Mostrando postagens com marcador Xico Sá. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Xico Sá. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Homer Simpson tenta entender o trumpismo no Brasil... Texto de Xico Sá

 

Alvo de fúria de "patriotas" ao fazer humor sobre o Rio, o caricato personagem dos EUA não entende os bolsonaristas que apoiam o tarifaço

Do ICL:



Pobre Homer, não está entendendo nada.

O patriarca da família Simpson até deve achar normal, em se tratando de Donald Trump, a interferência da Casa Branca no Brasil.

O que não entra na sua cabeça, aposto, é o fato de uma imensa legião de brasileiros portar bandeira dos EUA em manifestações. E o pior dos piores: apoiar o tarifaço de 50% sobre as nossas exportações.

Homer pode até pensar que se trata de um comportamento suicida induzido por um Jim Jones tropical. Ora, apoiar uma medida que leva ao desemprego e ao desmantelo da própria economia?

Só pode ser coisa de um povo ludibriado por um pastor apocalíptico como naquele episódio macabro de Jonestown. Só pode ser.

Podre e rude Homer. Haja cerveja para tentar pensar melhor e compreender o incompreensível. Não entra na sua cuca a ideia bolsonarista de apoiar o Trump para derrotar o Brasil.

Ora, Homer bebe, mas tem memória. Até 2002, ele recorda, o povo daqui não aceitava nem certas gracinhas de desenho animado tirando onda com o país.

Homer recorda que, por muito menos, os Simpsons provocaram revolta em parte da população brasileira, mexeram com a Xuxa e uniram todas as autoridades contra a intromissão dos norte-americanos.

Parece uma piada do Homer, mas aconteceu na realidade, em abril 2002. Tudo isso por causa do lançamento do episódio “Blame it On Lisa”, título que faz uma paródia com o filme “Blame It on Rio” — “Feitiço do Rio”, na versão nacional exibida nos cinemas.

O desenho animado mostrou uma paisagem carioca repleta de macacos, jiboias e um ambiente violento para os humanos. Sob a alegação de que a cidade teria prejuízos, por causa do episódio, como a redução do número de visitantes, a diretoria da Riotur ameaçou processar na Justiça a produtora Fox Cable International, tv responsável pela série.

O presidente Fernando Henrique Cardoso, mesmo sem ter visto o desenho, protestou, por intermédio do porta-voz do Palácio do Planalto, contra “as visões distorcidas sobre o Brasil”. Em programas de rádio e televisão ao estilo “povo fala”, brasileiros anônimos também ergueram seu brado retumbante contra a família dos Simpsons.

Exibido no país pelo SBT, o episódio é repleto de clichês sobre a cultura latino-americana: todas as personagens jogam futebol e se deslocam para o trabalho em uma fila ao ritmo da conga. Na “samba school”, os brasileiros aprendem a lambada e a “penetrada”, um ritual que faz com que o sexo se pareça com uma cerimônia religiosa.

Na trama, Homer, o chefe da família, acaba sendo sequestrado por um taxista clandestino (não licenciado pela prefeitura) e vai parar, pasme, lá na Amazônia. Durante o clímax, os cabos do bondinho do Pão de Açúcar arrebentam, causando um grave acidente. Haja aventura no balneário..

O roteiro não perdoa nem a artista Xuxa Meneghel, representada na série pelo personagem “Xoxchitla”, uma famosa apresentadora de um programa infantil chamado “Teleboobies” (literalmente tele-peitos).

Em reação à revolta dos brasileiros, o produtor-executivo do programa, James L. Brooks, divulgou uma nota oficial dizendo: “Pedimos desculpas à adorável cidade e ao povo do Rio de Janeiro. E se isso não resolver a questão, Homer Simpson se oferece para enfrentar o presidente do Brasil no programa Celebrity Boxing da Fox”.

Pobre Homer, não está entendendo nada.

Não entenderá jamais este país que apoia o bolsotrumpismo — com tarifaço e tudo — e fecha questão contra um episódio de humor sobre o Rio de Janeiro.

