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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Le Monde Diplomatique: A onda conservadora no Brasil, em artigo de Silvio Caccia Bava



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Como se forma o pensamento conservador? Como ele ganha mais
adeptos na sociedade? Como ele pode vir a conformar maiorias?
Essa discussão remete à imposição de uma visão de mundo que é de
uma parte da sociedade como sendo de toda a sociedade.

por: Silvio Caccia Bava



Editorial do Le Monde Diplomatique, 3 de outubro de 2016
Como se forma o pensamento conservador? Como ele ganha mais adeptos na sociedade? Como ele pode vir a conformar maiorias?
Essa discussão remete à questão da imposição de uma visão de mundo que é de uma parte da sociedade como sendo a visão de toda a sociedade. Estamos no campo da produção da ideologia e da disputa pela hegemonia. Não é pela força, mas pelo convencimento que a maioria da sociedade adota uma visão de mundo, valores, um projeto de sociedade, uma forma determinada de convivência social.
Se a mobilização social pela redemocratização do país trouxe com a Constituição de 1988 um paradigma democrático e de respeito aos direitos humanos, a onda conservadora que se formou nos últimos anos traz a proposta de uma sociedade em que predomina o interesse das grandes empresas sobre o dos cidadãos, do privado sobre o público, do individualismo sobre os interesses coletivos, da competição sobre a solidariedade, da intolerância sobre a valorização da diversidade, da busca pela eliminação do adversário transformando-o em inimigo.
Assistimos ainda surpresos a manifestações cada vez mais frequentes de intolerância com aqueles que pensam de modo diverso ou têm outros valores. São expressão de uma direita que se viu estimulada por uma campanha sistemática feita pela mídia, especialmente pela televisão aberta, e por organizações da sociedade civil, como a Fiesp, e “saiu do armário”. Essas manifestações passam a hostilizar aqueles identificados como seus inimigos, sejam eles um partido político, uma religião afro, homossexuais, jovens negros da periferia ou meninos de rua. Guido Mantega, Chico Buarque, Leticia Sabatella, entre muitos outros, recentemente sofreram agressões gratuitas que expressam essa polarização social e política em nossa sociedade.
Certamente a mídia teve um papel muito importante nesse processo, mas seria ingenuidade supor que ela seja a única responsável por essa maré conservadora. A construção da hegemonia se dá no âmbito da sociedade civil, e é aí que devemos procurar suas raízes.
Não é de repente que boa parte da população se convence e assume uma narrativa em que se posiciona contra o aborto, pela redução da maioridade penal, criminaliza o consumo de drogas, reafirma as discriminações contra a mulher, os homossexuais, os negros, dá seu consentimento silencioso ao extermínio da juventude negra da periferia dos grandes centros urbanos.
Entre os fatores importantes que precisam ser levados em conta para compreender a formação desse pensamento conservador está o crescimento das Igrejas evangélicas, que nos anos 1970 atraíam 5,2% da população brasileira e, pelo Censo de 2010, passaram a reunir 22,2%. Esse crescimento se deveu principalmente às Igrejas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), fundada em 1977. Hoje os evangélicos são mais de 42 milhões de brasileiros e brasileiras, e as projeções indicam que em 2030 eles serão tantos quanto os católicos.
Numa sociedade marcada por profundas e históricas desigualdades, que se urbanizou muito rapidamente e hoje concentra mais de 85% de sua população nas cidades, sobretudo em grandes centros urbanos, as Igrejas pentecostais focaram sua atenção no que a imprensa convencionou chamar de “nova classe média”, ou seja, em 54% da população, um segmento que compreende as famílias com renda entre R$ 1.200 e R$ 5.174.
A vida dessas famílias está marcada pelos problemas de moradia inadequada, precariedade dos serviços públicos, violência cotidiana e desagregação dos laços familiares. É nas periferias das grandes cidades que essa população vive, e é aí que se concentra o crescimento do neopentecostalismo. O perfil de seus fiéis mostra que na verdade não se trata de uma classe média: 63,7% não ganham mais que um salário mínimo; 8,6% são analfabetos; 42,3% têm ensino fundamental incompleto.1
É na igreja que essas pessoas vão encontrar apoio, proteção, um espaço de convívio e de pertencimento. Os pastores evangélicos procuram enfrentar os problemas concretos de seus fiéis com propostas de solução imediatas, e sua Teologia da Prosperidade afirma que a superação das dificuldades é a comprovação da fé em Deus. Não é casual que seu crescimento recente coincida com a fase de aumento de renda desse segmento social nos últimos anos.
Entre os novos fiéis estão milhares de jovens convertidos que se afastam do narcotráfico e passam a frequentar o culto, deixam de beber e se drogar, resgatam sua dignidade, assumem um novo papel de trabalhador honesto, encontram aí um espaço de valorização pessoal, de convivência, de celebração. Nesse sentido, encontram na igreja uma alternativa, um novo projeto de vida.
E é nesses templos que acolhem seus fiéis que os pastores fazem sua pregação de valores e, mais recentemente, também sua pregação política. É aí que recolhem o dízimo e amealham fortunas, como Edir Macedo, fundador da Iurd e presente na lista dos bilionários publicada pela revista internacional Forbes.
O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, prega contra os candidatos que defendem princípios “não cristãos”, como liberalização do aborto, casamento entre homossexuais, descriminalização das drogas etc., e combate abertamente candidatos do Psol e do PT.2
A teoria pentecostal diz que cabe à Igreja salvar as pessoas do mal e se pôr em luta contra Satanás e o pecado. Se nos anos 1950-1970 essas Igrejas evangélicas procuravam a cura divina, a partir dos anos 1980 o que predomina nesses cultos são os rituais de exorcismo. É uma guerra contra o mal e contra o diabo, na qual os fiéis são soldados. A intolerância manifesta para com as religiões afro-brasileiras bebe dessa ideologia, pois identifica nelas Satanás e o pecado.
