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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Texto de Luciano Martins Costa sobre uma mídia tendenciosa repleta de escribas e fariseus




ELEIÇÕES 2014

A imprensa dos escribas e fariseus


Por Luciano Martins Costa em 15/10/2014 na edição 820




   O cidadão que rastrear, na quarta-feira (15/10), as edições dos principais jornais de circulação nacional vai encontrar um texto interessante por sua clareza incomum, considerando-se o personagem e a circunstância de que trata. Diz o seguinte: “A estiagem recorde e o calor atípico talvez possam ser atribuídos às mudanças climáticas. O grave risco de desabastecimento da Grande São Paulo, entretanto, deve-se a outro fenômeno – a incúria das sucessivas gestões tucanas que comandam o Estado desde 1995”.

  Estamos diante de um editorial da Folha de S.Paulo, no qual se pode registrar um fato histórico: pela primeira vez, na longa e penosa crise da falta d'água, um dos grandes diários afirma, com todas as letras, que o governador é o principal responsável pelo problema.   

 Num texto sem meias-palavras, o editorialista afirma que o governador Geraldo Alckmin falhou em várias frentes que poderiam amenizar a crise: não protegeu mananciais, não cuidou do tratamento de esgotos e dejetos industriais, não atuou contra o desperdício e não aplicou os recursos destinados ao aumento da capacidade de “reservação”.

  Depois de observar que a recuperação do sistema de represas pode demorar quatro anos, isso se as chuvas voltarem à sua média histórica, o jornal afirma que o governador segue omitindo informações à população. Falta transparência e coragem para admitir a gravidade da situação, conclui o editorial. O texto chega a fazer blague, lembrando que Alckmin brincava com o problema, ao dizer que choveria em setembro, porque ele havia aprendido, na roça, que só chove nos meses com a letra “r”.

  O leitor ou leitora que coloca tento no que lê haverá de se perguntar: o que houve com a Folha de S.Paulo? Bandeou-se para a oposição, depois que a eleição estadual foi resolvida em primeiro turno? Decidiu, finalmente, tratar a falta de iniciativa do governador de São Paulo com “atitude crítica”?

  Não.

 A Folha vai pedir o impeachment do governador, ou, como os outros grandes diários, está apenas cobrando a conta do apoio descarado que ofereceu a ele durante a campanha eleitoral?

 Um poço de cinismo

  Se o jornal tivesse caráter, no sentido que se dá às qualificações morais de um indivíduo, não teria esperado o governador se reeleger para quebrar o silêncio e revelar o que seus editores sempre souberam sobre a falta d’água.

  Pode-se esperar o mesmo, caso o senador Aécio Neves venha a ser eleito presidente da República? Os jornais vão abrir suas caixas de ferramentas e revelar o que omitem durante a campanha eleitoral?

 O súbito ataque de sinceridade da Folha reflete bem o poço de cinismo em que se transformou a imprensa hegemônica do Brasil. Na reportagem em que o jornal relata a saída do colunista Xico Sá, citada neste espaço na terça-feira (13/10), a direção do diário anota que seu “manual de redação” recomenda aos colunistas que evitem, em suas colunas, proselitismo eleitoral ou declaração pública de voto.

  Mas a grande pérola de farisaísmo pode ser apreciada na frase final: “A restrição não se aplica a críticas a partidos, políticos e candidaturas”. Isso significaria, por largueza de interpretação, que um colunista não pode dizer que vota em Dilma Rousseff, mas os outros podem passar anos chamando os petistas de “petralhas” e achincalhando tudo que se refere ao partido e seus representantes.

 Seria essa a interpretação para o que uma colunista do Estado de S.Paulo chama de “atitude crítica” da imprensa em relação ao grupo que se reelege no Executivo federal desde 2002?

  A imprensa hegemônica do Brasil faria grandes benefícios à consolidação da nossa democracia e à educação cívica da população se realmente tivesse uma “atitude crítica” em relação a todos os poderes da República, indiscriminadamente. Mas, infelizmente, o que se vê é o apoio explícito a um dos lados em que se divide o espectro político, e uma campanha sistemática para desqualificar e demonizar o outro lado. Essa distorção foi demonstrada mais uma vez, na entrevista concedida pelo cientista político João Feres Jr., criador do Manchetômetro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ao programa Espaço Público, da TV Brasil, transmitido na terça-feira (14).

  Aqui e ali, no noticiário de quarta-feira (15) sobre o primeiro debate entre os dois candidatos ao segundo turno da eleição presidencial, analistas da imprensa se referem ao clima de extrema beligerância que encobre os temas mais relevantes, e sua repercussão nas redes sociais, onde se percebe que as manifestações chegam a um alto nível de agressividade.

  Os jornais apenas esquecem a grande contribuição que têm dado para que isso esteja acontecendo.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Marcos Coimbra e a mídia como oposição explícita e tendenciosa

Extraído do Tijolaço.com:



Marcos Coimbra: a oposição é a mídia. Isso é democracia?


18 de agosto de 2014 | 15:02 Autor: Fernando Brito

Não é preciso acrescentar nada ao que diz Marcos Coimbra em seu artigo na CartaCapital.

