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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A estrada financiada pela elite neoliberal que nos trouxe ao precipício bolsonarista, por Fernando Horta




Bolsonaro, como uma doença aproveitadora, tomou o poder quando os liberais usaram todos os seus recursos para desmantelar a ideia de “Estado” e mesmo de “democracia”.

A estrada que nos trouxe ao precipício, por Fernando Horta

GGN. - Desde que Max Weber descreveu as modificações na racionalidade do mundo moderno ocidental como em consonância com o capitalismo que vivemos às voltas com metáforas liberais escondidas como se fossem “naturais”.
O “livre mercado”, categoria econômica que não passa e nem nunca passará da teoria, encontra eco em várias áreas. Existe o “livre mercado das ideias”, um local em que supostamente todos os pensamentos e teorias produzidos “livremente” seriam “comprados” por um número também imenso de “consumidores” baseados apenas em seu julgamento. Assim se constrói os argumentos mais basais para a “liberdade de expressão”, “liberdade de ensino” e etc. Na mesma analogia, uma eleição seria “um grande mercado de votos” em que o eleitor compraria aquela que achasse a melhor ideia. Nos dois exemplos, o economicismo está presente. Veja que nas duas concepções de espaços de liberdade não deveria haver consumidor ou vendedor que pudesse influenciar o “preço” das ideias, e cada eleitor tem um e apenas um voto.
Desta forma que se consolida a ideia do liberalismo difuso. Tudo é explicado como virtuoso se tiver as características teóricas do “livre mercado”. Precisa ser impessoal, baseado em cálculos racionais individuais, com o interesse individual sendo a base de cada escolha. Na teoria do “livre mercado” os “produtos” oferecidos podem ser comparados através de um esforço lógico que cada indivíduo faz para filiar-se a uma ideia, gostar de um romance, uma música ou defender uma bandeira política. Livres e impessoais, as ofertas de bens (ideias, crenças, teorias e etc.) encontrariam consumidores e as “mais consumidas” se fortaleceriam, demonstrando o virtuosismo do produto.
Na verdade, os algoritmos das redes sociais são totalmente baseadas nesta ideia. Não há como as companhias manterem pessoas para ler tudo o que é produzido e postado mundo afora. E, mesmo que houvesse maneira, não se poderia garantir a igual de julgamento pois compreender e valorar são atividades humanas. O que fazem o Facebook, instagram, twitter e etc. é estabelecer os seus contatos (amigos) como seu mercado imediato. Tudo o que você posta vai para uma amostra dos seus amigos imediatamente. Uma amostragem pequena, que não deve passar de 10% dos seus amigos num primeiro momento. Conforme o retorno que estes dão o algoritmo “julga” o conteúdo de sua mensagem. Se recebe muito suporte, esta mensagem passa no teste do “livre mercado” e é apresentada a mais pessoas. E assim, após sucessivos testes, uma postagem “viraliza” exatamente como um “produto” ganha mercado e enriquece o seu inventor. No caso, enriquece o dono da rede social e você ganha “muitos” likes.
Nas teorias sobre eleições e democracia ocorre o mesmo. Vários candidatos apresentam-se como mercadoria (de ideias e propostas) e são “comprados” por eleitores pagando a moeda do “voto”. No final, o que foi mais “comprado” se elege e os de menos votos ficam fora do jogo. Na prática este liberalismo economicista nos governa desde o nascimento até a morte. Pesquisas recentes argumentam que os bebês aprendem a sorrir e serem “fofinhos” como estratégia de sobrevivência. Teoricamente vai ganhar mais carinho, leite e ter suas necessidades atendidas o bebê que se vender melhor. E um sorriso, um “gu-gu-dá-dá” no lugar certo pode fazer toda a diferença.
Todos os méritos, então, são dados ao tal “livre mercado” e, enquanto a direita enfatiza a palavra “mercado”, uma parte da esquerda fetichiza o termo “livre”. Abominam-se “ditadores”, ataca-se tudo o que não trouxer explicitamente a ideia-prática da “liberdade” e há quem defenda a liberdade de expressão até mesmo daqueles que pautam a sua vida na defesa do extermínio da vida dos outros. Inconscientemente esta esquerda adora o mercado e todas as suas características teóricas. A visão destas pessoas não difere muito daquele espectro de defensores do capitalismo, talvez com um pouco mais de “humanidade”.
