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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Pós-fascismo e produção de inexistência, por Túlio Muniz, jornalista, historiador e doutor em Sociologia/Un. de Coimbra., Portugal



Atiça a chama sempre acesa nos quartéis, cujos episódio mais notório recente, e nunca elucidado de todo,  foi a queima de papéis na base da Aeronáutica em Salvador, em 2004.


Do GGN:



Pós-fascismo e produção de inexistência

por Túlio Muniz, da Universidade de Coimbra, Portugal

A intenção de Sérgio Moro de destruir provas de investigação da PF – contida pelo próprio potencial de escândalo – vem de longa tradição do legalismo brasileiro para “produção de inexistência” *.
Mecanismo semelhante foi utilizado por Rui Barbosa quando, em 1890, com a ‘boa intenção’ de eliminar uma ‘mancha na História brasileira’ ordenou a queima de documentos referentes à escravidão. Ao mesmo tempo, Rui Barbosa privou pessoas de conhecerem a própria trajetória e, quem sabe, usar dos documentos destruídos para reivindicarem alguma compensação (que os ex-escravos nunca tiveram), e destruiu fontes de pesquisa para o futuro – eram livros aduaneiros com matrículas de escravos e registros de impostos que incidiram sobre as transações, dados preciosos para pesquisas de Economia, Sociologia, História, Antropologia.

Moro repetiria Barbosa: destruindo provas que poderiam vir a ser útil à defesa dos próprios acusados de produzi-las (os tais ‘hackers de Araraquara’), e também ao supostos alvos das mesmas. 
Rui Barbosa também ocupou a função similar à de Moro,  foi o primeiro dos ministros da Fazenda da República. Para não soar como anacronismo, justiça seja feita: Rui Barbosa, em que pese o ato de queima de documentos, era abolicionista e movido por um positivismo humanista. Moro, não. 
Ele defende a manutenção de um regime autoritário, pós-fascista, que rende tributo a longeva inquisição brasileira que determina: “se há demónios e assombrações entre nós, vamos queima-los”, sejam indígenas, negros, pobres, loucos, prostitutas, adversários políticos. 

Atiça a chama sempre acesa nos quartéis, cujos episódio mais notório recente, e nunca elucidado de todo,  foi a queima de papéis na base da Aeronáutica em Salvador, em 2004 (ver aqui https://atarde.uol.com.br/politica/noticias/1145584-queima-de-arquivos-na-base-aerea-ainda-sem-respostas). 


Esse pós-fascismo tem raízes no protofascismo nacional de Plínio Salgado nos anos de 1930, cuja Ação Integralista buscou, em vão, apoio do Partido Nazista alemão. Não o obteve por contar com pessoas negras nas suas fileiras, o que era completamente incompatível com a ideologia nazista ariana, da eugenia racial. 

Aliás, seria interessante aprofundar, noutro momento, essa característica do Integralismo, para compreender como é possível, hoje, a postura de gente como Hélio “Negão” Lopes (deputado federal/RJ), Fernando Holiday (vereador em São Paulo) e Douglas Garcia (deputado estadual/SP), todos negros e apoiadores incondicionais de Bolsonaro.

Mal comparado, mas nem tanto, a “produção de inexistência” se repetiu na decisão do STF, de 2010, de validar de vez a Lei da Anistia, por 7 votos a 2. O STF abafou ainda mais o debate desde sempre necessário na sociedade brasileira: aprofundar o conhecimento acerca dos crimes da Ditadura, responsabilizar e punir seus agentes, coibir manifestações de apoio a seus atos.

Tivesse ocorrido assim, hoje Moro não se sentiria tão à vontade no regime pós-fascista que busca se legitimar, determinando o que deve ou não ser investigado e conhecido, quem deve ou não ser banido do país, quem será encarcerado perpetuamente, quem vive e quem deve ser eliminado pelo Estado – seja em ação direta ou por omissão deste.
E dificilmente teria chegado ao poder uma triste e perigosa figura como a de Jair Bolsonaro.
*Agradeço a Roberto Mendes pelo contato, através sua tese de doutorado, com o conceito de “produção social de inexistência”, de Norma Valêncio – ver aqui https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/16327/1/SobrevivenciasModoVida.pdfaqui .


Túlio Muniz é jornalista, historiador e doutor em Sociologia/Un. de Coimbra.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Boaventura de Sousa Santos, sociólogo e jurista português: Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regridiremos agora aos Bolsonaros?



Boaventura: Adeus ao futuro?

Revolta dos escravos no Haiti. Revolução cubana. Levante zapatista. Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regrediremos agora aos Bolsonaros?
Por Boaventura de Sousa Santos, no Outras Palavras
Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo. Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo. Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas. Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.
No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético. Tal
como Lênin quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida. O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel. Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA. Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”. A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes lideres: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar. Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil) mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo. No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.
Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos. Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo. O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um ativista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde
caberiam muitos mundos”. Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o caráter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.
Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação. Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, reinaugurações de um passado que se julgava superado. O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à revolução francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade. Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo. Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita. Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas. Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Ascensão mundial da direita decorre de ódio da elite e classe média contra minorias



"A democracia liberal não vive um bom momento. “Cada vez mais cidadãos se afastam” dela, afirma em seu último best-seller “O povo contra a democracia” o jovem cientista político americano Yascha Mounk.
"Este sistema, que conjuga soberania popular e contra-poderes (Justiça, imprensa, sociedade civil), é o modelo dominante nos países ocidentais desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas, atualmente, este “sistema de governo que parecia imutável dá impressão de que pode despencar a qualquer momento”, resume Mounk."
Do Blog da Cidadania, reproduzindo matéria do UOL:
Primeiro, vieram o Brexit e a eleição de Donald Trump. Depois, em 2018, a vitória dos populistas e nacionalistas na Itália e de Jair Bolsonaro no Brasil. Em 2019, os cenários podem se repetir em eleições como a do Parlamento europeu.
A democracia liberal não vive um bom momento. “Cada vez mais cidadãos se afastam” dela, afirma em seu último best-seller “O povo contra a democracia” o jovem cientista político americano Yascha Mounk.
Este sistema, que conjuga soberania popular e contra-poderes (Justiça, imprensa, sociedade civil), é o modelo dominante nos países ocidentais desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas, atualmente, este “sistema de governo que parecia imutável dá impressão de que pode despencar a qualquer momento”, resume Mounk.
A principal causa: as classes médias, base demográfica e política, que esses países deixaram desatendida.
“Construir uma classe média contribui para a estabilidade política”, aponta a americana Kori Schake, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), em um estudo recente do Lowy Institute sobre a “sobrevivência da ordem liberal”.
Empobrecido por uma economia cada vez mais terceirizada, as classes médias se rebelam contra sua decadência, ou até seu desaparecimento econômico, político e cultural, acredita o geógrafo francês Christophe Guilluy em seu livro “No society”.
O presidente francês Emmanuel Macron pode corroborar. Uma parte significativa da população francesa, trajando coletes amarelos, protesta há cerca de um mês na França. A situação pode se tornar rapidamente insustentável para o governo, insistiu.
Uma das exigências desses cidadãos rebeldes é recuperar uma soberania popular que acreditam ter perdido. Assim, apenas 8% dos franceses estimam que os cidadãos têm o poder, contra 54% que acreditam que está nas mãos dos mercados financeiros, segundo pesquisa Ifop de outubro.
O slogan do Brexit “Take back control” (Retomar o controle) é um sinal disso.
A soberania popular é progressivamente reduzida, estima Patrick Moreau, editor-chefe da revista canadense Argument, em uma coluna no jornal Le Devoir. Os culpados são, segundo ele, as regras do comércio internacional e a importância conquistada pelas “minorias”.
As regras “nunca são sujeitas a debates reais” e as minorias tendem a explorar o Estado de direito em seu benefício, uma “retórica dos direitos” que mina “o papel político das maiorias históricas em favor dos tribunais e de pequenos grupos militantes”.
Esse desequilíbrio entre a soberania e o Estado de direito leva, segundo Yasha Mounk, à instalação de uma “forma de liberalismo antidemocrático na América do Norte e na Europa Ocidental”.
“Nesta forma de governo (…) os eleitores concluíram há muito tempo que sua influência nas políticas públicas é mínima”.
E para tentar desafiar esta ordem, as classes mais baixas se afastam dos organismos intermediários (sindicatos, meios de comunicação) que consideram muito próximos do poder e incapazes de representá-los, tendendo a votar em quem promete devolver a eles o que perderam.
O risco potencial para o Estado de direito é que o líder eleito pelo povo, armado com sua legitimidade democrática, comece a desfazer as conquistas importantes para seu país.
Alguns exemplos são a eliminação de liberdades individuais, ataques contra a imprensa ou ONGs. Países como a Hungria e a Polônia são regularmente alvo desse tipo de acusação. Mas, para alguns analistas esta sede de soberania das classes populares também pode ser entendida como uma necessidade mais profunda: consolidar o sentimento de pertencer a uma nação, a um destino comum do qual algumas elites quiseram se afastar para chegar ao topo da globalização, deixando para os demais para trás.
O boom conservador “é explicado por um desejo cada vez mais profundo dos povos de ‘repatriar’ suas classes dirigentes, para impedi-los de escapar”, acredita que a ensaísta francesa Coralie Delaume.
Para Jérôme Fourquet, da Fundação Francesa Jean Jaurès, esse “separatismo social diz respeito a toda uma parte da classe superior da sociedade”. “Uma lacuna cada vez maior” separa os privilegiados do resto da população, destaca.
Do UOL

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Do Justificando: Politicídio Brasileiro? Por André Márcio Neves Soares, Pós-Graduado em Direito do Trabalho e mestrando em Políticas Sociais e Cidadania pela UCSAL – Universidade Católica do Salvador.




   "(...) colocar a questão do “politicídio” do pós-guerra sob a ótica da filosofia política brasileira é buscar entender a negação característica do pensamento nacional, em termos da teoria democrática. Em outras palavras, é tentar entender por que, a despeito de tantas mentes brilhantes que tivemos, e ainda temos, não conseguimos avançar um projeto democrático consistente e duradouro, de claro viés humanitário e popular (e não populista), que transformasse esse país gigante em uma fração do globo terrestre menos desigual e menos violenta." - André Márcio Neves Soares


Politicídio Brasileiro?
Sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Politicídio Brasileiro?


