A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal adiou o julgamento de um pedido de habeas corpusdo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que estava previsto para esta terça-feira, 25 de junho. Seria a primeira vez que ministros da Corte analisariam o pedido de Lula em meio à crise provocada pela publicação, pelo The Intercept, de mensagens trocadas entre o então juiz Sérgio Moro e os acusadores do petista. A defesa do ex-presidente, preso há mais de um ano em Curitiba condenado por corrupção, havia pedido expressamente que os diálogos fossem incluídos para reforçar seus argumentos de que Moro havia sido parcial e que, por isso, seu julgamento deveria ser anulado.
A decisão de adiar a análise do caso de Lula foi de Gilmar Mendes, o ministro do Supremo que havia meses atrás pedido vistas do processo, ou seja, pediu mais tempo para analisar o que, na prática, lhe dava poder para decidir quando o julgamento seria retomado. Mendes havia recolocado o tema em pauta há duas semanas, já após a eclosão do escândalo do The Intercept, mas nesta segunda voltou atrás. No final do dia, a ministra Cármen Lúcia, presidenta da Segunda Turma a partir desta terça, divulgou nota para rechaçar a informação de que teria partido dela o adiamento ou mesmo a previsão de que o caso ficaria em último na pauta desta terça, numa guerra de versões reveladora da tensão no tribunal a respeito. A defesa do petista reforçou a cobrança para que o caso seja julgado nesta terça, e, de acordo com as algumas interpretações, a magistrada, com sua prerrogativa de presidenta do colegiado, poderia retomar o caso ainda na sessão nesta tarde.
A incerteza e as idas e vindas em torno do tema são emblemáticas daquilo que Mauricio Dieter, professor de Criminologia e Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP), chama de “autoritarismo” na pauta do Supremo.
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Pergunta. Ao que tudo indica a Segunda Turma vai adiar para o segundo semestre o julgamento do habeas corpusdo ex-presidente. Como enxerga? O que está por trás? Querem ganhar tempo?
Resposta. O controle da pauta no STF é o que há de mais autoritário na Corte. Autoritário exatamente no sentido de discricionariedade sem limite. Isso mostra, entre outras coisas, a enorme distância que existe entre os ministros, incapazes de definirem uma agenda consensual para os julgamentos mais importantes do país, subordinando esses assuntos a critérios pessoais, de mera conveniência. É o tipo de disputa de micropoder local, que alguém nunca esperaria em uma Corte que, em tese, deveria ser formada por pessoas com notório saber e reputação ilibada. A pior manifestação do STF nesses casos é o silêncio provocado pelo adiamento, a renúncia em julgar diz muito sobre o lugar que, infelizmente, o STF ocupa hoje. Quanto aos motivos, só resta a especulação. E o que vem à mente não é bom, não dignifica a Corte, porque a única razão para esse adiamento parece ser o receio de não ter as próprias decisões respeitadas.
P. O que se deve esperar do Supremo diante das revelações feitas pelo The Intercept Brasil?
R. Do ponto de vista técnico-jurídico, os processos julgados por juiz que está em conluio com os acusadores são absolutamente nulos. Não há a menor dúvida quanto a isso, conforme as mais elementares lições de direito constitucional, penal e processual penal. Qualquer calouro em direito sabe disso. Entretanto, em matéria penal, o STF se comporta hoje muito mais como um tribunal político; logo, não é coerente tentar antecipar as decisões sob a lógica jurídica, mas dos interesses políticos em disputa.
"Foi também a partir desse ano (2013) que os intervencionistas passaram a ver em Bolsonaro a solução para os seus anseios, uma vez que um golpe militar nos moldes tradicionais, como o de 1964, estava longe de acontecer. A saída seria alçar alguém pelas vias democráticas, e o ex-capitão parecia se encaixar perfeitamente no papel."
NUMA DAS TARDES mais quentes do ano, em uma cafeteria da Asa Norte, em Brasília, Dom Werneck pediu a segunda dose de vodka com muito gelo. Ele é um dos líderes do movimento intervencionista, que quer a volta da ditadura militar no Brasil. Em quase três horas de conversa, ele explicou os motivos que fizeram com que boa parte dos militaristas decidisse apoiar um candidato – Jair Bolsonaro – e depois passasse a conspirar abertamente contra ele.