Acontece que nem o “livre mercado” existe, nem “liberdade” é um valor etéreo, descolado das possibilidades práticas dos indivíduos. Em tese, você é livre para ir a qualquer lugar no mundo, com poucas barreiras de fronteira ou coisas assim. Sua liberdade de ir, no entanto, em nada modifica sua incapacidade material para tanto. E este é o ponto chave.
Assim como o capitalismo construiu formas para subverter totalmente o “livre mercado” de tal sorte que ele INEXISTE na realidade, o mesmo capitalismo criou formas para subverter o “livre mercado das ideias” e até mesmo “o livre mercado dos votos”, que chamamos de “eleição”. E as ferramentas usadas para inviabilizar o sonho teórico da “liberdade” são EXATAMENTE as mesmas. Quando você concentra uma grande quantidade de capital na mão de um ou duas pessoas, um verdadeiro vale surge no tecido social. Estas pessoas são capazes de moldar o universo à sua volta, alterando as preferências dos atores, sejam eles outras pessoas, ou até instituições inteiras.
O dono da AMBEV pode, por exemplo, convencer pessoas (que convencem outras pessoas) que qualquer um “que faça o que ele fez” pode se tornar bilionário. “Basta se esforçar”. Mesmo que não haja nenhum indício de veracidade na afirmação. O mesmo acontece com Luciano Huck, Felipe Neto, Neymar e outros tantos que defendem, aberta ou inconscientemente, a ideia de “meritocracia”. Supostamente todos eles triunfaram num ambiente de “concorrência livre” e através de seus “predicados pessoais”, e foram “justamente” recompensados pelo “mercado”. Dificilmente algum deles admite a variável sorte e NENHUM nunca irá admitir o uso de práticas moralmente abjetas como a exploração de outrem, o conluio para afastar concorrentes ou outras violências comuns.
Historicamente duas são as forças que conseguem rivalizar com o tal “mercado”: de um lado o Estado enquanto instituição regulatória e controladora única da violência física e, por outro, coletivizações organizadas como, por exemplo, sindicatos e partidos políticos. Tanto o estado, quanto as organizações coletivas conseguem “pesar” a balança para se contraporem à influência do “mercado”. Não é por acaso, portanto, que, em momentos de crise econômica (momentos em que se está disputando a posse e uso de recursos econômicos de forma acentuada), uma das ferramentas políticas mais evidentes do liberalismo (e do neoliberalismo) é atacar o “Estado” e “a esquerda”, aqui usada como sinônimo de “ação organizada coletiva”. É o mesmo mecanismo do vírus HIV que antes de qualquer coisa ataca o sistema de defesa do corpo humano. Indefeso, o corpo assiste à tomada das “doenças oportunistas” e acaba por sucumbir a uma gripe.
O fascismo é uma destas “doenças oportunistas” e a mediocridade de Bolsonaro, por exemplo, é semelhante a um grande organismo morrendo por ter sido infectado por uma gripe. Em condições normais, a gripe seria debelada, mas, com o liberalismo tendo destruído todo o sistema de defesa do corpo, a gripe é incontornável e letal.
Durante os governos do PT, o Estado alterou a correlação de valores do liberalismo. A educação passou a ser prioridade, a defesa das minorias era essencial, o fortalecimento do trabalho frente ao capital, a preservação do meio ambiente, a pluralidade na comunicação e tudo isto mesmo que houvesse custos. Não é barata uma educação inclusiva de qualidade, nem a manutenção de várias instituições de proteção da Amazônia. Não é barato manter uma democracia viva, plural e inclusiva, ou um judiciário imparcial, célere e efetivo. Contudo, a lógica do Estado não é a lógica do “mercado”. Coisas que não visam lucro são essenciais e não podem ser pesadas com o mesmo raciocínio de Lehmann ou Huck.
Bolsonaro, como uma doença aproveitadora, tomou o poder quando os liberais usaram todos os seus recursos para desmantelar a ideia de “Estado” e mesmo de “democracia”. O fascismo recalibrou os valores da sociedade. O conhecimento passou a ser desimportante, professores não conseguem mais se sustentar, artistas estão sendo atacados, a imparcialidade do poder judiciário foi extinta e a diversidade do legislativo está na UTI. O meio ambiente é menos importante do que o interesse do “mercado”, o trabalho tem menor tamanho do que o capital e democracia, nesta nova visão, é a imposição por meio da força das vontades incutidas na cabeça de um número de pessoas que são pintadas como “maioria”.