Cadê o patriotismo que estava por aqui?, reflete Homer, com saudade do Brasil.



segunda-feira, 26 de maio de 2025

Sebastião Salgado na prosa sobre o diabo e a extrema direita. Artigo de Xico Sá

 

Além de gênio da fotografia, o artista mineiro era contador de histórias de personagens do Brasil Real

Do ICL Notícias:



“O que dizer desse metal amarelo e opaco que leva homens a abandonar seus lares, vender seus pertences e cruzar um continente a fim de arriscar suas vidas, seus corpos e sua sanidade por causa de um sonho?”, perguntava, em momento de reflexão sobre suas aventuras no Brasil, o fotógrafo Sebastião Salgado, em 2019, ao inaugurar uma exposição, no Sesc Paulista, com fotografias inéditas sobre o garimpo de Serra Pelada.

Indignado com o festival de notícias sobre devastações de partes da Amazônia durante o governo Bolsonaro, o fotógrafo blasfemava contra o presidente da época. No seu mineirês imbatível ­ — mesmo depois de tantos anos fora do Brasil —, Salgado dizia um rosário de adjetivos impublicáveis contra o então ocupante do Palácio do Planalto.

Para completar o escárnio, coisa na linha dos resmungos de Riobaldo (no livro “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa), o artista recitava os apelidos do demo, referindo-se ao mesmo todo-poderoso da extrema direita naquele período: “O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejo.”

Desabafos à parte contra Bolsonaro, voltemos a subir os barrancos de Serra Pelada. Esse era um dos seus assuntos prediletos em entrevistas e nas raras mesas de bares nas quais dei sorte de tê-lo como companheiro de prosa.

Foi uma foto do formigueiro do garimpo que o ajudou a consagrar no mundo. O New York Times colocou a imagem entre as 25 que definem a ideia de era moderna. Não é pouca glória. Salgado preferia, no entanto, relembrar das sagas fantásticas de personagens que saíram em busca do ouro na Amazônia.

Histórias como a do garimpeiro José Mariano dos Santos, conhecido como “Índio”, que extraiu 1.183 quilos de ouro dos barrancos de Serra Pelada, no Pará. Uma fortuna do tamanho de um prêmio da Mega-Sena especial da Virada.

Em uma das tantas aventuras vividas por Índio, a mais conhecida é essa, segundo lembrava o fotógrafo. Um dia ele sentiu discriminado pela aparência no balcão de uma empresa aérea em Marabá, enquanto tentava adquirir uma passagem. No momento de revolta, não teve dúvida: pegou três sacas de dinheiro e fretou um boeing da Transbrasil para viajar sozinho com a tripulação até o Rio de Janeiro, onde encontraria uma paixão amorosa, Terezinha — dançarina que havia se apresentado em um show no garimpo com o cantor Sidney Magal.

Poucos tiveram a sorte deste aventureiro que se tornou personagem de programas de TV e documentários de cinema, mas Serra Pelada ficou na memória do país com a sua imagem única de um formigueiro humano por onde passaram cerca de 100 mil brasileiros. Somente no primeiro ano de funcionamento, foram 30 mil homens em busca de riqueza.

Trinta mil homens e raríssimas mulheres. Elas eram proibidas de buscar o sonho dourado. Isso não impediu que Raimunda Conceição se fantasiasse de “cabra macho”, com bigode e tudo, na tentativa de encontrar a fortuna.

O eldorado brasileiro acabou juntando os destinos de Índio e de Raimunda. Depois de uma vida de extravagância, incluindo uma temporada no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, ele casou com a ex-garimpeira infiltrada, e que viria a ser sua décima terceira mulher na vida.

Raimunda pegou um Índio sem um grama de ouro, mas sustentou o marido até a sua morte, em 2015, vítima de um derrame aos 61 anos de idade. Ela segue firme sobre a mesma terra onde arriscou a própria pele na corrida pela riqueza.

O maior garimpo a céu aberto do mundo começou com uma pepita de ouro encontrada, ao acaso do acaso, por um morador da fazenda Três Barras, no final de 1979. A notícia se espalhou de boca em boca e começou a atrair milhares de pessoas. Em pouco tempo, a vegetação havia sido destruída pelos aventureiros — daí se deu o nome de Serra Pelada ao lugar. O fenômeno da mineração durou de 1980 a 1992.

Diante da invasão de garimpeiros, o governo federal determinou que outro Sebastião, o major Curió, fosse o comandante do pedaço, responsável pela organização e disciplina. O cargo representava um prêmio pelos serviços prestados na Guerrilha no Araguaia (1967-1974) — ele ficara famoso pela perseguição, tortura e morte de militantes do PC do B.