Em uma incursão a grupos e canais militaristas pela internet, vi que o que ele falava é endossado por outros representantes, e que o grupo intervencionista tem mais poder de fogo do que se supunha quando começou a aparecer, a partir de 2013.
Ele tinha carisma, boa lábia e nenhum pudor em defender o regime militar.
Foi também a partir desse ano que os intervencionistas passaram a ver em Bolsonaro a solução para os seus anseios, uma vez que um golpe militar nos moldes tradicionais, como o de 1964, estava longe de acontecer. A saída seria alçar alguém pelas vias democráticas, e o ex-capitão parecia se encaixar perfeitamente no papel. Ele tinha carisma, boa lábia e nenhum pudor em defender o regime militar.
O agora presidente, inclusive, falava abertamente sobre “acionar o artigo 142″ quando chegasse ao poder. O artigo em questão é sempre evocado por intervencionistas como a prerrogativa constitucional para um golpe militar, ao apontar que caberia às Forças Armadas a garantia da “lei e da ordem” no país.
Werneck tinha isso em mente quando, a partir de 2013, se aproximou do ex-capitão. Ele reivindica a autoria de atos que ajudaram a tornar Bolsonaro conhecido pelo grande público e alega ter sido o autor da ideia de levar militantes para recepcionar o ex-deputado federal no aeroporto de Brasília semanalmente e publicar vídeos de Bolsonaro nos braços do povo – o que se tornou uma das marcas da sua caminhada até o Planalto. Também criou o grupo “Bolsonarianistas” no WhatsApp, que teve mais de 80 subgrupos pelo país – um embrião do que viria a ocorrer na campanha eleitoral.
“Gosto de quebrar estereótipos”, diz Werneck ao comentar que usa barba comprida e camisa jeans “como um comunista”.
Foto: Reprodução/Facebook
Como uma espécie de “assessor informal”, Werneck seguia Bolsonaro pela Câmara dos Deputados, fazendo entrevistas “exclusivas” e transmitindo os discursos do parlamentar em lives em suas páginas – hoje ele tem duas no YouTube, uma com 76 mil assinantes e, a outra, 47 mil; além de 55 mil fãs no Facebook. Em setembro de 2016, ele teria avisado o então deputado sobre uma comissão com Maria do Rosário, pouco após o incidente em que ele disse que “não a estupraria porque ela não merece”. Bolsonaro foi ao local, bateu boca com meio mundo e virou notícia. Werneck registrou ao vivo.
Os intervencionistas se incomodam com a receptividade de Bolsonaro à ideologia liberal e a subserviência a países como EUA e Israel.
A estratégia com as ações era dar visibilidade para o ex-deputado. Até então o ex-capitão reformado era um parlamentar apagado, que nunca relatou projetos relevantes, presidiu comissões ou liderou bancadas, e que somente ganhava a luz dos holofotes por causa das polêmicas em que se envolvia.
Werneck se apresenta em vídeoscomo um dos organizadores das greves de caminhoneiros, categoria que se aproxima cada vez mais dos intervencionistas. Nos atos, principalmente na paralisação de 2018, não foi raro ver caminhões com faixas pedindo socorro das Forças Armadas e manifestando apoio a Bolsonaro – que chegou a apoiar a greve e depois recuou – como de praxe.
Fotos: Reprodução/Facebook
Relação esfria
Mesmo agindo como cabo eleitoral, Werneck diz que sempre teve um pé atrás com Bolsonaro. “Todo mundo sabia que ele era um mau militar, e isso pega mal no meio”, afirma. Ele diz que dava “apoio crítico” ao deputado apenas para alçar ao poder uma pessoa minimamente ligada ao militarismo.
Os intervencionistas também se incomodavam com a receptividade de Bolsonaro à ideologia liberal, com a aproximação com o atual ministro da Economia, Paulo Guedes, e a frequente subserviência a outros países, principalmente Estados Unidos e Israel. Essas características, segundo Werneck, demonstravam uma aproximação com o “establishment” e conflitavam com o nacionalismo pregado pelo meio militar. Aos poucos, ficou difícil não enxergar o ex-deputado como um “traidor da causa”.