A porta para isto tudo, contudo é a noção de “livre mercado” e “meritocracia”, com a qual os liberais e neoliberais desmantelaram as instituições e a própria democracia. A luta hoje no Brasil é entre a ditadura do capital com média violência (liberalismo) ou a violência pura com mediana capacidade de ação do capital (fascismo). Nenhuma das duas alternativas é aceitável para os trabalhadores ou para qualquer pessoa com um mínimo de humanidade. E quando a polícia que permite que um nazista rico tome sua cerveja num bar público é a mesma que grita e ameaça professores dentro de escolas passou o momento de reagirmos. Ou pegamos os remos para nos defender, parando a canoa, ou, em breve, estaremos remando com as mãos e eles é que usarão os remos no nosso lombo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Jospeh Stiglitz sobre a era do neoliberalismo ditatorial totalitário


Ele impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiões eram totalmente intolerantes à dissidência. Os fatos a derrotaram — mas a teoria debate-se para sobreviver: as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm morte lenta
Por Joseph E. Stiglitz, no Project Syndicate
No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.
Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingênua. Mas reforçou a doutrina econômica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos.
A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.
A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik da Universidade de Harvard explicou de forma tão clara e tal como afirmo nos meus recentes livros Globalization and Its Discontents Revisited e People, Power, and Profits. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam então uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar uma grave crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.
Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” – fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado – “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão”.
Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento econômico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.
As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos econômicos científicos e na “investigação com base em provas”. Bem, após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de ações subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.
Como é que a restrição salarial – para alcançar ou manter a competitividade – e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados.Agora estamos a enfrentar as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da “ciência” econômica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.
A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspetivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos, mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.
Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos – um fenômeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje, os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados autorregulados e a sua rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolomaicas de ajustá-las aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.
Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas.
O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização, é um renascimento da história. Temos de revitalizar o Século das Luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.

O peculiar neoliberal e hipócrita totalitarismo do século XXI, por Chris Hedges



Resgate de Sheldon Wolin, o cientista político que descreveu a fusão entre Estado e corporações. Resultado: precariedade e insegurança constantes, para impor a tirania dos mercados; e violência, quando as multidões despertam…
Por Chris Hedges, em Trutthdig Tradução: Eleutério F. S. Prado
Sheldon Wolin, o mais importante teórico contemporâneo no campo da ciência política nos Estados Unidos, morreu há pouco mais de quatro anos, aos 93. Em seus livros Democracia Incorporada: democracia administrada e o espectro do totalitarismo invertido1 e Política e visão2 – uma vasta pesquisa sobre o pensamento político ocidental que o seu ex-aluno, Cornel West, considera “magistral” –, Wolin expõe a realidade da democracia falida dos Estados Unidos, as causas por trás do declínio do império americano e a ascensão de uma nova e aterrorizante configuração política, formada pelo poder das corporações, que ele chama de “totalitarismo invertido”.
Wendy Brown, professora de ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ex-aluna também de Wolin, disse-me num correio eletrônico: “resistindo aos monopólios do marxismo, na esquerda, e da teoria democrática, pelo liberalismo, Wolin desenvolveu uma análise distinta – distintamente americana – da atualidade política e das possibilidades da democracia radical. Ele foi especialmente presciente ao teorizar sobre o forte estatismo do que hoje chamamos de neoliberalismo; eis que revelou a existência de uma nova fusão do poder econômico com o poder político, a qual considerou que envenena a democracia em sua raiz.”
Wolin, ao longo de sua vida acadêmica, mapeou a involução da democracia e, em seu último livro, Democracia incorporada, detalhou a forma peculiar que o totalitarismo corporativo assumia nos Estados Unidos. “Não é possível apontar para qualquer instituição nacional que possa ser descrita com precisão como democrática” – escreveu ele nesse livro – “certamente não nas eleições altamente gerenciadas e saturadas de dinheiro, no Congresso infestado por lobistas, na presidência imperial, no sistema judicial e penal classista e, muito menos, na mídia.”
totalitarismo invertido é diferente das formas clássicas de totalitarismo. Ele não encontra a sua expressão em um demagogo ou líder carismático, mas no anonimato sem rosto do Estado corporativo. Esse totalitarismo invertido mantém uma fidelidade aparente à política eleitoral, à Constituição, às liberdades civis, à liberdade de imprensa, à independência do judiciário e à iconografia das tradições e da linguagem do patriotismo americano, mas aproveita em efetivo todos os mecanismos de poder existentes para tornar o cidadão impotente.
