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segunda-feira, 19 de abril de 2021

As arrogantes falácias do vice de Bolsonaro (em sua expressão da ideologia militar), por Roberto Amaral

 


Apesar de fazerem política o tempo todo, a vida toda, não se consideram políticos. Apesar de rasgarem seguidamente a Constituição e matarem a democracia, falam em ordem constitucional e em defesa da democracia!

As falácias do vice de Bolsonaro

por Roberto Amaral

O general vice-presidente da república acaba de romper o “silencio respeitoso” imposto pelos amuos do capitão seu chefe e deita falação política, naquele tom imperativo com que os sargentos se dirigem nos quartéis aos recrutas de primeiro dia. Pois apenas isso somos nós, os civis, que eles julgam incompetentes para cuidarmos de nós mesmos. Daí a curatela a que nos submetem. Todo cadete sonha em ser um Floriano Peixoto; quando chegam ao generalato e tomam comando de tropas, os oficiais tornam-se perigosos. É quando resolvem fazer política, abolindo-a. Tratam de interditá-la e delas afastar os políticos, isto é, os civis, por definição (segundo eles) corruptos e incompetentes, responsáveis por todas as desgraças que se abatem sobre o país. Pensam assim desde os tempos remotos do “tenentismo” que instaurou as insurreições de 1922 e 1924.

Impedidos por desvio ideológico de enxergar a realidade econômico-social do país e as causas estruturais da pobreza, filha da concentração de renda, participaram da revolução de 1930 e, como dissidentes, dos levantes de 1932 e 1935; deram o golpe de 1937 e instauraram o “Estado Novo” que derrogou a constituição liberal de 1934, e ficaram no poder absoluto até 1945, quando apeiam do poder o ditador ao qual haviam servido por 15 anos. No regime democrático, após a segunda deposição de Getúlio Vargas, tentaram o golpe seguidamente em 1955 (impedimento da posse de Juscelino Kubitscheck) e 1961 (veto à posse de João Goulart), para afinal assumir as rédeas plenas do poder sem limites, a partir de 1964.

Apesar de fazerem política o tempo todo, a vida toda, não se consideram políticos. Apesar de rasgarem seguidamente a Constituição e matarem a democracia, falam em ordem constitucional e em defesa da democracia! O general Góes Monteiro, um dos mais poderosos e longevos chefes políticos brasileiros (girou os bilros da política de 1930 até pelo menos 1946), fazia política de manhã, de tarde e de noite e nos dias feriados e santificados; fazia política nos quartéis e a partir deles, no entanto não se considerava um politico, dizia mesmo que a política não podia entrar nos quartéis.

Os generais, depois de um recesso iniciado com a redemocratização de 1988, levam a política de volta para a caserna. Irresponsavelmente.

Em 2018, com o capitão, foi a vez de um projeto militar, concebido em níveis de “de estado maior” chegar ao poder mediante o processo eleitoral. Mas este dependeu do golpe de 2016 (deposição de Dilma Rousseff) e do golpe que, acionado pelo comandante do exército através de um tweet (que diz haver discutido com os generais de quatro estrelas), impediu que concorresse o candidato que então liderava as intenções de voto apuradas pelas pesquisas de opinião.

Se os políticos, com todas as deformações de nosso sistema, são eleitos pelo sufrágio popular, os militares se sentem ungidos diretamente pela “Pátria”, um ser supremo que não sabem definir, mas que invocam sempre que pretendem mudar o curso da história, de que se sentem senhores, como quem conduz os passos de marionetas, decidindo enredo e escolhendo personagens. A “defesa da Pátria” é o talismã que tudo justifica. Estão sempre a defendê-la, sem participar de batalhas contra exércitos invasores.

Por tudo o que é óbvio, o artigo assinado pelo general vice-presidente nas páginas do Estadão do último dia 6/04 deve ser considerado com atenção. Trata-se de obra de muitas mãos militares; ademais, não deve ser recebida como algo gratuito, devaneio literário de um grupo de generais ocupando o ócio da semana santa.

O artigo responde à necessidade de dar um recado.

Aparentemente, o general fala para seu público interno, candidatando-se ao posto de porta-voz político dos quartéis junto à sociedade (e igualmente junto ao capitão), quando os fardados empreendem a talvez mais difícil de quantas jogadas têm levado a cabo desde o fim da ditadura, a de se desvincularem do desastre do governo Bolsonaro, sem abandonar, por enquanto, o mando e os cargos.