A primeira ordem de Curió foi proibir a presença de mulheres e de bebida alcóolica na área. O motivo: evitar que o lugar virasse uma zona, segundo suas palavras. O trabalho do mandachuva lhe rendeu ouro e o mandato de deputado federal, em 1982. Com a aglomeração desordenada nos arredores do garimpo, fundou uma cidade em sua própria homenagem: Curionópolis, de onde seria, posteriormente, o primeiro prefeito.

Não é possível contar a história do garimpo, porém, sem lembrar do “Massacre da Ponte”, dizia Salgado. O episódio ocorreu em 29 de dezembro de 1987, no município de Marabá.

A Polícia Militar paraense, com auxílio do Exército, atacou, com fuzis e metralhadoras, um grupo de 300 pessoas que protestavam por melhores condições de trabalho e pela manutenção da extração manual de ouro. Os organizadores do protesto informaram que pelo menos 50 garimpeiros foram assassinados.

Serra Pelada sempre instigou o imaginário dos brasileiros com seus episódios de violência na selva ou de fantasia de enriquecimento. Nas suas lentes ou na sua prosa, ninguém escreveu essa crônica como Sebastião Salgado.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Xico Sá: No modo “cangaço novo”, poder chantageador de Arthur Lira passa pelos especuladores financeiros da Faria Lima

 Presidente da Câmara lembra política de coronel, mas tem influência pesada de banqueiros "moderninhos" do Sudeste


Do iclenoticias.com.br


O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), voltou à tribuna do poder em Brasília no melhor estilo “Cangaço Novo” — só para lembrar a extraordinária série da Prime Vídeo dirigida por Fábio Mendonça e Aly Muritiba.

Depois de escapar do álbum da memória democrática, com sua ausência no ato para lembrar o 8 de janeiro, o líder alagoano reabriu os trabalhos no Congresso com ameaça de derrubar vetos do presidente Lula e um pedido que poderia ser escrito assim em um roteiro de cinema: “Tragam-me a cabeça de Alexandre Padilha”.

Era uma vez no Centro-Oeste…

Ministro das Relações Institucionais, Padilha não estaria cumprindo os acordos por verbas e cargos conforme o apetite dos parlamentares do Centrão, grupo chefiado pelo presidente da Câmara.

E que apetite. Nem Dona Redonda, personagem do gênio Dias Gomes na novela Saramandaia (Globo, 1976), tinha tamanha fome. Rebobino a memória para os mais jovens: Dona Redonda explodiu de tanto comer, em uma inesquecível cena de realismo fantástico.

“Não subestimem essa mesa diretora, não subestimem os membros do parlamento e desta legislatura”, bradou Lira, no retorno a Brasília. 

Premiê do Orçamento Secreto — mecanismo que o empoderou como um gigante na gestão Bolsonaro —, o parlamentar tem parentes, amigos e parceiros políticos dependurados em toda a árvore pública. Da Codevasf ao comando da Caixa Econômica Federal. Sem esquecer o latifúndio do Centrão em todo o país.

Citei a metáfora do “Cangaço Novo” para um experiente político de Alagoas, fonte deste repórter-cronista desde o Collorgate. Discordou com veemência.

Para esta raposa alagoana, a volta de Lira repete os métodos do velho cangaço, não do novíssimo movimento urbano. Conhecedor da história do Nordeste, ele lembra dos bilhetes chantagistas que Lampião mandava aos prefeitos na véspera de atacar uma cidade — sempre com exigência de uma “verba” para evitar maiores estragos.

— Mas isso é só uma metáfora bandoleira, ele ironiza, longe de mim tomar um processo desse todo-poderoso, aqui a Justiça só pende para o seu lado.

Velho ou novo, o método do presidente da Câmara tem respaldo, não se esqueça, não apenas nos coronéis da política de norte a sul do país, mas também nos lobos da Faria Lima, o reduto da “modernidade” financeira em São Paulo. Um dos seus interlocutores, com forte poder de influência, é o banqueiro André Esteves, dono do Banco BTG Pactual. E isso é só um mero exemplo.

