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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Marcio Valley: "Lava Jato poderia ser uma ótima operação, mas não é"



A Lava Jato poderia ser uma ótima operação, mas não é.
Não tenho dúvida alguma de que crimes ocorreram e ainda ocorrem na política brasileira, antes e após o ingresso do PT no governo federal. Tampouco tenho dúvida alguma de que, infelizmente, continuarão a existir após a saída do PT.
É evidente que esses criminosos, sempre que possível, devem ir para a cadeia. Qualquer pessoa minimamente honesta assim deseja.
Não é por apologia à corrupção que defendo o governo e critico a Lava-Jato, mas por verificar que essa operações se degenerou, transformando-se num mecanismo antidemocrático de oposição ao governo. Praticamente todos os ilícitos praticados por pessoas públicas da oposição estão sendo acobertados. De que forma isso pode ser classificado como combate honesto à corrupção?
Penso tratar-se de um projeto pensado e planejado pelos cabeças da Lava-Jato.
O primeiro ponto que precisa ser compreendido é que não existem vestais somente pela integração a uma determinada categoria funcional. Antes de serem policiais, promotores e juízes, as pessoas são apenas pessoas, com todas as idiossincrasias que dessa natureza decorre, como, por exemplo, um sentido de proteção de tudo ou todos por quem se nutre simpatia, perseguição das antipatias e temor de retaliações.
Quem trabalha ou trabalhou no setor policial e no judiciário, sabe que operações de certo porte demandam reuniões para o planejamento prévio quanto aos seus objetivos e suas possíveis repercussões. Os alvos são selecionados com cuidado. Se gravadas as reuniões nas quais se planeja uma intervenção-invasão a alguma favela, não seria difícil escutar altas autoridades policiais respondendo com um "foda-se" a alguém que indagasse sobre os transeuntes eventuais e inocentes. Claro, o que interessa é o alvo, danos colaterais que não atinjam pessoas queridas são plenamente suportáveis.
Pessoas públicas, que exercem cargos públicos, são apenas homens e mulheres, e, como tal, capazes de cometer as maiores atrocidades e insensibilidades a título de interesses materiais rasos, como em geral os seres humanos são, mesmo os mais gentis (Hanna Arendt descobriu isso, perplexa).
Penso que ingenuidade é imaginar, como inacreditavelmente se imagina de ordinário, que empresários milionários e bilionários possuam qualquer identidade de interesse com o povo.
Não chego ao ponto de afirmar a existência de um canal direto entre a Lava-Jato e o PSDB, embora até seja possível. O projeto político, contudo, é idêntico. Não há necessidade de uma conspiração para que essa identidade se forme, basta uma similaridade memética de pensamentos e comportamentos adquiridos ao longo da vida para que se saiba exatamente o que fazer e como fazer.
Como todos os demais animais, somos propensos a repetir os padrões aprendidos. Obviamente, para quem é criado num ambiente de favela, esses padrões são distintos daqueles aprendidos por quem cresce numa cobertura da Park Avenue. Com o software correto instalado, nada mais precisa ser dito. Claro que tudo isso admite exceções, mas são somente isso: exceções.
A Lava Jato poderia ser uma grande operação, saudável. Infelizmente, não é. Está sendo daninha para o Brasil.
Nada justificava que, para pôr fim a uma guerra que já estava no fim, e não mataria mais do que algumas centenas de pessoas ainda resistentes, os americanos despejassem duas bombas atômicas no Japão, matando, imediatamente ou logo a seguir, quase duzentas e cinquenta mil pessoas, mas incrivelmente existem pessoas que conseguem racionalizar essa catástrofe.
Isso é o que chamo de remédio muito pior do que a doença e é assim que classifico a Lava Jato.

Márcio Valley

Fonte: Blog do Marcio Valley

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O pior emprego da imprensa brasileira. Por Paulo Nogueira

"Nas duas últimas semanas,  Vera Guimarães, ombudsman da Folha, tratou de pontos vitais na cobertura desequilibrada do jornal.
Primeiro, foi o ridículo espaço concedido às denúncias contra Eduardo Cunha quando os fatos gritavam, à luz das denúncias espetaculares trazidas ao Brasil pelos suíços.
Demorou, e como demorou, para Cunha ser manchete.
Agora, é o mesmo tema mas pelo lado oposto. A ombudsman captou a compulsão do jornal em amplificar negativamente tudo que diga respeito a Lula." - Paulo Nogueira

Pobre Vera
Pobre Vera
O pior emprego da imprensa no Brasil, hoje, é o da ombudsman da Folha, Vera Guimarães.
Vera é uma jornalista experiente e talentosa, como se vê a maior parte do tempo em suas colunas.
Ela acabou forçada a ver, de camarote, a transformação da Folha numa espécie de Veja diária.
Você pode dizer que eu estou exagerando. Mas atenção. A Veja não virou o panfleto indecente que é hoje numa única edição. Foi uma marcha, iniciada quando Lula assumiu.
A Folha está no meio dessa marcha.
E a ombudsman não pode fazer nada exceto registrar desabafos em sua coluna, impotente.
Para ela, trata-se de preservar sua dignidade e sua reputação.
Nas duas últimas semanas, ela tratou de pontos vitais na cobertura desequilibrada da Folha.
Primeiro, foi o ridículo espaço concedido às denúncias contra Eduardo Cunha quando os fatos gritavam, à luz das denúncias espetaculares trazidas ao Brasil pelos suíços.
Demorou, e como demorou, para Cunha ser manchete.
Agora, é o mesmo tema mas pelo lado oposto. A ombudsman captou a compulsão do jornal em amplificar negativamente tudo que diga respeito a Lula.
Falar baixo com Cunha e berrar com Lula é a mesma coisa.
Vera rejeitou a manchete tardia da Folha segundo a qual um delator citara uma nora de Lula  como destinatária de 2 milhões de reais em dinheiro sujo.
A trapalhada na mídia começara com o novo colunista do Globo, Lauro Jardim. Em sua “estreia triunfal” no jornal, Lauro dissera que Lulinha fora mencionado. Fantástico, exceto pelo fato de que não fora.
Foi citada, na mais completa vagueza, uma nora de Lula, sequer nomeada. Era o chamado diz-que-diz que, em situações normais, não é aceito pelos editores de jornais e revistas.
Mas, como contra Lula vale tudo, a denúncia acabou na manchete da Folha.
Vai ficando cada vez mais difícil para jornalistas sérios como Vera trabalhar nas redações das grandes empresas jornalísticas.
Porque já não se faz jornalismo, mas política, e um tipo de política que, a rigor, só interessa aos donos. Você é pago para defender os interesses da plutocracia.
A Veja foi plural durante anos. Lembro, em meus dias de Abril, de uma campanha da Veja que dizia mais ou menos o seguinte. “A direita nos detesta e a esquerda nos abomina. Isso mostra por que os leitores nos adoram.”
Para a Folha valia mais ou menos a mesma lógica. Era o tal do “saco de gatos”, colunistas de direita e esquerda misturados num jornal “sem rabo preso com ninguém”.
Não dá mais para a Folha sustentar a tese do rabo. Se existem alguns colunistas de esquerda, o noticiário em si – manchetes etc etc – é francamente enviesado.
Para os leitores progressistas, que durante os anos 1980 e 1990 amavam a Folha, hoje ela faz parte do que o jornalista Paulo Henrique Amorim chama de PIG.
O jornal a serviço do Brasil, para citar um slogan tão marcante, é hoje um jornal a serviço da plutocracia.
É a Veja amanhã, só que em edição diária.
As colunas da ombudsman Vera Gumarães são uma espécie de registro dessa mutação macabra.
Xico Sá não aguentou trabalhar na Folha como ela é hoje, e saiu com estardalhaço num caso simbólico.
A ombudsman talvez tenha o mesmo desejo. Mas tem contas a pagar e um contrato a respeitar.
E então ela produz desabafos patéticos aos domingos, naquele que é, para mim, o pior cargo da imprensa brasileira nestes tempos tão antijornalísticos.
(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A catilinária aguda de Paulo Henrique, por Mino Carta e Sérgio Lirio



"Orgulho-me ao dizer que este é o primeiro livro capaz de tratar Roberto Marinho como ele há de ser tratado. Até agora, só houve livros que foram bajulação rasteira." Paulo Henrique Amorim

Seu País

A catilinária aguda de Paulo Henrique

por Mino Carta e Sergio Lírio — publicado 03/09/2015 - Do site da Carta Capital
Entrevista: um grande jornalista apresenta seu novo livro sobre a mídia nativa