“Ao contrário dos nazistas, que tornaram a vida incerta para os ricos e privilegiados, que proporcionaram programas sociais para a classe trabalhadora e os pobres, o totalitarismo invertido explora os pobres, reduzindo ou enfraquecendo os programas de saúde e os serviços sociais, regrando a educação para formar uma força de trabalho insegura, sempre ameaçada pela importação de trabalhadores de baixa remuneração” – escreveu Wolin. “O emprego em uma economia de alta tecnologia, volátil e globalizada, afigura-se normalmente tão precário quanto durante uma depressão à moda antiga. O resultado é que a cidadania, ou o que resta dela, é praticada sob um estado contínuo de preocupação. Hobbes tinha, pois, razão: quando os cidadãos se sentem inseguros e, ao mesmo tempo, se veem impulsionados por aspirações competitivas, eles passam a desejar a estabilidade política e não o envolvimento cívico, a proteção e não o envolvimento político.”
O totalitarismo invertido, disse Wolin (…) numa entrevista, constantemente “projeta o poder para cima.” É, pois, “a antítese do poder constitucional”. É construído para criar instabilidade, para manter passiva e em desequilíbrio a cidadania.
Ele também escreveu: “A redução e a reorganização das empresas, o estouro de bolhas, os sindicatos desestruturados, as habilidades que rapidamente são ultrapassadas, a transferência de empregos para o exterior, tudo isso cria não apenas medo, mas uma economia de medo, um sistema de controle cujo poder se alimenta da incerteza. Porém, segundo os seus defensores, trata-se de um sistema eminentemente racional.”
O totalitarismo invertido “alimenta, sim, a política o tempo todo”, disse Wolin, “mas uma política que não é política”. Os ciclos eleitorais intermináveis e extravagantes, disse ele, são um exemplo de política sem política.
“Em vez de participar do poder”, escreve ele, “o cidadão virtual é convidado a ter “opiniões”, isto é, a fornecer respostas mensuráveis a perguntas premeditadas que suscitam respostas determinadas”.
As campanhas políticas raramente discutem questões substantivas. Centram-se em personalidades políticas manufaturadas, em retórica vazia, em relações públicas sofisticadas, em anúncios artificiais, em propaganda, no uso constante de grupos de teste, de pesquisas de opinião que visam laçar os eleitores e dizer o que eles querem ouvir. O dinheiro substituiu efetivamente a votação. Cada candidato presidencial atual – incluindo Bernie Sanders – sabe bem, para usar as palavras de Wolin, que “o tema “império” é tabu nos debates eleitorais.” O cidadão é irrelevante. Ele ou ela não é nada mais do que um espectador, autorizados a votar, mas, esquecido tão logo o carnaval eleitoral termina e as corporações e os seus lobistas voltam ao negócio de influir na legislação.
“Se o principal objetivo das eleições é fornecer legisladores flexíveis para que os lobistas os direcionem, tal prática merece ser chamada de “deturpada ou clientelística” – escreve Wolin. Trata-se de um poderoso sistema produtor de despolitização e de redução da cidadania. Com essa feição, ele apenas pode ser caracterizado como antidemocrático.”
O resultado, escreve ele, é que “o uso do poder do Estado é negado ao cidadão comum”. Wolin deplora a banalização do discurso político, uma tática usada para confundir e fragmentar o público, deixando-o perplexo, para que o poder corporativo e o próprio império permaneçam incontestados.
“As guerras culturais parecem indicar que estão em curso fortes batalhas políticas” – escreve ele. “Na verdade, não passam de distração. A atenção que recebem da mídia, assim como dos políticos ansiosos para firmar posição sobre questões não substantivas, serve apenas para distrair a atenção e para contribuir para uma política inconsequente.”
“As facções agora no poder podem operar na suposição de que não precisam mais do chamado público no sentido amplo de um todo coerente – uma noção tradicional”, disse ele. “Agora, eles têm as ferramentas para lidar com as disparidades e as diferenças que eles mesmos ajudaram a criar. É um jogo em que conseguem minar a coesão necessária para que o público não possa ser politicamente eficaz. E, ao mesmo tempo, criam diferentes e distintas facções, as quais se põe inevitavelmente em tensão, ou em desacordo, ou mesmo em concorrência umas com as outras. Deste modo, o processo político parece mais uma briga do que uma forma de formar maiorias.”