‘A gente não concorda com nada do que a Maria do Rosário prega, mas pelo menos ela é fiel à sua ideologia.’
“Na época, Bolsonaro tinha um discurso mais nacionalista e reconhecia que no atual modelo republicano seria impossível colocar o Brasil nos trilhos. Depois, ele foi para o lado liberal. Isso me irritou profundamente. Eu e muitos intervencionistas rompemos com ele e voltamos nossos esforços para uma insurgência militar”, afirma Ricardo Dex, intervencionista que fez parte de um dos grupos que costumava recepcionar o ex-deputado no aeroporto de São Paulo. Apesar de concordar com Werneck nos motivos que levaram à descrença com Bolsonaro, Dex acredita que a situação não será resolvida com Mourão na presidência, ja que o vice seguiria a mesma linha do presidente. Para ele, a saída seria haver, de fato, um golpe militar.
A falta de coerência no discurso de Bolsonaro é o ponto mais criticado. Nessa lógica, até uma das inimigas do ex-deputado teria mais valor que ele. “A gente não concorda com nada do que a Maria do Rosário prega, mas pelo menos ela é fiel à sua ideologia, e isso a gente respeita”, alfinetou Priscila Azevedo, esposa de Werneck, também youtuber da causa militar.
Werneck era dono de restaurantes, Azevedo trabalhava em um banco privado. Os dois deixaram os empregos há cerca de seis anos. Hoje, pagam as contas com a venda de produtos militaristas e doações dos seguidores.
Foto: Reprodução/Facebook
O fim
Ainda durante a campanha eleitoral, diz Werneck, a estratégia mudou: se distanciar de Bolsonaro e transformar seu vice, general Hamilton Mourão, em candidato a presidente. O general acabou se tornando vice na chapa bolsonarista e tudo foi por água abaixo.
Os militaristas se dividiram. Werneck e Azevedo passaram a fazer campanha pelo boicote às eleições e para pressionar a Mourão a dar um golpe. Outros grupos continuaram apoiando Bolsonaro, contando que a presença de Mourão na chapa era decisiva.
Como as eleições aconteceram, a esperança se tornou a de que “algo” eventualmente impedisse o cabeça de chapa de se manter na Presidência, de modo que o vice assumisse. Na visão deles, Bolsonaro estaria sendo usado pelo grupo militar apenas para vencer a eleição, por ter bons resultados nas pesquisas eleitorais. O grupo militar que encabeça o governo, formado pela maior presença de militares no primeiro escalãodesde a redemocratização, é quem estaria dando as cartas de verdade.
“Pode ver todas as vezes que o Bolsonaro teve que recuar em tão poucos dias de governo [a nossa conversa ocorre no dia 15 de janeiro]. Ele fala uma coisa e, se o grupo militar não gostar, é obrigado a voltar atrás”, comentou Priscila. Um dos exemplos foi a permissão para os Estados Unidos abrirem uma base militar no país, que foi defendida por Bolsonaro, sofreu grave resistência dos militares do alto escalão e em seguida foi descartada.
“Não vai ter golpe interno. Não precisa. O próprio Bolsonaro vai se destruir”, comentou Werneck. “Ele [Bolsonaro] sabe que as pessoas da Presidência estão usando ele protocolarmente, institucionalmente, para ser o presidente. Ele era o cara que deu arranque, pegou popularidade. Não tinha como colocar outra pessoa pra disputar. Os militares usaram o que tinham. Usaram ele”, disse.
Os intervencionistas
Apesar de se apresentar como Dom Werneck na internet, seu nome verdadeiro é Reginaldo Florêncio Verneque. Ele é autor de transmissões ao vivo pelo Facebook e YouTube com centenas de milhares de visualizações, em que defende qualquer coisa relacionada às Forças Armadas. Tem barba comprida e usa camisa jeans, “como um comunista”, segundo o próprio. “Gosto de quebrar estereótipos”, disse. Sua esposa, Priscila, nos acompanhava no café. Vestia camiseta verde-oliva com adereços que imitavam insígnias militares.
Agora o “grupo de malucos” intervencionistas tem trânsito na Esplanada. E tem como maior representante o vice Mourão.
