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domingo, 29 de dezembro de 2024

Entrevista: Banco Central é autônomo do Executivo, não da Constituição econômica, diz representante da banca que acionou o STF contra golpistas do BC atrelados aos bancos privados e à Faria Lima

 

Do Jornal GGN:


Ao GGN, advogada explica ação no STF para fazer Copom considerar interesses econômicos da sociedade na definição da Selic; assista



Entrevista: Banco Central é autônomo do Executivo, não da Constituição econômica, diz representante da banca que acionou o STF

O Banco Central é uma instituição autônoma dos interesses políticos do Poder Executivo, mas não é autônomo em relação à Constituição econômica, porque é um órgão de Estado e, como tal, deve obediência aos parâmetros constitucionais. Nesse sentido é que deve observar também os objetivos fundamentais da República brasileira, inclusive, o da redução da desigualdade e da erradicação da pobreza. Esses valores devem ser considerados na definição da taxa básica de juros (Selic) pelo Copom (Comitê de Política Monetária).

O entendimento acima é o ponto central da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceitos Fundamentais) apresentada pelo partido PDT ao Supremo Tribunal Federal. Representante da banca que assina a ação – Walber Agra -, a advogado Nara Cysneiro falou com exclusividade ao GGN sobre a iniciativa que visa promover um debate institucional que reconheça a omissão do Banco Central em definir parâmetros transparentes e mais plurais do que apenas observar as expectativas do mercado financeiro na definição da Selic pelo Copom.

“Nosso propósito não é que o Judiciário se substitua à autoridade monetária. Nosso propósito é que o Judiciário promova o estabelecimento de critérios objetivos para que as decisões do Copom atendem à Constituição econômica. Não queremos que o STF passe a fixar a Selic. O que queremos é que o STF determine ao Banco Central que considere valores como, por exemplo, a manutenção de postos de trabalho como [valores] relevantes para a tomada de decisão”, disse Nara Cysneiro em entrevista ao jornalista Luis Nassif, na noite de quinta (26).

“Não tiramos nada disso da cartola, isso é parâmetro constitucional para qualquer órgão público. O Banco Central é autônomo do Poder Executivo, mas não é autônomo em relação à sociedade brasileira e à Constituição Federal. Ele ainda é órgão de Estado e, portanto, deve obediência às regras constitucionais“, acrescentou.

O GGN teve acesso à ação de 60 páginas, que foi apresentada ao STF no dia 23 de dezembro. A peça questiona não a taxa Selic em si, fixada em 12,5%. O que está em jogo são os parâmetros utilizados atualmente para a tomada de decisão, que tem como principal baliza o boletim Focus.

“O Boletim Focus reflete a expectativa de um mercado específico: ele representa a expectativa do mercado financeirizado, especulativo. Mas no plano mercadológico há ainda o mercado produtivo – indústria, comércio e setores produtivos – que sofrem com o aumento da taxa Selic. Quando falamos em parametrização dessa decisão, é claro que admitimos que tem de se levar em conta o mercado financeiro, que financia muitas atividades. Mas também é preciso levar em conta a expectativa de outros mercados econômicos brasileiros. Estamos falando de ‘retirar a exclusividade de expectativa’ e ampliar a margem de discussão sobre o quanto essa taxa deveria favorecer os objetivos que a Constituição”, defendeu Nara Cysneiro.

Na visão da representante da banca Walber Agra, “no processo de fixação da taxa básica de juros, é preciso que se considere – para além das expectativas do mercado financeiro – outras expectativas que estão no parâmetro constitucional. Estamos falando de estabilidade de postos de trabalho, de desenvolvimento industrial nacional; dos impactos que essa taxa impõem ao orçamento fiscal, portanto, à capacidade de pagamento da dívida pública e sua trajetória sustentável. Estamos falando sobre crescimento econômico, erradicação da pobreza, desigualdade social”, apontou Cysneiro.

Assista a entrevista completa abaixo:

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quinta-feira, 20 de junho de 2024

Como o vampiro "deus" mercado (o financeiro dos bancos e da grande mídia empresarial) mantém o BC refém, por Luís Nassif

 

O que se percebe é que, no andar da carruagem, o país chegará em fins de 2025 com a Selic roçando os dois dígitos ainda, a economia estagnada e a mídia alimentando o monstro do bolsonarismo de volta.


