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domingo, 8 de abril de 2018

Sociólogo espanhol Manuel Castells manifesta apoio a Lula e afirma: “não há justiça no Brasil”



Do Sul 21:


Manuel Castells. (Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Da Redação
O sociólogo espanhol Manuel Castells divulgou uma nota criticando a decisão do juiz Sergio Moro de ordenar a prisão de Lula e em solidariedade ao ex-presidente brasileiro. A nota critica o sistema judicial brasileira e diz que não há justiça no país. Confira a íntegra da nota:
“Queridos amigos e companheiros Tarso (Genro) e Vinicius (Wu), em um dia triste, trágico, para o Brasil e para o mundo quero expressar minha total solidariedade. Não há justiça, a justiça do Brasil é o mais corrupto e, por isso, todo o sistema é corrupto. O presidente Lula foi e é a esperança de um povo. Estou convosco na luta para restabelecer a justiça sem a qual tampouco pode haver democracia. Meu abraço solidário e minha disponibilidade para o que eu possa fazer”. (Manuel Castells)

terça-feira, 30 de maio de 2017

Entrevista de Leonardo Boff a Carla Jiménez do El Pais sobre a crise atual no Brasil, as esquerdas e Lula


"Creio que o efeito negativo maior recai sobre a figura de Temer, claramente cúmplice de corrupção comprovadas por gravação, a ponto de lhe tirar qualquer legitimidade e autoridade moral para estar à frente do governo. Não creio que vai reunificar as pessoas, pois os que deram o golpe querem levar seu projeto neoliberal extremamente radical até o fim. E continuarão a apoiá-lo." - Leonardo Boff

O teólogo diz que a esquerda tem de renovar a linguagem e as formas de se dirigir ao povo.
Defensor de Lula, afirma que está convencido da sua retidão.


O teólogo e escritor Leonardo Boff em 2014


Nos anos 1980, o então sacerdote Leonardo Boff escrevia artigos para o EL PAÍS nos quais defendia a Teologia da Libertação, a corrente cristã que nasceu na América Latina, e que tinha como preceito a opção pelos pobres. “Indiscutivelmente, os primeiros destinatários da pregação de Jesus foram historicamente pobres, os cegos, os dominados, os oprimidos, leprosos... A partir deles, dirigiu-se aos demais. Se não temos a esses como ponto de partida, corremos o risco do reducionismo e do elitismo”. Seus textos incomodaram o Vaticano que o proibiu de continuar escrevendo no jornal espanhol. Era o “silêncio obsequioso” ao qual foi submetido em 1985. Sua voz estava ganhando cada vez mais alcance, e se tornava uma provocação para a própria Igreja enquanto instituição.
O planeta precisou girar 28 vezes ao redor do sol – e a Igreja perder milhões de fieis ao redor do mundo – desde que foi silenciado até que a Santa Sé admitisse que a filosofia defendida pelo brasileiro tinha o propósito mais elementar para seus fieis. Em 2013, ao indicar seu representante máximo, Jorge Mário Bergoglio, o papa Francisco, da escola jesuíta, a Igreja assumiria o discurso com a opção pelos mais vulneráveis. Boff, no entanto, pagou um preço por pregar para além do discurso conservador da Igreja dos anos 80. Foi expulso do sacerdócio pelo que viria a tornar-se o papa Bento XVI. Como disse na época da sua expulsão, Boff “mudou de trincheira, mas não trocou a sua batalha”.
Hoje, o teólogo, doutor em Teologia pela Universidade de Munique, não deixa de ser uma voz dissonante da maioria e continua pagando a fatura dessa exposição, ainda que viva “no meio do mato num local de difícil acesso”, no Estado do Rio, como escreveu ele por email à reportagem. Em abril deste ano, viu-se implicado numa polêmica ao republicar um artigo do EL PAÍS em seu blogue. O texto discorria sobre o choque de realidade que a delação da Odebrecht trazia, e criticava as elites criminosas do Brasil. Em certo trecho, o artigo mencionava Lula como alguém que ajudou a criminalizar as bandeiras da esquerda (uma vez que seu partido estava envolvido em denúncias de corrupção). Por ter compartilhado o texto, houve a interpretação de que o teólogo endossava seu conteúdo e sinalizava assim um rompimento com Lula, a quem sempre apoiou politicamente. A notícia correu como rastilho de pólvora na imprensa. Boff chegou a ser acusado de traidor por alguns blogues e se viu achincalhado nas redes sociais. Rechaçou a ilação logo depois. Nesta entrevista, ele fala sobre Lula, a política, e sobre a dificuldade de entrosamento da sociedade. Respondeu a todas as perguntas por email, apesar da insistência da reportagem em fazer a entrevista ao vivo. O questionário foi respondido no dia 22 de maio, ou seja, antes dos protestos em Brasília.
PerguntaA sociedade brasileira vê-se fragmentada neste momento depois de um tsunami político que parece começar em 2013. Na sua avaliação, em que ponto nos perdemos como sociedade para expor nosso pior lado nas relações sociais? Era uma ilusão que o país já esteve mais unido?
Resposta. Nós nunca fomos uma sociedade no sentido moderno, pois nunca saímos da situação colonial e neocolonial a que fomos submetidos desde a chegada dos europeus em nossas terras. Somos sócios menores e agregados ao projeto das grandes potências que dominam o mundo. Nunca pudemos elaborar um projeto autônomo e soberano de país.
PAs denúncias feitas pelo dono da JBS, que implicam o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves, podem reunificar as pessoas depois da polarização que varreu o país?


