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domingo, 21 de junho de 2020

Justificando sobre o Dilema de Quem Apoia Bolsonaro, pelo Professor de Direito Lucas de Melo Prado


O Dilema de Quem Apoia Bolsonaro

   No conto “Um problema”, Borges se pergunta como Dom Quixote reagiria se, no meio de seus delírios, ele houvesse realmente matado um homem. O próprio Borges propõe três respostas possíveis: ou Quixote continuaria vivendo em seu mundo alucinatório, como se nada houvesse acontecido; ou o terror do assassinato o despertaria de sua loucura para sempre; ou, enfim, não podendo negar a morte do homem, ele buscaria, em sua narrativa imaginária, razões que dariam sentido àquele acontecimento fatídico, aprofundando-se ainda mais em sua loucura.



Do site Justificando:



 Sexta-feira, 19 de junho de 2020

O Dilema de Quem Apoia Bolsonaro


Por Lucas de Melo Prado

“Quanto mais doloroso o sacrifício, maior a crença na existência do imaginário receptor do sacrifício.” – Yuval Noah Harari [1]

Em março deste ano, a equipe de especialista do Imperial College London previu que, no melhor cenário, 44 mil brasileiros morreriam em decorrência da pandemia de COVID-19[2] Àquela época (parece que já estamos há uma eternidade em distanciamento social), empresários, como Roberto Justus, Luciano Hang e Junior Durski, vieram a público fazer pouco caso das previsões, acusando-as de alarmistas. Em entrevistas e pronunciamentos oficiais em rede nacional, o Presidente Jair Bolsonaro minimizou a doença, referindo-se a ela como uma mera “gripezinha”. Poucos meses depois, porém, a realidade parece ter dado conta de dobrar a língua dos negacionistas. No momento que escrevo este texto, em junho de 2020, as curvas estatísticas da epidemia no Brasil, mesmo sem contar os casos subnotificados, romperam a marca prevista pelo Imperial College e continuam em ascensão[3] O mundo inteiro assiste atônito ao fiasco de Bolsonaro na condução da crise do coronavírus.

Além da COVID-19, o Brasil ainda tem que lidar com uma crise econômica que já se delineava antes mesmo da pandemia [4], uma disputa entre Governo Federal e Governos Estaduais e Municipais [5] e uma crise institucional em que o Palácio do Planalto se contrapõe e ameaça o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF)  [6]. Isso sem falar nas investigações envolvendo a fabricação e divulgação de notícias falsas por aliados próximos ao Presidente da República [7], nas ligações da família Bolsonaro com as milícias cariocas [8], nos escândalos de corrupção envolvendo os filhos de Bolsonaro [9]e nas acusações de tentativa de interferência na Polícia Federal para proteger familiares e aliados do Presidente[10] Esse caldo de crises e escândalos escancara a total incompetência e inabilidade de Bolsonaro. Ainda assim, seu núcleo de apoiadores continua irredutível em não reconhecer o desastre de seu governo. Na última pesquisa XP/Ipespe, realizada entre os dias 9 e 11 de junho deste ano, 28% dos entrevistados ainda avaliavam o governo como ótimo e bom[11] Como isso se explica? Estariam 28% dos brasileiros tão cegos a ponto de se recusarem a ver o óbvio ululante?

Talvez um pequeno trecho da obra “Homo Deus”, de Yuval Harari [12], quando ele lembra um conto de Jorge Luis Borges [3] e as condições da Campanha Italiana na Primeira Guerra Mundial, contenha uma chave de interpretação que possa nos auxiliar a compreender fenômeno tão estranho.

No conto “Um problema”, Borges se pergunta como Dom Quixote reagiria se, no meio de seus delírios, ele houvesse realmente matado um homem. O próprio Borges propõe três respostas possíveis: ou Quixote continuaria vivendo em seu mundo alucinatório, como se nada houvesse acontecido; ou o terror do assassinato o despertaria de sua loucura para sempre; ou, enfim, não podendo negar a morte do homem, ele buscaria, em sua narrativa imaginária, razões que dariam sentido àquele acontecimento fatídico, aprofundando-se ainda mais em sua loucura. Harari sustenta que essa terceira resposta é comum no ambiente político, onde ela é conhecida como síndrome “nossos rapazes não morreram em vão”. E aqui entra a questão da Campanha Italiana.

