Em discurso na posse de Donald Trump, Elon Musk faz gesto nazista
É o segundo apoiador importante de Trump que faz essa mesma saudação em 48 horas
Apoiador de primeira hora de Donald Trump, o dono do X e da Tesla, Elon Musk, discursou em um evento da posse de Donald Trump nesta segunda-feira (20), em Washington, no ginásio Capitol One Arena.
A grande repercussão ficou por conta do gesto feito por Musk com o braço estendido para a frente e a mão espalmada. A saudação é igual à que faziam os nazistas durante o Terceiro Reich.
O empresário foi escolhido por Trump para chefiar o novo Departamento de Eficiência Governamental. Ele exaltou “o sentimento da vitória”. “E não foi uma vitória qualquer. Foi um momento decisivo para a civilização humana.”
“Essa eleição realmente importava. E eu quero apenas agradecer a vocês por fazerem isso acontecer. Obrigado”, afirmou Musk, fazendo o gesto em seguida.
“Graças a vocês, o futuro da civilização está garantido. Teremos cidades seguras, finalmente, fronteiras seguras, gastos sensatos, coisas básicas”, completou.
Musk também falou que o país irá a Marte e disse que será “inspirador” o momento em que “astronautas norte-americanos colocarem a bandeira em outro planeta pela primeira vez”.
Steve Bannon faz gesto nazista
Outro apoiador de Trump fez gesto nazista
Em evento realizado no domingo (19), outro apoiador importante de Trump fez o gesto nazista: Steve Bannon.
Isso aconteceu em uma das atividades relacionadas à posse do novo presidente dos Estados Unidos, em que estavam presentes parlamentares brasileiros, inclusive Eduardo Bolsonaro.
No encontro, Bannon fez referência ao partido alemão de extrema direita AfD e comemorou o fato de a Alemanha ser o próximo país a eleger um governo de direita. A fala foi acompanhada do gesto nazista: braço direito com a palma da mão virada para baixo.
“Nós tivemos uma grande vitória aqui [nos EUA] e estamos ganhando no mundo todo, certo? A próxima parada é a Alemanha. Posso pedir que a Alternativa Para a Alemanha (AfD) se levante? Queremos saudá-los”, disse Bannon.
Precisou o presidente e a Bia Kicis tirarem foto com uma política alemã de partido do adolfinho para a ficha cair de alguns: “Poxa, não é que esse governo tem admiração pelos neonazis espalhados pelo mundo mesmo. Surpreendente”. Helder Maldonado comenta.
Do Canal Critica Brasil, de Aquias Santarem (seguido do artigo da Veja):
Segue trecho do artigo de Thomas Traumann retirado do site daRevista Veja:
Existe um teste simples para descobrir se alguém é nazista. Dez pessoas estão numa mesa e chega um último conviva. Ele defende ideias nazistas. Como saber quantos nazistas estão na mesa? Se ninguém se levantar, são onze os nazistas. A nova governadora de Santa Catarina, Daniela Reinehr, não passou no teste. Pela primeira desde o governo Vargas um político com cargo eletivo se mostra cúmplice à barbárie nazi.
Reinhert é filha de um conhecido neonazista, Altair Reinehr, que escreveu livros defendendo Hitler e negando o holocausto. Você pode dizer que a filha não tem culpa de o pai ser um defensor do extermínio de outras raças e, por respeitar essa dúvida, o repórter do site The Intercept, Fabio Bispo, a questionou sobre o tema. A sua resposta foi essa:
“Eu respeito, volto a dizer, respeito as pessoas independentemente dos seu pensamentos, respeito os direitos individuais e as liberdades. Qualquer regime que vá contra o que eu acredito, eu repudio”, disse Reihner, fingindo que um regime como o nazista possa ser comparado a um governo autoritário. Ela não respondeu quais direitos e liberdades defende. Continuou: “Existe uma relação e uma convicção que move a mim, e acredito que a todos os senhores, que se chama família. Me cabe, como filha, manter a relação familiar em harmonia, independente das diferenças de pensamento, das defesas [de ideias]”.
Portanto para a nova governadora, abraçar o nazismo é “uma diferença”, como se fosse escolher o quadro que vai decorar a sua sala. A escolha das palavras mostra que a governadora é ignorante da história, insensível à dor alheia, desrespeitosa às milhões de famílias sobreviventes, traidora da memórias dos 1.500 da Força Expedicionária Brasileira mortos na Segunda Guerra e conivente de uma ideologia odiosa.
O partido neonazista (de extgrema´direita) grego Aurora Dourada, após cinco anos de intensa disputa judicial e mais de 450 audiências, foi considerado no dia 07/10 como uma organização criminosa pelo Tribunal Penal de Atenas.
Do site de estudos e crítica jurídica Justificando:
O grande destaque do julgamento veio da forma escolhida para a condução. Em momento nenhum foi considerado um julgamento sobre limites da liberdade de expressão. Desde o início foi um julgamento criminal amparado em artigos do código penal – não segundo o tipo de dispositivo constitucional encontrado em alguns países, como no Brasil, que permite na pior das hipóteses a proscrição de uma organização se ela ameaçar a ordem democrática.