R. Creio que o efeito negativo maior recai sobre a figura de Temer, claramente cúmplice de corrupção comprovadas por gravação, a ponto de lhe tirar qualquer legitimidade e autoridade moral para estar à frente do governo. Não creio que vai reunificar as pessoas, pois os que deram o golpe querem levar seu projeto neoliberal extremamente radical até o fim. E continuarão a apoiá-lo.
P. O senhor sempre foi bastante crítico ao Governo Temer, a quem chama “golpista”. Qual é sua concepção de golpe?
RO impeachment está na lógica da dominação das oligarquias. Elas usaram não mais o Exército como em 1964 mas o parlamento para afastar um governo que poderia ameaçar seus privilégios. Armaram um golpe que juridicamente, segundo os melhores juristas do país, era insustentável. A decisão havia sido previamente tomada de modo que os fautores do golpe sequer iam às sessões para escutar os especialistas e argumentação dos defensores de Dilma. Foi um golpe de classe com base parlamentar, com o apoio da mídia mais conservadora e até reacionária e de setores da Justiça, até no mais alto escalão, que temem a ascensão dos milhões de pobres na vida social minimamente digna. A nossa democracia é de baixíssima intensidade. Se medirmos a democracia pelos critérios dos direitos humanos, da participação popular, da defesa das grandes maioria negras, da justiça social, essa democracia é antes uma farsa que uma realidade sustentável.
P. Não era hora de grandes lideranças, incluindo representantes da igreja, se coordenarem para garantir um mínimo de estabilidade até 2018?
R. Creio que está ocorrendo esse processo. Mas ele é inicial porque há um vazio de lideranças, com capacidade de convocação geral. Possivelmente a situação obrigará essa articulação, especialmente, se Temer insistir em permanecer no poder. Ele será tirado por uma dupla combinação: pressão popular e condenação pelo STF dos crimes a que é acusado. Aí perderá o mandato. O que vier depois é um enigma.
P. O Brasil viveu a era do PT por 13 anos que trouxe ganhos hoje bastante questionados. Do seu ponto de vista, o PT deixou mais desilusão do que um legado?

Conheço Lula há mais de 30 anos. Para mim é impensável que tenha se beneficiado pessoalmente de dinheiros da Petrobras ou de qualquer outra fonte.

R. Os dois governos do PT foram os únicos na história do Brasil que deram centralidade aos pobres, fazendo políticas sociais que ao todo incluíram na cidadania cerca de 36 milhões de pessoas. E principalmente lhe deram dignidade, valor humano que funda a autoestima e o sentido da vida. A política de cotas e o PROUNI permitiu que os pobres tivessem acesso à universidade que antes lhes era negado. Hoje há favelados negros que são médicos, engenheiros e até diplomatas. Isso era impensável antes. Tal avanço daqueles do andar de baixo, assustou a oligarquia e também a classe média que viu seus lugares de privilégio serem ocupados por esses novos cidadãos. Essa ascensão está na base do ódio de classe que vem do andar de cima, não dos pobres beneficiados. Esse legado não pode ser perdido, pois significou uma diminuição da desigualdade, uma humanização nas relações sociais e um limite à voracidade selvagem de nosso tipo de capitalismo que nunca foi civilizado e mantém níveis de acumulação dos mais altos do mundo, sem qualquer sentido de solidariedade para com seus semelhantes.
P. O senhor republicou um artigo do EL PAÍS em seu blogue em que havia uma menção negativa a Lula, citando que ele feriu de morte a esquerda e ajudava a criminalizar bandeiras sociais. O fato foi explorado, e foi dito que o senhor havia rompido com Lula, algo que desmentiu na sequência. O senhor não está de acordo com a ideia de que ele feriu a esquerda e criminalizou as bandeiras sociais?
R. Considerei o artigo, em grande parte objetivo. Mas como prezo a democracia e a diversidade de opiniões publiquei junto a crítica feita a Lula. Não concordo com esta crítica porque ela não é verdadeira. Lula sempre defendeu as bandeiras sociais e jamais criminalizou os movimentos sociais. Dizer que feriu de morte a esquerda não faz sentido, pois a esquerda estava no seu governo e a esquerda na sociedade fazia críticas à certas políticas de Lula mas sempre preservando o acerto de seu projeto social. Isso fica claro com a posição do MST: criticava duramente o governo Lula por não fazer a reforma agrária, mas jamais entregaram Lula à direita. Ele sempre foi visto como o representante legítimo dos marginalizados, sem terra e sem teto.
P. Qual é a sua posição sobre o Lula hoje?
R. Conheço Lula há mais de 30 anos. Para mim é impensável que tenha se beneficiado pessoalmente de dinheiros da Petrobras ou de qualquer outra fonte. O caixa dois, convenhamos, era o hábito político de todos os partidos com a exceção de alguns pequenos que se orientam por uma ética transparente (PSOL e outros menores). Lula não teve contas fora, os dados e testemunhos todos apontam que o famoso apartamento triplex no Guarujá não é dele e as reformas de um sítio, cujo dono é outra pessoa, são irrisórias em termos financeiros, quando comparamos os milhões e milhões que foram desviados e foram parar nas mãos da grande maioria dos políticos que eram corruptos ou se deixaram corromper. Estou convencido da retidão de Lula e considero perversa a perseguição que a justiça parcial move contra ele.

O caixa dois, convenhamos, era o hábito político de todos os partidos com a exceção de alguns pequenos.

