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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O peculiar neoliberal e hipócrita totalitarismo do século XXI, por Chris Hedges



Resgate de Sheldon Wolin, o cientista político que descreveu a fusão entre Estado e corporações. Resultado: precariedade e insegurança constantes, para impor a tirania dos mercados; e violência, quando as multidões despertam…
Por Chris Hedges, em Trutthdig Tradução: Eleutério F. S. Prado
Sheldon Wolin, o mais importante teórico contemporâneo no campo da ciência política nos Estados Unidos, morreu há pouco mais de quatro anos, aos 93. Em seus livros Democracia Incorporada: democracia administrada e o espectro do totalitarismo invertido1 e Política e visão2 – uma vasta pesquisa sobre o pensamento político ocidental que o seu ex-aluno, Cornel West, considera “magistral” –, Wolin expõe a realidade da democracia falida dos Estados Unidos, as causas por trás do declínio do império americano e a ascensão de uma nova e aterrorizante configuração política, formada pelo poder das corporações, que ele chama de “totalitarismo invertido”.
Wendy Brown, professora de ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ex-aluna também de Wolin, disse-me num correio eletrônico: “resistindo aos monopólios do marxismo, na esquerda, e da teoria democrática, pelo liberalismo, Wolin desenvolveu uma análise distinta – distintamente americana – da atualidade política e das possibilidades da democracia radical. Ele foi especialmente presciente ao teorizar sobre o forte estatismo do que hoje chamamos de neoliberalismo; eis que revelou a existência de uma nova fusão do poder econômico com o poder político, a qual considerou que envenena a democracia em sua raiz.”
Wolin, ao longo de sua vida acadêmica, mapeou a involução da democracia e, em seu último livro, Democracia incorporada, detalhou a forma peculiar que o totalitarismo corporativo assumia nos Estados Unidos. “Não é possível apontar para qualquer instituição nacional que possa ser descrita com precisão como democrática” – escreveu ele nesse livro – “certamente não nas eleições altamente gerenciadas e saturadas de dinheiro, no Congresso infestado por lobistas, na presidência imperial, no sistema judicial e penal classista e, muito menos, na mídia.”
totalitarismo invertido é diferente das formas clássicas de totalitarismo. Ele não encontra a sua expressão em um demagogo ou líder carismático, mas no anonimato sem rosto do Estado corporativo. Esse totalitarismo invertido mantém uma fidelidade aparente à política eleitoral, à Constituição, às liberdades civis, à liberdade de imprensa, à independência do judiciário e à iconografia das tradições e da linguagem do patriotismo americano, mas aproveita em efetivo todos os mecanismos de poder existentes para tornar o cidadão impotente.
“Ao contrário dos nazistas, que tornaram a vida incerta para os ricos e privilegiados, que proporcionaram programas sociais para a classe trabalhadora e os pobres, o totalitarismo invertido explora os pobres, reduzindo ou enfraquecendo os programas de saúde e os serviços sociais, regrando a educação para formar uma força de trabalho insegura, sempre ameaçada pela importação de trabalhadores de baixa remuneração” – escreveu Wolin. “O emprego em uma economia de alta tecnologia, volátil e globalizada, afigura-se normalmente tão precário quanto durante uma depressão à moda antiga. O resultado é que a cidadania, ou o que resta dela, é praticada sob um estado contínuo de preocupação. Hobbes tinha, pois, razão: quando os cidadãos se sentem inseguros e, ao mesmo tempo, se veem impulsionados por aspirações competitivas, eles passam a desejar a estabilidade política e não o envolvimento cívico, a proteção e não o envolvimento político.”
O totalitarismo invertido, disse Wolin (…) numa entrevista, constantemente “projeta o poder para cima.” É, pois, “a antítese do poder constitucional”. É construído para criar instabilidade, para manter passiva e em desequilíbrio a cidadania.
Ele também escreveu: “A redução e a reorganização das empresas, o estouro de bolhas, os sindicatos desestruturados, as habilidades que rapidamente são ultrapassadas, a transferência de empregos para o exterior, tudo isso cria não apenas medo, mas uma economia de medo, um sistema de controle cujo poder se alimenta da incerteza. Porém, segundo os seus defensores, trata-se de um sistema eminentemente racional.”
O totalitarismo invertido “alimenta, sim, a política o tempo todo”, disse Wolin, “mas uma política que não é política”. Os ciclos eleitorais intermináveis e extravagantes, disse ele, são um exemplo de política sem política.
“Em vez de participar do poder”, escreve ele, “o cidadão virtual é convidado a ter “opiniões”, isto é, a fornecer respostas mensuráveis a perguntas premeditadas que suscitam respostas determinadas”.
As campanhas políticas raramente discutem questões substantivas. Centram-se em personalidades políticas manufaturadas, em retórica vazia, em relações públicas sofisticadas, em anúncios artificiais, em propaganda, no uso constante de grupos de teste, de pesquisas de opinião que visam laçar os eleitores e dizer o que eles querem ouvir. O dinheiro substituiu efetivamente a votação. Cada candidato presidencial atual – incluindo Bernie Sanders – sabe bem, para usar as palavras de Wolin, que “o tema “império” é tabu nos debates eleitorais.” O cidadão é irrelevante. Ele ou ela não é nada mais do que um espectador, autorizados a votar, mas, esquecido tão logo o carnaval eleitoral termina e as corporações e os seus lobistas voltam ao negócio de influir na legislação.
“Se o principal objetivo das eleições é fornecer legisladores flexíveis para que os lobistas os direcionem, tal prática merece ser chamada de “deturpada ou clientelística” – escreve Wolin. Trata-se de um poderoso sistema produtor de despolitização e de redução da cidadania. Com essa feição, ele apenas pode ser caracterizado como antidemocrático.”
O resultado, escreve ele, é que “o uso do poder do Estado é negado ao cidadão comum”. Wolin deplora a banalização do discurso político, uma tática usada para confundir e fragmentar o público, deixando-o perplexo, para que o poder corporativo e o próprio império permaneçam incontestados.
“As guerras culturais parecem indicar que estão em curso fortes batalhas políticas” – escreve ele. “Na verdade, não passam de distração. A atenção que recebem da mídia, assim como dos políticos ansiosos para firmar posição sobre questões não substantivas, serve apenas para distrair a atenção e para contribuir para uma política inconsequente.”
“As facções agora no poder podem operar na suposição de que não precisam mais do chamado público no sentido amplo de um todo coerente – uma noção tradicional”, disse ele. “Agora, eles têm as ferramentas para lidar com as disparidades e as diferenças que eles mesmos ajudaram a criar. É um jogo em que conseguem minar a coesão necessária para que o público não possa ser politicamente eficaz. E, ao mesmo tempo, criam diferentes e distintas facções, as quais se põe inevitavelmente em tensão, ou em desacordo, ou mesmo em concorrência umas com as outras. Deste modo, o processo político parece mais uma briga do que uma forma de formar maiorias.”
Em regimes totalitários clássicos, como os do fascismo nazista ou do comunismo soviético, a economia era subordinada à política. Mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro – escreve Wolin. “A economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade.” E, assim, continua: “Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como a democracia pode ser gerenciada sem parecer que foi suprimida.”
O Estado corporativo, disse Wolin, é “legitimado pelas eleições que controla.” Para extinguir a democracia, reescreve e distorce as leis e a legislação que outrora protegiam a democracia. Os direitos básicos são, em essência, revogados por meio de decretos judiciais e legislativos. Os tribunais e os órgãos legislativos, a serviço do poder corporativo, reinterpretam as leis para despojá-los de seu significado original, a fim de fortalecer o controle corporativo e suprimir a supervisão sobre as corporações.
Ele escreve: “por que negar a Constituição, como os nazistas o fizeram, se é possível explorar simultaneamente a porosidade e o poder legítimo por meio de interpretações judiciais. Pois, protege-se agora as enormes contribuições das campanhas eleitoras por meio da “Primeira Emenda”; trata-se os lobbies fortemente financiados e organizados pelas grandes corporações como simples aplicação do direito do povo de peticionar ao seu governo!”
O sistema norte-americano de totalitarismo invertido evitará medidas duras e violentas de controle “enquanto… a dissidência permanece ineficaz” – disse ele. “O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da mídia corporativa faz um trabalho muito eficaz.”
As elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas. “Por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projetos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos, doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema” – escreve Wolin. “Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado”.
Mas – adverte – se a população – constantemente despojada de seus direitos mais básicos, incluindo o direito à privacidade, cada vez mais empobrecida e desprovida de esperança – tornar-se inquieta, o totalitarismo invertido se tornará tão brutal e violento quanto os Estados totalitários do passado. “A guerra contra o terrorismo, com sua ênfase na segurança interna, presume que o poder do Estado, agora inflado pelas doutrinas de guerra preventiva e liberado das obrigações constitucionais e das restrições judiciais, pode se voltar para dentro” – escreve ele. “Confiante de que, em sua busca doméstica de terroristas, os poderes agora reclamados, tal como os poderes projetados no exterior, seriam medidos, não pelos padrões constitucionais comuns, mas pelo caráter sombrio e onipresente do terrorismo tal como foi oficialmente definido.”
A violência policial indiscriminada em comunidades pobres de negros e de hispânicos é um exemplo da capacidade do Estado corporativo “legalmente” assediar e matar cidadãos de modo impune. As formas mais cruas de controle – da polícia militarizada e da vigilância por atacado, bem como a polícia funcionando como juiz, júri e carrasco – é agora uma realidade para a classe baixa e vai se tornando uma realidade para todos. É preciso começar a resistir à canalização continuada de poder e de riqueza para os de cima. Somos tolerados como cidadãos, adverte Wolin, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.
“O significado da enorme população carcerária afro-americana é político” – escreve. “O que é mais notável sobre essa população é que, em geral, ela é altamente sofisticada politicamente. De longe, é o único grupo social que, ao longo do século XX, manteve vivo um espírito de resistência e de rebeldia. Nesse contexto, a justiça criminal é tanto estratégia de neutralização política quanto um canal de racismo instintivo.”
Em seus escritos, Wolin expressa consternação pelo fato de que toda uma população foi excluída do mundo das ideias e das publicações sutis. Ele vê o cinema, assim como a televisão, como “tirânicos”. Eis que têm a capacidade de “bloquear, eliminar muito do que pode introduzir qualificação, ambiguidade ou diálogo”. Ele protesta contra o que chama de “mídia monocromática”, formada por especialistas aprovados pelas empresas e usados para identificar “os problemas e os seus parâmetros, criando, assim, uma parede contra a qual os dissidentes lutam em vão. O crítico que insiste em mudar o contexto é descartado como irrelevante, extremista, como de “esquerda” – sendo, assim, ignorado completamente.”
A disseminação constante de ilusões permite que mito em vez de realidade domine as decisões das elites poderosas. E quando o mito domina, os desastres caem sobre o império, tal como ocorreu nos quatorze anos de guerra fútil no Oriente Médio. A incapacidade dos Estados Unidos de reagir às mudanças climáticas ilustram isso. Eis o que Wolin escreve:
Quando o mito começa a governar os tomadores de decisão em um mundo onde a ambiguidade e os fatos teimosos abundam, o resultado é uma desconexão entre os atores e a realidade. Estão convencidos de que as forças das trevas possuem armas de destruição em massa e capacidades nucleares, que a sua própria nação é privilegiada, que um deus inspirou os “pais fundadores” e que eles escreveram a Constituição da nação; e que, ademais, inexiste uma estrutura de classe de grandes e teimosas desigualdades. Uns poucos, sombrios, mas aparentemente alegres, veem sempre presságios de que o seu mundo que está vivendo “os seus últimos dias.”
Wolin atuou, no passado, como piloto e navegador de avião bombardeiro pesado, o B-24, no Pacífico Sul, na II Guerra Mundial. Ele participou de 51 missões de combate. Os aviões em que viajou tinham tripulações de até 10 soldados. De Guadalcanal, ele avançou com as forças norte-americanas que capturaram ilhas no Pacífico. Durante a campanha, o alto comando militar decidiu dirigir os bombardeiros B-24, os quais eram enormes e difíceis de voar, além de ter pouca manobrabilidade, contra os navios japoneses, uma tática que produziu enormes perdas de aviões e de vidas americanas. O uso do B-24, apelidado de “caixão voador”, para atacar navios de guerra munidos com armas antiaéreas, mostrou para Wolin a insensibilidade dos comandantes militares. Eles, alegremente, sacrificaram as tripulações aéreas e as máquinas de guerra em missões que tinham pouca chance de sucesso.
“Foi terrível” – disse ele a respeito das ordens para bombardear os navios japoneses. “Tivemos perdas terríveis, porque essas aeronaves eram grandes e pesadas e, particularmente, porque tinham de voar baixo para tentar atingir a marinha japonesa – nós perdemos inúmeras pessoas assim, inúmeras.”
“Tivemos também algumas vítimas psicológicas… homens, meninos, que simplesmente não aguentavam mais” – disse ele – “simplesmente não suportavam a tensão de se levantar às 5 da manhã para continuar a entrar nesses aviões, tomar tiros e depois voltar para descansar por mais um dia.” Wolin percebeu que os militaristas e os corporativistas formavam uma coalizão profana para orquestrar a ascensão de um império americano global no pós-guerra, assim como para extinguir a democracia americana. Para ele, o totalitarismo invertido era “a verdadeira face da superpotência”. Aqueles que ganham com a guerra e os militaristas, advogando a doutrina da guerra total durante o período da Guerra Fria, sangraram o País de seus recursos. Trabalharam, também, em conjunto para desmantelar as instituições e as organizações populares, como sindicatos, para descapacitar politicamente e empobrecer os trabalhadores. Eles “normalizaram” a guerra. Wolin adverte que, como em todos os impérios, eles eventualmente serão “eviscerados por seu próprio expansionismo”. Nunca haverá um retorno à democracia, adverte, até que o poder descontrolado dos militaristas e corporativistas seja drasticamente reduzido. Um Estado guerreiro não pode ser um Estado democrático.
Wolin escreve:
A defesa nacional foi declarada inseparável de uma economia forte. A fixação na mobilização e no rearmamento inspirou o desaparecimento gradual da agenda política nacional voltada à regulação e controle das corporações. O defensor do mundo livre precisava do poder da globalização, expansão das corporações, não uma economia que promovesse a confiança. Além disso, uma vez que o inimigo era raivosamente anticapitalista, cada medida que fortalecia o capitalismo era um golpe contra o inimigo. Uma vez que as linhas de batalha entre o comunismo e a “sociedade livre” foram desenhadas, a economia tornou-se intocável para outros fins que não um capitalismo “forte”. Pensa-se, pois, numa fusão entre o capitalismo e a democracia. Porém, uma vez que a identidade e a segurança da democracia foram identificadas com sucesso na Guerra Fria e com os métodos para a empreender, o palco estava pronto para promover a intimidação da maioria no campo da política, à esquerda e à direita.
O resultado é uma nação dedicada quase exclusivamente a travar a guerra.
“Quando um governo constitucionalmente limitado utiliza armas de poder destrutivo horrendo, subsidia o seu desenvolvimento e se torna o maior traficante de armas do mundo” – escreve Wolin –, “a Constituição só pode ser usada para servir a esse poder, em vez de servir à consciência.”
Mas ele continua:
Como o cidadão patriótico apoia incansavelmente os militares, assim como o seu enorme orçamento dedicado à guerra, isto significa que os conservadores conseguiram persuadir o público de que tais gastos merecem um tratamento diferenciado. Assim, o elemento mais substancial do poder do Estado é removido do debate público. Da mesma forma, o cidadão norte-americano em seu status de cidadão imperial, sempre desdenhoso da burocracia, não hesita em obedecer às diretrizes emitidas pelo Departamento de Segurança Interna, o maior e mais intrusivo departamento governamental da história da nação. A identificação com o militarismo e o patriotismo, juntamente com as imagens do poder americano projetadas pela mídia, serve para fazer o cidadão individual se sentir mais forte, compensando assim os sentimentos de fraqueza que decorrem de uma economia baseada em excesso de trabalho, força de trabalho exausta e insegura. O totalitarismo invertido, que é antipolítico, requer crentes, patriotas e trabalhadores não sindicalizados.
Sheldon Wolin foi muitas vezes considerado como um pária entre os teóricos políticos contemporâneos. Pois eles se concentravam na análise quantitativa e no estudo do comportamento, evitando, assim, o exame amplo das teorias e das ideias políticas. Wolin insistiu que a filosofia, mesmo aquela escrita pelos gregos antigos, não era uma relíquia morta, mas uma ferramenta vital para examinar e desafiar os pressupostos e as ideologias dos sistemas contemporâneos de poder e de pensamento político. Trabalhar com a teoria política, argumentou, constituía-se “primeiro numa atividade cívica e, apenas em segundo lugar, acadêmica”. Eis que ela tem um papel “não apenas como disciplina histórica que lida com o exame crítico dos sistemas de ideias” – disse – mas também é uma força que “ajuda a moldar as políticas públicas e as diretrizes governamentais, contribuindo acima de tudo para a educação cívica e para alcançar os objetivos de uma sociedade mais democrática, mais igualitária e mais educada.” Em seu ensaio de 1969, Teoria política como vocação, defendeu esse imperativo, castigando os seus colegas acadêmicos que concentraram seu trabalho na coleta de dados, assim como em minúcias acadêmicas. Nesse ensaio, ele escreveu, com sua lucidez habitual e floreios literários, o seguinte:
Em um sentido fundamental, o mundo atual é um produto da deliberação como talvez nenhum mundo anteriormente; um produto de teorias sobre as estruturas humanas deliberadamente criadas, ao invés de historicamente articuladas. Porém, em outro sentido, a concretização das teorias no mundo resultou em um mundo impermeável às próprias teorias. As estruturas gigantes e perpassadas por rotinas desafiam as mudanças fundamentais e, ao mesmo tempo, apresentam uma legitimidade incontestável, pois os princípios racionais, científicos e tecnológicos em que se baseiam parecem perfeitamente de acordo com uma era comprometida com a ciência, o racionalismo e a tecnologia. Acima de tudo, afigura-se como um mundo que parece ter tornado a teoria épica supérflua. A teoria, como Hegel havia previsto, assume a forma de “explicação”. Na verdade, parece que chegou o tempo em que coruja de Minerva já voou.
A obra-prima de Wolin, Política e visão, de 1960, tem como subtítulo “A continuidade e a inovação no pensamento político ocidental”, baseou-se num vasto estudo de teóricos políticos e de filósofos, incluindo Platão, Aristóteles, Agostinho, Immanuel Kant, John Locke, John Calvin, Martinho Lutero, Thomas Hobbes, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Max Weber, John Dewey e Hannah Arendt. O seu objetivo foi o de refletir, a partir deles, sobre a realidade política e cultural contemporânea. A sua tarefa, como afirmou no final do livro, era a de “nutrir a consciência cívica da sociedade” na “era da superpotência”. O imperativo de amplificar e de proteger as tradições democráticas das forças contemporâneas que tentam destruí-las permeou todo o seu trabalho, incluindo seus livros Hobbes e a tradição épica na teoria política3 e Tocqueville entre dois mundos: a realização de uma vida política e teórica4
1 Tradução de Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism.
2 Tradução de Politics and Vision.
4 Em inglês: Tocqueville between two words: the making of a political and theoretical life.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O peculiar totalitarismo do século XXI, por Chris Hedges


Resgate de Sheldon Wolin, o cientista político que descreveu a fusão entre Estado e corporações. Resultado: precariedade e insegurança constantes, para impor a tirania dos mercados; e violência repressiva militarista, quando as multidões despertam…
Por Chris Hedges, em Trutthdig Tradução: Eleutério F. S. Prado
Sheldon Wolin, o mais importante teórico contemporâneo no campo da ciência política nos Estados Unidos, morreu há pouco mais de quatro anos, aos 93. Em seus livros Democracia Incorporada: democracia administrada e o espectro do totalitarismo invertido1 e Política e visão2 – uma vasta pesquisa sobre o pensamento político ocidental que o seu ex-aluno, Cornel West, considera “magistral” –, Wolin expõe a realidade da democracia falida dos Estados Unidos, as causas por trás do declínio do império americano e a ascensão de uma nova e aterrorizante configuração política, formada pelo poder das corporações, que ele chama de “totalitarismo invertido”.
Wendy Brown, professora de ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ex-aluna também de Wolin, disse-me num correio eletrônico: “resistindo aos monopólios do marxismo, na esquerda, e da teoria democrática, pelo liberalismo, Wolin desenvolveu uma análise distinta – distintamente americana – da atualidade política e das possibilidades da democracia radical. Ele foi especialmente presciente ao teorizar sobre o forte estatismo do que hoje chamamos de neoliberalismo; eis que revelou a existência de uma nova fusão do poder econômico com o poder político, a qual considerou que envenena a democracia em sua raiz.”
Wolin, ao longo de sua vida acadêmica, mapeou a involução da democracia e, em seu último livro, Democracia incorporada, detalhou a forma peculiar que o totalitarismo corporativo assumia nos Estados Unidos. “Não é possível apontar para qualquer instituição nacional que possa ser descrita com precisão como democrática” – escreveu ele nesse livro – “certamente não nas eleições altamente gerenciadas e saturadas de dinheiro, no Congresso infestado por lobistas, na presidência imperial, no sistema judicial e penal classista e, muito menos, na mídia.”
totalitarismo invertido é diferente das formas clássicas de totalitarismo. Ele não encontra a sua expressão em um demagogo ou líder carismático, mas no anonimato sem rosto do Estado corporativo. Esse totalitarismo invertido mantém uma fidelidade aparente à política eleitoral, à Constituição, às liberdades civis, à liberdade de imprensa, à independência do judiciário e à iconografia das tradições e da linguagem do patriotismo americano, mas aproveita em efetivo todos os mecanismos de poder existentes para tornar o cidadão impotente.
“Ao contrário dos nazistas, que tornaram a vida incerta para os ricos e privilegiados, que proporcionaram programas sociais para a classe trabalhadora e os pobres, o totalitarismo invertido explora os pobres, reduzindo ou enfraquecendo os programas de saúde e os serviços sociais, regrando a educação para formar uma força de trabalho insegura, sempre ameaçada pela importação de trabalhadores de baixa remuneração” – escreveu Wolin. “O emprego em uma economia de alta tecnologia, volátil e globalizada, afigura-se normalmente tão precário quanto durante uma depressão à moda antiga. O resultado é que a cidadania, ou o que resta dela, é praticada sob um estado contínuo de preocupação. Hobbes tinha, pois, razão: quando os cidadãos se sentem inseguros e, ao mesmo tempo, se veem impulsionados por aspirações competitivas, eles passam a desejar a estabilidade política e não o envolvimento cívico, a proteção e não o envolvimento político.”
O totalitarismo invertido, disse Wolin (…) numa entrevista, constantemente “projeta o poder para cima.” É, pois, “a antítese do poder constitucional”. É construído para criar instabilidade, para manter passiva e em desequilíbrio a cidadania.
Ele também escreveu: “A redução e a reorganização das empresas, o estouro de bolhas, os sindicatos desestruturados, as habilidades que rapidamente são ultrapassadas, a transferência de empregos para o exterior, tudo isso cria não apenas medo, mas uma economia de medo, um sistema de controle cujo poder se alimenta da incerteza. Porém, segundo os seus defensores, trata-se de um sistema eminentemente racional.”
O totalitarismo invertido “alimenta, sim, a política o tempo todo”, disse Wolin, “mas uma política que não é política”. Os ciclos eleitorais intermináveis e extravagantes, disse ele, são um exemplo de política sem política.
“Em vez de participar do poder”, escreve ele, “o cidadão virtual é convidado a ter “opiniões”, isto é, a fornecer respostas mensuráveis a perguntas premeditadas que suscitam respostas determinadas”.
As campanhas políticas raramente discutem questões substantivas. Centram-se em personalidades políticas manufaturadas, em retórica vazia, em relações públicas sofisticadas, em anúncios artificiais, em propaganda, no uso constante de grupos de teste, de pesquisas de opinião que visam laçar os eleitores e dizer o que eles querem ouvir. O dinheiro substituiu efetivamente a votação. Cada candidato presidencial atual – incluindo Bernie Sanders – sabe bem, para usar as palavras de Wolin, que “o tema “império” é tabu nos debates eleitorais.” O cidadão é irrelevante. Ele ou ela não é nada mais do que um espectador, autorizados a votar, mas, esquecido tão logo o carnaval eleitoral termina e as corporações e os seus lobistas voltam ao negócio de influir na legislação.
“Se o principal objetivo das eleições é fornecer legisladores flexíveis para que os lobistas os direcionem, tal prática merece ser chamada de “deturpada ou clientelística” – escreve Wolin. Trata-se de um poderoso sistema produtor de despolitização e de redução da cidadania. Com essa feição, ele apenas pode ser caracterizado como antidemocrático.”
O resultado, escreve ele, é que “o uso do poder do Estado é negado ao cidadão comum”. Wolin deplora a banalização do discurso político, uma tática usada para confundir e fragmentar o público, deixando-o perplexo, para que o poder corporativo e o próprio império permaneçam incontestados.
“As guerras culturais parecem indicar que estão em curso fortes batalhas políticas” – escreve ele. “Na verdade, não passam de distração. A atenção que recebem da mídia, assim como dos políticos ansiosos para firmar posição sobre questões não substantivas, serve apenas para distrair a atenção e para contribuir para uma política inconsequente.”
“As facções agora no poder podem operar na suposição de que não precisam mais do chamado público no sentido amplo de um todo coerente – uma noção tradicional”, disse ele. “Agora, eles têm as ferramentas para lidar com as disparidades e as diferenças que eles mesmos ajudaram a criar. É um jogo em que conseguem minar a coesão necessária para que o público não possa ser politicamente eficaz. E, ao mesmo tempo, criam diferentes e distintas facções, as quais se põe inevitavelmente em tensão, ou em desacordo, ou mesmo em concorrência umas com as outras. Deste modo, o processo político parece mais uma briga do que uma forma de formar maiorias.”
Em regimes totalitários clássicos, como os do fascismo nazista ou do comunismo soviético, a economia era subordinada à política. Mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro – escreve Wolin. “A economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade.” E, assim, continua: “Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como a democracia pode ser gerenciada sem parecer que foi suprimida.”
O Estado corporativo, disse Wolin, é “legitimado pelas eleições que controla.” Para extinguir a democracia, reescreve e distorce as leis e a legislação que outrora protegiam a democracia. Os direitos básicos são, em essência, revogados por meio de decretos judiciais e legislativos. Os tribunais e os órgãos legislativos, a serviço do poder corporativo, reinterpretam as leis para despojá-los de seu significado original, a fim de fortalecer o controle corporativo e suprimir a supervisão sobre as corporações.
Ele escreve: “por que negar a Constituição, como os nazistas o fizeram, se é possível explorar simultaneamente a porosidade e o poder legítimo por meio de interpretações judiciais. Pois, protege-se agora as enormes contribuições das campanhas eleitoras por meio da “Primeira Emenda”; trata-se os lobbies fortemente financiados e organizados pelas grandes corporações como simples aplicação do direito do povo de peticionar ao seu governo!”
O sistema norte-americano de totalitarismo invertido evitará medidas duras e violentas de controle “enquanto… a dissidência permanece ineficaz” – disse ele. “O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da mídia corporativa faz um trabalho muito eficaz.”
As elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas. “Por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projetos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos, doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema” – escreve Wolin. “Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado”.
Mas – adverte – se a população – constantemente despojada de seus direitos mais básicos, incluindo o direito à privacidade, cada vez mais empobrecida e desprovida de esperança – tornar-se inquieta, o totalitarismo invertido se tornará tão brutal e violento quanto os Estados totalitários do passado. “A guerra contra o terrorismo, com sua ênfase na segurança interna, presume que o poder do Estado, agora inflado pelas doutrinas de guerra preventiva e liberado das obrigações constitucionais e das restrições judiciais, pode se voltar para dentro” – escreve ele. “Confiante de que, em sua busca doméstica de terroristas, os poderes agora reclamados, tal como os poderes projetados no exterior, seriam medidos, não pelos padrões constitucionais comuns, mas pelo caráter sombrio e onipresente do terrorismo tal como foi oficialmente definido.”
A violência policial indiscriminada em comunidades pobres de negros e de hispânicos é um exemplo da capacidade do Estado corporativo “legalmente” assediar e matar cidadãos de modo impune. As formas mais cruas de controle – da polícia militarizada e da vigilância por atacado, bem como a polícia funcionando como juiz, júri e carrasco – é agora uma realidade para a classe baixa e vai se tornando uma realidade para todos. É preciso começar a resistir à canalização continuada de poder e de riqueza para os de cima. Somos tolerados como cidadãos, adverte Wolin, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.
“O significado da enorme população carcerária afro-americana é político” – escreve. “O que é mais notável sobre essa população é que, em geral, ela é altamente sofisticada politicamente. De longe, é o único grupo social que, ao longo do século XX, manteve vivo um espírito de resistência e de rebeldia. Nesse contexto, a justiça criminal é tanto estratégia de neutralização política quanto um canal de racismo instintivo.”
Em seus escritos, Wolin expressa consternação pelo fato de que toda uma população foi excluída do mundo das ideias e das publicações sutis. Ele vê o cinema, assim como a televisão, como “tirânicos”. Eis que têm a capacidade de “bloquear, eliminar muito do que pode introduzir qualificação, ambiguidade ou diálogo”. Ele protesta contra o que chama de “mídia monocromática”, formada por especialistas aprovados pelas empresas e usados para identificar “os problemas e os seus parâmetros, criando, assim, uma parede contra a qual os dissidentes lutam em vão. O crítico que insiste em mudar o contexto é descartado como irrelevante, extremista, como de “esquerda” – sendo, assim, ignorado completamente.”
A disseminação constante de ilusões permite que mito em vez de realidade domine as decisões das elites poderosas. E quando o mito domina, os desastres caem sobre o império, tal como ocorreu nos quatorze anos de guerra fútil no Oriente Médio. A incapacidade dos Estados Unidos de reagir às mudanças climáticas ilustram isso. Eis o que Wolin escreve:
Quando o mito começa a governar os tomadores de decisão em um mundo onde a ambiguidade e os fatos teimosos abundam, o resultado é uma desconexão entre os atores e a realidade. Estão convencidos de que as forças das trevas possuem armas de destruição em massa e capacidades nucleares, que a sua própria nação é privilegiada, que um deus inspirou os “pais fundadores” e que eles escreveram a Constituição da nação; e que, ademais, inexiste uma estrutura de classe de grandes e teimosas desigualdades. Uns poucos, sombrios, mas aparentemente alegres, veem sempre presságios de que o seu mundo que está vivendo “os seus últimos dias.”
Wolin atuou, no passado, como piloto e navegador de avião bombardeiro pesado, o B-24, no Pacífico Sul, na II Guerra Mundial. Ele participou de 51 missões de combate. Os aviões em que viajou tinham tripulações de até 10 soldados. De Guadalcanal, ele avançou com as forças norte-americanas que capturaram ilhas no Pacífico. Durante a campanha, o alto comando militar decidiu dirigir os bombardeiros B-24, os quais eram enormes e difíceis de voar, além de ter pouca manobrabilidade, contra os navios japoneses, uma tática que produziu enormes perdas de aviões e de vidas americanas. O uso do B-24, apelidado de “caixão voador”, para atacar navios de guerra munidos com armas antiaéreas, mostrou para Wolin a insensibilidade dos comandantes militares. Eles, alegremente, sacrificaram as tripulações aéreas e as máquinas de guerra em missões que tinham pouca chance de sucesso.
“Foi terrível” – disse ele a respeito das ordens para bombardear os navios japoneses. “Tivemos perdas terríveis, porque essas aeronaves eram grandes e pesadas e, particularmente, porque tinham de voar baixo para tentar atingir a marinha japonesa – nós perdemos inúmeras pessoas assim, inúmeras.”
“Tivemos também algumas vítimas psicológicas… homens, meninos, que simplesmente não aguentavam mais” – disse ele – “simplesmente não suportavam a tensão de se levantar às 5 da manhã para continuar a entrar nesses aviões, tomar tiros e depois voltar para descansar por mais um dia.” Wolin percebeu que os militaristas e os corporativistas formavam uma coalizão profana para orquestrar a ascensão de um império americano global no pós-guerra, assim como para extinguir a democracia americana. Para ele, o totalitarismo invertido era “a verdadeira face da superpotência”. Aqueles que ganham com a guerra e os militaristas, advogando a doutrina da guerra total durante o período da Guerra Fria, sangraram o País de seus recursos. Trabalharam, também, em conjunto para desmantelar as instituições e as organizações populares, como sindicatos, para descapacitar politicamente e empobrecer os trabalhadores. Eles “normalizaram” a guerra. Wolin adverte que, como em todos os impérios, eles eventualmente serão “eviscerados por seu próprio expansionismo”. Nunca haverá um retorno à democracia, adverte, até que o poder descontrolado dos militaristas e corporativistas seja drasticamente reduzido. Um Estado guerreiro não pode ser um Estado democrático.
Wolin escreve:
A defesa nacional foi declarada inseparável de uma economia forte. A fixação na mobilização e no rearmamento inspirou o desaparecimento gradual da agenda política nacional voltada à regulação e controle das corporações. O defensor do mundo livre precisava do poder da globalização, expansão das corporações, não uma economia que promovesse a confiança. Além disso, uma vez que o inimigo era raivosamente anticapitalista, cada medida que fortalecia o capitalismo era um golpe contra o inimigo. Uma vez que as linhas de batalha entre o comunismo e a “sociedade livre” foram desenhadas, a economia tornou-se intocável para outros fins que não um capitalismo “forte”. Pensa-se, pois, numa fusão entre o capitalismo e a democracia. Porém, uma vez que a identidade e a segurança da democracia foram identificadas com sucesso na Guerra Fria e com os métodos para a empreender, o palco estava pronto para promover a intimidação da maioria no campo da política, à esquerda e à direita.
O resultado é uma nação dedicada quase exclusivamente a travar a guerra.
“Quando um governo constitucionalmente limitado utiliza armas de poder destrutivo horrendo, subsidia o seu desenvolvimento e se torna o maior traficante de armas do mundo” – escreve Wolin –, “a Constituição só pode ser usada para servir a esse poder, em vez de servir à consciência.”
Mas ele continua:
Como o cidadão patriótico apoia incansavelmente os militares, assim como o seu enorme orçamento dedicado à guerra, isto significa que os conservadores conseguiram persuadir o público de que tais gastos merecem um tratamento diferenciado. Assim, o elemento mais substancial do poder do Estado é removido do debate público. Da mesma forma, o cidadão norte-americano em seu status de cidadão imperial, sempre desdenhoso da burocracia, não hesita em obedecer às diretrizes emitidas pelo Departamento de Segurança Interna, o maior e mais intrusivo departamento governamental da história da nação. A identificação com o militarismo e o patriotismo, juntamente com as imagens do poder americano projetadas pela mídia, serve para fazer o cidadão individual se sentir mais forte, compensando assim os sentimentos de fraqueza que decorrem de uma economia baseada em excesso de trabalho, força de trabalho exausta e insegura. O totalitarismo invertido, que é antipolítico, requer crentes, patriotas e trabalhadores não sindicalizados.
Sheldon Wolin foi muitas vezes considerado como um pária entre os teóricos políticos contemporâneos. Pois eles se concentravam na análise quantitativa e no estudo do comportamento, evitando, assim, o exame amplo das teorias e das ideias políticas. Wolin insistiu que a filosofia, mesmo aquela escrita pelos gregos antigos, não era uma relíquia morta, mas uma ferramenta vital para examinar e desafiar os pressupostos e as ideologias dos sistemas contemporâneos de poder e de pensamento político. Trabalhar com a teoria política, argumentou, constituía-se “primeiro numa atividade cívica e, apenas em segundo lugar, acadêmica”. Eis que ela tem um papel “não apenas como disciplina histórica que lida com o exame crítico dos sistemas de ideias” – disse – mas também é uma força que “ajuda a moldar as políticas públicas e as diretrizes governamentais, contribuindo acima de tudo para a educação cívica e para alcançar os objetivos de uma sociedade mais democrática, mais igualitária e mais educada.” Em seu ensaio de 1969, Teoria política como vocação, defendeu esse imperativo, castigando os seus colegas acadêmicos que concentraram seu trabalho na coleta de dados, assim como em minúcias acadêmicas. Nesse ensaio, ele escreveu, com sua lucidez habitual e floreios literários, o seguinte:
Em um sentido fundamental, o mundo atual é um produto da deliberação como talvez nenhum mundo anteriormente; um produto de teorias sobre as estruturas humanas deliberadamente criadas, ao invés de historicamente articuladas. Porém, em outro sentido, a concretização das teorias no mundo resultou em um mundo impermeável às próprias teorias. As estruturas gigantes e perpassadas por rotinas desafiam as mudanças fundamentais e, ao mesmo tempo, apresentam uma legitimidade incontestável, pois os princípios racionais, científicos e tecnológicos em que se baseiam parecem perfeitamente de acordo com uma era comprometida com a ciência, o racionalismo e a tecnologia. Acima de tudo, afigura-se como um mundo que parece ter tornado a teoria épica supérflua. A teoria, como Hegel havia previsto, assume a forma de “explicação”. Na verdade, parece que chegou o tempo em que coruja de Minerva já voou.
A obra-prima de Wolin, Política e visão, de 1960, tem como subtítulo “A continuidade e a inovação no pensamento político ocidental”, baseou-se num vasto estudo de teóricos políticos e de filósofos, incluindo Platão, Aristóteles, Agostinho, Immanuel Kant, John Locke, John Calvin, Martinho Lutero, Thomas Hobbes, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Max Weber, John Dewey e Hannah Arendt. O seu objetivo foi o de refletir, a partir deles, sobre a realidade política e cultural contemporânea. A sua tarefa, como afirmou no final do livro, era a de “nutrir a consciência cívica da sociedade” na “era da superpotência”. O imperativo de amplificar e de proteger as tradições democráticas das forças contemporâneas que tentam destruí-las permeou todo o seu trabalho, incluindo seus livros Hobbes e a tradição épica na teoria política3 e Tocqueville entre dois mundos: a realização de uma vida política e teórica4
1 Tradução de Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism.
2 Tradução de Politics and Vision.
4 Em inglês: Tocqueville between two words: the making of a political and theoretical life.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Hannah Arendt pode explicar o bolsonarismo


Do Outras Mídias:



Pode Hannah Arendt explicar o bolsonarismo?

Sim, mas não pela chave do “líder totalitário”. Filósofa descreveu como ninguém a ignorância esmagadora dos “indiferentes” – agora potencializada pelas redes sociais. Por isso, ela é essencial para compreender nosso drama
Por Thiago Dias da Silva, na Cult | Ilustração: Balthaus
Tem sido comum o recurso ao pensamento de Hannah Arendt para compreender o fenômeno Bolsonaro e, de modo mais amplo, o sucesso de certo tipo de direita ao redor do mundo. O recurso é valioso e deve ser estimulado, mas enfrenta uma dificuldade específica, pois as brilhantes análises da autora levam a comparações fáceis demais com os anos 1930 e à tentação de denunciar como “totalitário” qualquer movimento autoritário. Este equívoco impede a observação precisa do que está acontecendo hoje e, diante deste risco, é necessário afirmar de saída: se tomarmos Arendt como referência, o movimento que levou Bolsonaro ao poder não é um movimento totalitário, e seu governo não parece ter muitas condições de se converter em um governo totalitário. Isto não quer dizer que está tudo bem, evidentemente, pois há indícios de que o atual governo pode se tornar especialmente autoritário ou mesmo desembocar em uma ditadura. O ponto é que falta ao bolsonarismo uma série de elementos que permitiriam caracteriza-lo como totalitário, a começar pela ausência de um líder apto e de uma ideologia totalizante, pretensamente capaz de explicar o curso da história humana desde o início dos tempos até a grande superação final.
A fragilidade do líder, notada por alguns já à época da preparação da candidatura, é hoje patente. Sua autoridade é abertamente disputada por um vice mais preparado, por filhos ambiciosos, pela autoridade técnica do ministro da Economia, pela (suspeita) autoridade moral do ministro da Justiça e pela autoridade mística e intelectual de um guru. Esta disputa no governo expressa ainda a notável falta de unidade ideológica do bolsonarismo, pois é sustentado por ao menos quatro frações muito distintas entre si: liberais, militares, um baixo clero da política institucional e uma fração meio amalucada formada por seguidores do tal guru.
O único elemento comum aos membros deste confuso balaio de gatos é a negação de tudo aquilo que o PT, justa ou injustamente, passou a simbolizar na cena pública: esquerda, sistema, corrupção, democracia, Estado, crise econômica, direitos humanos, comunismo globalista. Ou seja, mesmo a “solidariedade negativa” que cimenta o bolsonarismo é insustentavelmente heterogênea e, portanto, inteiramente incapaz de formar os conteúdos positivos de uma ideologia coesa — quanto menos totalizante! — capaz de conferir um rumo determinado ao movimento e ao governo.
Isto não significa, evidentemente, que a análise dos acontecimentos dos anos 1930 contida em As origens do totalitarismo seja inútil para a compreensão do presente. O ponto é que o livro não oferece padrões de repetição política ou histórica, mas a identificação e a descrição de elementos que cristalizaram em dois governos totalitários, o de Hitler e o de Stálin. Alguns destes elementos sobreviveram ao fim destes dois governos e, se observados de perspectiva adequada, ganham sentido para nós porque ainda estão entre nós e provavelmente permanecerão aí por longo tempo. Faz-se necessário, portanto, identificar com clareza estes elementos e revelar-lhes o sentido.
Dentre os elementos decisivos para a compreensão do presente, parece-me importante destacar o papel conferido por Arendt aos indiferentes, ou seja, à enorme massa de pessoas para as quais a cena pública normalmente não desperta interesse. A figura do indiferente se refere a um tipo marcado por uma postura moral, da qual não tratarei aqui, e por uma postura política; ou melhor, uma postura não-política. Presente em todas as classes, o indiferente é aquele que, tendo passado a totalidade de sua existência fechado sobre si mesmo e sobre os seus, ocupando-se exclusivamente com a manutenção da própria vida, permaneceu sempre distante do mundo e do que é comum a todos, de modo que ele é completamente ignorante a respeito do funcionamento do espaço público e do tempo que o estrutura. Tendo garantida aquela liberdade de tipo negativa, que separa sua casa do restante do mundo, e tendo garantida a possibilidade de trabalhar para se manter e talvez prosperar, esta figura é indiferente a tudo o que se passa “lá longe, no mundo”.
Uma mudança nesta indiferença foi fundamental para os acontecimentos dos anos 1930, pois os movimentos nazista e comunista “recrutaram seus membros nesta massa de pessoas aparentemente indiferentes e que haviam sido abandonadas pelos demais partidos por serem demasiado apáticas ou estúpidas para merecer atenção. Resultou disto que a maioria dos membros era formada por pessoas que nunca antes haviam aparecido na cena política”, escreve Arendt em As origens do totalitarismo. Ou seja, os indiferentes se tornaram um problema porque repentinamente “adquiriram apetite por organização política” e apareceram na cena pública, moveram-se de fora para dentro do espaço público.