Segundo o reverendo Carlos Eduardo Calvani, da Igreja Anglicana no Brasil, o movimento evangélico é um dos maiores perigos para a sociedade brasileira. Seu fundamentalismo elabora discursos para enganar analfabetos funcionais e levá-los a cometer barbaridades em nome da fé. Calvani acredita que os evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira.3
O crescimento dessas Igrejas neopentecostais as coloca como uma das mais importantes instituições que tratam do cotidiano dos moradores das periferias. Na década passada, os evangélicos, especialmente as Igrejas neopentecostais, conquistaram 16 milhões de novos fiéis. A Assembleia de Deus é a maior, com 12,3 milhões de fiéis. A Congregação Cristã do Brasil é a segunda, com 2,2 milhões de fiéis. A Igreja Universal do Reino de Deus é a terceira, com 1,9 milhão de fiéis.
Esse crescimento se explica pela retração da Igreja Católica, que nos anos 1970 e 1980 organizava a sociedade em comunidades eclesiais de base, mas também pela impotência da sociedade em resolver seus problemas pela via social, política e econômica. Apela-se ao sobrenatural para a solução dos problemas da vida.4
A ideia de que os evangélicos pentecostais têm um projeto de poder não é descabida. A disputa por corações e mentes na sociedade para converter a população para suas crenças e valores e afirmar sua hegemonia na sociedade parece nortear sua atuação no plano da comunicação e junto às instituições políticas.
As Igrejas evangélicas controlam 25% das rádios FM. Todo pastor importante tem um templo, uma rádio, um canal de TV. Algumas Igrejas têm editoras, produtoras de discos, agências de viagem. É cada vez maior o número de horas compradas por essas Igrejas na TV aberta.
Se tomarmos como referência a Igreja Universal, podemos observar que ela é uma potência em comunicação. Distribui gratuitamente nas ruas um semanário com 1,8 milhão de exemplares; comprou em 1989 a TV Record, a segunda maior rede de televisão do país; controla mais de vinte emissoras de TV; transmite seus programas através de mais de quarenta estações de rádio.
Esse investimento em comunicação parece sincronizado com seu crescente envolvimento na política. Foi no começo da década de 1990 que a Universal assumiu um protagonismo na política. A cúpula da Igreja indica candidatos com base em critérios como o número de eleitores de uma igreja ou distrito. Cada templo tem um candidato para deputado federal e um para estadual. Esses candidatos são líderes religiosos carismáticos, com habilidades de comunicação, e estavam distribuídos por vários partidos antes de a Universal ter seu próprio partido, o PRB, que conta hoje com dez deputados federais e 21 estaduais.
O crescimento constante dos parlamentares da Universal tornou-a um modelo para outras Igrejas, como a Assembleia de Deus, e deu ensejo à criação da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, em 2009. Esta organização, de caráter nacional, visa consolidar a força política dos evangélicos, principalmente os pentecostais e neopentecostais, dando suporte a candidaturas de prefeitos e vereadores este ano. Das 52 candidaturas a prefeito acompanhadas por esse conselho nas eleições deste ano, 43 são do PRB. A mais importante delas neste momento é a do sobrinho de Edir Macedo, o senador Marcelo Crivella, que tem boas chances de se tornar prefeito do Rio de Janeiro. Crivella foi bispo da Iurd antes de se tornar senador. Outro candidato do PRB foi Celso Russomano, que permaneceu em primeiro lugar nas pesquisas em São Paulo durante quase toda campanha eleitoral.
O projeto da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil é que a partir de 2017 os políticos evangélicos passem a trabalhar de maneira mais articulada, com as mesmas pautas, independentemente dos partidos em que estejam.5
O Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política contabiliza cerca de 10 mil “vereadores de Deus”, algo como um quinto do total; no plano estadual já existem frentes parlamentares evangélicas em quinze estados; a bancada evangélica na Câmara dos Deputados é de 73 parlamentares e no Senado conta com três senadores.6
No Congresso, os parlamentares evangélicos se reúnem toda quarta pela manhã para o culto, depois discutem projetos de lei e a pauta. O acompanhamento legislativo é feito por assessores, muitos deles indicados pela Iurd, que orientam a ação dos parlamentares.
Os parlamentares evangélicos formam uma presença importante em Comissões do Congresso, como Seguridade Social, Direitos Humanos, Constituição, Justiça e Cidadania. Têm aí uma postura ideológica e se posicionam contra todos os projetos que, em seu entender, ferem seus valores. É o que vimos com o deputado Marcos Feliciano (PSC-SP), pastor da Catedral do Avivamento, uma Igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, e que esteve na presidência da Comissão de Direitos Humanos. Aí eles utilizam a Bíblia para propor ou alterar leis e atacar cláusulas pétreas de nossa Constituição. Se fazem presentes também na Comissão de Tecnologia e Comunicação, com catorze dos 42 assentos, para impedir qualquer iniciativa que venha a limitar seu poder midiático.
Segundo Silas Malafaia, existem centenas de projetos de lei no Congresso Nacional para detonar a família e os bons costumes, como os direitos LGBT, e cabe à bancada evangélica combater esses projetos. Mas seus interesses vão além disso: eles buscam isenções fiscais, a cessão de terrenos públicos para seus templos, alvarás de funcionamento das igrejas, o reconhecimento da cultura evangélica e seu financiamento com recursos públicos, a manutenção das leis de radiodifusão, a concessão de canais de rádio e TV.
Com uma atuação significativa no Congresso, os evangélicos, no entanto, não descuidam da importância de seu trabalho no seio da sociedade. Em janeiro de 2015, a Universal criou os Gladiadores do Altar, um grupo selecionado entre os integrantes da Força Jovem Universal. A Iurd declara que eles já são 4.300 e compõem-se de homens de até 26 anos, que marcham fardados, batem continência para um líder, juram dar a vida pelo altar, valorizam a disciplina e a hierarquia. São reuniões semanais que ensinam na teoria e na prática a importância da Obra de Deus.
Marcio Alexandre, coordenador do Coletivo de Entidades Negras, alerta que no âmago da teoria pentecostal está presente a ideia de uma guerra contra o mal e que cabe às Igrejas salvar as pessoas desse mal. “Se a linguagem deles é de guerra, a prática também pode ser.”7
Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.

