quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crise na Bolívia: missão da OEA não comprova fraude eleitoral (antecipada sem base por Trump) e atua politicamente, diz CEPR (Center for Economic and Policy Research) em relatório



EUA fornecem 60% do orçamento da OEA; ‘Trump fez declarações sugerindo fraude nas eleições bolivianas antes de relatório da missão oficial’, destaca ainda Center for Economic and Policy Resarch
Reprodução/Imagem de TV na Bolívia
Jornal GGN – As declarações feitas por membros da missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que auditou as eleições na Bolívia, foram decisivas para a crise que culminou na renúncia de Evo Morales à presidência do país vizinho, após dias de protestos nas ruas, desde o resultado das eleições gerais de 20 de outubro.
Horas após o fim das votações para a presidência da República e para o Congresso do país, a missão da OEA, então liderada pelo mexicano Arturo Espinosa, soltou uma nota afirmando “sua profunda preocupação e surpresa com a mudança drástica, e difícil de justificar, da tendência de resultados preliminares”, das urnas, se referindo ao sistema de contagem rápido de votos na Bolívia.
No relatório “O que aconteceu no contagem de votos nas eleições bolivianas de 2019?”, o Center for Economic and Policy Research (CEPR – Centro de Pesquisa Econômica e Política), entidade civil, fundada pelos economistas Dean Baker e Mark Weisbrot, em 1999, revela que a missão da OEA na Bolívia fez declarações inconsistentes, em termos técnicos, que não comprovam que ocorreram fraudes nas eleições bolivianas e que, aparentemente, foram trabalhadas com o objetivo de induzir a população boliviana e a comunidade internacional à crença de que o pleito que reelegeu Evo Morales foi manipulado.
O resultado oficial das eleições de 20 de outubro de 2019, na Bolívia, foi divulgado no dia 25 daquele mês, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), confirmando a vitória do presidente em exercício Evo Morales, do partido Movimiento al Socialismo (MAS-IPSP), por 47,08% dos votos, contra seu principal oponente Carlos Mesa, do Comunidad Ciudadana (CC), que obteve 36,51% dos votos válidos.
Na Bolívia o candidato à presidência com mais de 50% dos votos, ou que tenha ao menos 40% dos votos com uma vantagem de 10 pontos percentuais em relação ao segundo colocado, é declarado vencedor em primeiro turno. Esse foi o caso de Evo Morales, que assumiria seu quarto mandato.
Na mesma eleição, o partido de Morales, MAS-IPSP, também obteve a maioria dos votos para o Legislativo, porém perdendo algumas cadeiras em relação ao pleito anterior: 68 de 130 vagas à Câmara dos Deputados, e 21 das 36 vagas no Senado.
Além do sistema de contagem de votos oficial, a Bolívia possui um sistema de contagem rápido, chamado Transmisión de Resultados Electorales Preliminares (TREP), implementado segundo as recomendações da própria OEA.
O TREP é realizado por uma empresa privada, em conjunto com uma autarquia pública, e foi projetado para fornecer um resultado incompleto logo após os pleitos, justamente para indicar a tendência dos votos.
Horas após o fechamento das urnas, no dia 20 de outubro, o TSE divulgou os resultados da contagem rápida, com base na verificação de 83,85% de votos. A contagem mostrava que o MAS-IPSP, partido de Morales, havia, até então, recebido 45,71% dos votos à Presidência, e o CC, partido de Carlos Mesa, 37,84%, significando uma diferença de 7,87%.
O TSE não prosseguiu com a contagem rápida no sentido de apurar 100% das urnas por meio do sistema rápido de contagem. A partir daí, o resultado de pleito seria divulgado alguns dias depois, a partir do método de contagem oficial, mais amplo, manual e, portanto, mais demorado.
A missão OEA, entretanto, criticou o fato de o TSE não ter dado prosseguimento no sistema rápido e instou o Tribunal a continuar a contabilização no dia 21 de outubro, 23 horas depois de ter entregue o primeiro resultado.
Na segunda contagem dos resultados, pelo sistema rápido, o TSE apresentou um relatório mostrando que Morales estava chegando a 10 pontos percentuais, o que lhe daria uma vitória absoluta. Foi quando a missão emitiu sua primeira declaração de imprensa na qual expressou “sua profunda preocupação e surpresa com a mudança drástica, e difícil de justificar, da tendência de resultados preliminares conhecidos após o fechamento das pesquisas”.