Sonoplasta, por favor, música para encerrar a coluna. Pode ser a trilha de Ennio Morricone para um faroeste cinemascope. Vale também a música de Sérgio Ricardo em “Deus e o Diabo na terra do sol”. Até o próximo duelo no Centro-Oeste.

sábado, 12 de dezembro de 2020

As moscas negacionistas e outras pestes do bolsonarismo, por Xico Sá, no El País

 

Do El País:


Xico Sá

Sobre a gritaria de “Fora Temer” ao fundo, Vitor, menino de rua de Salvador, mandava na lata, de um só fôlego, um poema de Carlos Drummond de Andrade. “E agora, José?”. O menino parecia ter saído do livro “Capitães da Areia” (Jorge Amado) com aquela pergunta que o Brasil Oficial, em delirium tremens com o projeto “Ponte para o futuro”, fazia questão de não escutar. O vice de Dilma Rousseff acabara de assumir a presidência da República. Estamos em maio de 2016. O vídeo de Vitor, postado pelos manifestantes no Youtube, correu bolhas e galáxias nas redes. “Você marcha, José!/ José, para onde?”

Não sabemos por onde anda o Vitor sem sobrenome, tampouco cuidamos dele — viramos uma sociedade que muito curte e pouco cuida. Se não temos ideia do paradeiro do menino, sabemos muito bem a marcha em que se encontra o Brasil, sob a mira de todas as maldições do bolsonarismo ― somente as dez pragas do Egito, perdão pela hipérbole bíblica, seriam capazes de revelar o estado a que chegamos.

Tempestades de rãs ou invasão de gafanhotos ainda não dizem tudo. As patas em carne e brasa das onças do Pantanal talvez nos cutuquem. Os rios tingidos do mercúrio dos garimpos, quem sabe. As moscas da ignorância e do negativismo encobrem a terra. Não há defensivo agrícola, por mais pop que seja, que nos livre e guarde. Os tempos em que vivemos, relembra minha mãe Socorro, nos remete às roças de algodão perdidas com a peste do bicudo.

Desculpa a interrupção. Fala, Vitor. Nesta semana em que celebraremos o “Dia D”, como é conhecido o 31 de outubro ― data do nascimento de Drummond―, reli um texto de 2018 em que José Miguel Wisnik, músico e professor universitário da Usp, relembrava o menino da cidade da Bahia. Aquele ato poético, sob testemunhas de ativistas do Coletivo de Entidades Negras, ficou incorporado para sempre ao sentimento do mundo do poeta mineiro.

Assim como faz parte da mesma maquinação drummondiana a canção que o pernambucano Paulo Diniz fez do mesmo poema em 1974 para tocar no rádio. Do andaime das construções aos cabarés do interior do país, estava lá a pergunta pendurada no cocuruto dos populares: “E agora, José?”

Maria igualmente não faz ideia da resposta. Quem sabe que mande a sua mensagem a este cronista. Sabemos que as pragas do bolsonarismo― com a ajuda do Centrão e de todo o condomínio do golpe ― fazem um estrago da Amazônia ao chão da fábrica. A “Ponte para o futuro”, louvada nos jornais nacionais e provincianos, deu no país das precariedades e acelerou a multiplicação de Pedros Balas ― o chefe dos capitães da areia de todas as metrópoles.

Repare nos olhos de Vitor ao perguntar, acenderam a luz vermelha. Sinal fechado para nós. Não era apenas um pressentimento, é possível ver ainda, no replay, o carro da história no reflexo no olho do menino da Bahia. E agora, José? E agora, todo mundo?

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (Companhia das Letras) e faz o podcast “No Balcão”, na plataforma Orelo.

domingo, 29 de novembro de 2020

Xico Sá critica a grande mídia corporativa (Globo, Folha, Estadão) por fazer vistas grossas e não investigar o PSDB em São Paulo: “na onda contra o PT era uma corrida maluca”

 

Sá fez uma postagem em seu Twitter criticando a falta de ímpeto da grande mídia em investigar o PSDB em São Paulo, onde a campanha de Covas é acusada de distirbuir cestas básicas e auxílios pouco antes das eleições

(Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247)

247O jornalista e escritor Xico Sá fez uma postagem em seu Twitter criticando a falta de ímpeto por parte da grande mídia em investigar possíveis crimes cometidos pelo PSDB. Em específico, Sá criticou essa postura em relação às alegações de compra de votos pela campanha de Bruno Covas à Prefeitura de São Paulo.

“Por que nem um grande repórter, do primeiro time da mídia de SP, foi escalada ou se escalou pra investigar a compra de votos do Psbd de São Paulo? (sic)”, questionou.

