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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Carta Aberta ao novo Secretário da Educação do Amazonas Luiz Castro de Andrade Neto, por Mestre Yoda




Fonte: GGN

Dirijo-me a ti, pela primeira vez, a partir de uma mensagem pública, porque reconheço, em sua nomeação, um fato histórico: pela primeira vez, na história recente do Amazonas, ocupará esta tão importante pasta, uma pessoa sensível e atuante em defesa da educação no Amazonas.

O reconhecimento não é fruto de um desejo por aproximação política, cargo ou coisa que o valha. Sou professor, meu lugar é a sala de aula, minha posição política é bem distante daquela ocupada pelo governador a quem V. Sa. irá servir pelos próximos anos.
Digo isto pelo que pude presenciar, nos últimos anos, não somente nas tribunas, mas nas ruas, nas praças, nas manifestações de professores em defesa da educação pública, da melhoria das condições de trabalho, na defesa de uma remuneração justa para os professores. Digo isto com a certeza de quem também estava lá, de quem, historicamente, defende as mesmas justas causas.
Fato histórico porque a pasta, que, em nosso Estado, foi tão vilipendiada, tão instrumentalizada a serviço de interesses privados, de interesses escusos. A SEDUC, que já teve como titulares, empreiteiros, mercadores, homens de negócio em geral, pseudo-professores (que muitos nos envergonharam, ao usar este qualificativo tão honroso de maneira tão vil) e, em geral, inimigos da educação pública, terá, pela primeira vez, a chance de um diálogo produtivo com professores, de implementação de todos aqueles interesses, daquelas pautas que V. Sa., com muita combatividade, defendeu das tribunas.
Muitos são os desafios, Senhor Luiz Castro! Por isso, aproveito o ensejo para elencar alguns deles: 1) Ampliar o diálogo e o espaço de participação dos movimentos de professores na definição das pautas da SEDUC; 2) democratizar e dar transparência ao uso do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB); 3) aumentar significativamente a remuneração (vencimento líquido) de professores e outros profissionais que atuam, em nível estadual, na educação; 4) oferecer merenda digna para os estudantes; 5) acabar com a hipócrita e maldita “progressão continuada” (leia-se APROVAÇÃO AUTOMÁTICA); 6) implementar eleição direta para diretores das escolas e; 7) oferecer internet de qualidade em todas as instituições de ensino do Estado, sobretudo as do interior, mas também as da capital, que funcionam muito precariamente e não atendem aos principais interessados: os estudantes.
Estou certo de que muitos e poderosos serão seus adversários, caso sua intenção seja, de fato, oferecer educação pública, gratuita e de qualidade, para o Amazonas. Há chupins gordos em quantidade drenando recursos públicos, há gente autoritária e de práticas coronelistas na SEDUC, há descaso e autoritarismo mesmo dentre os funcionários da pasta, há maus profissionais também no exercício da docência. Quatro anos serão, certamente, curtos, para tantos desafios.
De todo o modo, desejo-lhe bom trabalho e concluo esta missiva, citando o Patrono da Educação Brasileira e um colega de profissão seu, já que também advogado, Paulo Freire:
Penso nos meninos com fome, nos meninos traídos, nas meninas vilipendiadas nas ruas deste país, deste e de outros continentes. Meninos e meninas que estão inventando outro país. E nós, mais velhos, temos que ajudar essas meninas e esses meninos a refazer o Brasil.
Em tudo aquilo que contribuir para uma educação transformadora, capaz de mudar a realidade social adversa de estudantes amazonenses, conte sempre com o meu apoio!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Do Justificando: Desfile da Paraíso da Tuiuti expôs os limites de uma liberdade que não existe. Artigo do advogado Freire Barbosa


"Os números da realidade mostrada tanto pela Mangueira quanto pela Tuiuti são incontestáveis: 64% de nossa população carcerária é composta por pessoas negras. O genocídio da população negra, atestado pelas estatísticas do Atlas da Violência de 2017 lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reverbera do fato de que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Ainda: enquanto a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu para assustadores 22%. "



Do site Justificando:

Desfile da Paraíso da Tuiuti expôs os limites de uma liberdade que não existe

Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018

Desfile da Paraíso da Tuiuti expôs os limites de uma liberdade que não existe

No ano passado a escola de samba Imperatriz Leopoldinense se apresentou com um samba enredo que saudou a resistência indígena, denunciando a monstruosidade da máquina de moer índios que ainda se encontra a todo vapor no Brasil, onde:
“O belo monstro rouba as terras dos seus filhos
Devora as matas e seca os rios
Tanta riqueza que a cobiça destruiu!”.
Como existiam demasiadas cabeças para poucas carapuças, houve quem não apenas as vestisse mas também fizesse questão de passar publicamente o recibo. Ruralistas e setores da mídia corporativa se insurgiram contra a escola de samba, acusada de macular a imagem do agronegócio, esta entidade de reminiscências aristocráticas e escravocratas para quem a insolência das críticas da plebe ignara e piolhenta deve ser devidamente sufocada, conforme sugestão do senador agroboy Ronaldo Caiado, entusiasta da exploração forçada da força de trabalho.
Como liberdade para gente como Caiado é aquela que se limita aos códigos mercantis e patrimoniais, a turma ficou descontente ao ponto de ensaiar uma censura à escola, conforme já tratamos aqui, nesta coluna.
No carnaval deste ano, a pequena Paraíso da Tuiuti desbancou medalhões e cacifou o segundo lugar com um enredo que questiona se a escravidão de fato acabou, passando transversalmente pelas reformas que vêm afligindo a maior parte do povo brasileiro. A apresentação não poupou críticas ao projeto totalitário de concretização dos desígnios do mercado financeiro que, embora derrotado nas eleições de 2014, vem sendo aplicado com o pé no acelerador por Michel Temer, representado sob a alegoria de “vampiro neoliberalista” enquanto era levado pelo carro Neo-Tumbeiro, em clara referência ao fato de que mesmo após 130 anos da abolição formal da escravidão os grilhões ainda permanecem, só que agora adornados por flores que conferem verossimilhança à ilusão de liberdade.
Leia também: 
A mídia corporativa e seu papel de destaque no golpe de 2016 também foi alvo da apresentação da escola de São Cristóvão. Primorosa em relacionar a perda de direitos trabalhistas à sede escravocrata pelo acúmulo de excedentes, o desfile retratou o entusiástico apoio dos meios comerciais de comunicação ao impeachment, manipulando manifestantes – representados na ala “Manifestoches” –para que abraçassem não apenas o golpe, mas um projeto alinhado apenas à vontade daqueles a quem Jessé Souza chama de a elite do dinheiro, ou o 1% de endinheirados que não exerce o poder social e político de modo direto e que têm condições de comprar as outras elites – a exemplo da midiática, responsável pela inoculação do veneno diário em um classe média que se imagina protagonista quando, na verdade, não passa de tropa de choque de interesses que não compreende.
O furo na bolha editorial da Rede Globo ficou evidente na nítida economia de comentários enquanto desfilavam na Marquês de Sapucaí as várias representações da manipulação midiática e mesmo da graça vampiresca de Temer – em tempos de sepultamento da CLT e do franco desequilíbrio das relações entre trabalho e capital, a alegoria nos remete a uma clássica passagem de Marx d’O Capital, segundo o qual o capital é trabalho morto que apenas se anima, à maneira de um vampiro, pela sucção de trabalho vivo, e que vive tanto mais quanto mais dele sugar[1].
O Paraíso da Tuiuti, apesar do destaque, não foi a primeira agremiação a levar a contemporaneidade da tradição escravocrata para o sambódromo. Em 1988, por ocasião dos cem anos da abolição, a Mangueira entrou na Sapucaí com o enredo “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão”, questionando exatamente o traço típico das democracias liberais em garantir direitos apenas no papel:
“Será que já raiou a liberdade
Ou se foi tudo ilusão
Será, oh, será
Que a lei áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão.
Hoje dentro da realidade
Onde está a liberdade
Onde está que ninguém viu”.
Os números da realidade mostrada tanto pela Mangueira quanto pela Tuiuti são incontestáveis: 64% de nossa população carcerária é composta por pessoas negras. O genocídio da população negra, atestado pelas estatísticas do Atlas da Violência de 2017 lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reverbera do fato de que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Ainda: enquanto a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu para assustadores 22%. 
A subcidadania do povo negro pode ser constatada por uma quantidade de informações suficiente para fazer corar mesmo o mais vulgar apologista do embuste da democracia racial e da tese estapafúrdia que hoje vivemos no melhor dos mundos possíveis.
Se escravidão tomou outras formas, dentre as quais a assalariada, não há como defender a liberdade formal como sinônimo de liberdade plena.
Em A Questão Judaica, Marx ensina que é inquestionável que a emancipação política, ou o reconhecimento de direitos dentro da ordem das democracias liberais burguesas, representa de fato um progresso, ainda que não chegue a ser forma definitiva da emancipação humana em geral, tendo em vista que constitui a forma definitiva desta emancipação apenas dentro da ordem mundial vigente.
O próprio Adam Smith reconheceu a improbabilidade da escravidão ser abolida em uma democracia onde os agentes políticos são senhores de escravos, sem qualquer prejuízo ao regular funcionamento das instituições democráticas.
É mais fácil a escravidão ter seu fim em um regime despótico que em um democrático, concluiu o pai do liberalismo econômico.
Da mesma maneira que em 1819 os liberais do parlamento inglês eram contrários à proibição do trabalho de crianças com menos de 9 anos de idade e à limitação a 12 horas de jornada dos que tivessem menos de 16, era com base no direito natural à liberdade e à propriedade que a escravidão era defendida pela nata política e intelectual do liberalismo.
Thomas Jefferson, herói da democracia norte-americana e proclamador da “igualdade entre os homens”, era, assim como boa parte dos Pais Fundadores, um inveterado proprietário de escravos. A mesma narrativa se repete no Brasil em eventos como a Revolução Constitucionalista de 1817, onde a manutenção do regime escravocrata foi condição para que as elites locais simpáticas ao liberalismo aderissem ao movimento.
Que fique claro, professa o filósofo alemão: estamos aqui tratando de emancipação real, prática e efetiva, não de emancipação formal, política e dentro dos limites da moldura institucional. Esta última, em geral, não costuma passar de perfumaria; um frasco vazio cuja ausência de conteúdo só é percebida após aberto. A liberdade certamente virá, mas não pelas veredas predeterminadas das democracias liberais e tampouco pelas mãos dos espadachins da atual ordem social.É esta a mensagem que a Paraíso da Tuiuti passou ao cantar:
“Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação”.
Gustavo Freire Barbosa é advogado.

[1] O Capital, Boitempo Editorial, 2014. P. 307.

sábado, 22 de agosto de 2015

Michael Löwy: Quando o capitalismo não rima com Democracia



Para pensamento político tradicional, dois conceitos são complementares. Mas Europa demonstra algo que Max Weber já intuía: liberdade não pode florescer sob leis de mercado

Internacional

Opinião

Quando capitalismo não rima com democracia

por Michael Löwy — publicado 20/08/2015 na Carta Capital, 15h12, última modificação 20/08/2015 16h07
Divulgação
Mario Draghi
Os ‘experts’ que comandam a ‘salvação’ da Europa foram funcionários de um dos bancos diretamente responsáveis pela crise iniciada nos Estados Unidos, em 2008, como Mario Draghi, ex-Goldman Sachs

Vamos começar com uma citação de um ensaio sobre a democracia burguesa na Rússia, escrita em 1906, após a derrota da primeira revolução, de 1905:
“É profundamente ridículo acreditar que existe uma afinidade eletiva entre o grande capitalismo, da maneira como atualmente é importado para a Rússia, e bem estabelecido nos Estados Unidos (…), e a ‘democracia’ ou ‘liberdade’ (em todos os significados possíveis da palavra); a questão verdadeira deveria ser: como essas coisas podem ser mesmo ‘possíveis’, a longo prazo, sob a dominação capitalista?” [1]
Quem é o autor deste comentário perspicaz? Lenin, Trotsky ou, talvez, Plekhanov? Na verdade, ele foi feito por Max Weber, o conhecido sociólogo burguês. Apesar de Weber nunca ter desenvolvido essa ideia, ele está sugerindo aqui que existe uma contradição intrínseca entre o capitalismo e a democracia.
A história do século XX parece confirmar essa opinião: em muitos momentos, quando o poder da classe dominante pareceu ameaçado pelo povo, a democracia foi jogada de lado como um luxo que não pode ser mantido, e substituída pelo fascismo — na Europa, nos anos 1920 e 1930 — ou por ditaduras militares, como na América Latina, entre os anos 1960 e 1970.
Por sorte, esse não é o caso da Europa atual, mas temos, particularmente nas últimas décadas, com o triunfo do neoliberalismo, uma democracia de baixa intensidade, sem conteúdo social, que se reduziu a uma concha vazia. É claro que ainda temos eleições, mas elas parecem ser de apenas um partido, o PMU, Partido do Mercado Unido, com duas variantes que apresentam diferenças limitadas: a versão de direita neoliberal e a de centro-esquerda social liberal.
O declínio da democracia é particularmente visível no funcionamento oligárquico da União Europeia, onde o Parlamento Europeu tem muito pouca influência, enquanto o poder está firmemente nas mãos de corpos não eleitos, como a Comissão Europeia ou o Banco Central Europeu. De acordo com Giandomenico Majone, professor do Instituto Europeu de Florença, e um dos teóricos semioficiais da UE, a Europa precisa de “instituições não-majoritárias”. Ou seja, “instituições públicas que, propositalmente, não sejam responsáveis nem diante dos eleitores, nem de seus representantes eleitos”: essa é a única maneira de nos proteger contra “a tirania da maioria”. Em tais instituições, “qualidades tais quais expertise, discrição profissional e coerência (…) são muito mais importantes que a responsabilidade democrática e direta” [2]. Seria difícil imaginar uma desculpa mais descarada da natureza oligárquica e antidemocrática da UE.
Com a crise atual, a democracia decaiu a seus níveis mais baixos. Em um recente editorial, o jornal francês Le Figaro escreveu que a situação é excepcional, e explica por que os procedimentos democráticos não podem ser sempre respeitados; apenas quando voltarmos aos tempos normais, poderemos restabelecer sua legitimidade. Temos, então, um tipo de “estado de exceção” econômico/político, no sentido que descreveu Carl Schmitt. Mas quem é o soberano que tem o direito de proclamar, de acordo com Schmitt, o estado de exceção?
Por algum tempo, entre 1789 e a proclamação da República Francesa, em 1792, o rei teve o direito constitucional de veto. Não importavam as resoluções da Assembleia Nacional, ou quaisquer que fossem os desejos e aspirações do povo francês: a última palavra pertencia a Sua Majestade.
Na Europa de hoje, o rei não é um Bourbon ou Habsburgo: o rei é o Capital Financeiro. Todos os atuais governos europeus — com a exceção do grego! — são funcionários deste monarca absolutista, intolerante e anti-democrático. Quer sejam de direita, “extremo-centro” ou pseudoesquerda, quer sejam conservadores, democratas cristãos ou social-democratas, eles servem fanaticamente ao poder de veto de Sua Majestade.
O soberano absoluto e total hoje, na Europa, é, no entanto, o mercado financeiro global. Os mercados financeiros ditam a cada país os salários e aposentadorias, os cortes em despesas sociais, as privatizações, a taxa de desemprego. Há algum tempo, eles nomeavam diretamente os chefes de governo (Lucas Papademos na Grécia e Mario Monti na Itália), escolhendo os chamados “experts”, que eram servos fiéis.
Vamos olhar mais atentamente a alguns desses tais todos-poderosos “experts”. De onde eles vêm? Mario Draghi, chefe do Banco Central Europeu, é um antigo administrador do banco internacional de investimentos Goldman Sachs; Mario Monti, ex-Comissário Europeu, também é um antigo conselheiro da Goldman Sachs. Monti e Papademos são membros da Comissão Trilateral, um clube muito seleto de políticos e banqueiros que discutem estratégias internacionais.
O presidente desta comissão é Peter Sutherland, antigo Comissário Europeu, e antigo administrador no Goldman Sachs; o vice-presidente, Vladimir Dlouhr, antigo Ministro da Economia tcheco, é agora conselheiro na Goldman Sachs para a Europa Oriental. Em outras palavras, os “experts” que comandam a “salvação” da Europa da crise foram funcionários de um dos bancos diretamente responsáveis pela crise financeira iniciada nos Estados Unidos, em 2008. Isso não significa que existe uma conspiração para entregar a Europa à Goldman Sachs: apenas ilustra a natureza oligárquica dos “experts” de elite que comandam a UE.
Os governos da Europa estão indiferentes aos protestos públicos, greves e manifestações maciças. Não se importam com a opinião ou os sentimentos da população; estão apenas atentos — extremamente atentos — à opinião e sentimentos dos mercados financeiros e seus funcionários, as agências de avaliação de risco. Na pseudodemocracia europeia, consultar o povo em um referendo é uma heresia perigosa, ou pior, um crime contra o Deus Mercado. O governo grego, liderado pelo Syriza, a Coalizão da Esquerda Radical, foi o único que teve coragem para organizar tal consulta popular.
O referendo grego não tinha apenas a ver com questões fundamentais econômicas e sociais, foi também e acima de tudo sobre democracia. Os 61,3% de gregos que disseram não são uma tentativa de desafiar o veto real das finanças. Esse poderia ter sido o primeiro passo em direção à transformação da Europa, de monarquia capitalista a república democrática. Mas as atuais instituições da oligarquia europeia têm pouca tolerância à democracia. Imediatamente puniram o povo grego por sua tentativa insolente de recusar a austeridade. A “catastroika” está de volta à Grécia com uma vingança, impondo um programa brutal de medidas economicamente recessivas, socialmente injustas e humanamente insustentáveis. A direita alemã fabricou este monstro, e forçou ao povo grego com a cumplicidade de falsos “amigos” da Grécia (entre outros, o presidente francês, François Hollande, e o primeiro-ministro da Itália Matteo Renzi).
* * *
Enquanto a crise agrava-se, e o ultraje público cresce, existe uma crescente tentação, por parte de muitos governos, de distrair a atenção pública para um bode expiatório: os imigrantes. Deste modo, estrangeiros sem documentos, imigrantes de países não-europeus, muçulmanos e ciganos estão sendo apresentados como a principal ameaça aos países. Isso abre, é claro, enormes oportunidades para partidos racistas, xenófobos, semi ou completamente fascistas, que estão crescendo, e já são, em muitos países, parte do governo — uma ameaça muito séria à democracia europeia.
A única esperança é a crescente aspiração por uma outra Europa, que vá além das políticas de competição selvagem e austeridade brutal, e das dívidas eternas a serem pagas. Outra Europa é possível — um continente democrático, ecológico e social. Mas não será alcançado sem uma luta comum das populações europeias, que ultrapasse as barreiras étnicas e os limites estreitos do Estado-nação. Em outras palavras, nossa esperança para o futuro é a indignação popular, e os movimentos sociais, que estão em ascensão, particularmente entre os jovens e mulheres, em muitos países. Para os movimentos sociais, está ficando cada vez mais óbvio que a luta pela democracia é contra o neoliberalismo e, em última análise, contra o próprio capitalismo, um sistema antidemocrático por natureza, como Max Weber já apontou, cem anos atrás.

[1] Max Weber, «Zur Lage der bürgerlichen Demokratie in Russland»,Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik,     Band 22, 1906, Beiheft, p. 353.
[2] Citado in Perry Anderson, Le Nouveau Vieux Monde, Marseile, Agone, 2011, pp. 154,158.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Galeano, o Condor das Américas, voou.... Foi de encontro a liberdade que tanto desejou florescer em nossas terras do Sul...





 A nobre alma do filósofo, historiador e ensaista uruguaio, Eduardo Galeano, deixou sua casa física hoje, dia 13 de abril, aos 74 anos de idade.

 O poeta que historiava denunciou a opressão que os povos da América Latina vinham sofrendo, antes pelas colônias, modernamente, pelo imperialismo e ganância de multinacionais e de uma elite com estes associadas. Não obstante, nunca deixou de ter esperança e muito do que sonhava acabou por se concretizar, apesar das sombras negras ainda a pairar em nosso contiente. Parece que ele esperou ver o fracasso das marchas dos reacionários no Brasil, do fiasco da movimentação reacionária do dia 12 contra a presidente que ele apoiava, Dilma Rousseff, para partir tranquilo para outras pairagens de onde continuará, com certeza, a observar a América Latina que tanta amava.

 Vai com os anjos, Eduardo.... Vai em paz! Você lutou a boa luta e nos deixou sementes e raízes que já germinaram....

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

domingo, 8 de março de 2015

Sabedoria de Pepe Mujica



   Pregando a união da América Latina e atacando o conSumismo, o ex-presidente uruguaio alerta para os novos métodos da direita e faz uma avaliação de seu governo. “Não devemos lutar por uma utopia de que em algum dia teremos uma sociedade melhor, temos que lutar para que as pessoas vivam mais felizes hoje”.

Confira a íntegra:
http://revistaforum.com.br/digital/especial/entrevista-exclusiva-jose-mujica/


terça-feira, 26 de junho de 2012

A liberdade no capitalismo

"Os capitalistas chamam 'liberdade' a dos ricos de enriquecer e a dos operários para morrer de fome. Os capitalistas chamam liberdade de imprensa a compra dela pelos ricos, servindo-se da riqueza para fabricar e falsificar a opinião pública."

 Vlademir Iich Lenin


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Existem Escolas e existem prisões...


Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.


Rubem Alves

sábado, 1 de janeiro de 2011

Justiça Social / Justiça Ecológica



Leonardo Boff


Entre os muitos problemas que assolam a humanidade, dois são de especial gravidade: a injustiça social e a injustiça ecológica. Ambos devem ser enfrentados conjuntamente se quisermos pôr em rota segura a humanidade e o planeta Terra.

A injustiça social é coisa antiga, derivada do modelo econômico que, além de depredar a natureza, gera mais pobreza que pode gerenciar e superar. Ele implica grande acúmulo de bens e serviços de um lado à custa de clamorosa pobreza e miséria de outro. Os dados falam por si: há um bilhão de pessoas que vive no limite da sobrevivência com apenas um dólar ao dia. E há, 2,6 bilhões (40% da humanidade) que vive com menos de dois dólares diários. As consequências são perversas. Basta citar um fato: contam-se entre 350-500 milhões de casos de malária com um milhão de vítimas anuais, evitáveis.

Essa anti-realidade foi por muito tempo mantida invisível para ocultar o fracasso do modelo econômico capitalista feito para criar riqueza para poucos e não bem-estar para a humanidade.

A segunda injustiça, a ecológica está ligada à primeira. A devastação da natureza e o atual aquecimento global afetam todos os países, não respeitando os limites nacionais nem os níveis de riqueza ou de pobreza. Logicamente, os ricos têm mais condições de adaptar-se e mitigar os efeitos danosos das mudanças climáticas. Face aos eventos extremos, possuem refrigeradores ou aquecedores e podem criar defesas contra inundações que assolam regiões inteiras. Mas os pobres não têm como se defender. Sofrem os danos de um problema que não criaram. Fred Pierce, autor de "O terremoto populacional" escreveu no New Scientist de novembro de 2009: "os 500 milhões dos mais ricos (7% da população mundial) respondem por 50% das emissões de gases produtores de aquecimento, enquanto 50% dos pais mais pobres (3,4 bilhões da população) são responsáveis por apenas 7% das emissões".

Esta injustiça ecológica dificilmente pode ser tornada invisível como a outra, porque os sinais estão em todas as partes, nem pode ser resolvida só pelos ricos, pois ela é global e atinge também a eles. A solução deve nascer da colaboração de todos, de forma diferenciada: os ricos, por serem mais responsáveis no passado e no presente, devem contribuir muito mais com investimentos e com a transferência de tecnologias e os pobres têm o direito a um desenvolvimento ecologicamente sustentável, que os tire da miséria.

Seguramente, não podemos negligenciar soluções técnicas. Mas sozinhas são insuficientes, pois a solução global remete a uma questão prévia: ao paradigma de sociedade que se reflete na dificuldade de mudar estilos de vida e hábitos de consumo. Precisamos da solidariedade universal, da responsabilidade coletiva e do cuidado por tudo o que vive e existe (não somos os únicos a viver neste planeta nem a usar a biosfera). É fundamental a consciência da interdependência entre todos e da unidade Terra e humanidade. Pode-se pedir às gerações atuais que se rejam por tais valores se nunca antes foram vividos globalmente? Como operar essa mudança que deve ser urgente e rápida?

Talvez somente após uma grande catástrofe que afligiria milhões e milhões de pessoas poder-se-ia contar com esta radical mudança, até por instinto de sobrevivência. A metáfora que me ocorre é esta: nosso pais é invadido e ameaçado de destruição por alguma força externa. Diante desta iminência, todos se uniriam, para além das diferenças. Como numa economia de guerra, todos se mostrariam cooperativos e solidários, aceitariam renúncias e sacrifícios a fim de salvar a pátria e a vida. Hoje a pátria é a vida e a Terra ameaçadas. Temos que fazer tudo para salvá-las.

Leonardo Boff é autor de Opção-Terra: a solução para a Terra não cai do céu, Record (2008).