1          Adriano Senkevics, “A ‘nova classe média’ e o crescimento das Igrejas evangélicas”, 24 out. 2013. Disponível em: .
2          “Pastor grava vídeos para explicar em quem ‘cristãos não devem votar’”, Folha de S.Paulo, caderno Eleições, p.4, 21 set. 2016.
3          Dan Martins, “Pastor compara políticos cristãos a fundamentalistas islâmicos, e afirma que ‘evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira’”, 1º set. 2013. Disponível em: .
4          Lamia Oualalu, “El poder evangélico en Brasil”, Nueva Sociedad, Buenos Aires, n.260, nov.-dez. 2015.
5          Thais Arbex, “Evangélicos buscam atuação política mais coesa com campanha”, Folha de S.Paulo, caderno Eleições, p.6, 19 set. 2016.
6          Piero Locatelli e Rodrigo Martins, “O poder dos evangélicos na política”, Carta Capital, 12 ago. 2014. Disponível em: .

7          “‘Exército’ da Universal preocupa religiões afro-brasileiras”, Carta Capital, 5 abr. 2015. Disponível em: .

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O poder dos evangélicos, o fim do Estado Laico e os fundamentalistas do VINACC e "Consciência Cristã"




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Em nosso tempo instrumental de tecnologia avançada, mas de anulação do humano, do cooperativo em prol do competitivo, do consumismo em detrimento do construtivo e da dessacralização das relações humanas e da natureza, a reação fanática e fundamentalista surge como mais um sintoma de patologia social em que o atual capitalismo condiciona a muitos pois retira a possibilidade de maturação emocional e intelectual na luta pela sobrevivência em um mundo de crescente agressividade interpessoal.