Os 68 réus têm quatro processos a responder: o assassinato de Pavlos Fyssas em setembro de 2013, a tentativa de assassinato de sindicalistas comunistas e seu líder Sotiris Poulikogiannis naquele mesmo mês, a tentativa de assassinato do pescador imigrante egípcio Abouzid Embarak em sua casa em Junho de 2012 e, finalmente, a responsabilidade geral de dirigir uma organização criminosa que enfrenta a liderança da Golden Dawn.
A última acusação, contida no artigo 187 do código penal grego, é utilizado apenas na repressão do crime organizado e foi, pela primeira vez, utilizado para um partido político. Tal como acontece com leis e procedimentos semelhantes em outras jurisdições, trata-se de demonstrar como os chefes de organizações semelhantes à máfia dirigem, orientam e inspiram a atividade criminosa realizada por pessoas mais abaixo na estrutura do partido.
A sentença foi lida publicamente e foi recebida com gritos e aplausos de mais de 15 mil pessoas que aguardavam a decisão em frente ao tribunal, com faixas e gritos que traziam uma poderosa mensagem: “O fascismo não é uma opinião, é um crime”.
Os 68 réus do caso incluíam 18 ex-deputados do partido, fundado na década de 1980, originalmente como uma organização neonazista. Entre os muitos documentos analisados e levados à público pela imprensa, destacou-se os vídeos do fundador e líder do partido, Nikos Michaloliakos, de 62 anos, dizendo em uma reunião privada: “Somos as sementes do exército derrotado de 1945” – o exército do Terceiro Reich. O tribunal também viu o juramento secreto para os recrutas da Golden Dawn, que identifica o principal inimigo da organização como “o Judeu Eterno”. Ele próprio foi considerado culpado de “comandar uma organização criminosa”.
Apenas 11 dos 68 acusados estiveram presentes no tribunal. Nenhum dos ex-deputados do Aurora Dourada compareceu. Diversos lideres adotaram a mesma tática que Adolf Hitler adotou nos julgamentos de criminosos do Partido Nazista na década de 1920 e início da década de 1930, afirmando que o Aurora Dourada não tem membros e, portanto, eles não tem nada pelo que se responsabilizar. Nos depoimentos, ignoraram os crimes cometidos, bem como disseram não conhecer seus os perpetradores diretos. Por fim, todos alegram, seguindo o exemplo de Michaloliakos não saber o que estava acontecendo em sua organização militaristicamente estruturada.
A grave crise enfrentada pelo país no início dos anos de 2010 trouxe os membros do grupo para os holofotes e sua aceitação passou a subir. O aumento da crise, somado à perda de empregos e à crescente onda migratória -principal ponto de ataque do grupo – foi o trampolim para o sucesso nas eleições de 2012 e 2015, quando o grupo, agora partido, elegeu a terceira maior bancada do parlamento. As atitudes criminosas e fascistas do partido, entretanto foram se revelando e intensificando, e na eleição seguinte, de 2019, já não foi eleito sequer um representante do grupo.
Ao todo, foram processados 68 réus, dentre eles os sete líderes do partido, que foram todos considerados culpados de liderar uma organização criminosa. Os demais, foram considerados culpados de participar de uma organização criminosa. As penas variaram de acordo com a contribuição, chegando aos 15 anos de prisão. Mais de oito milhões de euros foram confiscados da organização.
Yorgos Roupakias, considerado um dos altos membros da organização, admitiu que estava por atrás do assassinato de Pavlos Fyssas, sendo condenado à prisão perpétua. Fyssas, de 34 anos, foi esfaqueado até à morte na noite de 18 de setembro de 2013, em frente a um café do bairro de Keratsini, um subúrbio de Atenas.
As investigações começaram quando outros membros do partido foram acusados, e eventualmente condenados pelo assassinato de dois migrantes, em 2012 e 2013. Os extremistas de direita não pararam nos imigrantes, entretanto. Os sindicalistas comunistas foram visados, assim como os ativistas anarquistas e esquerdistas. Casais do mesmo sexo também relataram ter sido atacados enquanto caminhavam ao ar livre. Os depoimentos colhidos nestes processos levaram o Ministério Público à acreditar que o partido havia começado uma ação paramilitar coordenada pelas lideranças e, por isso, foi iniciada uma investigação completa de todos os membros.
Ainda que o partido negue conexões com as Ações, toda monta probatória demonstrou o contrário culminando na decisão tão aguardada nos últimos cinco anos.
Diversas organizações, gregas e internacionais, se manifestaram. A Anistia Internacional, responsável atualmente por uma rede de combate à violência xenófoba na Grécia definiu a decisão como história e como um sinal do “início do desmoronamento [de organizações fascistas] não apenas na Grécia, mas em toda a Europa”.