‘Resultados oficiais coincidiram com registros da contagem rápida’

Entretanto, o CEPR faz outra avaliação, bem distinta da realizada pela missão da OEA. “Nessas eleições [bolivianas], os resultados da contagem oficial coincidiram com os da contagem rápida, que terminou quando a contagem estava em 95,63%, com Morales tendo uma vantagem de 46,86% versus 36,72% de Mesa. A contagem oficial final, com 100% dos votos contados, deu como vencedor de Morales no primeiro turno com 47,08% contra 36,51% do Mesa”, destaca a entidade.
O relatório aponta que Evo Morales tem mais aceitação em regiões mais afastadas dos centros urbanizados e, portanto, que demoram mais tempo para transmitir o resultado dos votos, o que explicaria a ampliação da distância entre Morales e Mesa entre a primeira e a segunda divulgação da contagem de votos pelo sistema rápido, divulgada horas depois pelo TSE à pedido da OEA.
“Os resultados da contagem rápida dos primeiros 83,85% de votos são consistentes com uma projeção do resultado final que indica como vencedor imediato Morales com um vitória de mais de 10 pontos percentuais”, ressalta o CEPR .
O relatório da entidade diz também que “nem a missão da OEA, nem qualquer outra entidade demonstraram que houve irregularidades generalizadas ou sistematizadas nas eleições de 20 de outubro de 2019”.
Segundo o grupo de pesquisadores, nem a contagem rápida, nem a oficial, exibem mudanças significativas nas tendência de votação, “antes, a mesma tendência já conhecida, é explicável devido a diferenças nas preferências dos eleitores em diferentes áreas geográficas”, pontua.
O Centro ressalta ainda que a contagem oficial, vinculada ao TSE, não parou por nenhum tempo significativo e “não está claro como as objeções da missão da OEA, em relação à contagem rápida, afetariam a contagem oficial”.
O CEPR lembra que os Estados Unidos fornecem cerca de 60% do orçamento da OEA, destacando que o governo Donald Trump e seus aliados no Congresso americano, entre eles o senador da Flórida Marco Rubio, “exercem forte influência na agenda política latino-americana”.
“Eles também fizeram declarações públicas – antes e depois das acusações contidas no primeiro comunicado da Missão da OEA à imprensa – sugerindo que a eleição [na Bolívia] foi roubada”, prossegue.
No dia 2 de novembro, o chefe da missão da OEA na Bolívia, o mexicano Arturo Espinosa, pediu demissão admitindo ter publicado artigos críticos sobre Morales antes de assumir a equipe formulada para acompanhar as eleições no país.
No dia 10 de novembro, a missão da OEA divulgou o resultado do seu relatório sobre as eleições na Bolívia, concluindo que houve fraude na votação, porém, como avalia o CEPR, sem demonstrações técnicas razoáveis para provar a suposta fraude. O único argumento da OEA foi que o sistema rápido de contagem ficou parado por mais de 20 horas e, depois de retomada a contagem, houve uma mudança de tendência favorecendo Evo Morales.
No mesmo dia em que a missão divulgou o relatório questionando o resultado eleitoral, Evo Morales anunciou que concordava com a realização de uma nova eleição geral, mas já era tarde. A oposição, apoiada pelos militares e imprensa, conseguiu ampliar os protestos de rua, obrigado o presidente em exercício a renunciar.
Nesta terça-feira (12), Morales desembarcou no México, após obter asilo político naquele país.
“Dúvidas infundadas lançadas sobre a contagem de votos pela missão da OEA, em seu primeiro comunicado à imprensa e em seu relatório preliminar, foram amplamente citadas e repetidas na mídia internacional e boliviana, desde as eleições do dia 20 de outubro. É claro que essas declarações incomuns – embora a OEA, até hoje, não tenha apresentado nenhuma evidência para apoiá-las – tiveram influência significativa no cobertura da mídia e, portanto, na opinião pública”, conclui o CEPR no relatório.
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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Do Justificando: A Cadela do Fascismo está sempre no Cio. Artigo Luiz Eduardo Cani, especialista em Direito Penal e Criminologia pelo Instituto de Criminologia e Política Criminal (2015), mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade do Contestado (2019) e doutorando em Ciências Criminais na Escola de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2019-2022), bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Advogado e Professor



Neste segundo semestre de 2019 diversos movimentos foram desencadeados na América Latina[1], conflagrando alguns dos golpes contingentes que se ocultavam nas sombras da história, das instituições e da organização do tecido social latino-americano.


Do Justificando:


A cadela do fascismo está sempre no cio

Segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A cadela do fascismo está sempre no cio



Por Luiz Eduardo Cani

Neste segundo semestre de 2019 diversos movimentos foram desencadeados na América Latina[1], conflagrando alguns dos golpes contingentes que se ocultavam nas sombras da história, das instituições e da organização do tecido social latino-americano.


A situação estava gestada há aproximadamente uma década. O caldeirão foi colocado no fogo para cozinhar em fogo baixo desde o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos da América, mas o buraco é mais embaixo. A bolha imobiliária é também um efeito da política econômica neoliberal[2].

A bolha imobiliária foi produzida pelas instituições financeiras ao fomentar a aquisição de títulos “podres”, dentre os quais os títulos de crédito imobiliário. O dinheiro emprestado para a aquisição de imóveis foi captado por meio da venda de títulos que seriam “garantidos” com o direito real de hipoteca sobre os imóveis adquiridos com financiamento[3]. Em determinado momento, o acesso ao crédito se tornou tão amplo e exigiu tão poucos critérios para a concessão de financiamento que quase qualquer pessoa podia adquirir um imóvel. O estouro da bolha foi efeito do não pagamento dos empréstimos. Os proprietários dos títulos desprovidos de garantia de retorno do investimento custearam o estouro da bolha. Dentre os clientes estavam os fundos de previdência que dependiam do retorno dos valores para continuar a remunerar as pessoas que optavam por planos privados de previdência a título de “aposentadoria”. Esse estouro ecoou no sistema capitalista global em razão da falta de dinheiro em circulação e passou a ser sentido com maior intensidade no Brasil a partir de 2009. De lá para cá praticamente quase todas as questões políticas giram em torno da estabilização dos efeitos do estouro da bolha imobiliária que, por sua vez, não é mais que um dos efeitos do neoliberalismo.

Vem à mente, de imediato, a constatação de que estaríamos em crise. A constatação é acertada, contudo os motivos podem permanecer opacos. Uma crise não é mais que o fruto de uma articulação política para conflagrar uma situação possível (contingência) a fim de elevar os lucros dos donos do mundo (o 1% da população que detém aproximadamente 50% da riqueza global). As táticas e estratégias utilizadas nesse sentido são, na verdade, bastante simples. Quem tem muito dinheiro pode consumir muito, ou pouco. Se os detentores de 50% da riqueza global consumirem pouco, teremos um valor insignificante de riqueza circulando, de modo que um “desaquecimento da economia” desponta necessariamente como reflexo. Daí o acerto de Giorgio Agamben ao afirmar que a crise é o modo normal de funcionamento do capitalismo que nos é imposto por meio da fabricação de comandos de obediência:

‘Crise’ e ‘economia’ atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ‘Crise’ hoje em dia significa simplesmente ‘você deve obedecer!’. Creio que seja evidente para todos que a chamada ‘crise’ já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.[4]

Esse caldeirão, atualmente em plena ebulição, constituído a partir de ardilosas estratégias político-morais[5], começa a transbordar, e tende a piorar:

(a) No dia 7 de novembro de 2019 o Supremo Tribunal Federal decidiu que a Constituição é constitucional (art. 5º, LVII e LXI, da Constituição é equivalente ao art. 283 do Código de Processo Penal).

(b) Contudo, os votos dos ministros deram espaço para a discussão sobre a alteração do texto constitucional, bem como do Código de Processo Penal para admitir a execução penal provisória após condenação em segunda instância, ao arrepio da legalidade. Além do projeto de lei anticrime, iniciaram reações a fim de propor uma Emenda à Constituição para restringir a presunção de inocência. Uma fraude[6], contingente de mais uma tentativa de golpe de estado[7]…

(c) No dia 8 de novembro de 2019 o ex-presidente Lula foi solto[8].

(d) No dia seguinte, o presidente se reuniu com a alta cúpula militar[9] para tratar do “risco Lula”[10].

