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sábado, 19 de maio de 2018

O uso do discurso de ódio, pelas elites, como instrumento de dominação das massas... Por Daniella Nefussi

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  "Extermínios étnicos (nome inventado que diz mais sobre o exterminador do que sobre os exterminados) existem à rodo desde o colonialismo, justamente porque era a principal forma de aquisição de escravos ou roubo de terras. Aliás, foi nesse banho de sangue que as terras em que vivemos hoje foram "distribuídas", que foram inventadas essas nações que tanto inflam nossos peitos nacionalistas!"

Do Jornal GGN:


O ódio é o melhor instrumento de controle de massas
por Daniella Nefussi

Extermínios étnicos (nome inventado que diz mais sobre o exterminador do que sobre os exterminados) existem à rodo desde o colonialismo, justamente porque era a principal forma de aquisição de escravos ou roubo de terras. Aliás, foi nesse banho de sangue que as terras em que vivemos hoje foram "distribuídas", que foram inventadas essas nações que tanto inflam nossos peitos nacionalistas!
Por algum motivo inexplicável, os exterminadores sentem necessidade de justificar seu terrorismo e criam as mais variadas teses, que vão de religiosas à cientificas, para sustentar a melhor forma de subjugação e controle do ser humano: o ódio.
No século 19 foram desenvolvidas as mais malucas teses cientificas para transformar a imagem dos seres humanos vindos do continente africano na de animais descontrolados e incapazes de discernimento. Como se o branco estivesse no seu juízo perfeito ao dizimar, escravizar, torturar outros seres humanos.
Apesar de passados 2 séculos, ainda reproduzimos esse ódio, que foi camuflado em diversas outras teses, cientificas, econômicas ou religiosas. Países como o Brasil e os EUA são os melhores exemplos desse extermínio continuado.
Hoje temos o exemplo de Israel e EUA construindo teses históricas e religiosas para criar a imagem de que muçulmanos são fanáticos e descontrolados, quase animalescos, chamados "terroristas", para também invadir terras economicamente estratégicas e exterminar toda uma população, como é o caso dos palestinos há mais de meio século, nem todos muçulmanos, diga-se de passagem.
Assim como vamos encontrar outros terriveis exemplos no continente africano, com bandeiras cristãs dizimando diferentes grupos, há décadas.
Ou no clássico exemplo do nazismo, que cresce ainda hoje, contra judeus, negros e lgbts. Uma perseguição orquestrada por interesses politico-economicos.
Nem vou citar o massacre de mulheres. Ok.
O ódio é, desde sempre, o melhor instrumento de controle de massas. Ele é milimetricamente construído através de mecanismos já conhecidos por nós, mas que ainda não sabemos evitar.
Poucos conseguem desconstruir, destruir o "ódio ao outro" porque exige um trabalho violento dentro de si. Nada a ver com alimentar o amor, porque amor não é a antítese do ódio. Nem mesma natureza eles possuem. Achar que se cura o ódio com o amor é não ter entendido nada sobre nenhum dos dois, e alimentar teses religiosas compassivas que de nada serviram para melhorar essa situação.
Tem que pegar o touro à unha dentro de si, bem ali no núcleo das suas crenças mais profundas, mais arraigadas, e enxergar a hipocrisia que as sustenta!! Entender que o ódio é construído através das narrativas, cientificas, filosoficas, teológicas, que você internalizou e que te submetem a comportamentos contra a vida. E vida é a sua e a do outro.
Não há saída para nós se cada um não fizer a sua parte em profundidade. Não se elimina o ódio cultivando o amor, porque amor não dá em árvore, não precisa de cultivo.
É no resgate da Ética que renascem a igualdade, o respeito e o amor, naturais à vida.
Daniella Nefussi é atriz

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Historiador e professor norte-americano da Universidade de Wisconsin, Alfred W. McCoy escreve sobre as insanidades de Trump acelerando o declínio da diplomacia norte-americana



Entenda como o governo Trump destrói alianças de décadas e acelera a erosão do poder geopolítico, econômico e militar de Washington com o professor de Wiscosin, Alfred W. McCoy




Do Outras Palavras:


Novo ataque à Síria nada mudará, no essencial. Como o governo de Trump acelera a erosão do poder geopolítico, econômico e militar de Washington
Por Alfred W. McCoy, no TomDispatch | Tradução: Mariana Carioni, do Círculo de Tradutores Voluntários de Outras Palavras
Enquanto 2017 acabava com os bilionários norte-americanos torrando os cortes de impostos e executivos do setor de petróleo comemorando acesso irrestrito a terras federais, bem como águas costeiras, um setor da elite americana não bebeu do espumante comemorativo: o corpo de especialistas em política externa de Washington. De diferentes pontos do espectro político, muitos sentiram um profundo mau pressentimento pelo futuro global do país sob a presidência de Donald Trump.
Em uma longa reclamação de final de ano, o comentarista conservador da CNN Fareed Zakaria criticou a “decisão tola e derrotista da administração Trump de abdicar a influência global dos Estados Unidos – algo que levou mais de 70 anos para ser construído.” A grande “história global de nossos tempos”, ele continua, é que “o criador, defensor e executor dos sistema internacional existente está retirando-se ao isolamento egocêntrico”, abrindo um vácuo de poder que será preenchido por poderes não liberais como a China, a Rússia ou a Turquia.
Os editores do The New York Times lamentaram que “as brincadeiras, a beligerância e a tendência ao auto-engrandecimento do presidente estejam custando não apenas o apoio do resto do mundo, mas isolando-o.” Descartando o polido bipartidarismo da nata dos diplomatas de Washington, a ex-consultora de segurança nacional de Obama, Susan Rice, criticou Trump por descartar a  “liderança com princípios – a base da política externa americana desde a Segunda Guerra Mundial” – por uma postura “América Primeiro” que vai apenas “encorajar rivais e enfraquecer a nós mesmos.”
A crítica é amplia e afiada. Mas não consegue assimilar o escopo do dano que a Casa Branca de Trump está impingindo ao sistema global de poder que Washington construiu e cuidadosamente manteve ao longo destes 70 anos. Na verdade, líderes americanos permaneceram no topo do mundo por tanto tempo que nem lembram mais como chegaram lá. Poucos, dentre a elite da política externa de Washington, parecem realmente compreender o complexo sistema que fez do poder global dos Estados Unidos e o que é hoje — particularmente suas bases geopolíticas cruciais. À medida em que Trump viaja pelo mundo tuitando e falando mal de tudo e todos, ele inadvertidamente revela estrutura essencial desse poder, da mesma forma que um incêndio devastador deixa as vigas de aço de um edifício arruinado de pé, sobre os escombros esfumaçados.
A Arquitetura do Poder Global Americano
A arquitetura  da ordem mundial que Washington construiu depois da Segunda Guerra Mundial foi não apenas formidável; mas, como Trump tem-nos mostrados quase todos os dias, surpreendentemente frágil. Em seu cerne, este sistema global reinava sobre uma delicada dualidade: uma idealística comunidade de nações soberanas iguais sob o jugo da lei internacional, unida de maneira tensa e tênue a um império americano fundamentado na realpolitik de seu poder militar e econômico. Em termos concretos, pense nessa dualidade como Departamento de Estado versos o Pentágono.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, Os Estados Unidos investiram seu prestígio em formar uma comunidade internacional que promoveria paz e compartilharia prosperidade através de instituições permanentes, incluindo as Nações Unidas (1945), o Fundo Monetário Internacional (1945) e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (1947), o precursor da Organização Mundial do Comércio. Para governar esta ordem mundial através da lei, Washington também ajudou a estabelecer a Corte Internacional de Justiça em Haia e mais tarde promoveria direitos humanos bem como direitos das mulheres. Pelo lado realpolitik da dualidade, Washington construiu um aparato apoiado em quatro pilares – militar, diplomático, econômico e clandestino – para avançar sombriamente seu domínio global. No seu cerne estava um poderio militar sem precedentes que (graças a centenas de bases estrangeiras) circundava o globo, o mais formidável arsenal nuclear do planeta, forças aéreas e navais maciças e uma variedade sem paralelos de exércitos clientes. Ademais, para manter sua superioridade militar, o Pentágono promoveu vastamente a pesquisa científica, produzindo incessantes inovações que levariam, dentre tantas outras coisas, ao primeiro sistema global de satélites de telecomunicações do mundo, o que efetivamente adicionava o pilar espacial ao seu aparato para exercer poder global.
Complementando tudo isso estava um corpo diplomático ativo em todo o mundo, trabalhando para promover laços bilaterais próximos com aliados como Austrália e Grã-Bretanha e alianças multilaterais como a OTAN, a SEATO [Organização do Tratado do Sudeste Asiático] e a Organização dos Estados Americanos. No processo, Washington distribuía ajuda econômica a nações novas e velhas. Protegidas pela hegemonia global e ajudada pelos pactos de comércio multilaterais costurados por Washington, as corporações multinacionais competiam de maneira lucrativa em mercados internacionais ao longo de toda a Guerra Fria.