Paulo Henrique Amorim, jornalista de longo curso aos 73 anos, provou seu farto talento no vídeo e no papel impresso. Primeiro correspondente de Veja em Nova York em 1968, editor de Economia da semanal anos depois, diretor de redação na Examequando ainda na Editora Abril, enfim diretor do Jornal do Brasil em tempos de vento favorável a bafejar a baronesa e seu genro Nascimento Brito. No vídeo, como diretor do escritório nova-iorquino da Globo, passou também pela Bandeirantes e agora surge na Record, enquanto produz o blog Conversa Afiada, de grande êxito. No momento,  cuida do lançamento do seu último livro, O Quarto Poder – Uma outra história. E é desta história que se fala na entrevista a seguir.
CartaCapital: Do alto da sua larga experiência, selecione as cinco figuras mais daninhas para o País, as mais negativas na história que você viveu, à parte ditadores, torturadores, políticos coniventes etc.
Paulo Henrique Amorim: A mais daninha, levando em consideração também a minha experiência pessoal, é Daniel Dantas. Porque ele conseguiu disseminar o câncer, ele contaminou o tecido de todo o sistema brasileiro, Judiciário, Legislativo e Executivo. Levando também uma boa parte dessa doença, dessa malignidade, ao jornalismo. Outro que eu elegeria é Fernando Henrique Cardoso, porque ele é um caso exemplar de hipocrisia, de tartufismo.
Ele tem o desplante de se transformar em um Catão, a despeito de sua biografia totalmente maculada. Ele saiu da Presidência da República sendo professor aposentado e funcionário público, dono de uma fazenda em Minas Gerais, e tem um imóvel em Higienópolis incompatível com a renda dele. Essa história de que se tornou um palestrante para cobrar 50 mil dólares por conferência, fora o jatinho da secretaria, do segurança, isso tudo pode ser uma boa maneira de lavar dinheiro.
Outra figura que considero nefanda é José Serra. Ele tem mais de 50 anos de vida pública e nunca teve uma ideia original. Não é engenheiro, não é economista, não é nada, é produto única e exclusivamente da poderosa blindagem que a mídia em São Paulo garantiu aos tucanos. Serra fugiu enquanto muitos outros ficaram por aqui para resistir e alguns foram para a luta armada. Do Chile, onde se asilou na Embaixada da Itália, casou-se com uma Allende, e acabou, por mecanismos que a gente não sabe até hoje, por parar na Universidade Cornell nos Estados Unidos.
CC: Serra teve alguma relação com Daniel Dantas?
PHA: Teve no processo da Privataria Tucana. A irmã de Daniel Dantas é, ou foi, sócia da filha de Serra em Miami, em uma empresa de lobby. Serra está envolvido em todas as atividades suspeitas realizadas pelo tucanato. Segundo depoimento do próprio FHC, foi quem levou o governo tucano a vender a Vale por um valor inferior ao que a empresa tinha em caixa. Agora reeleito senador, a primeira coisa que ele faz é propor a entrega da Petrobras.
CC: Vamos à quarta figura.
PHA: Roberto Marinho. Orgulho-me ao dizer que este é o primeiro livro capaz de tratar Roberto Marinho como ele há de ser tratado. Até agora, só houve livros que foram bajulação rasteira. Meu livro conta que a certa altura da minha carreira na Globo eu denunciei uma roubalheira perpetrada no Instituto Brasileiro do Café (IBC), reduto, aliás, de bandalheiras variadas. E denunciei uma delas, chamada Operação Patricia. Foi uma operação em que o IBC bancava uma cotação do café, e, se essa cotação caísse, os operadores de café não pagavam nada, era o IBC que pagava para eles. Uma safadeza descomunal.
Fiz a denúncia na minha coluna no Jornal da Globo. Uma vez eu disse a Roberto Marinho que tinha uma coluna no Jornal da Globo e ele retrucou: “A coluna não é sua, é do Globo”. Aquela foi apresentada por um repórter que fez a passagem de bloco da seguinte forma: “Paulo Henrique Amorim denuncia um roubo no IBC”.  Eu havia escrito rombo. Roberto Marinho mandou me chamar e pelo telefone me demitiu, porque eu não estava “adaptado ao jornalismo da Globo”. Depois eu soube que ele e um dos seus principais mentores, o Jorge Serpa, tinham interesse no IBC. Mais tarde, averiguei que Roberto Marinho recorrera ao SNI para saber quem tinha sido a minha fonte.
CC: E como se deu o desastre da TV Montecarlo?
PHA: Outra história do livro. Passo por uma entrevista que fiz com Bettino Craxi,
líder do socialismo italiano, que mais tarde seria abatido pela Operação Mãos Limpas. Craxi havia arrumado uma sinecura, passara a formulador da política da ONU para os países endividados, e eu estava fazendo um documentário sobre a dívida externa dos países emergentes. E lá fui, e o Bettino Craxi: “Ahhhh! Você trabalha na Globo! Ahhhh, aqueles meninos queriam enganar o Berlusconi, ma che ingenuità”. Acredita-se que Marinho perdeu ali 100 milhões de dólares...
CC: Falou-se, então, em 120 milhões...
PHA: É, por aí. Alguns dos principais assessores do ministro Dilson Funaro, tempo de Sarney, me contaram que o Roberto Marinho conseguiu do Banco do Brasil um empréstimo vultoso para cobrir a dívida contraída na aventura da Tele Montecarlo, de sorte a descontar os recursos correspondentes pelo dólar paralelo. A Tele Montecarlo saiu de graça para ele, por obra de governo Sarney.
CC: Mas o BNDES já fez coisas parecidas no tempo de FHC...
PHA: Vamos ver o quinto.  Um dos maiores cretinos com quem tropecei ao longo da minha breve carreira é um senhor chamado Roberto Civita. O livro documenta o papel de Roberto Civita na construção de um grande império que militou e milita até hoje contra o Brasil. Não é à toa que Brizola dizia: “Quantos passaportes tem o senhor Civita...” Ciro Gomes me contou, recentemente, que, depois de deixar o governo do Ceará, foi para Harvard por um ano sabático, na companhia do professor Mangabeira Unger.
Aí ele foi se candidatar à Presidência da República, estava muito bem nas pesquisas, até que o Serra o detonou. Enquanto ainda estava bem, Roberto Civita o chamou para jantar na casa dele. Logo a luz foi reduzida, Ciro conta que lhe pareceu ter aportado a uma boate, era para ter um clima mais íntimo. E Civita perguntou: “Você estudou em Harvard, não é isso?” Ciro respondeu que sim. “Então podemos falar em inglês?”, disse o anfitrião.
CC: Fale de Carlos Lacerda, com quem você conviveu em alguns momentos da sua vida.
PHA: Abri o escritório da Veja em Nova York, em 1968, coincidiu com a eleição à sucessão do Lyndon Johnson. Foi uma luta feroz entre Richard Nixon, que já tinha perdido para John Kennedy, e Hubert Humphrey, líder trabalhista democrata vice-presidente de Johnson, candidato de muito boas qualidades. E aí a revista Realidade contratou Carlos Lacerda para cobrir a eleição como enviado especial. Então, convivemos durante um mês. Àquela altura, a Abril estava nadando em dinheiro e eu pude me deslocar pelos Estados Unidos com Lacerda, e com Alfredo Machado, fundador da Editora Record, amicíssimo do ex-governador.
Conversamos muito, íamos a livrarias juntos, ele dizia que a melhor coisa do mundo era comprar livros, e me contou várias histórias. E aí no fim da campanha, mais ou menos quando já se sabia que Nixon ia ganhar, o quartel-general do republicano era no Waldorf-Astoria, onde outros momentos históricos se deram, como quando Fernando Henrique ganhou o prêmio de personalidade do ano, escolhido por brasileiros que ganham dinheiro a rodo em Nova York e uma vez por ano elegem o homem do ano. E aí os brasileiros vão para lá de smoking, todos eles falando português. Surge então um pequeno problema. Eles alugam o smoking, mas pensam que não é preciso alugar os sapatos. E aí o calçado destoa miseravelmente e denuncia o smoking alugado.
CC: Como foi a cerimônia do anúncio da vitória de Nixon?
PHA: Bem, fomos para uma grande sala do Waldorf, a Ballroom. De repente chega o assessor de imprensa de Nixon, um jovem chamado Ron Ziegler, e diz: “Mister Lacerda, o presidente quer vê-lo”. E aí leva Lacerda lá para cima, para que assista ao anúncio da vitória na suíte presidencial.
CC: E que tal o repórter Carlos Lacerda?
PHA: Incansável. Ótimo faro, ele tinha um fôlego igual ao meu, e àquela altura eu tinha 25 anos.
CC: Paulo Henrique, o que os aspirantes a Carlos Lacerda no Brasil atual
não entenderam de Carlos Lacerda? O que falta para eles?
PHA: Ele era muito sofisticado, leu muito, falava um inglês americano muito bom mesmo. Não sei como, pois nunca morou nos Estados Unidos, era um dom que ele tinha. Nasceu comunista, depois se tornou um líder de direita, um golpista, mas àquela altura ele estava na Frente Ampla, com Jango e Juscelino.
CC: Foi por isso que o Estadão acabou censurado, seguiu o Lacerda até o fim.
PHA: Eu evoco no livro um jantar com Lacerda no restaurante de um hotel suíço. No meio da conversa, eu disse que Jango mancava por causa de um tiro. Aí Lacerda falou: “Não, aquilo ali foi uma gonorreia mal curada”. Aí eu disse: “Mas como, governador?” E ele: “Eu sei, hoje sou amigo do homem”. E aí, emocionado, disse ter passado a admirar Jango, que o recebera em sua casa de Montevidéu, depois de tudo o que ele, Lacerda, fizera para desmoralizá-lo.
Toda essa cortesia exigia um caráter excepcional. Lacerda contou que, durante a visita, Jango chamou os filhos, João Vicente e Denise, para cumprimentar “o governador”. Lacerda já tinha cumprimentado dona Maria Teresa. Aí Jango disse aos filhos para ir lá dentro buscar os cadernos para mostrá-los a Lacerda, e disse: “Veja, governador, meus filhos estão aprendendo a ler em espanhol”. Bom, não é? Muito bom.
CC: Voltemos a Daniel Dantas. Por que continua impune?
PHA: Ele foi capaz de corromper todos os partidos. Acho que Dantas é a prova provada de que a democracia no Brasil é de fachada. Mas ainda ouviremos falar dele.
CC: Por quê?
PHA: Porque ele participou da Privataria Tucana, está comprovado. O livro de Rubens Valente demonstra de forma insofismável que ele tem uma participação decisiva nas decisões do ministro Gilmar Mendes, e que ele chantageou Fernando Henrique Cardoso, quando presidente. Ele manobrou Serra, como esclarece Valente. E chegou ao PT.
No livro de Rubens Valente surge também João Vaccari, na compra da Brasil Telecom pela Oi, e isso vai explodir. Porque a BrOi vai quebrar, e vai ter uma intervenção e o podre vai aparecer. E foi o PT que mudou a lei para a Brasil Telecom poder ser comprada pela Oi. Esses são os documentos da história. Lula mudou a composição da Anatel, Sarney indicou uma pessoa de sua confiança para a diretoria, e com isso mudou a jurisprudência da Anatel que permitiu a BrOi.
CC: E na verdade já era para DD ter aparecido no chamado “mensalão”.
PHA: Pois apareceu. Mas o ministro Barbosa sumiu com Dantas! Ele está no “mensalão” tucano, ele está no “mensalão” do PT, ele está em todos os mensalões, e continua operando.
CC: E o disco rígido do Opportunity, apreendido pela PF por ocasião da Operação Chacal?
PHA: Sim, durante a Operação Chacal. E teve uma decisão histórica da ministra Ellen Gracie, aquela de lábios delgados, que não deixou abrir o disco rígido, porque Daniel Dantas não é Daniel Dantas, mas Daniel Dantas. Isso, mais do que tudo, é um haicai, é um poema.  E Gilmar Mendes entrou para a história da magistratura universal porque ele deu em 48 horas dois HC cangurus para Dantas depois da Operação Satiagraha. 