 Pela falta de meios emocionais e sociais para a formação emocional e mental apropriadas, muitas pessoas não conseguem amadurecer o suficiente para construir uma relação pessoal equilibrada com o ideal da divindade e esperam, diante das dores do mundo moderno, uma panaceia que venham tanto a lhes aliviar a dor quanto a valorizá-los, mesmo que simbolicamente, frente aos demais. Renunciando por vezes - pela falta de oportunidade de desenvolver-se plenamente enquanto ser pensante e autônomo - a própria liberdade, o fanático fundamentalista se sente ou se faz um "instrumento" ou acredita se tornar um instrumento nas mãos daquele a quem ele percebe como autoridade, ainda que seja um suposto líder de comunidade religiosa que contorce os dizeres de suas escrituras no modo mais politicamente conveniente aos seus interesses. Busca o modelado "missionário", ao entregar o pensamento crítico ao líder, um apoio e uma "verdade" por vezes espetaculosamente apresentada e que lhe sirva de muleta psicológica, em ponto de segurança que esconda suas dúvidas íntimas, incertezas e inseguranças, as quais busca calar especialmente ao personalizá-las nos outros.

 O fundamentalista, pois, é um escravo que assim se faz pela renúncia do pensar autônomo em troca do que ele acha ser ganhos, imediatos (riquezas, sucesso, salvação) ou secundários (sentir-se aceito ou amado por iguais, etc.), ao mesmo tempo passa a ser intolerante a todo o pensamento diverso do seu e de sua comunidade por este ser um contraponto perigoso às suas crenças e verdades e assim o fanático se vê como soldado e guerreiro de uma "guerra santa" contra as diferenças que podem questionar suas verdades. Que Deus Pai acharia bom ter filhos que não soubessem discernir o certo do errado, dando a líderes e doutrinas a responsabilidade de decidirem por eles, muitas vezes criando contextos e situações de conflitos com seus outros filhos?

 Achando ter o poder e a missão de exorcizar pessoas e mesmo coisas que ele não aceita por não seguirem sua familiar e muitas vezes reducionista visão de mundo, o fundamentalista está sempre pronto a atacar os outros, acusando-os de serem possuidos pelo "demônio", não percebendo que este demônio muitas vezes habita primariamente em si mesmo e se faz visível nos outros por um fenômeno psicológico chamado de projeção do inconsciente...

  E não existe exemplo mais gritante deste fenômeno de projeção e consequente perseguição, coletivamente visto, do que no surreal Encontro para a Consciência Cristã, um evento evangélico que compete agressivamente com um outro mais equilibrado e antigo, chamado Encontro da Nova Consciência, que, ao contrário do dos evangélicos, se caracterizou exatamente pelo encontro ecumênico e diálogo entre correntes de pensamento diferentes, em uma atmosfera de fraternidade e equilíbrio, teólogos, filósofos e representantes de diversas correntes espirituais podiam dialogar fraternalmente com ateus, agnósticos, cientistas e pessoas dos mais diferentes misteres. Pois bem, para a grande maioria dos evangélicos do tal Encontro para a Consciência "Cristã" (na sua maior parte, constituída de pentecostais e neo-pentecostais, havendo, como se sabe, evangélicos melhor esclarecidos, amadurecidos e críticos dos exageros daqueles), todos os participantes do Encontro para a Nova Consciência são dominados pelo diabo e este encontro, então, tem de ser exterminado pelos missionários e esclarecidos evangélicos. Não há diálogo ou dialogicidade, não há fala, não há debates com as diferenças, há discursos de atuo-exaltação e de perseguição.

  Vejamos um exemplo disto neste trecho de "artigo" do Pastor Ridalvo Alves da Silva no site do movimento-seita Consciência "Cristã":

É verdade que o evento emerge dentro do contexto do Nordeste do Brasil, especificamente na cidade de Campina Grande, no momento em que se realizava o VIII Encontro Esotérico intitulado Encontro para a Nova Consciência - Uma Cultura Emergente, como os organizadores a denominaram. Houve nesta conjuntura uma grande preocupação relacionada ao destino da Igreja Cristã Evangélica, pois ninguém havia se levantado até aquele momento para refutar e comparar em nível de reflexão teológica e apologética cristã os ensinos perniciosos que submergia a comunidade campinense como um todo atingindo já naquela época 48 eventos paralelos.