Werneck admite que, há até pouco tempo, os intervencionistas eram tratados como um balaio de malucos, em que alguns poucos gatos pingados protestavam nas ruas e basicamente ninguém dava bola. O movimento cresceu nos últimos anos, amparado pelos escândalos de corrupção e o sentimento de ódio à política tradicional. O ponto alto veio em 2015, durante os atos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em que até 48% das pessoas disseram apoiar um novo golpe militar, segundo pesquisa da Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos, em parceria com a Universidade de Brasília e apoio da Capes.
O casal coleciona milhares de seguidores e haters pela causa que defende. Apesar de serem os intervencionistas mais conhecidos, e talvez os mais influentes, também são alvos de acusações de se apropriarem do dinheiro de viúvas de militares que sonham com a intervenção. Werneck era dono de restaurantes, Azevedo trabalhava em um banco privado. Os dois deixaram os empregos há cerca de seis anos. Hoje, pagam as contas com a venda de produtos militaristas e doações dos seguidores.
Agora o “grupo de malucos” intervencionistas tem trânsito na Esplanada. E tem como maior representante o vice-presidente, general Hamilton Mourão.
Em vídeos de outros intervencionistas, é flagrante o incômodo com o escândalo de corrupção que envolve Flávio Bolsonaro.
Mourão já defendeu a intervenção militar para “salvar o país” da corrupção – ele perdeu um cargo no Exército e se aposentou por causa dessas declarações. Durante a campanha eleitoral, no ano passado, despertou comichões prazerosos nos militaristas quando falou da possibilidade de um “autogolpe” do presidente, junto às Forças Armadas, na hipótese de anarquia. Hoje, seu discurso é bem mais moderado. Ainda assim, é visto como herói por militares e simpatizantes. Intervencionistas juram de pé junto que são próximos a ele. Werneck foi o único civil convidado para a cerimônia interna que homenageou o general quando passou à reserva.
Apesar de o movimento ser heterogêneo, as opiniões do casal parecem ter respaldo no universo militarista. Em vídeos de outros intervencionistas, é flagrante o incômodo com relação ao possível escândalo de corrupção que envolve o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair, e o motorista Fabrício Queiroz.
Após Mourão defender a intervenção militar em uma palestra, Werneck mandou fazer um banner com 10 metros de altura em homenagem ao general.
Mourão entra em cena
Quando Mourão apareceu no noticiário nacional, em setembro de 2017, após dizer em uma palestra que poderia haver intervenção militar no caso de o Judiciário “não solucionar o problema político”, Werneck viu a notícia e foi para uma gráfica do Gama, cidade do Distrito Federal onde mora, mandar fazer um banner com 10 metros de altura com uma foto de Mourão e a frase “Obrigado militares por nos salvar. Obrigado General Mourão”. Levou o banner para a frente do Congresso e o içou.
Passou a acompanhar de perto o general e por isso foi chamado para a despedida dele, que registrou em um vídeo de 25 minutos em seu canal. Por causa dessa proximidade, Werneck foi procurado no começo do ano passado por Levy Fidélix, que queria levar o general para a política, filiando-o ao PRTB.
O intervencionista gravou dois vídeos com Fidélix. Em um deles, o presidente do PRTB aparece comicamente vestido com roupas militares em uma loja de produtos militares dizendo que está “pronto para a guerra” e que é “intervencionista de coração”.
Werneck e Priscila são amigos do general Paulo Assis, que foi comandante de Mourão nas Forças Armadas e já contou ao Intercept como o aconselhou a entrar no mundo da política. O casal estava presente no dia em que o general assinou sua filiação ao partido. Os dois também se filiaram. Depois, tomaram um chope gigante para comemorar.
O casal é próximo de Mourão e esteve presente no dia em que o general assinou sua filiação ao PRTB.
Foto: Reprodução/Facebook
Werneck reclama que Fidélix usou Mourão como ferramenta para garantir ao seu partido a continuidade no mundo político, já que não elegeu nenhum parlamentar este ano – nem ele próprio, que concorreu à Câmara – e, por isso, seria impactado pelas limitações da cláusula de barreira, que impede que partidos sem representantes no Congresso tenham acesso a recursos do fundo partidário e tempo de televisão.