P. O senhor acredita que ele é vítima e que o partido dele, que segundo as investigações recebeu dinheiro desviado por executivos da Petrobras, é inocente?
R. A estratégia das oligarquias e seus aliados, com o apoio hoje reconhecido dos organismos de segurança norte-americano é desestabilizar, a nível mundial e também no Brasil, todos os governos progressistas que tenham uma orientação social e destruir a figura de Lula – e se, possível, tornar inviável o PT. Todos devem alinhar-se às estratégias estabelecidas pelo Império (um só mundo e um só império; full spectrum dominance: cobrir todos os espaços; desestabilizar governos que não se alinham a estas estratégias centrais). O espaço no Atlântico Sul estava descoberto e dominado pelo Brasil com imensas reservas de petróleo e gás. Há ainda o momento da nova guerra fria entre USA e a China que está penetrando poderosamente na América Latina. Atacar as políticas brasileiras implica também atacar os BRICS do qual o Brasil faz parte e indiretamente seu rival maior, a China.
P. O juiz Sergio Moro, durante o depoimento de Lula, perguntou a ele por que não mandou investigar o PT quando soube de desvios. Não faria sentido?
R. Esse pergunta estava fora do objeto do julgamento que era o apartamento triplex. Lula foi correto ao dizer que quem cometeu malfeitos e desvios deviam ser julgados e punidos.
P. Como avaliou o depoimento dele ao juiz Moro?
R. Sincero e verdadeiro. Foi hábil ao trazer o juiz Moro para o seu campo, deixando-o quase como um aprendiz que se sentia humilhado, pois muitas vezes, fugia do campo estritamente técnico da acusação do apartamento, para o campo político, o que não era objeto de indagação. Mas percebia-se a má vontade do juiz.
P. O senhor já escreveu críticas à Lava Jato. Qual a sua avaliação? Não vê idealismo nos procuradores por uma justiça que chegue aos poderosos, uma deficiência nossa?
R. Sempre defendi a Lava Jato como combate à corrupção. Minha crítica era sobre a parcialidade dos julgamentos. Praticamente se restringia ao PT poupando especialmente o PSDB. Vejo os procuradores tomados pela vaidade dos holofotes dando a impressão de serem os verdadeiros mandatários do país e os únicos a proporem combate à corrupção. Esta está entranhada nas estruturas do Estado e de toda a sociedade. Não temos corrupção pontual. Estamos assentados sobre um modo de ser, de viver, de realizar o jogo político no qual a corrupção é um dado naturalizado. Enquanto não houver uma profunda reforma política, realmente democrática, persistirá a lógica da corrupção.

O Papa Francisco articula a ternura de um São Francisco com a determinação de um jesuíta; Ele une ternura e vigor. Vai sobreviver aos opositores pois estes não estão com a verdade.

P. A esquerda tem sido criticada por seus integrantes por não assumir o timão dos protestos de rua, deixando para a direita esse papel. Ela ficou “PT-dependente”?
R. A esquerda brasileira nunca teve muito enraizamento popular, apenas em algum dos sindicatos das grandes indústrias. Seu poder de mobilização é mais metafórico (bandeiras vermelhas e slogans) do que efetivo em termos de apresentar um projeto alternativo para o país. Ela sempre foi uma força auxiliar de grupos progressistas, mesmo neoliberais, mas que lhe permitiam uma presença no aparelho de Estado por causa de um presidencialismo de coalizão partidária. A esquerda precisa se renovar, no paradigma social, na linguagem, nas formas de se dirigir ao povo e especialmente se apresentar como um centro de reflexão séria sobre qual Brasil finalmente queremos. Falta pensamento e sobre movimentação.
P. Aqui como no mundo partidos de esquerda são criticados por não ter um plano consistente para a economia. Onde estão errando?
R. Não se trata de erro mas de profunda desigualdade na correlação de forças. Hoje há uma dominação completa da ordem do capital que gerou a cultura do capital que se impôs a todos, também aos da esquerda (troca de celular, de computador, de tênis, de roupas, de modos de consumo). O nosso impasse e também a nossa desgraça é termos que viver dentro de um sistema que só sobrevive à condição de que o dinheiro produza mais dinheiro, não para melhorar a vida, mas para aumentar de forma ilimitada. É o império do capitalismo especulativo e materialmente improdutivo. E não existe nenhum projeto alternativo com suficiente força de se contrapor eficazmente a esta forma avançada de capitalismo rentista. Talvez somente após uma grave crise ecológico-social que desequilibre o sistema-Terra e o sistema-vida, poderá vir um sistema mais justo socialmente, mais amigo da vida e com um consumo solidário e sóbrio no quadro de uma governança global.
P. O apoio à greve geral (no dia 28 de abril) e o rechaço à reforma da Previdência mostra que, apesar do despeito político, a população tem ciência de que benefícios e direitos essenciais estão sendo perdidos?
R. Grande parte da população é anestesiada pela mídia, especialmente pela Rede Globo como todos os seus meios, entre outros meios situados em São Paulo, como a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo. Estes veículos são os instrumentos ideológicos das elites e dos endinheirados do país que nunca se deram bem com a democracia e que querem continuar com a política do patrimonialismo pelo qual Estado e as empresas privadas fazem projetos milionários sobre os quais incidem vantagens monetárias ou postos de mando na administração. Os negócios viraram negociatas que estão na base da corrupção generalizada no país na forma de propinas ou supervalorização dos projetos.
PDurante a greve diversas escolas católicas foram firmes na posição de apoiar a reivindicação de seus professores. Há muito tempo não se viam escolas tomando posições que ganham dimensão política. Há uma mudança de postura?
R. As escolas católicas sempre deram alto valor à retidão, à transparência, ao amor à verdade. Quer dizer, sempre inseriram a ética e até a espiritualidade na formação de seus estudantes. A corrupção generalizada estava em contradição com tudo o que ensinavam em suas escolas. Então foi coerente entrarem nas manifestações contra a corrupção.
P. Nesse sentido, a CNBB se coloca irredutível na reprovação das reformas de Temer. É um alinhamento com o papa Francisco?
R. A CNBB sempre teve uma política social progressista, desde que foi fundado em 1950. Por um tempo, antes de se tornar objeto de críticas do Vaticano, a teologia corrente da CNBB era a teologia da libertação, cujo eixo estruturador é a opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da justiça social. Então é natural que se ponha do lado dos vulneráveis e atingidos pelas medidas que tiram direitos do povo e dos pobres. O Papa Francisco não está na origem desta opção, mas ela a apoiou e reforçou.
P. Houve críticas ao papa porque ele estaria tomando uma posição política ao negar o convite de vir ao país este ano. É política a posição do Papa?
R. A Igreja sempre faz política pois é uma força presente na sociedade. Mas precisamos qualificar esta política. Geralmente, a política oficial era equilibrista e apenas doutrinária, o que favorecia, no fundo, o status quo dominante. O Papa Francisco tem um lado: está do lado dos pobres, dos refugiados, das vítimas do sistema que coloca todos os valores em termos monetários e adora a acumulação. Chama este sistema de anti-vida e assassino, o verdadeiro terrorismo contra a humanidade. Assim se expressou no avião, regressando da Polônia. Esta é a posição correta e que está na linha da Tradição de Jesus que chamou “benaventurados os pobres” e advertiu os ricos “ai de vós ricos que já tendes vossa consolação”. O fato de por três vezes se encontrar com os movimentos sociais populares do mundo inteiro, mostra seu interesse de ouvir das próprias vítimas o sofrimento que padecem e ouvir deles quem produz este sofrimento. Aqui há uma atitude extremamente humanitária e ética em favor dos mais penalizados deste mundo.
P. Há críticas a ele sobre a falta de mudanças efetivas na igreja, como abrir a participação efetiva de mulheres no sacerdócio ou reconhecimento efetivo de direitos iguais aos homossexuais.
R. A grande transformação se dá na própria figura do Papa, talvez o líder mais importante no mundo, seja no âmbito religioso seja no campo político. Não é fácil reformar uma instituição, a cúria romana, que possui hábitos e vícios de mais de mil anos. Mas ele mostrou outra forma de ser papa, totalmente despojado dos sinais profanos de poder, não mais no estilo faraônico que se impôs na cristandade europeia, agora crepuscular e decadente. Apenas 25% na Europa são católicos. Os restantes vivem na periferia do mundo. O Papa Francisco introduziu o pensamento libertador destas novas igrejas e isso tem escandalizado os europeus mais conservadores. Mas se considerarmos suas atitudes nunca foram de condenação dos homoafetivos, abriu espaço para uma pastoral nova para os casais em segundas núpcias, permitindo-lhe o acesso à eucaristia. Mas mais que tudo introduziu a concepção de uma igreja aberta a todos, um hospital de campanha, que dá mais valor ao encontro com as pessoas que às doutrinas, e coloca os pobres antes das disciplinas. Colocou no centro de sua mensagem a beleza, a ternura, a compaixão e a misericórdia. Talvez a afirmação teológica mais importante para mim tenha sido esta: Deus não conhece uma condenação eterna. Por isso, não devemos assustar o povo cristão, com o inferno como se fez durante quase todo a história da Igreja. Haverá justiça no sentido de que o malfeitor e o pecador terão que reconhecer a perversidade de seus atos, mas a última palavra terá a misericórdia. Caso contrário, com o inferno, Deu seria um perdedor. Deus sempre triunfa sobre qualquer força do negativo da história.
P. Ele sobreviverá às investidas conservadoras da Igreja? Teme um sucessor conservador?
R. O Papa Francisco articula a ternura de um São Francisco com a determinação de um jesuíta; Ele une ternura e vigor. Vai sobreviver a seus opositores pois estes não estão com a verdade, apenas se empenham em manter o status quo que os beneficia em seus privilégios. Eles quase nunca se referem aos pobres e às injustiças sociais no mundo. A meu ver, esse Papa vai fundar uma nova genealogia de Papas que virão da periferia, onde estão as Igrejas mais vivas, que crescem, se encarnam nas diferentes culturas e produzem uma teologia aderente à realidade.
P. O senhor disse numa entrevista na Argentina que estamos num voo cego no mundo e não sabemos onde vamos parar. Perdeu a esperança de uma humanidade mais consciente?
R. Eu creio que estamos no centro de uma crise sistêmica que afeta todas as nossas formas de habitar a Casa Comum. Assim como está não podemos continuar porque podemos produzir um colapso da Terra. Esse tipo de mundo tem que acabar para dar lugar a um outro mais biocentrado onde a solidariedade, o cuidado e a responsabilidade comum garantirão a sustentabilidade de toda vida e de nossa civilização. As dores atuais não são de um moribundo nas vascas da morte, mas de um parto de uma nova criatura que espero que nasça mais humana, mais amiga da vida e mais espiritual.
P. Ódio tornou-se um 'ativo' à venda atualmente por meio de marketing político incluindo as notícias falsas. O amor está perdendo essa batalha?
R. Nas palavras de Paulo Freire, vivemos no Brasil numa sociedade malvada onde é difícil o amor. Isso se deve principalmente à profunda desigualdade social, que significa injustiça social. Essa situação é estrutural, onde 0,05% da população (71.440 supermilionários) controlam mais da metade de nosso PIB. Se um Estado é injusto, ele não pode gozar de paz nem produzirá relações humanas fundadas na solidariedade e no amor.
P. Como regenerar a empatia com o outro? Ou o Brasil nunca se preocupou em exercitar esse sentimento?
R. O povo brasileiro é em sua maioria generoso e cordial. Violenta e repressiva é a elite brasileira. Sempre que ocorre algum avanço na base popular em termos de consciência de direitos e de busca de maior participação política, ocorre um golpe das oligarquias que colocam o povo no seu lugar, quer dizer, na marginalidade. Se não houver uma transformação nas estruturas econômicas e sociais que gerem um maior equilíbrio, jamais teremos paz social.
P. Tem alguma esperança de que uma certa ética se imponha no país, depois de fatos tão graves vindo à tona, que mostram um sistema político doente?
R. Tenho esperança que dentro do sistema imperante, injusto e anti-popular vai continuar a corrupção mas será mais difícil de escondê-la. Só será superado o hábito corruptor no dia em que se fizer uma real reforma política com uma distribuição diferente do poder e com um Estado que não aceite mais o patrimonialismo.
R. Nenhuma mudança, a meu ver, em nenhum lugar do mundo, vem de cima. De cima sempre vem mais do mesmo. É a lógica do poder que somente se mantém acumulando mais poder ou se aliando a outros poderes. As mudanças vem de baixo, daqueles que tem outro projeto de sociedade e acumulam suficiente poder social a ponto de se impor ao poder dominante. Aí haverá uma troca de sujeito de poder com capacidade de impor novas regras do jogo político, mais democrático, participativo e ético.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Do El País: O nada e o ódio - As mortes de Maria e de Marisa expõem a tragédia de ontem e a de hoje. Artigo de Eliane Brum