A perplexidade e angústia já haviam chegado ao coração de muitas pessoas reivindicando da Igreja Evangélica de Campina Grande uma tomada de posição firme quanto à invasão esotérica em nossa cidade. A princípio não se sabia como fazer para criar uma estratégia eficaz, não somente para combater os ensinos distorcidos da Nova Era, como também trazer diretrizes seguras para a comunidade quanto aos ensinos de uma Teologia Cristã sadia. Aconteceu somente em fevereiro de 1999 o I Encontro Para
a Consciência Cristã quando os alunos do Instituto Teológico Superior de Missões - ITESMI, sob a nossa direção, que dirigíamos pela orientação e urgência do Espírito Santo de Deus, aceitaram o desafio de enfrentar não somente as dificuldades de recursos financeiros, mas também de recursos humanos.

No início houve crítica, falta de compreensão e de ajuda por parte de muitos, porém, não era hora de olhar para as circunstâncias e sim exercer a fé em Deus que opera nas coisas impossíveis. Aí entra a disponibilidade do homem. Por isso, quero destacar a pessoa do pastor Euder Faber Guedes Ferreira, que nos instantes decisivos, acreditou plenamente na visão de Deus, que estava brotando, e largou seu emprego secular para se dedicar integralmente à grande causa prioritária do Reino de Deus. Quero trazer à memória de nossos caros leitores que foi muito difícil para implantarmos o I Encontro Para a Consciência Cristã, no entanto, o milagre aconteceu.

Não obstante, a razão do Encontro Para a Consciência Cristã não somente abrange a cidade de Campina Grande em seu contexto esotérico de evento anual, mas prepara a igreja contra os falsos ensinos que se alastram em nosso território nacional e também em outras regiões do mundo ocidental e oriental. O pluralismo religioso será certamente o maior desafio da Igreja Cristã neste novo milênio. Não temos dúvidas que por trás de tudo isto está o Império da religião ecumênica liderada pelo seu grande mentor, o Anticristo.

 Vê-se, pois, o quanto salta aos olhos a construção lógica e o grau de civilidade e de maturidade intelectual dos mentores do tal Encontro da Consciência "Cristã", não apenas na falta de adesão ao mandamento de Cristo de "Amar ao próximo", como na total falta de respeito com quem não partilha de suas idéias, em uma quase paranóia que abarca a proteção de um "mercado religioso" altamente lucrativo, baseado na cobrança de dízimos. Estranho ainda é essa expliticidade em se auto-denomiar de cristãos reais e agirem como egoístas mesquinhos com a "missão" de criticar e mesmo perseguir os demais. Por isso reflete o filósofo, teólogo e sociólogo Frei Betto, sobre os atuais fundamentalistas midiáticos:
"Todo fundamentalista é, a ferro e fogo, um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... para o bem deles! Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se considera revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes."
  Fanáticos intolerantes que se acham no direito de agredir o diferente e que se sentem ofendidos, "perseguidos" se aqueles a quem agridem ousarem criticar seu posicionamento hipócrita. Este comportamento farisáico foi bem discutido pelo psicanalista  e professor universitário da UEM, Dr. Raymundo de Lima, quando, eu seu artigo "O Fanatismo Religioso entre outros", destaca alguns de seus sintomas:


O fanático não fala, faz discursos; é portador de discursos prontos cujo efeito é a pregação de fundo religioso ou a inculcação política de idéias que poderá vir a se tornar ato agressivo ou violento, tomado sempre como revelação da "ira de Deus" ou "a inevitável marcha da história" ou, ainda, a suposta "superioridade de uns sobre os demais". Faz discursos e não fala, porque enquanto a fala é assumida pelo sujeito disposto ao exercício do diálogo, da dialética, do discernimento da verdade, os discursos - especialmente odiscurso fanático - fazem sumir os sujeitos para que todos virem meros objetos de um desejo divinizado; servir ao desejo divino e à produção da repetição de algo já pronto, onde o retorno do recalcado do sujeito faz do Eu (ego) um porta-voz de um sistema de crenças moralistas carregado de ódio em relação ao suposto inimigo ou adversário que precisa ser destruído para reinar o Bem.
Os textos sagrados, tomados literalmente, fornecem a sustentação "teórica" do discurso fundamentalista religioso; com ele, o indivíduo acredita, a priori, estar de posse de toda a verdade e por isso não se dá ao trabalho de levantar possíveis dúvidas, como confrontar com outro ponto de vista, ou desvelar outro sentido de interpretação, ou ainda, contextualizá-lo, etc. O fanático tem certezae isso lhe basta. Creio porque é absurdo, já dizia Tertuliano. Certeza para ele é igual a verdade. (Segundo Popper, no campo científico, a certeza nada vale porque é "raramente objetiva: geralmente não passa de um forte sentimento de confiança, ou convicção, embora baseada em conhecimento insuficiente", já a verdade tem estatuto de objetividade, na medida em que "consiste na correspondência aos factos", na possibilidade da discussão racional com sentido de comprovação. (Popper, 1988, p. 48).
 O problema da religião não é a paixão "fé", mas a inquestionalidade de seu método. O método de qualquer religião traz uma certezadivulgada em forma de monólogo, jamais de diálogo ou debate de idéias. O pastor, padre, rabino, ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do monólogo da pregação; acreditam que "vale tudo" para difundir a "verdade única" que o tocou e o transformou para sempre! O estilo fanático usa e abusa do discurso monológico delirante, declarações, comunicados, que jamais se voltam para escuta ou o diálogo, exercício esse que faria emergir a verdade - não a "certeza".
Psicopatologia do fanatismo
Do ponto de vista psicopatológico, todo fanatismo parece ter relação com a fuga da realidade.  A crença cega ou irracional parece loucura quando se manifesta em momentos ou situações específicas, porém se sua inteligência não está afetada, o fanático aparentemente é um sujeito normal. No entanto, torna-se um ser potencialmente explosivo, sobretudo se o fanatismo se combinar com uma inteligência  tecnologicamente preparada. Fanático inteligente é um perigo para a civilização. O terrorismo, por exemplo, que atua com a única meta de destruir inimigos aleatórios é realizado por indivíduos fanáticos cuja inteligência é instrumentada apenas para essa finalidade. No terrorismo é uma das expressões do fanatismo combinado com uma inteligência tecnológico, mas totalmente incapaz de exercitá-la por meios mais racionais, políticos e legais. Para o terrorismo sustentado no fanatismo, os inocentes devem pagar pelos inimigos; a destruição deve ser a única linguagem possível e a construção de um novo projeto político-econômico, não está em questão, porque a realidade no seu todo é forcluída. 
O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O fato do sujeito se ver como o único que está no lugar de certeza absoluta, de "ter sido escolhido por Deus" para uma missão "x", já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem aí uma loucura ou psicose. Mas, seguindo o raciocínio de Freud, vemos que "aquilo que o psicótico paranóico vivencia na própria pele, o parafrênico experiência na pele do outro", ou seja, somos levados a supor que o fanatismo está mais para a parafrenia que para a paranóia. Hitler, antes considerado um paranóico, hoje é mais aceito enquanto parafrênico, pois seus atos indicam sua idéia fixa pela supremacia da raça ariana e a eliminação dos "impuros"; mais ainda, o gozo psíquico do parafrênico não se limita "ser olhado" ou "ser perseguido", tal como acontece com paranóicos, mas sim se desenvolve "uma ação inteligente de perseguição e extermínio de milhares de seres humanos", donde extrai um quantum de gozo sádico. Portanto, deve existir membros de um grupo de fanáticos paranóicos, mas certamente o pior fanático é o determinado pela parafrenia, pois visa de fato destruir em atos calculados "os impuros", "os infiéis", enfim, todos os que não concordam com ele.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Frei Betto fala sobre os traços fascistas da bancada evangélica, ideia confirmada por pastores esclarecidos, como Ricardo Gondim e Ed René Kivitz



I Texto:

Frei Betto defende Estado laico, critica bancada evangélica e lembra “ovo da serpente”

