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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

A popularidade de um nocivo e medíocre presidente contra o Brasil demonstrando o fim do poder da mídia, a mesma de destruiu a Democracia. E esta é uma má noticia. Por Luis Nassif


 Como se reorganizará o país? Graças à parceria Lava Jato-mídia, os partidos políticos foram destroçados. Graças à aliança MMS (mídia-mercado-STF), desde Michel Temer a representação sindical foi desmontada, os movimentos sociais criminalizados, os conselhos de participação desmontados, as associações empresariais industriais perderam relevância.




Jornal GGN:

A resiliência de Jair Bolsonaro nas pesquisas de opinião é mais um capítulo decisivo do fim de uma era no mercado de informações: o poder dos grupos de mídia, o mais relevante ator do mercado de informações durante todo o século 20. Foram mais influentes do que as religiões, os partidos políticos, os sindicatos, as associações empresariais.

Em ambientes cartelizados, ganhou poder de derrubar presidentes, recorrendo a um mesmo modelo de atuação: um massacre diário de notícias negativas, de acusações de toda ordem, de denúncias falsas ou irrelevantes, influenciando radicalmente aspectos psicológicos e sociais do país, criando um clima clima tão opressivo que a reação social passa a ser explosões de ódio, manifestações de rua, caça aos inimigos.

Foi assim na campanha contra Getúlio Vargas, contra Jango, no impeachment de Fernando Collor, na campanha do mensalão, na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, em todos esses casos atuando com enorme eficácia.

Agora, tem-se outro cenário.

Antes, as ondas de formação de opinião seguiam o que se chamava de “efeito pedra no lago”.

O primeiro time – Globo, Folha, Estadão, Veja, em outros momentos, o Jornal do Brasil, Correio da Manhã – criava a narrativa. No momento seguinte, essa narrativa era encampada pelas rádios e TVs. E se espalhava pela imprensa regional e de outros estados, através das agências de notícias dos jornalões ou pelo efeito-demonstração. Mesmo veículos não alinhados com os grupos maiores eram induzidos a aderir às teses, para não se indispor com seu próprio público.

É interessante acompanhar a maneira como os grupos de mídia refinaram seus métodos, depois da fase do jornalismo de esgoto – as agressões sem tamanho, factoides e aberrações do estilo Veja. Passado o mensalão, o jogo foi outro. Os jornais passam a aprimorar a técnica. Em todo texto, em vez da agressividade irrefletida, qualquer referência ao PT, por exemplo, vinha acompanhada de menções às acusações de corrupção em textos aparentemente isentos. O mesmo ocorria com toda menção a Lula. Era tal a repetição do estilo que não havia dúvidas de uma orientação técnica geral.

Agora, em vez da “pedra no lago”, o que existem são bolhas de vários formatos, mas independentes em relação aos grupos de mídia. O bombardeio diário de notícias negativas foi aprimorado nas redes sociais, pelo uso dos algoritmos, ambos da mesma natureza. Mas a versão moderna com uso intensivo de tecnologia fazendo o discurso chegar direto no seu público, através das redes de WhatsApp, dos algoritmos do Facebook, dos influenciadores do Youtube, em muitos grupos com laivos de estupidez se fortalecendo mutuamente.

Para quem acompanhou as distorções da mídia tupiniquim nas últimas décadas, pode ser um momento de alívio. Mas não é. E aí se cria um paradoxo cruel, já identificado nos anos 20, com o advento do rádio. Havia uma velha ordem de coordenação de opinião – de uma imprensa pequena, dados os níveis de analfabetismo da época, mas o único ponto de coordenação de informação, além das Igrejas e dos partidos políticos. Com as rádios, quebra-se esse velha ordem e abre-se espaço para novos atores, com discursos mais próximos da malta, clamando aos instintos básicos, e resultando nas diversas formas de fascismo que explodem em vários países.

É o estágio atual do país.

Como se reorganizará o país? Graças à parceria Lava Jato-mídia, os partidos políticos foram destroçados. Graças à aliança MMS (mídia-mercado-STF), desde Michel Temer a representação sindical foi desmontada, os movimentos sociais criminalizados, os conselhos de participação desmontados, as associações empresariais industriais perderam relevância. E, sem ter esses monstros fabricados para manter a tropa unida, a mídia tem que enfrentar, agora, os monstros reais do bolsonarismo, em uma nova quadro tecnológica, em um reino que não tem mais rei.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A grande mentira da vitimização dos neofascistas. Por Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça


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A pequena república da Áustria está em polvorosa. Uma gravação de vídeo pôs a nu intenções rasteiras da cúpula do FPÖ – o Freiheitliche Partei Österreichs (trad. “Partido Liberal da Áustria”), que, apesar de carregar o adjetivo “liberal” no nome, não passa de um ninho de nazistas saudosistas – de vender ativos estratégicos da economia do país a oligarcas russos, em troca de apoio financeiro e eleitoral. A interceptação conspirativa teria se dado em julho de 2017, às vésperas das eleições federais austríacas, que levariam o FPÖ ao poder, como parceiro minoritário do governo de coalizão com o conservador ÖVP – Österreichische Volkspartei (trad. “Partido Popular Austríaco”).

Os protagonistas do animado convescote regado a muito álcool e clandestinamente interceptado – ocorrido numa vila de veraneio em Ibiza, alugada a quase mil euros por noite – são o presidente do partido (o estridente Heinz-Christian Strache, hoje vice-premiê na coligação de centro-direita que governa a Áustria), o atual líder da bancada do FPÖ no Conselho Nacional, o parlamento austríaco (o pau-para-toda-obra de Strache, Johann Gudenus, filho de um negador do holocausto condenado) e a suposta sobrinha de um oligarca russo de nacionalidade letã. A bilionária é apresentada a Strache por Gudenus, como quem tencionaria investir no mínimo meio bilhão de euros na economia da república alpina. Para tanto, propõe-se a ajudar o FPÖ em troca de facilidades em contratos públicos.

A conversa gira em torno da lavagem de ajuda financeira por meio de uma entidade de utilidade pública não vinculada ao partido, como forma de desviar das exigências legais de registro de doações partidárias no tribunal de contas e de limitação de doações estrangeiras. Afinal, lembra Gudenus a Strache, o dinheiro não seria de procedência “completamente regular”.

A investidora confidencia que estaria prestes a adquirir metade das cotas do principal periódico austríaco, a Kronen-Zeitung, com conversas já bem avançadas com os herdeiros do fundador do jornal. Sugere-se que a compra poderia acontecer antes das eleições para ajudar o FPÖ na campanha. Strache se entusiasma com a perspectiva de, segundo o próprio, poder fazer 34 porcento dos votos ao invés dos 27 porcento previstos, se contar com ajuda de um diário desse porte. Em compensação, a bilionária poderia dar como certo o controle sobre as concessões de autoestradas, hoje com a concessionária Strabag, controlada por um desafeto do chefe do FPÖ. Segundo Strache, se o FPÖ ganhasse com ajuda da russo-letã, “todos os contratos seriam seus”.

Strache adora se apresentar para o público como o único político limpo, diferente dos demais, um cumpridor das leis, que não se mistura com a lama da política dominante. E, na sua conversa indecente com a bilionária faz questão de dizer que “tudo tem que ser de acordo com a lei”, ainda que proponha negócios francamente escusos e fale em limpar a mídia de jornalistas que se oponham ao FPÖ, tratando a classe como a das “maiores prostitutas do planeta”. Elogia o premiê direitista húngaro, Victor Orbán, que, com apoio de um empresário endinheirado, conseguiu assumir todo controle sobre a imprensa de seu país.

A divulgação do vídeo pela bávara Süddeutsche Zeitung e pela revista alemã Der Spiegel desencadeou uma tormenta na política austríaca, já bastante abalada com a parceria entre conservadores e neonazistas que se intitulam de liberais. O jovem premiê Sebastian Kurz, do ÖVP, foi obrigado, diante da comoção pública, a por fim à coalizão e pedir ao Presidente Alexander van der Bellen a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições.

Strache, aos costumes, pediu desculpas a seu eleitorado pelo passo em falso, mas não mostrou propriamente arrependimento, preferindo atacar forças do establishment que não querem uma nova forma de se fazer política.

O discurso é sempre o mesmo entre direitistas que não se conformam com as regras da democracia verdadeiramente liberal-burguesa.

Chegam ao poder pelas regras dessa democracia, mas a tacham de “injusta” e “desleal” para com sua forma “diferente” de governar. Acusam a democracia e suas instituições de “sabotar” a direita no poder.

Strache não é diferente de Jair Bolsonaro, sempre à espreita de inimigos, ao invés de se colocar argumentativamente contra os que contestam, dentro do jogo democrático, suas ideias e iniciativas simplórias e rasteiras. E nisso ambos têm longa tradição.

Matéria do Der Spiegel lembra hoje da forma de agir dessa direita desde a época da chegada ao poder de Adolf Hitler, em 1933. A comparação com o que acontece no Brasil de hoje é inevitável. Diz-se na revista alemã:

“Strache permanece Strache. Depois de o mundo inteiro poder testemunhar sua tentativa, inspirada no modelo húngaro, de remodelar o panorama da mídia em seu país com investimentos russos, queixa-se – em sua coletiva de imprensa no sábado – duma campanha “jogada a partir do exterior”.

Em completa distorção da situação, trata como escândalo o fato da interceptação clandestina, sem admitir o óbvio: que não teria havido nada para interceptar, se não tivesse formulado tais planos concretos para a transformação da Áustria. A única fonte daquilo que corretamente chama de “lixeira” é ele mesmo. É por isso que nenhum poder no mundo poderia salvá-lo: afundou-se num barco que ele mesmo construiu.

No entanto, toda sua declaração de renúncia foi uma tentativa de dividir a responsabilidade com os outros.

Alguns, como o conselheiro político israelense Tad Silberstein e o satirista alemão Jan Böhmermann, mencionou pelo nome, mas, acima de tudo, entregou-se a insinuações. Apontou para redes e agrupamentos, num tom sinistro, com um horizonte cheio de nuvens cinzentas escuras, em que cada qual da audiência que lhe é simpática pode reconhecer outra coisa.

O poder capaz de mudar – e até de explodir – todas as regras, que tanto fascina a extrema direita, depende de tais projeções. É preciso ser apontado um motivo pelo qual o sistema deve ser derrubado e este é melhor identificado ao atribuir a si o papel da suposta vítima.

Somente quando se puder provar que, na relação com um poder superior hostil, todos os meios anteriores de compromisso e de solução de controvérsias são injustos e ameaçadores, é que se pode criar uma situação de emergência legal capaz de legitimar medidas mais extremas. Dificilmente alguma outra imagem pode mobilizar melhor tais energias e aliviar os escrúpulos que a da ameaça de poderes omnipotentes a agirem clandestinamente.

Após a Primeira Guerra Mundial, essa função foi cumprida pela lenda da adaga nas costas, segundo a qual a Primeira Guerra Mundial teria sido vencida pela Alemanha, se, no foro doméstico, imprensa, os políticos e os judeus não tivessem traído os soldados. Durante décadas, os judeus, comunistas e social-democratas foram, aos olhos da direita, os agentes de uma sempre subestimada ameaça – o que alimentou um ódio irracional a desencadear impiedosamente sua atividade cruel e a praticar os maiores crimes da história da humanidade.

Hoje, os tempos e os movimentos são outros, mas os padrões pelos quais se justificam atitudes radicais permanecem semelhantes. Eles [n.t. – a direita radical] não confiam na troca de razões e argumentos, no discurso público, mas apenas na mecânica do poder. Se você demitir jornalistas críticos, estará livre das críticas nesta visão de mundo mecânica. Eis que a ameaça nunca diminui – a possibilidade que a direita tem, na Europa, de alcançar o sucesso eleitoral e assumir a responsabilidade, de acordo com esta lógica, não é prova da fairness do sistema. Qualquer falha dos planos da direita, como o Brexit, não é prova de sua inadequação. Tudo aponta para poderes superiores e ocultos que exigem resposta adequada. Não se trata de concepção, de propostas políticas e possibilidades, mas de proteção e necessidade…”

Bolsonaro e sua tropa de choque, capitaneada por seus filhos incultos, atrevidos e agressivos, adotam o mesmo padrão. Criam crises para, nelas, se fazerem de vítimas. Tudo – as “corporações”, o “sistema”, permeados do “marxismo cultural” – conspira contra “a nova forma de governar”, contra “o projeto escolhido pelos eleitores”, como se projeto houvesse que “eleitores” pudessem conscientemente escolher.

Ainda antes das eleições e durante a campanha, era a Justiça Eleitoral que não prestava, ao adotar um sistema de votação, a urna eletrônica, talhada para “roubar” a vitória de Bolsonaro. O partido adversário foi demonizado como pervertido, com a mentira da “mamadeira de piroca” e o “kit gay” para as crianças nas escolas. Quando ganharam as eleições, já no governo, se puseram a “despetizá-lo”, mesmo que houvesse dois anos que o governo já não era do PT. A partir daí, não se passou uma semana sem uma declaração polêmica de Bolsonaro ou de seus ministros, a causar rebuliço no espaço político. Tem sido tanto vento na farinha, que não se conseguiu cozer um único pão. O governo da direita tem sido um vazio de ideias e projetos e um ataque permanente a todas as instituições e aos atores públicos, como se nada prestasse e tudo tivesse que ser destruído para levar adiante “uma nova forma de governar”, que ninguém, ao certo, sabe o que é.

Para deixar bem claro, os eleitores de Bolsonaro não votaram em projeto nenhum. Votaram contra “tudo que aí está”, mas não votaram a favor de nada, até porque seu candidato fugiu do debate de ideias como o diabo foge da cruz, com medo, de certo, de ser posta à evidência a grande fraude que era sua candidatura. Não pode, por isso, o Sr. Bolsonaro dizer que faz isso ou aquilo porque “o eleitor” assim escolheu. Ele, o eleitor, não escolheu nada. Apenas repudiou. E não se faz um governo somente com repúdios.

Mas agora que percebe dilapidado todo seu ativo político, com a insatisfação contra seu governo crescendo de semana a semana e sem qualquer apoio sólido no legislativo para dar curso a seus projetos de lei mal elaborados e não negociados com a sociedade, quer dar a entender que é impossível governar com as instituições – chamadas de modo pouco definido de “corporações” – porque todas conspirariam contra seu mandato.

É a ladainha de sempre: incapaz de ver que causou ele mesmo sua vulnerabilidade, Bolsonaro distribui a responsabilidade aos outros, “às corporações” que infestam o estado e “tornam o Brasil disfuncional”. Não há diferença entre o Sr. Strache e o Sr. Bolsonaro, afora que o primeiro foi flagrado com a mão na botija e o segundo talvez ainda espere sê-lo, o que não é difícil, dadas as tortas relações de sua família com o submundo do crime carioca. É só uma questão de tempo. E aí veremos se pedirá para sair, como o Sr. Strache, ou se conclamará sua turba para tentar o golpe no grito e na marra.

Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

Eugênio Aragãoex-ministro da Justiça

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Boaventura de Sousa Santos, sociólogo e jurista português: Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regridiremos agora aos Bolsonaros?



Boaventura: Adeus ao futuro?

Revolta dos escravos no Haiti. Revolução cubana. Levante zapatista. Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regrediremos agora aos Bolsonaros?
Por Boaventura de Sousa Santos, no Outras Palavras
Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo. Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo. Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas. Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.
No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético. Tal
como Lênin quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida. O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel. Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA. Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”. A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes lideres: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar. Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil) mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo. No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.
Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos. Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo. O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um ativista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde
caberiam muitos mundos”. Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o caráter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.
Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação. Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, reinaugurações de um passado que se julgava superado. O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à revolução francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade. Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo. Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita. Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas. Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O desafio atual: contra o Estado pós- (e anti-)democrático, para resgatar a democracia, por Leonardo Boff


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Não são poucos os analistas sociais e juristas da maior qualidade que denunciam o atual situação política do Brasil como a instauração de um Estado de exceção. O golpe parlamentar,jurídico e mediático de 2016 permitiu que os golpistas passassem por cima da Constituição, modificassem as leis trabalhistas em favor dos patrões, engesassem o país com o teto de gastos, em saúde e educação, impedindo que se crie um Estado de Bem Estar Social.
A justiça deixou de ser imparcial e, mesmo nos níveis mais altos, mostra ter lado, contra o PT e a figura carismática de Lula. O que o juiz federal de primeira instância Sérgio Moro faz, é a aplicação deslavada do lawfare e não esconde o ânimo persecutório ao ex-Presidente, condenando-o sem provas materiais irrefutáveis. Por isso é considerado um prisioneiro político..
Importa observar que este tipo de política obedece a uma ampla estratégia pensada a partir dos interesses do Império com os aliados internos de nosso pais. O Brasil é decisivo em termos de geopolitica e de abundantes bens e serviços naturais, capazes de garantir a base físico-química que sustenta o sistema-vida e o sistema-Terra, já em alto gru de erosão.
O golpe foi dado sob a égide do mais rigoroso neoliberalismo e da voracidade do capital especulativo de cariz capitalista que domina a políitica no mundo inteiro.
É sabido que a ordem capitalista, por seu individualism e a fúria de acumulação nunca se deu bem coma democracia. Se democracia implica mais que o direito de votar, mas de buscar a igualdade de todos os cidadãos com referência às leis, aos direitos basicos, à justiça social e às garantias fundamentais, devemos dizer que ela é antes um engodo que uma realidade. A democracia moderna se construiu como representativa de toda a sociedade. Na verdade, em geral, representou os interesses dos poderosos e sub-representou os do povo trabalhador ou pobre.
Dados de várias entidades sérias nos relatam que cerca de 8 bilhardários controlam grande parte da economia mundial, deixando milhões e milhões na pobreza e na fome. Como a lógica capitalista é a competição e não a solidariedade, entramos numa era de barbárie e de grande desumanidade,
Esse tipo de capitalismo necessita de demcracias de baixíssima intensidade, com um Estado submetido ao mercado, com a menor participação popular possível. A estratégia dos países capitalistas visam a recolonizar a América Latina e o Brasil condenados a ser meros exportadores de commodities (alimentos, minérios e outros)
O golpe de 2016 foi dado com esse propósito, em si, anti-patriótico, anti-popular e profundamente injusto, em benefício dos endinheirados e herdeiros da Casa Grande. Esse golpe liquidou com o Estado democrático de direito. Guardou as aparências e as instituições. Mas não funcionam como a Constitição prevê ou funcionam sem imparcialidade.
Inaugurou-se o “pós-Estado democrático”, categoria usada por Rubens Casara, juz de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e professor universitário, com notável capacidade teórica de pensar o desastre da democracia brasileira e sua ideologia subjacente. Agora vigora de fato um Estado de exceção, à moda do jurista alemão Carl Schmitt (1888-1985) que justificava o regime de Hitler,pois para ele o critério do político reside na definição do inimigo a ser satanizado e destruido (cf. O conceito do político,Vozes 1992,51-53). Acima de todas as leis está o “Führer” ou o “Ducce”, que sempre têm razão.
A consequência se lê no sub-título do livro:”neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis”. Quer dizer, mantem-se a farsa democrática e se castigam os mais pobres, pois são indesejáveis ao sistema de acumulação e de consumo.
O desafio atual consiste em resgatar a democracia mínima (nem aquela “sem fim” de Boaventura de Souza Santos ou como “valor universal” de Norberto Bobbio, nem a democracia “sócio-ecológica” de Zaffaroni e minha) mas simplesmente a pura e simples democracia, expressa no Estado Democrático de Direito. Devemos repudiar o Estado pós-democrático como excrecência da democracia e outro nome para o regime de exceção.
Leonardo Boff escreveu: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, Vozes 2018.

domingo, 11 de março de 2018

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”, afirma o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han



Do El País:

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual”


Byung-Chul Han
O filósofo Byung-Chul Han em Barcelona  (EL PAÍS)
As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro... São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do CansaçoPsicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.
“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.
Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.
Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.
‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.
Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.
Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.
Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.
Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.
Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.
Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

O “MONSTRO” DA UNIÃO EUROPEIA

“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:
“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.
Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos...; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil...”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.

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