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terça-feira, 22 de setembro de 2020

Do El País: O dilema social das redes... e da Netflix

 Do El País:

Novo documentário alerta do perigo das plataformas digitais dispostas a qualquer coisa para ganhar nosso tempo e nossos dados


Fotograma cedido no sábado pela Netflix do documentário 'O Dilema das Redes'. Em vídeo, trailer oficial.NETFLIX / EFE

“Não canta e nem dança. Não percam”. Assim Lola Flores era apresentada em 1953 pelo crítico do The New York TimesO Dilema das Redes, o novo documentário da Netflix dirigido por Jeff Orlowski, não é um bom filme e não é um rigoroso exercício jornalístico, mas como La Faraona, não se deve deixar de vê-lo. É verdade que a parte dramática do documentário é uma vergonhosa história familiar com tantos clichês que faria um filme da sessão da tarde de domingo parecer cinema de qualidade e que as entrevistas dão muito peso a alguns yuppies californianos (todos homens) arrependidos de trabalhar nas empresas que os fizeram milionários e bem pouco a intelectuais como Soshana Zuboff e Cathy O’Neil (quase as únicas mulheres entrevistadas). Mas o assunto que apresenta é tão relevante que os defeitos do documentário quase ficam esquecidos.

Em uma televisão cheia de distopias futuristas é difícil encontrar algo que amedronte mais do que alguns dos depoimentos mostrados. “50 programadores, todos homens brancos de 20 a 35 anos, tomam decisões que afetam 2 bilhões de pessoas em todo o mundo”, afirma Tristan Harris, que era um desses 50 todo-poderosos quando trabalhava para o Google e hoje tenta convencer os outros 49 do nefasto impacto de suas criações. Talvez seja tarde demais porque, como o documentário propõe, os efeitos nocivos nunca foram acidentais. O vício, a insegurança, os boatos e a polarização que geram as redes não são falhas de suas programações. São objetivos pré-definidos das mesmas, feitos de um roteiro, peças orquestradas para conseguir a finalidade última com a qual todas essas plataformas foram criadas: “conseguir nos arrebatar todo o tempo possível de nossas vidas”, como afirma Tim Kendall, antigo executivo do Facebook.

As redes, como os homens cinzas em Momo, de Michael Ende, são ladrões de tempo. Foram projetadas com esse objetivo fundamental e para isso utilizam todas as técnicas imagináveis, entre elas a programação comportamental. O documentário entra nas salas da Universidade Stanford ―onde estudaram muitos dos diretores das grandes empresas de tecnologia e também o próprio Orlowski― e mostra como nas aulas dessa prestigiosa universidade se ensina a criar produtos capazes de condicionar nosso subconsciente, de modificar nossas condutas sem que sejamos capazes de percebê-lo. A forma como recebemos as notificações, o gesto de deslizar o dedo para baixo para ver as atualizações e a maneira de apresentar as notícias são pensados para gerar comportamentos viciantes dos usuários (como afirma um dos entrevistados, a tecnologia e a droga são os únicos setores que chamam seus clientes dessa maneira). Algo semelhante ocorre com os conteúdos. Os gigantes tecnológicos sabem perfeitamente que as notícias falsas se espalham mais rapidamente do que as verdadeiras, geram mais cliques, mais atenção e, portanto, mais dinheiro em suas contas de resultados. Por isso as campanhas do Facebook e Twitter contra as fake news são como se as campanhas antidrogas fossem lideradas por Pablo Escobar e Sito Miñanco (traficante espanhol que inspirou uma série da Netflix).

Inicialmente tentaram nos convencer de que as redes sociais eram uma ágora, um novo espaço público à opinião e ao encontro. Mas é cada vez mais evidente que não são uma praça, e sim um centro comercial com as portas escondidas para que não possamos sair e no qual, além disso, não somos os clientes e sim os produtos. Costumamos acreditar que as redes sociais são grátis, mas não é assim, o que acontece é que outros pagam. O documentário coloca um debate interessante sobre por que esses “outros” pagam. O que essas plataformas realmente vendem aos seus anunciantes. Soshana Zuboff, professora emérita de Harvard e autora de The Age Of Surveillance Capitalism (A Era do Capitalismo Vigilante), propõe que vendem certeza. O perfil que fazem de nós permite às marcas conhecer com precisão total nosso comportamento. Somos cobaias de uma enorme experiência de marketing.