Do El País


A ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva FOLHAPRESS

Acaba de completar um mês da morte de Marisa Letícia Lula da Silva. E na sexta-feira, 3 de março, sua memória era objeto de disputa: o juiz Sérgio Moro arquivou as acusações contra ela na ação penal da Lava Jato que envolve o triplex de Guarujá, como determina a lei em caso de falecimento, mas decretou apenas “a extinção de punibilidade”. A defesa afirmou que vai questionar a decisão porque o juiz deveria ter decretado também a “absolvição sumária”. A disputa não é apenas semântica ou jurídica, mas política. A morte de Marisa, esta que se tornou exposta, revela muito do que se tornou o Brasil. Tanto quanto, mais de 40 anos atrás, a morte de Maria de Lourdes, a primeira mulher do ex-presidente, revelava pelo avesso o que éramos e ainda somos. Há algo que une essas duas mortes para além de Lula. Algo que fala de corpos objetificados e de invisibilidades.
A morte de Maria de Lourdes Ribeiro da Silva só ganhou existência fora das estatísticas como citação na biografia do marido depois que ele ficou famoso. Ela morreu 15 minutos depois de o bebê de sete meses ser arrancado a fórceps do seu corpo. No atestado de óbito constava “coma hepático, provável hepatite”. No do menino, “morte intrauterina”. Maria de Lourdes morreu só, no Hospital Modelo, em São Paulo. “Estou morrendo. Eles vão me deixar morrer. Não me deixa sozinha”, ela disse à Soledade, sua cunhada, a última pessoa da família a vê-la com vida. Mas os médicos não permitiram que nenhum familiar permanecesse com ela. Maria, a irmã mais velha de Lula, foi quem a vestiu para o velório. Encontrou-a “ensanguentada e cortada”, ao lado do bebê morto. Quando Lula chegou, com a mala de roupinhas da criança, foi informado: “Sua mulher está morta. Seu filho também”.
Em 2003, procurei os médicos que a atenderam para uma reportagem. Um deles, Sérgio Belmiro Acquesta, gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica onde Lula trabalhava, já tinha morrido. Ele também era legista do Instituto Médico Legal de São Paulo e chegou a ser acusado de assinar dois laudos falsos para a ditadura. O outro médico da Villares, que fez o pré-natal de Maria de Lourdes e cuidou de sua internação, disse não se lembrar dela: “Eu atendia 30 mulheres todo dia no ambulatório, mais outro tanto no hospital. Tudo isso em quatro horas”. O médico do bairro também afirmou não recordar de nada: “Atendo 30 pessoas por dia e só guardo as fichas por cinco anos”. A chefe do berçário do hospital naquele período afirmou só lembrar “de um feto morto e de uma mulher com infecção de qualquer coisa”. E explicou o porquê: “Todas elas gritam na maternidade, isso não chamava atenção. Lula não era famoso, a gente lembra do pessoal mais classificado. Pobre, sabe como é, a gente trata bem mas não tem aquela recomendação exagerada”.
Nas semanas antes de morrer, Maria de Lourdes procurou os médicos da Villares e do bairro várias vezes, queixando-se que tinha “uma fogueira no estômago”. Vomitava tudo o que comia. Ouvia deles que gravidez era assim, “dava enjoo”. Sua mãe contou que mandavam que ela caminhasse e comesse gelatina. Quando finalmente foi internada, a mãe pediu ajuda a um dos médicos, porque Maria de Lourdes estava desesperada de dor. Ele respondeu: “A senhora nunca teve um filho? Ela está com dor de parto, é normal. Está no isolamento por causa da hepatite, mas a dor é normal”. Em entrevista para a biografia Lula, o filho do Brasil, escrita por Denise Paraná, Lula disse: “Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência. Como ela morrem milhões sem atendimento neste país”.