Uma frase que Werneck disse me chamou a atenção. Era que Bolsonaro não sabia lidar com a oposição dos intervencionistas, já que eles não podem ser considerados comunistas ou esquerdistas, como costuma atacar seus inimigos políticos. “Somos de direita, somos conservadores. Somos até mais radicais do que os próprios militares, porque nós queremos que se feche Congresso e Supremo e tenha uma junta militar governando o país”, disse.
“É a tal da mão amiga e braço forte. Nós somos a mão amiga. Eles são o braço forte”.
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HÁ QUATRO ANOS, quando chefiava o Comando Militar do Sul, o general Hamilton Mourão fez uma palestra para oficiais da reserva convocando os presentes para o “despertar de uma luta patriótica”. Um dos slides exibidos continha a frase “mudar é preciso”. O impeachment de Dilma estava na pauta, e o general aproveitou para atacar toda a classe política. Na ocasião, Mourão alertou a tropa: “ainda temos muitos inimigos internos, mas eles se enganam achando que os militares estão desprevenidos”. E ainda lançou um desafio: “Eles que venham!” Poucos dias depois, Mourão organizou um evento em homenagem ao coronel Ustra, o principal torturador da ditadura militar.
O golpismo de Mourão foi punido pelo comandante do Exército Eduardo Villas-Boas que, pressionado pelo então ministro da Defesa Aldo Rebelo (PT) e pelo senador Aloysio Nunes (PSDB), o retirou do comando da tropa e o empurrou para um cargo meramente burocrático.
Foram essas credenciais pouco democráticas que encantaram Bolsonaro, que escolheu o general para ser seu vice-presidente. O presidente chegou a dizer em campanha: “Quero governabilidade. Tenho que ter um vice que trabalha junto comigo e não seja uma peça decorativa”. Bom, hoje o presidente pode dizer que seu vice não é decorativo, mas certamente não pode dizer que trabalha junto com ele.
Desde o fim da campanha, o Mourão golpista deu lugar ao Mourão republicano. E isso tem sido um problema sério para o presidente. Os dois têm discordado em praticamente todos os assuntos. Não é raro o vice aparecer dizendo diametralmente o oposto do presidente. E sempre com muito mais propriedade e categoria.
Quando Bolsonaro estupidamente detonou a China e deixou os chineses ressabiados, Mourão tentou segurar a onda e disse que não podíamos “nos descuidar do relacionamento com o nosso principal parceiro comercial”. Quando Bolsonaro anunciou a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, Mourão retrucou: “é óbvio que a questão terá que ser bem pensada. É uma decisão que não pode ser tomada de afogadilho, de orelhada”. Sobre o aquecimento global, a opinião do general também não sintonizou com os delírios dos Bolsonaro: “não resta dúvida de que ele existe. Não acho que seja uma trama marxista”. Quando Jean Wyllys anunciou a desistência em assumir o cargo na Câmara por causa das ameaças de morte, o presidente comemorou “o grande dia” no Twitter. Já Mourão declarou que a ameaça contra o deputado é um “crime contra a democracia”. Sobre o decreto que facilita a posse de armas no país com a finalidade de melhorar a segurança pública, Mourão afirmou que “não se trata de uma medida de combate à violência”, mas apenas do “cumprimento de uma promessa feita em campanha”.
Enfim, para cada absurdo do presidente, o vice oferece uma dose de sensatez.
Em menos de 30 dias de governo, o vice-presidente Mourão já assumiu a presidência por duas vezes. É curioso notar como o general fica mais à vontade no papel de presidente do que o próprio capitão. Diferentemente de Jair, Mourão domina bem todos os assuntos pertinentes ao governo, fala com desenvoltura, trata bem a imprensa e adversários políticos. O fato é que enquanto Jair Bolsonaro se comporta como um bolsominion enfurecido no WhatsApp, Mourão se comporta como um presidente da República. O ex-capitão não tem capacidade intelectual para atuar fora da bolha de ideologismo barato que Olavo de Carvalho construiu para ele. Funcionou bem durante a campanha, mas agora não mais. Isso ficou ainda mais evidente quando ele usou apenas seis dos 45 minutos que tinha para representar o país no maior fórum econômico do mundo.
Mourão, por outro lado, tem atuado com diplomacia e pragmatismo. Não se vê nem sombra daquele militar golpista que atiçava as tropas contra os políticos em 2015. Já o presidente Bolsonaro ainda se vê preso no olavismo, no papel de cachorrinho fiel de Donald Trump e no crime organizado de Rio das Pedras.