Não adianta a retórica inflamada de Lula, isoladamente. A armadilha dos juros é muito mais complexa.

O grande mercado rentista, formado nas últimas décadas, exige altas taxas da Selic. E vai exigir cada vez mais, por um moto contínuo. Altas taxas de juros mantém a economia estagnada. Juros altíssimos reduzem o mercado de consumo e a possibilidade de crescimento das empresas do setor real da economia.

Para manter a rentabilidade, o capital financeiro recorre à compra de estatais por valores depreciados. Quando esse processo começa a se esgotar, apela-se, agora, para privatização de gestão de escolas, vendas de companhias de saneamento. Mas o estoque está se esgotando. Então, restam os ganhos proporcionados pela dívida pública.

Mais que isso.

Grosso modo, pode-se dividir o país entre tomadores de crédito e detentores de capital. O modelo atual sangra consumidores e empresas com as mais altas taxas de juros do mundo. Mas conseguiu-se o feito inédito das vítimas endossarem o discurso dos opressores. É só conferir a manifestação de associações empresariais, alertando para os rumos da situação fiscal – em um momento em que se discute meio ponto de resultado nominal. 

Em 2023, segundo o Banco Central, cada ponto percentual de elevação do resultado nominal representava, em média, R$ 24,5 bilhões em impacto anual nas contas públicas. Meio ponto – os 0,5 em torno dos quais armou-se esse cabo de guerra – representa R$ 12,25 bilhões. Esse montante e equivale a 0,2 pontos percentuais na taxa Selic. Ou seja, se a Selic caísse de 10,5% para 10,3%, a economia seria equivalente a tudo o que se pretende de resultado nominal.

Só há um nome para isso: loucura coletiva! E aí entra a cartelização do mercado de taxas no Brasil. Ele se move exclusivamente pelo efeito manada. Todo o trabalho dos analistas consiste em prever para onde vai a manada. E a manada vai para onde acredita que o Banco Central vai.

Até semanas atrás, o clima era de otimismo com a economia, fundamentos fortes, inflação sob controle. A discussão era se a Selic continuaria caindo 0,5 ponto ou 0,25 ponto por reunião. Aí, Roberto Campos Neto dá um sinal em direção contrária. A manada começa a inverter a direção. E, graças ao poder de cartel, consegue amarrar completamente o Banco Central, a ponto de ele manter a Selic inalterada por decisão unânime.

Coloque-se no papel do grupo indicado por Lula. Se racham a decisão, criam motivo para o mercado se inquietar, puxando o dólar e as taxas futuras para cima. Derruba-se 0,25 da Selic e, em troca, enfrenta-se um aumento das taxas futuras, que se refletem diretamente nas taxas de empréstimo. E, depois, puxam o dólar para cima, impactando os preços dos produtos comercializáveis. Há um nome para isso: chantagem.

Para evitar as turbulências de curto prazo, curvam-se então ao mercado, e mantém-se a Selic no patamar de dois dígitos. A chantagem de Campos Neto sai vitoriosa.

Esse circuito de chantagem só terminará a médio prazo, quando assumir a presidência do BC um economista respeitado e responsável que injete gradativamente bom senso no mercado. E quando Lula acordar para a necessidade de montar grupos de trabalho para preparar a nova economia, abrindo possibilidades para o capital financeiro buscar outras alternativas e deixar de pressionar a Selic.

O que se percebe é que, no andar da carruagem, o país chegará em fins de 2025 com a Selic roçando os dois dígitos ainda, a economia estagnada e a mídia alimentando o monstro do bolsonarismo de volta.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Para entender a crise política e a influência deletéria de um novo Cunha 2 chamado Arthur Lira, por Luís Nassif

 

Do Jornal GGN:


Ainda há um árduo caminho pela frente. Mas a anulação da influência deletéria de Lira acende uma luz no caminho da recuperação da economia.



Publicado em 


O primeiro passo é entender a lógica do Congresso – que foi bem explicada por Fernando Gabeira, na Globonews.