Em regimes totalitários clássicos, como os do fascismo nazista ou do comunismo soviético, a economia era subordinada à política. Mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro – escreve Wolin. “A economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade.” E, assim, continua: “Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como a democracia pode ser gerenciada sem parecer que foi suprimida.”
O Estado corporativo, disse Wolin, é “legitimado pelas eleições que controla.” Para extinguir a democracia, reescreve e distorce as leis e a legislação que outrora protegiam a democracia. Os direitos básicos são, em essência, revogados por meio de decretos judiciais e legislativos. Os tribunais e os órgãos legislativos, a serviço do poder corporativo, reinterpretam as leis para despojá-los de seu significado original, a fim de fortalecer o controle corporativo e suprimir a supervisão sobre as corporações.
Ele escreve: “por que negar a Constituição, como os nazistas o fizeram, se é possível explorar simultaneamente a porosidade e o poder legítimo por meio de interpretações judiciais. Pois, protege-se agora as enormes contribuições das campanhas eleitoras por meio da “Primeira Emenda”; trata-se os lobbies fortemente financiados e organizados pelas grandes corporações como simples aplicação do direito do povo de peticionar ao seu governo!”
O sistema norte-americano de totalitarismo invertido evitará medidas duras e violentas de controle “enquanto… a dissidência permanece ineficaz” – disse ele. “O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da mídia corporativa faz um trabalho muito eficaz.”
As elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas. “Por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projetos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos, doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema” – escreve Wolin. “Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado”.
Mas – adverte – se a população – constantemente despojada de seus direitos mais básicos, incluindo o direito à privacidade, cada vez mais empobrecida e desprovida de esperança – tornar-se inquieta, o totalitarismo invertido se tornará tão brutal e violento quanto os Estados totalitários do passado. “A guerra contra o terrorismo, com sua ênfase na segurança interna, presume que o poder do Estado, agora inflado pelas doutrinas de guerra preventiva e liberado das obrigações constitucionais e das restrições judiciais, pode se voltar para dentro” – escreve ele. “Confiante de que, em sua busca doméstica de terroristas, os poderes agora reclamados, tal como os poderes projetados no exterior, seriam medidos, não pelos padrões constitucionais comuns, mas pelo caráter sombrio e onipresente do terrorismo tal como foi oficialmente definido.”
A violência policial indiscriminada em comunidades pobres de negros e de hispânicos é um exemplo da capacidade do Estado corporativo “legalmente” assediar e matar cidadãos de modo impune. As formas mais cruas de controle – da polícia militarizada e da vigilância por atacado, bem como a polícia funcionando como juiz, júri e carrasco – é agora uma realidade para a classe baixa e vai se tornando uma realidade para todos. É preciso começar a resistir à canalização continuada de poder e de riqueza para os de cima. Somos tolerados como cidadãos, adverte Wolin, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.
“O significado da enorme população carcerária afro-americana é político” – escreve. “O que é mais notável sobre essa população é que, em geral, ela é altamente sofisticada politicamente. De longe, é o único grupo social que, ao longo do século XX, manteve vivo um espírito de resistência e de rebeldia. Nesse contexto, a justiça criminal é tanto estratégia de neutralização política quanto um canal de racismo instintivo.”
Em seus escritos, Wolin expressa consternação pelo fato de que toda uma população foi excluída do mundo das ideias e das publicações sutis. Ele vê o cinema, assim como a televisão, como “tirânicos”. Eis que têm a capacidade de “bloquear, eliminar muito do que pode introduzir qualificação, ambiguidade ou diálogo”. Ele protesta contra o que chama de “mídia monocromática”, formada por especialistas aprovados pelas empresas e usados para identificar “os problemas e os seus parâmetros, criando, assim, uma parede contra a qual os dissidentes lutam em vão. O crítico que insiste em mudar o contexto é descartado como irrelevante, extremista, como de “esquerda” – sendo, assim, ignorado completamente.”