Adicionando outra dimensão ao seu poder global estava um quarto pilar clandestino que envolvia vigilância global pela Agência de Segurança Nacional (NSA) e operações secretas nos cinco continentes  pela Agência Central de Inteligência (CIA). Desta maneira, com regularidade notável e por vastas extensões do globo, Washington manipulou eleições e promoveu golpes para garantir que quem quer liderasse um país de seu lado da Cortina de Ferro seria sempre parte de um grupo confiável das elites subordinadas, amigáveis e subservientes aos EUA.
Por caminhos que até hoje poucos observadores compreendem em sua totalidade, esse aparato maciço de poder global erguia-se também sobre bases geopolíticas de força extraordinária. Como John Darwin, historiador de Oxford, esclareceu em sua avassaladora história dos impérios eurasianos ao longo dos últimos 600 anos, Washington conquistou seu “Império colossal… em uma escala sem precedentes” ao tornar-se o primeiro poder na história a controlar os pontos axiais estratégicos nas duas pontas da Eurásia” através de bases militares e pactos de segurança mútuos.
Enquanto Washington defendia seus pontos axiais no Ocidente por meio da OTAN, sua posição no leste era garantida por quatro pactos de defesa mútuos ao longo do litoral Pacífico, desde o Japão e a Coreia do Sul passando pelas Filipinas e indo até a Austrália. Tudo isso era, por sua vez, amarrado por sucessivos arcos de aço que circundavam o vasto continente eurasiano – bombardeiros estratégicos, mísseis balísticos e frotas navais robustas no Mediterrâneo, no Golfo Pérsico e no Pacífico. Na última adição a este aparato, os EUA construíram uma sucessão de 60 bases de drones ao redor de todo o continente eurasiano, desde a Sicília até Guam.
A dinâmica do Declínio
Na década anterior à entrada de Donald Trump no Salão Oval, já havia sinais de que esse aparato impressionante estava em uma trajetória de declínio de longo prazo, ainda que figuras chave, em uma Washington absorta em orgulho imperial, tenham preferido ignorar essa realidade. A diplomacia desajeitada de Trump não tão somente acelerou este processo, mas deu-lhe evidência de maneira arrebatadora.
Ao longo do último meio século, a participação norte-americana na economia global, por exemplo, caiu de 40% em 1960 para 22% em 2014 e apenas 15% em 2017 (de acordo com o índice realista de paridade de poder de compra). Muitos especialistas agora concordam que a China vai ultrapassar os EUA, em termos absolutos, como a economia número um do mundo dentro de uma década.
Enquanto sua dominância econômica desvanece, seus instrumentos clandestinos de poder vêm se enfraquecendo visivelmente. A vigilância da NSA sobre uma considerável gama de líderes estrangeiros mundo afora, bem como milhões de habitantes de seus países, foi um dia um instrumento de custo relativamente eficiente para o exercício do poder global. Agora, graças em parte às revelações de Edward Snowden sobre a bisbilhotagem da agência e à raiva dos aliados atingidos por ela, os custos políticos subiram bruscamente. De maneira similar, durante a Guerra Fria a CIA manipulou dezenas de grandes eleições mundo afora. Agora, a situação foi revertida com a Rússia usando suas sofisticadas capacidades de cyber guerra para interferir na campanha presidencial americana de 2016 – um sinal claro do declínio do poder global de Washington.
Ainda mais impressionante, Washington agora encara o primeiro desafio contínuo a sua posição geopolítica na Eurásia. Ao optar por começar a construir uma “nova rota da seda”, uma estrutura ferroviária de trilhões de dólares e oleodutos atravessando todo o vasto continente, e preparar-se para construir bases navais nos mares da Arábia e da China, Pequim está montando uma campanha contínua para acabar com a longa dominação de Washington sobre a Eurásia.
Fortaleza América
Em apenas 12 meses no cargo, Donald Trump acelerou seu declínio ao prejudicar praticamente todos os componentes chave na intrincada arquitetura do poder global americano.
Se todos os grandes impérios precisam de liderança habilidosa em seu epicentro para manter o que é sempre um equilíbrio global frágil, então o governo Trump falhou espetacularmente. Enquanto o Departamento de Estado é eviscerado e o (agora ex) Secretário de Estado Rex Tillerson descreditado, Trump – peculiarmente para um presidente americano – tomou controle total sobre a política externa (com os generais que ele mesmo indicou para postos civis chave a reboque).
Como, então, estes que têm estado em contato próximo com ele neste período avaliam sua habilidade intelectual para se adaptar a um papel tão desafiador?
Apesar de desde sua campanha eleitoral Trump ter repetidamente se gabado por sua excelente educação em Wharton, Universidade da Pensilvania, como uma qualificação para o posto, ele começou lá no final dos anos 1960 achando que já sabia tudo de negócios, levando seu professor de marketing, que lecionava por mais de 30 anos, a taxá-lo como “o estudante mais burro que eu jamais tive”. Essa impetuosa falta de vontade de aprender perdurou durante a campanha presidencial. Como o consultor político Sam Nunberg, enviado para ensiná-lo sobre a Constituição, relatou, “Eu fui até a Quarta Emenda antes… que seus olhos começassem a se revirar.”