Jaron Lanier, pioneiro da informática na Atari e da resistência às redes no imprescindível You Are Not a Gadget, vai muito mais além. De acordo com o analista e escritor, o que essas plataformas oferecem às grandes empresas é a capacidade para mudar pouco a pouco nossos comportamentos, nossas crenças e até o que somos. E quando se vê o que as redes foram capazes de fazer na campanha de Donald Trump e depois na do Brexit e a polarização política que estão criando em meio mundo, não se pode deixar de pensar que o poder desses gigantes dos dados vai muito mais além de personalizar a publicidade e antecipar nossos desejos e que cada vez mais se aproxima da capacidade de criá-los. Porque quando O Dilema das Redes acaba e a Netflix, imediatamente, nos sugere o próximo documentário, talvez fosse necessário se perguntar se acerta o que gostamos ou se já gostamos de tudo o que ela acerta. E tudo para nos manter grudados à tela.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Do Plantão Brasil: Globo está rachando, teve MEIO BILHÃO de prejuízo em 2018, será engolida por Netflix e Amazon



Do Canal Plantão Brasil:



Você sabia que a Globo deve mais de MEIO BILHÃO de prejuízo no ano passado? A plim plim está sendo engolida por concorrentes muito maiores que estão chegando ao Brasil. Pivô na manipulação do povo brasileiro que causou a prisão de Lula e Bolsonaro, a Globo não consegue mais concorrer com suas rivais estrangeiras.

Além do entretenimento a Globo também perde nos esportes e até no jornalismo. O grande plano da Globo para sobreviver foi por água abaixo quando a Amazon, maior empresa do mundo, contratou o diretor da Globo Play e deixou a empresa dos Marinho sem rumo.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

"Na rota do dinheiro sujo" - série documentário apresentada pela Netflix aponta as trapaças das grandes empresas, dos bancos e do mundo corporativo, tudo aquilo que o MBL não diz existir no mundo do capetalismo neoliberal



"O capitalismo é um sistema doente e moralmente corrompido. E se você ainda tem dúvidas disso, basta assistir a Na Rota do Dinheiro Sujo (Dirty Money no original), nova série documental que entrou no catálogo da Netflix no dia 26 de janeiro. Criada por Alex Gibney (do doc Enron: Os Mais Espertos da Sala), essa nova produção dividida em seis capítulos joga luz sobre histórias distintas, mas com um tema em comum: empresas e empresários agindo sem qualquer escrúpulo na busca do lucro a qualquer custo."

Resultado de imagem para na rota do dinheiro sujo

Segue o texto de Davi Garcia, do Ligado em Sèrie:

Ligado Indica | Na Rota do Dinheiro Sujo, nova série documental da Netflix


O capitalismo é um sistema doente e moralmente corrompido. E se você ainda tem dúvidas disso, basta assistir a Na Rota do Dinheiro Sujo (Dirty Money no original), nova série documental que entrou no catálogo da Netflix no dia 26 de janeiro. Criada por Alex Gibney (do doc Enron: Os Mais Espertos da Sala), essa nova produção dividida em seis capítulos joga luz sobre histórias distintas, mas com um tema em comum: empresas e empresários agindo sem qualquer escrúpulo na busca do lucro a qualquer custo.
No primeiro episódio dirigido pelo próprio Gibney, a série explora o escandaloso esquema envolvendo a Volkswagen e o uso de um dispositivo em seus carros que reduzia, de forma fraudulenta, o nível de poluição emitida por motores a diesel quando testados em laboratório. Traçando um paralelo entre os pilares da fundação da empresa (então amplamente apoiada pelos nazistas que não admitiam ver a indústria automobilística alemã num papel coadjuvante) e essa recente iniciativa criminosa orquestrada por executivos do mais alto escalão da companhia, o capítulo expõe ainda, de forma pungente, evidências de que a empresa sabia que a ação contribuiria para um aumento exponencial de mortes por intoxicação (oriundas da poluição), mas que preferiu mentir e enganar clientes mundo afora em prol de margens de venda e lucros recordes.
O segundo episódio, por sua vez, analisa a indústria do empréstimo consignado e como várias dessas financeiras – buscando atingir um público de baixa renda com o qual os bancos tradicionais geralmente não tem ou querem qualquer relacionamento -, usam subterfúgios que criam verdadeiras armadilhas e transformam o empréstimo fácil num pesadelo para milhares de pessoas. Acompanhando os desdobramentos de um processo que levou ao indiciamento de um ex-piloto americano de Stock car que ficou bilionário ao montar uma financeira sustentada por juros predatórios frutos de contratos com termos pra lá de mal intencionados, o episódio tem como ponto alto o momento em que o entrevistador pergunta ao dono da empresa, àquela altura dizendo-se vítima do governo, se ele era um homem de moral ao que este responde, de forma bastante reveladora: “sou um homem de negócios”.
A indústria farmacêutica também ganha destaque no terceiro episódio que fala sobre como o CEO de uma empresa – contando com a parceria de bilionários investidores de Wall Street -, alçou-a à lista das mais valorizadas na bolsa de valores, ao implementar como estratégia de negócios a aquisição de marcas detentoras de remédios exclusivos (muitos deles usados em tratamento de câncer e doenças raras) e a partir daí aumentar exponencialmente seus preços e consequentemente as margens de lucro. Já no quarto capítulo, o foco cai sobre o caso do banco HSBC, que por anos lavou dinheiro dos cartéis de drogas mais violentos do México e que ao ser exposto, saiu-se pela tangente com a desculpa de que precisava e iria melhorar seus controles internos e que aceitava, como “castigo”, pagar uma multa equivalente a poucas semanas de seu lucro anual sem sofrer qualquer outra consequência.
Livre mercado ou mercado regulado, o que é melhor? Prós e contras viram objeto de análise no penúltimo episódio que fala sobre o xarope de borda, uma especiaria tipicamente canadense cujo barril vale mais que petróleo e que é controlada com mão de ferro por leis que determinam preço, demanda e oferta e transformam pequenos produtores em reféns de um sistema poderoso e pouco disposto a ceder. Já o sexto e último episódio de Na Rota do Dinheiro Sujo, fala sobre a história do atual presidente dos EUA e expõe como Donald Trump usou a mídia para vender, ao longo de anos e anos, a imagem falsa de um empresário bem sucedido, mas que no fim era e continua sendo apenas uma farsa que concentra tudo de ruim que um homem capaz de decidir o destino de milhares de pessoas jamais deveria ter.
Fazer uma maratona dessa série documental é fácil. Difícil é conseguir terminar cada episódio sem ficar indignado com o que acabou de assistir

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Merlí, uma série catalã muito envolvente que fala de filosofia e ética em um ambiente adolescente


Artigo do psicoterapeuta e psiquiatra Guilherme Spadini publicado do The HuffPost:

OPINIÃO

Merlí: Como ser um bom mau caráter

Série espanhola fala de filosofia e moral em um ambiente adolescente.



Guilherme SpadiniPsiquiatra e psicoterapeuta formado pela USP

DIVULGAÇÃO/NETFLIX
Professor Merlí e seus alunos são as estrelas de uma série de ensino médio diferente do clichê hollywoodiano.


Uma das pérolas escondidas no catálogo do Netflix é a série Merlí.
Produzida para a TV na Catalunha, fez enorme sucesso local, antes de ser distribuída no mundo pela Netflix. Trata-se da história de um professor de filosofia, o personagem do título, que começa a lecionar para a turma de seu filho adolescente.
Várias coisas interessantes chamam atenção na série. Um exemplo é a língua. O catalão, que soa como uma mistura de espanhol, francês e português, remetendo ao latim, é uma delícia de se ouvir.
Ou a abertura, em que uma mosca voa ao som do Vôo do Besouro, de Nikolai Rimsky-Korsakov. O inseto é referência a Sócrates, que, dizia-se, era uma mosca chata a importunar os atenienses com seus questionamentos e desafios. Uma metáfora para toda filosofia e seus idólatras pentelhos.


Outro exemplo: é muito curioso reparar nas diferenças entre a representação dos dramas do ensino médio, a que estamos acostumados nas produções americanas, e esta da Catalunha. A gente começa a assistir tentando identificar o atleta escrotão, o nerd que vai sofrer bullying, a diferentona sensível que gosta de fotografia, todos os estereótipos adolescentes a la 13 Reasons Why.
Mas não. É bom ver que ainda existem representações mais reais de como as pessoas realmente vivem. Os adolescentes de Merlí sofrem com bullying, com exposição na rede, com ansiedades e inseguranças, mas tudo é muito mais sutil, e um tanto mais verdadeiro, que nos exageros hollywoodianos.
Agora, o ponto mais instigante para mim, e o motivo deste texto, é a imoralidade da personagem. Merlí é decididamente um mau caráter.
Fosse só isso, nada demais. O cinema é cheio de anti-heróis que nós aprendemos a gostar. Quem não torce por Frank Underwood?
Só que Merlí é mais curioso. Ele é um mau caráter com uma característica peculiar: ele faz bem às pessoas à sua volta. E aí está o desafio - e a recompensa - do esforço de tentar entendê-lo.
Cada episódio de Merlí tem um filósofo famoso como título. O professor discute o filósofo na aula com os alunos, e os acontecimentos daquele episódio fazem o mesmo com o espectador. Não à toa, Nietzsche é o filósofo do último episódio da primeira temporada. É nele que se encontra a chave para decifrar Merlí.

As "morais"

Niezstche foi um crítico da moral. Mas havia como que duas "morais" em Nietzsche. Uma - que ele descrevia como a moral do rebanho e do escravo - era aquela constituída pelo conjunto de valores de uma sociedade. Fixa, rígida, doutrinária, pesando sobre as pessoas, como um cabresto.
Aprendemos essa moral quando somos educados. Quando somos ainda incapazes de compreender valores abstratos e, por isso, apenas imitamos condutas e introjetamos normas. É uma moral de conformismo, segurança e ressentimento.
Já a outra moral nietzscheniana, que seria uma "moral superior", é mais difícil de definir, e dá origem a muita confusão. Muitos críticos entendem que o ideal de "super-homem" que o filósofo alemão defendia seria nefasto - estaria associado às ideias de poder e superioridade que, anos depois, viriam a contaminar tragicamente a Alemanha.
Observar o comportamento de Merlí, no entanto, ajuda a entender essa outra moral. O mesmo professor capaz de sabotar seus colegas e deixar um jovem ser punido pelos erros que ele, o professor, cometeu, também é capaz de apoiar, aconselhar e até curar seus alunos.
Explico o "curar" e dou um motivo para todo profissional de saúde mental ser obrigado a ver esta série: Merlí "trata" um aluno com agorafobia de forma exemplar. Vale um estudo de caso de tudo o que não se pode fazer, de dentro das amarras morais e profissionais, com absoluta eficácia.
Ou seja, Merlí não é amoral, mas responde a uma outra moral com a qual não estamos acostumados. É preciso um exercício mental e uma mudança de perspectiva para que ele faça sentido.
E eis o segredo: ao assistir à série, tente substituir suas avaliações sobre "certo e errado" por "alegre e triste". Verá que tudo faz sentido.
Merlí não se preocupa que algo seja errado, mas se preocupa que algo seja triste. Coisas que diminuem, restringem e constrangem são odiadas por ele. Já coisas que são erradas, feias, estranhas e malvistas não o incomodam em nada.
Da mesma forma, ele não se mobiliza para perseguir o que é certo, aprazível, louvável ou admirável. Mas o faz pelo que expande, transforma, provoca e excita.
Basta ver, ao final de um episódio, o discreto e sincero sorriso do aluno injustamente punido coroando a discussão sobre justiça de que tratou o capítulo. O sorriso de paz, causado pelo turbilhão que ele enfrentou. Sorriso de quem, imobilizado, conquistou o movimento.
Para David Hume, quando afirmamos que algo é errado significa que isso, na verdade, nos causa repulsa. O caso do aluno injustiçado causa repulsa. Até aquele sorriso.
É uma outra linguagem moral, portanto, e o sorriso a decifra: justo é que os bons se alegrem. O resto é conversa.
Merlí é fluente nessa linguagem. Exceto quando não é. Porque, às vezes, ele é só um mau caráter mesmo. Ainda bem. É um personagem ainda melhor por isso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Temer,o ilegítimo, taxa Netflix e a Globo que o pôs no poder agradece, por Altamiro Borges



Do blog do Miro (também publicada no GGN)
 
A bondade presidencial atende a uma antiga demanda dos impérios midiáticos, que reclamavam da 'concorrência desleal' que fez desabar as audiências da TV.
 
por Altamiro Borges
Na virada do ano, o Judas Michel Temer deu mais um presentão às emissoras privadas que exploram as concessões públicas de rádio e tevê. Ele sancionou a lei complementar que determina a cobrança do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) para as transmissões online de áudio e vídeo, conforme publicação do Diário Oficial da União de sexta-feira (30). Desta forma, Netflix, Spotify e outros serviços online serão taxados, o que elevará os seus preços. A bondade presidencial atende a uma antiga demanda dos impérios midiáticos, que reclamavam da "concorrência desleal" que fez desabar as audiências das emissoras de tevê e rádio e diminuir os bilionários anúncios publicitários. 
Pelo projeto sancionado pelo usurpador também estão sujeitos à cobrança do imposto os serviços de "processamento, armazenamento, hospedagem de dados, textos, imagens, vídeos, páginas eletrônicas, aplicativos e sistemas de informação, entre outros formatos, e congêneres". A produção de programas de computadores, "inclusive de jogos eletrônicos, também passa a ser taxada, assim como a disponibilização, sem cessão definitiva, de conteúdos de áudio, vídeo, imagem e texto por meio da Internet", informa o Diário Oficial. A alíquota mínima do imposto foi estipulada em 2%. A cobrança segue a regra de considerar que o ISS é devido ao município onde está a sede do prestador de serviço.

Queda de até 20% no faturamento

Na era da internet, as transmissões online de filmes, shows e de outros atrações afetaram duramente o modelo de negócios da mídia tradicional. Em artigo publicado no jornal A Tarde neste domingo (1), o jornalista Ricardo Feltrin demonstrou a gravidade da crise. "2016 não termina nada auspicioso para as TVs abertas. O ano foi difícil para toda a economia, e não foi diferente para as TVs: especialistas ouvidos pela coluna estimam que haverá retração de 10% a 20% no faturamento (dependendo da emissora), a despeito de o país ter sediado os Jogos Olímpicos do Rio". Como efeito, "Record, SBT e Band terminam o ano fazendo cortes de custos e de equipes".

"Perto das demais, a situação da Globo pode ser considerada fantástica. Afinal, ela é a única emissora aberta do país que continua registrando lucro líquido no final de suas operações. Record, SBT, Band e RedeTV! devem fechar 2016 com prejuízo ou no limite; mas a Globo segue num vibrante azul. Em 2015, por exemplo, o lucro líquido do Grupo Globo foi de cerca de R$ 2 bilhões. Deve ficar um pouco abaixo disso em 2016. Mas o grupo também tem novos percalços no ano que começa hoje, e o maior deles é o surgimento de concorrência pesada na TV por assinatura: agora há grupos tão ou mais fortes como o Turner (Esporte Interativo) e Fox".
 
Já Maurício Stycer, outro especialista em mídia, publicou na Folha, em 25 de dezembro passado, um artigo que mostra os impactos diretos da internet no setor. Vale conferir:

***

Demorou um pouco, mas a Globo, finalmente, aceitou que não há mais como trazer para a televisão linear parte do público que a trocou pela internet. O ano de 2016 se encerra com acenos explícitos a este espectador desinteressado em seguir a grade rígida da emissora. 
 
No último domingo (18), no início da tarde, no intervalo de 'A Cara do Pai', a Globo informou aos espectadores que o seu aplicativo online iria exibir às 16h30 um programa especial sobre os bastidores do 'Melhores do Ano', uma atração que a emissora programou para as 17h30. 
 
Ou seja, convidou o público a trocar a própria Globo, no momento em que estaria exibindo um filme, "O Espetacular Homem-Aranha", pelo Globo Play (acessível via laptop, smartphone ou mesmo o próprio aparelho de TV), onde poderia ver o blogueiro Hugo Gloss entrevistando atores da emissora.

Não que a Globo tenha desistido da TV aberta. Pelo contrário. Ela ainda é, no Brasil, o principal motor da indústria audiovisual, na qual estão concentrados os maiores investimentos em publicidade e os principais esforços de criação. Mas me parece altamente simbólico o reconhecimento de que é preciso competir no mesmo campo em que outras gigantes já estão nadando de braçada. 
 
A Amazon, por exemplo, acaba de lançar o seu serviço de vídeo por streaming em 200 países. Ainda que o conteúdo oferecido deixe a desejar, convém lembrar, como fez o jornalista Andre Mermelstein, do Teletime, que o faturamento da Amazon é 15 vezes superior ao da Netflix -e, portanto, a sua capacidade de investir em conteúdo próprio e licenciamento é enorme".

Nos Estados Unidos, a "velha mídia" já se deu conta, há mais tempo, da necessidade de se adequar aos novos tempos. O anúncio da compra da Time Warner pela AT&T em outubro, por US$ 85,4 bilhões, foi o sinal mais recente - e eloquente - de que é preciso se armar para a guerra.

Como disse Randall Stephenson, principal executivo da AT&T, assumir o controle da HBO e da Warner Bros., entre outros ativos, vai permitir à empresa oferecer conteúdo de vídeo on demand de maneira a compensar as perdas com a divisão de TV via satélite do grupo, a DirecTV.

Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, a legislação brasileira não permite que uma mesma empresa atue na produção de conteúdo e na sua distribuição, o que obrigará a AT&T, caso a fusão seja aprovada, a vender a Sky no Brasil. Trata-se da segunda maior empresa de TV por assinatura no país, com 5,3 milhões de assinantes.

No final de novembro, a AT&T lançou nos EUA o DirecTV Now, um serviço de streaming com 60 canais, incluindo alguns considerados indispensáveis, como ESPN e Disney, por US$ 35 mensais (cerca de R$ 115).

Como observou o "New York Times", é um serviço claramente dirigido aos "cortadores de cabo", ou seja, consumidores que desistiram de pagar por TV a cabo (ou satélite), mas dispõem de internet banda larga.

A associação entre plataformas que oferecem conteúdo audiovisual e provedores de internet, sem vinculação a operadoras de TV paga, é outra tendência dando seus primeiros passos no Brasil. A HBO lançou o seu serviço, seguida pela Crackle, ambas ainda limitadas a alguns Estados.

A crise econômica ainda ajuda quem aposta no atraso, mas o ritmo das mudanças parece mais acelerado do que nunca.
 
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Outras duas notícias recentes confirmam a crise no setor. Na semana passada, o SBT anunciou o fim do mais antigo telejornal da emissora, o "Jornal do SBT", que era apresentado por Hermano Henning e estava no ar desde 1991. Num comunicado lacônico, a empresa de Silvio Santos alegou tratar-se "de uma nova estratégia na grade de programação". Na prática, foi mais uma medida de corte de custos. Em julho passado, o "Jornal do SBT" já havia deixado de ser ao vivo e passou a ser gravado no final da noite, algumas horas antes de ir ao ar. Na época, a emissora estimou economizar cerca de R$ 1 milhão por ano com a medida, que reduziu gastos com horas extras e adicional noturno.
 
Outro notícia preocupante foi dada pelo mesmo Ricardo Feltrin, desta vez no site UOL. "Nas últimas semanas tanto a Kantar Ibope como a GfK começaram a divulgar alguns dados estatísticos a respeito do hábito de consumo dos telespectadores em outros aparelhos, que não as TVs. O Ibope, por exemplo, chegou a calcular que, em outubro, cerca de 5 milhões de indivíduos no Brasil assistiram a algum tipo de programa de TV de forma não-linear - o chamado TSV (Time Shifted Viewing) - por pelo menos 1 minuto. Ou seja, essas seriam as supostas pessoas que viram programas de TV por meio de 'on demand', ou deixaram atrações gravadas como futebol e novelas para ver depois, ou mesmo baixaram algum episódio de alguma série num pendrive, com a mesma finalidade".

Mesmo questionando a validade destes números, o jornalista concluiu: "Quase NINGUÉM no Brasil assiste a conteúdo de televisão em celulares, laptops ou outros aparelhos. Isso mesmo. Com raras exceções, como um ou outro trecho de capítulo final de novela, um jogo de futebol ou algum trecho de episódio de reality show culinário (como o 'Masterchef' da Band), as emissoras entram em 2017 sem conseguir arrastar seus telespectadores para as outras telas. Em outras palavras, a audiência de TVs abertas ou pagas nos chamados 'devices' é equivalente a um inexpressivo traço de audiência. Zero... Eis um grande problema para as TVs não só para 2017 como para os anos vindouros: como fazer o público consumir seus produtos em outros aparelhos que não o caseiro televisor?".

domingo, 24 de janeiro de 2016

Operadoras de TV por assinatura - que no Brasil cobram mensalidades altíssimas - querem destruir a Netflix após perderem quase um milhão de assinantes desde 2014




  Operadores de TV por assinatura perdem quase um milhão de assinantes e estudam formas de ataques à Netflix

Artigo de Ricardo Feltrin,

Após perder quase 1 milhão de assinantes desde 2014, as operadoras decidiram centrar fogo naquela que consideram sua nêmesis e culpada maior da fuga de clientes: a empresa Netflix, serviço de streaming que oferece na internet filmes e programas variados.

As operadoras acionaram um megalobby em Brasília, que vai atuar em várias frentes:

1 — Querem que a Ancine exija da Netflix o pagamento da Condecine (taxa em torno de R$ 3.000 por cada filme do catalogo); 

2 — Querem que o governo obrigue a empresa a ter pelo menos 20% de produção nacional em seu inventário;

3 — Defendem que todos os Estados da federação passem a cobrar ICMs das assinaturas (leia-se: dos clientes);

4 — Estudam uma forma de cobrar ou da Netflix ou de assinantes de banda larga uma taxa "extra" quando o cliente usar streaming; a justificativa é que o serviço "consome muita banda larga".

Pode não parecer, mas, com exceção da última — mais difícil de ser imposta e possivelmente ilegal — a pior das medidas acima, se de fato implantadas, seria a obrigatoriedade de a Netflix disponibilizar 20% de conteúdo nacional.

Isso porque a maior fornecedora de conteúdo nacional hoje é o Grupo Globo, que se recusa a fazer parceria com a empresa. A Band, "parceira" histórica da Globo no esporte, também tem se recusado a conversar com a empresa estrangeira.

Outro problema é que produtoras menores que aceitassem fazer parceria poderiam ser "boicotadas" pelos canais do Grupo Globo (mais de 35 na TV paga).

Ou seja, a Netflix teria de fazer parceria rápida com emissoras como SBT, Record e SBT.

Além disso, se o serviço de streaming tiver de oferecer 20% de conteúdo nacional, o conteúdo estrangeiro total causaria diminuição radical do acervo — para obedecer a proporção.

A Netflix não revela o tamanho de seu acervo disponível no Brasil. Nos 160 países em que se encontra hoje, entre filmes, programas e capítulos de seriados e séries, estima-se que haja um milhão de peças.

Derrocada

Em dezembro de 2014, as operadoras somavam quase 20 milhões de assinantes no Brasil. Em dezembro esse número havia caído para quase 19 milhões.

Enquanto as operadoras cobram pacotes que variam de R$ 70 a mais R$ 300 (a média nacional de mensalidade estimada por assinante é de R$ 166), a Netflix oferece filmes e programas por mensalidades de R$ 19,90 e R$ 29,90 (qualidade HD).

As ações da Netflix são negociadas na Bolsa nos EUA e tiveram valorização de quase 140% (em dólar) no ano passado.

No Brasil estima-se que a empresa tenha algo próximo de 4 milhões de assinantes e tenha faturado mais de R$ 1 bilhão no ano passado (cerca de US$ 250 milhões).

Não se sabe a audiência ou consumo da Netflix no Brasil ou em outros países porque a empresa não disponibiliza seus dados para empresas como a Kantar Ibope.

Se as operadoras tiverem sucesso em fazer a empresa pagar as taxas de Condecine, no entanto, o acervo da Netflix no país deixará de ser oculto.

Ricardo Feltrin, é colunista do UOL, onde apresenta o programa Ooops! às segundas. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros.