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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Que pátria é a deles? Por José Sócrates, ex-primeiro ministro de Portugal

 

É preciso ser uma besta quadrada para desafiar desta forma a soberania brasileira



Por José Sócrates, no iclnoticias.com.br

Que coisa extraordinária. Que coisa absolutamente extraordinária. Uma multidão entusiasmada celebra o dia nacional aplaudindo um empresário americano e execrando um juiz que é seu compatriota. No dia da independência do Brasil os celebrantes usam cartazes em inglês e os oradores frases em inglês. Tudo para agradar ao seu novo herói americano. Desculpem, mas que espécie de patriotismo é aquele? Que pátria celebram – a do juiz ou a do empresário?

O empresário. É preciso ser uma besta quadrada para desafiar desta forma a soberania brasileira. A penosa história do Brasil do século vinte está repleta de ilegítimas intervenções do governo dos Estados Unidos da América na sua soberania, mas, desta vez, não é sequer o governo americano, mas um bilionário americano. Um megalômano. Um ativista político disfarçado de empresário que espreita a oportunidade de liderar a extrema direita brasileira na sua batalha pela liberdade de insultar os outros e desrespeitar os princípios básicos de civilidade democrática. E, no entanto, bem vistas as coisas, o episódio resultou numa première: finalmente, um Estado de economia de mercado fechou uma rede social. Assim se construiu uma proeza brasileira cujo significado politico ainda não foi inteiramente percebido no plano internacional (a suspensão do Tik Tok nos Estados Unidos não foi fundamentada no incumprimento da lei, mas em razões de segurança nacional).

A multidão. O mais difícil de explicar não é o comportamento do empresário americano, mas a atitude daqueles que no Brasil o apoiam. Que espetáculo grotesco. A multidão aplaude o bilionário americano e maldiz o juiz brasileiro. Entre o poder da lei e a lei do dinheiro a extrema direita brasileira faz a sua escolha nas ruas berrando impropérios contra o Tribunal Supremo do País. Liberdade? Mas nada nesta história tem a ver com liberdade, só com poder. A cegueira política só encontra explicação no ódio. Um ódio existencial ao adversário político que impede qualquer diálogo democrático.

A soberba do bilionário é fácil de compreender. Ela é filha da maluquice neoliberal dos últimos anos que entende que o Estado deve servir o mercado, não regulá-lo. Já não se trata do liberalismo clássico do laisser faire, isto de demarcar uma zona de racionalidade econômica que deve ser deixada aos mecanismos de mercado e uma outra de racionalidade política, de interesse geral, que deve ser deixada ao Estado. Não. Para a nova utopia neoliberal é a economia que funda a política, não a política que define as regras da economia. A arrogância do empresário compreende-se assim: o juiz devia pôr a lei ao serviço dos seus interesses, não ao serviço do interesse geral.

Quanto à extrema direita, ela não aprende nem esquece: ela imita. Imita de forma quase perfeita o que vê acontecer nos Estados Unidos – “as eleições foram conduzidas de forma parcial”; os “patriotas e inocentes do 8 de janeiro devem ser anistiados”; o juiz é “psicopata” e deve sofrer um “processo de impeachment”. Eis o seu programa político. Um pouco mais e reclamavam que a última eleição foi roubada. Não, eles nunca perderam uma eleição. Como poderiam, aliás? Como poderiam perder se são eles que representam o povo, o povo autêntico e virtuoso?  Os outros? Os outros não são do povo, são um não-povo envenenado por ideologias estranhas à tradição popular. Enfim: o Brasil acima de tudo, Elon Musk acima de todos.

Não tenho especial simpatia pela atuação do juiz Alexandre de Moraes. Pelo contrário, sou dos que veem sérios problemas para o Estado de direito democrático quando o mesmo juiz abre um processo, investiga o processo e julga esse processo. Incluo-me entre aqueles que pensam que uma das mais nefastas doenças brasileiras é a judicialização da política. Não gosto de ver juízes tutelarem escolhas políticas e detesto profundamente o paternalismo corporativo das classes que se julgam acima das escolhas democráticas, como é agora o caso dos juízes e antes foi o dos militares. Todavia, isto dito, o que é absolutamente repulsivo nesta disputa entre o juiz e o bilionário americano é o desrespeito deste último pela dignidade nacional do Brasil. É isto que está em causa. Nesta disputa o juiz é mais do que ele próprio. Pela minha parte, como para todos aqueles que prezam a dignidade dos povos, tenho gosto em estar do seu lado.