Confira a postagem abaixo:

O conhecimento liberta. Saiba mais

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Do El País: O golpe nos feios, sujos e malvados, artigo de Xico Sá


Do El País:

Você ai, amigo, não se faça de frio ou desentendido, sem esse papo de reforma sem mexer com os podres de rico... Assim é fácil



Michel Temer, nesta quinta-feira.  EFE
Tento voltar a ser um cronista do amor lírico e louco, mas sempre vem uma notícia ruim e me faz seguir no relato da poeira das ruas, por supuesto. É preciso falar dos feios, sujos e malvados que morrem de morte morrida muito antes de qualquer previdência pública ou privada, muito antes da média das estatísticas, antes dos cálculos dos burocratas, no país onde os meninos cortam cana-de-açúcar antes dos dez e os adultos morrem de morte matada na véspera dos trinta.
Você ai, amigo, não se faça de frio ou desentendido, sem esse papo de reforma sem mexer com os podres de rico, assim é fácil, assim vira manchete limpinha, assim não mexe com os banqueiros, muito menos com os barões da velha casa-grande, assim os comentaristas dos telejornais aplaudem, que lindos infográficos!, vamos cortar na carne, no osso, passa a motosserra, você aí, compadre, cai na metáfora do âncora bonitinho – uma família não pode gastar mais do que arrecada –, só que não sabe que essa economia nada familiar é apenas para pagar juros de uma dívida pública que não tem nada a ver com a sua vida, o seu sal, o seu açúcar, morô?
É o jogo das ilusões, também já cai muito, se liga.
Rasgue esse carnê da dívida eterna, se revolte, vamos à rua contra esses pestes, tente entender melhor o noticiário que é a favor dos ricos e de quem faz dinheiro à sua custa, juro, juros, não importa a cor do partido, o que você tem a ver com quem sempre viveu da sua audiência e agora tenta apenas dividir contigo a velha culpa? Se ligue, cuidado com o truque, quanto mais carece de comentarista mais ilusionismo, mude de canal, please, melhor conversar na esquina.
Não estou aqui de passagem, estou desde 1962, por que tentam aplicar o varejismo do golpe, um dentro do outro, mesmo sabendo que nossas fatigadas retinas estão cansadas de golpismos?
Ah, tá, porque a agenda econômica bate com a superstição neoliberal da hora, que bonito! Aí vem o milagre. A mesma crença unânime da mídia brasileira convencional de que bastaria o vice-traíra assumir no lugar da Dilma para tudo ficar cor-de-rosa. Isso foi vendido página a página, coluna a quinta-coluna. Assim se construí, conta a conta do rosário golpista, o que vivemos agora.
Sim, as instituições estão funcionando, me diz aqui o Ubu-Rei, perdão, o supermacho Alfred Jarry, o filósofo da patafísica, a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções. Lindo.
Óbvio que mesmo a lógica patafísica é infinitamente mais razoável do que o pensamento da legião que caiu no conto do patinho amarelo da Fiesp do sr. Skaf, pego de calça curta na delação da Odebrecht. Propina braba além do caixa 2. Senhor de escravos modernos da Paulista é isso aí, que beleza, isso dá capoeira na senzala. Bonito.
Não, não vamos rir agora, nem por último, nem por escárnio de saber que hoje só vale a obsessão Lula qual a bíblica cabeça de São João Batista.
Ah, jamais vale a lógica (patafísica?) de saber que o Brasil dos corruptos, sem nenhum distanciamento odebrechtiano – expressão que cunhei quando fiz minhas primeiras reportagens sobre o inocente setor das empreiteiras durante o governo FHC – jamais será punido por inteiro. Só a parte manjada e encarnada. A essa altura da madruga, amigos, sou testemunha ocular da história, o senador Aécio Neves, tucano mineiro, toma tranquilamente o seu uísque no Leblon, Rio de Janeiro. Quem tem amigo no poder Judiciário brasileiro tem tudo! Acho chique!
Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Josué de Castro -por um mundo sem fome”, entre outros livros. Na televisão, é comentarista dos programas “Papo de Segunda”(GNT) e “Redação Sportv”.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Xico Sá e as ilusões perdidas sobre o jornalismo, por Paulo Nogueira


Que jornalismo é esse?
"Juro: : ñ vou brigar + c/ essa ideia de jornal ser fdp e só publicar dum lado. Dane-se. A escolha agora é essa. Aqui se despede o idiota q achou q jornal é feito p/ relatar minimante a realidade. Aqui morre o ex repórter com essa crença. Talvez nunca tenha sido… Nunca foi, mas acreditei e fui repórter com essa crença."