A Itália entrou na Primeira Guerra Mundial com o objetivo glorioso de recuperar os territórios de Trento e Trieste do Império Austro-Húngaro. Contudo, ela perdeu as doze batalhas que ali travou. Cada batalha lhe custava mais vidas italianas, e, a cada derrota, seu ímpeto bélico apenas aumentava. Afinal, como os políticos italianos poderiam abandonar o campo de batalha após perderem tantas vidas? Como admitir para as famílias dos mortos que a guerra tinha sido um erro? Seria como se todos aqueles homens tivessem morrido por nada, e isso seria insuportável. Então, ao invés de assumir derrota, os italianos reforçaram sua narrativa de glória patriótica. Para que os primeiros rapazes não tivessem morrido em vão, mais rapazes tiveram que morrer. Por um lado, os reforços de narrativa após cada derrota levaram os italianos a uma tragédia ainda maior. Por outro lado, eles dotaram aquela tragédia de um sentido que a tornava mais palatável.

Segundo Harari, a terceira resposta no conto de Borges e a experiência italiana na Primeira Guerra Mundial demonstram como nós, seres humanos, temos uma grande necessidade de dar sentido às nossas vidas, em especial aos nossos fracassos, dores e frustrações. É muito difícil admitir grandes perdas se elas não tiveram propósito nenhum. Por isso, nós conferimos propósitos aos nossos sacrifícios, via de regra através de narrações imaginárias, em que selecionamos experiências específicas, que se encaixam bem na história que queremos contar. E “quanto mais nos sacrificamos em benefício de uma história imaginária, mais forte ela se torna, porque desesperadamente queremos dar sentido ao sacrifício e ao sofrimento que causamos”[14]

Essa é uma chave importante para compreender o dilema dos bolsonaristas hoje.

O apoio a Bolsonaro teve e continua tendo um alto custo. Pessoas investiram muito dinheiro, tempo e energia nas ações de promoção do bolsonarismo e de sua fábrica de notícias falsas. Alguns chegaram a abandonar seus empregos. Outros penhoraram sua credibilidade. Famílias inteiras estão cindidas, amizades de décadas estão desfeitas e princípios básicos de dignidade e decência tiveram que ser postos em suspenso. Enquanto o motor do bolsonarismo queima mentira, ódio e agressão, do seu escapamento solta-se uma fumaça espessa de sofrimento que atinge a todos ao seu redor, quer sejam apologistas, opositores ou desavisados.

Neste momento, o real da tragédia brasileira atesta o desastre anunciado que sempre foi Bolsonaro. A narrativa do herói nacional, que colocaria a economia nos trilhos, acabaria com a corrupção política e salvaria o país da ameaça dos comunista do Foro de São Paulo, já não encontra nenhum lastro na realidade – se é que algum dia o encontrou. É bem verdade que a própria alcunha de “mito” há muito indicava o caráter quimérico da figura que se construiu sobre o personagem Bolsonaro. Mas essa foi uma fábula em que seguimentos inteiros da população brasileira decidiram acreditar e ajudar a escrever. Ocorre que a tinta usada para registrar esse conto foi extraída de muita dor e sofrimento. Diante disso, admitir a mentira do bolsonarismo seria admitir também que os imensos sacrifícios e as aflições atrozes que ele causou não tiveram sentido e não serviram para nada. Para muitas pessoas, isso é insuportável. E, por essa razão, elas continuam agarradas à mentira. Repetem-na. Reforçam-na.

O reforço das narrativas bolsonaristas implica também um aprofundamento no delírio. Não é à toa que presenciamos sucessivas subidas de tom de Jair Bolsonaro, seus filhos, seus ministros e seus apoiadores. Manifestações reivindicando o fechamento do Congresso e do STF contam com a participação do Presidente[15] Filho de Bolsonaro fala abertamente em AI-5 e ruptura institucional[16] Ministros de Estado sonham com a prisão de Governadores, Prefeitos e Magistrados[17] Tudo isso sob os aplausos efusivos da claque, que, reproduzindo o comportamento do ídolo, invade hospitais, agride profissionais de saúde [19] e atira fogos contra a Suprema Corte[20] Todos foram longe demais na narrativa e no sofrimento que ela engendra. Comprometeram-se a tal ponto que não podem mais voltar atrás. Como gatos acuados, não tendo aonde fugir, ofendem e atacam.

Pode ser paradoxal, mas, “quanto mais doloroso o sacrifício, maior a crença na existência do imaginário receptor do sacrifício”[21] As oferendas a Bolsonaro foram numerosas, feitas às custas de muito suplício. Se algo ainda sustenta a base de apoio bolsonarista é a necessidade de garantir que essas oferendas não tenham sido em vão, ainda que, para isso, mais sacrifícios tenham que ser feitos. Assim como na Campanha Italiana da Primeira Guerra Mundial, a exigência de manutenção do discurso bolsonarista já está cobrando seu preço em vida humanas. Mas, enquanto o drama italiano culminou com a ascensão de Benito Mussolini e do fascismo, aqui, apesar de todos os sinais, eu ainda espero que tenhamos melhor sorte.