O Dantas não é nada, é um pseudobanqueiro, porque o Opportunity não e um banco, Opportunity é um nome fantasia, começa por aí. Então, em 48 horas ele foi direto ao Supremo, passou por todas as instâncias inferiores e conseguiu dois HC. Já o ministro Joaquim Barbosa foi duríssimo com o biliardário Genoino, mas com o Dantas ele foi muito gentil. O Dantas está em toda parte. Uma capa histórica de CartaCapital disse tudo. E ele é ainda o dono do Brasil, mas isso estará em meu próximo livro. Este que estou publicando termina no dia da segunda eleição de Lula, quando o eleito me telefona para dar os parabéns por ter desvendado a maracutaia da edição do Jornal Nacional, foi uma vingança, disse ele, que depois João Santana me explicaria melhor. Assunto: a democratização da mídia. Essa conversa com João Santana jamais ocorreu.
CC: E o próximo livro?
PHA: Estou começando a escrever outro, chama-se Não me Calaram. É a história das minhas batalhas judiciais, porque fui processado tantas vezes, qual é a origem de cada um dos processos.
CC: Ali se falará também do colega Attuch?
PHA: Eu acho que esse rapaz fugiu do Brasil, depois de aparecer na Lava Jato, em uma situação muito complicada. Então talvez esteja velejando entre a Córsega e a Sardenha, que é o roteiro agora da preferência do Fernando Henrique Cardoso.
CC: Com o iate de quem?
PHA: Suspeito que seja de um brasileiro chamado Jovelino. Ele tem um apartamento na Avenue Foch, em Paris, que o Fernando Henrique usa com muita frequência. Jovelino Mineiro, que foi quem ficou com a fazenda do Fernando Henrique em Minas Gerais.
CC: No livro, você fala muito de outro colega, Paulo Francis.
PHA: Ele foi meu colega na TV Globo, em Nova York. Naquela época colunista da Folha de S.Paulo, cobria a negociação da dívida externa. E a Folha dava seguidas manchetes graças a ele. Dizia Francis: “Eu estive com um banqueiro, banqueiro!” O banqueiro com quem ele conversava, eu revelo no livro, é outro colega, o Pimenta Neves, o que matou a namorada. O Pimenta era um personagem subalterno do departamento de imprensa do Banco Mundial, onde militava contra o Brasil. O banqueiro do Francis era o Pimenta. Ou então o Régis, um produtor no escritório da Globo que entendia muito de futebol americano.
Ele ia às coletivas dos comitês dos bancos  e ouvia aqueles negócios de subprime e CAP, aquela linguagem de banqueiros, e de volta cuspia aquilo tudo de uma forma desorganizada. E o Francis: “Estive hoje nos comitês dos bancos credores”. Mas falo de mais colegas. No livro apresento o que chamo de lista de Schindler ao contrário. É o seguinte: no dia 2 de abril de 1964, Roberto Marinho fez um editorial no Globo, dizendo: Ressurge a Democracia. Poucos dias depois, ele publica a lista de Schindler ao contrário. É a relação dos intelectuais que tinham acabado de assinar um manifesto a favor de Jango e Roberto Marinho pede a ação da polícia para impedir a propagação das ideias daqueles homens. Ali estavam Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Paulo Francis etc. etc. Iam ser cremados na Auschwitz de Roberto Marinho.
CC: Alberto Dines não figurava?
PHA: Alberto Dines escreveu um livro memorável que ilustra a literatura política brasileira, enaltecendo o golpe de 64: Os Idos de Março. Título de uma originalidade acachapante.
CC: E agora, como anda o Brasil?
PHA: O Brasil vai viver mais três anos e meio deste governo alquebrado, desfigurado, e a direita vai perder de novo em 2018. Ou é Lula, ou quem ele apoiar. Lula é o árbitro.
CC: Dá para extrair algumas lições importantes dessas marchas todas, sobretudo a do dia 16?
PHA: Olha, Mino, um político carioca, aliás, eu não concordo muito com as ideias dele, mas que teve uma frase muito boa: “O PT tirou a direita do armário”. A direita ficava escondida no armário, não se assumia, era feio dizer que se era de direita, e agora é isso aí. Então, essa última marcha é igual a todas as outras.
CC: Você disse que teve muita dificuldade para publicar este livro, foi isso?
PHA: Eu fiz uma primeira versão, ofereci a seis editores, que não gostaram da ideia, porque provavelmente mexe com Roberto Marinho, e aqui no Brasil só há quatro ou cinco cidadãos que peitam Roberto Marinho. Eu sou do tempo em que a gente anotava à mão. Há anotações muito interessantes. Uma a respeito de Fernando Henrique em visita oficial aos EUA. No último dia, no saguão principal da sala de convenções do hotel em que se hospedava, ele deu uma entrevista coletiva.
Ao centro da mesa, à sua direita, Antonio Carlos Magalhães, presidente das Comissões de Relações Exteriores do Senado, à sua esquerda Franco Montoro, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. E aí Eliane  Cantanhêde pediu que FHC comentasse a declaração de seu ministro Sérgio Motta, divulgada naquele dia na imprensa brasileira , sobre o Programa Comunidade Solidária, de dona Ruth Cardoso, a primeira-dama.
Sérgio Motta havia dito: “Essa masturbação sociológica me irrita”. Fernando Henrique rodou, rodou, rodou, não disse nada, e a coletiva acabou. A caminho da saída, aproximei-me de ACM e comentei: “Ele não defendeu a mulher”. Aí o ACM, em tom mais elevado para que os jornalistas ouvissem: “Quem é do governo não pode criticar o governo”. Puxou-me pelo braço e me levou em direção à limusine. Já na porta ele recua e diz no meu ouvido: “Você sabe qual é a relação do Serjão com ele, não? É de cafetão”. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A grande imprensa como fabrica de manipulação e homogeneização ideológico-plítica de informações



     "A mais importante razão para o fechamento em massa de postos de trabalho é o posicionamento político radical da indústria de comunicação. A maior parte do que se noticia ou se deixa de noticiar nestes meios, em especial em matéria de política e de economia, está sujeita a este posicionamento, e não a tradicionais critérios jornalísticos" - Carlos Tautz

Empresas perdem sentido e os jornalistas, seus empregos


Texto de Carlos Tautz


Antes de tudo, minha solidariedade às centenas de profissionais demitidos pelas empresas convencionais de comunicação. E, se isso ajudar de alguma forma, saibam que suas demissões pouco têm a ver com as razões apresentadas pelo patronato. Nada de queda de faturamento, concorrência com a internet, diminuição do número de anunciantes e leitores etc etc A verdade é outra e discutir alguns de seus aspectos mais amplos ajuda a entender o cenário em que nos encontramos.

A mais importante razão para o fechamento em massa de postos de trabalho é o posicionamento político radical da indústria de comunicação. A maior parte do que se noticia ou se deixa de noticiar nestes meios, em especial em matéria de política e de economia, está sujeita a este posicionamento, e não a tradicionais critérios jornalísticos.

Em grande medida, a informação publicada é um ato de fé e de interesse corporativo, que se enquadra em um sistema de ideias. Quem lê ou ouve uma notícia tem de se esforçar para separar o fato objetivo de sua interpretação ideológica.

Sempre foi assim na América Latina. Na ausência de instituições político-partidárias capazes de tecer uma narrativa lógica de sua forma conservadora e reacionária de ver o mundo, entram em ação os conglomerados de mídia para ocupar esse espaço.

Antes, reuniam-se na Sociedade Interamericana de Imprensa para jogar a sua parte na Guerra Fria. Agora, organizam-se no Grupo de Diários Américas para combater os mandatários que sucederam os governos eleitos na onda neoliberal dos anos 1990. Seus alvos preferidos são os governos de Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai (este deposto por uma articulação em que as empresas de comunicação tiveram papel destacado), Peru, Venezuela e Uruguai.

Não é de se estranhar, assim, o que revelam pesquisas de confiança do leitorado. Elas apontam que boa parte do que é publicado vêm rapidamente deixando de fazer sentido para seus leitores, enfastiados de uma cobertura que se caracteriza por uma visão pré-concebida da realidade, recheada de preferências particulares e, muitas vezes, pouco vinculada à realidade factual.

Outras fontes de informação passam, então, a produzir sentido – como os inúmeros informativos gratuitos distribuídos pela internet, celulares etc. Ainda que eventualmente parciais, muitos deles assumem que posição defendem. Ao contrário da mídia convencional, não se arrogam o status de oráculo da verdade, de bastiões da informação crível e de guardião das instituições democráticas.

Blogs, sites e que tais têm seu valor justamente por serem apenas o que são, como atestam seu crescente impacto informativo. Por que então optar pela velha mídia convencional ideologizada?

É emblemático — inclusive por razões históricas — que o mais recente passaralho de grandes proporções ocorra n´O Globo. Ele é uma espécie de núcleo duro ideológico da holding Globo, a maior de sua área no Brasil, que por sua vez inspira politicamente os demais grupos do setor. Mais cedo ou mais tarde, as principais posições políticas do grupo Globo acabam mimetizadas pelas demais empresas.