Antes, com financiamento privado de campanha, os parlamentares dependiam dos lobbies privados. Com o financiamento público, um caminhão de dinheiro passou a jorrar dos cofres públicos. E, a partir das brechas abertas pelo bolsonarismo, passaram a disputar dinheiro de emendas e a pretender controlar o orçamento.

Nesse quadro, passaram a se comportar corporativamente como sindicalistas. Ou seja, quando se trata de buscar verbas do governo, há um momento majoritário no Congresso. É desse corporativismo que se prevalece o presidente da Câmara Artur Lira.

A explicação para por aí.

O segundo tempo do jogo é na hora de disputar espaço político, cargos nos ministérios e organismos federais. Aí ocorre a disputa entre os diversos grupos de parlamentares. Lira lidera um grupo do Centrão, Gilberto Kassab outro, Valdemar da Costa Neto outro. Lira não representa mais a maioria. Mais: quem tem poder de indicar é o dono da caneta, e ele é o presidente da República.

Foi o que Lula fez, pondo-se a campo e negociando a aprovação da Medida Provisória dos ministérios. A diferença graúda de placar não pode ser atribuída a Lira, mas à negociação por bloco de influência. Foi vitória de Lula.

Daqui para frente, entra também um segundo personagem no jogo: o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal. A pronta ação de Dias Toffoli, liberando para julgamento um caso antigo de Artur Lira, comprova que o Supremo acordou para o perigo representado por Lira.

Ele se vale da chantagem e da falta de limites. Caso consolidasse seu poder na Câmara, poderia aprovar leis desestabilizando a democracia, como ocorreu com o impeachment de Dilma Rousseff, articulado por seu alter ego, Eduardo Cunha. As Forças Armadas atuam apenas quando outros poderes abrem espaço. Foi assim com a operação de Garantia de Lei e Ordem, com Temer, ou com as inúmeras intervenções no governo Bolsonaro.

Daí a necessidade premente de anular a participação deletéria de Lira no jogo político. Não será difícil. Nas últimas semanas, ele cometeu um erro político básico: externalizou de maneira imprudente sua gana por poder. Sempre que isso ocorre, acaba por tornar-se alvo das demais instituições.

Até agora, o emburrecimento das redações fez com que, em um primeiro momento, a maior parte da cobertura celebrasse a perspectiva de derrota de Lula, sem se dar conta de que uma vitória de Lira seria contra todo o país institucional. Como a mídia leva dias para entender o novo quadro, gradativamente, Lira irá se tornando inimigo público número 1.

A prisão de seu braço direito, com 5 milhões de reais em dinheiro vivo – em operação de ontem da Polícia Federal – facilitará a implosão de sua cidadela.

Mantida essa dinâmica, anulado Lula, o segundo problema do país são os juros do Banco Central. Os últimos dados estão gerando uma pressão generalizada contra Roberto Campos Neto por parte de todos os setores da economia e da política. Ele acabará cedendo. O mercado continua apostando em uma Selic acima de 12 pontos até o final do ano. Cabeças mais realistas apostam na Selic de um dígito.

Acelerando a queda da Selic, há possibilidades concretas de aumento da atividade econômica, permitindo ao país sair da armadilha atual, na qual grandes grupos nacionais estão ameaçados de inadimplência.

Ainda há um árduo caminho pela frente. Mas a anulação da influência deletéria de Lira acende uma luz no caminho da recuperação da economia.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

O Banco Central nas mãos de biolionários, o ratinho de Pavlov e Campos Neto, o homem de Bolsonaro, por Luís Nassif

 

Qualquer intenção de colaboração entre Fazenda e Banco Central será atrapalhada pelas convicções bolso-mercadistas de Campos Neto.

Jornal GGN:


O que esperar do Banco Central no relacionamento com um governo desenvolvimentista?

A ideia do Ministro Fernando Haddad, da Fazenda, não é o confronto, mas o de implementações que transformem o BC em uma instituição minimamente autônoma?

Como assim, não é um BC independente? Em relação ao governo, sim; em relação ao mercado, sua posição é de total subserviência.

O mercado define as expectativas de inflação, através do Copom. Também define o nível do câmbio, através de uns poucos players com grande poder de fogo e articulação típica dos ambientes cartelizados. Opera o mercado futuro de taxas de juros, sem a menor interferência do Banco Central. 