Lucas de Melo Prado é mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Professor de Direito do Sinergia Sistema de Ensino (Navegantes – SC).


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Notas:
[1] HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Trad. Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 305.
[2] WALKER, Patrick et al. Report 12: the global impact of COVID-19 and strategies for mitigation and supression. Imperial College London Website, COVID-19 Reports, 26 March 2020. Disponível em: <https://www.imperial.ac.uk/mrc-global-infectious-disease-analysis/covid-19/report-12-global-impact-covid-19/>. Acesso em: 14 jun. 2020.
[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Coronavírus Brasil. 2020. Disponível em: <https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em: 17 jun. 2020.
[4] LINDER, Larissa. Brasil caminha para maior crise econômica de sua história. UOL, 19 maio 2020. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/19/brasil-caminha-para-maior-crise-economica-de-sua-historia.htm>. Acesso em: 15 jun. 2020; BOVESPA fecha em queda após pior mês em mais de 20 anos. G1, 1º abr. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/04/01/bovespa.ghtml>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[5] PRADO, Débora; JUNQUEIRA, Cairo. A queda de braço entre governadores e Bolsonaro. Le Monde Diplomatique Brasil, 26 mar. 2020. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/a-queda-de-braco-entre-governadores-e-bolsonaro/>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[6] SARDINHA, Edson; SAID, Flávia. Presença em ato agrava crise entre Bolsonaro e Congresso e STF. Congresso em Foco, 15 mar. 2020. Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/governo/presenca-em-ato-agrava-crise-entre-bolsonaro-e-congresso-e-stf/>. Acesso em: 15 jun. 2020; RECONDO, Felipe. Sem precedentes: escalada da crise entre Bolsonaro e o STF. Jota, 29 maio 2020. Disponível em: <https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/sem-precedentes/sem-precedentes-escalada-da-crise-entre-bolsonaro-e-o-stf-29052020>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[7] INQUÉRITO do STF sobre fake news: entenda as polêmicas da investigação que provoca atrito entre Bolsonaro e a Corte. BBC News Brasil, 27 maio 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52824346>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[8] CALIXTO, Larissa. Dez fatos que ligam a família Bolsonaro a milicianos. Congresso em Foco, 23 dez. 2019. Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/congresso-em-foco/dez-fatos-que-ligam-a-familia-bolsonaro-a-milicianos/>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[9] AS 6 frentes de investigação que envolvem a família Bolsonaro. BBC News Brasil, 24 dez. 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50810066>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[10] BENITES, Afons; BEDINELLI, Talita. Sérgio Moro acusa Bolsonaro de interferência política na PF e deixa governo. El País Brasil, 24 abr. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-24/sergio-moro-acusa-bolsonaro-de-interferencia-politica-na-pf-e-deixa-governo.html>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[11] XP INVESTIMENTOS. Pesquisa XP Ipespe: 9 a 11 de junho de 2020. Portal XP Investimentos, Histórico de Pesquisas XP, XP Política, jun. 2020. Disponível em: <https://conteudos.xpi.com.br/wp-content/uploads/2020/06/Pesquisa-XP_-2020_06-v2.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[12] HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Trad. Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 302-307.
[13] BORGES, Jorge Luis. Un problema. Ciudad Seva: Casa Digital del Escritor Luis López Nieves, 1960. Disponível em: <https://ciudadseva.com/texto/un-problema/>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[14] HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Trad. Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 303.
[15] BOLSONARO volta a apoiar ato antidemocrático contra o STF e o Congresso, em Brasília. G1, Fantástico, 3 maio 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/05/03/bolsonaro-volta-a-apoiar-ato-antidemocratico-contra-o-stf-e-o-congresso-em-brasilia.ghtml>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[16] EDUARDO Bolsonaro fala em novo AI-5 “se esquerda radicalizar”. UOL, 31 out. 2019. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/10/31/eduardo-bolsonaro-fala-em-novo-ai-5-se-esquerda-radicalizar.htm>. Acesso em: 15 jun. 2020; EDUARDO Bolsonaro diz que haverá “ruptura institucional no país. Correio Brasiliense, 28 maio 2020. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/28/interna_politica,858869/eduardo-bolsonaro-diz-que-havera-ruptura-institucional-no-pais.shtml>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[17] MACEDO, Fausto et al. Em vídeo, Weintraub pede prisão de ministros do STF e Damares, de governadores. UOL, Política, 12 maio 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/05/12/em-video-weintraub-pede-prisao-de-ministros-do-stf-e-damares-de-governadores.htm>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[18] LEAL, Arthur. Grupo chuta portas e derruba computadores em alas de pacientes com covid-19 no Ronaldo Gazolla. O Globo, 12 jun. 2020. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/grupo-chuta-portas-derruba-computadores-em-alas-de-pacientes-com-covid-19-no-ronaldo-gazolla-24477088>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[19] ‘PROFISSIONAIS no mundo são aplaudidos, e no Brasil a gente apanha’, diz enfermeira agredida em ato no DF. G1 DF, 1º maio 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2020/05/01/profissionais-no-mundo-sao-aplaudidos-e-no-brasil-a-gente-apanha-diz-enfermeira-agredida-em-ato-no-df.ghtml>. Acesso em: 15 jun. 2020; MARTINS, Marco Antônio. Médica agredida após reclamar de festa durante isolamento social no Rio passa por cirurgia e coloca parafusos na perna. G1 Rio, 13 jun. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/13/medica-agredida-apos-reclamar-de-festa-durante-isolamento-social-no-rio-passa-por-cirurgia-e-coloca-parafusos-na-perna.ghtml>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[20] GRUPO de apoiadores de Bolsonaro lança fogos de artifício contra o prédio do STF. G1, Política, Brasília, 14 jun. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/14/grupo-de-apoiadores-de-bolsonaro-lanca-fogos-de-artificio-contra-o-predio-do-stf.ghtml>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[21] HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Trad. Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 305.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A psicologia de massas do nazismo no filme “Jojo Rabbit”, por Wilson Ferreira



Equilibrando-se corajosamente no fio da navalha entre tragédia e humor, o diretor Taika Waititi mergulha na guerra interior do pequeno protagonista: entre o superego do seu amigo imaginário (nada menos que o próprio Hitler) e o inconsciente secreto que se esconde no sótão da sua casa. Jojo finge ser uma nazista cruel da juventude hitlerista. 

A psicologia de massas do nazismo no filme “Jojo Rabbit”

por Wilson Ferreira

Nazistas são maus, frios e assassinos. É a própria encarnação do Mal no cinema, criando dramas pessoais e tragédias humanas. Tão poderosos que, através da propaganda política, teriam poderes totais sobre as massas hipnotizadas. Mas o filme “Jojo Rabbit” (seis indicações ao Oscar) é uma visão alternativa nesse senso comum. Equilibrando-se corajosamente no fio da navalha entre tragédia e humor, o diretor Taika Waititi mergulha na guerra interior do pequeno protagonista: entre o superego do seu amigo imaginário (nada menos que o próprio Hitler) e o inconsciente secreto que se esconde no sótão da sua casa. Jojo finge ser uma nazista cruel da juventude hitlerista. Mas tudo o que quer é fazer parte de um clube. “Jojo Rabbit” cria uma representação fílmica da psicologia freudiana no nazismo: no fundo, as pessoas sentem-se solitárias e mal-amadas – sós, procuram a sensação de pertencimento. Nem que seja entre nazistas.
Nazistas sempre foram os vilões perfeitos para o cinema: frios, maus, calculistas, cínicos, assassinos. Como não poderia deixar de ser, filmes sobre nazistas e segunda guerra mundial sempre focalizaram nos dramas pessoais, famílias que se separam e o horror diante do genocídio, o ódio e o racismo organizado como um sistema político-ideológico.
Mas além da maldade, os nazistas parecem dotados de algum tipo de poder hipnótico sobre as massas, capazes de agitar as multidões e arrastá-las à irracionalidade.
Essa visão que perpassa todos os subgêneros dos filmes sobre nazismo (exploitation, históricos, biográficos, humor negro etc.) é um senso comum diretamente originado do polímata francês Gustave Le Bon, no século XIX – para ele, as multidões seriam contagiadas pelo poder hipnótico dos líderes. Solto na multidão, o indivíduo abandonaria a responsabilidade individual e cederia às emoções. Um prato cheio para a propaganda política.
Mas o filme Jojo Rabbit (2019), com seis indicações ao Oscar (Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Atriz Coadjuvante, Figurino, Montagem e Design de Produção), do diretor judeu polinésio Taika Waititi, traz um enfoque diferente. Mais freudiano para fenômenos de massa como foi o nazismo no século XX.
Jojo Rabbit é uma comédia dramática que satiriza a Alemanha nazista já nos estertores da guerra e na iminência da derrota, cujo protagonista é um garoto solitário que tem como amigo imaginário nada menos do que Adolf Hitler. É justamente aí que está a aposta arriscada de Waititi quanto ao tom do humor – um dos maiores genocidas da História como uma figura paterna alternativa, aparecendo para oferecer apoio e conselhos. Aliás, interpretado pelo próprio diretor.
Mas é justamente nesse improvável amigo imaginário de um garoto de dez anos que está a novidade de Jojo Rabbit entre a cinematografia do nazismo: o garoto é um fanático aspirante à juventude nazista, mas não porque foi contagiado pelo poder hipnótico da propaganda nazi em uma pequena cidade no interior da Alemanha.
Solitário (seu pai e irmã morreram e vive com sua mãe), ele está desesperado pelo anseio de pertencer a um grupo, ser reconhecido, respeitado e amado. Adere ao nazismo, assim como poderia aderir a qualquer movimento que estivesse em evidência.
Tudo o que deseja é ter a sensação de pertencimento. Nada mais freudiano do que a psicologia de massas na qual se baseia o drama do pequeno protagonista: o que as pessoas mais temem não é a morte, mas a tragédia de não serem amadas – de morrerem em vida, sós e anônimas. Por isso, tendem a acompanhar a maioria, pelo medo de ficarem para trás. Não amadas.