É a segunda vez em 2015 (a primeira ocorreu em janeiro) que O Globo varre de seus quadros, numa onda só, dezenas de profissionais de imprensa — outras empresas do grupo fizeram o mesmo, mas dissimuladamente. Somando os dois tisunamis, foram quase 80 profissionais da redação mandados embora.

Os concorrentes miméticos d´O Globo seguem caminho semelhante, às vezes por razões distintas. No Rio de Janeiro, foi o caso do recentemente falecido Brasil Econômico, de O Dia e do provedor de acesso à internet IG, pertencentes à Portugal Telecom (PT). A PT investiu em mídia no Brasil buscando influência política para operar a telefônica Oi, em que detém cerca de 30% do capital votante. Sabe-se lá o porquê, a posse dos veículos de comunicação perdeu sentido para a PT, que não hesitou em fechar o BE e deixar o tradicionalíssimo O Dia em estado de alerta.

Em um ano, perto de dois mil postos de trabalho de jornalistas foram fechados no Brasil.

Pelo seu peso específico, o grupo Globo — pertencente à família mais rica do Brasil, segundo a Forbes — é o ator emblemático nesse movimento de perda de sentido das empresas de comunicação e dois momentos são particularmente especiais para exemplificar a repulsa à cobertura de O Globo e a consequente e imediata queda de sua audiência.

O primeiro é a capa do jornal em 17 de outubro de 2013, um dia após a PM ter desocupado a escadaria da Câmara dos Vereadores do Rio, onde centenas de manifestantes se reuniam pacificamente havia semanas. O Globo criminalizou preventivamente e violentamente os manifestantes. Desconsiderou que, culpados ou não, eles ainda precisariam ser julgados pela Justiça.

As consequências foram imediatas. Primeiro, repórteres que vão às ruas cobrir a realidade que a direção do jornal despreza queixaram-se do tratamento editorial das prisões. As caixas de email da redação foram entupidas de mensagens reclamando do tratamento dispensado aos manifestantes (todos foram soltos por falta de provas). E, nos dias seguintes, multiplicou-se por quase 20 o número médio de pedidos de cancelamento de assinaturas.

O jornal não reorientou sua cobertura e simplesmente optou por bloquear os sistemas de recebimento de e-mails e de pedidos de cancelamento.

O segundo momento se deu no início de agosto de 2015.

Um dos herdeiros do grupo Globo, João Roberto Marinho, tomou a iniciativa de procurar a Dilma e a bancada do PT no Senado para informar-lhes que o grupo desembarcara da tese do impeachment — contrariando a verdadeira cruzada pelo impedimento da governante em que seus veículos, a tevê à frente, estavam empenhados desde a posse até aquele momento.

Com efeito, viu-se um abrandamento na ferocidade das críticas a Dilma e ela recebeu generosos minutos no Jornal Nacional para que, pela primeira vez, pudesse se defender dos ataques que recebia.

As áreas de inteligência do governo federal circularam a informação de que essa mudança de posição se deve ao fato de a Globo ter sido escolhida pelos maiores grupos econômicos instalados no Brasil como porta-voz de uma posição de manutenção da ordem democrática. Eles possuem interesses valiosíssimos no País e o impedimento de Dilma poderia afetá-los, em um momento de turbulências internacionais.

Se esta versão se verifica ou não, é outra estória. O fato, objetivo, é que aconteceram as reuniões em Brasília e Dilma ganhou uma valiosa trégua capitaneada pelo mais importante grupo de mídia do País.

Assim, do dia para a noite, aquela que era achincalhada pelo noticiário do grupo Globo transformou-se naquilo que nunca deveria deixar de ter sido: apenas mais uma governante, cuja administração precisa ser escrutinada permanentemente por jornalistas, e não o Judas midiático a quem se imputam de chofre todos os crimes.

Com variações de escala, método e impacto político, situações desse tipo já ocorreram em muitas outras redações País afora. As maiores invariavelmente combinam cobertura conservadora com a publicação de colunistas reacionários e agressivos. Aliás… Quantos colunistas progressistas publicam na imprensa diária?

A sociedade é plural e tem direito a uma comunicação idem. Se não a encontra nas fontes convencionais, procura essa pluralidade em outras fontes.

A segunda grande razão central para o cíclico (e crescente) descarte em massa de postos de trabalho para jornalistas é a opção de os veículos de comunicação agigantarem seus departamentos de entretenimento e transformarem seus veículos noticiosos em meros cadernos divulgadores da sua própria indústria do lazer.

Entretenimento e relações públicas se disfarçam de jornalismo, usando-lhe as técnicas e a credibilidade individual de vários profissionais de imprensa. Vários deles e delas abandonam a redação e passam a estrelar de reality shows a programas de amenidades. Deixam se ser ótimos repórteres e se transformaram em apresentadores enfadonhos e arrogantes.

Jornalistas que insistem em desvelar as relações de poder passam a ser peças indesejáveis e altamente descartáveis. A extinção de postos de trabalho integram-se à lógica desse setor de informação-entretenimento (infotainment, como  um teórico estadunindense já chamou).