O exemplo que deve permanecer, entretanto é do da urgente necessidade de separar discursos de ódio da liberdade de expressão. Como disse o povo grego, “O fascismo não é uma opinião, é um crime”, e a liberdade prevista é a de opinião, não a de humilhar, inferiorizar e, eventualmente, exterminar grupos minoritários.
O discurso de ódio é um claro abuso no direito de liberdade de expressão, no Brasil protegido pelo disposto na Constituição Federal de 1988, em seus artigos 5º, incisos IV e IX, e 220. O artigo 5º, inciso IV, pois se caracteriza por ser uma manifestação agressiva e incitadora do ódio de alguns pessoas em detrimento outros, em virtude de características pessoais não alteráveis.
O direito à liberdade de expressão não é um direito absoluto, sem limites. O mau uso desse direito merece limitações e sanções reais, para que se proteja direito alheio, como dignidade e honra, e em muitos casos, o até mesmo o direito à vida.
É passado o tempo de um enfrentamento real ao crescimento destes discursos pela via penal, sobretudo dentro de grupos organizados capazes de atentar contra muito mais que a moral e a honra de grupos minoritários, dentre eles os partidos políticos. Igualmente, é chegado o momento de estabelecer coletivamente fronteiras claras para o discurso de ódio, para enfrentar, também coletivamente, os mecanismos que tanto o fazem crescer em momentos de crise.
Thaís Pinhata é advogada Criminalista. Doutoranda e Mestre em Direito pela Universidade de São Paulo. Pesquisadoras do Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ.
Em livro de 1993, Robert Kurz analisava: direita radical é filha legítima da democracia. Mas a que se fortalece agora é distinta da que houve no Entreguerras: reacionária e passadista, já é fenômeno da crise estrutural do capitalismo
Sobre o livro A democracia devora seus filhos¹, de Robert Kurz
Lançado em 1993 como um longo artigo, A democracia devora seus filhos [trad. Daniel Cunha] antecipa em muitos aspectos o debate atual sobre o radicalismo de direita e a “morte da democracia”. A persistência do debate é um sintoma importante. Se por todos os lados se afirma que as “instituições democráticas estão em funcionamento”, então por que o fascismo volta à pauta nos meios de comunicação, nas discussões intelectuais e nas manifestações de rua?
Uma resposta imediata é a que entende o fascismo como uma ideologia autoritária sempre à espreita, uma ameaça à sociedade que ganha fôlego toda vez que são acentuadas as tensões e fragilidades sociais. Os liberais tendem a avaliar o fascismo como um risco que se manifesta quando a vigilância democrática é afrouxada – as regrinhas de Umberto Eco para a identificação do comportamento fascista oferecem, assim, um protocolo para “soar o alarme”. O ponto fraco dessas interpretações é que elas fixam o fascismo como um impulso antissocial geral desprovido de conteúdo histórico, algo completamente externo às instituições e, muitas vezes, parte de uma instintiva natureza humana violenta.
Se a “democracia amadureceu”, perguntamos, seguindo Kurz, então como explicar que três décadas de “democratização” no Brasil tenham conduzido a extrema direita ao poder; que o Leste Europeu, depois de três décadas de “choque democrático”, agora se oriente para o radicalismo de direita? Talvez seja possível colocar tudo isso na conta do déficit democrático desses países. Mas, então, como explicar a ascensão da extrema direita nas instituições parlamentares francesas e inglesas, a proliferação dos grupos neonazistas na Alemanha e que a maior nação democrática do mundo tenha levado ao poder um filho da KKK que trata supremacistas brancos como “very fine people”?
Outra linha de interpretação abordou o fascismo não como algo exterior, mas parte integrante da sociedade capitalista. Para Adorno e Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento, o fascismo é o outro lado da racionalidade moderna, como uma força inseparável de uma sociedade que maneja meios técnicos avançados, mas permanece inconsciente em relações às determinações básicas da “gigantesca maquinaria econômica que não dá folga a ninguém”. Esse mecanismo converte a dominação em uma adesão inconsciente de todos. A comparação entre o Terceiro Reich e a Hollywood não era mera estratégia polêmica, mas resultado da reflexão sobre a técnica transformada em autoconservação individual em uma sociedade massificada: sob a forma individualizada ou do “povo” (Volk), a tendência era uma identificação geral com as “potências monstruosas” inauguradas pela produção em série, que culminou na industrialização da morte nos campos de extermínio.
O que se ganhou em enquadramento social – nas palavras famosas de Horkheimer, “quem não quer falar de capitalismo também deve silenciar sobre o fascismo” – foi o que se perdeu em historicidade do fenômeno fascista. A abordagem da “Escola de Frankfurt” também interpretou o fascismo como uma ameaça sempre latente, ainda que identificasse os vínculos íntimos da massificação promovida pelo mercado e a produção cultural industrializada com o totalitarismo.