A dor de Maria era invisível, sua voz era inaudível, e ela morreu como objeto

Maria de Lourdes era então só mais uma Maria. Que, como tantas Marias, gritava de dor. E não pertencia ao “pessoal mais classificado”. O que os relatos contam é que sua dor não seria dela, mas das mulheres, estas que têm por característica sofrer na gravidez e no parto. Uma dor tão naturalizada que a doença que a levou ao coma hepático sequer foi investigada. A ideia de que todo sofrimento é natural apagou a singularidade da sua dor e liberou os médicos de escutá-la. “Todas elas gritam” é uma frase profunda, que conta de uma história de opressão. No Ocidente, atravessada pela moral cristã que coloca na mulher o pecado original e a dor do parto como uma de suas punições, do mesmo modo que idealiza a maternidade como a vocação maior de uma mulher e a sua realização máxima. A dor de Maria de Lourdes era invisível, sua voz era inaudível. E assim ela morreu aos 22 anos. E morreu como objeto.
E Marisa, esta que morreu um mês atrás na arena pública? À primeira vista, pode-se pensar que ela foi visível. E visível até demais. Mas o excesso de exposição pode ser uma forma mais sofisticada de invisibilidade. Ao contrário de Maria de Lourdes, Marisa foi tratada num dos melhores hospitais privados do Brasil, o Sírio-Libanês, em São Paulo. E chegou até lá com esse título bastante controverso, de “ex-primeira-dama”. Primeira dama do presidente mais popular da história recente do Brasil, hoje réu da Lava Jato e alvo de ódio de uma parcela da população. Nesta condição, Marisa, que aos 66 anos sofreu um AVC e recebeu o melhor tratamento disponível, do ponto de vista técnico, também foi reduzida a objeto.
É importante lembrar. Uma médica do hospital, que depois seria demitida, vazou dados do prontuário de Marisa num grupo de médicos no WhatsApp. Ao comentar que ela ainda não tinha sido levada para a UTI, um residente em urologia de outro hospital comentou: “Ainda bem!”. E a médica respondeu com risadas. Outro médico, este neurocirurgião, escreveu: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima”. Ele referia-se ao procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue num local determinado. O médico então completou: “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”.

Marisa não foi tratada como pessoa, mas como coisa, um objeto de transferência do ódio a Lula

Marisa ali não era uma pessoa em processo de morte. Mas um objeto de transferência, um repositório do ódio a Lula. E seguiria sendo mesmo após a sua morte. Os falsários de notícias disseminaram pela internet a “denúncia” de que ela não havia morrido, mas sim fugido para o exterior para não responder às acusações da Lava Jato. A morte, segundo uma das mentiras circulantes, seria uma encenação para que ela pudesse ficar impune. Apesar de toda visibilidade que o velório teve na mídia, sites de notícias falsas sustentaram que o caixão estava lacrado e chegaram a publicar uma foto de Marisa na Itália, feita em 2005, como se ela tivesse sido flagrada naquele momento. Outra variante eram as mensagens nas redes sociais que pediam a intervenção das Forças Armadas para fazer um exame de DNA no corpo. Tratava-se ali de interditar a possibilidade de identificação com Lula num momento de dor. Marisa era coisa. E, como coisa, não tinha vida nem morte. Podia ser colocada onde fosse mais conveniente. Animada artificialmente.
É preciso lembrar destas duas mulheres porque a melhor maneira de arrancar pessoas do lugar de objeto é lhes devolvendo a história. Se elas ganharam uma dimensão pública por conta da excepcionalidade do homem com quem se casaram, elas nasceram e viveram e criaram uma vida bem antes de conhecê-lo. E a complexidade do que foram impactou o homem público que Lula se tornou para muito além do que é dito e reconhecido. E, no caso de Marisa, impactou capítulos recentes da vida do Brasil, na qual ela possivelmente foi bem mais do que uma personagem secundária. Mas, quando essa narrativa está numa disputa tão feroz como a de agora, com simplificações de parte a parte na qual se busca o que melhor sirva a um propósito, a complexidade se perde. E assim perdemos todos.
Há algo de trágico na morte de Maria e de Marisa, mas esta tragédia diz respeito menos a elas e mais ao que somos e ao que nos tornamos como sociedade. É preciso lembrar antes que nossa vida de espasmo em espasmo apague a extrema gravidade do que foi exposto. E do que segue em vigor. É preciso fazer memória para resistir ao apagamento. E resistir à normalização do ódio.
Maria de Lourdes pertencia ao vasto grupo dos morríveis – e dos matáveis. Seu sofrimento não produzia escuta, sua morte era um nada. Para além da dor daqueles que a amavam, uma mulher de 22 anos morrer por “provável hepatite” quando estava grávida não produzia espanto, só indiferença. Sua morte não produziu nem mesmo uma marca na memória dos que dela deveriam ter cuidado.

