ortodoxos – foram realizadas a rodo para salvar o sistema financeiro norte-americano em razão do estouro da bolha especulativa das subprimes.
Para um tecnocrata como Guedes, questões como democracia, soberania nacional e bem-estar social pouco ou nada importam. “Gastos, gastos, gastos!”, saiu exclamando em voz alta no corredor após uma reunião em que apresentou sua proposta de reforma do Estado. Em nossas terras, os números têm melhor sorte que as pessoas, indagou Eduardo Galeano. Quantos vão bem quando a economia vai bem? Quantos se desenvolvem com o desenvolvimento? São questões que só podem ser respondidas por meio da política e dos respectivos canais democráticos para o seu exercício. Guedes sabe disso. Por issose entrincheira do outro lado.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado, membro da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB/RN, membro da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP), integrante do Instituto de Pesquisa e Estudos em Justiça e Cidadania (IPEJUC), professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
[1]https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-fiador/
[2]https://exame.abril.com.br/economia/neoliberalismo-nao-entrega-o-que-promete-diz-artigo-do-fmi/
[3]https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41753995
[4]https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/07/portugal-ousou-deixar-a-austeridade-e-tem-grande-renascimento.shtml
[5]https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/18/economia/1424281414_946592.html
[6]https://piaui.folha.uol.com.br/paulo-guedes-contra-o-liberalismo/
[7]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/sumicos-arranham-imagem-de-guedes-dizem-investidores.shtml
[8]https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/o-mercado-flerta-com-bolsonaro/
[9]https://www.youtube.com/watch?v=onGWIXaBHTo&t=8s
[10]https://www.bbc.com/portuguese/internacional-37195944
[11]https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39931826