Essa indeterminação histórica é o ponto de partida de Robert Kurz para discutir a relação entre fascismo e capitalismo. Em sua análise, o fascismo histórico aparece como um processo de gestação da democracia. A oposição entre fascismo e democracia erra porque apreende momentos ou etapas distintas de um mesmo processo histórico, manejando categorias abstratas (democracia, ditadura, liberdade) sem a sua respectiva moldura temporal. O fascismo foi um fenômeno típico da modernização capitalista em países retardatários como a Itália e a Alemanha, muito diferente de nações onde as travas das sociedades agrárias já tinham sido superadas (França, Inglaterra) ou nunca existiram (EUA). Estes últimos estavam à frente no processo de construção da universalidade do mercado mundial por meios de instituições políticas que levavam progressivamente à forma livre e individual do cidadão e do consumidor; mas onde o desenvolvimento industrial avançava se batendo com as heranças estamentais foi preciso uma força violenta e destrutiva que libertasse as potências institucionais da democracia de mercado. Para Kurz, esse é o vínculo íntimo do fascismo com a democracia: a violência e terror do fascismo e do nacional-socialismo foram as dores do parto do nascimento da democracia em nações até então atrasadas no mercado mundial e que, no entanto, estavam já em concorrência direta com as potências capitalistas da industrialização clássica: “dessa perspectiva histórico-genética, o nacional-socialismo surge como momento específico do processo de construção da democracia moderna da economia de mercado, como um de seus estágios preparatórios e de desenvolvimento, e a crise de então (guerra mundial e crise econômica) como a maior de suas crises de desenvolvimento” (p. 45).
É claro que essa formula fere o ouvido sensível dos democratas ilustrados, que não podem admitir que sua forma ideal e mais avançada de convivência política tenha se desenvolvido por meio do fascismo histórico, que serviu como instrumento de imposição da “socialização pelo valor”, isto é, das formas da mercadoria, do dinheiro e do capital. Mas a formulação de Kurz tem ainda outro ângulo que a torna extremamente atual para explicar a ascensão da extrema-direita no seio das democracias ocidentais: o novo radicalismo de direita não tem mais a ver com o fascismo em sua manifestação histórica no Entreguerras, a não ser em termos simbólicos e ideológicos secundários; é um fenômeno não mais de ascensão, mas de dissolução da democracia de mercado. Como momento específico de um continuum que aplainou o terreno para o desenvolvimento da democracia em países de modernização retardatária, o fascismo e o nacional-socialismo não podem se repetir historicamente: “A máquina mortal nacional-socialista (…) era hipermoderna e orientada para o futuro” (p. 39). Por outro lado, a irrupção generalizada de gangues raivosas de direita, skinheads, milícias, supremacistas brancos e neonazis são fenômenos próprios da desagregação da economia capitalista a partir da década de 1970 e que atingiu em um primeiro momento os países da periferia ou da semi-periferia. A explosão do extremismo de direita no centro do capitalismo corresponde, assim, ao aprofundamento da crise estrutural do capitalismo. Esse argumento Kurz já havia indicado em O colapso da modernização (1991), onde apontava que o colapso do socialismo de Estado era apenas o início da crise geral do sistema capitalista. O tom polêmico permanece agora: “o nervo da consciência democrática é atingido” quando Kurz sustenta que o novo radicalismo de direita é filho legítimo da democracia de mercado, não uma excrescência. É por isso que “toda democracia produz como reação imanente ao fim do processo de modernização, com regularidade lógica, o novo radicalismo de direita em qualquer de suas variações” (p. 34).
Todos os variados grupos e expressões “neofascistas” não passam de sintomas da derrocada do mercado mundial que levou à produção tecnológica ao seu mais alto grau e agora expulsa gradativamente a força de trabalho, potencializando as tensões sociais, fazendo vazar ressentimentos étnicos e nacionais e levando à guerra civil difusa nas ruas. Não poderíamos esperar outra coisa de indivíduos que internalizaram as coerções da rentabilidade capitalista, sentem e ouvem por todos os lados os chamados à concorrência. O cidadão aferrado à defesa democrática das liberdades econômicas agora tem de conviver com seu irmão “neofascista” que quer se impor no mesmo campo da concorrência usando, para isso, de todas as armas possíveis, incluindo as armas de fogo. A diferença dessas hordas milicianas e mafiosas em relação ao fascismo histórico, segundo Kurz, é que elas não têm mais qualquer capacidade de formar um projeto social e político abrangente, dado que também a democracia de mercado cumpriu seu papel histórico e a individualização foi levada ao extremo. O novo radicalismo de direita não deixa de mostrar sua verdade histórica ao erguer bandeiras monarquistas, faixas com símbolos cruzados ou suásticas: sua inclinação é regressiva e atesta que vivemos em uma sociedade sem futuro.
[1] A democracia devora seus filhos. Robert Kurz. Rio de Janeiro: Editora Consequência, 2020, 172 pp.