O general afirma estar a postos para qualquer eventualidade, e de logo se anuncia acorde com os projetos mais autoritários de seus camaradas, o que inclui as reservas de ódio a Lula e ao que ele e seus governos representam.

No geral, porém, trata-se de texto insolente que agride a Constituição, a ordem democrática, a história e a verdade. Quando os militares e seus intérpretes se convencerão de que nenhuma vontade, animada que seja pelo melhor marketing (e não é o caso), subordinará a realidade a projetos ideológicos?

O vice-presidente acusa os dirigentes de governos anteriores (não nomina, mas, por óbvio, refere-se aos governos petistas) de “aparelhamento ideológico”! Mais do que desdém pela inteligência coletiva, é cinismo. O que é o discurso do capitão e seus asseclas e o que são suas ações e sua política?

O general deixa no ar o recado de que os militares podem e devem fazer mais do que a Constituição os autoriza. O que é isso? O que a república quer, general, é exatamente o contrário, que os senhores façam menos: sigam seus deveres constitucionais, e deixem o povo cuidar de seu destino.

Mourão sustenta que devemos aos militares a democracia que temos. E que são eles que a defendem. De quem? Não diz. Tudo isso para, uma vez mais, louvar o regime protofascista instaurado em 1964 e mantido até 1985 às custas de todas as ilegalidades e perversões possíveis: censura, exílios, confinamentos, cassação de mandatos eletivos, demissões de trabalhadores e funcionários públicos, prisões, tortura e assassinatos. Além de corrupção desabrida. Que os bons anjos salvem a democracia brasileira desses seus protetores.

O general acusa o “desvirtuamento da administração pública atingida em cheio pela corrupção e pelo clientelismo político”. Ocorre que essas mazelas chegaram ao paroxismo no governo do capitão. Não saberá o general que o governo a que serve entregou-se ao Centrão, aquele agrupamento, ou súcia, ou bando de parlamentares do “baixo clero” que têm como ideologia a apropriação da coisa pública? Não sabe o general que a maioria parlamentar de que dispõe o capitão no congresso é garantida por esse magote de negocistas e que as votações são traficadas, à vista de todos, nos corredores e gabinetes da câmara e do senado, e, segundo noticiário da imprensa, também no palácio do planalto, exatamente na casa civil, quando comandada pelo general Braga Netto? Não saberá o general vice que o Centrão já se instalou no palácio do planalto, sentando a deputada Flávia Arruda na cadeira antes esquentada pelo hoje ministro da defesa?

O general diz que “seu” governo assumiu o compromisso pela “retomada do desenvolvimento e pelo combate à violência”. General, o senhor foi avisado de que o ministro da economia é o ex-posto Ipiranga, que sua política é neoliberal, antidesenvolvimentista e recessivista? Que o PIB cai de ano para ano, que a indústria está em recessão, que a inflação ameaça, que os juros estão subindo, que nossa moeda permanece desvalorizada? O senhor acredita mesmo que seu governo combate a violência, se a violência vem sendo promovida pelo capitão desde a campanha eleitoral da qual o senhor participou? A propósito, qual sua opinião sobre a liberação de armas de fogo e munições, seguidas de medidas que dificultam a fiscalização pelo exército?

Mourão ainda nos fala na competência técnica de seus colegas de farda, da qual a sociedade brasileira acaba de colher o conclusivo exemplo deixado pela administração militar da saúde.
O governo do capitão é um governo militar, não porque o presidente e o vice-presidente da república são militares; nem só porque militares ocupam o palácio do planalto e adjacências, e que militares, fardados ou não, ocupam milhares de cargos públicos. O governo é militar pela sua ideologia e pela sua origem, como projeto chefiado pelo general Villas Bôas como comandante do exército.

É de pasmar o general afirmar que foram as forças armadas dos EUA que garantiram a transição democrática em janeiro último, para nos dizer que são a mesma coisa os papéis dos dois contingentes nos dois países, quando em um o assombroso poder militar está submetido ao poder civil, enquanto noutro o poder civil é sotoposto sempre que pretende algo que esteja em desacordo com a ideologia conservadora e reacionária da maioria de nossa oficialidade.
Por isso, foi deposto Getúlio Vargas. Em face de sua política nacionalista e popular. Foram as reformas, como as que o general diz defender, que levaram seus colegas a depor João Goulart. Foram o cheiro de povo, a defesa prioritária das grandes massas, a independência possível em face do imperialismo, que levaram generais como o próprio Mourão a desestabilizar o governo Dilma Rousseff e conspirar contra a candidatura do ex-presidente Lula. Essas razões persistem quando o artigo do general revela seus compromissos com supostas restrições militares ao possível pronunciamento da soberania popular que venha a consagrar um candidato de esquerda.