Segundo Michael Wolff conta em seu novo best-seller sobre a Casa Branca de Trump, , Fire and Fury (Fogo e Fúria), alguns meses depois, ao final de uma conversa por telefone com o presidente eleito sobre a complexidade do programa de vistos H-1B para imigrantes especializados, o magnata da mídia Rupert Murdoch desligou e disse, “Mas que porra de idiota.” E em julho último, como ninguém deve esquecer, depois de um briefing ultrassecreto do Pentágono para diretores na Casa Branca sobre operações militares pelo mundo, o (agora ex) Secretário de Estado Tillerson demonstrou, a portas fechadas, compartilhar da mesma percepção, ao chamar  o presidente de “idiota de merda.”
“É pior do que você pode imaginar. Um idiota cercado de palhaços,” um adido da Casa Branca escreveu em um e-mail, de acordo com Wolff. “Trump não lê nada; nem memorandos de uma página, nem documentos breves; nada. Ele se levanta antes do final de reuniões com líderes do mundo porque fica entediado.” A vice-chefe de staff da Casa Branca declarou que lidar com o presidente era “como tentar adivinhar o que uma criança quer.”
Essas qualidades mentais estão amplamente evidentes no recente relatório de Estratégia de Segurança Nacional do governo norte-americano, um documento vago que oscila entre o equivocado e o delirante. “Quando eu assumi o cargo,” Trump (ou quem quer que esteja escrevendo por ele) escreve sombriamente em um prefácio pessoal, “regimes nefastos desenvolviam armas nucleares… para ameaçar todo o planeta. Grupos terroristas radicais islâmicos floresciam… poderes rivais minavam os interesses norte-americanos ao redor do mundo de maneira agressiva… o injusto compartilhamento de responsabilidades com nossos aliados e investimentos inadequados na nossa própria segurança evocavam o perigo.”
Em apenas 12 curtos meses, contudo, o presidente – assim indica “seu” prefácio – salvou o país da destruição quase certa sozinho. “Nós estamos reunindo o mundo contra o regime nefasto da Coreia do Norte e… a ditadura no Irã, que aqueles determinados a continuar um acordo nuclear falho tinham negligenciado,” continua o documento, numa celebração tipicamente Trumpiana de si mesmo. “Nós renovamos nossas amizades no Oriente Médio… para ajudar a remover terroristas e extremistas… os aliados da América agora contribuem mais para nossa defesa comum, fortalecendo mesmo as nossas mais fortes alianças… nós estamos fazendo investimentos históricos nas forças armadas dos Estados Unidos.”
Refletindo as amplamente documentadas dificuldades de seu governo com a verdade, praticamente cada uma das declarações é inexata, incompleta ou irrelevante. Deixando de lado estes detalhes, o documento em si reflete a maneira como o presidente (e seus generais) abandonaram décadas de liderança confiante da comunidade internacional e agora estão tentando se retirar de “um mundo extraordinariamente perigoso” para um verdadeiro Festung America(Fortaleza América), por trás de muros de concreto e barreiras tarifárias. É um movimento que lembra a Muralha do Atlântico dos bunkers litorâneos do Terceiro Reich de Hitler, construídos para sua fracassada Festung Europa (Fortaleza Europa). Mas além de uma agenda de política externa tão obviamente míope, existem vastas áreas, largamente negligenciadas pela estratégia de Trump, que continuam críticas para a manutenção do poder global norte-americano.
Tudo que você tem a fazer é examinar as manchetes diárias na mídia no ano passado para perceber que a dominação mundial de Washington está desmoronando, graças ao tipo de revés em cascata que frequentemente acompanha o declínio imperial. Considere os sete primeiros dias de dezembro de 2017, quando o The New York Timespublicou (sem ligar os pontos) que nação após nação estava se retirando das alianças com Washington. Primeiro foi o Egito, um país que recebeu 70 bilhões de dólares de ajuda norte-americana ao longo dos últimos 40 anos e agora está abrindo suas bases militares a caças russos. Em seguida, apesar do namoro assíduo de Obama com o país, Mianmar claramente aproxima-se cada vez mais de Pequim. Enquanto isso, a Austrália, fiel aliada da América pelos últimos 100 anos, estaria adaptando sua diplomacia, ainda que relutantemente, para acomodar o poder cada vez mais dominante da China sobre a Ásia. Finalmente, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, o bastião americano na Europa desde 1945, aponta publicamente o crescente distanciamento de Washington em questões de políticas chave e insiste que confrontos serão inevitáveis e que as relações “jamais serão as mesmas.”
E isso é apenas um olhar superficial sobre uma semana de notícias, sem sequer chegar aos tipos de rupturas com aliados regularmente inflamadas ou enfatizadas pelos tweets diários do presidente.
Apenas três exemplos de muitos são suficientes: o cancelamento da visita de estado do presidente mexicano Peña Nieto, depois de um tweet que dizia que seu teria que pagar pelo “grande e lindo muro” na fronteira comum; o ultraje de líderes britânicos depois de o presidente repostar vídeos racistas anti-islâmicos da conta de um vice-líder de um grupo político neo-nazista do Reino Unido, seguido de sua repreensão à primeira ministra Theresa May por criticá-lo por isso; ou sua explosão de ano novo acusando o Paquistão de “nada mais que mentiras e enganação” como um prelúdio ao corte da assistência norte-americana ao país. Considerando o dano diplomático como um todo, pode-se dizer que Trump está tuitando enquanto Roma arde.
Como apenas 40 a 50 nações têm riquezas suficientes para assumir um papel de liderança regional, menos ainda um papel global, alienar ou perder aliados neste ritmo poderia deixar Washington sem amigos muito em breve. É algo que o presidente Trump descobriu em dezembro, quando desafiou inúmeras resoluções da ONU ao reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. A Casa Branca logo recebeu uma reprimenda por 14 votos contra 1 no Conselho de Segurança da ONU, com aliados próximos como alemães e franceses votando contra Washington. Isso veio depois de a embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Hakey ter vaticinado que “os Estados Unidos vão fazer uma lista” para punir países que se atrevam a votar contra e de Trump ter ameaçado cortar ajuda àqueles que o fizessem. A Assembleia Geral prontamente votou 128 a 9 (com 35 abstenções), condenando o reconhecimento – testemunho eloquente do declínio da influência internacional de Washington.
Em seguida, vamos considerar os “investimentos históricos” em um pilar central do poder global americano, as forças armadas norte-americanas, mencionadas na Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Não se deixe distrair pelos polpudos 10% de aumento proposto ao orçamento do Pentágono para financiar novas aeronaves e navios de guerra, com boa parte indo direto para os bolsos das gigantes empreiteiras de defesa. Foque, ao invés disso, no que outrora teria sido inconcebível em Washington. O orçamento proposto por Trump golpeia o financiamento para pesquisa básica em áreas estratégicas como  “inteligência artificial” que provavelmente serão críticas para sistemas de  armamentos autômatos dentro de uma década.
Na verdade, o presidente e sua equipe, distraídos por visões de navios cintilantes e aviões brilhantes (com seu previsível e colossal sobrecusto futuro), estão prontos a abandonar o básico na dominação global: os implacáveis esforços em pesquisa científica que estiveram na proa da supremacia militar americana. E ao expandir o orçamento do Pentágono, enquanto corta o do Departamento de Estado, Trump também está desestabilizando a delicada dualidade do poder dos EUA ao empurrar a política externa cada vez mais em direção a soluções militares dispendiosas (que provaram ser tudo menos soluções de fato).
No início da campanha, em 2016, Trump martelou outro pilar do poder norte-americano, atacando o sistema de comércio global e pactos de comércio multilaterais, que durante muito tempo deram vantagem às empresas transnacionais do país. Ele não só cancelou a Parceria Trans-Pacífica (TPP), que prometia direcionar 40% do comércio mundial pra longe da China, na direção dos Estados Unidos, como também ameaçou esvaziar o pacto de livre-comércio com a Coreia do Sul e tem sido tão insistente em redesenhar o NAFTA para servir sua agenda “América primeiro” que as negociações em andamento podem muito bem fracassar.
A posição geopolítica dos EUA em ruínas
Tão sério quanto isso possa ser, Trump revelou o mais profundo dano que seria capaz de causar para as bases geopolíticas do poder global norte-americano em dois momentos-chave em suas viagens à Europa e à Ásia ano passado. Em ambas ocasiões, ele demonstrou sua vontade de sair martelando a posição de Washington nessas duas saídas axiais estratégicas da Eurásia.
Durante uma visita à sede da OTAN em Bruxelas em maio, ele puniu aliados europeus, cujos líderes escutaram “perplexos” por não pagar sua “devida parte” nos custos militares da aliança. Aproveitou pra recusar a reafirmação do princípio central da OTAN de defesa coletiva. Apesar de tentativas posteriores de contenção de danos, isto espalhou o medo pela Europa e com razão. Sinalizou o fim de mais de três quartos de século de supremacia inquestionada na região.
Em seguida, em uma reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico no Vietnã, em novembro, o presidente começou “um ataque” contra acordos multilaterais de comércio e insistiu que iria sempre “colocar a América primeiro.” Era como se, em uma Ásia com uma China em rápida ascensão, ele estivesse anunciando mais uma vez que a supremacia pós-Segunda Guerra de Washington fosse um artefato da história. Apropriadamente, na mesma reunião, os 11 parceiros Trans-Pacíficos remanescentes, liderados por Japão e Canadá, anunciaram grande progresso em finalizar o acordo TPP que ele tão simbolicamente rejeitou – e o fizeram sem os EUA. “Os EUA perderam seu papel de liderança“, comentou Jayant Menon, um economista do Banco de Desenvolvimento Asiático. “E a China está rapidamente substituindo-os.”
Sob Trump, na verdade, as próximas relações com três aliados-chave dos EUA no Pacífico continuam a enfraquecer-se de maneira visível. Durante uma chamada telefônica de cortesia por ocasião de sua posse, Trump gratuitamente insultou o primeiro ministro australiano, um ato que apenas ressaltou a constante alienação dos EUA e uma crescente inclinação de mudar sua aliança estratégica primária em direção à China. Em pesquisas recentes, quando perguntados que país prefeririam como primeiro aliado, 43% dos australianos escolheram a China – uma transformação antes inimaginável, que a versão de diplomacia de Trump está apenas reforçando.
Nas Filipinas, a posse do presidente Rodrigo Duterte em junho de 2016 trouxe uma súbita mudança na política externa do país, terminando com a oposição de Manila a bases de Pequim no Mar do Sul da China. Apesar das agressivas investidas de Trump e uma certa afinidade temperamental entre os dois líderes, Duterte continuou a diminuir as manobras militares em conjunto com os EUA, que eram um evento anual para seu país, e recusou-se a reconsiderar sua decisiva inclinação em direção a Pequim. Esse realinhamento já era evidente em uma transcrição vazada de um telefonema entre os dois presidentes, na qual Duterte insistia que a resolução da questão nuclear da Coreia do Norte deveria ser deixada a cargo da China somente.