Avanço do virtual, agora mais intenso, reforça a naturalização da vida: a ilusão de que o que ocorre é necessário e inevitável. Mas arte e técnica podem mostrar as entranhas da condição social e o mundo como construção precária e transformável
Publicado 09/09/2020 às 20:34 - Atualizado 09/09/2020 às 20:56
Por Artur de Vargas Giorgi, na Revista Cult, parceira editorial de Outras Palavras
MAIS: > Este texto é parte da edição de setembro da Revista Cult, que tem como destaque o Dossiê Walter Benjamim — Entre Fronteiras . Consulte o índice e ou assine. Quem contribui Outras Palavras, a partir de R$ 60 mensais, recebe gratuitamente uma assinatura digital
1. No ano de 1938, Walter Benjamin visita pela terceira vez o amigo Bertolt Brecht, que então vivia exilado em Svendborg, Dinamarca, um dos muitos lugares por onde o dramaturgo alemão passaria ao longo dos seus quinze anos de desterro, transitando entre a hospitalidade e a hostilidade.
Benjamin em breve seria, como sabemos, o autor das teses “Sobre o conceito de história”, últimos e incontornáveis escritos antes da sua opção pelo suicídio, em 1940, como forma de escapar da violência da Gestapo hitlerista. Não obstante, naquele ano de 1938, mais precisamente em 25 de agosto, o que o filósofo anota em seu diário íntimo é algo muito conciso, em certo sentido, algo mínimo.
Nessas páginas, onde Benjamin registra os debates, os confrontos, as partidas de xadrez que, ao longo dos dias, mantém com Brecht, encontramos lapidada, com efeito, em pouquíssimas palavras, “uma máxima brechtiana”; máxima que propõe o seguinte: “não partir do antigo bom, mas do novo ruim” (em Ensaios sobre Brecht).
Em tamanha concisão, hoje nada seria mais preciso e urgente. É como se fôssemos tomados por um eco do passado dirigido às emergências do nosso presente. Quer dizer, somos interpelados por uma exigência cifrada há mais de 80 anos, sob a ameaça do nazifascismo, exigência que permanece neste nosso presente destemperado e pungente, ameaçado pelas formas contemporâneas do autoritarismo.
2. O novo ruim: eis de onde devemos partir, para que não seja normalizada, sem mais, a catástrofe do “novo normal”. Esta seria a posição crítica a ser adotada nestes tempos que, imagino, teriam colocado Benjamin diante de impasses inauditos a respeito da amplitude assumida pela reprodutibilidade técnica; tempos que, nesse sentido, ainda, parecem pedir o reforço não só de nossas capacidades de compreensão das técnicas, mas, sobretudo, de um gesto caro a seu amigo e parceiro de xadrez: um gesto que muitas vezes é chamado de distanciamento, ou estranhamento.
Sabemos que Benjamin não recuava perante as mais avançadas tecnologias do seu tempo. Além de postular que um posicionamento político e estético antifascista deveria ser alcançado não com o rechaço, mas sim, justamente, por meio das técnicas modernas de reprodução (principalmente o cinema), Benjamin foi, ele mesmo, entre o final dos anos 1920 e o início da década de 1930, um speaker em rádios alemãs, falando a crianças e jovens sobre assuntos nada distantes dos seus ensaios mais exigentes.
Brecht não destoava dessa posição em seu pensamento crítico sobre o teatro. Palavras de Benjamin: “As formas do teatro épico correspondem às novas formas técnicas, o cinema e o rádio. Ele está situado no ponto mais alto da técnica”.
Com efeito, o dramaturgo propunha que a superação da identidade emocional entre o público e as ações encenadas, ou ainda, que a interrupção das prescrições miméticas e catárticas do teatro clássico “naturalista” deveria ser alcançada não fora ou para além do teatro, mas pela mobilização radical dos seus próprios recursos e artifícios. Assim, o teatro deveria interpelar o público ao expor o mundo humano como uma construção contingente, portanto passível de transformação, ao mesmo tempo em que deveria se expor, ele mesmo, como construto, como técnica de exposição.
3. O título de um poema de Brecht sintetiza bem essa operação – “O mostrar tem que ser mostrado” – e seus versos dão contorno ao programa do teatro épico:
[…] Eis o exercício: antes de mostrarem como Alguém comete traição, ou é tomado pelo ciúme Ou conclui um negócio, lancem um olhar À plateia, como se quisessem dizer: Agora prestem atenção, agora ele trai, e o faz deste modo. Assim ele fica quando o ciúme o toma, assim ele age Quando faz negócio. Desta maneira O seu mostrar conservará a atitude de mostrar De pôr a nu o já disposto, de concluir De sempre prosseguir.[…]
Assim como Benjamin, Brecht sabia que na modernidade o problema da arte confina com o problema da política porque, para ambas, a exposição mediada pelas técnicas é decisiva. Obras de arte, artistas, públicos e políticos – todos compartilham, desde então, os mesmos espaços de exposição; todos se medem, cada vez mais, com as técnicas de reprodução, isto é, com as mediações que montam e desmontam, que modulam, compõem e recompõem o mundo que eles compartilham e disputam.
E se, a priori, o teatro pareceria escapar a esse destino, pelo fato de se valer de atores que confrontam o público diretamente e de cenas – por assim dizer – sempre originárias, desempenhadas sem edição, o que o teatro épico de Brecht propõe se aproxima, sim, da transformação causada pelo cinema na exposição de atores e políticos, igualmente. Pois vale para o teatro épico o que Benjamin escreveu a respeito da técnica cinematográfica: “Seu objetivo é tornar ‘mostráveis’, sob certas condições sociais, determinadas ações de modo que todos possam controlá-las e compreendê-las”.
Ao romper com o ilusionismo da cena, com seu andamento supostamente natural, Brecht faz intervir o teatral, vale dizer, o caráter artificial, não só do teatro, mas também das condições sociais, dessa nossa “realidade”, que tantas vezes é vista como necessária e inegociável. E com isso seu teatro afirma que, na arte como na política – nos modos da representação e nos meios da representatividade –, se o objetivo é a transformação da vida em comum, é preciso, então, não apenas mostrar; na mesma medida é necessário mostrar que se mostra, mostrar-se. Expor as formas de exposição: o que está em jogo com esse gesto é, não a reprodução do que já é vivido, mas a produção de formas de vida ainda possíveis.
4. As fundamentais medidas de preservação da vida – de toda vida – deveriam ser, estas sim, absolutamente inegociáveis. Mas, para muito além dessa conduta de fato ética, o chamado “novo normal”, entre outros aspectos muito problemáticos, apresenta-se, notadamente, como normalização da vida virtual. E se tampouco em nossos dias as respostas devem ser buscadas na recusa das técnicas mais avançadas, essa normalização definitivamente é algo que deveria ser submetido a uma crítica severa e constante.
Respostas políticas e estéticas afirmativas de uma vida comunitária somente serão possíveis com a exposição e o exame da realidade produzida pelas técnicas. Nesse sentido, é preciso mostrar que, em geral, a atual naturalização da virtualidade parece não reforçar a compreensão da contingência do mundo humano, ou seja, da possibilidade de transformá-lo. Ao contrário, parece cristalizar uma suposta certeza, sem dúvida arrogante: a certeza de que tudo que se dá é necessário, obrigatório, inevitável. Trata-se de uma lógica conservadora que, não raro, é perversamente associada ao discurso do progresso, do avanço, da evolução etc.
Afinal, conhecemos bem o elogio dos fluxos desimpedidos; o elogio da comunidade global sem hierarquias; da revolução dos conteúdos, dos afetos e das identidades; o elogio das novas formas de intimidade; do acesso e da autonomia usuária a qualquer hora e da entrega em casa just in time. Conhecemos, em suma, essa forma de apropriação que capitaliza a energia transformadora do mundo e limita nossas ações à escolha entre produtos e serviços (zoom, meet, facebook, instagram…), evitando assim as questões mais urgentes, que na verdade são as mais básicas.
O mundo virtual não reforça formas de exclusão? Que tipo de trabalho o sustenta? Quem gerencia as informações das plataformas e redes sociais? O que fazem com esses dados? A vida nos espaços públicos se intensifica? As demandas coletivas se reforçam? Essa estranha intimidade distanciada e exposta produz novos sujeitos? Em que medida essas formas de subjetivação nos interessam? É um problema a exposição da intimidade de muitos gerar lucro para pouquíssimos? E, para além da exposição, a virtualidade de fato intervém nas partilhas do mundo? Ela favorece, efetivamente, a produção de novas condições sociais, de realidades alternativas mais igualitárias?
As respostas devem ser matizadas: às vezes sim, às vezes não, em outras vezes, parcialmente. Seja como for, são perguntas como essas que, a meu ver, devem orientar, por exemplo, o debate sobre o uso na educação – e sobretudo na educação pública – de plataformas privadas ligadas ao mercado do chamado big data, assim como devem orientar a discussão sobre o fato de, hoje, cada usuário online ser “automaticamente” um produtor e, ao mesmo tempo, um consumidor de conteúdos.
Esse trabalho imaterial, segundo Peter Pál Pelbart, é uma das definições do mundo virtual. E responder criticamente a ele não é uma tarefa simples, já que através desses fluxos virtuais formatamos nossos gostos, condutas, sonhos, opiniões – nossos afetos. Como escreveu o autor em A vertigem por um fio, produzimos e consumimos “cada vez mais maneiras de ver e de sentir, de pensar e de perceber, de morar e de vestir, ou seja, formas de vida”. Daí a complexidade da situação.
5. Apesar das diferenças sobre os modos do posicionamento político-partidário (bem sinalizadas em Quando as imagens tomam posição, de Georges Didi-Huberman), Benjamin e Brecht demarcaram em torno das técnicas de reprodução e exposição o ponto da crise, da crítica e da criação.
No teatro épico, o público deixa de ser um espectador: ele é chamado a atuar, pois deve avaliar e tomar decisões sobre o que é mostrado. O homem e a sociedade são confrontados pela investigação que os afasta do conhecido, do que seria “natural”. Nada mais próximo de Benjamin, que afirmava que através do cinema a realidade podia ser vista como uma segunda natureza: produzida como uma flor azul no jardim da técnica.