Presidente do Vox Populi, entende mais dos processos de formação de opinião pública – e e de sua expressão nas pesquisas – do que qualquer um de nós.
É, apenas, um diagnóstico completo do que vem se passando não agora, mas durante quase todo um governo que foi tratado como “campanha eleitoral” pela imprensa brasileira.

E, também, um retrato de quanto nos custa o fato de que o PT continue achando que o tigre midiático não morderá se receber afagos e boa ração publicitária.
Isso não seria um problema se o castigado fosse apenas um partido que se desmilinguiu e perdeu sua combatividade, se não pusesse, com isso, em perigo de ser levado de cambulhada um processo de transformação que, mesmo tímida, este país precisa se quiser ter um destino próprio e algo próximo de justiça para seus filhos.

Não há problema algum em termos uma mídia onde haja oposição, é da democracia.
O que não é da democracia é ter a mídia como oposição, o partido único da oposição, dono exclusivo da “verdade” incontestável.

Mais, dono da vontade nacional, a tal ponto que governantes eleitos baixem-lhe eternamente a cabeça.

As eleições e a mídia


Marcos Coimbra

Na próxima terça 19, com o início da propaganda eleitoral na televisão e no rádio, entraremos na etapa final da mais longa eleição de nossa história. Começou em 2011 e nossa vida política gira em torno dela desde então.

A batalha da sucessão de Dilma Rousseff foi iniciada quando cessou o curto período de lua de mel com as oposições, no primeiro ano de governo. Talvez em razão do vexame protagonizado por José Serra na campanha, o antipetismo andava em baixa.

Durou pouco. Na entrada de 2012, o clima político deteriorou-se. As oposições perceberam que, se não fizessem nada, marchariam para nova derrota na eleição deste ano. Ao analisar as pesquisas de avaliação do governo e notar que Dilma batia recordes de popularidade a cada mês, notaram ser elevadas as possibilidades de o PT chegar aos 16 anos no poder. E particularmente odiosa. Serem derrotadas outra vez por Dilma doía mais do que perder para Lula.

Ela era “apenas” uma gestora petista, sem a aura mitológica do ex-presidente. Sua primeira eleição podia ser creditada, quase integralmente, à força do mito. Mas a segunda, se viesse, seria a vitória de uma candidatura “normal”. Quantas outras poderiam se seguir?

A perspectiva era inaceitável para os adversários do PT. Na sociedade, no sistema político e no empresariado, seus expoentes arregaçaram as mangas para evitá-la. A ponta de lança da reação foi a mídia hegemônica, em especial a Rede Globo.
Recordar é viver. Muitos se esqueceram, outros nem souberam, mas a realidade é que a “grande imprensa” formulou com clareza um projeto de intervenção na vida política nacional.

Não é teoria conspiratória. Quem disse que os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a oposição está profundamente fragilizada”, foi a Associação Nacional de Jornais, por meio de sua presidenta, uma das principais executivas do Grupo Folha. Enunciada em 2010, a frase nunca foi tão verdadeira quanto de 2012 para cá.

Como resultado da atuação da vanguarda midiática oposicionista, estamos há três anos imersos na eleição de 2014. A derrota de Dilma é buscada de todas as formas. O “mensalão”? Joaquim Barbosa? A “festa cívica” do “povo nas ruas”? O “vexame” da Copa do Mundo? A “compra da refinaria”? O “fim do Plano Real”? A “volta da inflação”? O “apagão” na energia? A “crise na economia”? A “desindustrialização”? O “desemprego”?

Nada disso nunca teve verdadeira importância. Tudo foi e continua a ser parte do esforço para diminuir a chance de reeleição da presidenta.

Ou alguém acha que os analistas e comentaristas dessa mídia acreditam, de fato, na cantilena que apregoam quando se vestem de verde-amarelo e se dizem preocupados com a moral pública, os empregos dos trabalhadores ou a renda dos pobres? Ou que queiram fazer “bom jornalismo”?

Temos agora uma ferramenta para elucidar o papel da mídia na eleição. Por iniciativa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, está no ar o manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br), um site que acompanha a cobertura diária da eleição na “grande imprensa”: os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, além do Jornal Nacional da Globo (como se percebe, os organizadores do projeto julgaram desnecessário analisar o “jornalismo” do Grupo Abril).

Lá, vê-se que os três principais candidatos a presidente foram objeto, nesses veículos, de 275 reportagens de capa desde o início de 2014. Aécio Neves, de 38, com 19 favoráveis e 19 desfavoráveis. Tamanha neutralidade equidistante cessa com Dilma: ela foi tratada em 210 textos de capa. Do total, 15 são favoráveis e 195 desfavoráveis. Em outras palavras: 93% de abordagens negativas.

É assim que a população brasileira tem sido servida de informações desde quando começou o ano eleitoral. É isso que faz a mídia para exercer o papel autoassumido de ser a “oposição de fato”.

O pior é que a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário. Elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem. E organizam os debates entre candidatos.

Está mais que na hora de discutir a interferência dessa mídia no processo eleitoral e, por extensão, na democracia brasileira.