Por fim, o delírio, ou o desrespeito à história. Como ainda afirmar, como faz o general, que a ditadura que impôs a censura, cassou mandatos, fechou o congresso, acabou com as eleições diretas, inventou senadores biônicos e impôs uma legislação draconiana que impedia o avanço das forças democráticas “fortaleceu a representação política”?

É preciso declarar, porém, que terminei encontrando um ponto de concordância com o general, quando este nos previne: “É bom que os brasileiros se preocupem com o que fazem, ou podem fazer, as suas Forças Armadas”. Estamos, os brasileiros, muito preocupados, e essa preocupação cresce na medida em que mais revisamos a conflituosa convivência dos militares com a democracia.

sábado, 6 de junho de 2020

Xadrez da guerra híbrida dos generais de Bolsonaro contra o país, por Luis Nassif


O general Pazuello não veio para solucionar a crise de Saúde, mas para alimentar a guerra política. Tudo configura um plano avançado de tomada do poder

Jornal GGN:

Peça 1 – as Operações Psicológicas em curso

“Imagens mostram o que delinquentes fizeram em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Registros da internet deixam claro quão umbilicalmente ligados estão ao extremismo internacional”.
Essa visão da conspiração internacional é um dos principais componentes do pensamento militar mais radical, especialmente dos militares que passaram a assessorar diretamente Jair Bolsonaro. É uma visão conspiratória que reincorpora os elementos centrais da guerra fria, a luta contra o marxismo cultural e visões conspiratórias comuns à ultradireita.
Um dos pontos centrais é o da guerra psicossocial. Ou seja, os elementos que interferem na vontade nacional, enfraquecendo-a para a tomada do território pelo inimigo. E a maneira de combatê-los através do recursos das chamadas Operações Psicológicas.
É o que está levando o Ministro interino da Saúde, General Eduardo Pazuello a se transformar no maior perigo para a saúde dos brasileiros.
Pazuello passou a boicotar a divulgação de estatísticas sobre o Covid-19, essenciais para qualquer estratégia de combate à pandemia. O país arrisca-se a caminhar às cegas.
Mais que isso, está colocando no Ministério da Saúde um empresário oportunista, Carlos Wizard Martins. Depois de defender a ciência contra o charlatismo, Wizard mudou de opinião, aderiu ao charlatanismo e ganhou um cargo no Ministério. Agora defende a tese de que os índices alarmantes de contaminação são manipulados pelo pessoal da saúde, interessado em conquistar mais verbas. O próximo passo será manipular diretamente as estatísticas, e não apenas boicotar sua divulgação.
A semana culminou com o afastamento de dois funcionários do Ministério, meramente por reiterarem uma nota sobre saúde da mulher – que foi interpretada por Bolsonaro como propaganda do aborto. Pazuello acatou a ordem de demissão sem pestanejar, mostrando total alinhamento com o terraplanismo do governo.
Recentemente, surgiram informações de que os militares na Saúde têm desconfianças sobre a Fiocruz, vista como um centro de pensamento esquerdista. Nada diferente do pós-64, que provocou o exílio de alguns dos mais renomados cientistas brasileiros.
São vários os indícios que permitem prever que Pazuello irá se dedicar às chamadas Operações Psicológicas, tratando o Covid-19 como um caso de guerra política, dentro da estratégia de confronto e de negacionismo de Bolsonaro.
Para entender seu comportamento, é preciso uma rápida passada pelos novos conceitos de segurança nacional que passaram a influenciar militares de todos os países, a partir das Torres Gêmeas e do fracasso da Guerra do Iraque. E a maneira como a ultradireita se apropriou dos conceitos para sua guerra cultural;