Controlando as expectativas de inflação, de taxa longa de juros, facilmente induz o Banco Central a operar a Selic na direção pretendida. 

Ué, mas o BC não tem discernimento próprio para definir políticas monetárias autônomas?

Não. O BC foi treinado para operar taxas como o ratinho de Pavlov. Se a expectativa de inflação do mercado sobe, suba-se a Selic. Se as taxas de juros longas operadas pelo mercado sobem, aumenta-se a Selic. Se o governo anuncia a mera intenção de desenvolver o país, o BC solta uma Nota alertando que as expectativas se deterioraram e haverá nova alta dos juros.

Não há nenhuma curiosidade, nenhuma competência técnica para entender os efeitos da cartelização no ambiente de negócios do mercado de taxas ou na formação de expectativas pelo mercado, ou mesmo um mínimo de responsabilidade para entender os impactos dessas decisões sobre emprego, renda, saúde, infraestrutura. O BC é um aquário com uma porta giratória.

Por tudo isso, provavelmente três ideias estarão na mesa para que o BC passe, efetivamente, a atuar como uma instituição independente:

  1. O BC passar a atuar no mercado de câmbio, para impedir oscilações especulativas.
  2. O BC passar a atuar no mercado de taxas, definindo a estrutura de taxas, em vez de deixar nas mãos do mercado.
  3. Alguma mudança no sistema de recompra, no uso de títulos públicos para monitorar a liquidez da economia.

Aí, então, espera-se que o ratinho de Pavlov possa se mover ante novo modelo de formação de expectativas.

O passo final e definitivo, para evitar o poder deletério das políticas monetárias, será a volta ao controle dos capitais, a retomada de princípios de Breton Woods, impedindo o jogo escandaloso de moedas. Maas ainda não é tema no radar da equipe econômica.

O papel de Campos Neto é nítido. Ele se aconselha com o mercado, como admitiu o próprio André Esteves em seminário no seu banco, o BTG Pactual.

Na outra ponta, tem mostrado total falta de compromissos no trabalho com a Fazenda. Conforme a repórter Malu Gaspar, em O Globo, 

Segundo ela, “quando Lula decidiu que falaria na Argentina sobre o plano de lançar uma moeda comum, (…) o ministério, então, pediu ao BC que enviasse um relatório com informações sobre esse mecanismo para subsidiar o trabalho. Mas não recebeu resposta nenhuma. Depois disso, o ministério tentou fazer reuniões com o BC para discutir detalhes do pacote fiscal do governo e outras medidas em estudo. Mas Campos Neto não teria participado, porque estava no exterior”.

Na véspera da divulgação do comunicado, Galípolo e Haddad chegaram a se reunir com Campos Neto e ouviram dele que não se preocupassem com os juros porque não haveria grandes surpresas. E o que se viu foi uma nota alarmista, bem mais do que o próprio tom do relatório do Copom.

Tudo isso, somado ao fato de Campos Neto participar de um grupo de WhatsApp com Ministros bolsonaristas, ter comparecido à posse de Tarcísio de Freitas no governo de São Paulo, ter ido votar de camisa amarela, reforçam a certeza de que se trata de um quadro bolsonarista plantado no coração da economia de Lula.

Ou seja, qualquer intenção de colaboração entre Fazenda e Banco Central será atrapalhada pelas convicções bolso-mercadistas de Campos Neto.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Os Brasil nas mãos dos dogmáticos e da máfia dos bancos, por Paulo Kliass


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Charlatanismo, interesses e cumplicidade da mídia: BC mantém taxa de juros e se omite diante dos abusos dos bancos. Desinformada, sociedade assiste


Do Outras Palavras:


Em 11 e 12 de dezembro realizou-se a última reunião do COPOM de 2018. Como sempre ocorre na sistemáticadesse tipo de encontro especial dos diretores do Banco Central (BC),muito deverá ser discutido a respeito da conjuntura econômica nacional e internacional, bem como a respeito dos impactos de tal quadro para as perspectivas futuras da economia brasileira. E, apartir daí, quais seriam as recomendações mais adequadas para balizar a política monetária, ou seja, qual o nível recomendado para posicionar a SELIC – nossa taxa oficial de juros.
É importante lembrar que a política monetária é apenas um dos diversos instrumentos de política econômica de que podem se valer os responsáveis dessa área do governo. Além dela, existem as ferramentas de política fiscal, de política cambial, de política creditícia, de política salarial, dentre tantos outros. No entanto, a corrente majoritária que tenta dar a linha para o pensamento hegemônico do financismo sempre insistiu — e ainda persiste — com a ideia de que a taxa de juros é essencial para resolver os problemas gerais de nossa economia. De preferência, desnecessário dizer, para esse pessoal que a taxa que eles mesmos praticam esteja sempre nas alturas.
Apesar de já guardarmos mais de 24 anos de distância em relação ao momento da edição do Plano Real, o fato é que o fantasma da inflação sempre volta à cena quando se trata de buscar argumentos que sustentem a loucura do patamar elevado dos juros que vigora  no Brasil desde aquele momento. Afinal, a inflação de 12 meses, às vésperas da divulgação das medidas em junho de 1994, estava próximaa 5.000%. Daí a necessidade emergencial mesmo daquele plano deestabilização monetária. Mas de lá para cá, a dinâmica de crescimento dos preços esteve praticamente sob controle. Tanto que apartir de 1997 até 2018, em apenas 17 dos 264 meses houve uma inflação de 12 meses superior a 10%. E aqui são confundidos, de forma proposital, dois aspectos distintos da mesma questão.

BC dominado pelo financismo.

O primeiro refere-se à arbitragem de um nível da taxa de juros oficial, como mandam os manuais conservadores de macroeconomia radicional. Se uma determinada sociedade vê-se às voltas com um processo de alta de preços, esse fenômeno nada mais significaria do que a expressão de um desequilíbrio entre oferta e procura, em termos agregados para o conjunto da economia. Assim, a solução passaria por reduzir a pressão da demanda, para que os preços retornassem a um patamar dito “de equilíbrio”. Esse objetivo seria atingido pela redução do ritmo das atividades da economia real ou produtiva em geral. Nesse mundo idealizado da ortodoxia, os tais dos agentes econômicos se sentiriam atraídos pela maior rentabilidade dos ativos financeiros — em função da maior taxa dejuros — e assim trocariam o desejo de consumo imediato pela colocação de seus recursos em poupança.
O segundo aspecto do problema está relacionado ao mundo real e verdadeiro, ao universo das relações de troca econômicas e mercantis. E aqui o elemento a ser considerado não é mais apenas o patamar arbitrado da taxa oficial de juros, como a SELIC, mas sim a forma como essa variável é cobrada pelos bancos e demais instituições financeiras em suas operações rotineiras junto à clientela. Sim, pois a taxa oficial sempre atua como um ponto de referência mínimo para formação das demais taxas de juros no conjunto de setores e ramos. Afinal, nenhuma empresa ou instituição gostaria de receber como remuneração financeira um rendimento mais baixo do que o mínimo oferecido pelo Tesouro Nacional para seus próprios títulos da dívida pública. E, nesse caso, o BC deveria atuar como órgão regulador do sistema financeiro e coibir a prática desses “spreads” abusivos, que tão bem caracterizam o mercado oligopolizado de nossos poucos mastodontes das finanças. Mas a instituição esteve quase sempre dominada pela lógica dos interesses da banca e não do restante da sociedade. Daí sua bem conhecida cara de paisagem frente a essas práticas históricas de espoliação despudorada.
Mas os integrantes do COPOM devem ter recebido um extenso relatório preparando a reunião dessa semana, onde um dos pontos relevantes certamente terá sido a divulgação do índice oficial de preços para novembro. O IPCA para esse mês foi negativo em -0,21%. Assim, a inflação acumulada dos últimos 12 meses ficou em 4,05% — ou seja,abaixo do centro da meta oficial de 4,5%. Isso significa que há um enorme espaço para redução da taxa oficial de juros. Como havia ,aliás, há muito tempo e nem por isso os membros do comitê se sensibilizaram com a necessidade de estimular a retomada do crescimento do PIB. O Brasil atravessa a maior recessão de sua História e o COPOM manteve a SELIC em 6,5% desde o início de 2018.Talvez aceite reduzir um pouco agora, mas já é muito tarde. O estrago vem sendo feito desde sempre.
Esse povo da refinada elite financista adora tecer loas aos mecanismos da economia dos países ditos mais desenvolvidos. No entanto, eles se esquecem de mencionar que os Estados Unidos e a União Europeia, por exemplo, lançaram mão de uma política monetária de juros próximos a zero ou mesmo negativos para superar a crise de 2008/9. Exatamente! Pode até soar um pouco estranho para uma sociedade que se tornou viciada em rendimentos financeiros elevados, como a nossa. Mas foi isso mesmo que o FED e o BCE fizeram durante um bom período. Juros negativos significa o contrário do que se pratica por aqui: um desestímulo explícito às aplicações financeiras e parasitas. Com isso, a intenção era incentivar as in iniciativas geradoras de investimento, produção e emprego. Isso porque até mesmo os liberais conservadores por lá sabem que a saída de qualquer crise com pitadas de recessão passa pela recuperação do crescimento da economia