É, entretanto, na península coreana que as limitações de Trump enquanto líder global ficam mais evidentes. Em duas iniciativas descoordenadas e mal informadas – desgastando uma aliança norte-americana que vem desde a era da Guerra da Coreia e exigindo total desarmamento nuclear pelo Norte – Trump fomentou a dinâmica diplomática que permitiu a Pequim, Pyongyang e até mesmo Seul ultrapassar Washington.
Durante sua campanha presidencial e primeiros meses no cargo, Trump repetidamente insultou a Coreia do Sul, diminuindo sua cultura e exigindo um bilhão de dólares para instalar um sistema de mísseis de defesa norte-americano. Ninguém deveria ter se surpreendido quando Moon Jae-in ganhou a presidência deste país ano passado baseado em uma plataforma “diga não” à América e em promessas de reabrir negociações diretas com a Coreia do Norte, de Kim Jong-un. Então, durante uma visita de estado a Washington em junho passado, o novo líder sul-coreano foi pego de surpresa quando Trump classificou o acordo de livre-comércio entre os dois países de “injusto com o trabalhador americano” e achincalhou a proposta de Moon por negociar com Pyongyang.
Enquanto isso, Kim Jong-un supervisionou 16 testes com foguetes em 2017 que deram ao seu país mísseis que poderiam levar uma arma nuclear a Honolulu, Seatle ou mesmo a Nova Iorque ou Washington até o final do ano, enquanto testava sua primeira bomba de hidrogênio. Convencido de que a Coreia do Norte “busca a capacidade de matar milhões de americanos,” Trump tornou-se obcecado por cercear o programa nuclear de Pyongyang de qualquer modo, até mesmo ameaçando em agosto passado soltar sobre o país “fogo e fúria como o mundo jamais viu.”
Num espaço de dias, contudo, o então estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, expôs a fanfarronice vazia de tudo isso ao contar à imprensa, “Não existe solução militar até que alguém resolva a equação que… dez milhões de pessoas em Seul não morram nos primeiros 30 minutos por armas convencionais.”  Então as ameaças fracassaram e Trump fracassou , repetidamente mandando tweets para Kim Jong-un xingando-o de “Homenzinho do Foguete” e se gabando de seu “botão nuclear” ser “muito maior” do que o do líder norte-coreano. Estes 12 meses de bizarras e desestabilizantes viradas e tweets do presidente, praticamente sem precedentes nos anais da diplomacia moderna, empurraram Seul na direção de conversas diretas com Pyongyang – excluindo Washington e enfraquecendo o que havia sido uma sólida aliança.
Na guerra de nervos com a Coreia do Norte sobre testes com mísseis, a estratégia de Trump de triangulação com a China (isto é, Washington cutuca Pequim, Pequim empurra Pyongyang) já impingiu uma grande e inédita derrota sobre o poder norte-americano no Pacífico. Pelos últimos seis meses, para encorajar Pequim a pressionar Pyongyang, a Casa Branca suspendeu as patrulhas de “liberdade de navegação” que desafiava as reinvindicações espúrias de Pequim sobre o controle do Mar do Sul da China, efetivamente concedendo esta estratégica rota marinha à China. Em uma hábil dissimulação, Pequim demonstrou cooperação com Washington ao expressar “graves preocupações” sobre os testes com mísseis de Pyongyang e impor sanções nominais, enquanto negocia uma estratégia mais inteligente e de longo prazo. No processo, vem trabalhando para reduzir manobras militares conjuntas entre os dois países e neutralizar a marinha americana no que a China considera seu mar territorial.
Nesta edição diplomática de The Art of the Deal, Pequim está vencendo Washington.
Derrubando o Império
Muito compreensivelmente, muitos norte-americanos focaram nos danos que os primeiros meses de Trump no cargo causaram internamente, de abrir imensidões selvagens e águas marítimas para a exploração de gás natural a ameaçar o acesso à saúde, distorcer o sistema tributário para favorecer os ricos, cancelar a neutralidade da internet e esvaziar proteções ambientais de todos os tipos. A maioria senão todas essas políticas regressivas podem, todavia, ser reparadas ou revertidas se os democratas tomarem o controle do Congresso e da Casa Branca.
A versão tão contundentemente inepta de Trump de diplomacia de um homem só, no contexto do atual declínio global dos Estados Unidos é algo completamente distinto. A liderança global perdida nunca é prontamente recuperada, em particular quando poderes rivais estão preparados para preencher a vacância. Enquanto Trump depreda a posição estratégica dos EUA nas saídas axiais da Eurásia, a China exerce incansável pressão para afastar os Estados Unidos e dominar aquele vasto continente com o que Edward Wong, correspondente do New York Times, chama de “um contraponto brusco… sinônimo de força bruta, suborno e intimidação.”
Em apenas um ano extraordinário, Trump desestabilizou a delicada dualidade que há tempos tem sido a base para a política externa dos EUA: favorecer a guerra sobre a diplomacia, o Pentágono sobre o Departamento de Estado e interesses nacionais obtusos sobre liderança global. Mas em um mundo globalizado interconectado pelo comércio, pela internet e pela rápida proliferação de mísseis com armas nucleares, muralhas não vão funcionar. Não poderá existir uma Fortaleza América.