Peça 2 – os ideólogos da segurança

No GGN, abordamos em vários artigos o papel do Atlantic Council – uma associação de lobby americana, com grande penetração no Departamento de Estado
O grande ideólogo da nova  doutrina de segurança é Harlam Ulmann, conselheiro da organização. A partir do atentado às Torres Gêmeas, Ulmann desenvolveu uma nova teoria de defesa, na qual os grandes adversários da democracia não seriam mais países, como a Rússia ou a China, mas grupos anti-globalização, atuando nas redes sociais.
Em um artigo intitulado ‘War on Terror Is not the Only Treat’, Ullman afirma que, “mudanças tectônicas estão reformulando o sistema geoestratégico internacional”, argumentando que não são as superpotências militares, como a China, mas “atores não estatais”, como Edward Snowden, Bradley Manning e hackers anônimos que representam a maior ameaça para o Westphalian System, porque eles estão incentivando as pessoas a se tornarem auto capacitadas e eviscerar o controle do Estado.
Ele conclui que a eliminação de agentes não estatais e indivíduos capacitados “deve ser feita”, a fim de preservar a nova ordem mundial.

Peça 3 – os princípios conspiratórios

Em abril do ano passado, no “Xadrez da ultradireita e do pensamento militar brasileiro”, procurei destrinchar um pouco esses princípios.
No Brasil, esse tipo de pensamento avançou em duas frentes. Uma, a pensamento militar radical, cujo maior representante foi o general Sérgio Augusto de Avelar Coutinho, falecido em 2011. A principal obra do general Sérgio é “Revolução Gramcista no Ocidente, de 2002 e reeditado pela Biblioteca do Exército em 2010.
Esse tipo de pensamento se expandiu quando membros do Ternuma – site que juntava ex-militares defensores da ação dos porões da ditadura – passaram a se aproximar de blogueiros porta-vozes da nova ultra-direita. Dizia um dos militares do Ternuna, mencionado no Xadrez:
“Aproximei-me, então, ainda mais do Gen Coutinho, até porque fiquei responsável por remeter ao Reinado Azevedo um exemplar do livro “A Revolução Gramscista no Ocidente”. A história da maneira pela qual o General decidiu estudar Gramsci, na idade em que muitos de nós mal tem paciência para ler o jornal, dá um pouco da dimensão deste homem”.
A primeira vez que ouvi Arnaldo Jabor falar em “comunismo viral”, julguei que fosse apenas mais um roteiro teatral para atender à demanda da mídia por cronistas vociferantes. E menciono Jabor porque os colunistas que assumem a ultra-direita em fins da década de 2.000 – especialmente Jabor e Reinaldo Azevedo – se tornam os principais instrumentos de divulgação dessas ideias.
Jabor citava Jean Baudrillard e voltaria a citar inúmeras vezes. Segundo Baudrillard, “o comunismo, hoje desintegrado, tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de desfuncionamento e da desestruturação da vida social” – vide o novo eixo do mal da América Latina.
A disseminação da tal guerra cultural foi tão ampla que a jornalista Mirian Leitão acusou o então presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), professor Carlos Lessa – falecido ontem, com várias homenagens inclusive no jornal O Globo – de proceder à “lavagem cerebral” dos funcionários do banco, conforme lembraram ontem amigos de Lessa reunidos em uma live da TV GGN.
No ano passado, um paper para discussão, do professor Eduardo Costa Pinto, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trouxe luzes sobre as ideias que ajudaram a moldar a nova face do anticomunismo no Exército: a luta contra o marxismo cultural,
Segundo o autor, as influências centrais, tanto do general Coutinho, como de Olavo de Carvalho, foi o pensamento neoconservador norte-americano dos  anos  1980  e  1990,  “mais especificamente  o  ramo  denominado  “paleoconsertives” com raízes fincadas no coletivismo de direita americana da década de 1920 e 1930, de oposição ao New Deal”.
Sustentava-se no tripé pequeno governo (descentralização das funções de governo articulado com a auto governança/comunitarismo), anticomunismo e valores tradicionais (civilização ocidental e judaico-cristã).
Esse conservadorismo ressurge agora no movimento denominado de “alt-right”, com ênfase ainda maior na guerra cultural, “pois a cultura  e  a moralidade  americana  estariam  sendo  destruídas”. Os instrumentos de destruição seriam o multiculturalismo e o “marxismo cultural” sendo manobrado por acadêmicos, militantes, jornalistas.
Esses argumentos foram desenvolvidos após o fim da União Soviética, como forma de manter alimentada a indústria do anticomunismo.
Não foi por coincidência, alguns dos ideólogos eram ligados ao pensamento militar. Foi o caso de William Lind, que, em 1989, foi o primeiro a cunhar o termo de guerra de 4a geração, que depois seria rebatizada de ““guerra híbrida”, cujo objetivo era “obter  vantagens  com  as mudanças  políticas,  sociais,  econômica  e  tecnológica  em  virtude  do  aumento  da complexidade com adversários não estatais (terroristas, grupos revolucionários, etc.)”.
A grande ameaça, segundo Lind, seria a ideologia do multiculturalismo, “no qual o confronto ideológico-militar se dá entre os Estados Unidos da América (e de Israel) de um lado e o MCI, Movimento Comunista Internacional  (e os países islâmicos) de outro”.
É por esses mares que singrava o barco do general Coutinho e do jornalismo de ultradireita da época. De acordo com Costa Pinto, para o Gal. Coutinho os socialistas e comunistas (internacionais e nacionais) estariam infiltrados no discurso do politicamente correto:
1) nos partidos como FHC (vinculado ao fabianismo que teria como importantes representantes Soros, David Rockefeller,  Bill  Clinton,  entre  outros)  e  como  o  Lula  (articulado  com  Fidel  Castro organizados do Foro de São Paulo);
2) nas ONG´s;
3)  nas escolas e Universidades;
4) nos meios de  comunicação;
5)  nas manifestações artísticas;
6)  nos movimentos sociais (ambientalistas, movimento  negro,  LGBT,  MST,  etc..).
Como declarou o General Augusto Heleno na época,
“(…) Da Intentona de 1935, passando pela luta armada de 1960, até os governos de FHC e do PT, os comunistas e socialistas continuam como o mesmo objetivo: “realizar a revolução socialista””