Imagem: cena do filme Fahrenheit 451, que conta a história de uma sociedade autoritária e opressora onde todos os livros são proibidos e queimados e quem for pego lendo ou estudando é preso ou morto. 
Por André Márcio Neves Soares
O historiador holandês Luuk van Middelaar escreveu um livro sobre o assassinato da política na filosofia francesa, denominado Politicídio [1]. Inquieta o escritor, especificamente, como a França, tida com berço da democracia moderna em 1789, transformou-se num país incapaz de pensar a filosofia política, interna e externamente, justamente quando o regime político democrático mais precisava de novas ideias, no período pós-guerra.
Ao perguntar “se a filosofia política francesa do pós-guerra proporcionou tão pouco à primeira vista, então por que ainda faz sentido este estudo?” [2], oferece como resposta preponderante a importância da análise histórica das várias conclusões sistemáticas, relacionadas à filosofia política em geral. O “politicídio” foi muito mais uma falta de predileção pelo debate democrático pelos filósofos franceses da época, de Sartre a Merleau-Ponty e de Foucault a Deleuze, com a predominância belicista dos argumentos impostos, do que a vitalidade e diversidade das questões postas ao longo das décadas do período.
Assim, colocar a questão do “politicídio” do pós-guerra sob a ótica da filosofia política brasileira é buscar entender a negação característica do pensamento nacional, em termos da teoria democrática. Em outras palavras, é tentar entender por que, a despeito de tantas mentes brilhantes que tivemos, e ainda temos, não conseguimos avançar um projeto democrático consistente e duradouro, de claro viés humanitário e popular (e não populista), que transformasse esse país gigante em uma fração do globo terrestre menos desigual e menos violenta.
De fato, tomando o ensinamento aristotélico sobre a democracia como a melhor das piores formas de governo (ou, se quisermos, o pior dos bons governos), começamos muito mal a história da nossa república através de um golpe militar. Nada menos filosófico do que um grupo de militares arquitetando um plano de salva-guarda para seus próprios interesses futuros. É até possível entender que a última nação a sair do sistema escravista de produção de bens primários, submundo das potências beligerantes da época, tenha alçado seu vôo mais desafiador rumo ao ainda incipiente sistema democrático de nações sem conceitos firmados, arraigados e colocados em prática sob a égide da soberania popular. Mas é inaceitável que, mais de um século depois da instalação do sistema republicano de governo, e apesar do período pós-guerra ter sido tão profícuo de novas ideias sobre a filosofia política, terminemos o ano de 2018 retornando mesmo ao período do início do século passado, onde a participação popular se resumia aos interesses individuais dos que detinham o poder.
Nesse sentido, o “politicídio” alhures não ocorreu em solo pátrio. E não ocorreu pelo simples motivo de nunca termos avançado na práxis democrática. O abandono da política pelos intelectuais franceses do pós-guerra, fascinados que estavam pelos pontos de vista racionais e morais do poder, não encontrou eco nos intelectuais brasileiros, salvo raras exceções, formados nas academias estrangeiras. Dessa maneira, é possível identificar a principal causa da nossa incapacidade para o debate da filosofia política, qual seja, a eterna insuficiência educacional, nos escritos de alguns poucos cérebros agraciados com a clarividência dessa compreensão. Vamos a eles (e aqui peço desculpas por não citar todos nominalmente pois, apesar de não serem tantos, seria demais para pouco espaço).
Realmente, Alves é certeiro quando nos esclarece, na parábola “O canto do Galo” [3], a diferença entre a docência e a pesquisa. A docência “aqueles que ensinam”, a pesquisa “aqueles que publicam”. Não seria o próprio capitalismo travestido na produção científica? Barreto também desfere bom golpe ao escrever “O destino da literatura” [4], no qual afirma que “a Arte, especialmente a literatura, sempre teve, tem e terá um grande destino na nossa triste humanidade”. Já Faoro escreveu, em 1986, que “A democracia não se faz apenas com o voto; faz-se com o voto e com formas de participação que, desvirtuável o voto, corrigem o substituto verbal que está no lugar da realidade” [5]. Chauí reforça que “A ideologia contemporânea está montada sobre o mito da racionalidade da realidade entendida como se a razão estivesse inscritas nas próprias coisas e exprimindo-se através das ideias de organização e de planejamento” [6]. Por fim, porém não menos importante, temos, certamente, um dos maiores educadores de todos os tempos, Paulo Freire, para quem a educação só teria sentido se fosse democrática e problematizadora, no sentido de pensar a realidade e trazer o concreto para a discussão [7].
É possível que as considerações desses nossos pensadores, e de muitos outros, não tenham tido o alcance que desejavam. Apesar de corretos, esses pensamentos nunca tiveram um fio condutor que os entrelaçassem ao longo da nossa história. A filosofia política, tão cara aos países desenvolvidos, não foi estimulada aqui como questão central da convivência entre nosso povo e as relações de poder. Dessa maneira, temas fundamentais para a nossa cidadania, como Justiça, Liberdade, Igualdade e até mesmo qual tipo de Estado gostaríamos de ter, jamais foram concatenados seriamente pelo poder dominante, seja ele qual tenha sido e em qual época da nossa história.
Todavia, se as considerações dos autores citados acima e de tantos outros, sobre “docência”, “literatura”, “participação”, “ideologia” e “educação democrática”, tivessem sido conjugadas em um mesmo projeto emancipador de nação soberana, o século XXI poderia ser muito diferente dos anteriores e, quem sabe, radicalmente melhor para a maioria da nossa população. Com um pouco de otimismo, estaríamos agora nos lamentando da falta de interesse e imaginação dos nossos atuais pensadores sobre um recente “politicídio” brasileiro.
Infelizmente, é preciso reafirmar, esse não é o caso. Como já escrito em artigo anterior [8], a lógica democrática da participação popular não se sustenta mais à luz da recente história brasileira (quiçá mundial, mas esse não é o foco do artigo), salvo no breve período do governo petista. E se verificarmos com cautela os motivos desse raro interlúdio na sonoridade das eleições, constataremos que as necessidades econômicas severas da população ditaram os debates. Em outras palavras, com a guinada neoliberal dos países industrializados, no início dos anos 1970, o homo economicus passou a prevalecer sobre o homo politicus, ainda que ambos sejam dois pólos do mesmo campo histórico da modernidade. Obviamente, o Brasil não poderia sair imune dessa virada histórica.
Por conseguinte, mesmo no mais recente período de eleições diretas, desde 1989, não foi a força da política que impulsionou o país a caminho das mudanças sociais e econômicas amplamente observadas, mas a urgência do rearranjo das forças oligarcas frente a entrada do grande capital financeiro mundial em nossas fronteiras. Assim, apesar de reconhecer a ousadia da afirmação, é possível dizer que nem mesmo da democracia, no seu sentido mais conhecido, pudemos desfrutar com plenitude. O nosso real “politicídio” ocorreu lá atrás, ao som das botinas perfiladas para deixar para trás as mazelas do período imperial e colonial. O problema foi que as esporas dos generais da República nos cavalos os fizeram cavalgar em direção à aporia de uma República sem povo. Hoje, mais do que há 30 anos, estamos novamente assim. Só nos resta torcer para que dessa vez não galopem rumo ao “genocídio”.
André Márcio Neves Soares Formado em Adm. De Empresas, Pós-Graduado em Direito do Trabalho e mestrando em Políticas Sociais e Cidadania pela UCSAL – Universidade Católica do Salvador.
REFERÊNCIAS:
[1] MIDDELAAR, Luuk van. Politicídio: o assassinato da política na filosofia francesa. São Paulo. É Realizações. 2015;[2] Idem, p. 13;[3] ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo. Edições Loyola. 1999, p. 67-69;[4] SCHWARCZ, Lília Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo. Companhia das Letras. 2017, p. 430;[5] FAORO, Raymundo. A República em transição. Rio de Janeiro. Record. 2018, p. 175;[6] CHAUÍ, Marilena. Em defesa da educação pública, gratuita e democrática. Belo Horizonte. Autêntica. 2018, p. 78;[7] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1987;[8] SOARES, André Márcio Neves. A democracia brasileira no século XXI. Mas qual democracia? Salamanca/ES. Congresso ICA-SALAMANCA. 2018;
Leia mais:

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Democracia, essa nossa (des) conhecida! Texto de Carlos Eduardo Araújo, professor da PUC-MG




Nesta terra brasilis, há trinta anos, aproximadamente, estamos a encenar uma peça chamada “Democracia”. Parece, infelizmente, que a mesma não atrai mais o público, que cansado do enredo, gradativamente, deixou de frequentar o espetáculo.
Por Carlos Eduardo Araújo
 Fonte: Justificando
Essa soturna constatação, no entanto, não se restringe aos palcos brasileiros, podendo ser confirmada em vários rincões do mundo. Um passeio pela velha e civilizada Europa, onde o teatro foi desde os gregos, uma encenação merecedora dos maiores aplausos e condecorações, demonstra a veracidade da assertiva. A peça já foi retirada de cartaz ou está em vias de sê-lo em países como Itália, Polônia, Hungria, Croácia, Romênia, Noruega, Finlândia e nos confins do velho continente, como Rússia e Turquia.
Fora da Europa, nos EUA, a eleição de Donald Trump acendeu vários sinais de alerta, provocando as reflexões e a apreensão de vários estudiosos norte-americanos. Como abalizados “críticos de teatro”, eles têm feito inúmeras análises, avaliações e restrições ao desempenho dos atores e à companhia que a está a encenar, atualmente, a peça democracia. As críticas são dirigidas principalmente ao protagonista, que por meio de sua fala, gestos e atitudes, não está desempenhando seu papel a contento, desrespeitando o enredo que foi assentado há mais de duzentos anos.
Assim, para aqueles que se interessarem em aprofundar seus conhecimentos, balizar, fundamentadamente, sua argumentação e atuar de maneira crítica no debate público e no conhecimento adequado do enredo da peça, para além da superficialidade, dos preconceitos, do senso comum reinante entre nós, passo a fazer algumas indicações de livros publicados recentemente.
O primeiro livro da qual vou me ocupar é “Como as Democracias Morrem”, publicado no Brasil em setembro próximo passado, pela Editora Zahar. O livro é de autoria dos conceituados professores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Os autores realizam uma análise perturbadora do declínio da democracia em várias partes do mundo e se fazem a seguinte pergunta, ainda atônitos com a eleição de Donald Trump: Democracias tradicionais entram em colapso? “Para isso comparam o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos: da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970. E alertam: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data.”
Acredito que o livro de Levitsky e Ziblatt lança luzes para a compreensão do fenômeno brasileiro ou no mínimo oferece-nos algumas chaves de compreensão para o mesmo.
O segundo livro que farei menção, cuja temática e as preocupações fazem coro às do livro anterior, é a obra do historiador inglês David Runciman: “Como a Democracia Chega ao Fim”, publicado também no mês de setembro pela Editora Todavia. Runciman promove, à semelhança dos professores de Harvard, uma análise das ameaças que rodam as democracias ao redor do mundo. Confessa que sua dúvida quanto ao fim da democracia foi aguçada com a eleição do presidente norte-americano, apesar de afirmar que acredita que tal eleição não assinale o fim da democracia americana. Alerta-nos, todavia, que as democracias podem não ser perenes, como já foi imaginado pelo filósofo nipo-americano Francis Fukuyama, que em 1989 publicou o livro “O Fim da História e o Último Homem”, em razão da aparente vitória da democracia liberal, naquele momento e de sua prospecção para o futuro.
A terceira obra a que farei referência é o livro “Sobre a Tirania”, do historiador estadunidense Timothy Snyder. Aludida obra foi publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras, em junho do ano passado. O livro tem sua origem em uma postagem feita pelo autor no facebook, logo após a eleição de Donald Trump, depois o texto foi transposto para o formato de um conciso livro, contendo vinte lições tiradas do século XX. Nas palavras de Snyder: “Não somos mais sábios do que os europeus que viram a democracia dar lugar ao fascismo, ao nazismo ou ao comunismo no século XX. Nossa única vantagem é poder aprender com a experiência deles”. Livro de leitura instigante e provocador.
Uma quarta obra a que farei alusão é o livro da ex-secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright “O Fascismo – Um Alerta”, publicado pela Editora Crítica, em setembro deste ano. O livro abre-se com uma epígrafe do escritor italiano Primo Levi, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz: “Toda era tem o seu próprio fascismo.” Madeleine Albright nasceu em 1937, em Praga, que era na ocasião de seu nascimento a capital da extinta Checoslováquia. Seu pai, um diplomata judeu, teve que fugir com sua família em 1939, em razão da ocupação nazista. Ela retrata mencionada situação no primeiro parágrafo de seu livro:
“No dia em que os fascistas alteraram pela primeira vez o curso da minha vida, eu mal havia dominado a arte de caminhar. Era 15 de março de 1939. Batalhões de tropas de assalto alemãs invadiram meu país, a Tchecoslováquia, conduziram Adolf Hitler ao Castelo de Praga e jogaram a Europa à beira de uma Segunda Guerra Mundial. Após dez dias escondidos, meus pais e eu fugimos para Londres. Lá, nos juntamos a exilados de toda a Europa no apoio à reação aliada enquanto aguardávamos ansiosamente pelo fim do calvário.”
Como ela menciona, no trecho acima reproduzido, sua família refugiou-se inicialmente em Londres e depois emigraram para os Estados Unidos da América. Como os demais autores, Madeleine está preocupada com a derrocada dos ideais democráticos mundo afora e que agora, segundo pensa, ameaça sua pátria de adoção.
Em outro trecho do livro pergunta Madeleine Albright: “Por que teriam os Estados Unidos – ao menos temporariamente – abdicado de sua liderança nas questões mundiais? E por que, a esta altura do século XXI, voltamos a falar de fascismo? Uma das razões, para dizer francamente, é Donald Trump. Se pensarmos no fascismo como uma ferida do passado que estava quase sarada, colocar Trump na Casa Branca foi como arrancar o curativo e futucar a cicatriz.”
O livro de Madeleine Albright, incitante e provocativo, nos impõe um cotejo, recheado de reflexões e análises, pelas lamentáveis semelhanças e as abissais diferenças com a realidade brasileira, que emergiu do ultimo pleito eleitoral. Na verdade creio que os demais livros mencionados se prestam a igual desígnio.
Farei agora alusão a uma quinta e última obra, que segue, igualmente, na mesma trilha das anteriores. Estou a me referir ao livro do sociólogo espanhol Manuel Castells “Ruptura: A Crise da Democracia Liberal”, publicado em junho deste ano pela Editora Zahar. Permitam-me transcrever um trecho mais ou menos extenso da apresentação da obra:
“Sopram ventos malignos no planeta azul”, sentencia o sociólogo Manuel Castells, enquanto o mundo é assolado por um turbilhão de múltiplas crises. A crise econômica que se prolonga em precariedade de trabalho e desigualdade social; o terrorismo fanático que impossibilita a convivência humana e alimenta o medo; a permanente ameaça de guerras atrozes como forma de lidar com conflitos; as inúmeras violações dos direitos humanos e à vida. Existe, porém, uma crise ainda mais profunda, mãe de todas as outras: a ruptura da relação entre governantes e governados, a desconfiança nas instituições e a não legitimidade da representação política. Trata-se do colapso gradual de um modelo político de representação: a democracia liberal.