Poucos textos retratam tão pungentemente o estado miserável do jornalismo brasileiro como este de Xico Sá, postado neste final de semana no Facebook.


Mais que uma simples postagem, é um manifesto, um desabafo, um grito de angústia e de impotência.


Desde que saiu da Folha, depois que o proibiram de escrever em sua coluna um texto de apoio a Dilma, Xico Sá se tornou um dos mais vigorosos críticos da imprensa.


Foi como se ele tivesse acordado, enfim, para uma realidade que já não era nova.


Muitas vezes você tem que se afastar do ambiente tóxico das redações das grandes empresas jornalísticas para poder enxergar o horror noticioso que se produz ali.


A frase mais tocante de Xico é aquela em que ele admite que sua visão idealista de jornalismo — relatar as coisas como ela são — não tenha sido mais que uma ilusão.


Ele como que se sentiu traído. O objeto de sua paixão, o jornalismo, subitamente lhe pareceu um monstro.


Sou da mesma geração de Xico. Assim como ele, me decepcionei profundamente com o jornalismo das corporações.


E me fiz a mesma pergunta já faz tempo: foi sempre essa coisa abjeta? Joguei fora tantos anos de minha vida para alimentar uma indústria interessada em saquear o Brasil e manipular os brasileiros?


A resposta é não.


O jornalismo brasileiro nem sempre foi indecente. Ao longo da história, havia duas forças que se contrapunham nos jornais e nas revistas. Surgia daí um atrito positivo do qual resultava um conteúdo rico, plural, complexo.


Uma força era a dos donos, conservadores. A outra era a dos chefes das redações, habitualmente progressistas.


Dois exemplos se destacam. A Folha nos tempos em que era dirigida por Claudio Abramo e a Veja quando editada por Mino Carta. Claudio e Mino funcionavam como contrapontos aos Frias e aos Civitas. Nestas condições, a Folha foi um grande jornal e a Veja uma grande revista.


O equilíbrio se perdeu quando Lula ascendeu ao poder. Os donos da mídia aparelharam seus veículos. Não havia mais lugar para Claudios Abramos ou Minos Cartas como diretores de redação.


O passo seguinte foi aparelhar também as colunas. Foram sendo afastados colunistas de esquerda. E se multiplicaram os colunistas que escrevem o que os patrões querem que seja publicado.


O primeiro caso notável foi o de Diogo Mainardi na Veja. Na mesma Veja, logo depois surgiu, no site, Reinaldo Azevedo.


Os espaços, na mídia toda, foram rapidamente ocupados por equivalentes de Mainardi e Azevedo. De Villa a Sardenberg, de Constantino a Augusto Nunes, de Setti a Noblat, foi uma enxurrada de colunistas patronais.


Perdeu-se o debate. Perdeu-se o equilíbrio. Perdeu-se a pluralidade.


No lugar disso tudo, emergiu o jornalismo ao qual Xico Sá se refere.


Mas Xico não deve se entregar a sentimentos depressivos. Se ele parar para refletir em sua carreira, vai ver que nunca escreveu coisas tão importantes quanto estas que tem publicado nas redes sociais sobre a mídia.


A posteridade, quando for examinar o papel da imprensa nestes tempos, vai ter uma preciosa fonte de informações em Xico Sá.

Paulo Nogueira
No DCM (também postado no Contexto Livre)

domingo, 7 de junho de 2015

Artigo de Xico Sá, no El País: "Carta ao Dr. Sócrates"


"Só quero lhe dizer, Magrão, que a coisa aqui está careta, sobra quase nada de maluquice e o país só faz curvas perigosas à direita..."

"O pastoril está cada vez mais sacro e nada profano, melancólico, e o Velho Faceta e suas gostosas pastoras deram lugar aos pilantras profissas, falsos profetas que enganam os pobres em nome de línguas de Pentecostes. Ladrões da fé da massa."