Peça 4 – os novos ideólogos da guerra cultural

Olavo de Carvalho é uma espécie de caricatura e com uma característica antimilitarista. Os principais ideólogos das chamadas Operações Psicológicas são Luiz Antonio P; Valle, sócio diretor da LAPV Consulting, e Clynson Oliveira, tenente-coronel do Exército Brasileiro. A bíblia desse  pessoal é a edição brasileira da revista Military Review, apresentada como “Revista Profissional do Exército dos EUA”.
Nela são divulgados artigos sobre o papel das redes sociais, sobre guerras híbridas, sobre o papel dos militares frente o fenômeno das redes sociais. Mas sempre dentro de uma perspectiva de Forças Armadas,
Não os confunda com a caricatura desse pensamento, cujos representantes maiores são o general Augusto Heleno e Hamilton Mourão, que trabalham em função de um projeto pessoal de poder de Bolsonaro.
O trabalho “A Ética das Operações Psicológicas”, do Tenente-Coronel Clynson Silva de Oliveira, é de bom nível e visa orientar os militares a como se comportar frente o inimigo em dois cenários: junto ao público interno e ao internacional.
Para uma ação ter legitimidade, não pode suplantar certos limites éticos.
“Portanto, estudar a ética nesse novo mundo, onde a percepção prevalece sobre a ação, onde para agir é necessário justificar, e para justificar tem que se ter um argumento que convença a opinião pública mundial, é necessário compreender qual o limite entre o certo e o errado nas relações internacionais”.
O trabalho mostra os resultados de uma ampla pesquisa feita com pessoas da defesa, diplomacia, ciências sociais e outras áreas especializadas sobre a ética, para entender os limites das chamadas Operações Psicológicas, aquelas que tratam diretamente de informação e de combate junto à opinião pública.
As principais conclusões do artigo:
Os temas Solidariedade, reforço da Vontade Nacional, Defesa da Pátria e Garantia da Lei e da Ordem são aqueles que têm maior apelo à opinião pública e onde se pode encontrar maior índice de eticidade.
Pode-se inferir que o Pub A pesquisado admite o uso de ferramentas de Op Psc quando a justificativa da ação é a defesa da nação.
Aparentemente, ao aplicar os princípios das Operações Psicológicas em defesa de Bolsonaro, o general Pazuello desconsiderou as principais conclusões do trabalho.
“As proposições de números 05 e 06, que tratavam do uso de ferramentas de Op Psc com o prejuízo das liberdades individuais ou de acordos internacionais firmados pelo País, tiveram uma baixa aceitação, com menos de 50% de respostas “sim”.
Portanto, analisando essas respostas, verifica-se que a falta de legalidade ou de legitimidade de uma ação do Estado tende a ser diretamente proporcional à baixa aceitação dessas ações.