A disseminação constante de ilusões permite que mito em vez de realidade domine as decisões das elites poderosas. E quando o mito domina, os desastres caem sobre o império, tal como ocorreu nos quatorze anos de guerra fútil no Oriente Médio. A incapacidade dos Estados Unidos de reagir às mudanças climáticas ilustram isso. Eis o que Wolin escreve:
Quando o mito começa a governar os tomadores de decisão em um mundo onde a ambiguidade e os fatos teimosos abundam, o resultado é uma desconexão entre os atores e a realidade. Estão convencidos de que as forças das trevas possuem armas de destruição em massa e capacidades nucleares, que a sua própria nação é privilegiada, que um deus inspirou os “pais fundadores” e que eles escreveram a Constituição da nação; e que, ademais, inexiste uma estrutura de classe de grandes e teimosas desigualdades. Uns poucos, sombrios, mas aparentemente alegres, veem sempre presságios de que o seu mundo que está vivendo “os seus últimos dias.”
Wolin atuou, no passado, como piloto e navegador de avião bombardeiro pesado, o B-24, no Pacífico Sul, na II Guerra Mundial. Ele participou de 51 missões de combate. Os aviões em que viajou tinham tripulações de até 10 soldados. De Guadalcanal, ele avançou com as forças norte-americanas que capturaram ilhas no Pacífico. Durante a campanha, o alto comando militar decidiu dirigir os bombardeiros B-24, os quais eram enormes e difíceis de voar, além de ter pouca manobrabilidade, contra os navios japoneses, uma tática que produziu enormes perdas de aviões e de vidas americanas. O uso do B-24, apelidado de “caixão voador”, para atacar navios de guerra munidos com armas antiaéreas, mostrou para Wolin a insensibilidade dos comandantes militares. Eles, alegremente, sacrificaram as tripulações aéreas e as máquinas de guerra em missões que tinham pouca chance de sucesso.
“Foi terrível” – disse ele a respeito das ordens para bombardear os navios japoneses. “Tivemos perdas terríveis, porque essas aeronaves eram grandes e pesadas e, particularmente, porque tinham de voar baixo para tentar atingir a marinha japonesa – nós perdemos inúmeras pessoas assim, inúmeras.”
“Tivemos também algumas vítimas psicológicas… homens, meninos, que simplesmente não aguentavam mais” – disse ele – “simplesmente não suportavam a tensão de se levantar às 5 da manhã para continuar a entrar nesses aviões, tomar tiros e depois voltar para descansar por mais um dia.” Wolin percebeu que os militaristas e os corporativistas formavam uma coalizão profana para orquestrar a ascensão de um império americano global no pós-guerra, assim como para extinguir a democracia americana. Para ele, o totalitarismo invertido era “a verdadeira face da superpotência”. Aqueles que ganham com a guerra e os militaristas, advogando a doutrina da guerra total durante o período da Guerra Fria, sangraram o País de seus recursos. Trabalharam, também, em conjunto para desmantelar as instituições e as organizações populares, como sindicatos, para descapacitar politicamente e empobrecer os trabalhadores. Eles “normalizaram” a guerra. Wolin adverte que, como em todos os impérios, eles eventualmente serão “eviscerados por seu próprio expansionismo”. Nunca haverá um retorno à democracia, adverte, até que o poder descontrolado dos militaristas e corporativistas seja drasticamente reduzido. Um Estado guerreiro não pode ser um Estado democrático.
Wolin escreve:
A defesa nacional foi declarada inseparável de uma economia forte. A fixação na mobilização e no rearmamento inspirou o desaparecimento gradual da agenda política nacional voltada à regulação e controle das corporações. O defensor do mundo livre precisava do poder da globalização, expansão das corporações, não uma economia que promovesse a confiança. Além disso, uma vez que o inimigo era raivosamente anticapitalista, cada medida que fortalecia o capitalismo era um golpe contra o inimigo. Uma vez que as linhas de batalha entre o comunismo e a “sociedade livre” foram desenhadas, a economia tornou-se intocável para outros fins que não um capitalismo “forte”. Pensa-se, pois, numa fusão entre o capitalismo e a democracia. Porém, uma vez que a identidade e a segurança da democracia foram identificadas com sucesso na Guerra Fria e com os métodos para a empreender, o palco estava pronto para promover a intimidação da maioria no campo da política, à esquerda e à direita.
O resultado é uma nação dedicada quase exclusivamente a travar a guerra.
“Quando um governo constitucionalmente limitado utiliza armas de poder destrutivo horrendo, subsidia o seu desenvolvimento e se torna o maior traficante de armas do mundo” – escreve Wolin –, “a Constituição só pode ser usada para servir a esse poder, em vez de servir à consciência.”