Neste livro urgente, fruto de ampla pesquisa, Castells analisa as causas e consequências desse rompimento, à luz dos mais recentes acontecimentos políticos mundiais: a vitória de Trump nos Estados Unidos; o resultado do Brexit no Reino Unido; a desconfiguração partidária na França; e a ideia de “democracia real”, em oposição à democracia liberal moribunda, nascida dos movimentos sociais originários das redes sociais na Espanha, que levou ao fim do bipartidarismo no país. Mas aonde nos levará essa ruptura? Qual a nova ordem que substituirá a que morre? Se o futuro é ainda incerto, Castells nos faz refletir e enxergar com clareza o panorama atual, em uma publicação mais que oportuna para o momento de incerteza em que vivemos.”
Da sinopse acima, da obra de Castells, percebe-se que os cinco livros citados convergem em suas análises, reflexões e preocupações com relação aos rumos apontados para a democracia ocidental e para suas instituições, a ela umbilicalmente ligadas, na atual conjuntura mundial.
No Brasil, a encenação parecia agradar, dava ares de perenidade, mas a platéia é um tanto volúvel, frívola, titubeante, com pruridos hamletianos: “Ser ou não ser, eis a questão.
No caso brasileiro, em particular, os espectadores têm sido atraídos para um espetáculo mais ruidoso, mais estrepitante, onde abundam bufões e atiradores de faca, onde um dos atores cospe fogo. Durante o espetáculo, nuvens de fumaça são lançadas. A pirotecnia come solta, a platéia se agita, se sacode, extravasa os seus instintos e emoções mais primaciais. Como diria Pessoa “O mito é o nada e é o tudo”.   
Aqui, também, como alhures, tem-se publicado algumas obras que buscam entender o fenômeno da emergência da extrema direita entre nós, que não passava, até outro dia, de uma caricatura fascistoide e de mau gosto, a defender ideias estrambóticas, iníquas, as quais mereceriam, até então, nosso tropical repúdio, repulsa, desdém e escárnio.
Não estávamos atentos, pobres de nós, a um rio subterrâneo que corria silenciosamente sob nossos pés, emitindo ruídos mínimos e para os quais não nos mostramos atentos, impossibilitando que suspeitássemos de sua caudalosa potência. Esse rio, de águas maculadas por idéias retrógradas, reacionárias, preconceituosas, elitistas e excludentes, foi inundando tudo que se encontrava em seu lascivo caminho, deixando putrefato seu leito.  De sua foz, emanava em filete d’água, tal qual o “Paquequer” alencariano, descrito no inicio do romance O Guarani: “De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio de água que se dirige para o norte, e engrossado com os mananciais que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal.”
Igualmente o rio, do qual nos ocupamos, resultou do amálgama de um conservadorismo tosco, somado a um afetado moralismo ético, que por sua vez decorre de um autoritarismo ancestral e visceral, e foi engrossando suas águas com toda sorte dos preconceitos e congêneres, supra referidos. No fluir superficial de suas águas vi emergirem arautos da moralidade pública, democratas empedernidos, em suas reluzentes armaduras, Todos irmanados e unidos, em suas virtudes autoproclamadas, em sua luta santa contra o mal, contra a corrupção e contra o demônio vermelho.
No Brasil vou me ocupar de um único livro, concebido no intuito de entender nossa realidade social e política, que tornou possível eclosão da extrema direita entre nós. Refiro-me ao livro organizado pela socióloga Esther Losano intitulado “O Ódio à Política – A Reinvenção da Direita no Brasil, publicado no mês passado pela editora Boitempo.
O aludido livro, organizado por Esther Solano, “chega às livrarias durante o período eleitoral, no momento em que o campo progressista assiste perplexo à reorganização e ao fortalecimento político das direitas. “Direitas”, “novas direitas”, “onda conservadora”, “fascismo”, “reacionarismo”, “neoconservadorismo” são algumas expressões que tentam conceituar e dar sentido a um fenômeno que é indiscutível protagonista nos cenários nacional e internacional de hoje, após seguidas vitórias dessas forças dentro do processo democrático. Trump, Brexit e a popularidade de Bolsonaro integram as complexas dinâmicas das direitas que a coletânea busca aprofundar a partir de ensaios escritos por grandes pensadores da atualidade.”
Neste livro, vários estudiosos se debruçam sobre os mais diversificados fatores que possibilitaram a emergência da extrema direita entre nós, um misto de libertarianismo, fundamentalismo religioso e de anticomunismo extemporâneo e fora do lugar. Some-se a esse caldo cultural, um neoconservadorismo retrógrado e uma tradição jurídica antidemocrática, marcada por uma herança colonial e escravocrata. São amealhados neste caminho, que parece nos conduzir a uma recessão democrática, ódios, frustrações, crise econômica, militarização da vida e o saudosismo do “paradise” ditatorial. Livro imprescindível para um posicionamento informado, crítico, consciente e fundamentado sobre a realidade brasileira atual.
Por fim, para terminar, volto ao começo de tudo: A democracia ateniense.
A democracia, esta senhora com mais de dois mil e quinhentos anos de existência, nascida naquele que passou à história como o século de ouro ou o século de Péricles, e que surgiu e floresceu, no século V a.C., em Atenas, na Grécia Clássica, parece que tem sua existência ameaça em parte substancial do mundo ocidental.
A democracia grega, inspiradora das democracias modernas, tinha as suas peculiaridades e paradoxos quando cotejada com suas versões contemporâneas, encenadas mundo afora. As platéias que afluem ao espetáculo da democracia, hodiernamente, são mais diversificadas, mais heterogêneas, mais plurais, mais inclusivas. A platéia ateniense, que acorria aos teatros onde se encenava a peça democracia, era mais exclusiva, mais homogênea, menos diversificada.
No teatro ateniense, onde a peça democracia era encenada, havia um bedel encarregado de impedir que a ele tivessem acesso escravos, estrangeiros e mulheres. Assim, a platéia e o proscênio eram ocupados por homens, chamados cidadãos, com 21 anos completos. 
É com pesar que assistimos uma erosão do ideário democrático nestes tempos sombrios. No entanto, quando analisamos a conjuntura numa perspectiva histórica vemos quão pendular é a história humana, com o ora o pêndulo lançando-se à direita, ora vergando-se, vertiginosamente, à esquerda, ora repousando no centro do espectro ideológico. Como diria Deus a um Diabo perplexo, no conto “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis:
“Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
– Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.”
Carlos Eduardo Araújo é professor universitário e mestre em Teoria do Direito (PUC-MG)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Brasil tem como resistir ao regime híbrido de Bolsonaro, diz o jurista e sociólogo português mundialmente respeitado Boaventura de Sousa Santos