Peça 5 – o fantasma da ANTIFA

O site Defesa.net é o principal porta-voz dos grupos mais radicais. E reflete melhor o pensamento mais anacrônico dos militares do Palácio.
O artigo “O que você precisa saber sobre os protestos violentos para não ser idiota”, do coronel Fernando Montenegro, apresentado como  das Forças Especiais do Exército, comandante da Ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, é significativo desse pensamento linha dura. Como sua análise das manifestações americanas:
“Mesmo com a rápida ação do Estado americano na repressão aos policiais, uma onda de protestos violentos foi desencadeada. O grupo que está por trás das ações extremistas é a ANTIFA, organização de extrema esquerda, que normalmente também usa camisas negras e é patrocinada pelo especulador e globalista internacional George Soros para disseminar ódio e violência. Nesse caso, o que interessa é promover o caos, não interessando se talvez o mesmo tipo de abordagem desastrada poderia ter sido feito em um branco, o importante é divulgar uma narrativa de que houve racismo”.
Nos comentários, leitores tentam enquadrar o Movimentos dos Sem-Terra nos grupos terroristas abrigados na ANTIFA.
Em outro artigo, o General de Exército da reserva, Carlos Alberto Pinto Silva, Ex-comandante do Comando Militar do Oeste, do Comando Militar do Sul, sintetiza bem o pensamento dos militares de Bolsonaro:
“Estão acontecendo atividades de desestabilização do governo para a tomada do Poder por meio, entre outros, dos seguintes fatos
– obrigar o governo a se curvar frente ao sistema político e a burocracia derrotada em outubro de 2018;
– ensaio de um  caos político com a tentativa de desestabilizar o governo, e com um caos econômico e social como consequência da Pandemia, fazendo com que a dúvida e a insegurança dominem todas as ações e a nossa capacidade de indignar-se e reagir;
– distorção da realidade política do Brasil coloca a responsabilidade em tudo que acontece no atual governo;
– campanha midiática, contrária ao governo, planificada e constante no campo interno e externo, reforçada agora em época de Pandemia;
– algumas empresas da mídia adotaram explicitamente o papel de antagonistas ao governo, e estão fazendo de tudo para desestabilizá-lo, o que querem é o retorno da posição que ocupavam no passado, o que não vai acontecer se o Presidente Bolsonaro continuar no Poder;
– críticas ao governo por membros do Poder Legislativo e do Judiciário, que podem ser interpretadas como interferências indevidas no Poder Executivo;
– possibilidade de ações de agroterrorismo para prejudicar a economia e colocar a culpa no governo;
– constante ameaça de impeachment feita por políticos[6] e membros da sociedade, e,
– frequente interferência do Poder Judiciário em seara que não lhe compete.

Peça 5 – o papel das instituições

Por tudo isso, o fator tempo é crucial. O general Pazuello não veio para solucionar a crise de saúde, mas para alimentar a guerra política. O desmonte do sistema de informações sobre o Covid, a montagem de bancos de dados nacionais pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), o emprego a milhares de militares no governo, as medidas que liberaram a venda de armas para a população civil, tudo isso configura um plano avançado de tomada do poder.
Nunca o país dependeu tanto do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral como agora.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

TV GGN: Comentários sobre a estratégia de transferência de culpa de Bolsonaro e Mourão

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Crise da pandemia no Brasil vem de “estrago institucional que raia à insensatez”, diz Mourão



"Um estrago institucional que já vinha ocorrendo, mas agora atingiu as raias da insensatez. Nenhum país do mundo vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil."