Enquanto a morte de Maria nada moveu, porque ela morreu “no seu lugar”, a de Marisa gerou ódio porque ela ousou mudar de lugar

Já Marisa, com a ascensão política de Lula, deixou o grupo dos que podem morrer sem causar alarde, mas as mensagens nas redes sociais mostram que para muitos ela não deveria estar no Sírio-Libanês. O hospital dos mais ricos não era o lugar dela. Enquanto a morte de Maria nada move, porque ela morreu “no seu lugar”, o tratamento de ponta dispensado à Marisa gera ódio, porque ela ousou mudar de lugar. Colocou-se no lugar do “pessoal mais classificado”, lembrando as palavras que a enfermeira usou para explicar por que as mulheres pobres não recebiam uma “recomendação exagerada”. Ao fazê-lo, quebrou a hierarquia de classes. E foi vítima de ódio.
Mas até mesmo no ódio Marisa é objetificada. Porque o ódio é para ele, e não para ela. Seu corpo que morre é apenas o objeto transferencial do ódio destinado ao seu marido. O que médicos fizeram no WhatsApp e o que os falsários de notícias fizeram na internet são uma demonstração de que todos os limites foram rompidos. Se resta algo do que se pode chamar, na falta de palavra melhor, de pacto civilizatório, é talvez uma última trama bem esgarçada. Somos uma sociedade de linchadores, movida pela vontade de destruição do outro. Não há mais espaço para adversários, só existem inimigos.

Aqueles que gozam com a desumanização do outro, não entenderam que na barbárie não se salva ninguém

Aqueles que gozam com a desumanização do outro – distorcem, mentem, manipulam – talvez não tenham entendido que na barbárie não se salva ninguém. Acreditam estar apenas jogando seus jogos pueris, exibindo-se para a turma, como os médicos no WhatsApp, mas não compreenderam que o fio sobre o qual se equilibram se desfaz. Quando se presta atenção ao discurso dessas mensagens, neste e em outros casos, percebe-se que contêm uma crueldade, sim, mas infantilizada. São adultos infantilizados. E isso também é bastante perigoso, porque neste lugar não há responsabilização.
Maria e Marisa viveram existências duras, vidas de mulheres pobres. Maria de Lourdes migrou de Minas Gerais com a família. O pai era um agricultor doente dos pulmões. Seu primeiro sapato foi comprado pouco antes de pegarem o trem para São Paulo. Na primeira noite na cidade, ela teve febre. A família conta que o pai colocou os filhos nas filas que encontrou na Estação da Luz, pensando que era comida. Mas era vacina, e o braço da pequena Maria, com três anos, inchou.
Anos depois, as famílias dela e de Lula seriam vizinhas, e ela dizia ter pena “do moço que tinha perdido um dedo”. Desde os 16 anos, Maria de Lourdes trabalhava como operária numa tecelagem. Levou uma semana para aceitar o pedido de namoro feito num bailinho. Quando pouco antes de se casarem Lula anunciou que pensava em participar da chapa do sindicato, ela foi se aconselhar com os patrões. Ouviu deles que era perigoso, “encrenca certa com a polícia”. Lula discordou.

A melhor maneira de arrancar pessoas do lugar de objeto é devolvendo-lhes a história

Filha de um agricultor e de uma benzedeira, Marisa começou a trabalhar aos 9 anos como babá. Aos 13, embalava bombons numa fábrica. Seu primeiro marido dirigia um táxi quando foi assassinado num assalto. Marisa estava grávida do primeiro filho. Quando conheceu Lula, ela vivia um momento de extrema dificuldade. O episódio é romantizado porque virou uma história de amor, mas ele revela bastante sobre o machismo vigente e generalizado do movimento sindical da época. Lula havia deixado a ordem de que, quando aparecesse uma “viuvinha nova, bonita”, que o chamassem. Marisa precisava “pegar o carimbo” para poder liberar a pensão do marido. Mas como Lula queria sair com ela, fez com que voltasse ao sindicato várias vezes alegando que a lei tinha mudado. Depois, chantageou-a para conseguir seu telefone.
Marisa tinha personalidade forte e muita influência sobre Lula. Não era de medir palavras. Mas na campanha de 2002 e, durante todo o seu período como primeira-dama, foi blindada. Dela, quase nada se sabe além do que se considerou conveniente falar sobre sua vida. Na quarta campanha presidencial, a que Lula finalmente venceu pela primeira vez, ela cumpria os compromissos públicos com as mãos visivelmente trêmulas e enorme timidez. Em geral acompanhada pelo filho Fábio Luís, o Lulinha. Tinha então uma explicação recorrente, talvez orientada por um marqueteiro: “Não estou nervosa, estou emocionada”.
Dela se contava uma história que ecoa a do triplex do Guarujá, esta última ainda sem conclusão. Em 1989, quando Lula disputou sua primeira eleição para presidente, foram plantados vários boatos de que ele tinha uma mansão no Morumbi, então o bairro que mais representava uma ostentação emergente. Marisa teria pegado um táxi e ouvido essa história do motorista. Pediu então que ele a levasse até a casa chique de Lula. O motorista recuou. Ela então teria dito: “Ah, que pena. Eu sou a mulher do Lula e queria tomar posse do que é meu”. Quando conheceu Brasília, em 1980, e botou os olhos nas mansões do Lago Paranoá, Marisa vaticinou: “Esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca. Fazem qualquer coisa, mas não abandonam essa vida”.
Enquanto crescia a expressão pública de Lula, Marisa foi se tornando para o público a mulher muda. Aquela que só falava da porta da casa (ou do Alvorada) para dentro, a que reinava no mundo doméstico, aquele que seria invadido pela Polícia Federal um ano atrás para a “condução coercitiva” de Lula. O momento em que o Brasil mais ouviu a sua voz foi justamente num episódio de violação de seus direitos, quando uma conversa grampeada pela Polícia Federal vazou. Marisa conversava com o filho Fábio Luís sobre um panelaço contra o PT e desabafou: “Deviam enfiar essas panelas no cu!”. A frase ganhou chamadas na imprensa, o áudio foi para o YouTube. Seria interessante saber daqueles que se escandalizaram quantos não disseram algo semelhante numa conversa privada. E como se sentiriam se suas conversas privadas com familiares fossem expostas publicamente.
Quando Marisa morreu, seu obituário foi composto por fragmentos pinçados da vida de uma mulher lançada na arena pública, mas que o público pouco conhece de fato. “Costurou a estrela da primeira bandeira do PT”, “primeira-dama de perfil discreto”, “foi criticada quando plantou um canteiro de flores vermelhas em formato de estrela no jardim do Alvorada”. Neste momento de intensa disputa, só se conhece de Marisa o que convém de um lado e outro. E com isso se perde sua complexidade, mas também o pedaço da história que ela testemunhou, assim como o seu real papel nela.
Maria e Marisa tiveram despedidas muito diferentes. Maria de Lourdes foi velada em casa. A certa altura sua mãe passou mal. O médico do bairro foi chamado. Ela rasgou a camisa dele com as unhas em desespero. Era uma casa pobre, precária, em reformas para abrigar o quarto do bebê que chegaria em breve. Numa daquelas cenas em que a realidade supera a ficção, o peso do caixão fez com que o assoalho afundasse. Parecia realismo mágico, mas era vida.

A indiferença reservada à Maria, o nada de sua morte, segue em vigor. E o ódio reservado à Marisa mostra que pioramos

Marisa teve um caixão vistoso, reverenciado por milhares no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo. Na parede, uma ampliação gigante de uma fotografia dela com Lula. Havia pessoas ilustres e discursos inflamados. Enquanto isso, na internet, os falsários de notícias espalhavam que ela estava na Europa. O ódio era tanto que era preciso transformá-la numa morta viva para que pudessem continuar destruindo-a. E assim forjou-se uma cena em que a realidade supera a ficção, mas de uma forma perversa, já que se cria uma mentira (o que é bem diferente da ficção) para colocar no lugar da realidade.
São despedidas tão diferentes, a de Maria e Marisa. Mas ambas seguem invisíveis. A tragédia maior, a que vai muito além destas duas mulheres, é que a indiferença reservada à Maria, o nada de sua morte, segue em vigor. E o ódio reservado à Marisa mostra que pioramos.
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A greve internacional de mulheres reivindica a potência de criar um novo pacto


Mulher protesta contra os feminicídios na Argentina

Mulher protesta contra os feminicídios na Argentina  EFE


É importante perceber onde hoje existe potência. E especialmente a potência de criar pactos que permitam recriar os laços sociais. Prepara-se para esta quarta-feira, 8 de Março, uma greve internacional de mulheres, organizada por ativistas de mais de 40 países. O movimento surgiu a partir das greves feitas na Polônia e na Argentina no ano passado (escrevo sobre elas aqui) e também a partir da marcha das mulheres contra Trump, nos Estados Unidos, assim como outras manifestações pelo mundo. Os manifestos e convocatórias propõem um novo ciclo do feminismo, capaz de articular várias lutas. Esta agenda expandida é a parte mais interessante: as mulheres na produção, no trabalho remunerado, reivindicando melhores condições de trabalho e salários equivalentes, mas as mulheres também no trabalho não remunerado dentro de casa e no trabalho da reprodução, reivindicando direitos reprodutivos; as mulheres contra o feminicídio, contra a violência doméstica, contra o estupro e outras violências de gênero, mas também um feminismo contra o racismo, a xenofobia, a homofobia e a transfobia. É também uma posição contra “o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas”, como diz o manifesto assinado por intelectuais americanas, entre elas Angela Davis. A internacionalização da greve é geográfica, mas também simbólica: ela supera as fronteiras ao propor um feminismo atravessado por todas as questões cruciais deste tempo. Assim, as convocatórias estão chamando todas as mulheres, o que significa incluir também as mulheres trans. No Brasil, onde há articulações significativas em algumas cidades e quase inexistentes em outras, é forte a oposição à reforma da previdência proposta pelo governo Temer, já que ela poderá ter grande impacto sobre todos e especialmente sobre as mulheres mais pobres, a maioria delas negras. Mas, como qualquer movimento que pretenda ganhar as ruas, o que de fato acontecerá neste 8 de março é uma incógnita. Ni Una Menos, o mote da greve argentina, se expandiu pelo mundo. Nem uma a menos é um pacto de vida. É também um pacto contra o ódio.
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A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie escreveu um pequeno livro-manifesto chamado Para educar crianças feministas (Companhia das Letras). O livro, que chega nesta terça-feira (7/3) às livrarias do Brasil e do mundo, é escrito na forma de uma carta a uma amiga, mãe de uma menina, mas tudo o que ela diz obviamente vale para crianças de qualquer gênero. A escritora deixa claro o que entende por feminismo: “Ser feminista é como estar grávida. Ou se é ou não se é. Ou você acredita na plena igualdade entre homens e mulheres. Ou não”. Ela dá 15 sugestões para criar uma criança feminista. E talvez a mais transgressora delas, nestes tempos em que a ignorância se tornou popular, seja a quinta: “Ensine-lhe o gosto pelos livros. (...) Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser”.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum