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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Os disparatistas e o paradoxo da ignorância que se acha lúcida, por Lucas Kölln

 

Peculiar espécime troca, invariavelmente, a coerência pela gritaria. Acredita que “atitude” suplanta ideias. Inverte a máxima de Sócrates: não sabe que nada sabe — por isso, tem certezas agudas, e fazem disso o combustível para barbáries

Já perceberam como as coisas mais estapafúrdias são quase sempre ditas com uma certeza inabalável? Terraplanistas seguram réguas entre a câmera do celular e o horizonte e declaram sem titubear que estão certos. Teóricos da conspiração, embora operem levantando dúvidas, falam delas como se fossem a prova cabal sem tremer a voz uma vez sequer. Se lêssemos em voz alta a manchete das fake news que recebemos naqueles grupos sem-vergonha de WhatsApp, a entonação que elas requereriam é a de juiz de filme, bem na hora em que ele profere a sentença irrecorrível.

A segurança deles todos é assombrosa!

Há quem chame a retórica de “a arte de bem falar” e os que preferem “a arte de bem enganar”. Baseando-se nisto, obteríamos a seguinte taxonomia para os espécimes acima: ou são oradores eloquentes, ou espertalhões ardilosos. Damos com uma catalogação insuficiente. Se somos forçados a reconhecer que têm seus momentos de eloquência e que existem entre eles oportunistas e charlatões, colocá-los no patamar de Cícero ou tomá-los por leitores temporãos de Maquiavel seria distorcer a realidade tanto quanto eles, além de dar-lhes crédito demais.

Ora, como se pode explicar a origem de sua segurança?

Parto da hipótese de que, para responder a essa pergunta, temos de pensar a segurança primeiro como uma questão de atitude para então entendê-la nos seus fundamentos, digamos, gnosiológicos. A mecânica mesma dos momentos inglórios em que falam olavistas e afins conspira nesse sentido: o traço mais saliente daquela segurança é a ausência de qualquer sombra de dúvida nas afirmações; e em seguida questões de outra natureza entram em jogo, isto é, a dimensão propriamente lógica da coisa. A ordem “atitude > lógica”, importante dizer, é uma hierarquia de prioridade e não uma fatalidade cronológica: precisamos considerar a atitude primeiro porque ela tem mais peso, e não porque ela acontece antes.

A título de didática, tomemos um exemplo. Alguém diz: “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”. Afirmações desse tipo costumam vir acompanhados de um certo inflar de peito, reedição torta do “J’Accuse!”. Colocamos na citação acima o ponto final por convenção de redação, pois em contextos verbais, o mais adequado é quase sempre o ponto de exclamação. Aproveitando estarmos no terreno linguístico, peço que notem a sintaxe e a morfologia da afirmação: o modo indicativo é mera concessão à gramática, pois o tom pretendido mesmo é o imperativo; não há espaço para meias-palavras. Enunciações tais como “pode ser”, “há chance de que”, “é possível que” e afins não têm lugar aqui, afinal, não expressam a ênfase que a atitude requer.

Afirmações como as do parágrafo anterior exigem antes a contundência que a coerência. Leia-se, atitude antes de consistência.

Ter dúvidas ou ser cauteloso é entendido por esses disparatistas como estar nu, por isso é preciso que a linguagem não deixe entrever qualquer rachadura, nem sequer como uma salutar reserva intelectual tática. Ceticismo? Só se for em relação aos outros. A atitude precisa conter o essencial, porque vem antes de tudo e é quase tudo. Os disparatistas parecem às vezes supor que seus ouvintes são como os cães, que se guiam antes pela entonação do que pelo teor do que dizemos.

Entender essa importância da atitude ajuda a explicar a forma, mas ainda não explica de onde vem a segurança dos eruditos do almoço de domingo. É por isto que agora precisamos nos deter sobre a mecânica propriamente lógica desse fenômeno.