Carta ao doutor Sócrates sobre o Brasil careta


Autor: Xico Sá
Extraído do El Pais

Sim, doutor, aqui na terra vão jogando futebol, tem muito mimimi, muito samba e rock'n'roll, só quero lhe dizer, Magrão, que a coisa aqui está careta, sobra quase nada de maluquice e o país só faz curvas perigosas à direita. Rapaz, que fase, que doideira, que merda, desculpa ai, família brasileira, que indecência.

Mas veja que do caralho: o Blatter, da Fifa pediu o boné, caiu fora, Marin está preso (leia mais adiante doutor) e o Del Nero tenta, no máximo, um golpe para ficar no poder da presidência da CBF. Sem chances. Qualquer negociata, e não são poucas, do Marin atingem esse infeliz de picaretagens tantas ainda na direção da Federação Paulista de Futebol.

No que digo, amigo Sócrates, logo você, irmão, que viu como a ideia de Democracia Corinthiana no gramado foi mais pedagógica do que mil horas de sala de aula de Educação Moral e Cívica dos assassinos da Ditadura, logo você, a própria ideia de utopia com a camisa número 8 mais genial de todos os tempos, logo você, Magrão, saiba que o Brasil encaretou de vez, que erro, que passa?

Óbvio que temos nos falado nos terreiros, como naquela madruga (rindo até agora) em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, lembra que deu até de calcanhar na bola da criança que passou entre nós, aquele menino com a camisa do Barcelona? Sim, Magrão, aqui na terra estão jogando futebol e os guris não lembram mais dos nossos times, só pensam em Champions League, repare no tamanho do prejuízo histórico.

Aqui vai mais uma cartinha, velho, desculpa este nordestino desgraçadamente epistolar, rapaz. Nada como uma carta de amor ou amizade, Magrão, só uma carta transmite, pelas maltraçadas linhas, o real sentimento dos homens que perderam amigos... Amigos cujas ausências desmantelaram uma narrativa de estar no mundo. Quando partiu, doutor, vaguei perdido por São Paulo uns dez dias, procurando fiapos dos nossos assuntos e ideias das nossas crenças e motivos. Sentava ali na Mercearia São Pedro e o esperava... Naquela mesa está faltando ele... E a saudade dele... Está doendo em mim... Que falta faz a esse Brasil caranguejo que só cisca para trás!

É, caro amigo Sócrates, o jogo anda truncado: o avanço ficou para as cucuias, lá nas primeiras gestões da turma do cordão encarnado (vermelho), nesse imenso pastoril brasileiro. O cordão azul hoje deita e rola. O pastoril está cada vez mais sacro e nada profano, melancólico, e o Velho Faceta e suas gostosas pastoras deram lugar aos pilantras profissas, falsos profetas que enganam os pobres em nome de línguas de Pentecostes. Ladrões da fé da massa.

Desculpa, doutor Sócrates, nem gosto de ser tão incisivo assim; penso logo na minha mãezinha hoje evangélica, assim como metade da família. Mas é que reparo em cada picaretagem pseudo-pentecostal que só vendo, amigo. Avimaria. E a crise econômica faz dos falsos profetas mais filhos da puta, perdão, ainda, eles amplificam a demonização sobre os costumes. Vivem da ideia do diabo, este sim um inocente que não tira um centavo da pobreza brasileira, amém. Nunca precisamos tanto do diabo como agora. O diabo é o único que não cobra pedágio, mesmo que o usem para roubar a pobreza.

Contradições Futebol Clube

E o festival de contradições de sempre movendo a história, doutor Sócrates: o governo supostamente de esquerda com cartilha pelo avesso, Quinca Mãos de Tesoura cortando tudo e a direitona, que deveria amar filosoficamente a tesourada, chiando pacas, dá pra entender? Tudo na base do farinha pouca meu pirão primeiro. Que classe média fuleira na filosofagem da existência.

Quinca Mãos de Tesoura, estou fora. Por essas e por outras é que eu sigo devoto do meu santo Quincas Berro D´água, o velho-menino baiano por excelência, o branco dos olhos tingido de vermelho por brasas do delírio, coração maneiro, o jeito leve de pedir passagem a quem de fato. Só respeita os orixás e os deuses que dançam! Certíssimo, grande Jorge Amado, o autor baiano que nos deixou um legado de travessuras e possibilidades de reinvenções. Como a ideia do Brasil que apostamos, o Brasil perdido que buscamos...