O próprio jornalismo passa a ser indesejado e inviável, se for entendido como uma forma de investigação e de vigilância sobre as relações entre o Estado e as corporações. Dessa maneira, por exemplo, fica impossível o grupo Globo cobrir as fraudes na CBF. Há décadas, ambos são sócios nas transmissões de futebol.

Entretanto, por mais sombrios que sejam, esses não são os únicos futuros possíveis para a nossa profissão. Quem a entende como uma forma de intervir na realidade tem vários e promissores exemplos alternativos, mesmo entre as empresas de comunicação que operam rigorosamente dentro dos limites do mercado de notícias.

Há experiências de organizações de jornalistas independentes — como a  Agência Pública no Brasil e o International Consortiun for Investigative Journalism nos EUA. Mas, o exemplo ótimo de empresa jornalística lucrativa e crítica — que vem rapidamente se recuperando de prejuízos em anos passados e batendo recordes internacionais de audiência — é o inglês The Guardian.

Não à toa, foi ao Guardian que Edward Snowden denunciou o sistema mundial de espionagem montada pela NSA estadunidense. O Guardian é uma prova concreta de que o jornalismo é viável sob qualquer ponto de vista.

A hora da demissão dói tanto que parece que nunca irá acabar. Quanto mais laços profissionais e de amizade pessoal se criam nos locais de trabalho, mais dramático e longo é esse momento triste. Para que ele sirva de lição, precisa ser compreendido como de fato é: não um ponto final. Mas, um ponto de partida para recriar o sentido do jornalismo e de jornalistas.

Carlos Tautz é jornalista

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Ex-presidente da OAB discute sobre a seletividade da cobertura da "grande imprensa" e seus interesses em pautar a justiça e o discurso de intolerância

"Nesse momento, não está se falando de culpa ou inocência. A culpa, ou inocência, é apurada com a tramitação regular do processo, quando assegurado o devido processo legal. É exatamente o que não se está assegurando a diversas dessas pessoas, que estão presas antes de serem punidas. Esse juiz está usando e abusando das prisões preventivas sem qualquer justificativa para isso" - Wadih Damous.


'Os grandes tribunais hoje são os jornais'

Ex-presidente da OAB afirmou que a cobertura da grande imprensa sobre os casos de corrupção é seletiva e contribui para incitar a intolerância.


Extraído da Rede Brasil Atual e Carta Maior

Latuff
O deputado federal Wadih Damous (PT-RJ), ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), é crítico em relação a maneira como o juiz Sérgio Moro conduz as investigações da Operação Lava Jato. Em entrevista à Rádio Brasil Atual, o advogado afirmou que a prisão do ex-ministro José Dirceu "é uma arbitrariedade, das muitas que essa chamada Operação Lava Jato vem cometendo", e acrescenta que é inadmissível que, em nome do combate ao crime e à corrupção, se pratique outra ilegalidade.

"Nesse momento, não está se falando de culpa ou inocência. A culpa, ou inocência, é apurada com a tramitação regular do processo, quando assegurado o devido processo legal. É exatamente o que não se está assegurando a diversas dessas pessoas, que estão presas antes de serem punidas. Esse juiz está usando e abusando das prisões preventivas sem qualquer justificativa para isso", analisou Wadih Damous.

O deputado afirma que José Dirceu não oferecia qualquer risco à ordem pública ou à efetividade do processo. "Não tinha a menor justificativa, ele já estava preso", ressaltou o deputado, lamentando a ação com uma agressão ao estado de direito e à democracia.

"O que está acontecendo hoje é muito triste e preocupante. (...) Não há nenhum valor que justifique a violação de direitos e garantias fundamentais, a violação de princípios e valores constitucionais."

O ex-presidente da OAB disse que os excessos cometidos pelas autoridades da Justiça e da Polícia Federal podem culminar na anulação de parte do processo. "Não tenho a menor dúvida de que há nulidades. (...) O juiz Sergio Moro está se dando por competente em relação a algumas pessoas para a qual ele não tem competência territorial para ajuizar a ação penal e para investigar."

"O que está acontecendo no Brasil hoje é que não é só o Direito que está decidindo. Aliás, o Direito hoje está subordinado a outros fatores, não só à interpretação da lei. Os grandes tribunais hoje são os jornais, a grande imprensa, e a chamada opinião pública, ou 'publicada'."

O deputado espera que as instâncias superiores da Justiça possam ter independência e a objetividade necessária para "decidir, tão somente, à luz do direito, e não à luz de pressões e conveniências conjunturais."

Wadih Damous afirmou que a cobertura da grande imprensa sobre os casos de corrupção é seletiva e contribui para incitação da intolerância, visando a "criminalizar o PT, o governo e, em particular, o presidente Lula". Para ele, o atentado a bomba ao Instituto Lula, bem como as agressões sofridas por políticos do PT, se relacionam com esse clima de ódio instaurado.


Créditos da foto: Latuff