A cada dia que passa, o ex-capitão vai ficando cada vez mais minúsculo perto do general, que faz questão de deixar isso claro a todo momento. O protagonismo do vice tem deixado Bolsonaro e sua família bastante preocupados. Enquanto eles sangram e se mostram incapazes de explicar as relações com o crime organizado, Mourão vai ganhando respeito de todos os lados, construindo pontes e ganhando força política.
O vice-presidente insiste bater de frente com o olavismo que intoxica o governo Bolsonaro. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, um fiel olavista indicado ao cargo pelo guru, tem sido solenemente ignorado pelo general. Além de estar mantendo reuniões com embaixadores de diversos países sem a presença do chanceler, como é de praxe, Mourão debochou da sua atuação excessivamente ideológica: “Vai todo mundo virar israelense desde criancinha? Vai todo mundo virar fã dos americanos de qualquer jeito? A diplomacia são métodos e objetivos, não um fim. É preciso inserir conceitos claros, não interferir em assuntos de outros países. E ainda não está claro” — uma verdadeira lacrada no olavismo, como dizem.
Os atritos entre o filósofo e o general foram aumentando até culminar com declaração de Mourão lamentando as ameaças a Jean. Olavo se indignou com o general e correu vomitar sua megalomania delirante no YouTube. Além de descer a lenha em Mourão e acusar os militares brasileiros de serem historicamente coniventes com os comunistas, o maluco de Virgínia (EUA) aproveitou para se dizer vítima “da maior campanha de assassinato de reputação contra um cidadão privado já visto na história humana”, chamar Maria do Rosário de “vagabunda” e dizer que “há sérias suspeitas de que Jean é um dos mandantes do assassinato de Bolsonaro”.
A lisergia de Olavo não tolera a prudência, a racionalidade e o pragmatismo de Mourão. Ele acredita que estamos no meio de um guerra contra o marxismo cultural globalista, e numa guerra não se deve ter tolerância com os inimigos. O general desprezou o ataque do filósofo: “Quem se importa com as opiniões do Olavo?”A pergunta foi retórica, mas deve ser respondida: Jair Bolsonaro e o núcleo bolsonarista não só se importam como são criaturas dele.
Não se sabe exatamente quais são os interesses de Mourão ao rivalizar tão firmemente com Bolsonaro dentro do governo. Muitos já dizem que ele está preparando o terreno para assumir o poder com o apoio dos militares caso o ex-capitão se enfraqueça ainda mais politicamente. É também o que pensa um dos filhos do presidente, como relatou a Folha. Quem acompanha o Brasil nos últimos cinco anos, sabe que nenhuma possibilidade pode ser descartada. Há pouco o que se fazer para controlar o general, já que ele não pode ser demitido. A essa altura o capitão deve estar amargamente arrependido de não ter escolhido o sempre dócil e fiel Magno Malta para ser seu vice.
O vice-presidente parece ter virado um oposicionista do presidente, o que o fez ganhar simpatia de muita gente na esquerda. Nessa semana, Mourão surpreendeu ainda mais ao afirmar que “o aborto deve ser uma decisão da mulher”.
Mas vamos com calma. Até pouco tempo atrás, Mourão agitava as tropas contra “inimigos da nação” e homenageava torturador. Já durante a campanha, admitiu a possibilidade de um “autogolpe” com a ajuda das Forças Armadas em caso de “anarquia”. Defendeu uma nova Constituição sem Constituinte. Ligou os indígenas à “indolência” e os negros à “malandragem”. Chamou famílias chefiadas por mães e avós de “fábrica de criminosos”.
O general parece progressista perto de Jair Bolsonaro, mas é apenas uma questão de referência. Até um trezoitão carregado parece progressista ao lado do nosso presidente.