"O regime híbrido se dá porque conserva traços da democracia, como a chegada ao poder pelas urnas, mas é altamente marcado pelo autoritarismo e moralismo dos militares que acompanham o deputado de extrema direita na Esplanada dos Ministérios."





Foto: P2

Jornal GGN Sociólogo e professor em universidades de Portugal e dos Estados Unidos, Boaventura de Souza Santos concedeu uma entrevista a um jornal português demonstrando preocupação com a implementação de um "regime híbrido" por Jair Bolsonaro, o presidente eleito desde o dia 28 de outubro de 2018. Mas indicou que a oposição e os movimentos sociais brasileiros têm condições de organizar a "resistência" à agenda de retrocessos que será apresentada nos próximos anos, principalmente na economia e direitos trabalhistas.
O regime híbrido se dá porque conserva traços da democracia, como a chegada ao poder pelas urnas, mas é altamente marcado pelo autoritarismo e moralismo dos militares que acompanham o deputado de extrema direita na Esplanada dos Ministérios.
Para Boaventura, o aspecto positivo é que o Brasil, "ao contrário de outros países da América Latina, tem uma sociedade civil bastante organizada, com muitos movimentos sociais. É evidente que vai haver resistência." A questão é saber como "é que vai ser enfrentada? Pela concertação ou pela repressão? Se acreditarmos no discurso do Bolsonaro, será pela repressão."
O pensador destacou, contudo, que Donald Trump também bradava contra vários setores enquanto candidato a presidente dos Estados Unidos. Mas, uma vez dentro do governo, teve de flexibilizar ou atenuar seu discurso.
No caso da imprensa como parte do sistema de freios e balanços a atuar sobre o governo Bolsonaro, Boaventura comentou que é um cenário difícil porque o WhatsApp e o Facebook, principais difusores de fake news, mostraram uma influência e "capacidade tóxica muito grande".
Quanto ao papel do Judiciário, "a minha preocupação também é grande. Vejo que foi a fraqueza dos checks and balances que levou Bolsonaro ao poder. Isto é, toda a operação Lava-Jato e atropelos à legalidade que se cometeram nesta investigação fizeram com que ela não fosse apenas uma luta contra a corrupção — que é perfeitamente legítima — mas uma luta de desestruturação do sistema político."
Apesar disso, para Boaventura, o que preocupa mais em Bolsonaro é sua agenda econômica, que não deverá trazer nenhum boom de crescimento significativo, ao contrário do que imagina seus eleitores.
"Começa agora um capitalismo financeiro que é concentrador de riqueza — como vimos em Portugal durante a troika — e um ataque aos direitos sociais. Como eles já são fracos no Brasil, vai ser muito fácil destruí-los. O meu alarme foi quando o grupo de Nouriel Roubini — o economista turco que previu a crise de 2008 — apresentou um estudo a dizer que os mercados nada tinham contra Bolsonaro. Vi que era o certificado de legitimação, não de Bolsonaro, mas da política dele."
 
PARTIDOS DE OPOSIÇÃO
 
Sobre a oposição a Bolsonaro, Boaventura analisou que o PT deverá aprender a conservar e lutar pela imagem e história de Lula sem deixar que esta se transforme na principal bandeira do partido durante a estruturação da frente de esquerda.
 
"(...) temos de construir uma política democrática no futuro que não pode repetir os erros do passado. Isto é, o “lulismo” não pode voltar. Mas a figura do presidente Lula não pode ser condenada historicamente e morrer na prisão. Será de uma injustiça histórica enorme em relação a um homem que, com todos os erros que cometeu, conseguiu tirar 50 milhões de pessoas da miséria e da fome. Por outro lado, se as outras forças se concentrarem exclusivamente no slogan 'Lula livre', que eu próprio tenho defendido bastante, é uma luta em relação ao passado."
 
Sobre Fernando Haddad, ele disse que é "um homem honesto, muito moderado", que deve ajudar o PT a inaugurar este "novo capítulo".
 
Boaventura disse ainda que prevê espaço para "um novo partido de esquerda, um partido-movimento, a partir dos movimentos sociais, que mostraram o que houve de melhor nesta candidatura. A grande liderança [que surgiu], no meu entender, foi o Guilherme Boulos, do PSOL."
 
Leia a entrevista completa aqui.

Jânio de Freitas, da Folha: Decisão de Moro fortalece pior do governo Bolsonaro



Ida para Ministério da Justiça reduz prestígio do juiz mas deve potencializar "a combinação de autoritarismo e reacionarismo" do novo governo 




Foto: José Cruz/Agência Brasil
 
Jornal GGNQuando o (ex) Juiz Sérgio Moro declarou, em 2016, que jamais entraria para a política explicou que a movimentação colocaria em dúvida a "integridade do trabalho" feito por ele, e isso inclui a Lava Jato. Na sua coluna deste domingo (04), na Folha de S.Paulo, Janio de Freitas relembra o fato, agora ponderando o peso da escolha de Moro em participar do governo Bolsonaro.
 
"Integridade que tem o sentido de totalidade como o de retidão. É o próprio Moro, portanto, na condição de maior autorizado a falar do seu trabalho, quem o põe em dúvida no todo e na retidão. Nesse ponto, não custa concordar com Moro", pontua Janio.
 
Moro irá assumir um "superministério" com a fusão da pasta atual a de Segurança Pública. O órgão irá também absorver o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e deve abrigar a Controladoria-Geral da União. Bolsonaro também destacou que ficará a cargo do novo ministro a escolha da diretoria do chefe da Polícia Federal.
 
 
"Se, nas ocasiões em que teve direção ministerial criteriosa, a PF não se poupou do chocante, pode ser um instrumento perigosíssimo nas mãos de quem a utilize sem respeito aos limites éticos e legais", destaca Janio de Freitas.
 
O articulista concorda com a avaliação de alguns analistas, incluindo o professor da Oxford, Timothy J. Power, de que a decisão de Moro custará "um bom pedaço do prestígio". Ao mesmo tempo, Moro fortalece Bolsonaro e, com isso, tonificar "o pior esperável" do presidente eleito: "a combinação de autoritarismo e reacionarismo".
 
Janio abre o artigo lembrando da lista de "impropriedades" da conduta do juiz, "como a gravação ilegal e divulgação de conversas de Lula, Dilma e outros; a liberação, a seis dias da eleição, de depoimento já antigo de Antonio Palocci contra Lula e o PT, e outras incorreções".
 
"Muitos dos que as citam agora ao tempo de suas ocorrências as aceitaram e até as defenderam. A gravidade que tiveram é, porém, reconhecida na rememoração a que poucos se negaram", arremata. 
 
Mas como será o papel de Moro à frente do "superministério" da Justiça ainda é uma incógnita preocupante:
 
"Moro está bem conhecido em poucos dos seus lados e arestas pessoais. Do que sabe e do que pensa, não se tem ideia. A terra para trabalhar, a necessidade do teto, a vida e o espaço dos indígenas, as milícias já aplaudidas por Bolsonaro, os refugiados, a fauna contrabandeada, enfim, são muitos os problemas sensíveis a cargo do Ministério da Justiça. Só têm recebido referências sinistras da roda de recém-poderosos. E agora são objeto da depravação que é sua entrega à inexperiência, provável desconhecimento e descaso pelo respeito humano e pelos limites legais". Para ler a coluna de Janio de Freitas na íntegra, clique aqui. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O dilema da credibilidade presidencial, por Daniel Mitidieri Fernandes de Oliveira, mestre em Teoria do Direito com ênfase em Estado Administrativo, Democracia e Desenhos Institucionais pelo PPGD/ UFRJ.


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  "Em “Como as Democracias Morrem”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt propõem um teste para medir as tendências autoritárias de um candidato ao cargo de presidente da República, ou até mesmo de um presidente já eleito. Segundo os cientistas políticos da Universidade Harvard, tem perfil autoritário o candidato/ presidente que rejeita as regras do jogo democrático, nega a legitimidade de opositores políticos, encoraja a violência e busca validar medidas de restrição de liberdades, sobretudo de imprensa. São quatro critérios que medem o grau possível de autoritarismo de um indivíduo à frente do cargo máximo da nação." 


Do Justificando:

O dilema da credibilidade presidencial


No sistema de governo presidencialista, o chefe do executivo é a autoridade mais importante da nação. O presidente da República possui não apenas poderes jurídicos elevados, como os de propor leis, nomear ministros e decidir questões que impactam a vida de pessoas e do mercado. Um presidente também possui poderes de fato, consistentes na forma com que molda o ambiente institucional do país, distribui ordens aos subordinados e se comunica com o público.
Os poderes inerentes à figura do presidente causam desconfiança. Logo, esta é uma autoridade que será sempre controlada de perto, quer seja pela lei, quer seja por mecanismos não normativos. Por sua vez, um presidente não confiável passa a sofrer maiores controles do que o normalmente previsto em códigos e regimentos. E um presidente extremamente controlado tende a desempenhar suas funções com mais dificuldade, até porque, nesse contexto, o controle da opinião pública e do jogo partidário se somam a um controle judicial menos deferente.
Em regimes presidenciais, um executivo muito controlado pode virar um executivo fraco ou até mesmo virar um executivo muito forte. Um executivo fraco é um fenômeno indesejável, porque a maior parte do aparato funcional do Estado é submetida às ordens do presidente da República. Sem conseguir aprovar leis modernizadoras ou convencer o Judiciário de que as políticas públicas desenvolvidas são medidas racionalmente pensadas, o presidente tem pouco a fazer. Na hipótese de um executivo muito forte, o presidente pode subverter os mecanismos estabelecidos de controle, promovendo novas formas de despotismo. A questão-chave então passa por debater o que asseguraria um ponto ótimo de controle sobre o presidente.
O objetivo de todo presidente é sofrer uma quantidade de controle que o permita governar sem atritos e dentro do direito. Presumidamente, nenhum governante eleito quer entrar para a história como incompetente ou ilegítimo. Para tanto, a figura presidencial depende de credibilidade. A ambiguidade do direito faz com que presidentes tenham controles jurídicos calibráveis, ao passo que o controle do público varia à medida que a gestão governamental alcança os resultados ventilados em campanha. A chave para o controle não descalibrar está, portanto, na credibilidade presidencial.
A credibilidade presidencial começa na campanha e permeia todo o mandato. Certamente um candidato que inicia a corrida presidencial com posturas e discursos extravagantes pode afetar o grau de credibilidade necessário não apenas para ser eleito, mas sobretudo para governar em harmonia com os demais poderes. Desde já, pode-se dizer que a credibilidade pressupõe medidas de contenção que o presidente deve impor a si mesmo, independentemente de a Constituição e dos demais agentes controladores assim determinarem.
Em “Como as Democracias Morrem”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt propõem um teste para medir as tendências autoritárias de um candidato ao cargo de presidente da República, ou até mesmo de um presidente já eleito. Segundo os cientistas políticos da Universidade Harvard, tem perfil autoritário o candidato/ presidente que rejeita as regras do jogo democrático, nega a legitimidade de opositores políticos, encoraja a violência e busca validar medidas de restrição de liberdades, sobretudo de imprensa. São quatro critérios que medem o grau possível de autoritarismo de um indivíduo à frente do cargo máximo da nação.
O aclamado livro de Levitsky e Ziblatt é um bom teste para identificar potenciais autocratas que ignoram limites. Porém, a obra não diz muito sobre como um presidente da República deve se comportar para não ser enxergado com um autocrata. Afinal, nem todo presidente é um déspota em potencial.Quem enfrenta essa questão de forma analítica são os professores Eric Posnere Adrian Vermeule. Esses dois autores vão propor mecanismos a serem autoimpostos pelo presidente da República, como declarado objetivo deincrementar a credibilidade presidencial, inibindo a formação de zonas de controle subótimo do executivo.
Posner e Vermeule sustentam em artigo denominado “The Credible Executive”, publicado na Harvard Public Law Working Paper No. 132, que um presidente eleito em busca de credibilidade deve promover sinalizações que normalmente não são realizadas por presidentes genuinamente mal-intencionados. Um comportamento bem-intencionado gera custos para quem o realiza. A intenção do presidente eleito em arcar com esses custos caminha na direção contrária de pretensões ilegítimas de governo, o que redunda em aumento de apoio popular.
Sinteticamente, os mecanismos a serem adotados para transmitir credibilidade por parte do executivo, segundo os citados professores, passam pela criação de autoridades decisórias com alguma dose de isolamento político. Temas que são levados a julgamento dentro do executivo devem ser respeitados, ainda que o governante de ocasião tenha opinião pessoal distinta da adotada no caso por servidores técnicos e recrutados via método impessoal. O respeito aos órgãos internos do poder executivo transmite a ideia de profissionalização do aparelho burocrático, evitando mudanças regulatórias por mero jogo partidário.
Além disso, um presidente que não queira ser confundido com um déspota de plantão deve respeitar a existência de uma oposição. Autoridades nomeadas no passado por opositores e opositores em si podem e devem ser chamados para pensarem questões nacionais relevantes.Enxergar apenas os correligionários como interlocutores passa a imagem de que o presidente é sectário. O governante deve falar para fora de sua câmara de ressonância, promovendo, até mesmo, políticas públicas que não sejam originariamente identificadas com sua legenda partidária. Uma frente ampla restringe o ativismo judicial e pressões de grupos negligenciados.
Por fim, os últimos mecanismos que o presidente da república deve se auto impor são: transparência na gestão pública e nas razões de decidir do governo; compromissos multilaterais no plano internacional; aceitação de imputação de responsabilidade pessoal pelos atos de seu governo, indicação de autoridades fiscalizadoras neutras e, por fim, a realização de conferências para aproximação da opinião pública. Reunidas essas posturas de inclusão e governo com transparência, a chance de o executivo não governar sob profunda desconfiança é significativa. Com isso, a tendência de um controle exagerado sobre o presidente diminui.
A poucos dias das eleições presidenciais no Brasil, é fundamental que o eleitor reuna os quatro testes dos professores Levitsky e Ziblatt, bem como os mecanismos comportamentais proativos de Eric Posner e Adrian Vermeule, a fim de que possa identificar qual candidatura tem mais chances de evitar uma gestão autoritária e sem credibilidade. Já para a teoria constitucional contemporânea, o ponto centraldesta discussão passa por reconhecer que a autocontenção do poder executivo é tão importante quanto os limites exógenos impostos à sua conduta.
Daniel Mitidieri Fernandes de Oliveira é mestre em Teoria do Direito com ênfase em Estado Administrativo, Democracia e Desenhos Institucionais pelo PPGD/ UFRJ. Pesquisador do Laboratório de Estudos Teóricos e Analíticos sobre o Comportamento das Instituições LETACI/ FND/ UFRJ. Advogado no Rio de Janeiro

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