Alfred W. McCoy

Alfred W. McCoy é historiador norte-americano e atual professor de História no Centro para Estudos do Sudoeste Asiático, na Universidade de Wisconsi, Madison. Pesquisa e escreve principalmente sobre a história das Filipinas e o comércio de heroína e ópio no Triângulo Dourado. Seu livro "A Política da Heroína no Sudeste Asiático" foi um marco documentando as interações entre a CIA e os cartéis de droga na região.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Robert Fisk (repórter britânico): "Um Tribunal de Nuremberg para George Bush e Tony Blair"

Robert Fisk é um premiado jornalista inglês, correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent. Fisk vive em Beirute há mais de 25 anos. Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda (em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão).

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1854
Ao analisar Relatório Chilcot, um dos grandes repórteres no Oriente Médio relata: governos da Grã-Bretanha e EUA continuam devastando a região e manipulando opinião pública de seus países
Por Robert Fisk, no The Independent | Tradução Vila Vudu para o Outras Palavras
Acho que um julgamento em Nuremberg seria melhor local para analisar as minúcias dos crimes Blair-Bush que todos os britânicos cometemos ao ir à guerra no Oriente Médio. Causamos a morte de mais de meio milhão de pessoas, a maioria das quais muçulmanos, tão completamente inocentes quanto Blair foi culpado. Uma corte semelhante à de Nuremberg poderia concentrar-se mais detidamente no caso das massas árabes vítimas de nossa odiosa expedição criminosa, que na culpa hedionda e na “profunda lástima” – palavras dele, claro – do ex-primeiro-ministro, Lord Blair.
Claro, Blair mentiu quanto à inteligência sobre armas de destruição em massa antes de ir à guerra; mentiu depois novamente quanto aos alertas do Foreign Office sobre o caos que tomaria conta do Iraque; e hoje Blair novamente mente, insistindo que o Relatório Chilcot o teria inocentado, quando, isso sim, o relatório faz exatamente o contrário.
Mas um estudo aprofundado do relatório, em vez do resumo edulcorado que querem nos meter goela abaixo nas últimas horas, pode produzir linhas do relatório que são muito mais perturbadoras que as conclusões da versão simplificada, mais curta e fácil de regurgitar, que foi passada aos veículos da mídia. Além disso, nossa concentração sobre o iníquo Blair e suas mentiras, embora seja resposta compreensível a Chilcot, oferece preocupante versão da mendacidade que ainda hoje acomete todos os políticos, nossos primeiros-ministros e líderes de partido, e a atitude insultante que todos eles assumem na relação com os que eles dizem representar.
Ouvir as primeiras notícias sobre o épico trabalho de literatura deSir John Chilcot justamente quando viajava pela Síria, foi para mim uma experiência perturbadora. Não só porque a praga da crueldade terrorista avança para fora a partir de Raqqa foi (e não importa que tipo de nonsense Blair diga e repita) resultado direto do inferno iraquiano; mas também porque, em dezembro passado, nosso próprio atual, embora desacreditado, primeiro-ministro usou mais mentiras e falsidades Blairistas para persuadir os deputados do Parlamento a bombardear alvos do Estado Islâmico (ISIS) na Síria.
Lembram as sandices sobre os 70 mil rebeldes “moderados” que precisavam de nossa ajuda, apesar de nem existirem e de terem sido fabulados pela mesma Comissão Conjunta de Inteligência na qual Blair confiou integralmente para sua aventura criminosa?
E quando os membros do Parlamento questionaram essa conversa oca, foram desmoralizados pelo general Gordon Messenger, vice-chefe do gabinete da Defesa, que disse que, por razões de segurança as tais unidades rebeldes não podiam ter seus nomes divulgados – por mais que todos conheçamos a identidade dessa ralé de crias da CIA e da incapacidade delas para lutar contra seja o que for. O muito apropriadamente chamado Messenger [ing. “mensageiro”] manteve a fantasia de David Cameron e foi devidamente promovido; como John Scarlett, diretor da Comissão Conjunta de Inteligência (JIC) que forneceu a Tony Blair toda aquela “inteligência” vagabunda, foi adiante condecorado.
E assim os britânicos fomos à guerra contra o ISIS na Síria – exceto, claro, quando o ISIS atacasse o governo de Assad, caso em que não fazíamos coisa alguma, apesar de todos os ultrajados discursos de Hilary Benn sobre fascismo pré-guerra. Condenaremos Blair, o desgraçado, mas não pense que alguma coisa mudou nos seis anos queSir John levou para escrever seu tomo de proporções bíblicas.
E aí está o problema. Quando Blair pode dizer, como disse no momento em que o Relatório Chilcot foi publicado, que [o relatório] “deveria ter evitado acusações [sic] de má fé, mentiras e calúnias” – sem que o povo se levante nas ruas contra a má fé, as mentiras e calúnias do próprio Blair – nesse caso pode-se ter certeza que seus sucessores continuarão a ludibriar o povo mais e mais vezes, sem parar. Afinal, qual a diferença entre as Armas de Destruição em Massa (ADMs) iraquianas que não existem; os ‘alertas’ de 45 minutos, todos falsos; 70 mil “moderados” sírios inexistentes e o fim (inventado) do Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha (NHS) se o país deixasse a União Europeia?
Há muitas versões – e citações erradas – do que disse aquele mais cínico dos propagandistas nazistas, Joseph (“quanto maior a mentira, melhor”) Goebbels, mas é impossível não se sentir tocado por algumas das observações dele. “O segredo essencial da liderança britânica não depende de qualquer inteligência especial” – escreveu Goebbels em 1941. “Depende, isso sim, de notável, impenetrável estupidez. Os britânicos seguem o princípio de que suas mentiras têm de ser sempre mentira gigantesca; e a mentira vale para sempre, ninguém jamais se desmente. Os britânicos mantêm as mentiras deles, mesmo ao risco de se mostrarem ridículos.”
O mais assustador dessas palavras não é aquele tempo de guerra passada de que falava Goebbels, nem a evidência de que Churchill (alvo real do comentário do alemão) realmente mentiu. Dada a luta contra o nazismo – e apesar do que disse Churchill, que a verdade, em tempo de guerra, tem de ser protegida por uma escolta de mentiras –, os britânicos mantiveram uma habilidade virtuosa no conflito 1939-45 de dizer a verdade, até quando uma pitada de enganação Blairista teria bastado para encobrir as derrotas britânicas. Não. O mais assustador é que as palavras de Goebbels aplicam-se muito dolorosamente aos políticos britânicos de hoje.
Quem dos nossos conhecidos, depois do relatório, insiste em manter as próprias grandes mentiras, ao risco de se mostrar ridículo? Temo horrivelmente que homens pequenos que se metem a andar com salto alto – que realmente acham que seriam Churchill e levam o país à guerra – estão mentindo as mesmas mentiras das quais seus ancestrais políticos foram, em grande parte, inocentes. Talvez a chave para compreender tudo isso esteja no argumento de Sir John, para quem Blair confiou demais nas próprias “crenças” – seja lá o que se oculte nessa palavra perigosa – e na opinião de outros.
Blair assume a responsabilidade
Por isso pode nos dizer – e disse-me, a mim, enquanto eu chegava pelo deserto sírio à cidade de Palmyra e até onde chegaram as práticas vis dos autores do desastre iraquiano que Blair ajudou a criar – que “não creio [que a remoção de Saddam Hussein] seja a causa do terrorismo que vemos hoje no Oriente Médio ou noutros pontos do mundo”. Toda essa duplicidade, é claro, é para ser parte do “debate total” que Blair agora ameaça, como resultado do relatório Chilcot.
Blair diz que dará – Deus nos livre e guarde! – “todas as lições que creio que futuro líderes devem aprender de minha experiência”. Mas Blair não precisa nos entediar outra vez com suas mentiras. Elas já foram incorporadas por Dave “70 mil moderados” Cameron e os caras do Brexit que agora se autodestroem cercados das próprias mentiras que contam – e que podem afinal conseguir precisamente tudo que Goebbels sempre quis para esse país: o fim do Reino Unido.
Nesse contexto, o relatório Chilcot nem é tanto um maciço trabalho de investigação dos pecados que nos levaram para a guerra em 2003, mas apenas outro capítulo na história da inabilidade dos britânicos para controlar um mundo no qual relações públicas de políticos britânicos ameaçam o próprio povo, com desprezo; matam seus próprios soldados; e massacram centenas de milhares de estrangeiros, sem qualquer remorso real.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Crianças sírias usam Pokemon Go para lançar apelo ao mundo, pedindo que as salve