Claro, somos desde o início criaturas prometeicas, ou seja, fomos e somos algo como deuses, mas com próteses, como sugeriu Freud em O mal-estar na civilização. Por isso, diante desse nosso mal-estar, diante do novo ruim, talvez a estratégia seja reforçar a exposição da nossa natureza de segunda ordem: nossa natureza técnica.
O mundo virtual não deixa de ser um imenso palco, uma cena montada, produtora de inúmeros efeitos reais. Não podemos naturalizar essa condição. Se não conseguirmos expor os artifícios que criamos e que também nos criam, não conseguiremos criticá-los, compreendê-los e controlá-los.
Benjamin escreveu que, no teatro de Brecht, o palco ainda ocupa uma posição elevada. Mas com uma diferença fundamental: em sua elevação, o palco já não tem nada de sublime, mágico ou extático. O que nele se desempenha é o estranhamento do mundo que até agora construímos. Quem sabe desse estranhamento resulte uma tomada de posição que coincida com a interrupção dos acontecimentos e com a sua leitura a contrapelo. Afinal, esse mundo estranho é o mundo ordinário, o nosso mundo humano de todos os dias. Um mundo de próteses e técnicas, artes e artifícios que é, sim, contingente. Modificar esse mundo profundamente é o papel dos atores de hoje.
Todos os meses muitos sites neonazistas surgem na internet brasileira, mas recentemente houve um crescimento abrupto na atividade neonazista na rede. E maio de 2020, os neonazistas brasileiros criaram cinco vezes mais páginas que no mesmo período do ano anterior.
Ao longo da história, políticos de extrema-direita utilizaram com grande perspicácia os principais meios de comunicação de massa disponíveis em suas épocas. Nos anos 1930 e 1940, Adolf Hitler, aconselhado pelo ministro da Propaganda Josef Goebbels, recorreu às ondas radiofônicas para difundir em larga escala o seu discurso de ódio e unificar a população em torno da Ideologia nazista
Ao longo da história, políticos de extrema-direita utilizaram com grande perspicácia os principais meios de comunicação de massa disponíveis em suas épocas. Nos anos 1930 e 1940, Adolf Hitler, aconselhado pelo ministro da Propaganda Josef Goebbels, recorreu às ondas radiofônicas para difundir em larga escala o seu discurso de ódio e unificar a população em torno da Ideologia nazista. Não obstante, todos os funcionários de rádio na Alemanha foram obrigados a se filiar à Câmara de Cultura do Reich. O resultado desse projeto macabro foi o maior conflito armado de todos os tempos.
Na Itália fascista, o “Duce” Benito Mussolini controlava os meios de comunicação de massa, por onde divulgava sua doutrina e filtrava todas as informações disseminadas no país. Qualquer crítica ao governo era aniquilada mediante uso da violência e do terror.
Por sua vez, Getúlio Vargas – cuja primeira passagem pelo Catete foi marcada pelo forte caráter autoritário, flertando, inclusive, com ideias nazi-fascistas – também percebeu que o rádio poderia ser utilizado tanto para fazer propaganda de seu governo quanto para a difusão de seu projeto de forjar uma cultura nacional em detrimento das identidades regionais, até então predominantes. Para tanto, foi criado o programa A Hora do Brasil e incentivadas manifestações culturais como o chamado samba-exaltação, representado pela composição Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Assim, entrava em cena o velho mito fundacional da natureza brasileira privilegiada, já descrito na carta de Pero Vaz de Caminha, na letra do Hino Nacional e no movimento modernista.
Vargas também foi responsável por inaugurar uma prática que, até os dias de hoje, é bastante corriqueira na vida institucional brasileira: distribuir concessões radiofônicas em troca de apoio político.
Na segunda metade do século XX, paulatinamente a televisão substituiu o rádio como meio de comunicação mais popular. Portanto, a imagem passou a ser mais importante do que a capacidade discursiva. Nesse sentido, a recém-criada Rede Globo se transformou em uma espécie de canal oficial da ditadura militar. Na tela da emissora da família Marinho, eram exibidos diariamente os “feitos” dos governos militares que (supostamente) elevariam o Brasil ao status de grande potência. Por outro lado, as atrocidades cometidas durante os mandatos dos generais presidentes eram estrategicamente ocultadas nos principais telejornais da Rede Globo. Uma frase atribuída a Emílio Garrastazu Médici é emblemática para ilustrar essa questão: “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto TV porque no noticiário da Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz. É como tomar um calmante após um dia de trabalho”.
Na vizinha Argentina, a ditadura militar usou a publicidade televisiva para tentar convencer a população a comprar produtos importados, sob o argumento de que seriam melhores do que os seus similares nacionais. Contradições de regimes que se consideravam nacionalistas, porém eram completamente submissos aos ditames do capital estrangeiro.