(e) Dia 11 de novembro de 2019 os militares bolivianos exigiram a “renúncia” do presidente Evo Morales que, a fim de evitar confrontos violentos, “renunciou”. Em bom português: Evo foi deposto pelos militares em um golpe de estado[11]. Dois dias após Lula ser solto…

(f) Em 9 de novembro de 2019 Noam Chomsky e Vijay Prashad denunciaram que a oligarquia boliviana, apoiada pelos Estados Unidos da América, planejava um golpe de estado ou o extermínio de Evo Morales[12].

(g) No Chile os manifestantes estão a ser repelidos pela polícia com disparos nos olhos. Até 8 de novembro de 2019 havia pelo menos 151 pessoas com trauma ocular severo.[13]
Enfim, esse é o cenário gestado, ao que tudo indica como uma retomada da Operação Condor[14], talvez a versão 2.0. A finalidade é a de sempre: elevar os lucros da nobreza mundial. Nesse sentido, é imprescindível recordar as palavras ditas por Friedrich August von Hayek (1899-1992) em entrevista dada ao Jornal El Mercurio, em 1981 acerca da relação entre neoliberalismo e ditadura:

“Bem, eu diria que, como instituições de longo prazo, eu sou totalmente contra ditaduras. Mas uma ditadura pode ser um sistema necessário para um período transicional. Às vezes é necessário para um país ter, temporariamente, alguma forma ou outra de poder ditatorial. Como você entenderá, é possível para um ditador governar de modo liberal. E também é possível para uma democracia governar com total falta de liberalismo. Pessoalmente eu prefiro um ditador liberal a um governo democrático sem liberalismo. Minha impressão pessoal – e isso é válido para a América do Sul – é que no Chile, por exemplo, nós testemunharemos a transição de um governo ditatorial para um governo liberal. E durante essa transição pode ser necessário manter certos poderes ditatoriais, não como algo permanente, mas como um arranjo temporário” [tradução livre e sem grifos no original].[15]

Em relação ao Brasil as perspectivas não são animadoras. O cenário não é tão melhor:

(a) Temos quase 50% da população sobrevivendo com renda de até R$ 413,00 mensais[16].

(b) O ministro da economia sugeriu que as pessoas são pobres porque não investem o dinheiro que recebem (obviamente, R$ 413,00 mensais são insuficientes até mesmo para sobreviver, conseguiriam investir o quê?).[17]

(c) Um filho do presidente que declarou que bastam um soldado e um cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal.[18]

(d) O mesmo filho do presidente disse querer reeditar o AI-5.[19]

(e) Manifestantes atiram pedras em fotos de ministros do Supremo.[20]

(f) Alguns meses atrás, manifestantes tentaram invadir o Supremo.[21]

A tentativa de fechamento do Supremo pode ocorrer em breve. Que não seja por falta de aviso!

Para piorar, há quem diga que o Supremo agiu em estado de exceção ao cumprir o texto constitucional e vedar a execução penal antecipada. Giorgio Agamben explicou, há aproximadamente 15 anos, que estado de exceção[22] é: suspensão de normas (fruto da interpretação das leis, desde que formal e materialmente constitucionais) a pretexto de garantir a integridade do ordenamento jurídico. O discurso de justificação é simples: existe um risco, temos a necessidade de combatê-lo. Para suprir a necessidade, deixamos de aplicar (ou, melhor, aplicar por desaplicação, para usar a expressão de Agamben) uma norma. O risco pode ser sorteado. Serve qualquer risco. Vemos isso cotidianamente.

Parafraseando Bertold Brecht – “A cadela do fascismo está sempre no cio”.