Necessário reduzir bastante a SELIC.

Ora, nessas condições a tarefa do COPOM, do BC e do governo deveria ser a de promover uma redução expressiva na SELIC e também nos “spreads” extorsivos praticados pelo financismo. Exatamente por isso é que essa imbecilidade de “independência” do BC deveria, do meu ponto de vista, ser eliminada da agenda política e também dos grandes meios de comunicação. O nosso órgão regulador tornou-se independente na prática e não responde aos anseios da maioria da sociedade. O BC foi sendo sucessivamente tomado de assalto pelos banqueiros, como é o caso atual do Itaú (Ilan Goldfajn), mas como foi antes por Henrique Meirelles (Bank of Boston). Na verdade, é necessário um movimento com sinal oposto aos devaneios liberaloides: o Brasil precisa restabelecer a recuperação de mecanismos de controle social sobre a política monetária.
Mas as finanças dominam, de forma isolada, todos os espaços dedecisão. A cada semana o BC divulga os relatórios de uma pesquisa (Focus) sobre as perspectivas da economia. E combase nesse informe eles tomam suas decisões. Nas palavras do próprio órgão:

“A Pesquisa de Expectativas de Mercado foi iniciada em maio de1999, como parte da transição para o regime de metas para ainflação. Seu objetivo é monitorar a evolução das expectativas de mercado para as principais variáveis macroeconômicas, de forma a gerar subsídios para o processo decisório da política monetária.”
E a pergunta que não quer calar: afinal, quem participa dessa enquete? Se as decisões de política monetária são baseadas nesse tipo de informação, o perfil dos respondentes é essencial para seu resultado. Os jornalões adoram estampar manchetes do tipo “o mercado pensa”, “o mercado propõe”, “o mercado exige”. A página do BC nos diz claramente quem são os privilegiados convidados para esse banquete, sem rodeios e sem corar de vergonha:
“(…) apresentação de um resumo dos resultados da pesquisa de expectativas de mercado, levantamento diário das previsões de cerca de 130 bancos, gestores de recursos e demais instituições (empresas do setor real, distribuidoras, corretoras, consultorias e outras) para a economia brasileira, publicado toda segunda-feira”. (GN)
Ora, todos sabemos que a economia não é uma ciência exata. Na verdade, os clássicos como Smith, Ricardo e Marx chamavam esse campo do conhecimento de “economia política”, em razão de seu conteúdo eminentemente multidisciplinar e influenciado por variáveis de natureza histórica, social e política. Por isso é que seria razoável que fossem ouvidos também representantes de outras correntes de opinião da economia, a exemplo de professores de universidades e técnicos de instituições de pesquisa. Assim como seriam também muito bem vindas as contribuições de assessores das centrais sindicais e das associações patronais do mundo produtivo.
Mas talvez isso esperar demais de uma equipe que será comandada por uma figura do perfil de Paulo Guedes.









segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Luis Nassif discute o macarthismo como álibi para o lobby e o encobrimento de interesses e ações escusas...

"Já tinha anotado isso na série que escrevi sobre a revista Veja, anos atrás (https://sites.google.com/site/luisnassif02/). Cria-se primeiro o macarthismo. Depois, esconde-se atrás deles todas as jogadas. Basta revestir uma jogada comercial de anti-PT - como foi a parceria de Veja com Daniel Dantas - para justificar politicamente uma nítida jogada de apoio comprado. Basta reverberar o discurso anti-PT, como o faz Gilmar Mendes, para todas suas arbitrariedades jurídicas e comerciais serem ignoradas." - Luis Nassif


O macarthismo como álibi para o lobby


Texto de Luis Nassif, extraído do Jornal GGN


Já tinha anotado isso na série que escrevi sobre a revista Veja, anos atrás (https://sites.google.com/site/luisnassif02/). Cria-se primeiro o macarthismo. Depois, esconde-se atrás deles todas as jogadas. Basta revestir uma jogada comercial de anti-PT - como foi a parceria de Veja com Daniel Dantas - para justificar politicamente uma nítida jogada de apoio comprado. Basta reverberar o discurso anti-PT, como o faz Gilmar Mendes, para todas suas arbitrariedades jurídicas e comerciais serem ignoradas.
Mais que a Folha, o Estadão - que não é de jogadas - tornou-se  prisioneiro desse maniqueísmo fazendo o jogo mais primário de lobby do grupo de operadores que joga no mercado de taxas.
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Antes da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), tentou de todas as formas caracterizar as pressões pela redução da Selic como manobra do PT. Isso em um dia em que até o Prêmio Nobel de Economia, Jospeh Stiglitz, criticou a rigidez do BC. Recorreu à velha chantagem sobre o presidente do BC Alexandre Tombini, de que qualquer vacilo na definição da Selic seria tratado como rendição ao PT.
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Na véspera da reunião do Copom, quando Tombini acenou que a alta de juros poderia não se concretizar - invocando as projeções do FMI - o jornal escancarou suas páginas para que o mercado saísse batendo em Tombini. Inclusive com a velha jogada do hiperdimensionamento do episódio. O jornal supostamente entrevistou dois supostos ex-diretores do BC que supostamente teriam afirmado que nunca, jamais houve supostamente uma declaração tão inoportuna de dirigente do BC.
Enfim, no dia da reunião do Copom, Tombini foi reduzido a pó.
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Consumada a decisão de não aumentar os juros, o mercado - como se diz no jargão - "realizou o prejuízo", isto é, tratou de lamber as feridas e pensar no futuro. Pior que Tombini é o BC sem Tombini.
Na edição de hoje, essa obra prima da tergiversação, da parte do grupo da renda fixa, usando o jornal como cavalo de umbanda:
Uma das manchetes principais diz: "Manutenção do juros fortalece Tombini, diz o mercado". E o lide é um primor: "A decisão do Copom de manter a taxa de juros em 14,25% ao ano, enquanto o mercado esperava elevação, afetou a credibilidade do Banco Central, mas não enfraquece o presidente Alexandre Tombini, segundo analistas consultados pela Broadcast".
Entenderam? A força do BC – e do seu presidente – reside na sua credibilidade, já que seu poder é medido pela facilidade com que induz o mercado a caminhar na direção pretendida. Como pode a credibilidade do BC ter sido afetada e seu presidente se fortalecer?A explicação é um clássico do nonsense: "Ele está politicamente forte, já que a mudança de posição atende a uma pressão do governo". Como assim? O sinal de que uma pessoa está politicamente forte é sua capacidade de resistir às pressões. Se o suposto mercado acredita que Tombini cedeu às supostas  pressões, por definição ele está politicamente fraco.
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Não ficou nisso.
Pela undécima vez o jornal  espalha terrorismo sobre o câmbio com uma manchete incorreta: "O dólar atinge o maior valor desde o Plano Real". Mais uma vez trata valor nominal como valor real. É a mesma coisa que afirmar que a assinatura do Estadão atingiu o maior valor desde o Plano Real.
Qual a intenção desse jogo? Quem está conduzindo a redação é uma jornalista de economia de larga experiência. O jornal conta com três belos (e honestos) colunistas de economia: Celso Ming, José Paulo Kpuffer e Fernando Dantas.
Mesmo supondo que quem redigiu a manchete não domine a economia, ainda assim há o precedente de poucos meses atrás, em que o próprio jornal admitiu como incorreta a comparação de valores nominais do câmbio.
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