Foto: AFP
Jornal GGN “Um estrago institucional que já vinha ocorrendo, mas agora atingiu as raias da insensatez”. Assim descreveu o vice-presidente Hamilton Mourão sobre como o Brasil vem enfrentando a crise do coronavírus, em artigo para o Estadão, nesta quinta-feira (14).
Apesar de não citar em nenhum momento o nome do presidente Jair Bolsonaro e por vezes adotar generalidades para tratar do problemático enfrentamento à pandemia, Mourão fez destacar que “nenhum país do mundo (…) vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil”.
“Para esse mal [a Covid-19] nenhum país do mundo tem solução imediata, cada qual procura enfrentá-lo de acordo com a sua realidade. Mas nenhum vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil. Um estrago institucional que já vinha ocorrendo, mas agora atingiu as raias da insensatez, está levando o País ao caos e pode ser resumido em quatro pontos”, escreveu Mourão.
Mas antes de chegar a essa crítica, o general fez questão de blindar os possíveis impactos que ressoariam no Planalto, afirmando que a crise do coronavírus “nunca foi, nem poderia ser, questão afeta exclusivamente a um ministério, a um Poder, a um nível de administração ou a uma classe profissional”.
E os quatro pontos listados pelo vice-presidente no artigo ao Estadão, que segundo ele foram os responsáveis por levar o Brasil “ao caos”, são “a polarização que tomou conta de nossa sociedade”, e da qual denominou como “outra praga”. Nesse primeiro ponto, Mourão disse que a a imprensa “precisa rever seus procedimentos”, dando espaço por igual, na visão dele, às diferentes opiniões.
No segundo ponto, endossou a posição de Bolsonaro contra medidas autônomas de estados para o combate à pandemia, ao afirmar que está havendo uma “degradação do conhecimento político por quem deveria usá-lo de maneira responsável”, entre eles “governadores, magistrados e legisladores, que esquecem que o Brasil não é uma confederação”.
Criticou, também, os presidentes “de outros Poderes” e magistrados, que segundo ele “estilhaçaram” as prerrogativas do Executivo. E, por fim, elencou “o prejuízo à imagem do Brasil no exterior”, com as manifestações de outras lideranças políticas e ex-presidentes mundo afora.
“Há tempo para reverter o desastre. Basta que se respeitem os limites e as responsabilidades das autoridades legalmente constituídas”, concluiu, no artigo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Desgoverno Bolsonaro: um roteiro de filme B com duas regularidades, por Bruno Lima Rocha



A agenda de Paulo Guedes, ou melhor, as medidas tomadas com base na experiência dos Chicago Boys de Pinochet, só podem ser executadas em regime de exceção, ou no meio de uma enorme confusão 