Quero os clichês do Brasil de volta, camarada. É tudo que peço e rogo, Magrão. O pior que aconteceu é que roubaram até nossos clichês, como um país cordial —leia o belo artigo do Luiz Ruffato aqui mesmo neste jornal. Pela volta dos clichês, pois somos bons nisso, somos um povo alegre e inzoneiro, como a canção popular nos fez ouvir nos tantos benditos. E não perdemos de tudo isso, baita erro também achar que o Brasil é só violência e estatísticas negativas. O Brasil, contradições à parte, é do caralho, país incrível.

Corinthians, de novo

Porra, doutor, viu, viste o Corinthians? Sei que tinha, tinhas, algo melhor para fazer nesse baile pós-vida e mais-valia na poeira das estrelas. O mais maluco, amigo, o Grêmio jogando um futebol bonito até os dez minutos do primeiro tempo. Esquece. Segue o jogo, o Milton Leite, nosso narrador, te manda um abraço. Aqui na terra vão jogando futebol... Grêmio 3x1, doutor, esquece.

Magrão, te contei não? O Blatter renunciou, juro! José Maria Marin (ex-CBF), aquele que dedurou o camarada Herzog ainda na Ditadura Militar, está em cana. Xadrez suíço como a grana naturalizada dele, mas já é alguma coisa. O resto, fala com o nosso amigo Juca Kfouri, ele dá a letra, Juca é o responsável por não desistirmos nunca de tais apurações. Fala com o Juca, ele te conta tudo, sabe que sou mais do discurso dos fragmentos amorosos...

Magrão, falar nisso, vi uma mulher hoje na tua barraca em Copacabana, vixe, que, sei lá, que aniquilamento da humanidade. Danada. A barraca “Doutor Sócrates” está de pé no posto 6, mas nem sempre, o dono é sábio, acredita, como a gente, no ócio criativo. Porra, doutor, que saudade, mas sem mimimi, por supuesto, fui lá naquele terreiro de Duque de Caxias só pra gente não se perder de vez de vista, a poeira das estrelas é uma maluquice ai por onde fez morada, fez, fizeste.

Brasil careta, desgraça

Doutor, mas sabe qual é a pior? Não que fôssemos tão cordiais e avançados assim, mas como o Brasil ficou careta. O país voltou para o armário recomendado ainda nos tempos dos padres jesuítas e seus colégios. Magrão, vê que aliança maluca, digo uma aliança simbólica: o pior dos jesuítas que abriram o caminho religioso para os bandeirantes assassinarem índios agora se unem, sem saber sabendo, com a cruzada evangélica a favor do extermínio dos de menores, principalmente menores pretos, pobres, favelados —os novos índios.

Não que fôssemos tão cordiais e avançados assim, mas como o Brasil ficou careta. O país voltou para o armário recomendado ainda nos tempos dos padres jesuítas e seus colégios
E prendam os suspeitos de sempre, como dizia nossa filósofa Hannah Arendt, me sopra aqui minha amiga Pinky Wainer. E matem, quem se importa com essa gente?

Os pentecostais do Congresso Nacional (não os protestantes legítimos que amam a Deus) estão para a matança de pretos, pobres e favelados assim como os jesuítas estavam, de alguma forma, para o extermínio indígena.

Se ficou difícil entender, eu só queria dizer uma coisinha de nada: como alguém religioso pode ser a favor da morte de meninos, como essa cruzada? Desistiram de educa-los? Os jesuítas, por mais dissimulados que fossem, pelo menos fingiam, doutor Sócrates, que acreditavam na educação e nos deixaram alguns exemplos e colégios caríssimos.

Estamos lascados, Magrão, sabe da parada do anúncio do Boticário, né? Um anúncio de amor sobre o dia dos namorados. Mó escândalo. Uns falsos evangélicos (isso não procede como protestante de verdade!), caras que sabem que ganham votos com essa ideia escrota, amparada numa falsa interpretação da Bíblia. Quem manda a imprensa brasileira, na crença supersticiosa e obsessiva de derrubar Dilma, dá essa corda toda aos Cunhas sem culhões da vida!

Ah, doutor, falo só por falar, sabe mais que ninguém cuma é a parada, vamos em frente. Nos vemos logo adiante, mas que a caretice e a escrotidão imperam, não há menor dúvida. Resistimos. Beijos, que saudade, Francisco.

Xico Sá é autor de “Chabadabadá –aventuras do macho perdido e da fêmea que se acha” (editora Record), entre outros livros.