O Filme

Jojo Betzler (brilhantemente interpretado por Roman Griffin Davis) é um garoto solitário em algum lugar da Alemanha nazista nos últimos estágios da guerra. Ele mora com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson), tendo perdido o pai e a irmã. Desesperado por pertencer a alguma coisa, o pequeno Jojo torna-se um membro fanático da Juventude Hitlerista, sempre acompanhado pela assessoria do seu amigo imaginário Adolf Hitler.
Este Hitler imaginário é um amálgama de superego nazista e racionalizações reconfortantes. Às vezes, ele se enfurece (“Me acalme!”). Quando não tem o que dizer, oferece cigarros para o garoto. Às vezes ele fala gírias adolescentes… e come unicórnios.
Jojo parte para um campo de treinamento para jovens de Hitler, liderado pelo ex-capitão da SS alcoólatra chamado Capitão K (Sam Rockwell) e sua grotesca assistente, Fraulein Rahm (Rebel Wilson).
Não demonstrando a crueldade necessária ao ser desafiado a matar um coelho, é humilhado pelo grupo e passa a ser chamado de “Jojo Rabbit”. Depois de uma conversa motivacional com o Hitler imaginário, Jojo então tenta demonstrar suas proezas marciais arrebatando uma granada de mão, apenas para explodir em si mesmo, tornando-se manco e com grandes cicatrizes no rosto.
Jojo, um antissemita fanático, descobre horrorizado, que sua mãe está escondendo uma adolescente judia, Elsa (Thomasin McKenzie) no sótão.
Incapaz de traí-la sem também trair sua própria mãe, Jojo faz um pacto desconfortável com Elsa, insistindo que ela revele os segredos sinistros dos judeus para um livro que está escrevendo chamada “Yoohoo Jew”. Para assustar ainda mais Jojo, Elsa informa os “segredos” dos judeus: eles têm chifres, são atraídos por coisas brilhantes e penduram-se no teto quando dormem, como morcegos.

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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Wilhelm Reich e a psicologia de massas do fascismo ontem e hoje: por que as massas caminham sob a direção de seus algozes?



Mauro Iasi revisita as teses de Wilhelm Reich sobre a psicologia de massas do fascismo para compreender os impasses políticos do presente.


“o fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório
de todas as reações irracionais do caráter do homem médio”
W. Reich

“queriam que eu falasse do agora
mas, o presente que procuro
está preso em um passado
que insiste em ser futuro”
M. Iasi

O psicólogo marxista Wilhelm Reich (1897-1957) escreveu o livro Psicologia de massas do fascismo em 1933 (o estudo se estendeu de 1930 até 1933), no contexto da ascensão do nazismo na Alemanha. O autor se refugiou em Viena, depois Copenhagen e Oslo, onde iniciou seus estudos sobre as couraças e depois do que denominou de “energia vital”, levando-o a teoria do “orgon”. Desde 1926 acumulava divergências com Freud, com o qual trabalhou como assistente clínico, e em 1934 seria expulso da Sociedade Freudiana e da Associação Psicanalítica Internacional, sairia da Noruega em direção aos EUA, onde seria também perseguido com a acusação de “subversão”. Acabou preso em 1957 e morreu no mesmo ano na prisão. Toda sua obra, incluindo livros e material de pesquisa, foram queimados por ordem judicial nos EUA em 1960.