Luiz Eduardo Cani é Graduado em Direito pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (2013), especialista em Direito Penal e Criminologia pelo Instituto de Criminologia e Política Criminal (2015), mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade do Contestado (2019) e doutorando em Ciências Criminais na Escola de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2019-2022), bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Advogado e Professor
Notas:
[1] Mas a situação não é uma peculiaridade latino-americana: “O diabo mudou de cores várias vezes. Foi negro durante o período da escravidão no Brasil colônia, depois ficou vermelho em razão da ascensão do comunismo soviético, e, atualmente, anda descolorido, pois supostamente neutro. Para alguns, assume a forma e o linguajar de um ministro do STF. Para outros, a forma e o comportamento de Capitão. E, para não poucos, a forma de sindicalista. As ideologias são perversas, pois induzem constantemente os seres humanos ao erro. Supostamente são majoritariamente de esquerda. Incêndios brotam da terra e devoram as florestas. O petróleo aparece do nada, navega ao balanço do mar e descansa na areia da praia. A calmaria econômica e social chilena entrou em colapso. Na Argentina o kirchnerismo voltou. Na Bolívia a eleição não se confirma. No Equador as ruas andam tumultuadas. Na Venezuela Maduro não cai, contrariando uma das leis da natureza: fruta madura tende a cair do pé. Na Inglaterra o penteado de Boris Johnson não é suficiente para decidir o que fazer com o Brexit. Nos EUA o topete de Trump está sendo alvo de impeachment. No Vaticano Francisco debate a Amazônia. A mentira se apresenta cotidianamente e enche de vergonha a verdade, que anda sumida. No Brasil… Ah! No Brasil, todos os dias tem-se uma surpresa. O mundo está bagunçado. Alguma coisa deu errado com a obra da criação. Deus fugiu? Não! Ele está morto, afirma Nietzsche. Quem está morto é Nietzsche, acaba de afirmar Deus. Ninguém mais se entende. Balbúrdia!(?)”. In: BAZZANELLA, Sandro Luiz; CANI, Luiz Eduardo. Depois da expulsão de Adão do paraíso…. Empório do Direito, Florianópolis, 02 nov. 2019. Disponível em: <https://emporiododireito.com.br/leitura/depois-da-expulsao-de-adao-do-paraiso>.
[2] Neoliberalismo é uma razão governamental que produz um tipo de liberdade, por meio da circunscrição legal das possibilidades da vida, a fim de fomentar o incremento dos lucros do 1%, mas a pretexto de produzir as condições necessárias à concorrência. O resultado é um modelo econômico em que as grandes empresas absorvem as pequenas e médias empresas, os postos de trabalho formal são extintos para que supostas oportunidades de empreendedorismo surjam, a população em geral é obrigada a trabalhar sem direitos e com baixos salários. Realmente há concorrência, mas entre os trabalhadores, não entre os grandes empresários que não precisam de grandes esforços para aniquilar a pequena e média concorrência. Sobre o neoliberalismo: DARDOT, Pierre; LAVAL, Christhian. A Nova Razão do Mundo: Ensaio Sobre a Sociedade Neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016; FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. Curso dado no Collège de France (1978-1979). Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008; LAZZARATO, Maurizio. O Governo das desigualdades: crítica da insegurança neoliberal. Trad. Renato Abramowicz Santos. São Carlos: EdUFSCar, 2011; LAZZARATO, Maurizio. O governo do homem endividado. Trad. Daniel P. P. da Costa. 1. ed. São Paulo: N-1 Edições, 2017.
[3] Seria uma pena se, em tempos em que todos vendem, o preço reduz. A tal “lei da oferta e demanda” foi brutal: poucos imóveis foram vendidos, muitos foram apenas fechados. Quem tinha dinheiro não tinha interesse na aquisição, quem tinha interesse não tinha dinheiro.
[4] “Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”. Entrevista com Giorgio Agamben. Trad. Selvino José Assmann. Blog da Boitempo, São Paulo, 31 ago. 2012. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2012/08/31/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben/>.
[5] Para que fique claro que economia não é ciência, muito menos exata, senão uma moralização das relações sociais decorrente do pensamento de pessoas sem apreço pelo humanismo, que reduzem vidas humanas a números para melhor “gerir” o “capital humano” no contexto biopolítico e neoliberal: “O imperativo do tempo em curso apresenta-se na forma da produção e do consumo diuturno. Ele é a garantia da liberdade dos indivíduos. Impera a ilusória máxima de que todos devem ser livres, como se o padrão de liberdade ao qual se está acostumado não fosse produzido no contexto da moralidade econômica neoliberal”. In: BAZZANELLA, Sandro Luiz; CANI, Luiz Eduardo. Depois da expulsão de Adão do paraíso…
[6] O art. 60, § 4º, IV, da Constituição proíbe a abolição de direitos e garantias individuais, enquanto o art. 5º, LVII e LXI, da Constituição asseguram que ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória, admitidas as prisões em flagrante e preventiva, bem como prisões administrativo-militares. Daí porque a presunção de inocência não pode ser alterada para restringir o âmbito de proteção aos imputados. Nesse sentido: STRECK, Lenio Luiz; CATTONI, Marcelo. PECs contra a presunção da inocência são fraude à Constituição.Consultor Jurídico, São Paulo, 11 nov. 2019. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2019-nov-11/streck-cattoni-pecs-presuncao-inocencia-sao-fraude-constituicao>
[7] Para compreender a distinção entre revolução, revolta e golpe de estado: “A Revolução é a tentativa, acompanhada do uso da violência, de derrubar as autoridades políticas existentes e de as substituir, a fim de efetuar profundas mudanças nas relações políticas, no ordenamento jurídico-constitucional e na esfera socioeconômica. […] A Revolução se distingue do golpe de Estado, porque este se configura apenas como uma tentativa de substituição das autoridades políticas existentes dentro do quadro institucional, sem nada ou quase nada mudar os mecanismos políticos e socioeconômicos. Além disso, enquanto a rebelião ou revolta é essencialmente um movimento popular, o golpe de Estado é tipicamente levado a efeito por escasso número de homens já pertencentes à elite, sendo, por conseguinte, de caráter essencialmente cimeiro. A tomada do poder pelos revolucionários pode, de resto, acontecer mediante um golpe de Estado (assim se pode considerar a tomada do poder formal pelos bolcheviques, em 25 de outubro de 1917), mas a Revolução só se completa com a introdução de profundas mudanças nos sistemas político, social e econômico”. In: PASQUINO, Gianfranco. Revolução. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 11. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. p. 1121.
[8] Ex-presidente Lula é solto após 580 dias preso na Polícia Federal em Curitiba. Folha, São Paulo, 8 nov. 2019. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/ex-presidente-lula-e-solto-apos-580-dias-preso-na-policia-federal-em-curitiba.shtml>.
[9] Bolsonaro se reúne com a alta cúpula militar no Palácio da Alvorada. Correio Brasiliense, Brasília, 9 nov. 2019. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/11/09/interna_politica,805151/bolsonaro-se-reune-com-a-alta-cupula-militar-no-palacio-da-alvorada.shtml>.
[10] Bolsonaro se reúne com militares para tratar de risco Lula. O Antagonista, 9 nov. 2019. Disponível em: <https://www.oantagonista.com/brasil/bolsonaro-se-reune-com-militares-para-tratar-de-risco-lula/>.
[11] Golpe derruba Evo Morales na Bolívia. Revista Fórum, Porto Alegre, 10 nov. 2019. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/global/urgente-golpe-derruba-evo-morales/>.
[12] We Stand Against the Coup in Bolivia (statement from Noam Chomsky and Vijay Prashad).Peoples Dispatch, 9 nov. 2019. Disponível em: <https://peoplesdispatch.org/2019/11/09/we-stand-against-the-coup-in-bolivia-statement-from-noam-chomsky-and-vijay-prashad/>.
[13] “It’s Mutilation”: el crudo relato del New York Times sobre el explosivo aumento de traumas oculares por por disparos de Carabineros. El Mostrador, 10 nov. 2019. Disponível em: <https://www.elmostrador.cl/noticias/multimedia/2019/11/10/its-mutilation-el-crudo-relato-del-new-york-times-sobre-el-explosivo-aumento-de-traumas-oculares-por-por-disparos-de-carabineros/>.
[14] A regra de sangue da Operação Condor, a aliança mortífera das ditaduras do Cone Sul. El País Brasil, São Paulo, 30 mar. 2019. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/29/politica/1553895462_193096.html>.
[15]Extracts from an Interview with Friedrich von Hayek (El Mercurio, Chile, 1981). Punto de Vista Económico, 21 dez. 2016. Disponível em: <https://puntodevistaeconomico.com/2016/12/21/extracts-from-an-interview-with-friedrich-von-hayek-el-mercurio-chile-1981/>.
[16] Viver com 413 reais ao mês, a realidade de metade do Brasil. El País Brasil, São Paulo, 4 nov. 2019. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/30/economia/1572454880_959970.html>.
[17] “Rico capitaliza recursos, pobre consome tudo”, diz Guedes. Congresso em Foco, 3 nov. 2019. Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/economia/paulo-guedes-critica-servidor-publico-e-detalha-pacote-pos-reforma-da-previdencia/>.
[18] Bastam um soldado e um cabo para fechar STF, disse filho de Bolsonaro em vídeo. Folha, São Paulo, 21 out. 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/basta-um-soldado-e-um-cabo-para-fechar-stf-disse-filho-de-bolsonaro-em-video.shtml>.
[19] Declaração de Eduardo Bolsonaro sobre o AI-5 repercute na imprensa internacional. G1, São Paulo, 1 nov. 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/11/01/declaracao-de-eduardo-bolsonaro-sobre-o-ai-5-repercute-na-imprensa-internacional.ghtml>.
[20] Lavajatistas atiram “pedras” nos ministros do STF. Blog do Esmael, 10 nov. 2019. Disponível em: <https://www.esmaelmorais.com.br/2019/11/lavajatistas-atiram-pedras-nos-ministros-do-stf-assista/>.
[21] Manifestantes tentam invadir STF, policial é ferido e gás lacrimogêneo circula no tribunal.Estadão, 25 set. 2019. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/manifestantes-tentam-invadir-stf-policial-e-ferido-e-gas-lacrimogeneo-circula-no-tribunal/>.
[22] A obra de Agamben é vasta e o projeto homo sacer é formado por nove livros. Em maior ou menor medida, o tema do estado de exceção é referido em todos os livros, mas há um volume especificamente dedicado ao tema: AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Trad. Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004.

Xadrez do efeito Bolívia sobre o jogo político brasileiro, por Luis Nassif





A cada dia que passa fica mais claro que a bandeira da anticorrupção é um biombo político visando tirar as últimas garantias constitucionais para abrir espaço para uma nova Noite de São Bartolomeu

Cena 1 – o golpe na Bolívia

A violência do golpe na Bolívia deve servir de alerta ao Brasil. Quem assume o poder é o fundamentalismo moralista, trazendo de volta a violência clássica do continente: golpe militar com violência, prisão indiscriminada, incluindo até autoridades do Tribunal Superior Eleitoral, invasão e destruição das residências de Evo Morales e seus ministros, repressão violenta nas ruas. Ponto central: o golpe surgiu a partir da Guarda Nacional, não das Forças Armadas.
Aliás, com ordem de prisão expedida contra Evo, mais as suspeitas de uma operação visando eliminá-lo fisicamente, mais as prisões ocorridas até agora, sugere-se aos bons cultivadores da retórica dos falsos paralelismos, que parem de invocar os erros políticos de Evo para justificar um golpe militar. Vale quando erros políticos provocam derrotas políticas, não como álibi para um golpe.

Cena 2 – as semelhanças Brasil-Bolívia

A violência boliviana tem todos os ingredientes disponíveis no Brasil, a começar por uma ascensão social prévia inédita de setores historicamente abandonados, criando um quadro de reações: 
  • Ultradireita fundamentalista e violenta.
  • Mídia insuflando a opinião pública.
  • Ressentimento da classe média com a ascensão das maiorias.
  • Politização crescente das forças policiais.
  • Ministério Público atuando como gendarme do golpe, inclusive decretando a prisão de juizes do Tribunal Superior Eleitoral.
  • Apoio do governo Donald Trump a aventuras fundamentalistas na América Latina.

Peça 3 – as diferenças Brasil-Bolívia

Por enquanto, há duas diferenças fundamentais entre Brasil e Bolívia: o STF (Supremo Tribunal Federal) e as Forças Armadas, até agora sob controle de legalistas. Daí a importância de preservar essas conquistas, que não são permanentes.
O STF é a última barreira a um aprofundamento do arbítrio. Mas nele há uma luta permanente dos legalistas contra as forças dos porões.
A cada dia que passa fica mais claro que a bandeira da anticorrupção é um biombo político visando tirar as últimas garantias constitucionais para abrir espaço para uma nova Noite de São Bartolomeu, que impeça a volta de Lula ao jogo político. A ofensiva de Luis Roberto Barroso, Edson Fachin e Luiz Fux contra o garantismo já não dispõe do atenuante da falta de visão sobre as consequências de suas posições: é carne fresca para o tigre do golpismo. 
A segunda frente contra o STF vem sendo armada por Sérgio Moro, tentando estimular o Congresso a aprovar uma PEC trazendo de volta a prisão em segunda instância, mesmo atropelando cláusulas pétreas da Constituição.
Nas Forças Armadas calhou um Chefe do Estado Maior legalista e responsável, que sucedeu um militar com franca atuação política. Nem por isso reduziu o preconceito antilulista e antipopulista histórico nas Forças Armadas.
Em ambas as frentes, portanto, as barreiras ao arbítrio são tênues. E a falta de convicção democrática da chamada opinião pública midiática ajuda a alimentar o tigre.
Por exemplo, estão minimizando dois episódios relevantes. Um, o recente decreto de Garantia de Lei e Ordem (GLO) barrando o acesso ao STF, a pretexto de resguardar o encontro dos BRICS na Esplanada dos Ministérios. Outro, o fato de o governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, utilizar sua Polícia Civil como polícia política.
São transgressões que, naturalizadas pela opinião pública, vão permitindo os avanços do estado de exceção. E a radicalização da política guarda relação diretamente proporcional à dimensão política de Lula no quadro atual.

Peça 4 – o papel de Lula

Steve Bannon, o ideólogo da ultradireita, avaliou bem o papel de Lula no jogo ideológico global, em entrevista concedida à BBC News.
Tratou Lula como o maior ídolo da “esquerda globalista”, agora que Barak Obama está fora do jogo. Dois pontos são relevantes: o fato de colocar Lula ao lado (e, agora, à frente) de Obama; e o fato de ambos representarem o que ele chama de “esquerda globalista”, deixando subtendido que o ideário bolsonarista é o do nacionalismo fechado. Tornou-se liberal por questões táticas.
Além disso, o golpe na Bolívia deixou claro o efeito-dominó do impeachment. O Brasil de Lula e Dilma atuava como fator de moderação e de equilíbrio para as disputas regionais, moderando o radicalismo de Hugo Chávez, fortalecendo o trabalho admirável de Evo Morales. Não fosse o impeachment e o bolsonarismo, a esta altura o Brasil estaria alinhado com a OEA (Organização dos Estados Americanos) garantindo novas eleições, mas com a manutenção de Morales no cargo até o final do mandato.
O terraplanismo de Bolsonaro tornou o Brasil mero apêndice do trumpismo, isolou-o progressivamente da liderança do continente, embarcando na canoa furada do Grupo de Lima, deixando o continente à deriva e à mercê de fundamentalistas. E com um caldeirão de ódio espalhado por todos os cantos

Peça 5 – as torrentes de ódio

Por trás desses dois diques, do STF e do Alto Comando, há um oceano de ódio, revanchismo, envolvendo milícias e grupos com pouco apreço pela vida humana, uma polarização que irá se acirrar mais ainda com a libertação de Lula. Daí a importância de Lula ponderar esses fatores em sua estratégia política. 
A estratégia tem lógica. Um primeiro tempo de discursos eloquentes visando despertar a militância, reorganizar o PT, prepara-lo para as eleições municipais do ano que vem e mostrar cacife para pilotar a reorganização das esquerdas  Um segundo tempo, com um discurso racional, de novo projeto nacional, visando consolidar a frente das esquerdas em torno de propostas factíveis, e definindo uma candidatura para 2022. O segundo tempo deverá ser necessariamente flexível para permitir o terceiro tempo, os pactos que se darão no 2º turno das eleições, visando aglutinar as forças democráticas de espectro mais amplo.
O grande problema é o timing, o sentido de tempo. O caldeirão do golpe-sobre-golpe está sendo aquecido pelos seguintes fatores:
  • O fator Bolívia, mais o fator Chile, sendo explorados pela ultradireita.
  • O impacto da libertação de Lula, mostrando seu potencial eleitoral.
  • As investigações da morte de Marielle Franco, acuando a cada dia os Bolsonaro.
  • A revanche da Lava Jato, que provavelmente induzirá a incursões da banda radical da primeira instância do Ministério Público e da Polícia Federal.
  • As ofensivas das milícias bolsonaristas, com a radicalização retóricas das redes sociais podendo induzir a atos mais graves no mundo real.
Mais que nunca, haverá necessidade de bom senso e de bombeiros atuando ininterruptamente. 
Ficará claro, nesses tempos de paroxismo, que incursões oportunistas a favor da radicalização, por parte de Ministros do STF, procuradores, políticos, terão graves consequências para a paz social brasileira. Essa mesma precaução tem que ser adotada pelas esquerdas, sem se deixar contaminar pelo falso triunfalismo que se seguiu à libertação de Lula.