Lembrando que o judas interino Michel Temer proibiu apoio e refúgio aos sírios, chegando a dizer ao Kojak imitação posto no Ministério da Justiça que eles "devem morrer no mar"....



Do HuffPost Brasil:

A mania do Pokemon Go também está presente na Síria, país dilacerado pela guerra, e algumas crianças sírias estão aproveitando a popularidade do aplicativo para lançar um apelo para serem resgatadas.
A coalizão Forças Revolucionárias da Síria, composta por alguns dos grupos oposicionistas do país, postou no Twitter uma série de fotos comoventes de crianças segurando desenhos de personagens Pokemon com dizeres escritos abaixo.
O app usa a realidade aumentada, com a qual os usuários podem captar o Pokemon em locais no mundo real.
“Há muito #Pokemon na #Síria. Venha me socorrer!”, escreveu o menino na foto ao alto, segurando um desenho de Pikachu.
Na foto abaixo, o menino escreveu: “Estou em Kafr Nabl na zona rural de Idlib venha me resgatar”.
“Sou de Kafr Nabudah…Me salve”, escreveu este garoto segurando um desenho de Squirtle.
O país está em guerra civil desde 2011. Muitas das cidades principais são alvos de ataques aéreos incessantes, deixando à população muito poucas chances de sobrevivência.
Segundo cifras da entidade Save the Children, nos últimos cinco anos quase 12 mil crianças foram mortas e mais de 2,3 menores foram obrigados a deixar o país.
O país está em guerra civil desde 2011. Muitas das cidades principais são alvos de ataques aéreos incessantes, deixando à população muito poucas chances de sobrevivência.
Segundo cifras da entidade Save the Children, nos últimos cinco anos quase 12 mil crianças foram mortas e mais de 2,3 menores foram obrigados a deixar o país.
Este artigo foi originalmente publicado pelo LINK">HuffPost US e traduzido do inglês.
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