Mas ele continua:
Como o cidadão patriótico apoia incansavelmente os militares, assim como o seu enorme orçamento dedicado à guerra, isto significa que os conservadores conseguiram persuadir o público de que tais gastos merecem um tratamento diferenciado. Assim, o elemento mais substancial do poder do Estado é removido do debate público. Da mesma forma, o cidadão norte-americano em seu status de cidadão imperial, sempre desdenhoso da burocracia, não hesita em obedecer às diretrizes emitidas pelo Departamento de Segurança Interna, o maior e mais intrusivo departamento governamental da história da nação. A identificação com o militarismo e o patriotismo, juntamente com as imagens do poder americano projetadas pela mídia, serve para fazer o cidadão individual se sentir mais forte, compensando assim os sentimentos de fraqueza que decorrem de uma economia baseada em excesso de trabalho, força de trabalho exausta e insegura. O totalitarismo invertido, que é antipolítico, requer crentes, patriotas e trabalhadores não sindicalizados.
Sheldon Wolin foi muitas vezes considerado como um pária entre os teóricos políticos contemporâneos. Pois eles se concentravam na análise quantitativa e no estudo do comportamento, evitando, assim, o exame amplo das teorias e das ideias políticas. Wolin insistiu que a filosofia, mesmo aquela escrita pelos gregos antigos, não era uma relíquia morta, mas uma ferramenta vital para examinar e desafiar os pressupostos e as ideologias dos sistemas contemporâneos de poder e de pensamento político. Trabalhar com a teoria política, argumentou, constituía-se “primeiro numa atividade cívica e, apenas em segundo lugar, acadêmica”. Eis que ela tem um papel “não apenas como disciplina histórica que lida com o exame crítico dos sistemas de ideias” – disse – mas também é uma força que “ajuda a moldar as políticas públicas e as diretrizes governamentais, contribuindo acima de tudo para a educação cívica e para alcançar os objetivos de uma sociedade mais democrática, mais igualitária e mais educada.” Em seu ensaio de 1969, Teoria política como vocação, defendeu esse imperativo, castigando os seus colegas acadêmicos que concentraram seu trabalho na coleta de dados, assim como em minúcias acadêmicas. Nesse ensaio, ele escreveu, com sua lucidez habitual e floreios literários, o seguinte:
Em um sentido fundamental, o mundo atual é um produto da deliberação como talvez nenhum mundo anteriormente; um produto de teorias sobre as estruturas humanas deliberadamente criadas, ao invés de historicamente articuladas. Porém, em outro sentido, a concretização das teorias no mundo resultou em um mundo impermeável às próprias teorias. As estruturas gigantes e perpassadas por rotinas desafiam as mudanças fundamentais e, ao mesmo tempo, apresentam uma legitimidade incontestável, pois os princípios racionais, científicos e tecnológicos em que se baseiam parecem perfeitamente de acordo com uma era comprometida com a ciência, o racionalismo e a tecnologia. Acima de tudo, afigura-se como um mundo que parece ter tornado a teoria épica supérflua. A teoria, como Hegel havia previsto, assume a forma de “explicação”. Na verdade, parece que chegou o tempo em que coruja de Minerva já voou.
A obra-prima de Wolin, Política e visão, de 1960, tem como subtítulo “A continuidade e a inovação no pensamento político ocidental”, baseou-se num vasto estudo de teóricos políticos e de filósofos, incluindo Platão, Aristóteles, Agostinho, Immanuel Kant, John Locke, John Calvin, Martinho Lutero, Thomas Hobbes, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Max Weber, John Dewey e Hannah Arendt. O seu objetivo foi o de refletir, a partir deles, sobre a realidade política e cultural contemporânea. A sua tarefa, como afirmou no final do livro, era a de “nutrir a consciência cívica da sociedade” na “era da superpotência”. O imperativo de amplificar e de proteger as tradições democráticas das forças contemporâneas que tentam destruí-las permeou todo o seu trabalho, incluindo seus livros Hobbes e a tradição épica na teoria política3 e Tocqueville entre dois mundos: a realização de uma vida política e teórica4
1 Tradução de Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism.
2 Tradução de Politics and Vision.
4 Em inglês: Tocqueville between two words: the making of a political and theoretical life.