Ainda que possamos questionar as teorias reichianas fundadas na teoria do “orgon” e a relação que esperava estabelecer entre “soma e psiquismo”, temos que ter muito cuidado ao tratar as considerações que esse importante autor tece sobre o fascismo e o caráter das massas analisados na obra citada. Em vários aspectos, considero que as reflexões de Reich sobre o tema podem ser extremamente úteis em nossos tumultuados dias, principalmente pelas questões que levanta, mais do que pelas respostas que encontra.

O autor coloca da seguinte maneira o problema. Se assumirmos que a compreensão da sociedade realizada por Marx esteja correta – isto é, que o desenvolvimento da sociedade capitalista e suas contradições leva à possibilidade de sua superação revolucionária (o que implica a conformação do proletariado como um sujeito consciente de sua tarefa histórica) –, a questão que se coloca é como compreender o comportamento político de amplos setores da classe trabalhadora que efetivamente estão servindo de base para a reação política que emergia com o fascismo.

Chamar atenção aos efeitos da exploração capitalista, como a miséria, a fome e o conjunto das injustiças próprias do sistema capitalista para ativar o “ímpeto revolucionário”, dizia Reich, já não era suficiente. Tampouco acusar o comportamento conservador das massas de “irracional”, de constituir uma “psicose de massas” ou uma “histeria coletiva” – algo que em nada contribui para jogar luz sobre a raiz do problema, a saber, compreender a razão pela qual a classe trabalhadora respaldava o discurso fascista que em última instância atacava exatamente seus próprios interesses.

Na base dessa incompreensão se encontrava um sentimento de espanto. Os marxistas acreditavam que a crise econômica de 1923-1933 era de tal forma brutal que produziria “necessariamente uma orientação ideológica de esquerda nas massas por ela atingidas”. Entretanto o que se presenciou foi, nas palavras do autor, uma “clivagem entre a base econômica, que pendeu para a esquerda, e a ideologia de largas camadas da sociedade que pendeu para a direita”. O autor conclui com a constatação de que a “situação econômica e a situação ideológica das massas não coincidem necessariamente”. (Wilhelm Reich, Psicologia de massas do fascismo, São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 7).

Nesse ponto, Reich afirmará que – e a observação dele aqui me parece profundamente pertinente hoje – essa não correspondência não deveria surpreender aos marxistas, uma vez que o materialismo dialético de Marx não compreende a relação entre a situação econômica e a consciência de classe como sendo algo mecânico, ou seja, como se a situação material determinasse esquematicamente sua expressão ideal na consciência dos membros de uma classe social. Somente um “marxismo vulgar” concebe uma antítese na relação entre economia e ideologia, assim como entre a “estrutura” e a “superestrutura”, uma perspectiva precária que não leva em conta o chamado “efeito de volta” da ideologia, isto é, as formas pelas quais a ideologia incide sobre a própria base material que a determina. Presa a essa visão esquemática e pouco dialética, resta a essa modalidade de marxismo vulgar apenas recorrer ao chamamento moral para que os trabalhadores correspondam em sua ação às condições objetivas em que se inserem, clamando pela “consciência revolucionária”, às “necessidades das massas” ou ao “impulso natural” para as greves e a luta (p. 14). Melancolicamente, Reich conclui então que essa versão esquemática do marxismo:

“Tentará, por exemplo, explicar uma situação histórica com base na ‘psicose hitleriana’ ou tentará consolar as massas, persuadindo-as a não perder a fé no marxismo, assegurando-lhes que, apesar de tudo, o processo avança, que a revolução não pode ser esmagada, etc. O marxista comum acaba por descer ao ponto de incutir no povo uma coragem ilusória, sem, no entanto, analisar objetivamente a situação em sem compreender sequer o que se passou. Jamais compreenderá que uma situação difícil nunca é desesperadora para a reação política ou que uma grave crise econômica tanto pode conduzir à barbárie como a liberdade social. Em vez de deixar seus pensamentos e atos partirem da realidade, ele transporta essa realidade para a sua fantasia de modo que ela corresponda aos seus desejos.” (pp. 14-5)

A miséria econômica causada pela crise atualiza a disjuntiva “socialismo ou barbárie”, mas o que faria com que os trabalhadores optem pela alternativa socialista? Reich está convencido de que em uma situação como essas os trabalhadores escolhem em primeiro lugar a barbárie. O marxismo vulgar compreende a ideologia como um conjunto de ideias que se impõe à sociedade e, portanto, aos trabalhadores. Dessa maneira, os partidários desse tipo de perspectiva acreditam que as ideais marxistas ganham força na crise porque desmentem na prática as ideias conservadoras. O que foge à compreensão dessa análise é exatamente o modo de operação da ideologia, muito mais do que a definição escolástica do “que é” ideologia.

Assim, o psicólogo comunista fará a pergunta decisiva: se uma ideologia se transforma em força material quando se apodera das massas, como afirmava Marx, a pergunta é “como é possível que um fator ideológico produza resultado material”, seja na direção de uma política revolucionária ou na direção de uma “psicologia de massas reacionária”? (p. 17)

Se compreendermos a ideologia na chave de ideias dominantes em uma sociedade – isto é, as ideias das classes dominantes que expressam as relações sociais que fazem de uma classe a classe dominante (Marx e Engels, A ideologia alemã, Boitempo, p. 47) –, a pergunta se formula da seguinte maneira: como é que relações sociais se convertem em expressões ideais, valores, juízos e representações interiorizadas pelas pessoas que constituem uma determinada sociedade? A resposta é que isto se dá na vivência de instituições no interior das quais as pessoas formam seu próprio psiquismo, neste caso, fundamentalmente, na família.

É aqui que as relações sociais dadas são apresentadas pela pessoa em formação como “realidade”, onde se desenvolve a transição do “princípio do prazer” para o “princípio da realidade” e se produz um complexo processo de identificação com aquele que representa o limite, a ordem e a norma social a ser imposta, mas, o que é essencial ao nosso tema, que é incorporada pela pessoa como se fosse sua (autocontrole) e não uma imposição oriunda de uma ordem social. O fundamento desse processo de interiorização, na formação daquilo que Freud denominou de “superego”, está a repressão à sexualidade infantil, o seu recalque e a volta como sintoma nos termos de Reich (Materialismo Dialético e Psicanálise. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1977).

É mister lembrar neste momento que o resultado desse processo de interiorização das relações sociais na forma de valores e normas de comportamento implica na identidade com o agende da imposição das normas externas, no caso do complexo de Édipo descrito por Freud na formação de uma identidade com o pai.

Dessa maneira, Reich localizará a base de uma determinada expressão de uma psicologia de massas (a do fascismo) em dois pilares: uma certa forma de família tendo no centro a repressão à sexualidade infantil; e o caráter da “classe média baixa”. Para ele, a repressão à satisfação das necessidades materiais difere da repressão aos impulsos sexuais pelo fato que a primeira leva à revolta enquanto a segunda impede a rebelião, uma vez que o retira do domínio consciente “fixando-o como defesa moral”, fazendo com que o próprio recalque do impulso seja inconsciente, seja visto pela pessoa como uma característica de seu caráter. O resultado disso, segundo Reich, “é o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacionária” (Psicologia de Massas do Fascismo, p. 29).

Os setores médios não são os únicos a viverem esse processo (que é de fato universal para nossa sociedade) mas o vivem de maneira singular. Trata-se de uma classe ou segmento de classe espremido entre o antagonismo das classes fundamentais da sociabilidade burguesa (a burguesia e o proletariado), desenvolvendo o curioso senso de que estão acima das classes e representam a nação. Seus impulsos jogam os setores médios ora para a radicalidade proletária (a luta contra as barreiras da realidade que se levantam contra os impulsos), ora para o apelo à ordem da reação burguesa (a defesa das barreiras sociais impostas como garantia da sobrevivência). Como o indivíduo teme seus impulsos e clama por controle, os segmentos médios temem a quebra da ordem na qual se equilibram precariamente e pedem controle e repressão.

Não é acidente ou casualidade que no campo dos valores reacionários vejamos alinhados à defesa abstrata da “nação” características como o “moralismo” quanto aos costumes (que vem inseparavelmente ligado a preconceitos, a homofobia, etc.) e a defesa da “família”, assim como o chamado “irracionalismo”, a “violência”, o mito da xenofobia e do racismo como constituintes da nação, e o clamor pela “ordem”. A recente cena dantesca de “manifestantes” enrolados na bandeira do Brasil, de joelhos e mãos na cabeça, pedindo uma intervenção militar é a imagem que condensa todos esses elementos. Por incrível que pareça, essa não é uma sociedade “doente”, mas a sociedade “normal” exposta sem os filtros que rotineiramente a oculta.

Os argumentos de Reich estão longe de dar conta da totalidade do fenômeno do fascismo. Ainda que justificada, sua crítica aos marxistas oficiais (em 1931 Reich criou a Sexpol Verlag que aglutina mais de 40 mil membros discutindo uma política sexual e suas relações com a luta revolucionária, o que causou preocupações no Partido Comunista austríaco e redundou na sua expulsão do partido em 1933) não pode dar conta de todos os elementos históricos, políticos, sociais e culturais do tema que foram abordados em inúmeras obras de competentes marxistas (de Gramsci a Adorno e Benjamin, passando por Togliatti, Polantzas e tantos outros). Ele apenas aponta para um aspecto que normalmente é desconsiderado. O que nos parece pertinente é que o comportamento fascista não pode ser reduzido a manipulação e engodo, mas encontra profunda raízes na consciência imediata das massas e seus fundamentos afetivos, seja nos segmentos médios, seja na classe trabalhadora.

O fascismo é, na sua essência, uma expressão política da crise capitalismo em sua fase imperialista e na etapa do domínio dos monopólios, como define Leandro Konder (Introdução ao fascismo, São Paulo, Expressão Popular, 2009). Ele disfarça sob uma máscara modernizadora seu conteúdo conservador, sendo antiliberal, antissocialista, antioperário e, principalmente, antidemocrático. A dificuldade do fascismo reside exatamente em juntar esses dois aspectos contrários em sua síntese – isto é, uma intencionalidade à serviço do grande capital (imperialista, monopolista e financeiro) e uma base de massas que permita apresentar seu programa reacionário como alternativa para a “nação”. Creio que o estudo de Reich nos dá aqui uma pista valiosa. A ideologia fascista conclama à revolta dos impulsos reprimidos (seja das necessidades materiais, seja aqueles relativos à repressão da sexualidade) e depois oferece a ordem como alternativa, dialogando assim diretamente com o fundamental da estrutura do caráter universalizado pela sociabilidade burguesa, principalmente das chamadas classes médias. É, portanto, uma política da pequena burguesia que mobiliza massas trabalhadoras para defender os interesses do grande capital monopolista. Acreditem, realizou-se esta façanha com eficiência e sucesso naquilo que conhecemos por nazifascismo.

Na luta contra o fascismo, a burguesia democrática é sempre a primeira derrotada e junto a ela a pequena burguesia que acredita no seu próprio mito de um Estado acima dos interesses de classe. A única força social capaz de enfrentar o fascismo é a revolução proletária, por isso são os trabalhadores o alvo duplo do fascismo, seja no sentido da cooptação, seja na repressão brutal e direta. Quando a luta de classes se acirra e qualquer conciliação é impossível, a burguesia se inquieta, os segmentos médios entram em pânico e os fascistas vendem seu remédio amargo para a doença que ajudaram a criar. Se nesse momento os trabalhadores se movimentarem com autonomia em direção ao seu projeto societário – o socialismo –, impelidos inicialmente pelos impulsos mais elementares e ainda não conscientes, eles podem colocar toda a sociedade em torno de sua luta e se constituir como alternativa à barbárie do capitalismo em crise. Se, por razões várias, esse segmento não se movimentar com a força necessária, uma longa noite de terror se impõe com seus cadáveres e cortejos fúnebres.

Ainda que tenham particularidades em seu processo de consciência, os trabalhadores não podem escapar ao fato de que são socializados nas instituições de uma ordem burguesa, portanto, que os valores, princípios, representações ideais desta ordem constituam o fundamento de sua consciência imediata. Diante do caos que emerge da crise do capital vive uma contradição entre os impulsos materiais que os impulsionam à luta e à identidade com os opressores que os mantêm presos às correntes da ideologia. Na ausência de uma política revolucionária se somam às “classes médias” conclamando pela ordem e se prestam a ser a base de massas para as aventuras fascistas.

Toda a esperança da psicanálise é tornar possível que o inconsciente emerja, em parte, para que seja compreendido o sintoma. Guardadas as mediações necessárias, a luta de classes torna possível que as determinações ocultas pelos mecanismos da ordem se façam visíveis e que o sintoma se torne exposto. No primeiro assim como no segundo caso isto não significa a resolução do sintoma, mas o início de uma longa luta para enfrentá-lo. O novo que pulsa vigoroso nas entranhas do cadáver moribundo do velho mundo, não pode ser detido a não ser pela violência. Não pode se libertar sem quebrar violentamente a ordem que o aprisiona.

“Veintiuno veintiuno
firmamento del dos mil
en el cielo la paloma
va en la mira del fusil”
Silvio Rodriguez

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Fonte do texto: Contexto Livre