  O Brasil está assistindo ao avanço de partidos políticos que se ligam cada vez mais a segmentos religiosos, o que constitui ameaça ao pluralismo religioso e à democracia. O alerta foi feito pelo escritor e teólogo católico Frei Betto, que chegou comparar esse movimento, de matriz fundamentalista e ainda pouco percebido pela sociedade, ao surgimento do nazismo, na primeira metade do século passado.
  “Estamos assistindo a certos segmentos religiosos chocarem o ovo da serpente, expressão que vem do nazismo dos anos 30, na Alemanha: depois que a coisa esquentou é que muita gente se deu conta”, disse o religioso, durante conferência no 9º Encontro Nacional Fé e Política, realizado no final de semana, no campus da Universidade Católica de Brasília (UCB).
  “O Estado e os partidos não devem ter religião, mas respeitar a diversidade do pluralismo religioso”, afirmou, diante de quase duas mil lideranças católicas. “No Brasil, determinados segmentos religiosos estão cada vez mais partidarizados. Existe no Congresso Nacional a bancada evangélica. Não tenho nada contra os evangélicos, tenho contra essa bancada.”
  Na conferência, proferida no sábado e denominada O Poder na Cultura do Bem Viver, o dominicano, autor de 53 livros, foi enfático: “Precisamos abrir o olho porque está sendo chocado no Brasil o poder fundamentalista de confessionalização da política. Isso vai dar no fascismo.”
  De acordo com informações publicadas por Jaime C. Patias, no portal católico Pontifícias Obras Missionárias, o teólogo e escritor disse que a maior experiência de poder na tradição bíblica é a experiência de Jesus: “Quem governa seja como aquele que serve. Esse é o maior testemunho de Jesus. O maior ato de Jesus foi quando ele se ajoelha para lavar os pés dos seus discípulos. Isso é o poder, colocar-se a serviço.”
  Frei Betto tem vínculos com as comunidades eclesiais de base (CEBs) e contribuiu para o surgimento do PT – partido do qual se afastou durante o primeiro mandato de Lula.

Roldão Arruda

II Texto

Deus nos livre de um Brasil evangélico

Ricardo Gondim

teólogo brasileiro, presidente nacional da Assembléia de Deus Betesda, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, conferencista.

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadú? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.
Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/deus-nos-livre-de-um-brasil-evangelico/

III Texto

O Evangelho dos Evangélicos


texto do Pastor Ed René Kivitz


“Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” [Jesus Cristo]


Estou convencido de que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o evangelho do reino de Deus. Registro que uso o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva.

O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muita vez é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. 

Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo.

A cúpula é pragmática, e aproveita esse imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica, e enriquecimento da pessoa física. Outra palavra chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula, a igreja evangélica virou uma mistura de macumba, protestantismo e catolicismo. 

Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”: você atravessa um tapete de sal grosso, sob a bênção dos pastores, e se livra de mal olhado, dívida, e tudo que é tipo de doença. Já vi igreja que se diz evangélica distribuir cajado com água do Jordão (i.é, um canudo de bic com água de pia), para quem desejasse ungir o seu negócio, isto é, o seu business. Lembro de assistir a um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a unção da casa própria para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua igreja.

O povo religioso é supersticioso e cheio de crendices. Assim como o Brasil. Somos filhos de portugueses, índios, africanos, e muitos imigrantes de todo canto do planeta. Falar em espíritos na cultura brasileira é normal. Crescemos cheios de crendices: não se pode passar por baixo de escada; gato preto dá azar; caiu a colher, vem visita mulher, caiu garfo, vem visita homem; e outras tantas idéias sem fundamento. Somos assim, o povo religioso é assim. Tem professor de universidade federal dando aula com cristal na mão para se energizar enquanto fala de filosofia.

E a cúpula evangélica aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente, ilude, porque promete o que não entrega. Aliás, os jornais começam a noticiar que os fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por propaganda enganosa.

O evangelho dos evangélicos é estratificado. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé, e a cúpula é oportunista. A base transita entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões-afro, e a cúpula é pragmática. A base é cheia de crendices e a cúpula pratica o estelionato religioso.

O evangelho dos evangélicos é mercantilista, de lógica neoliberal. Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade. Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo. Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo. Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. 

Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos. Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio.

O sujeito abre sua micro-empresa religiosa, navega no sincretismo popular, promete mundos e fundos, cria mecanismos de vinculação e amarração simbólicas, utiliza leis da sociologia e da psicologia, e encontra um povo desesperado, que está disposto a pagar caro pelo alívio do seu sofrimento ou pela recompensa da sua ganância.

Pra ser evangélico você não precisa amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Não precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro porque Deus resolve. Segundo porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Pensando como isso pode funcionar, imaginei que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, eles não contribuíram ainda, e eu não vou liberar a unção”.

Existe, por exemplo, a unção da superação da crise doméstica. Como isso pode acontecer? A pessoa passa trinta anos arrebentando com o seu casamento, e basta se colocar sob as mãos ungidas do apóstolo, que libera a unção, e o casamento se resolve. Quem não quer isso? Mágica pura.
O sujeito é mau-caráter, incompetente para gerenciar o seu negócio, e não gosta de trabalhar. Mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta financeira, e levar para casa um vidrinho de óleo de cozinha para ungir a empresa e resolver todos os problemas financeiros.

Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter, e esperar que Deus resolva, ou que o apóstolo ou bispo liberem a unção tem mais a ver com pensamento mágico do que com fé.
Em quarto lugar, o evangelho dos evangélicos tem espírito fundamentalista.

 Peço licença para citar Frei Beto: “O fundamentalismo interpreta e aplica literalmente os textos religiosos, não sabe que a linguagem simbólica da Bíblia, rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensinamento religioso.” O espírito fundamentalista é literalista, e o mais grave é que o espírito fundamentalista se julga o portador da verdade, não admite críticas, considerações ou contribuições de outras correntes religiosas ou científicas.

Quem tem o espírito fundamentalista não dialoga, pois considera infiéis, heréticos, ou, na melhor das hipóteses, equivocados sinceros, todos os que não concordam com seus postulados, que não são do mesmo time, e não têm a mesma etiqueta. Quem tem o espírito fundamentalista se considera paradigma universal. Dialoga por gentileza, não por interesse em aprender. Ouve para munir-se de mais argumentos contra o interlocutor. Finge-se de tolerante para reforçar sua convicção de que o outro merece ser queimado nas fogueiras da inquisição. Está convencido de que só sua verdade há de prevalecer.

Mais uma vez Frei Beto: “o fundamentalista desconhece que o amor consiste em não fazer da diferença, divergência”. Por causa do espírito fundamentalista, o evangelho dos evangélicos é sectário, intolerante, altamente desconectado da realidade. O evangelho dos que têm o espírito do fundamentalismo é dogmático, hermético, fechado a influências, e, portanto, é burro e incoerente.
Em quinto lugar, o evangelho dos evangélicos é um simulacro. Simulacro é a fotografia mais bonita que o sanduíche.

 Não me iludo, o evangelho dos evangélicos é mais bonito na televisão do que na vida. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua prepotência do que pela sua fé. Temos muitos profetas na igreja evangélica, mas acredito que tenhamos muito mais falsos-profetas. Os testemunhos dos abençoados são mais espetaculares do que a realidade dos cristãos comuns. De vez em quando (isso faz parte da dimensão masoquista da minha personalidade) fico assistindo estes programas, e penso que é jogada de marketing, testemunho falso. Mas o fato é que podem ser testemunhos por amostragem. Isto é, entre os muitos que faliram, há sempre dois ou três que deram certo. O testemunho é vendido como regra, mas na verdade é apenas exceção.

A aparência de integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que na realidade de suas negociatas. A igreja evangélica esta envolvida nos boatos com tráficos de armas, lavagem de dinheiro, acordos políticos, vendas de igrejas e rebanhos, imoralidade sexual, falsificação de testemunho, inadimplência, calotes, corrupção, venda de votos.

A integridade do palco é mais atraente do que a integridade na vida. A fé expressa no palco, e nas celebrações coletivas é mais triunfante, do que a fé vivida no dia a dia. Os ideais éticos, e os princípios de vida são mais vivos nos nossos guias de estudos bíblicos e sermões do que nas experiências cotidianas dos nossos fiéis. Os gabinetes pastorais que o digam: no ambiente reservado do aconselhamento espiritual a verdade mostra sua cara.

Estratificado, mágico, mercantilista, fundamentalista, e simulacro. Eis o evangelho dos “evangélicos”.





















sábado, 3 de agosto de 2013

Pesquisa divulgada pela New Scientist comprova que cérebros de crentes desligam o senso crítico diante de líderes pentecostais




Quando estamos na frente de uma figura que consideramos carismática, as áreas do cérebro responsáveis pela vigilância e pelo ceticismo são desligadas. Essa é a conclusão de um estudo que analisou o cérebro de pessoas quando estão na presença de alguém que afirma ter poderes divinos.
Pesquisadores da Universidade Aarhus, na Dinamarca, estudaram cristãos petencostais, que acreditam que algumas pessoas possuem poderes proféticos, de cura e de sabedoria.
Usando um aparelho de ressonância magnética os cientistas analisaram os cérebros de 20 petencostais e 20 céticos enquanto eles assistiam cultos. Apenas os devotos tiveram mudanças nas atividades cerebrais em resposta às orações.
Partes do córtex pré-frontal, que têm papel fundamental de vigilância e que conferem importância para a informação que outras pessoas nos dão, eram completamente desativadas. Quando quem estava falando não era o pastor ou outro líder religioso, a atividade cerebral dos voluntários diminuía menos.
Para os especialistas isso explica porque algumas pessoas parecem ter mais influência sobre as outras. Não está claro se isso funciona apenas para líderes religiosos, mas os cientistas acreditam que o mesmo aconteça com pessoas com ótima oratória – políticos, advogados, médicos e, até mesmo, nossos pais.