Já na última década, a rede mundial de computadores configurou-se como o principal meio de comunicação da extrema-direita. Durante a eleição presidencial estadunidense, o republicano Donald Trump utilizou sistematicamente o Twitter para denunciar determinadas coberturas midiáticas que ele considerava serem tendenciosamente produzidas para difamar a sua imagem. Desse modo, as notícias negativas sobre a sua pessoa em jornais impressos, revistas e emissoras de televisão eram rotuladas por Donald Trump como fake news.
No entanto, apesar de criticar as manipulações midiáticas, o próprio Trump, enquanto aspirante a presidente e, posteriormente, já eleito, utilizou suas redes sociais para divulgar informações inverídicas. Durante a campanha de 2016, uma pesquisa da empresa de mídia de notícias BuzzFeed detectou que 78% das declarações factuais do candidato democrata eram falsas.
Segundo um relatório publicado no The Washington Post, em pouco mais de oitocentos dias como presidente, Trump acumulava mais de dez mil declarações “falsas ou enganosas”. Assim, a extrema-direita não precisa mais recorrer aos grandes barões midiáticos para se dirigir ao grande público e divulgar as suas próprias verdades.
No Brasil, o nome da extrema-direita que mais soube tirar proveito do potencial político da internet foi, sem sombra de dúvidas, o atual presidente, Jair Bolsonaro. Há alguns anos, o então deputado federal pelo Rio de Janeiro percebeu que, diferentemente da mídia tradicional, onde era somente motivo de chacota em programas popularescos, as redes sociais ofereciam um terreno fértil para defender suas ideias misóginas, racistas e homofóbicas, angariando assim todos os obscurantismos que saíram do armário após as jornadas de junho de 2013.
Com essa estratégia combativa, Bolsonaro foi o nome que melhor canalizou para si o ódio ao PT incentivado pelas elites e pela mídia hegemônica. O parlamentar do baixo clero daria lugar ao “mito”, credenciado a disputar a eleição presidencial de 2018.
Estrategicamente ausente dos debates televisivos entre presidenciáveis, Bolsonaro teve nas redes sociais seu principal veículo de campanha, onde seus fiéis militantes se encarregaram de replicar várias fake news contra o adversário do segundo turno, o petista Fernando Haddad. Desde então, o tempo de exposição no horário político na TV deixou de ser um fator importante na corrida presidencial.
Atualmente, criticado na mídia por suas posturas irresponsáveis frente à pandemia do coronavírus, desgastado pela demissão de Mandetta e cada vez mais impopular, resta a Bolsonaro manter sua base ativa no espaço virtual (tanto os humanos quanto os robôs). Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP), divulgado pelo jornal Valor Econômico, demonstrou que, nos dias anteriores às últimas manifestações de rua favoráveis ao governo federal, robôs foram responsáveis por 55% das publicações positivas em relação a Jair Bolsonaro no Twitter.
Após monitorar grupos bolsonaristas no WhatsApp e no Facebook, uma equipe do portal UOL constatou que, a cada ação de Bolsonaro contra o isolamento para conter a pandemia de covid-19, milícias digitais compartilhavam fake news científicas, teorias conspiratórias e posicionamentos negacionistas sobre o coronavírus com o objetivo de corroborar as falas do presidente.
“Ganharam bastante espaço nas redes bolsonaristas aquelas [teorias conspiratórias] sobre o ‘vírus chinês’ criado para o país oriental desestabilizar o mandatário brasileiro e, assim, conseguir ‘comprar o Brasil todo a preço de banana’. Revela-se ainda que os governadores brasileiros querem quebrar a economia para ganhar as eleições de 2022 contra o presidente. Até a ‘farsa italiana’ – onde as quase mil mortes por dia não passam de uma mentira da imprensa – e teorias de que a culpa é do PT encontram eco no ambiente virtual entre os apoiadores do presidente. […] Nos grupos monitorados, ao contrário da imprensa em geral e da opinião de médicos, cientistas, OMS (Organização Mundial de Saúde), os principais líderes mundiais e até o Twitter, só Bolsonaro está certo. Sempre que o presidente faz alguma declaração sobre a pandemia, horas depois aparecem nos grupos monitorados notícias falsas, memes e mensagens de apoio”, conclui a equipe do UOL.
Evidentemente, seria equivocado reduzir a ascensão da extrema-direita ao uso dos diferentes meios de comunicação, à revelia de contextos econômicos, políticos e sociais. Conforme experiências pretéritas nos mostraram, cenários de instabilidade social e ausência de perspectivas para o futuro abrem perigosas brechas para soluções autoritárias. No entanto, é difícil analisar o nazismo sem a propaganda ideológica de massa, a ditadura militar sem o conluio da Rede Globo e o êxito do bolsonarismo sem as redes sociais. Portanto, podemos afirmar, sem exagero, que, independentemente da época, os veículos midiáticos são importantes atores e instrumentos políticos; tanto no aspecto positivo, ao permitir que determinados setores populares se mobilizem, quanto no sentido negativo, ao ecoar as características mais obscuras da mente humana, como nos casos abordados neste artigo.
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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Autor dos livros A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes (parceria com Vicente de Paula Leão) e 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático, ambos pela editora CRV.