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"Um militar da reserva listado pelo FBI como um dos maiores divulgadores de pornografia infantil do mundo está atrás das grades. Jorge A. B. Riguette, 67 anos, foi preso em outubro do ano passado na cidade de Nova Friburgo (RJ), mas só agora a Justiça derrubou o sigilo do caso. (....) A Polícia Federal encontrou mais de 700 mil fotos e vídeos pornográficos nos computadores dele. Ironicamente, em seus perfis nas redes sociais, Riguette dizia temer supostos avanços do ‘kit gay’ entre crianças e mostrava-se defensor da ditadura militar. Em uma delas, pede aos amigos que compartilhem um vídeo contendo informações falsas sobre o ‘kit gay’. “Haddad implanta o kit gay nas escolas, e Bolsonaro luta contra isso. Ajudem a compartilhar muito esse vídeo”, escreveu."
Muito tem sido dito sobre o desastre que o Brasil colocou na Presidência da República, mas a razão pela qual ele chegou lá tem sido pouco abordada. Agora, as denúncias sobre os eleitores pedófilos e nazistas de Bolsonaro propiciam uma reflexão sobre a escória que ajudou a convencer milhões de brasileiros burros a votarem no fascismo, no ódio e na violência.
A grande maioria do eleitorado de Jair Bolsonaro é composta por pessoas humildes, iletradas e assustadas com o tamanho da crise que o golpe de 2016 gerou ao Brasil. Apesar de as loucuras que saíram da boca desse ser abominável não deverem ser surpresa para ninguém devido ao fato de que foram amplamente difundidas antes das eleições, esse eleitorado foi conduzido pelo medo.
Contudo, nem todo eleitor de Bolsonaro é inocente a esse ponto. O núcleo duro desse eleitorado é composto pela essência de tudo que há ruim na sociedade brasileira. Pelos piores degenerados.
O bolsomínion de raiz, por exemplo, é um psicopata perigoso e se você tiver um perto de você, cuidado. São sociopatas tenebrosos. Muitos são tarados, pedófilos, nazistas, racistas, violentos, enfim, ameaças à sociedade.
Se fossem só os latifundiários, os maus empresários que querem lucrar pagando salários miseráveis e sem direitos, os banqueiros de corações duros como pedra, não seria nada. Mas o risco maior do bolsonarismo é abrigar tarados de todos os tipos.
Todos se lembram do surto neonazista que tomou o Brasil durante as eleições do ano passado. Um símbolo adotado por extremistas nos Estados Unidos foi reconhecido e registrado em manifestação de apoiadores do candidato de extrema-direita à presidência da República, Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral.
O símbolo do reino imaginário “Kekistan”, que surgiu em fóruns na internet, passou a integrar manifestações da extrema-direita especialmente depois da ascensão de Donald Trump à Casa Branca. A bandeira, criada em um dos muitos fóruns do 4Chan, tem como base a bandeira nazista.
Os eleitores e apoiadores mais fanáticos de Bolsonaro são, em geral, pessoas extremamente perigosas, o que não parece novidade a quem sabe que eles pregam a volta do Brasil a uma ditadura militar. Mas reportagem da Carta Capital recém divulgada mostra quanto o Brasil precisa ficar atento a essas hordas que acompanham Bolsonaro.
Um militar da reserva listado pelo FBI como um dos maiores divulgadores de pornografia infantil do mundo está atrás das grades. Jorge A. B. Riguette, 67 anos, foi preso em outubro do ano passado na cidade de Nova Friburgo (RJ), mas só agora a Justiça derrubou o sigilo do caso.
As informações foram divulgadas pela Procuradoria da República no Rio de Janeiro na tarde desta sexta-feira (18). Riguette foi candidato a vereador pelo Democratas (DEM), em 2008. A Polícia Federal encontrou mais de 700 mil fotos e vídeos pornográficos nos computadores dele.
Ironicamente, em seus perfis nas redes sociais, Riguette dizia temer supostos avanços do ‘kit gay’ entre crianças e mostrava-se defensor da ditadura militar. Em uma delas, pede aos amigos que compartilhem um vídeo contendo informações falsas sobre o ‘kit gay’. “Haddad implanta o kit gay nas escolas, e Bolsonaro luta contra isso. Ajudem a compartilhar muito esse vídeo”, escreveu.
O que o Brasil precisa entender é que Bolsonaro não se encerra em si mesmo. As forças que o elegeram, entre grandes empresários, sonegadores, latifundiários e toda a escória correlata, é talvez até mais perigosa do que ele, porque Bolsonaro vai passar, mas essa gente vai continuar solta por aí.