Mas, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, o problema não está na entrada destas pessoas em cena, e sim na reclusão, típica da modernidade, aos interesses e vícios privados, que até pode resultar em benefícios econômicos para o conjunto da sociedade, mas traz consigo também a formação deste enorme e indefinido contingente de pessoas que ignoram completamente o sentido da política e o funcionamento do espaço público. Ou seja, o problema está na formação contínua desta massa localizada bem ao lado da cena pública e composta por milhões de indivíduos que são, no sentido original do termo, perfeitamente idiotas – em grego, idios quer dizer “propriedade”, em oposição ao que é comum, donde idiōtēs, que é “proprietário” e, em oposição ao homem público, é “estranho aos ofícios”, portanto “não versado”, “ignorante”, “vulgar”.
Projetando sobre o espaço público o funcionamento do espaço privado, os indiferentes gritam, aos montes, que os problemas da economia nacional se resolvem se todos acordarem mais cedo para trabalhar, que as questões sociais se sanam com castigos mais severos. Insensíveis ao tempo da política, acreditam que grandes mudanças exigem apenas o tempo de demonstração de suas verdades, creem no fim instantâneo da corrupção e nos efeitos imediatos de leis moralizantes. Sem a mínima noção do que é possível realizar dentro do espaço público, acreditam que um vereador pode acabar com a nudez das artes, que o jornalismo deve entregar bandidos e corruptos à polícia, que seus filhos se tornarão bons alunos porque o presidente prometeu educação rígida.
Todo este apetite por grandes mudanças esbarra, evidentemente, na realidade do corpo político, que, para a surpresa dos neófitos, não cede imediatamente a estes empurrões. Diante da resiliência do real, os indiferentes, incapazes de distinguir o que veem, não sabem se os obstáculos vêm do status quo, de adversários ou da simples impossibilidade do que querem, e terminam por ver, em cada dificuldade, a ação de um abstrato “sistema” contra o qual é necessário “fazer alguma coisa”, do que resulta uma luta confusa contra símbolos de um sistema que não sabem exatamente o que é e nem onde está.
Arendt chama esta luta de ativismo, negando-lhe o conceito de “ação”, muito mais nobre em seu pensamento. Para a autora, a ação é uma atividade necessária porque os humanos são todos diferentes entre si e precisam estabelecer consensos em vários níveis, o que faz dela a atividade política por excelência. Mas, para que a ação efetivamente ocorra, é necessário haver um espaço em que as diferenças se tornem visíveis a quem o frequenta, um espaço capaz de receber a pluralidade de atos e palavras de agentes identificáveis; enfim, é necessário um espaço público. Os agentes, para agir de modo eficaz, devem considerar a pluralidade essencial do público, escolher o tempo certo e os meios adequados à ação, ou seja, a ação exige capacidade de se mover no espaço público, senso de oportunidade, percepção das diferenças, conhecimento dos meios, coragem e, sobretudo, disposição para sair do espaço privado em direção ao público. Ela exige, portanto, tudo aquilo que falta a quem passa a existência indiferente ao mundo.
Os indiferentes de hoje são parecidos com os dos anos 1930, mas o surgimento das redes sociais alterou o espaço em que realizam seu ativismo. Antes, a expressão de um mal-estar causado em um indivíduo por uma notícia lida no jornal à mesa do café alcançava os membros da família ali presentes, chegava a alguns colegas de trabalho, talvez a alguns amigos, e só muito raramente cruzava a linha do espaço privado ganhando aparência pública. Isto porque, para ir ao público, seria necessário sair do círculo privado, formar alianças com pessoas incomodadas e dispostas a se mexer, identificar o lugar e o momento certo de cada passo, esperar os resultados, enfrentar as resistências. Ou seja, seria necessário agir, atividade que exige muito e nem sempre vale a pena. Com as redes sociais, no entanto, surgiu uma forma de ativismo que se dá pelo consumo e compartilhamento de imagens, que tem efeitos imediatos, não exige relação com as diferenças e, embora se dê de dentro da esfera privada, garante alguma aparência na cena pública. Sem ser exatamente público nem privado, o espaço das redes sociais permite que os indiferentes, sem perturbar sua liberdade negativa, exerçam forte pressão sobre a cena pública, sobre o espaço onde se faz a política.
Nos anos 1930, foi possível a alguns líderes convocar os novatos e formar aquelas massas cujas imagens nos impressionam ainda hoje. Atualmente, o marketing político, servindo-se de certas ferramentas capazes de individualizar a oferta de produtos a consumidores, aperfeiçoou suas técnicas, tornando-as capazes de controlar mais estritamente o que se vê ou deixa de ver nas redes, do que resulta um histérico ativismo fundado em imagens fabricadas para pequenos grupos e não naquilo que está no mundo e aparece para todos os que o frequentam. Hábeis marqueteiros, de dentro de seus escritórios, têm obtido grande sucesso em excitar e acalmar grandes quantidades de indivíduos atomizados que, sem sair do espaço privado, têm dado aparência a todos os seus incômodos e, evidentemente, formulado e exigido grandes mudanças para solucionar seus problemas. A esta altura dos fatos, a pressão exercida por esta forma de ativismo sobre o espaço público é visível na radicalização, nas polarizações, na frequência das afirmações delirantes, e a eficiente manipulação de mensagens de WhatsApp na reta final da campanha de Bolsonaro (assim como o caso Cambridge Analytica) exemplifica o uso eleitoral desta forma de recrutamento.
Deste ponto de vista, a forma política de parte do bolsonarismo parece mais perigosa do que o conteúdo conservador que o anima (um conteúdo que, lembremos, não é exatamente uma novidade no Brasil), pois ela se caracteriza pela entrada na esfera pública de milhões de indiferentes excitados e convocados ao ativismo de redes sociais. Por ter como centro um indivíduo muito parecido com um indiferente, foi especialmente fácil fabricar, a partir da estupidez de Jair, uma imagem de “antissistema” e, assim, atrair os indiferentes. Mas é perfeitamente possível fabricar outras imagens (de esquerda, inclusive) capazes de exercer pressão perigosa sobre o espaço onde fazemos política. De um ponto de vista arendtiano, portanto, o bolsonarismo é uma nova cristalização de certos elementos antipolíticos do mundo moderno, pois tem, entre suas origens, a silenciosa massa de indiferentes e este recente ativismo digital que, ao que parece, também veio para ficar.
Thiago Dias da Silva é doutor em filosofia pela USP, membro do Centro de Estudos Hannah Arendt e pesquisador do Centro de Estudos Hannah Arendt da Faculdade de Direito USP
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