Desgoverno Bolsonaro: um roteiro de filme B com duas regularidades

por Bruno Lima Rocha

Entramos no mês de agosto de 2019, avança a liquidação da Previdência Pública e o desgoverno continua a todo o vapor. Parece redundante afirmar, mas de fato, desinformação, mistificação do debate político e a idiotia abundante se tornaram armas de dominação. A outra constatação parece ser ainda mais apavorante. Quanto mais eu assisto e leio a respeito do vale tudo eleitoral dos Estados Unidos, especialmente no caldo de cultura que deu a vitória a Donald Trump em 2016 e do papel de figuras execráveis como Roger Stone e Steve Bannon, mais me convenço da evidente mistificação da política e do uso do recalque (dos recalques) da direita branca republicana aplicada no Brasil.
O papel de analista, especificamente de cientista político, implicaria no acompanhamento rotineiro dos atos de governo, da agenda do Executivo e alianças complexas. Eu gostaria de analisar detalhadamente os planos de execução de cada ministério do governo Bolsonaro, mesmo desconfiando que estes não passam de ações de curtíssimo prazo, indo ao sabor das intempéries verbais do mandatário e seus asseclas. O que se percebe são duas regularidades. Uma, a que é ditada ao sabor da verborragia e irresponsabilidade do presidente eleito nas circunstâncias de 2018. A segunda regularidade é a agenda de desmonte, como se promover a desestruturação do território brasileiro fosse sua meta final.
Recentemente estive em programa de debate televisivo (emissora local com outorga de educativa), diante de um economista neoliberal ocupando cargo de secretário de Fazenda municipal na Região Metropolitana. O condutor do programa nos perguntou se havia influência das falas de Bolsonaro nos atos de governo. Automaticamente o neoclássico disse que não e eu afirmei que sim. Trata-se dessa realidade paradoxal. Para os neoliberais, ultraliberais, para a ortodoxia econômica neoclássica a serviço da especulação, havendo programa de avanço de um capitalismo subalterno, está tudo bem. Para todos os demais, incluindo oportunistas da nova direita (agora pretensamente arrependidos) e liberais da política, Jair Messias passa de qualquer limite, estando em seu discurso uma ação autorizativa – de fato – do aparelho de Estado para qualquer ato de irracionalidade ou autoritarismo.
Já afirmei isso antes. A agenda de Paulo Guedes, ou melhor, as medidas tomadas com base na experiência dos Chicago Boys de Pinochet, só podem ser executadas em regime de exceção, ou no meio de uma enorme confusão. O economista Paul Krugman – outro dos arrependidos da globalização na Era Clinton – relaciona com a tese de doutorado de Henry Kissinger aquilo que a jornalista Naomi Klein apropriadamente denomina de Doutrina do Choque, também reconhecido como Capitalismo de Desastre, agora na etapa da Necropolítica, versão tropical.
Há uma agenda sim, de desmonte e desregulação, algo que vem latejando desde a legislatura anterior, a que toma posse no segundo governo Dilma, derrubado por estes mesmos parlamentares através do golpe jurídico do impeachment sem crime. A dimensão tropical do capitalismo de desastre é romper com os acórdãos pouco respeitados após a promulgação da Constituição de 1988, mas diante de uma visão catastrofista, exemplificada na política ambiental e no intento permanente do uso discricionário do aparelho de Estado ao bel prazer do presidente seus familiares diretos.
Bolsonaro é a versão extremada deste Brasil que rompe o pacto da Nova República, enquanto desorganiza até mesmo a agenda que avança na Era FHC – como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, criado em 1990, mas desenvolvido nos anos seguintes), a LDB da Educação (1996) e o Estatuto das Cidades (2001). Parece um roteiro de filme B, e é. A “grande esperança branca”, manipulando os mais primitivos instintos, destilando ódio, ratificando os sistemas de crenças mais perversos (como o instinto de morte), posicionando-se como “antissistema” (mesmo após sete mandatos como deputado federal, de 1991 a 2018) e no final, atendendo aos interesses mais indefensáveis da elite rentista, especuladores, entreguistas de todas as cores uniformes, além de fariseus. Até sua briga com a mídia hegemônica é previsível, imitando a Alt-Right dos EUA e dando vazão às tradições de “polemistas da conspiração” como Bem Shapiro e o impagável Rush Limbaugh. Ressalto o óbvio: o caos só pode existir na confusão coletiva. Esse é meu medo.
A confusão é tamanha que a agenda política também é ditada pelo palavrório de Jair, que tenta implantar um governo autoritário sem um regime para servi-lo. Não é à toa que seu apoio hoje se resume a 30%, e daí a sua escolha pela radicalização da insanidade.
Já o medo com a confusão estruturante se transforma em “esperança”, porque a adesão ao governo Bolsonaro foi um comportamento de manada da campanha virtual de 2018. E como tal não se sustenta. Não sem a Lava Jato marcando os tempos da política como uma áurea impoluta de um falso tenentismo de toga. Mais fácil afirmar que caminhamos para uma paralisia decisória e com o Exército Brasileiro não sendo mais um recurso de Poder Moderador, haja vista que também já incineraram seu capital político na desventura do Twitter de Eduardo Villas-Bôas e o papel ridículo de Hamilton Mourão jogando para a plateia de decrépitos maçons reacionários “explicando” paradigmas geopolíticos ratzelianos do século XIX. Será que ainda existem militares nacionalistas e com formação científica?!
É cedo para afirmar, mas arrisco dizer que este governo já não gera mais consenso de elite e tampouco acórdão por direita. Tampouco Bolsonaro tem muito capital político, embora tenha sido empossado com a legitimidade das urnas (deveras atingidas pela República de Curitiba e pelo Zapzap com servidores externos). Não governar plenamente tampouco é afirmar que esta administração acaba, pois enquanto Jair Messias falar e assinar atos administrativos tudo, absolutamente tudo pode acontecer.
Paulo Guedes ainda vai tentar algum “sopro de esperança” através de “voo de galinha” na política econômica, mas este deve durar o tempo necessário para liquidarem com a Previdência Pública do país, ou acabarem com o último sopro de orçamento sob o controle popular. É preciso estar preparado e com a plenitude das capacidades políticas revigoradas, até mesmo porque 30% não podem impor suas sandices e crueldades sobre a maioria do povo brasileiro.
Bruno Lima Rocha (blimarocha@gmail.com / estrategiaeanaliseblog.com / t.me/estrategiaeanalise) é pós-doutorando em economia política, doutor em ciência política e professor nos curso de relações internacionais, direito e jornalismo. É membro do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https://www.facebook.com/capetacapitaleestado/
Bruno Lima Rocha, 07 de agosto de 2019