Uma das coisas que mais chama a atenção nesse sentido é o quanto destoam esses pseudoutos do grande panteão intelectual ocidental, ou da maior parte dele. É instrutivo que Sócrates adotasse como um de seus pressupostos metodológicos o “só sei que nada sei”; ou que Santo Agostinho tenha adotado postura humilíssima ao refletir sobre a natureza das coisas nas suas Confissões. De fato, é difícil não encontrar passagens aparentadas a de Sócrates no cânone do pensamento humano: os pensadores parecem ter estado sempre bastante dispostos a admitir que não sabiam tudo o que gostariam. Descartes declarou “Penso logo existo”, e não “Penso logo sei tudo. Ajoelhem-se perante minha sabedoria”.

Se esses luminares prontamente admitiram que podiam estar errados ou ter esquecido de algo, porque os tweeteiros de banheiro não o fazem? Gosto de chamar esse fenômeno de paradoxo da ignorância. Diferentemente dos grandes filósofos e pensadores, que tinham uma noção bastante razoável do que não sabiam, os disparateiros ignoram o que ignoram, e isso lhes concede uma certeza particularmente aguda. Posto noutros termos: por saberem menos, eles parecem saber mais.

Consideremos a Introdução da Crítica da razão pura, de Kant. São páginas tortuosas e cheias de senões, em que o filósofo busca acertar as contas com seus predecessores e limpar o terreno para construir a argumentação que virá em seguida.

O que ele faz ali é colocar as escoras do que sabe para poder suportar o peso do que não sabe: para poder argumentar com alguma solidez, Kant considerou aquilo que ignora através do estabelecimento dos pressupostos dos quais parte – inclusive para dar ao leitor as condições de refazer suas pegadas e testar suas conclusões por si próprio. A segurança e a autoridade que Kant conseguiu ter, portanto, estão calcadas em seu reconhecimento de que havia coisas que ele não sabia, e no seu confronto com elas.

Os disparatistas, por sua vez, não necessitam passar pelos apertos de Kant, e precisamente porque ignoram que ignoram. O “lado de lá” do conhecimento deles simplesmente não existe, e por isso não os constrange. Suas convicções não são forçadas à reflexão com o contraditório, por vezes nem mesmo com o real. Banham-se preguiçosamente no sol das certezas absolutas, porque no céu de sua lógica não há nuvem alguma.

Se você prestar atenção àquela afirmação de antes, “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”, vai perceber que, além de uma pausa no fim, onde encontrava-se o complemento “lá na Cochinchina” antes de ele cair em desuso, não há mais nada ali. Nada! Na superfície perfeitamente lisa dessas águas, que os pseudoutos tomam por plácidas por ignorarem a charneca ao redor, tudo é certeza. Donde a segurança.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Olavistas, generais e golpistas, por Aldo Fornazieri




O Congresso vem se mostrando covarde: terceiriza a tarefa de conter e de apertar Bolsonaro e o bolsonarismo golpista para o STF.
Jornal GGN:
Foto Geledés

Olavistas, generais e golpistas

por Aldo Fornazieri

Desde Sun Tzu, praticamente todos os estrategistas sustentam a tese de que conhecer o inimigo é condição fundamental para a vitória nas batalhas. Esta tese militar, em geral, vale também para as batalhas políticas. Quem estudou Maquiavel e Klausewitz, mas também Mao e Lênin, sabe que existe um intercâmbio entre as categorias da estratégia militar com as categorias da estratégia política. Daí que tanto a afirmação de que “a guerra é a continuidade da política por outros meios” é verdadeira, assim como a afirmação inversa, a de que “a política é a continuidade da guerra por outros meios”.
Todos os líderes prudentes são capazes de prever e de predizer os acontecimentos futuros. Para isso, uma das condições fundamentais consiste em saber ler as circunstâncias e as conjunturas, o que engloba também conhecer os inimigos. É esta capacidade que, em boa medida, as lideranças políticas de esquerda e de centro perderam, assim como os analistas da mídia. Por isso, é necessário fazer um esforço para destrinchar melhor o bolsonarismo.
O bolsonarismo se compõe de vários grupos e subgrupos. Não se trata aqui de fazer o inventário desses grupos, embora este seja um trabalho necessário. Indica-se apenas as linhas de força que influenciam o governo. A rigor, são três: os olavistas, os generais e os golpistas.
  1. Os olavistas. São os seguidores de Olavo de Carvalho, foram alunos dos seus cursos e rezam pela sua cartilha. Os olavistas se definem como liberais-conservadores, o que, resumidamente, significa as seguintes coisas: conservadorismo nos valores, liberdade radical na economia (neoliberalismo) e liberdade política com referência ao ultraliberalismo individualista norte-americano e uma forte referência à Quinta Emenda. Daí a liberdade de criticar, ofender, de se armar etc..
Existe uma questão mais de fundo no olavismo, que o vincula à chamada nova direita. Questão que vem sendo formulada desde a década de 1980, nos Estados Unidos. Trata-se da ideia de que o Ocidente está em declínio e de que a China vai se tornar a maior potência do século XXI. A nova direita definiu uma estratégia para enfrentar o declínio do Ocidente e o avanço da China: contra a globalização, valorização do nacionalismo, dos valores conservadores da família, da propriedade, do individualismo e de Deus. Bolsonaro segue esta cartilha e esta cartilha, com este discurso, faz pontes com os neopentecostais, transformados em espada dessa contrarrevolução conservadora.
Os olavistas se articulam em duas estruturas: uma é o chamado gabinete do ódio, grupo de assessores que atua dentro do Palácio do Planalto e, outra, os que atuam nas redes sociais, que são uma espécie de cavalaria ligeira de ataque, disseminação das fake News e das ideias do bolsonarismo. Os olavistas são contra o golpe militar, defendem a democracia e a liberdade e, dia sim e outro também, Olavo ataca generais do governo. Sabem que se houvesse um golpe, perderiam influência.
Os olavistas dizem que o artigo 142 da Constituição não se aplica, pois se refere apenas a situações de segurança pública. Defendem um governo civil, se dizem antissistema e pregam uma revolução conservadora. Entendem que Bolsonaro deve confrontar o STF, pois existiria uma ditadura do Judiciário no Brasil, fruto da aprovação da Emenda Constitucional 45. Sustentam que há uma crise institucional que confronta o Executivo e o Judiciário e que não há um poder mediador neste conflito. Assim, Bolsonaro, como detentor da força, precisa decidir e encaminhar uma saída. Depois da decisão de Bolsonaro, poder-se-ia convocar um plebiscito ou uma reforma constitucional.
Os olavistas utilizam a astuciosa estratégica de criação de inimigos imaginários, tão conhecida dos movimentos autoritários, para arregimentar, doutrinar e disciplinar suas tropas. Para eles, os grandes inimigos são o Foro de São Paulo e o comunismo, dois entes que, a rigor, não existem. Dentro desses entes colocam todas as esquerdas, a grande mídia e até alguns generais. Atacam mais o Foro de São Paulo e o comunismo do que o PT e o PSol.
  1. Os generais. Telegraficamente, há que se dizer o seguinte: após a redemocratização, as Forças Armadas enfatizaram mais a preparação profissional e o afastamento da política. Mas caíram na “armadilha Bolsonaro” por dois motivos: 1) por interesse, pois foram beneficiados na reforma da previdência e nos reajustes do alto oficialato e, ao ocuparem cargos, aumentam seus ganhos; 2) oportunidade de reescrever a história, pois acreditavam que eles tutelariam Bolsonoro e que era possível fazer um governo competente com ele no âmbito dos parâmetros democráticos. Com milhares de mortes na pandemia, com o colapso da economia, com a destruição de instituições públicas e com a desmoralização de Bolsonaro no mundo, os militares estão sendo arrastados para a perda de credibilidade.
A grande maioria dos generais e dos comandos das Forças Armadas não quer o golpe. Sabem que o mundo não comporta isto, que ingressariam numa aventura, que dividiriam as Forças Armadas e que não seriam anistiados. Entendem também que o STF extrapola as suas funções com uma ingerência excessiva na política e nas decisões do Executivo. Entre os generais que estão no governo existem duas linhas. Uma alinhada ao general Heleno, mais radical, mais saudosista e que agrega mais os contingentes da reserva. A outra, constituída pelos generais Ramos, Azevedo e Silva, Braga Neto e Mourão, que se vincula à maioria do Estado Maior. Querem, claro, que Bolsonaro se modere, termine o seu mandato com êxito e que tenha chances nas eleições. Para isso, buscam uma aliança com o centrão e veem os olavistas como um estorvo.
  1. Os golpistas. A base eleitoral e militante do bolsonarismo, de modo geral, é golpista. Prega uma intervenção militar, o fechamento do Congresso e do STF e um poder discricionário para Bolsonaro. Invocam a aplicação do artigo 142. Essa base vem se radicalizando. É constituída por eleitores dispersos, mas também por grupos organizados, por ex-militares, por setores das polícias militares, por milicianos, por pequenos comerciantes e empresários e por setores ruralistas. Não tem uma presença direta dentro do governo, mas nem por isto significa que deixa de ser uma linha de força e de influência sobre o governo. Não são controlados nem por Bolsonaro, nem pelos olavistas e nem pelos generais. E nisto há o risco do descontrole, do caos, dos conflitos de rua e da convulsão.
Neste ponto, é preciso analisar a conduta da família Bolsonaro. O presidente e Eduardo Bolsonaro oscilam entre as três linhas de força. Deixam-se influenciar ideológica e politicamente pelo olavismo, o presidente se acautela pela pressão dos generais e os dois trafegam para o golpismo, pois este se expressa mais no calor dos atos, das carreatas e da ocupação das ruas. Os dois parecem ter uma personalidade instável, muito suscetível a pressões. Não têm um atributo fundamental ao grande líder: o autocontrole. Os dois são o principal fator das crises e da instabilidade do governo. Bolsonaro é um presidente fraco e nesse momento em que seu isolamento cresce, mais tende a recorrer aos militares. Eduardo Bolsonaro se dá uma importância muito maior à do que realmente tem. Ele prevê para si mesmo um futuro grandioso.
Carlos Bolsonaro vestiu o figurino do homem das sombras, da eminência parda do poder e do próprio pai-presidente. O seu caráter reservado não permite que se diga muita coisa sobre ele. Mas ele parece ter mais afinidade com a linha de força olavista. Se apoia ou não um golpe, é difícil dizer. O cero é que também apoia um confronto com o STF e com o Congresso. Parece professar a visão antissistêmica do olavismo e do chamado gabinete do ódio.
O que se pode concluir disso é que o golpe militar não é uma possibilidade imediata, nem provável, mas remota. E nisso, a estratégia das esquerdas está errada. O governo também não é fascista, embora existam alguns fascistas no governo e muitos no bolsonarismo. O STF está certo em apertar o torniquete no bolsonarismo para contê-lo. Mas não se deve esperar do STF ou do TSE uma atitude para tirar Bolsonaro da presidência.
O impeachment neste momento não é factível, embora desejável: em que pese a crescente rejeição, Bolsonaro conserva pouco mais de 30% de apoio e o centro e as esquerdas não estão muito à vontade para avançar o sinal do impedimento. Contudo, o agravamento da crise econômica, que parece inevitável, poderá jogar as pessoas nas ruas pelo impeachment. O Congresso vem se mostrando covarde: terceiriza a tarefa de conter e de apertar Bolsonaro e o bolsonarismo para o STF. No mínimo, o Congresso deveria cumprir seu papel cassando o mandato de alguns parlamentares bolsonaristas que feriram o decorro parlamentar.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (Fespsp).

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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Suástica no boteco e a PM não incomoda o nazifascista fazendeiro. Cartaz antifacista em jogos e a PM exige a retirada do mesmo para não ofender bolsonaristas. Galinhas verdes do integralismo retornam das trevas, ONU diz que Brasil viola tratado contra a tortura. Estes e outros temas correlatos na análise de Bob Fernandes



Do Canal do analista político Bob Fernandes:

Vídeos: Integralistas em SP (Reprodução/Estadão) Posse de Ernesto Araújo (Reprodução/Ministério das Relações Exteriores) Botafogo Antifascista (Reprodução/Botafogo Antifascista)
CRÉDITOS Direção Geral: Bob Fernandes Direção Executiva: Antonio Prada Produção: Pletora Edição: Gabriel Edé Sonoplastia: Gabriel Edé Câmera: Miguel Breyton Som: Miguel Breyton Arte e Vinhetas: Lorota Música de abertura e encerramento: Gabriel Edé Este é o canal de Bob Fernandes. Vídeos novos todas terças e quintas, sempre, e demais postagens a qualquer momento necessário.