 


segunda-feira, 11 de julho de 2022

Redes sociais do assassino de petista são uma caixa de eco de Bolsonaro. Trechos do artigo de Leonardo Sakamoto, no UOL

 

  Por mais que o presidente da República tenha tentado se desvencilhar do episódio, tuitando, neste domingo, que "dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores", foi ele quem espalhou a seus seguidores que o Brasil precisar passar por uma "limpeza" de opositores.

 Do UOL:

O bolsonarista Jorge Guaranho invade festa e atira no petista Marcelo Arruda em Foz do Iguaçu (PR) - Reprodução
O bolsonarista Jorge Guaranho invade festa e atira no petista Marcelo Arruda em Foz do Iguaçu (PR)Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

As redes sociais do agente penitenciário bolsonarista Jorge Guaranho, que matou o guarda municipal e tesoureiro petista Marcelo Arruda, neste sábado (9), em Foz do Iguaçu (PR), são uma grande caixa de eco dos discursos e declarações de Jair Bolsonaro. O crime ocorreu após Guaranho invadir a festa de Arruda, que tinha as cores do PT e imagens de Lula, e discutir com o anfitrião por política.

Por mais que o presidente da República tenha tentado se desvencilhar do episódio, tuitando, neste domingo, que "dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores", foi ele quem espalhou a seus seguidores que o Brasil precisar passar por uma "limpeza" de opositores.

E, ao que tudo indica, Guaranho absorveu bem essa intolerância. Um exemplo é a ideia de "limpar" o Brasil do PT. Em outubro de 2018, o agente postou em sua conta no Facebook:

"Vamos todos juntos nessa luta para limpar o Brasil do PT, limpar o país desses corruptos que só buscam perpetuação no poder as custas do bem da maioria. O Brasil é lindo é rico e não pode ser essa chacota que se tornou em saúde, educação, segurança etc. Viva o Brasil!"

 Isso é semelhante aos discursos de Bolsonaro na época. Como, por exemplo, em um ato eleitoral em São Paulo, do qual ele participou via teleconferência:

"A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser que ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora ou vão pra cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria." E também disse: "Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil"

Outro ponto em que há influência é o ataque ao sistema eletrônico de votação. Desde a eleição de 2018, Jair Bolsonaro fala de fraude eleitoral, Guaranho também.

No dia 16 de setembro de 2018, o então candidato atacou as urnas eletrônicas, afirmando que "a grande preocupação não é perder no voto, é perder na fraude. Então, essa possibilidade de fraude no segundo turno, talvez até no primeiro, é concreta".

Em outubro daquele ano, Guaranho publicou no Facebook: "Depois da fraude, claro que ia ter segundo turno. Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Fraude! Não terá fraude no 2". E também: "Estão tentando de todas as formas fraudar o Bolsonaro. Não vamos permitir! 16:30 estarei indo fotografar os boletins de urna".

Não houve fraude, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, mas os seguidores do presidente não acreditam nisso por conta das acusações de Bolsonaro.

O compartilhamento de postagens de Guaranho em seu Twitter sobre fraudes nas urnas eletrônicas se tornou mais frequente nos últimos dois anos quando o presidente intensificou os ataques ao TSE. Pelas publicações, constata-se que ele é um entusiasta do voto impresso.

São apenas dois exemplos. Analisando suas contas nessas duas redes sociais é possível constatar a autoridade do presidente sobre o agente penitenciário federal em uma série de temas.

Ele atacava com frequência jornalistas, como Miriam Leitão e Ricardo Noblat; artistas críticos ao presidente, como Luísa Sonsa e Zélia Duncan; ex-aliados, como o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o ex-juiz Sergio Moro; e ministros do STF e TSE, especialmente Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

O padrão é o mesmo do presidente. Até o Papa Francisco se tornou alvo, e mais de uma vez.

Também defendeu uma ruptura através das Forças Armadas, foi misógino com mulheres na política e fez troça com o suicídio de um adolescente que sofria bullying dizendo que era apenas "seleção natural".

Bolsonaro pediu, neste domingo (10), que "as autoridades apurem seriamente o ocorrido e tomem todas as providências cabíveis, assim como contra caluniadores que agem como urubus para tentar nos prejudicar 24 horas por dia". Está irritado por ser apontado or muitos como responsável pela violência cometida por seus seguidores....  Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2022/07/11/redes-sociais-de-assassino-de-petista-sao-uma-caixa-de-eco-de-bolsonaro.htm